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title: "A visão e o encéfalo"
book: "Biologia do ensino médio"
subject: biology
language: pt
chapter: 22
exercises: 15
source: https://one-course.com/books/biology/2/pt/chapter/22-a-visao-e-o-encefalo
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# Capítulo 22 — A visão e o encéfalo

Depois de um AVC, um paciente vê o mundo perfeitamente — em preto, branco e cinza. Outro vê cores e formas, mas nenhum movimento: um carro está aqui, depois ali, sem nada no meio, e servir chá é impossível porque o jato nunca parece se mover. Uma terceira não consegue reconhecer rostos, inclusive o próprio no espelho, embora descreva cada traço. Os olhos deles estão intactos. O que cada um perdeu é um pedaço do encéfalo em que o ver é montado. Este capítulo acompanha o nervo ótico até dentro do encéfalo, mapeia o que o [córtex visual](#prop-g11-vision-and-brain-pathway) faz com os sinais da retina, e mostra que o mapa não é fixo: ele é construído pela experiência, alterado pela aprendizagem e perturbado por drogas.

## 22.1 Da retina ao córtex

**Proposição 22.1 (A via visual).**

O milhão de fibras de cada nervo ótico corre para trás até o *quiasma ótico*, onde as fibras da metade nasal de cada retina cruzam para o outro lado, enquanto as da metade temporal permanecem do lado próprio delas. Depois do quiasma, cada *trato ótico* carrega, portanto, os sinais das metades esquerdas das duas retinas (trato direito) ou das metades direitas (trato esquerdo) — ou seja, tudo o que é visto em uma metade do campo visual. Os tratos fazem escala no *tálamo* e chegam ao *córtex visual primário*, no fundo de cada hemisfério: o hemisfério esquerdo recebe a metade direita do campo visual, o hemisfério direito a metade esquerda.

**Evidências.** Cortar um nervo ótico cega um olho; um dano a um trato ótico, ou ao [córtex visual](#prop-g11-vision-and-brain-pathway) de um hemisfério, deixa os dois olhos funcionando, mas cega os dois para a mesma metade do mundo — a metade oposta à lesão. Estimular um ponto do [córtex visual](#prop-g11-vision-and-brain-pathway) de um paciente acordado durante uma cirurgia o faz ver um clarão numa posição fixa do campo; pontos vizinhos dão clarões vizinhos: o córtex guarda um mapa da retina, com o centro do campo ocupando a maior parte. ∎

![A via visual vista de cima. A luz da metade esquerda do campo (em vermelho) cai sobre a metade direita de cada retina; essas fibras, cruzando no quiasma quando necessário, se reúnem no trato ótico direito e chegam ao córtex visual direito. Cada hemisfério vê a metade oposta do mundo com os dois olhos.](https://one-course.com/images/onecourse/chapters/biology-2/g11-vision-and-brain/fig-59c5064cbd30.svg)

*A via visual vista de cima. A luz da metade esquerda do campo (em vermelho) cai sobre a metade direita de cada retina; essas fibras, cruzando no quiasma quando necessário, se reúnem no trato ótico direito e chegam ao [córtex visual](#prop-g11-vision-and-brain-pathway) direito. Cada hemisfério vê a metade oposta do mundo com os dois olhos.*

![O encéfalo visto do lado esquerdo. O córtex visual primário fica bem no fundo, no lobo occipital; as demais áreas visuais se estendem para a frente a partir dele, entrando no lobo temporal (o que as coisas são) e no lobo parietal (onde elas estão e como se movem).](https://one-course.com/images/onecourse/chapters/biology-2/g11-vision-and-brain/fig-478a68f79e7c.svg)

*O encéfalo visto do lado esquerdo. O [córtex visual primário](#prop-g11-vision-and-brain-pathway) fica bem no fundo, no lobo occipital; as demais áreas visuais se estendem para a frente a partir dele, entrando no lobo temporal (o que as coisas são) e no lobo parietal (onde elas estão e como se movem).*

## 22.2 Muitas áreas, uma percepção

**Proposição 22.2 (Áreas visuais especializadas).**

O [córtex visual primário](#prop-g11-vision-and-brain-pathway) passa a análise dele a uma dúzia de outras *áreas visuais*, cada uma especializada: uma extrai a cor, outra o movimento, outras a forma, a profundidade, os rostos, as palavras escritas. As saídas delas são combinadas — com a memória, com os outros sentidos — na percepção única e coerente que experimentamos. A percepção é uma construção: o encéfalo preenche o ponto cego, completa contornos escondidos, mantém as cores constantes sob luz variável, e pode ser enganado por ilusões que exploram as regras dele.

