Os genes que constroem os animais são um kit de ferramentas antigo e compartilhado: algumas centenas de fatores de transcrição e vias de sinalização já presentes no ancestral comum de todos os animais, e a diversidade animal vem sobretudo de mudanças em quando, onde e quanto eles são expressos, e não no que codificam. Homologia profunda: o gene Pax6 dirige a formação do olho em moscas, lulas e camundongos, cujos olhos não são homólogos como órgãos — um Pax6 de camundongo expresso na perna de uma mosca faz ali um olho de mosca ectópico (Halder, Gehring, 1995). Evolução cis-regulatória: a perda dos espinhos pélvicos nos esgana-gatas de água doce é a deleção de um único intensificador do gene Pitx1, com a proteína intacta e ainda servindo em outros lugares; a perda das manchas das asas em algumas moscas-das-frutas, uma mudança num intensificador de yellow; a perda das pernas nas cobras, um intensificador quebrado de sonic hedgehog no membro. Deslocamentos Hox: o limite de expressão de Hoxc6 marca a primeira vértebra torácica igualmente em camundongo, galinha, ganso e cobra, nas vértebras 7, 14, 23 e 3; a perda das pernas abdominais nos insetos foi a proteína Hox Ubx adquirindo um domínio repressor que desliga o gene da perna Distal-less, onde nos crustáceos ela não o faz. A heterocronia, uma mudança no tempo de um programa de desenvolvimento, fez do axolote uma larva permanente e do rosto humano o de um macaco juvenil. A velha pergunta de como surgem formas novas vira uma pergunta sobre DNA regulatório: a maior parte do genoma que importa para a forma não é gene, é interruptor.
Exemplos
Exemplo 23.7 (Quatro asas)
Os ancestrais das moscas tinham quatro asas, como libélulas e abelhas ainda têm; as moscas têm duas, com o par posterior reduzido aos balancins. Nas moscas, Ultrabithorax é expresso no terceiro segmento torácico e ali reprime o programa da asa — uns cem genes-alvo, sendo um halter uma asa com esses genes desligados. A mosca mutante tripla de Lewis, sem função de Ubx no terceiro segmento, faz crescer um segundo par de asas: não uma estrutura nova, mas a liberação de uma antiga. Nas borboletas o Ubx é expresso também na asa posterior e, ali, não suprime a asa, mas muda seu padrão: a mesma proteína, um conjunto diferente de alvos. Quatrocentos milhões de anos de evolução dos dípteros dependeram da decisão de um gene num segmento, e uma única mutação a desfaz numa geração — e é por isso que a história da forma é legível nos genes que a constroem.