Mathematics · Livro 4 · Bachelor Year 2

Matemática universitária — Graduação 2

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23Funções geradoras de probabilidade

As séries de potências do Capítulo 11 voltam com uma missão probabilística: a uma variável aleatória com valores em N\N associamos a série de potências de coeficientes P(X=n)\P(X = n). Essa função geradora converte somas de variáveis independentes em produtos, momentos em derivadas em 11 e identidades combinatórias difíceis em multiplicações de uma linha. O capítulo fecha o livro com duas peças de exibição: a aproximação de Poisson de eventos raros e o critério de extinção para processos de ramificação — um cálculo probabilístico genuinamente infinito resolvido inteiramente pela geometria de uma curva convexa.

23.1 Definição e propriedades básicas

Definição 23.1 (Função geradora de probabilidade)

Seja XX uma variável aleatória com valores em N\N, pn=P(X=n)p_n = \P(X = n). A função geradora de probabilidade de XX é a soma da série de potências

GX(t)=E(tX)=∑n=0∞pn tn.G_X(t) = \E\bigl(t^X\bigr) = \sum_{n=0}^{\infty} p_n\,t^n .

Exemplo 23.2 (Primeiros reflexos)

Uma variável constante X=cX = c tem GX(t)=tcG_X(t) = t^c; um deslocamento obedece a GX+c(t)=tc GX(t)G_{X+c}(t) = t^c\,G_X(t); e avaliar em pontos especiais extrai informação sem desenvolvimento algum: GX(0)=P(X=0)G_X(0) = \P(X = 0), GX(1)=1G_X(1) = 1 e GX(−1)=P(X par)−P(X ıˊmpar)G_X(-1) = \P(X\text{ par}) - \P(X\text{ ímpar}), o balanço de paridades explorado no Exercício 23.10. Essas frases de uma linha são usadas silenciosamente em toda parte abaixo — e a avaliação GX(0)G_X(0) é exatamente como as probabilidades de extinção serão extraídas de funções geradoras iteradas no fim do capítulo.

Proposição 23.3 (Raio e primeiras propriedades)

A série que define GXG_X tem raio de convergência ≥1\geq 1; GXG_X está definida e é contínua em [−1, 1]\intcc{-1}{1}, C∞\mathcal{C}^\infty em (−1, 1)\intoo{-1}{1}, com GX(1)=1G_X(1) = 1 e ∣GX(t)∣≤1\abs{G_X(t)} \leq 1 ali. Além disso, GXG_X determina a lei de XX:

pn=GX(n)(0)n!.p_n = \frac{G_X^{(n)}(0)}{n!} .

Demonstração. Como ∑pn=1\sum p_n = 1 converge, os termos pn 1np_n\,1^n são limitados, de modo que o raio é ≥1\geq 1 (lema de Abel, Capítulo 11); em t=±1t = \pm1 a série converge absolutamente (∑pn=1\sum p_n = 1 a domina); melhor, em todo o intervalo [−1, 1]\intcc{-1}1,

sup⁡∣t∣≤1 ∣pntn∣=pncom∑npn<∞:\sup_{\abs t\leq1}\,\abs{p_nt^n} = p_n \quad\text{com}\quad \sum_np_n < \infty :

a série converge normalmente em [−1, 1]\intcc{-1}1, de modo que sua soma é contínua ali (Teoremas 10.16 e 10.4). A suavidade no interior e a fórmula dos coeficientes são a teoria geral das séries de potências; sendo os coeficientes recuperáveis, duas variáveis com a mesma função geradora têm a mesma lei. ∎

Exemplo 23.4 (As leis clássicas)

  • Bernoulli B(p)\mathcal{B}(p): G(t)=1−p+ptG(t) = 1 - p + pt.
  • Binomial B(n,p)\mathcal{B}(n, p): G(t)=∑k(nk)(pt)k(1−p)n−k=(1−p+pt)nG(t) = \sum_k \binom nk (pt)^k(1-p)^{n-k} = (1 - p + pt)^n (teorema binomial).
  • Geométrica G(p)\mathcal{G}(p): G(t)=∑k≥1(1−p)k−1p tk=pt1−(1−p)tG(t) = \sum_{k\geq1}(1-p)^{k-1}p\,t^k = \dfrac{pt}{1 - (1-p)t} (raio 11−p>1\frac{1}{1-p} > 1).
  • Poisson P(λ)\mathcal{P}(\lambda): G(t)=∑ke−λ(λt)kk!=eλ(t−1)G(t) = \sum_k e^{-\lambda}\frac{(\lambda t)^k}{k!} = e^{\lambda(t - 1)} (raio ∞\infty).

Exemplo 23.5 (Integrando a função geradora)

As derivadas de GXG_X em 11 dão momentos positivos; a integral dá um momento negativo. De ∫01tk ⁣dt=1k+1\int_0^1t^k\dd t = \frac1{k+1} e da integração termo a termo (convergência normal em [0, 1]\intcc01):

∫01GX(t)  ⁣dt=∑k≥0P(X=k)k+1=E(11+X).\int_0^1G_X(t)\,\dd t = \sum_{k\geq0}\frac{\P(X = k)}{k+1} = \E\Bigl(\frac1{1+X}\Bigr).

Para X∼P(λ)X \sim \mathcal P(\lambda):

E(11+X)=∫01eλ(t−1)  ⁣dt=1−e−λλ,\E\Bigl(\frac1{1+X}\Bigr) = \int_0^1\eu^{\lambda(t-1)}\,\dd t = \frac{1 - \eu^{-\lambda}}{\lambda},

recuperando numa linha o cálculo em séries do Exemplo 22.10. A função geradora é um instrumento de mão dupla: derive em 11 para os momentos E(X)\E(X), E(X(X−1))\E(X(X-1)), integre em [0, 1]\intcc01 para E(11+X)\E\bigl(\frac1{1+X}\bigr) — um só objeto analítico, consultado na direção de que o problema precisa.

Exemplo 23.6 (Uma lei de raio exatamente um)

Seja P(X=k)=6π2k2\P(X = k) = \dfrac{6}{\pi^2k^2} para k≥1k \geq 1 — uma lei de probabilidade pela identidade de Basileia (Exemplo 14.12). Sua função geradora G(t)=6π2∑k≥1tkk2G(t) = \frac6{\pi^2}\sum_{k\geq1}\frac{t^k}{k^2} tem raio de convergência exatamente 11: a cota geral “raio ≥1\geq 1” da Proposição 23.3 não pode ser melhorada. E a média vale

∑k≥1k P(X=k)=6π2∑k≥11k=∞:\sum_{k\geq1}k\,\P(X = k) = \frac6{\pi^2}\sum_{k\geq1}\frac1k = \infty :

GG é contínua em [−1, 1]\intcc{-1}1, suave no interior, mas sua derivada explode em 1−1^- — o gráfico chega ao ponto (1,1)(1, 1) com tangente vertical. As caudas pesadas são visíveis geometricamente na função geradora, no único ponto t=1t = 1; o teorema dos momentos abaixo torna essa correspondência exata.

Teorema 23.7 (Momentos a partir da função geradora)

XX tem esperança se e somente se GXG_X é diferenciável em 1−1^- (derivada à esquerda, finita), e então E(X)=GX′(1)\E(X) = G_X'(1). Do mesmo modo, XX tem momento de segunda ordem se e somente se GXG_X é duas vezes diferenciável em 1−1^-, e então

E(X(X−1))=GX′′(1),V(X)=GX′′(1)+GX′(1)−GX′(1)2.\E\bigl(X(X - 1)\bigr) = G_X''(1), \qquad V(X) = G_X''(1) + G_X'(1) - G_X'(1)^2 .

Demonstração. Para t∈(0, 1)t \in \intoo{0}{1}, a derivação termo a termo dentro do disco dá GX′(t)=∑n≥1npntn−1G_X'(t) = \sum_{n\geq1} np_n t^{n-1}, uma série com coeficientes não negativos: t↦GX′(t)t \mapsto G_X'(t) é não decrescente em (0, 1)\intoo{0}{1} e, por convergência monótona das somas parciais (ou pelo teorema de Abel para coeficientes não negativos, Capítulo 11),

lim⁡t→1−GX′(t)=∑n≥1n pn∈[0, +∞],\lim_{t \to 1^-} G_X'(t) = \sum_{n\geq1} n\,p_n \in \intcc{0}{+\infty} ,

cada membro finito exatamente quando o outro o é. Quando finito, o teorema do valor médio espreme os quocientes de diferenças GX(1)−GX(t)1−t\frac{G_X(1) - G_X(t)}{1 - t} entre valores de GX′G_X', de modo que GXG_X é diferenciável em 1−1^- com GX′(1)=∑npn=E(X)G_X'(1) = \sum np_n = \E(X) (por transferência). O enunciado de segunda ordem repete o argumento um nível acima: GX′′(t)=∑n≥2n(n−1)pntn−2G''_X(t) = \sum_{n\geq2}n(n-1)p_nt^{n-2} é não decrescente em (0, 1)\intoo01 com limite monótono ∑nn(n−1)pn=E(X(X−1))\sum_nn(n-1)p_n = \E(X(X-1)), finito exatamente quando XX tem momento de segunda ordem. A fórmula da variância segue então de König–Huygens:

V(X)=E(X2)−E(X)2=E(X(X−1))+E(X)−E(X)2=GX′′(1)+GX′(1)−GX′(1)2.V(X) = \E(X^2) - \E(X)^2 = \E\bigl(X(X-1)\bigr) + \E(X) - \E(X)^2 = G''_X(1) + G'_X(1) - G'_X(1)^2 .

∎

Exemplo 23.8

Poisson: G′(t)=λeλ(t−1)G'(t) = \lambda e^{\lambda(t-1)}, logo E(X)=λ\E(X) = \lambda; G′′(1)=λ2G''(1) = \lambda^2, logo V(X)=λ2+λ−λ2=λV(X) = \lambda^2 + \lambda - \lambda^2 = \lambda — os cálculos do Capítulo 22 em uma linha cada.

Exemplo 23.9 (A moda de uma lei de Poisson)

Onde P(X=k)\P(X = k) é maior para X∼P(λ)X \sim \mathcal P(\lambda)? Pesos consecutivos se comparam pela razão

P(X=k+1)P(X=k)=λk+1,\frac{\P(X = k+1)}{\P(X = k)} = \frac{\lambda}{k + 1} ,

que excede 11 enquanto k<λ−1k < \lambda - 1 e cai abaixo de 11 assim que k>λ−1k > \lambda - 1: os pesos sobem e depois descem, com moda ⌊λ⌋\floor\lambda (e um empate entre λ−1\lambda - 1 e λ\lambda quando λ\lambda é inteiro: para λ=3\lambda = 3, P(X=2)=P(X=3)=92e−3≈0.224\P(X = 2) = \P(X = 3) = \frac92\eu^{-3} \approx 0.224). Testes de razão sobre os coeficientes são muitas vezes a via mais rápida para fatos qualitativos sobre uma lei discreta — sem precisar de função geradora, mas os coeficientes são a função geradora, lida termo a termo.

23.2 Somas de variáveis independentes

Teorema 23.10 (Multiplicatividade)

Se XX e YY são variáveis aleatórias independentes com valores em N\N, então

GX+Y(t)=GX(t) GY(t)(∣t∣≤1),G_{X + Y}(t) = G_X(t)\,G_Y(t) \qquad (\abs t \leq 1),

e, por indução, GX1+⋯+Xn=∏iGXiG_{X_1 + \dots + X_n} = \prod_i G_{X_i} para X1,…,XnX_1, \dots, X_n independentes.

Demonstração. Duas demonstrações, ambas instrutivas. Via esperanças: tXt^X e tYt^Y são variáveis limitadas independentes, de modo que (Teorema 22.11)

GX+Y(t)=E(tX+Y)=E(tXtY)=E(tX)E(tY).G_{X+Y}(t) = \E\bigl(t^{X+Y}\bigr) = \E\bigl(t^X t^Y\bigr) = \E\bigl(t^X\bigr)\E\bigl(t^Y\bigr) .