**Evidências.** Lesões localizadas dissociam os componentes: um paciente com dano na área da cor vê um mundo em cinza com acuidade normal; um dano na área do movimento deixa a cor e a forma intactas mas abole a percepção do movimento; um dano numa região do lobo temporal abole o reconhecimento apenas dos rostos. A neuroimagem funcional de voluntários saudáveis mostra as mesmas áreas se acendendo, uma para padrões coloridos, outra para pontos em movimento, outra para rostos, enquanto o córtex primário responde a tudo. Eletrodos em animais encontram, em cada área, neurônios que respondem à característica daquela área e a quase mais nada. ∎

![Dos sinais a uma cena. O córtex primário distribui a análise dele a áreas especializadas cujos resultados são recombinados. Uma lesão numa área retira um atributo — a cor, o movimento, os rostos — e deixa o resto.](https://one-course.com/images/onecourse/chapters/biology-2/g11-vision-and-brain/fig-cee2f4cd3991.svg)

*Dos sinais a uma cena. O córtex primário distribui a análise dele a áreas especializadas cujos resultados são recombinados. Uma lesão numa área retira um atributo — a cor, o movimento, os rostos — e deixa o resto.*

**Exemplo 22.3 (Três pacientes, três áreas).**

A paciente que vê em cinza tem uma lesão da área da cor dos dois lados; os [cones](https://one-course.com/books/biology/2/pt/chapter/21-o-olho-e-os-fotorreceptores-dele#def-g11-the-eye-photoreceptors) da retina dela funcionam, e o córtex primário dela recebe os sinais deles, mas a etapa que transforma razões entre [cones](https://one-course.com/books/biology/2/pt/chapter/21-o-olho-e-os-fotorreceptores-dele#def-g11-the-eye-photoreceptors) em cor se foi. A paciente que não vê movimento perdeu a área do movimento: ela vê instantâneos sucessivos. A paciente que não consegue reconhecer rostos tem uma lesão da área dos rostos do lobo temporal; ela reconhece as pessoas pela voz ou por um chapéu. Em cada caso o que se perde é preciso, e o que resta mostra que as outras áreas funcionam sozinhas.

## 22.3 Um córtex construído pela experiência

**Proposição 22.4 (A plasticidade).**

As conexões do [córtex visual](#prop-g11-vision-and-brain-pathway) não são fixas ao nascer. Durante um *período crítico* do começo da vida elas são moldadas pelo que os olhos veem; no adulto elas continuam mudando, mais devagar, com a aprendizagem e com o uso. Essa *plasticidade cerebral* é uma propriedade dos neurônios: as conexões que são usadas são reforçadas e multiplicadas, as que não são ficam enfraquecidas e são podadas.

**Evidências.** Hubel e Wiesel (anos 1960) registraram o [córtex visual](#prop-g11-vision-and-brain-pathway) de gatos e de macacos. Num animal normal, a maior parte dos neurônios responde aos dois olhos. Num animal que teve um olho mantido fechado durante os primeiros meses, quase todo neurônio responde apenas ao olho aberto: as conexões do olho fechado foram tomadas. Fechar o olho de um adulto pelo mesmo tempo não muda nada. Nos seres humanos, uma criança que tenha um olho muito fora de foco ou desalinhado e não corrigido antes de cerca dos sete anos fica com um olho permanentemente fraco — a ambliopia — por melhor que seja a ótica dele depois. Nos adultos, aprender a ler braille aumenta a área cortical dedicada ao dedo que lê; aprender a fazer malabarismo aumenta as áreas que processam o movimento, e elas encolhem de novo se a prática parar. ∎

