Biologia · Glossário

O que é Lesões do DNA?

Definição 3.1 Biologia universitária — 3.º ano · Capítulo 3 — Estabilidade do genoma: dano, reparo e recombinação do DNA

Uma lesão é qualquer alteração química do DNA que o afaste das quatro bases normais corretamente pareadas sobre um esqueleto intacto. As lesões espontâneas vêm da química da água e do oxigênio: a depurinação, hidrólise da ligação entre uma purina e seu açúcar, que deixa um sítio abásico (cerca de 10410^{4} por célula por dia); a desaminação, que converte a citosina em uracila, a 5-metilcitosina em timina e a adenina em hipoxantina (algumas centenas por dia); a oxidação por espécies reativas de oxigênio, sobretudo a 8-oxoguanina, que pareia com a adenina tão prontamente quanto com a citosina; e os erros de replicação, uma base mal incorporada ou deslizada. Entre as lesões ambientais estão o dímero ciclobutânico de pirimidina e o fotoproduto 6-4 feitos pela luz ultravioleta entre duas pirimidinas adjacentes; as bases alquiladas por agentes alquilantes (a O6^{6}-metil-guanina pareia com a timina); os adutos volumosos de hidrocarbonetos aromáticos e da aflatoxina; as ligações cruzadas entre fitas da cisplatina e das mostardas nitrogenadas; e as quebras de fita simples e de fita dupla feitas pela radiação ionizante, cerca de 10001000 quebras de fita simples e 30 a 4030\text{ a }40 de fita dupla por célula por gray.

Exemplos

Exemplo 3.3 (Lesões contra mutações)

Uma célula humana de 6.4×1096.4\times 10^{9} pares de bases que se divide uma vez por dia acumula da ordem de 10410^{4}10510^{5} lesões por dia e cerca de 6.4×109×10100.66.4\times 10^{9}\times 10^{-10} \approx 0.6 mutações novas por divisão: menos de uma lesão em dez mil sobrevive para se tornar uma mudança permanente. As demais são reparadas antes que a replicação as leia, e é a taxa de sobrevivência até a mutação — e não a taxa de dano — que a seleção minimizou. A mesma aritmética mostra por que o número de mutações num tumor ou no esperma de um pai mais velho conta divisões: as mutações que uma célula carrega são, em primeira ordem, as divisões que ela sofreu vezes o erro por divisão.

Exemplo 3.9 (Por que o xeroderma é uma doença da forquilha)

Uma dose de sol deixa N=105N = 10^{5} dímeros de pirimidina num queratinócito. Com uma meia-vida de excisão de nucleotídeos de 2h2\,\mathrm{h} (k=0.35h1k = 0.35\,\mathrm{h}^{-1}) e uma forquilha que chega após 8h8\,\mathrm{h}, NekT=105×e2.86000N e^{-kT} = 10^{5}\times e^{-2.8} \approx 6000 dímeros ainda estão lá para ser copiados; com o reparo quase ausente de uma célula XP (k0.01h1k \approx 0.01\,\mathrm{h}^{-1}), são 9200092\,000. Cada dímero encontrado pela forquilha é contornado pela síntese translesão (adiante), que é propensa a erro: a carga de mutação do paciente por divisão é quinze vezes a normal, e os cânceres de pele vêm na infância. A cura que funciona é manter NN pequeno — a evitação total da luz ultravioleta.

Exemplo 3.13 (Letalidade sintética: BRCA e PARP)

As mulheres que herdam uma cópia defeituosa de BRCA1 ou de BRCA2 têm um risco de câncer de mama ao longo da vida de 50 a 80%50\text{ a }80\,\%; os tumores surgem em células que perderam a segunda cópia e já não conseguem fazer recombinação homóloga. Tais células reparam suas quebras de fita dupla apenas por junção de extremidades e acumulam rearranjos. Elas também adquirem uma fraqueza específica. As quebras de fita simples, umas 1000010\,000 por dia, são reparadas por uma rota que precisa da enzima PARP; quando a PARP é inibida por um fármaco, as quebras de fita simples persistem até a fase S, em que uma forquilha converte cada uma numa quebra de fita dupla com apenas uma extremidade — reparável só por recombinação. Uma célula normal, com um alelo BRCA bom, dá conta; a célula tumoral morre. Dois defeitos, inócuos isoladamente, são letais juntos: o fármaco mata por letalidade sintética e poupa as demais células da paciente.

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