Via produtos de Cauchy: a lei de X+YX + Y é a convolução P(X+Y=n)=∑k=0nP(X=k)P(Y=n−k)\P(X + Y = n) = \sum_{k=0}^n \P(X = k)\P(Y = n - k), e o teorema do produto de Cauchy para séries absolutamente convergentes (Capítulo 7) multiplica as duas séries de potências exatamente ao longo dessa convolução. ∎

Exemplo 23.11 (Estabilidade das leis clássicas)

Binomiais independentes com o mesmo pp se somam: (1−p+pt)m(1−p+pt)n=(1−p+pt)m+n(1 - p + pt)^m(1 - p + pt)^n = (1 - p + pt)^{m+n}, logo B(m,p)+B(n,p)=B(m+n,p)\mathcal{B}(m, p) + \mathcal{B}(n, p) = \mathcal{B}(m + n, p) — em particular, uma soma de nn variáveis de Bernoulli independentes é binomial, redemonstrando a lei do número de sucessos. Poissons independentes se somam: eλ(t−1)eμ(t−1)=e(λ+μ)(t−1)e^{\lambda(t-1)}e^{\mu(t-1)} = e^{(\lambda + \mu)(t-1)}, logo P(λ)+P(μ)=P(λ+μ)\mathcal{P}(\lambda) + \mathcal{P}(\mu) = \mathcal{P}(\lambda + \mu) — o cálculo de convolução do Exercício 22.2, agora sem cálculo algum.

Exemplo 23.12 (Dois dados, um polinômio ao quadrado)

Para um dado honesto, G(t)=t+t2+⋯+t66G(t) = \frac{t + t^2 + \dots + t^6}{6}; para a soma de dois,

G(t)2=136(t2+2t3+3t4+4t5+5t6+6t7+5t8+4t9+3t10+2t11+t12):G(t)^2 = \frac{1}{36}\bigl(t^2 + 2t^3 + 3t^4 + 4t^5 + 5t^6 + 6t^7 + 5t^8 + 4t^9 + 3t^{10} + 2t^{11} + t^{12}\bigr) :

a lei triangular das somas de dados (77 é a moda, com probabilidade 636=16\frac6{36} = \frac16), lida num quadrado de polinômio que se multiplica uma vez na vida. A fórmula de convolução teria exigido onze argumentos de contagem separados; a função geradora os faz todos simultaneamente, porque multiplicar polinômios é convoluir coeficientes. Essa tradução mecânica — leis em coeficientes, somas em produtos — é todo o modelo de negócios do capítulo, e o Exercício 23.11 o leva até os surpreendentes dados de Sicherman.

Exemplo 23.13 (Três dados e uma extração de coeficiente)

Para a soma SS de três dados honestos, P(S=10)\P(S = 10) é o coeficiente de t10t^{10} em (t+⋯+t66)3\bigl(\frac{t + \dots + t^6}6\bigr)^3. Fatore e desenvolva com as séries binomial e geométrica:

(t(1−t6)6(1−t)) ⁣3=t3216 (1−3t6+3t12−t18)∑j≥0(j+22)tj.\Bigl(\frac{t(1 - t^6)}{6(1 - t)}\Bigr)^{\!3} = \frac{t^3}{216}\,\bigl(1 - 3t^6 + 3t^{12} - t^{18}\bigr)\sum_{j\geq0}\binom{j+2}2t^j .

O coeficiente de t10t^{10} exige t7t^7 do produto: j=7j = 7 com o termo 11, e j=1j = 1 com o termo −3t6-3t^6:

P(S=10)=1216((92)−3(32))=36−9216=27216=18.\P(S = 10) = \frac{1}{216}\Bigl(\binom92 - 3\binom32\Bigr) = \frac{36 - 9}{216} = \frac{27}{216} = \frac18 .

A enumeração direta das 2727 triplas é propensa a erros; a álgebra é mecânica e escala para qualquer número de dados — a inclusão–exclusão visível em (1−t6)3(1 - t^6)^3 faz a análise de casos automaticamente.

Exemplo 23.14 (Lendo uma lei em sua função geradora)

Que lei tem G(t)=12−tG(t) = \dfrac1{2 - t}? Desenvolva em série de potências:

12−t=12⋅11−t/2=∑k≥0tk2k+1:\frac{1}{2 - t} = \frac12\cdot\frac1{1 - t/2} = \sum_{k\geq0}\frac{t^k}{2^{k+1}} :

coeficientes não negativos de soma G(1)=1G(1) = 1, de modo que essa é uma lei genuína, P(X=k)=2−(k+1)\P(X = k) = 2^{-(k+1)} em N\N — uma lei geométrica começando em 00. Por unicidade (Proposição 23.3), nenhuma outra lei compartilha essa GG. Reconhecer leis a partir de suas funções geradoras é uma habilidade que vale treinar: é assim que o iterado crítico de ramificação Gn(t)=n−(n−1)tn+1−ntG_n(t) = \frac{n - (n-1)t}{n+1 - nt} do problema de fim de semana é desmascarado como uma lei geométrica condicionada à sobrevivência.

Observação 23.15

A estabilidade vale num sentido só: somas de Poissons independentes são Poisson, mas diferenças não são — X−YX - Y assume valores negativos, de modo que não tem função geradora alguma, e sua lei (a distribuição de Skellam) fica fora do instrumental deste capítulo. Do mesmo modo, B(m,p)+B(n,p′)\mathcal B(m, p) + \mathcal B(n, p') com p≠p′p \neq p' não é binomial: o produto (1−p+pt)m(1−p′+p′t)n(1 - p + pt)^m(1 - p' + p't)^n tem duas localizações de raiz distintas, ao passo que toda função geradora binomial tem uma única raiz repetida. Ler a estabilidade nos padrões de raízes é uma pequena antevisão de quanta estrutura o polinômio codifica.

Observação 23.16 (O filtro das raízes da unidade)

Avaliar em −1-1 separa pares de ímpares; avaliar em todas as raízes mm-ésimas da unidade separa cada classe de resto: com ω=e2iπ/m\omega = \eu^{2\iu\pi/m},

P(X≡r mod m)=1m∑j=0m−1ω−jr GX(ωj),\P(X \equiv r \bmod m) = \frac1m\sum_{j=0}^{m-1}\omega^{-jr}\,G_X(\omega^j),

pois a média de ωj(k−r)\omega^{j(k-r)} sobre jj dá 11 se k≡rk \equiv r e 00 caso contrário. Dividendo de amostra: para a soma SS de dois dados honestos, cada G(ωj)=16∑k=16ωjk=−16G(\omega^j) = \frac16\sum_{k=1}^6 \omega^{jk} = -\frac16 para j≠0j \neq 0 (as sete raízes sétimas da unidade somam zero), logo

P(7∣S)=17(1+6⋅136)=16,\P(7 \mid S) = \frac17\Bigl(1 + 6\cdot\frac1{36}\Bigr) = \frac16 ,

confirmando a contagem do Exemplo 23.12 — e o método escala para questões em que a contagem direta não escala.

Teorema 23.17 (Somas aleatórias: identidade de Wald para funções geradoras)

Sejam (Xk)k≥1(X_k)_{k\geq1} variáveis independentes com valores em N\N, de mesma lei e função geradora GXG_X, e seja NN uma variável com valores em N\N independente das XkX_k, de função geradora GNG_N. Então a soma aleatória S=X1+⋯+XNS = X_1 + \dots + X_N (com S=0S = 0 quando N=0N = 0) tem função geradora

GS=GN∘GX.G_S = G_N \circ G_X .

Em particular, se NN e X1X_1 têm esperança, E(S)=E(N) E(X1)\E(S) = \E(N)\,\E(X_1).

Demonstração. Condicione a NN (probabilidade total, Teorema 21.14): para ∣t∣≤1\abs t \leq 1,

GS(t)=∑n=0∞P(N=n) E(tX1+⋯+Xn)=∑n=0∞P(N=n) GX(t)n=GN(GX(t)),G_S(t) = \sum_{n=0}^\infty \P(N = n)\, \E\bigl(t^{X_1 + \dots + X_n}\bigr) = \sum_{n=0}^\infty \P(N = n)\,G_X(t)^n = G_N\bigl(G_X(t)\bigr),

usando a multiplicatividade para cada nn fixo e a somabilidade de toda a família dupla (∣GX(t)∣≤1\abs{G_X(t)} \leq 1). A troca de somas é Fubini para famílias somáveis (Capítulo 7). Derivando em 1−1^- pela regra da cadeia e Teorema 23.7: E(S)=GN′(GX(1)) GX′(1)=GN′(1)GX′(1)=E(N)E(X1)\E(S) = G_N'(G_X(1))\,G_X'(1) = G_N'(1)G_X'(1) = \E(N)\E(X_1). ∎

Exemplo 23.18 (Poisson composta: perdas anuais de seguro)

Uma seguradora recebe N∼P(λ)N \sim \mathcal P(\lambda) sinistros num ano, custando cada sinistro XkX_k (unidades inteiras, i.i.d., com função geradora GXG_X, média μ\mu, independentes de NN). Pelo Teorema 23.17, a perda total SS tem

GS(t)=eλ(GX(t)−1),E(S)=λμ,G_S(t) = \eu^{\lambda(G_X(t) - 1)}, \qquad \E(S) = \lambda\mu ,

e, derivando duas vezes em 1−1^-:

V(S)=λ GX′′(1)+λ2μ2+λμ−(λμ)2=λ E(X2).V(S) = \lambda\,G_X''(1) + \lambda^2\mu^2 + \lambda\mu - (\lambda\mu)^2 = \lambda\,\E(X^2) .

A variância envolve o segundo momento de um único sinistro, não sua variância: uma soma de Poisson composta sente o sinistro grande ocasional duas vezes — uma pelo quantos, outra pelo quão grande. Para λ=10\lambda = 10 sinistros de lei geométrica de média 22 (EX2=6\E X^2 = 6): ES=20\E S = 20, V(S)=60V(S) = 60, e Chebyshev (Capítulo 22) já fornece margens de solvência utilizáveis. Esse padrão de “soma parada aleatoriamente” é o mesmo que moverá a recursão de ramificação do Proposição 23.23: a composição de funções geradoras é a álgebra das populações aleatórias.

Observação 23.19

A independência de NN em relação às parcelas não é decorativa. Tome Xk∈{0,2}X_k \in \{0, 2\} com probabilidades iguais e ponha N=X1N = X_1 (flagrantemente dependente): então S=X1+⋯+XNS = X_1 + \dots + X_N vale 00 quando X1=0X_1 = 0, e 2+X22 + X_2 quando X1=2X_1 = 2, de modo que E(S)=12(2+1)=32\E(S) = \frac12(2 + 1) = \frac32, enquanto E(N)E(X1)=1⋅1=1\E(N)\E(X_1) = 1\cdot1 = 1: a identidade de Wald falha. Quando o número de parcelas pode reagir às próprias parcelas, a estrutura limpa de produto desmorona — a teoria completa dessas regras de “parada” é o capítulo de martingais do volume do terceiro ano de graduação.

23.3 Aproximação de Poisson

Teorema 23.20 (Lei dos eventos raros)

Seja Xn∼B(n,pn)X_n \sim \mathcal{B}(n, p_n) com n pn→λ>0n\,p_n \to \lambda > 0. Então, para todo k∈Nk \in \N:

P(Xn=k)→n→∞e−λλkk!:\P(X_n = k) \xrightarrow[n\to\infty]{} e^{-\lambda}\frac{\lambda^k}{k!} :

a lei binomial de muitos eventos independentes raros converge à lei de Poisson de parâmetro λ\lambda.

Demonstração. Cálculo direto com pn=λnnp_n = \frac{\lambda_n}{n}, λn→λ\lambda_n \to \lambda:

P(Xn=k)=(nk)pnk(1−pn)n−k=n(n−1)⋯(n−k+1)nk⋅λnkk! (1−λnn)n−k.\P(X_n = k) = \binom nk p_n^k(1 - p_n)^{n-k} = \frac{n(n-1)\cdots(n-k+1)}{n^k}\cdot \frac{\lambda_n^k}{k!}\, \bigl(1 - \tfrac{\lambda_n}{n}\bigr)^{n-k} .