![O achado de Hubel e Wiesel, arredondado. Num gatinho normal, a maior parte dos neurônios do córtex visual responde aos dois olhos. Depois de três meses com o olho esquerdo fechado, nove neurônios em dez respondem apenas ao olho direito: as conexões do olho sem uso se perderam.](https://one-course.com/images/onecourse/chapters/biology-2/g11-vision-and-brain/fig-5ce576ee81b0.svg)

*O achado de Hubel e Wiesel, arredondado. Num gatinho normal, a maior parte dos neurônios do [córtex visual](#prop-g11-vision-and-brain-pathway) responde aos dois olhos. Depois de três meses com o olho esquerdo fechado, nove neurônios em dez respondem apenas ao olho direito: as conexões do olho sem uso se perderam.*

**Exemplo 22.5 (Por que o estrabismo precisa ser tratado cedo).**

Uma criança de três anos com um olho virado para dentro vê dobrado, e o encéfalo suprime a imagem mais fraca. Se o olho não for alinhado, ou se o olho bom não for tapado algumas horas por dia para forçar o fraco a trabalhar, o córtex se reorganiza em torno do olho bom durante o período crítico e o olho fraco, embora opticamente perfeito, fica cego para os detalhes finos pelo resto da vida. Tratada aos três anos, a criança recupera a visão completa; tratada aos doze, quase nada.

## 22.4 As drogas e o encéfalo que vê

**Proposição 22.6 (Neurônios, mensageiros e moléculas que os imitam).**

Os neurônios se comunicam nas *sinapses* liberando mensageiros químicos, os *neurotransmissores*, sobre os receptores da [célula](https://one-course.com/books/biology/2/pt/chapter/2-a-celula-a-unidade-comum-da-vida#def-g10-cells-common-unit-cell) seguinte; o último ano descreve o mecanismo. Vários neurotransmissores, entre eles a *serotonina*, regulam o fluxo de sinais pelas áreas visuais. Moléculas cuja forma se parece com a de um neurotransmissor podem se ligar aos receptores dele e perturbar esse fluxo: a dietilamida do ácido lisérgico (LSD) se liga aos receptores de serotonina do [córtex visual](#prop-g11-vision-and-brain-pathway) e produz alucinações — cores, formas e movimentos vistos sem nenhuma luz correspondente. Drogas assim podem deixar mudanças duradouras: episódios que voltam meses depois e, em algumas pessoas, distúrbios visuais persistentes.

**Demonstração.** *Admitido neste nível.* ∎

**Exemplo 22.7 (O que uma alucinação mostra).**

Sob LSD a retina não muda e o córtex primário continua mapeando o que os olhos veem; a perturbação está nas áreas posteriores e no modo como elas são combinadas. Aparecem padrões que se parecem com os próprios blocos de construção do córtex — grades, espirais, túneis — porque a droga põe a maquinaria da percepção para funcionar sem a entrada dela. A alucinação é uma demonstração, por avaria, de que o ver é feito pelo encéfalo e de que uma molécula consegue mudá-lo.

**Método 22.8 (Localizar um déficit visual).**

1. Um olho cego, o outro normal: o olho ou o nervo ótico dele, antes do quiasma.
2. Os dois olhos cegos para a mesma metade do campo: o trato ótico, o tálamo ou o córtex primário do lado oposto.
3. Os dois olhos cegos para as metades externas do campo: o quiasma, onde as fibras que cruzam foram cortadas.
4. Visão intacta mas um atributo perdido (cor, movimento, rostos): a área especializada correspondente.
5. Percepção perturbada com olhos e córtex normais, de modo passageiro: uma droga ou uma causa metabólica.

**Observação 22.9 (O que este ano mostrou).**

O olho do [Capítulo 21](https://one-course.com/books/biology/2/pt/chapter/21-o-olho-e-os-fotorreceptores-dele#ch-g11-the-eye) era uma questão de [genes](https://one-course.com/books/biology/2/pt/chapter/3-o-dna-uma-molecula-genetica-universal#def-g10-universal-dna-gene) e de [proteínas](https://one-course.com/books/biology/2/pt/chapter/14-do-gene-a-proteina#def-g11-gene-expression-protein): [opsinas](https://one-course.com/books/biology/2/pt/chapter/21-o-olho-e-os-fotorreceptores-dele#def-g11-the-eye-photoreceptors), as duplicações delas, um daltonismo herdado no X. O encéfalo deste capítulo é uma questão de conexões, moldadas pelo uso. Entre os dois está o assunto inteiro do ano — da sequência de um [gene](https://one-course.com/books/biology/2/pt/chapter/3-o-dna-uma-molecula-genetica-universal#def-g10-universal-dna-gene) a uma característica, e da característica ao que uma pessoa consegue fazer — e a lição de que a cada passo o [genótipo](https://one-course.com/books/biology/2/pt/chapter/15-as-enzimas-e-o-fenotipo#def-g11-enzymes-and-phenotype-phenotype) propõe e o ambiente, da temperatura das orelhas de um gato à luz que o olho de um gatinho recebe, dispõe.

## 22.5 Exercícios

**Exercício 22.1 ★.**

Trace o caminho de um sinal da metade esquerda do campo visual até o córtex.

**Solução de Exercício 22.1.**

A luz do campo esquerdo cai sobre a metade direita de cada retina; as fibras da metade direita do olho esquerdo cruzam no quiasma, as do olho direito ficam à direita; juntas elas formam o trato ótico direito, fazem escala no tálamo e chegam ao [córtex visual primário](#prop-g11-vision-and-brain-pathway) direito.

**Exercício 22.2 ★.**

O que acontece no quiasma ótico, e que fibras cruzam?

**Solução de Exercício 22.2.**

Os dois nervos óticos se encontram; as fibras da metade nasal de cada retina cruzam para o outro lado, as da metade temporal não. Depois dele, cada trato carrega uma metade do campo visual.

**Exercício 22.3 ★.**

Cite três áreas visuais especializadas e o déficit produzido por uma lesão de cada uma.

**Solução de Exercício 22.3.**

Área da cor (mundo visto em cinza), área do movimento (nenhuma percepção de movimento), área dos rostos (rostos não reconhecidos).

**Exercício 22.4 ★.**

Defina [plasticidade cerebral](#prop-g11-vision-and-brain-plasticity) e período crítico.

**Solução de Exercício 22.4.**

Plasticidade: a capacidade de as conexões dos neurônios serem reforçadas, enfraquecidas, formadas ou podadas conforme o uso. Período crítico: a fase inicial da vida durante a qual a experiência molda o córtex de modo decisivo e irreversível.

**Exercício 22.5 ★.**

Como o LSD age sobre o sistema visual?

**Solução de Exercício 22.5.**

Ele se liga aos receptores de serotonina de neurônios das áreas visuais, perturbando o fluxo de sinais e produzindo alucinações sem nenhuma luz correspondente.

**Exercício 22.6 ★★.**

Usando o [Método 22.8](#met-g11-vision-and-brain-locate), localize a lesão de um paciente cego na metade direita do campo com os dois olhos.

**Solução de Exercício 22.6.**

Depois do quiasma, à esquerda: o trato ótico esquerdo, a escala talâmica esquerda ou o [córtex visual primário](#prop-g11-vision-and-brain-pathway) esquerdo.

**Exercício 22.7 ★★.**

Um [tumor](https://one-course.com/books/biology/2/pt/chapter/17-dano-ao-genoma-e-cancer#def-g11-cancer-cancer) comprime o quiasma ótico por baixo, cortando as fibras que cruzam. Que partes do campo o paciente perde? Explique com a figura.

**Solução de Exercício 22.7.**

As fibras que cruzam vêm das metades nasais das duas retinas, que veem as metades externas (temporais) do campo: o paciente perde a metade esquerda do campo do olho esquerdo e a metade direita do campo do olho direito — visão em túnel dos dois lados.

**Exercício 22.8 ★★.**

A partir da figura de Hubel e Wiesel, que fração dos neurônios responde de algum modo ao olho esquerdo no gatinho normal e no gatinho privado?

**Solução de Exercício 22.8.**

Normal: $12 + 20 + 36 + 20 = 88\%$. Privado: $2 + 3 + 5 + 30 = 40\%$, dos quais apenas 10% principalmente.