Quando n→∞n \to \infty com kk fixo: o primeiro fator tende a 11 (produto de kk fatores →1\to 1); λnk→λk\lambda_n^k \to \lambda^k; e (1−λnn)n−k=exp⁡((n−k)ln⁡(1−λnn))→e−λ\bigl(1 - \frac{\lambda_n}{n}\bigr)^{n-k} = \exp\bigl((n-k)\ln(1 - \frac{\lambda_n}{n})\bigr) \to e^{-\lambda} pois (n−k)ln⁡(1−λnn)∼−λn→−λ(n - k)\ln\bigl(1 - \frac{\lambda_n}{n}\bigr) \sim -\lambda_n \to -\lambda (Capítulo 6). Alternativamente, no nível das funções geradoras: GXn(t)=(1+λn(t−1)n)n→eλ(t−1)=GP(λ)(t)G_{X_n}(t) = \bigl(1 + \frac{\lambda_n(t-1)}{n}\bigr)^n \to e^{\lambda(t - 1)} = G_{\mathcal{P}(\lambda)}(t) para cada t∈[0,1]t \in [0, 1] fixo — convergência de funções geradoras que (para variáveis com valores em N\N) é equivalente à convergência de cada P(Xn=k)\P(X_n = k); veja o Exercício 23.9. ∎

Observação 23.21

É por isso que as leis de Poisson modelam contagens de eventos raros — erros de digitação por página, decaimentos radioativos por segundo, acidentes por dia num cruzamento: cada oportunidade é quase desprezível, as oportunidades são muitas, e só a taxa média λ\lambda sobrevive no limite.

Exemplo 23.22 (Vendo o limite de Poisson convergir)

Fixe λ=2\lambda = 2 e faça Xn∼B(n,2/n)X_n \sim \mathcal B(n, 2/n). A probabilidade de nenhum evento é exatamente P(Xn=0)=(1−2/n)n\P(X_n = 0) = (1 - 2/n)^n:

n=10: 0.107,n=20: 0.122,n=50: 0.130,n=100: 0.133,n = 10:\ 0.107, \qquad n = 20:\ 0.122, \qquad n = 50:\ 0.130, \qquad n = 100:\ 0.133,

contra o limite e−2≈0.135\eu^{-2} \approx 0.135. A convergência é monótona e de velocidade O(1/n)O(1/n) — desenvolvendo, (1−2/n)n=e−2(1−2n+O(n−2))(1 - 2/n)^n = \eu^{-2}\bigl(1 - \tfrac2n + O(n^{-2})\bigr) — de modo que, para nn na casa das centenas, o modelo de Poisson já é preciso até o terceiro dígito. Esse é o conteúdo prático da lei dos eventos raros: quem modela nunca conhece nn e pp separadamente (quantas micro-oportunidades de erro de digitação uma página contém?), mas apenas seu produto λ\lambda, e a lei limite misericordiosamente não depende de mais nada.

23.4 Processos de ramificação

Considere uma população que parte de um único ancestral; cada indivíduo, independentemente, tem um número aleatório de filhos com lei (pk)k∈N(p_k)_{k \in \N} e função geradora GG (a distribuição de descendência). Seja ZnZ_n o tamanho da geração nn (Z0=1Z_0 = 1), e seja m=G′(1)=E(Z1)m = G'(1) = \E(Z_1) o número médio de filhos.

Proposição 23.23

A função geradora de ZnZ_n é o nn-ésimo iterado GZn=G∘G∘⋯∘GG_{Z_n} = G \circ G \circ \dots \circ G (nn vezes), e as probabilidades de extinção qn=P(Zn=0)q_n = \P(Z_n = 0) satisfazem

q0=0,qn+1=G(qn),q_0 = 0, \qquad q_{n+1} = G(q_n),

e crescem para a probabilidade qq de extinção eventual, que é um ponto fixo de GG.

Demonstração. A geração n+1n + 1 é a soma aleatória da descendência dos ZnZ_n membros da geração nn, com contagens independentes entre si e de ZnZ_n: o Teorema 23.17 dá GZn+1=GZn∘GG_{Z_{n+1}} = G_{Z_n} \circ G, e a indução a partir de GZ0(t)=tG_{Z_0}(t) = t dá o iterado nn vezes — que, pela associatividade da composição, pode igualmente ser lido como GZn+1=G∘GZnG_{Z_{n+1}} = G \circ G_{Z_n}. Avaliando essa segunda forma em 00: qn+1=GZn+1(0)=G(GZn(0))=G(qn)q_{n+1} = G_{Z_{n+1}}(0) = G\bigl(G_{Z_n}(0)\bigr) = G(q_n). Os eventos {Zn=0}\{Z_n = 0\} crescem (populações extintas permanecem extintas), de modo que qn↑q=P(⋃n{Zn=0})q_n \uparrow q = \P\bigl(\bigcup_n\{Z_n = 0\}\bigr) pela continuidade monótona (Teorema 21.6), e a continuidade de GG em [0,1][0, 1] transforma qn+1=G(qn)q_{n+1} = G(q_n) em q=G(q)q = G(q) no limite. ∎

Exemplo 23.24 (Vendo a extinção convergir)

Para a lei de descendência (p0,p1,p2)=(14,14,12)(p_0, p_1, p_2) = (\tfrac14, \tfrac14, \tfrac12) de Exemplo 23.27, G(t)=14+14t+12t2G(t) = \tfrac14 + \tfrac14t + \tfrac12t^2 e a iteração qn+1=G(qn)q_{n+1} = G(q_n) dá

q1=0.25,q2=0.34375,q3≈0.39502,q4≈0.42678,q5≈0.44776,q_1 = 0.25, \quad q_2 = 0.34375, \quad q_3 \approx 0.39502, \quad q_4 \approx 0.42678, \quad q_5 \approx 0.44776,

subindo rumo à probabilidade de extinção q=12q = \tfrac12. As diferenças q−qnq - q_n valem 0.250.25, 0.1560.156, 0.1050.105, 0.0730.073, 0.0520.052: cada uma é aproximadamente 34\tfrac34 da anterior e, de fato, o teorema do valor médio dá q−qn+1=G′(cn)(q−qn)q - q_{n+1} = G'(c_n)(q - q_n) com G′(q)=14+q=34G'(q) = \tfrac14 + q = \tfrac34. Duas morais: uma linhagem ainda viva na geração nn tem, embutida no mesmo cálculo, probabilidade q−qnq - q_n de estar condenada mais tarde; e a taxa de convergência da escada da figura abaixo é a derivada no ponto fixo — o problema de fim de semana transforma ambas as observações em teoremas.

Teorema 23.25 (Critério de extinção)

Suponha p1≠1p_1 \neq 1. A probabilidade de extinção qq é o menor ponto fixo de GG em [0, 1]\intcc{0}{1}, e:

  • se m≤1m \leq 1 (subcrítico ou crítico), q=1q = 1: a extinção é certa;
  • se m>1m > 1 (supercrítico), q<1q < 1: a população sobrevive para sempre com probabilidade positiva 1−q1 - q.

Demonstração. GG é convexa em [0, 1]\intcc{0}{1} (série de potências com coeficientes não negativos: G′′≥0G'' \geq 0), não decrescente, com G(1)=1G(1) = 1.

Menor ponto fixo: seja r∈[0, 1]r \in \intcc{0}{1} um ponto fixo qualquer. Então q0=0≤rq_0 = 0 \leq r e, indutivamente, qn+1=G(qn)≤G(r)=rq_{n+1} = G(q_n) \leq G(r) = r (monotonia): logo q=lim⁡qn≤rq = \lim q_n \leq r.

Caso m≤1m \leq 1: suponha que r<1r < 1 seja um ponto fixo. Pelo teorema do valor médio em [r,1][r, 1], existe c∈(r, 1)c \in \intoo{r}{1} com G′(c)=G(1)−G(r)1−r=1−r1−r=1G'(c) = \frac{G(1) - G(r)}{1 - r} = \frac{1 - r}{1 - r} = 1. Mas G′G' é não decrescente (convexidade) com lim⁡t→1−G′(t)=m≤1\lim_{t\to1^-}G'(t) = m \leq 1, logo G′≤1G' \leq 1 em (0, 1)\intoo{0}{1}; a igualdade G′(c)=1G'(c) = 1 força então G′G' a ser constante igual a 11 em [c, 1)\intco{c}{1}, portanto G′′=∑n(n−1)pntn−2≡0G'' = \sum n(n-1)p_nt^{n-2} \equiv 0 ali. Uma série de potências com coeficientes não negativos que se anula num intervalo tem todos esses coeficientes nulos: pn=0p_n = 0 para n≥2n \geq 2, de modo que G(t)=p0+p1tG(t) = p_0 + p_1t e 1=G′(c)=p11 = G'(c) = p_1 — contradizendo a hipótese p1≠1p_1 \neq 1. Assim, 11 é o único ponto fixo: q=1q = 1.

Caso m>1m > 1: perto de 11, G(t)−tG(t) - t tem derivada G′(t)−1→m−1>0G'(t) - 1 \to m - 1 > 0 quando t→1−t \to 1^-, logo G(t)−t<G(1)−1=0G(t) - t < G(1) - 1 = 0 em algum intervalo (1−δ, 1)\intoo{1 - \delta}{1}: a função contínua G(t)−tG(t) - t vale ≥0\geq 0 em t=0t = 0 (G(0)=p0≥0G(0) = p_0 \geq 0) e é <0< 0 logo abaixo de 11, de modo que ela se anula em algum r<1r < 1 (teorema do valor intermediário). O menor ponto fixo é então q≤r<1q \leq r < 1. ∎

Probabilidades de extinção como iteração de ponto fixo q_n+1 = G(q_n) começando em q_0 = 0 (escada vermelha). À esquerda: uma lei de descendência subcrítica — a curva convexa fica acima da diagonal, e a iteração sobe até o ponto fixo único 1. À direita: uma lei supercrítica — a curva cruza a diagonal em q < 1, onde a iteração para: a sobrevivência tem probabilidade 1 - q > 0. Probabilidades de extinção como iteração de ponto fixo q_n+1 = G(q_n) começando em q_0 = 0 (escada vermelha). À esquerda: uma lei de descendência subcrítica — a curva convexa fica acima da diagonal, e a iteração sobe até o ponto fixo único 1. À direita: uma lei supercrítica — a curva cruza a diagonal em q < 1, onde a iteração para: a sobrevivência tem probabilidade 1 - q > 0.
Figura 23.1. Probabilidades de extinção como iteração de ponto fixo qn+1=G(qn)q_{n+1} = G(q_n) começando em q0=0q_0 = 0 (escada vermelha). À esquerda: uma lei de descendência subcrítica — a curva convexa fica acima da diagonal, e a iteração sobe até o ponto fixo único 11. À direita: uma lei supercrítica — a curva cruza a diagonal em q<1q < 1, onde a iteração para: a sobrevivência tem probabilidade 1−q>01 - q > 0.

Observação 23.26 (Como ler o diagrama de teia)

Na figura, um movimento vertical aplica GG (de (qn,qn)(q_n, q_n) até (qn,G(qn))(q_n, G(q_n))), e um movimento horizontal até a diagonal converte saída em entrada: a escada é a recursão qn+1=G(qn)q_{n+1} = G(q_n). A convexidade de GG e G(1)=1G(1) = 1 deixam apenas duas geometrias. Ou a curva fica acima da diagonal em [0, 1)\intco01 (média m≤1m \leq 1): a escada não tem onde parar antes de 11. Ou a curva cruza em algum q<1q < 1 (m>1m > 1): a escada fica presa abaixo do cruzamento e converge para ele, à taxa geométrica G′(q)<1G'(q) < 1 quantificada no Exemplo 23.24. Toda a análise do teorema de extinção é visível nessa única imagem — e é por isso que vale a pena desenhá-la antes de calcular.

Exemplo 23.27

Lei de descendência: nenhum filho, um filho, dois filhos com probabilidades 14,14,12\frac14, \frac14, \frac12. Então m=14+1=54>1m = \frac14 + 1 = \frac54 > 1 e G(t)=14+14t+12t2G(t) = \frac14 + \frac14 t + \frac12 t^2. Pontos fixos: 12t2−34t+14=0\frac12 t^2 - \frac34 t + \frac14 = 0, isto é, 2t2−3t+1=(2t−1)(t−1)=02t^2 - 3t + 1 = (2t - 1)(t - 1) = 0: q=12q = \frac12. A linhagem se extingue com probabilidade 12\frac12 — e com probabilidade 12\frac12 ela vive para sempre.

Observação 23.28 (Perspectivas dentro deste volume)

O capítulo é o entroncamento do livro, e cada ingrediente chegou de um lugar com nome: a álgebra de séries do Capítulo 7 e do Capítulo 11, a probabilidade do Capítulo 21 (a continuidade monótona demonstra qn↑qq_n \uparrow q) e do Capítulo 22 (GX=E(tX)G_X = \E(t^X) é uma esperança, a multiplicatividade é o teorema do produto), a convexidade do Capítulo 8 via o Capítulo 17. Até as patologias de cauda pesada se conectam: a variável de São Petersburgo do capítulo anterior tem G(t)=∑k2−kt2kG(t) = \sum_k2^{-k}t^{2^k}, uma série perfeitamente convergente em [0, 1]\intcc01 cuja derivada em 1−1^- diverge — média infinita, visível num relance. Um só objeto, todas as ferramentas do ano: um último capítulo à altura.

Observação 23.29 (Armadilhas comuns)

(i) As funções geradoras se aplicam apenas a variáveis com valores em N\N: para variáveis com sinal ou não inteiras, o objeto E(tX)\E(t^X) perde sua estrutura de série de potências (o terceiro ano o substitui por transformadas adaptadas a R\R). (ii) A primeira verificação de bom senso de qualquer GG calculada é G(1)=1G(1) = 1; a segunda é que os coeficientes sejam não negativos — um coeficiente negativo significa um deslize algébrico, não uma lei nova. (iii) Em somas aleatórias, a ordem da composição importa: GS=GN∘GXG_S = G_N \circ G_X, sendo a função externa a que conta as parcelas; compor na outra ordem não faz sentido (GX∘GNG_X \circ G_N contaria itens de itens). (iv) A multiplicatividade exige independência e fontes distintas de aleatoriedade: G2X(t)=GX(t2)G_{2X}(t) = G_X(t^2), e não GX(t)2G_X(t)^2. (v) Derivar em 11 é uma operação de bordo: quando o raio é exatamente 11, como no Exemplo 23.6, G′(1−)G'(1^-) pode ser infinita, e a formulação por limite monótono do teorema dos momentos não é um preciosismo pedante, mas o enunciado honesto.

Encerrando o volume

A função geradora é um objeto final à altura deste livro: ela é simultaneamente uma série de potências (Capítulo 11), uma ferramenta de famílias somáveis (Capítulo 7), uma esperança (Capítulo 22), uma função convexa cuja geometria decide a extinção (Capítulo 8) e uma iteração de ponto fixo (Capítulo 4). A matemática do segundo ano é um só assunto. O volume do terceiro ano de graduação abrirá as portas deliberadamente deixadas fechadas aqui: a integração de Lebesgue (quitando o teorema da convergência dominada do Capítulo 9), a probabilidade em espaços não enumeráveis à luz da teoria da medida e a demonstração completa do teorema da função inversa (Capítulo 15) no contexto da geometria diferencial.

23.5 Exercícios

Exercício 23.1 ★

Calcule a função geradora da lei uniforme em {1,2,…,6}\{1, 2, \dots, 6\} (um dado honesto). Mostre que a soma de dois dados honestos não pode ser uniforme em {2,…,12}\{2, \dots, 12\}: fatore GX+YG_{X+Y} e conte raízes. (Uma soma uniforme forçaria GX(t)GY(t)=t211∑k=010tkG_X(t)G_Y(t) = \frac{t^2}{11}\sum_{k=0}^{10}t^k, cujas raízes não nulas são as raízes 1111-ésimas da unidade distintas de 11 — nenhuma delas real — enquanto GX/tG_X/t e GY/tG_Y/t são polinômios reais de grau 55, cada um com ao menos uma raiz real.)

Solução

Solução de Exercício 23.1.

Dado honesto: G(t)=16(t+t2+⋯+t6)=t6(1+t+⋯+t5)G(t) = \frac16(t + t^2 + \dots + t^6) = \frac t6(1 + t + \dots + t^5). Se a soma de dois dados honestos fosse uniforme em {2,…,12}\{2, \dots, 12\}, então

G(t)2=t236 h(t)2=t211∑k=010tk,h(t)=1+t+⋯+t5.G(t)^2 = \frac{t^2}{36}\,h(t)^2 = \frac{t^2}{11}\sum_{k=0}^{10}t^k , \qquad h(t) = 1 + t + \dots + t^5 .

Ora, hh é um polinômio real de grau ímpar 55, de modo que tem raiz real (teorema do valor intermediário; concretamente h(−1)=0h(-1) = 0), donde h2h^2 tem uma raiz real. Mas ∑k=010tk\sum_{k=0}^{10}t^k não tem nenhuma: ele é positivo para t≥0t \geq 0 e, para t<0t < 0, vale t11−1t−1\frac{t^{11} - 1}{t - 1}, um quociente de dois números negativos. Contradição — a soma de dois dados honestos nunca é uniforme (como confirma a familiar distribuição triangular das somas de dados).

Exercício 23.2 ★

Usando funções geradoras, recupere E\E e VV para as leis binomial e geométrica (Teorema 23.7).

Solução

Solução de Exercício 23.2.

Binomial: G(t)=(1−p+pt)nG(t) = (1 - p + pt)^n, G′(t)=np(1−p+pt)n−1G'(t) = np(1 - p + pt)^{n-1}, G′′(t)=n(n−1)p2(1−p+pt)n−2G''(t) = n(n-1)p^2(1 - p + pt)^{n-2}, logo

E(X)=G′(1)=np,V(X)=G′′(1)+G′(1)−G′(1)2=n(n−1)p2+np−n2p2=np(1−p).\E(X) = G'(1) = np, \qquad V(X) = G''(1) + G'(1) - G'(1)^2 = n(n-1)p^2 + np - n^2p^2 = np(1-p).

Geométrica (q=1−pq = 1 - p): G(t)=pt1−qtG(t) = \frac{pt}{1 - qt}, logo G′(t)=p(1−qt)2G'(t) = \frac{p}{(1 - qt)^2} e G′′(t)=2pq(1−qt)3G''(t) = \frac{2pq}{(1 - qt)^3}; em t=1t = 1 (usando 1−q=p1 - q = p):

E(X)=pp2=1p,V(X)=2qp2+1p−1p2=2q+p−1p2=qp2,\E(X) = \frac{p}{p^2} = \frac1p, \qquad V(X) = \frac{2q}{p^2} + \frac1p - \frac{1}{p^2} = \frac{2q + p - 1}{p^2} = \frac{q}{p^2} ,

coincidindo com o Exercício 22.1 com menos trabalho.

Exercício 23.3 ★

Dois dados viciados: é possível viciar dois dados (independentemente, de modo idêntico ou não) para que sua soma seja uniforme em {2,…,12}\{2, \dots, 12\}? (A mesma obstrução por fatoração do Exercício 23.1: a resposta é não mesmo com viciamentos diferentes, pois cada fator GX(t)/tG_X(t)/t tem grau ímpar 55, logo uma raiz real, enquanto o alvo não tem nenhuma.)

Solução

Solução de Exercício 23.3.

Não, nem mesmo com viciamentos diferentes. Suponha que X,YX, Y sejam leis em {1,…,6}\{1, \dots, 6\} de soma uniforme. Então GX(t)=t a(t)G_X(t) = t\,a(t) e GY(t)=t b(t)G_Y(t) = t\,b(t) com a,ba, b polinômios reais de grau no máximo 55 — e seus graus devem somar 1010 (a soma atinge 1212 com probabilidade positiva), logo deg⁡a=deg⁡b=5\deg a = \deg b = 5, ambos ímpares. Como no Exercício 23.1,

a(t) b(t)=111∑k=010tka(t)\,b(t) = \frac{1}{11}\sum_{k=0}^{10}t^k

forçaria uma raiz real à esquerda (todo polinômio real de grau ímpar tem uma) e nenhuma à direita. Assim, nenhum viciamento de dois dados independentes — iguais ou não — produz soma uniforme.

Exercício 23.4 ★★

Sejam X1,X2,…X_1, X_2, \dots variáveis de Bernoulli B(p)\mathcal{B}(p) independentes e N∼P(λ)N \sim \mathcal{P}(\lambda) independente delas. Mostre, via o Teorema 23.17, que S=X1+⋯+XN∼P(λp)S = X_1 + \dots + X_N \sim \mathcal{P}(\lambda p): um número de Poisson de itens, cada um mantido com probabilidade pp, deixa um número de Poisson — o afinamento. Calcule também a lei da contagem descartada e admire: ela é P(λ(1−p))\mathcal{P}(\lambda(1-p)), e pode-se mostrar que é independente de SS.

Solução

Solução de Exercício 23.4.

Pelo Teorema 23.17 com GN(s)=eλ(s−1)G_N(s) = e^{\lambda(s-1)} e GX(t)=1−p+ptG_X(t) = 1 - p + pt:

GS(t)=eλ(1−p+pt−1)=eλp(t−1):G_S(t) = e^{\lambda(1 - p + pt - 1)} = e^{\lambda p(t - 1)} :

S∼P(λp)S \sim \mathcal{P}(\lambda p). A contagem descartada D=N−SD = N - S conta os mesmos itens mantidos com probabilidade 1−p1 - p, de modo que, pelo mesmo cálculo, D∼P(λ(1−p))D \sim \mathcal{P}(\lambda(1 - p)). Independência, diretamente: para j,k∈Nj, k \in \N,

P(S=j, D=k)=P(N=j+k) (j+kj)pjqk=e−λλj+k(j+k)! (j+k)!j! k! pjqk=(e−λp(λp)jj!)(e−λq(λq)kk!)\begin{align*} \P(S = j,\ D = k) &= \P(N = j + k)\,\binom{j+k}{j}p^jq^k = e^{-\lambda}\frac{\lambda^{j+k}}{(j+k)!}\, \frac{(j+k)!}{j!\,k!}\,p^jq^k\\ &= \Bigl(e^{-\lambda p}\frac{(\lambda p)^j}{j!}\Bigr) \Bigl(e^{-\lambda q}\frac{(\lambda q)^k}{k!}\Bigr) \end{align*}

com q=1−pq = 1 - p: a lei conjunta se fatora como P(λp)⊗P(λq)\mathcal{P}(\lambda p) \otimes \mathcal{P}(\lambda q). Um fluxo de Poisson dividido ao acaso dá fluxos de Poisson independentes — um pequeno milagre constantemente usado na teoria das filas.

Exercício 23.5 ★★

(Binomial negativa) Seja TrT_r o número de lançamentos para obter rr caras (probabilidade de cara pp). Escreva TrT_r como soma de rr variáveis geométricas independentes, deduza

GTr(t)=(pt1−(1−p)t)r,E(Tr)=rp,V(Tr)=r(1−p)p2,G_{T_r}(t) = \Bigl(\frac{pt}{1 - (1-p)t}\Bigr)^{r}, \qquad \E(T_r) = \frac rp, \qquad V(T_r) = \frac{r(1-p)}{p^2},

e desenvolva GTrG_{T_r} para achar P(Tr=n)=(n−1r−1)pr(1−p)n−r\P(T_r = n) = \binom{n-1}{r-1} p^r(1-p)^{n-r}.

Solução

Solução de Exercício 23.5.