**Exercício 22.9 ★★.**

Por que tapar o olho bom de uma criança estrábica algumas horas por dia trata a ambliopia? Por que o mesmo tratamento falha num adulto?

**Solução de Exercício 22.9.**

Tapar força o córtex a usar a entrada do olho fraco, de modo que as conexões dele são conservadas e reforçadas durante o período crítico em vez de podadas. Num adulto o período acabou: as conexões não se reorganizam mais nessa escala, de modo que o olho fraco não consegue retomar o território dele.

**Exercício 22.10 ★★.**

Explique por que a paciente que vê em cinza não é daltônica no sentido do [Capítulo 21](https://one-course.com/books/biology/2/pt/chapter/21-o-olho-e-os-fotorreceptores-dele#ch-g11-the-eye), e como um exame poderia distinguir as duas condições.

**Solução de Exercício 22.10.**

Os [cones](https://one-course.com/books/biology/2/pt/chapter/21-o-olho-e-os-fotorreceptores-dele#def-g11-the-eye-photoreceptors) e as [opsinas](https://one-course.com/books/biology/2/pt/chapter/21-o-olho-e-os-fotorreceptores-dele#def-g11-the-eye-photoreceptors) dela são normais; o que se perdeu é a etapa cortical que interpreta as razões entre eles. Um registro elétrico da resposta da retina a luzes coloridas seria normal nela e anormal numa pessoa daltônica; e o déficit dela é total e adquirido, o delas parcial e de nascença.

**Exercício 22.11 ★★.**

A área cortical dos dedos de uma pianista é maior que a média. Explique com a plasticidade, e diga o que você prevê se ela parar de tocar por anos.

**Solução de Exercício 22.11.**

Anos de prática reforçaram e multiplicaram as conexões que servem os dedos dela, aumentando o território cortical delas. Sem prática, a área encolheria de novo ao longo de anos, como mostram os estudos com malabarismo.

**Exercício 22.12 ★★★.**

Uma pessoa cega de nascença por causa de cataratas passa por uma cirurgia para retirá-las aos 30 anos. Preveja o que ela vê nas primeiras semanas e o que ela vai e não vai recuperar, usando o período crítico.

**Solução de Exercício 22.12.**

No começo ela vê luz, cores e manchas em movimento, mas não consegue reconhecer formas, rostos nem profundidade: a retina funciona, mas o córtex nunca construiu, durante o período crítico, as conexões que interpretam os sinais dela. Ela vai aprender a usar a visão em parte, devagar, mas nunca com a fluência de quem enxerga desde o nascimento.

**Exercício 22.13 ★★★.**

Explique por que o mapa cortical dedica mais área ao centro do campo do que à periferia, usando a distribuição de receptores e de [células](https://one-course.com/books/biology/2/pt/chapter/2-a-celula-a-unidade-comum-da-vida#def-g10-cells-common-unit-cell) ganglionares do [Capítulo 21](https://one-course.com/books/biology/2/pt/chapter/21-o-olho-e-os-fotorreceptores-dele#ch-g11-the-eye).

**Solução de Exercício 22.13.**

Na fóvea cada cone tem a [célula](https://one-course.com/books/biology/2/pt/chapter/2-a-celula-a-unidade-comum-da-vida#def-g10-cells-common-unit-cell) ganglionar própria dele, de modo que o centro do campo envia muito mais fibras por grau que a periferia, onde cem [bastonetes](https://one-course.com/books/biology/2/pt/chapter/21-o-olho-e-os-fotorreceptores-dele#def-g11-the-eye-photoreceptors) compartilham uma; o córtex distribui a área em proporção às fibras, e portanto ao detalhe, e não aos graus de campo.

**Exercício 22.14 ★★★.**

A neuroimagem funcional mostra a área da cor ativa quando um sujeito imagina uma maçã vermelha de olhos fechados. O que isso diz sobre a relação entre as áreas especializadas e a percepção, e sobre as alucinações?

**Solução de Exercício 22.14.**

A atividade da área é a percepção da cor, venha o sinal do olho ou da memória; a percepção é o que as áreas fazem, e não o que o olho entrega. Uma alucinação é essa atividade disparada por uma droga, em vez de pela intenção ou pela luz.