Os tempos de espera entre caras consecutivas são variáveis geométricas G(p)\mathcal{G}(p) independentes (ausência de memória: após cada cara o jogo recomeça), de modo que Tr=W1+⋯+WrT_r = W_1 + \dots + W_r e a multiplicatividade (Teorema 23.10) dá

GTr(t)=(pt1−qt)r,E(Tr)=r E(W1)=rp,V(Tr)=r V(W1)=rqp2G_{T_r}(t) = \Bigl(\frac{pt}{1 - qt}\Bigr)^{r}, \qquad \E(T_r) = r\,\E(W_1) = \frac rp, \qquad V(T_r) = r\,V(W_1) = \frac{rq}{p^2}

(q=1−pq = 1 - p; as variâncias se somam por independência). Desenvolvimento: pela série binomial generalizada (Capítulo 11), (1−qt)−r=∑m≥0(m+r−1r−1)qmtm(1 - qt)^{-r} = \sum_{m\geq0} \binom{m + r - 1}{r - 1}q^mt^m, de modo que o coeficiente de tnt^n em prtr(1−qt)−rp^rt^r(1 - qt)^{-r} é (com m=n−rm = n - r)

P(Tr=n)=(n−1r−1)pr(1−p)n−r,n≥r,\P(T_r = n) = \binom{n-1}{r-1}p^r(1-p)^{n-r}, \qquad n \geq r ,

a lei binomial negativa — combinatoriamente: a rr-ésima cara cai no lançamento nn se e somente se as r−1r - 1 caras anteriores escolhem seus lugares entre os n−1n - 1 primeiros lançamentos.

Exercício 23.6 ★★

Para a lei de descendência p0=18p_0 = \frac18, p1=38p_1 = \frac38, p2=38p_2 = \frac38, p3=18p_3 = \frac18: calcule mm, decida a supercriticalidade e calcule exatamente a probabilidade de extinção qq. (Fatore a raiz t=1t = 1 de G(t)−tG(t) - t.)

Solução

Solução de Exercício 23.6.

m=1⋅38+2⋅38+3⋅18=3+6+38=32>1m = 1\cdot\frac38 + 2\cdot\frac38 + 3\cdot\frac18 = \frac{3 + 6 + 3}{8} = \frac32 > 1: supercrítico. A função geradora é

G(t)=1+3t+3t2+t38=(1+t)38,G(t) = \frac{1 + 3t + 3t^2 + t^3}{8} = \frac{(1 + t)^3}{8} ,

de modo que os pontos fixos resolvem (1+t)3=8t(1 + t)^3 = 8t, isto é, t3+3t2−5t+1=0t^3 + 3t^2 - 5t + 1 = 0. Fatorando a raiz garantida t=1t = 1:

t3+3t2−5t+1=(t−1)(t2+4t−1),t^3 + 3t^2 - 5t + 1 = (t - 1)\bigl(t^2 + 4t - 1\bigr),

e t2+4t−1=0t^2 + 4t - 1 = 0 dá t=−2±5t = -2 \pm \sqrt5. A raiz em [0, 1)\intco{0}{1} é 5−2≈0.236\sqrt5 - 2 \approx 0.236: pelo Teorema 23.25,

q=5−2.q = \sqrt 5 - 2 .

(Uma verificação agradável: a lei de descendência é a de 33 moedas honestas independentes, Z1∼B(3,12)Z_1 \sim \mathcal{B}(3, \frac12).)

Exercício 23.7 ★★★

(Prole total) Num processo de ramificação subcrítico (m<1m < 1), seja Y=∑n≥0ZnY = \sum_{n\geq0} Z_n o número total de indivíduos jamais nascidos. Mostre que E(Y)=∑nmn=11−m\E(Y) = \sum_n m^n = \frac{1}{1 - m} (justifique a troca de somas) e demonstre que a função geradora H=GYH = G_Y satisfaz a equação funcional H(t)=t G(H(t))H(t) = t\,G(H(t)). (O ancestral, mais as proles totais de cada um de seus filhos, que são cópias independentes de YY.)

Solução

Solução de Exercício 23.7.

Esperança. Primeiro E(Zn)=mn\E(Z_n) = m^n: pelo Teorema 23.17, E(Zn+1)=E(Zn) m\E(Z_{n+1}) = \E(Z_n)\,m, e E(Z0)=1\E(Z_0) = 1. A família (Zn(ω)P({ω}))n,ω\bigl(Z_n(\omega)\P(\{\omega\}) \bigr)_{n, \omega} é não negativa, de modo que Fubini para famílias se aplica sem condições:

E(Y)=∑n=0∞E(Zn)=∑n=0∞mn=11−m<∞\E(Y) = \sum_{n=0}^{\infty}\E(Z_n) = \sum_{n=0}^\infty m^n = \frac{1}{1 - m} < \infty

(em particular, YY é quase certamente finita: coerente com a extinção certa no caso subcrítico).

Equação funcional. Decomponha a população pelos filhos do ancestral: se o ancestral tem Z1=kZ_1 = k filhos, a prole total é Y=1+Y1+⋯+YkY = 1 + Y_1 + \dots + Y_k, em que YiY_i é a prole total da linhagem do ii-ésimo filho — e as YiY_i são cópias independentes de YY, independentes de Z1Z_1 (linhagens distintas usam eventos de reprodução disjuntos e independentes). Condicionando a Z1Z_1 como no Teorema 23.17:

H(t)=E(tY)=t∑k=0∞P(Z1=k) H(t)k=t G(H(t)),H(t) = \E\bigl(t^Y\bigr) = t\sum_{k=0}^\infty \P(Z_1 = k)\,H(t)^k = t\,G\bigl(H(t)\bigr),

com o fator tt contabilizando o próprio ancestral. (Para a lei p0=1−pp_0 = 1 - p, p2=pp_2 = p da ramificação binária, essa equação quadrática em HH pode ser resolvida explicitamente e desenvolvida — os números de Catalan do Capítulo 11 contam as árvores genealógicas.)

Exercício 23.8 ★★★

Seja XX com função geradora GG de raio de convergência >1> 1. Demonstre a cota exponencial de cauda: existem C>0C > 0 e ρ∈(0, 1)\rho \in \intoo{0}{1} com P(X≥n)≤Cρn\P(X \geq n) \leq C\rho^n. (Markov aplicado a tXt^X para um t>1t > 1 fixo dentro do disco.) Reciprocamente, mostre que, se P(X≥n)≤Cρn\P(X \geq n) \leq C\rho^n com ρ<1\rho < 1, o raio de GG é ≥1/ρ>1\geq 1/\rho > 1.

Solução

Solução de Exercício 23.8.

Seja R>1R > 1 o raio e fixe t∈(1, R)t \in \intoo{1}{R}. Então E(tX)=G(t)<∞\E(t^X) = G(t) < \infty, e a desigualdade de Markov (Teorema 22.15) aplicada à variável não negativa tXt^X no nível tnt^n:

P(X≥n)=P(tX≥tn)≤G(t)tn=Cρn,C=G(t),ρ=1t∈(0, 1).\P(X \geq n) = \P\bigl(t^X \geq t^n\bigr) \leq \frac{G(t)}{t^n} = C\rho^n, \qquad C = G(t),\quad \rho = \frac1t \in \intoo{0}{1}.

Recíproca: se P(X≥n)≤Cρn\P(X \geq n) \leq C\rho^n, então pn≤P(X≥n)≤Cρnp_n \leq \P(X \geq n) \leq C\rho^n, de modo que, para ∣t∣<1ρ\abs t < \frac1\rho, a série ∑pn∣t∣n\sum p_n\abs t^n é dominada pela série geométrica convergente C∑(ρ∣t∣)nC\sum(\rho\abs t)^n: o raio é ao menos 1ρ>1\frac1\rho > 1. O raio da função geradora e o decaimento geométrico da cauda são duas faces da mesma propriedade.

Exercício 23.9 ★★★

(Teorema de continuidade, caso elementar) Sejam X,X1,X2,…X, X_1, X_2, \dots variáveis com valores em N\N tais que GXn(t)→GX(t)G_{X_n}(t) \to G_X(t) para todo t∈[0, 1)t \in \intco{0}{1}. Mostre que P(Xn=k)→P(X=k)\P(X_n = k) \to \P(X = k) para todo kk. (Indução em kk: para k=0k = 0 tome t→0t \to 0 — com cuidado: fixe tt pequeno, use ∣P(Xn=0)−GXn(t)∣≤t1−t\abs{\P(X_n = 0) - G_{X_n}(t)} \leq \frac{t}{1-t}, válido pois a cauda ∑j≥1pjtj≤t1−t\sum_{j \geq 1}p_jt^j \leq \frac{t}{1 - t}; depois diagonalize. Para o passo de indução, considere G(t)−P(X=0)t\frac{G(t) - \P(X = 0)}{t}, a função geradora de uma lei deslocada.)

Solução

Solução de Exercício 23.9.

Escreva pk(n)=P(Xn=k)p_k^{(n)} = \P(X_n = k), pk=P(X=k)p_k = \P(X = k).

Caso k=0k = 0. Para t∈(0, 1)t \in \intoo{0}{1} e qualquer lei (qj)(q_j) com ∑jqj≤1\sum_j q_j \leq 1:

∣ q0−∑jqjtj∣=∑j≥1qjtj≤∑j≥1tj=t1−t.\Bigl|\,q_0 - \sum_j q_jt^j\Bigr| = \sum_{j \geq 1} q_j t^j \leq \sum_{j\geq1}t^j = \frac{t}{1 - t} .

Portanto

∣p0(n)−p0∣≤2t1−t+∣GXn(t)−GX(t)∣.\abs{p_0^{(n)} - p_0} \leq \frac{2t}{1 - t} + \abs{G_{X_n}(t) - G_X(t)} .

Dado ε>0\varepsilon > 0, escolha tt com 2t1−t<ε2\frac{2t}{1-t} < \frac\varepsilon2 e depois n0n_0 tal que o último termo seja <ε2< \frac\varepsilon2 para n≥n0n \geq n_0: logo p0(n)→p0p_0^{(n)} \to p_0.

Passo de indução. Suponha pj(n)→pjp_j^{(n)} \to p_j para j<kj < k. Considere as funções deslocadas

gn(t)=GXn(t)−p0(n)t=∑j≥0pj+1(n)tj,g(t)=GX(t)−p0t,g_n(t) = \frac{G_{X_n}(t) - p^{(n)}_0}{t} = \sum_{j\geq0} p^{(n)}_{j+1}t^j, \qquad g(t) = \frac{G_X(t) - p_0}{t} ,

funções geradoras das sequências de subprobabilidade (pj+1(n))j(p^{(n)}_{j+1})_j (massa total ≤1\leq 1, que é tudo o que o argumento de k=0k = 0 usou). Para t∈(0, 1)t \in \intoo{0}{1} fixo, gn(t)→g(t)g_n(t) \to g(t) por hipótese e pelo caso k=0k = 0. Aplicar o argumento de k=0k = 0 a gng_n dá p1(n)→p1p_1^{(n)} \to p_1; iterar o deslocamento kk vezes dá pk(n)→pkp_k^{(n)} \to p_k para todo kk. (Essa é a instância discreta e elementar do teorema da continuidade de Lévy, cuja forma geral — para funções características — é um marco do terceiro ano.)

Exercício 23.10 ★

(Truque da paridade) Mostre que, para uma variável XX com valores em N\N,

P(X par)=1+GX(−1)2,\P(X \text{ par}) = \frac{1 + G_X(-1)}{2} ,

e calcule essa probabilidade para X∼P(λ)X \sim \mathcal P(\lambda) e X∼B(n,p)X \sim \mathcal B(n, p). O que significa GX(−1)→0G_X(-1) \to 0 probabilisticamente?

Solução

Solução de Exercício 23.10.

Pontualmente, 1+(−1)X2\frac{1 + (-1)^X}{2} vale 11 quando XX é par e 00 quando é ímpar, de modo que, tomando esperanças (transferência),

P(X par)=1+E((−1)X)2=1+GX(−1)2.\P(X \text{ par}) = \frac{1 + \E\bigl((-1)^X\bigr)}2 = \frac{1 + G_X(-1)}2 .

Poisson: 1+e−2λ2→12\frac{1 + \eu^{-2\lambda}}2 \to \frac12 quando λ\lambda cresce. Binomial: 1+(1−2p)n2\frac{1 + (1 - 2p)^n}2. Nos dois casos, GX(−1)→0G_X(-1) \to 0 diz que a paridade de XX se torna uma moeda honesta: a lei se espalha por muitos inteiros e esquece sua paridade.

Exercício 23.11 ★★

(Dados de Sicherman) Verifique a fatoração da função geradora do dado honesto

t+t2+⋯+t66=t (1+t)(1+t+t2)(1−t+t2)6,\frac{t + t^2 + \dots + t^6}{6} = \frac{t\,(1 + t)(1 + t + t^2)(1 - t + t^2)}{6},

e mostre que os dois dados de faces {1,2,2,3,3,4}\{1, 2, 2, 3, 3, 4\} e {1,3,4,5,6,8}\{1, 3, 4, 5, 6, 8\} têm funções geradoras t(1+t)(1+t+t2)6\frac{t(1+t)(1+t+t^2)}6 e t(1+t)(1+t+t2)(1−t+t2)26\frac{t(1+t)(1+t+t^2)(1-t+t^2)^2}6, cujo produto é o de dois dados padrão: esses dados exóticos produzem todo total 2,…,122, \dots, 12 com exatamente as probabilidades padrão.

Solução

Solução de Exercício 23.11.

t+⋯+t6=t 1−t61−tt + \dots + t^6 = t\,\frac{1 - t^6}{1 - t} e 1−t6=(1−t)(1+t)(1+t+t2)(1−t+t2)1 - t^6 = (1 - t)(1 + t)(1 + t + t^2)(1 - t + t^2), o que dá a fatoração anunciada. Para o primeiro dado, (1+t)(1+t+t2)=1+2t+2t2+t3(1 + t)(1 + t + t^2) = 1 + 2t + 2t^2 + t^3, logo t(1+t)(1+t+t2)6=t+2t2+2t3+t46\frac{t(1+t)(1+t+t^2)}6 = \frac{t + 2t^2 + 2t^3 + t^4}6: faces {1,2,2,3,3,4}\{1, 2, 2, 3, 3, 4\}. Para o segundo, desenvolvendo

(1+2t+2t2+t3)(1−t+t2)2=1+t2+t3+t4+t5+t7,(1 + 2t + 2t^2 + t^3)(1 - t + t^2)^2 = 1 + t^2 + t^3 + t^4 + t^5 + t^7,

logo t(1+t)(1+t+t2)(1−t+t2)26=t+t3+t4+t5+t6+t86\frac{t(1+t)(1+t+t^2)(1-t+t^2)^2}6 = \frac{t + t^3 + t^4 + t^5 + t^6 + t^8}6: faces {1,3,4,5,6,8}\{1, 3, 4, 5, 6, 8\}. O produto das duas funções geradoras reagrupa os seis fatores em (t(1+t)(1+t+t2)(1−t+t2)6)2\bigl(\frac{t(1+t)(1+t+t^2)(1-t+t^2)}6 \bigr)^2, o quadrado da função do dado padrão: o par de Sicherman tem exatamente a lei padrão para o total — as funções geradoras classificam todos esses reagrupamentos.

Exercício 23.12 ★★★

(Esperando duas caras seguidas) Uma moeda com probabilidade de cara pp é lançada até aparecerem duas caras consecutivas; seja TT o número de lançamentos (o jogo do Exercício 21.6). Condicionando aos primeiros lançamentos, deduza um sistema linear para as funções geradoras a partir dos estados “nenhuma cara corrente” e “uma cara corrente”, e conclua que

GT(t)=p2t21−qt−pqt2(q=1−p);G_T(t) = \frac{p^2t^2}{1 - qt - pqt^2} \qquad (q = 1 - p);

verifique GT(1)=1G_T(1) = 1 e E(T)=1+pp2\E(T) = \dfrac{1 + p}{p^2} (=6= 6 para uma moeda honesta).

Solução

Solução de Exercício 23.12.

Sejam AA e BB as funções geradoras da duração restante a partir de “nenhuma cara corrente” e de “uma cara corrente”. Gasta-se um lançamento e então: do estado 00, coroa retorna ao estado 00 e cara move ao estado 11; do estado 11, cara encerra o jogo e coroa retorna ao estado 00:

A(t)=t(q A(t)+p B(t)),B(t)=t(p+q A(t)).A(t) = t\bigl(q\,A(t) + p\,B(t)\bigr), \qquad B(t) = t\bigl(p + q\,A(t)\bigr).

Substituindo: A(1−qt)=pt B=pt(pt+qtA)A(1 - qt) = pt\,B = pt(pt + qtA), logo

GT(t)=A(t)=p2t21−qt−pq t2.G_T(t) = A(t) = \frac{p^2t^2}{1 - qt - pq\,t^2} .

Em t=1t = 1 o denominador vale 1−q−pq=p(1−q)=p21 - q - pq = p(1 - q) = p^2: GT(1)=1G_T(1) = 1, o jogo termina quase certamente (como o Exercício 21.6 mostrou por recursão). Derivação logarítmica em 11: E(T)=2−D′(1)D(1)\E(T) = 2 - \frac{D'(1)}{D(1)} com D(t)=1−qt−pqt2D(t) = 1 - qt - pqt^2, D′(1)=−q−2pqD'(1) = -q - 2pq:

E(T)=2+q+2pqp2=2p2+q+2pqp2=1+pp2,\E(T) = 2 + \frac{q + 2pq}{p^2} = \frac{2p^2 + q + 2pq}{p^2} = \frac{1 + p}{p^2},

que vale 66 para p=12p = \frac12.

23.6 Problema: o processo de Galton–Watson, resolvido

Problema 23.1

Problema de fim de semana — taxas de crescimento, soluções exatas, prole total e a estimativa crítica de Kolmogorov

O critério de extinção (Teorema 23.25) separa os processos de ramificação em subcríticos, críticos e supercríticos — mas nada diz sobre taxas: quão rápido morre uma linhagem condenada, quão grande cresce uma sobrevivente. Este problema as calcula. Mantemos a notação do capítulo: lei de descendência (pk)(p_k) com função geradora GG, média m=G′(1)m = G'(1), tamanhos de geração ZnZ_n (Z0=1Z_0 = 1), iterados Gn=GZnG_n = G_{Z_n}, probabilidades de extinção qn=P(Zn=0)↑qq_n = \P(Z_n = 0) \uparrow q; supomos sempre p1≠1p_1 \neq 1 e, onde aparecem momentos de segunda ordem, G′′(1)<∞G''(1) < \infty, e escrevemos σ2=V(Z1)\sigma^2 = V(Z_1).

Parte I — Momentos das gerações.

  1. Mostre que E(Zn)=mn\E(Z_n) = m^n (regra da cadeia em Gn=G∘Gn−1G_n = G \circ G_{n-1} em 1−1^-, usando Gn−1(1)=1G_{n-1}(1) = 1 e Teorema 23.7).
  2. Estabeleça a recursão Gn′′(1)=G′′(1) m2(n−1)+m Gn−1′′(1)G_n''(1) = G''(1)\,m^{2(n-1)} + m\,G_{n-1}''(1) e resolva-a: Gn′′(1)=G′′(1) mn−1mn−1m−1G_n''(1) = G''(1)\,m^{n-1}\dfrac{m^n - 1}{m - 1} para m≠1m \neq 1, e Gn′′(1)=n G′′(1)G_n''(1) = n\,G''(1) para m=1m = 1.
  3. Deduza

    V(Zn)=σ2mn−1 mn−1m−1(m≠1),V(Zn)=n σ2(m=1).V(Z_n) = \sigma^2m^{n-1}\,\frac{m^n - 1}{m - 1} \quad (m \neq 1), \qquad V(Z_n) = n\,\sigma^2 \quad (m = 1).
  4. (Taxa subcrítica, cota superior) Para m<1m < 1, mostre que P(Zn>0)≤mn\P(Z_n > 0) \leq m^n (Markov na variável ZnZ_n com valores inteiros): a extinção é certa com uma taxa geométrica — um refinamento quantitativo do critério do capítulo.
  5. (Taxa subcrítica, cota inferior) Usando Cauchy–Schwarz em Zn1Zn>0Z_n\mathbf 1_{Z_n > 0}, mostre que

    P(Zn>0)≥E(Zn)2E(Zn2)≥c mncomc=(σ2m(1−m)+1)−1:\P(Z_n > 0) \geq \frac{\E(Z_n)^2}{\E(Z_n^2)} \geq c\,m^{n} \quad\text{com}\quad c = \Bigl(\frac{\sigma^2}{m(1-m)} + 1\Bigr)^{-1} :

    a taxa geométrica mnm^n é exata a menos de constantes.

Parte II — A família geométrica, resolvida exatamente. Seja a lei de descendência geométrica em N\N: pk=qpkp_k = qp^k (k≥0k \geq 0), com 0<p<10 < p < 1, q=1−pq = 1 - p.

  1. Calcule G(t)=q1−ptG(t) = \dfrac{q}{1 - pt} e m=pqm = \dfrac pq; localize os três regimes em termos de pp.
  2. Resolva G(t)=tG(t) = t: mostre que os pontos fixos são 11 e q/p=1/mq/p = 1/m, e recupere a probabilidade de extinção qext=min⁡(1,1/m)q_{\mathrm{ext}} = \min(1, 1/m).
  3. Demonstre por indução as formas fechadas

    qn=mn−1mn+1−1(m≠1),qn=nn+1(m=1).q_n = \frac{m^n - 1}{m^{n+1} - 1} \quad (m \neq 1), \qquad q_n = \frac{n}{n+1} \quad (m = 1).
  4. Deduza as taxas exatas: 1−qn∼(1−m) mn1 - q_n \sim (1 - m)\,m^n no caso subcrítico, e qext−qn∼m−1m2⋅m−nq_{\mathrm{ext}} - q_n \sim \dfrac{m - 1}{m^{2}}\cdot m^{-n} no caso supercrítico; verifique que a razão de contração supercrítica é G′(qext)=1/mG'(q_{\mathrm{ext}}) = 1/m.
  5. Caso crítico (p=12p = \tfrac12): calcule σ2=2\sigma^2 = 2 e note que 1−qn=1n+11 - q_n = \frac1{n+1}: a sobrevivência decai como 1n\frac1n — nem geométrica nem somável.
  6. Ainda no caso crítico: demonstre por indução o iterado completo

    Gn(t)=n−(n−1)tn+1−nt,G_n(t) = \frac{n - (n-1)t}{n + 1 - nt},

    e deduza que, condicionado à sobrevivência, ZnZ_n é geométrico em N∗\N^* de parâmetro 1n+1\frac1{n+1}:

    P(Zn=k∣Zn>0)=1n+1(nn+1)k−1,E(Zn∣Zn>0)=n+1.\P(Z_n = k \mid Z_n > 0) = \frac1{n+1} \Bigl(\frac{n}{n+1}\Bigr)^{k-1}, \qquad \E(Z_n \mid Z_n > 0) = n + 1 .

    A linhagem média morre, mas as linhagens sobreviventes têm tamanho da ordem de nn.

Parte III — Prole total. Seja Y=∑n≥0Zn∈N∗∪{∞}Y = \sum_{n\geq0}Z_n \in \N^* \cup \{\infty\} o número total de indivíduos jamais nascidos, e H(t)=∑k≥1P(Y=k)tkH(t) = \sum_{k\geq1}\P(Y = k)t^k.

  1. Justifique P(Y<∞)=qext\P(Y < \infty) = q_{\mathrm{ext}} e recorde do Exercício 23.7 a equação funcional H(t)=t G(H(t))H(t) = t\,G(H(t)) (cuja dedução não usou m<1m < 1).
  2. (Ramificação binária) Para p0=p2=12p_0 = p_2 = \frac12 (crítico), resolva a equação funcional:

    H(t)=1−1−t2t,H(t) = \frac{1 - \sqrt{1 - t^2}}{t},

    e desenvolva com Exemplo 11.21 para obter

    P(Y=2k+1)=Ck22k+1,Ck=1k+1(2kk);\P(Y = 2k + 1) = \frac{C_k}{2^{2k+1}}, \qquad C_k = \frac1{k+1}\binom{2k}k ;

    confira os valores P(Y=1)=12\P(Y = 1) = \frac12 e P(Y=3)=18\P(Y = 3) = \frac18 por contagem direta.