**Exercício 22.15 ★★★.**

“Quem vê é o olho.” Reescreva essa afirmação corretamente num parágrafo, usando os três pacientes, os gatinhos e a droga.

**Solução de Exercício 22.15.**

O olho converte a luz em sinais; quem vê é o encéfalo. Um paciente com olhos intactos pode perder a cor, o movimento ou os rostos por uma lesão cortical; um gatinho com olhos intactos fica funcionalmente cego de um deles se o córtex não puder conectá-lo; e uma droga que não toca nem no olho nem na estrutura do córtex faz uma pessoa ver o que não está lá. O olho fornece; o encéfalo vê.

## 22.6 Problema: quatro pacientes e um gatinho

**Problema 22.1.**

Problema de fim de semana — déficits visuais localizados ao longo da via, um córtex mapeado por estimulação, a privação de um gatinho contada, e o estrabismo de uma criança tratado a tempo

Quatro pacientes são examinados. A: cego do olho esquerdo, olho direito normal. B: os dois olhos cegos para a metade esquerda do campo. C: os dois olhos cegos para a metade externa do campo de cada um (o olho esquerdo para a esquerda, o direito para a direita). D: campos normais, acuidade normal, mas incapaz de perceber movimento.

**Parte I — Localizar.**

1. Localize a lesão de A. Que estrutura, e antes ou depois do quiasma?
2. Localize a lesão de B, e diga por que ela tem de ficar depois do quiasma.
3. Localize a lesão de C com precisão, explicando que fibras foram cortadas.
4. Localize a lesão de D. O que a preservação dos campos e da acuidade diz a você sobre o córtex primário?
5. Para cada paciente, diga se a retina está intacta e como você verificaria.

**Parte II — O mapa.** Durante uma cirurgia, estimular pontos do [córtex visual](#prop-g11-vision-and-brain-pathway) direito de um paciente produz clarões. Estimular a ponta do lobo occipital dá um clarão no centro do campo; pontos mais para a frente dão clarões mais para fora no campo esquerdo; $1\,\mathrm{cm}$ de córtex na ponta cobre cerca de $2^\circ$ do campo, enquanto $1\,\mathrm{cm}$ mais para a frente cobre $20^\circ$.

6. Por que todos os clarões ficam no campo esquerdo?
7. Quanto córtex representa os $2^\circ$ centrais, comparado com uma faixa de $2^\circ$ a $40^\circ$ do centro? Calcule a razão.
8. Relacione essa razão com a fóvea e a periferia da retina.
9. Uma pequena lesão na ponta do lobo occipital direito: o que o paciente perde? E uma lesão do mesmo tamanho mais para a frente?
10. Por que o paciente com a pequena lesão central ainda consegue ler, devagar, movendo os olhos?

**Parte III — O gatinho.** A partir da figura de Hubel e Wiesel.

11. No gatinho normal, que porcentagem de neurônios responde em algum grau aos dois olhos?
12. No gatinho privado, que porcentagem responde de algum modo ao olho fechado (o esquerdo)?
13. A retina e o nervo ótico do olho fechado estão intactos. Para onde foi a entrada dele, e o que tomou o espaço?
14. O mesmo fechamento num gato adulto não muda nada. O que isso estabelece, e qual é o equivalente humano disso?
15. Um gatinho fica com os dois olhos fechados por três meses. Preveja o histograma e a visão do animal depois.

**Parte IV — A criança.** Uma criança de quatro anos tem o olho esquerdo virado para dentro; a ótica dele é normal. Sem tratamento, o córtex passa a ser tomado pela entrada do olho direito.

16. Explique, com o gatinho, o que vai acontecer com a visão do olho esquerdo se nada for feito, e por que os óculos sozinhos não vão impedir isso.
17. O tratamento é tapar o olho *direito* várias horas por dia durante meses. Explique por que se cobre o olho bom.
18. Por que isso precisa ser feito antes dos sete anos, mais ou menos, e por que o mesmo tratamento aos quinze falha?
19. Um adulto que perde um olho aos trinta não perde do mesmo modo o córtex dedicado a ele. Concilie isso com o gatinho.
20. Enuncie o resultado: as quatro lesões localizadas da frente para trás da via, e a única propriedade do córtex — nomeada — que faz o tratamento da criança funcionar apenas a tempo.