  3. Derivando a equação funcional em 1−1^-, mostre que E(Y)=11−m\E(Y) = \frac{1}{1-m} para m<1m < 1, enquanto a criticalidade força E(Y)=∞\E(Y) = \infty: a prole total crítica é finita quase certamente com média infinita.
  4. Com a assintótica do binomial central (Exemplo 6.14), mostre que

    P(Y=2k+1)∼12π k3/2,\P(Y = 2k+1) \sim \frac{1}{2\sqrt\pi\,k^{3/2}},

    uma cauda pesada em k−3/2k^{-3/2}, e deduza P(Y>n)≍n−1/2\P(Y > n) \asymp n^{-1/2} (cotas superior e inferior dessa ordem bastam).

  5. Compare com o passeio aleatório honesto (o problema de fim de semana do Capítulo 21): lá tempos de retorno certos mas de média infinita, aqui prole total certa mas de média infinita, ambos com leis locais em n−3/2n^{-3/2}. Um parágrafo sobre por que a criticalidade produz essa assinatura.

Parte IV — A estimativa de Kolmogorov na criticalidade. Suponha m=1m = 1, 0<σ2=G′′(1)<∞0 < \sigma^2 = G''(1) < \infty.

  1. Mostre que G′′G'' se estende continuamente a [0, 1]\intcc01 (não negativa, crescente e com limite finito) e deduza o desenvolvimento de Taylor em 11:

    G(t)=t+b (1−t)2+o((1−t)2),b=G′′(1)2=σ22.G(t) = t + b\,(1-t)^2 + o\bigl((1-t)^2\bigr), \qquad b = \frac{G''(1)}2 = \frac{\sigma^2}2 .
  2. Para t∈[0, 1)t \in \intco01, ponha h(t)=11−G(t)−11−th(t) = \dfrac1{1 - G(t)} - \dfrac1{1 - t}. Mostre que

    h(t)=G(t)−t(1−G(t))(1−t)→t→1−b.h(t) = \frac{G(t) - t}{(1 - G(t))(1 - t)} \xrightarrow[t\to1^-]{} b .
  3. Telescope ao longo da iteração qj+1=G(qj)q_{j+1} = G(q_j):

    11−qn=1+∑j=0n−1h(qj),\frac1{1 - q_n} = 1 + \sum_{j=0}^{n-1}h(q_j),

    e conclua, com um argumento de Cesàro, que

    P(Zn>0)=1−qn∼2σ2 n\P(Z_n > 0) = 1 - q_n \sim \frac{2}{\sigma^2\,n}

    — a estimativa de Kolmogorov: todo processo de ramificação crítico morre à taxa universal 1/n1/n, com apenas a constante lembrando a lei de descendência.

  4. Confira a estimativa contra o caso geométrico crítico da questão 10.
  5. Deduza E(Zn∣Zn>0)=11−qn∼σ2n2\E(Z_n \mid Z_n > 0) = \dfrac{1}{1 - q_n} \sim \dfrac{\sigma^2 n}{2} (note que E(Zn1Zn>0)=E(Zn)=1\E(Z_n \mathbf 1_{Z_n>0}) = \E(Z_n) = 1) e confira-a contra a questão 11: condicionada à sobrevivência, a população cresce linearmente — a corda bamba crítica entre a morte e a explosão.

Parte V — Aplicações e síntese.

  1. (Epidemias, reações em cadeia) Para uma lei de descendência de Poisson P(λ)\mathcal P(\lambda) — cada caso infecta P(λ)\mathcal P(\lambda) novos casos — escreva a equação de extinção q=eλ(q−1)q = \eu^{\lambda(q-1)} e resolva-a numericamente para λ=1.5\lambda = 1.5 (q≈0.417q \approx 0.417) e λ=2\lambda = 2 (q≈0.203q \approx 0.203): partindo de um único caso, um surto grande não é certo nem mesmo quando λ>1\lambda > 1. Explique por que a iteração qn+1=eλ(qn−1)q_{n+1} = \eu^{\lambda(q_n - 1)} a partir de q0=0q_0 = 0 converge para a raiz certa.
  2. Partindo de kk ancestrais em vez de um, mostre que a probabilidade de extinção é qkq^k. Aplicação: com λ=1.5\lambda = 1.5, quantos casos iniciais tornam um surto ao menos 99%99\% provável?
  3. (Condicionando um processo supercrítico à extinção) Para m>1m > 1 com probabilidade de extinção q∈(0, 1)q \in \intoo01: demonstre primeiro, por convexidade, que G′(q)<1G'(q) < 1 no menor ponto fixo, e deduza qext−qn=O(G′(q)n)q_{\mathrm{ext}} - q_n = O\bigl(G'(q)^n\bigr) (convergência geométrica, como exemplificou a questão 9). Mostre então que G^(t)=G(qt)/q\widehat G(t) = G(qt)/q é a função geradora de uma lei de descendência legítima, de média m^=G′(q)<1\widehat m = G'(q) < 1: um processo companheiro subcrítico. Verifique na família geométrica: condicionar o processo supercrítico em (p,q)(p, q) à extinção troca pp e qq. (O enunciado completo — o processo condicionado é o processo companheiro — é demonstrado no volume do terceiro ano de graduação; aqui você verificou sua sombra em funções geradoras.)
  4. Síntese: monte a tabela da tricotomia — para m<1m < 1, m=1m = 1, m>1m > 1: valor de qq; taxa de P(Zn>0)\P(Z_n > 0) ou de q−qnq - q_n; E(Y)\E(Y); tamanho de uma geração sobrevivente. Enuncie, em uma frase por ferramenta, como a composição de funções geradoras, a convexidade, Taylor em 1−1^- e a média de Cesàro carregaram todo o problema, e o que o volume do terceiro ano de graduação acrescenta (o martingal Zn/mnZ_n/m^n e a lei limite exponencial de Yaglom).
Solução

Solução de Problema 23.1.

1. Para t∈(0, 1)t \in \intoo01, a regra da cadeia em Gn=G∘Gn−1G_n = G \circ G_{n-1} dá Gn′(t)=G′(Gn−1(t))Gn−1′(t)G_n'(t) = G'\bigl(G_{n-1}(t)\bigr)G_{n-1}'(t). Quando t→1−t \to 1^-, Gn−1(t)↑1G_{n-1}(t) \uparrow 1, e G′G' é não decrescente com limite à esquerda mm em 11, de modo que o primeiro fator tende a mm; por indução o segundo tende a mn−1m^{n-1}. Pelo Teorema 23.7, E(Zn)=Gn′(1−)=mn\E(Z_n) = G_n'(1^-) = m^n.

2. Derivando mais uma vez,

Gn′′=G′′(Gn−1) (Gn−1′)2+G′(Gn−1) Gn−1′′,G_n'' = G''(G_{n-1})\,(G_{n-1}')^2 + G'(G_{n-1})\,G_{n-1}'',

e fazendo t→1−t \to 1^-: an=G′′(1)m2(n−1)+m an−1a_n = G''(1)m^{2(n-1)} + m\, a_{n-1} com an=Gn′′(1)a_n = G_n''(1), a1=G′′(1)a_1 = G''(1). Para m≠1m \neq 1 verifica-se por indução que an=G′′(1) mn−1mn−1m−1a_n = G''(1)\,m^{n-1} \frac{m^n - 1}{m - 1} (a recursão acrescenta G′′(1)m2n−2G''(1)m^{2n-2} a m⋅G′′(1)mn−2mn−1−1m−1m\cdot G''(1)m^{n-2}\frac{m^{n-1}-1}{m-1}, e mn−1+mn−1−1m−1=mn−1m−1m^{n-1} + \frac{m^{n-1}-1}{m-1} = \frac{m^n - 1}{m-1}); para m=1m = 1, an=an−1+G′′(1)=n G′′(1)a_n = a_{n-1} + G''(1) = n\,G''(1).

3. V(Zn)=an+mn−m2nV(Z_n) = a_n + m^n - m^{2n} e G′′(1)=σ2+m2−mG''(1) = \sigma^2 + m^2 - m. Para m≠1m \neq 1, a parcela (m2−m)mn−1mn−1m−1=mn(mn−1)(m^2 - m)m^{n-1}\frac{m^n-1}{m-1} = m^n(m^n - 1) cancela mn−m2nm^n - m^{2n} exatamente, deixando V(Zn)=σ2mn−1mn−1m−1V(Z_n) = \sigma^2m^{n-1}\frac{m^n-1}{m-1}. Para m=1m = 1: V(Zn)=nG′′(1)=nσ2V(Z_n) = nG''(1) = n\sigma^2.

4. ZnZ_n é uma variável inteira não negativa, de modo que P(Zn>0)=P(Zn≥1)≤E(Zn)=mn\P(Z_n > 0) = \P(Z_n \geq 1) \leq \E(Z_n) = m^n por Markov (Teorema 22.15). Para m<1m < 1 isso decai geometricamente — e de modo somável, de sorte que Borel–Cantelli dá até que apenas finitas gerações são não vazias, o que é de novo a extinção.

5. Cauchy–Schwarz: E(Zn)2=E(Zn1Zn>0)2≤E(Zn2) P(Zn>0)\E(Z_n)^2 = \E(Z_n\mathbf 1_{Z_n>0})^2 \leq \E(Z_n^2)\,\P(Z_n > 0). Com a questão 3 e m<1m < 1:

E(Zn2)=V(Zn)+m2n≤σ2mn−11−m+m2n,\E(Z_n^2) = V(Z_n) + m^{2n} \leq \frac{\sigma^2m^{n-1}}{1-m} + m^{2n},

de modo que, dividindo m2nm^{2n} por essa cota e simplificando por mnm^n,

P(Zn>0)≥mnσ2m(1−m)+mn≥(σ2m(1−m)+1)−1mn,\P(Z_n > 0) \geq \frac{m^n}{\frac{\sigma^2}{m(1-m)} + m^n} \geq \Bigl(\frac{\sigma^2}{m(1-m)} + 1\Bigr)^{-1}m^n ,

usando mn≤1m^n \leq 1 no denominador. Com a questão 4: P(Zn>0)≍mn\P(Z_n > 0) \asymp m^n.

6. G(t)=q∑k(pt)k=q1−ptG(t) = q\sum_k(pt)^k = \frac{q}{1 - pt}, e m=G′(1)=pq(1−p)2=pqm = G'(1) = \frac{pq}{(1-p)^2} = \frac pq. Subcrítico para p<12p < \frac12, crítico para p=12p = \frac12, supercrítico para p>12p > \frac12.

7. G(t)=tG(t) = t se lê pt2−t+q=0pt^2 - t + q = 0, com raízes 1±∣p−q∣2p\frac{1 \pm \abs{p - q}}{2p}, isto é, 11 e qp=1m\frac qp = \frac1m. A probabilidade de extinção é o menor ponto fixo em [0, 1]\intcc01 (Teorema 23.25): qext=1q_{\mathrm{ext}} = 1 se m≤1m \leq 1, e 1m\frac1m se m>1m > 1.

8. Para m≠1m \neq 1, com p=mm+1p = \frac m{m+1}, q=1m+1q = \frac1{m+1}: se qn=mn−1mn+1−1q_n = \frac{m^n - 1}{m^{n+1} - 1}, então

1−p qn=(m+1)(mn+1−1)−m(mn−1)(m+1)(mn+1−1)=mn+2−1(m+1)(mn+1−1),1 - p\,q_n = \frac{(m+1)(m^{n+1} - 1) - m(m^n - 1)} {(m+1)(m^{n+1} - 1)} = \frac{m^{n+2} - 1}{(m+1)(m^{n+1} - 1)},

logo qn+1=q1−pqn=mn+1−1mn+2−1q_{n+1} = \frac{q}{1 - pq_n} = \frac{m^{n+1} - 1}{m^{n+2} - 1}; o caso base q0=0q_0 = 0 vale. Para m=1m = 1: G(t)=12−tG(t) = \frac1{2 - t} e qn+1=12−nn+1=n+1n+2q_{n+1} = \frac1{2 - \frac{n}{n+1}} = \frac{n+1}{n+2}, com q0=0q_0 = 0.