**Solução de Problema 22.1.**

**1.** O olho esquerdo ou o nervo ótico dele, antes do quiasma: só as fibras de um olho estão afetadas.

**2.** O trato ótico direito, o tálamo ou o [córtex visual](#prop-g11-vision-and-brain-pathway) direito: um déficit compartilhado pelos dois olhos para o mesmo meio campo só pode estar onde as fibras dos dois olhos para aquela metade foram reunidas, ou seja depois do quiasma.

**3.** O próprio quiasma: as fibras que cruzam, vindas das metades nasais das duas retinas, que veem as metades temporais do campo, foram cortadas.

**4.** A área do movimento, depois do córtex primário. Campos e acuidade intactos mostram que o córtex primário e tudo o que vem antes dele estão funcionando.

**5.** B, C e D têm retinas intactas; a de A pode estar ou não. Verifica-se examinando a retina com um oftalmoscópio e registrando a resposta elétrica dela a clarões.

**6.** O córtex direito recebe a metade esquerda do campo.

**7.** $2^\circ$ centrais: $1\,\mathrm{cm}$; uma faixa de $2^\circ$ a $40^\circ$: $0.1\,\mathrm{cm}$. Razão 10.

**8.** A fóvea empacota os [cones](https://one-course.com/books/biology/2/pt/chapter/21-o-olho-e-os-fotorreceptores-dele#def-g11-the-eye-photoreceptors) densamente, cada um com a [célula](https://one-course.com/books/biology/2/pt/chapter/2-a-celula-a-unidade-comum-da-vida#def-g10-cells-common-unit-cell) ganglionar própria dele, de modo que os graus centrais enviam muito mais fibras que a periferia; o córtex lhes dá proporcionalmente mais área.

**9.** Um pequeno ponto cego no centro do campo esquerdo, o que é devastador para a leitura; mais para a frente, uma região cega maior na periferia do campo esquerdo, menos notada.

**10.** Movendo os olhos, o paciente traz cada palavra para uma parte da retina cujo córtex está intacto, usando a borda da lesão; lento, mas possível.

**11.** $20 + 36 + 20 = 76\%$.

**12.** $2 + 3 + 5 + 30 = 40\%$, e apenas 10% com o olho esquerdo como entrada principal ou equivalente.

**13.** A entrada dele chega ao córtex, mas as conexões dele foram enfraquecidas e podadas por falta de uso; as conexões do olho direito se expandiram para o espaço.

**14.** Que a reorganização fica confinada a um período crítico do começo da vida; o equivalente humano é a ambliopia, que só se desenvolve na infância e é intratável depois dela.

**15.** Sem nenhum olho favorecido, não há tomada: o histograma fica aproximadamente simétrico, mas com menos neurônios responsivos ao todo, e a visão do gatinho fica ruim nos dois olhos — a privação sem competição enfraquece os dois.

**16.** O encéfalo suprime a imagem do olho desviado para evitar a visão dupla; sem uso, as conexões dele são podadas durante o período crítico e o olho fica permanentemente fraco. Os óculos corrigem a ótica, mas o olho não é usado, de modo que a poda prossegue.

**17.** Cobrir o olho bom força o córtex a usar os sinais do olho fraco, conservando e reforçando as conexões dele.

**18.** O período crítico termina por volta dos sete anos; depois dele o córtex não redistribui mais território nessa escala, de modo que as conexões perdidas do olho fraco não podem ser reconstruídas.

**19.** No adulto as conexões já estão estabelecidas e estáveis; a tomada pelo outro olho é um fenômeno do córtex em desenvolvimento, durante o período crítico, e não do córtex maduro.

**20.** A: olho ou nervo ótico; C: quiasma; B: trato direito, tálamo ou córtex primário; D: a área do movimento, depois deles. A plasticidade do córtex, confinada a um período crítico, faz o tapa-olho da criança funcionar aos quatro anos e falhar aos quinze.