9. 1−qn=mn(m−1)mn+1−11 - q_n = \frac{m^n(m - 1)}{m^{n+1} - 1}. Para m<1m < 1 o denominador tende a −1-1: 1−qn∼(1−m) mn1 - q_n \sim (1 - m)\,m^n. Para m>1m > 1:

qext−qn=1m−mn−1mn+1−1=m−1m (mn+1−1)∼m−1m2  m−n.q_{\mathrm{ext}} - q_n = \frac1m - \frac{m^n - 1}{m^{n+1} - 1} = \frac{m - 1}{m\,(m^{n+1} - 1)} \sim \frac{m - 1}{m^{2}}\;m^{-n} .

E G′(t)=pq(1−pt)2G'(t) = \frac{pq}{(1 - pt)^2} avaliada em t=qpt = \frac qp (em que 1−pt=1−q=p1 - pt = 1 - q = p) dá G′(qext)=qp=1mG'(q_{\mathrm{ext}}) = \frac qp = \frac1m: a razão observada m−1m^{-1} é exatamente a derivada no ponto fixo atrator.

10. Para p=12p = \frac12: G′′(t)=1/4(1−t/2)3G''(t) = \frac{1/4}{(1 - t/2)^3}, logo G′′(1)=2G''(1) = 2 e σ2=G′′(1)+m−m2=2\sigma^2 = G''(1) + m - m^2 = 2. A forma fechada dá 1−qn=1n+11 - q_n = \frac1{n+1}: a probabilidade de sobrevivência decai como 1/n1/n — lentamente demais para ser somável, ao contrário de qualquer taxa subcrítica.

11. Indução: G1(t)=12−tG_1(t) = \frac1{2-t} coincide com a fórmula para n=1n = 1, e

G(Gn(t))=12−n−(n−1)tn+1−nt=n+1−nt2(n+1)−2nt−n+(n−1)t=n+1−ntn+2−(n+1)t.G(G_n(t)) = \cfrac{1}{2 - \cfrac{n - (n-1)t}{n+1 - nt}} = \frac{n + 1 - nt}{2(n+1) - 2nt - n + (n-1)t} = \frac{n+1 - nt}{n + 2 - (n+1)t} .

Então

Gn(t)−qn1−qn=(n+1) (n−(n−1)tn+1−nt−nn+1)=tn+1−nt=tn+11−nn+1t,\frac{G_n(t) - q_n}{1 - q_n} = (n+1)\,\Bigl(\frac{n - (n-1)t}{n+1 - nt} - \frac{n}{n+1}\Bigr) = \frac{t}{n + 1 - nt} = \frac{\frac{t}{n+1}}{1 - \frac{n}{n+1}t} ,

a função geradora da lei geométrica G(1n+1)\mathcal G\bigl(\frac1{n+1} \bigr) em N∗\N^* (Exemplo 23.4): dada a sobrevivência, P(Zn=k∣Zn>0)=1n+1(nn+1)k−1\P(Z_n = k \mid Z_n > 0) = \frac1{n+1}\bigl(\frac n{n+1}\bigr)^{k-1}, com média condicional n+1n + 1. A média incondicional 1=E(Zn)1 = \E(Z_n) é o produto de uma probabilidade de sobrevivência que se anula por um tamanho condicional que cresce linearmente.

12. Se a linhagem se extingue na geração nn, então Y=Z0+⋯+Zn−1Y = Z_0 + \dots + Z_{n-1} é finita; se ela nunca se extingue, Y≥∑n1=∞Y \geq \sum_n 1 = \infty. Assim, {Y<∞}\{Y < \infty\} é o evento de extinção e P(Y<∞)=qext\P(Y < \infty) = q_{\mathrm{ext}}. A dedução de H(t)=tG(H(t))H(t) = tG(H(t)) no Exercício 23.7 — o ancestral contribui com o fator tt, seus filhos fundam cópias independentes de YY contadas por GG — usou apenas Teorema 23.17, válido em todo regime.

13. Com G(s)=1+s22G(s) = \frac{1 + s^2}2 a equação se lê tH2−2H+t=0tH^2 - 2H + t = 0, logo H=1−1−t2tH = \frac{1 - \sqrt{1 - t^2}}{t} (a raiz com H(0)=0H(0) = 0). Comparando com a série de Catalan C(x)=1−1−4x2xC(x) = \frac{1 - \sqrt{1 - 4x}}{2x} (Exemplo 11.21): H(t)=t2 C(t24)=∑k≥0Ck t2k+122k+1H(t) = \frac t2\,C\bigl(\frac{t^2}4\bigr) = \sum_{k\geq0}C_k\,\frac{t^{2k+1}}{2^{2k+1}}, isto é, P(Y=2k+1)=Ck2−2k−1\P(Y = 2k+1) = C_k2^{-2k-1}. Verificações: P(Y=1)=C0/2=12\P(Y = 1) = C_0/2 = \frac12 (o ancestral não tem filho); P(Y=3)=C1/8=18\P(Y = 3) = C_1/8 = \frac18 (dois filhos, ambos sem filhos: 12⋅12⋅12\frac12\cdot\frac12\cdot \frac12).

14. Derivando H=tG(H)H = tG(H) em (0, 1)\intoo01 e fazendo t→1−t \to 1^- (limites monótonos como no Teorema 23.7): H′(1)(1−G′(H(1)))=G(H(1))H'(1)\bigl(1 - G'(H(1))\bigr) = G(H(1)). No caso subcrítico, H(1)=1H(1) = 1 e E(Y)=H′(1)=11−m\E(Y) = H'(1) = \frac1{1 - m}. No caso crítico, G′(1)=1G'(1) = 1 faz o fator da esquerda se anular enquanto o membro da direita é 11: nenhum H′(1)H'(1) finito pode existir, logo E(Y)=∞\E(Y) = \infty — e no entanto P(Y<∞)=q=1\P(Y < \infty) = q = 1.

15. Ck=1k+1(2kk)∼4kπ k3/2C_k = \frac1{k+1}\binom{2k}k \sim \frac{4^k}{\sqrt\pi\,k^{3/2}} pelo Exemplo 6.14, logo

P(Y=2k+1)=Ck2⋅4k∼12π k3/2.\P(Y = 2k+1) = \frac{C_k}{2\cdot4^{k}} \sim \frac1{2\sqrt\pi\,k^{3/2}} .

Somando a cauda (comparação com ∫K∞k−3/2 ⁣dk=2K−1/2\int_K^\infty k^{-3/2}\dd k = 2K^{-1/2}, por cima e por baixo): P(Y>2K)≍K−1/2\P(Y > 2K) \asymp K^{-1/2}, isto é, P(Y>n)≍n−1/2\P(Y > n) \asymp n^{-1/2} — uma cauda pesada de média infinita, quantificando a questão 14.

16. Ambos os objetos críticos — o tempo de retorno do passeio honesto (o problema de fim de semana do Capítulo 21) e a prole total crítica — são quase certamente finitos com média infinita, com leis locais de expoente −3/2-3/2 e caudas de expoente −1/2-1/2. Isso não é coincidência: explorar uma árvore genealógica filho a filho produz um caminho ±1\pm1 (um passo para cima por nascimento, um para baixo por morte) que é exatamente um passeio honesto, e YY se torna um tempo de primeira passagem. Criticalidade significa deriva nula: o processo está sempre à beira tanto da extinção quanto da explosão, e as flutuações na escala \sqrt{} da aleatoriedade sem deriva produzem precisamente esses expoentes.

17. G′′(t)=∑n≥2n(n−1)pntn−2G''(t) = \sum_{n\geq2}n(n-1)p_nt^{n-2} tem termos não negativos, de modo que é não decrescente em [0, 1)\intco01 com limite finito G′′(1)=σ2G''(1) = \sigma^2 (a criticalidade faz EZ1(Z1−1)=σ2\E Z_1(Z_1 - 1) = \sigma^2); uma função não decrescente com limite igual ao valor de bordo é contínua em 11. Taylor com resto integral no ponto 11:

G(t)=1+(t−1)+∫1t(t−s)G′′(s)  ⁣ds=t+G′′(1)2(1−t)2+o((1−t)2),G(t) = 1 + (t - 1) + \int_1^t(t - s)G''(s)\,\dd s = t + \frac{G''(1)}2(1-t)^2 + o\bigl((1-t)^2\bigr),

pois G′′(s)=G′′(1)+o(1)G''(s) = G''(1) + o(1) quando s→1−s \to 1^-.

18. Reduzindo ao denominador comum, h(t)=G(t)−t(1−G(t))(1−t)h(t) = \frac{G(t) - t}{(1 - G(t))(1 - t)}. Pela questão 17, o numerador vale b(1−t)2+o((1−t)2)b(1-t)^2 + o((1-t)^2) e 1−G(t)=(1−t)(1−b(1−t)+o(1−t))1 - G(t) = (1 - t)\bigl(1 - b(1-t) + o(1-t)\bigr), logo h(t)→bh(t) \to b.

19. Pela definição de hh em t=qjt = q_j e G(qj)=qj+1G(q_j) = q_{j+1}: 11−qj+1−11−qj=h(qj)\frac1{1 - q_{j+1}} - \frac1{1-q_j} = h(q_j); somar a partir de j=0j = 0 (q0=0q_0 = 0) dá o resultado exibido. Como o processo crítico se extingue, qj↑1q_j \uparrow 1, logo h(qj)→bh(q_j) \to b e a média de Cesàro 1n∑j<nh(qj)→b\frac1n\sum_{j<n}h(q_j) \to b: 11−qn∼bn\frac1{1-q_n} \sim bn, isto é,

P(Zn>0)∼1bn=2σ2n.\P(Z_n > 0) \sim \frac1{bn} = \frac{2}{\sigma^2 n} .

20. Caso geométrico crítico: σ2=2\sigma^2 = 2 (questão 10), de modo que Kolmogorov prevê 1−qn∼1n1 - q_n \sim \frac1n — e o valor exato é 1n+1\frac1{n+1}.

21. Como Zn1Zn>0=ZnZ_n\mathbf 1_{Z_n > 0} = Z_n, E(Zn∣Zn>0)=E(Zn)P(Zn>0)=11−qn∼σ2n2\E(Z_n \mid Z_n > 0) = \frac{\E(Z_n)}{\P(Z_n > 0)} = \frac1{1 - q_n} \sim \frac{\sigma^2n}2. No caso geométrico isso vale n+1n + 1, coincidindo exatamente com a questão 11 (σ2=2\sigma^2 = 2). O retrato crítico: a extinção é certa, o tamanho médio fica congelado em 11, e as raras linhagens sobreviventes têm tamanho crescendo linearmente — cada fator equilibrando o outro.

22. Para descendência P(λ)\mathcal P(\lambda), G(t)=eλ(t−1)G(t) = \eu^{\lambda(t-1)} e a probabilidade de extinção é a menor raiz de q=eλ(q−1)q = \eu^{\lambda(q-1)}. Numericamente: λ=1.5\lambda = 1.5 dá q≈0.417q \approx 0.417 (itere q↦e1.5(q−1)q \mapsto \eu^{1.5(q-1)}: 0,0.223,0.312,0.356,⋯→0.41720, 0.223, 0.312, 0.356, \dots \to 0.4172); λ=2\lambda = 2 dá q≈0.203q \approx 0.203. Assim, um caso índice desencadeia um surto grande com probabilidade 58%58\% (λ=1.5\lambda = 1.5) ou 80%80\% (λ=2\lambda = 2) — provável, não certo. A iteração a partir de q0=0q_0 = 0 converge à menor raiz porque GG é não decrescente: por indução qn≤rq_n \leq r para qualquer ponto fixo rr, e (qn)(q_n) cresce (ela é P(Zn=0)\P(Z_n = 0)), de modo que seu limite é um ponto fixo abaixo de todos os outros.

23. Os kk ancestrais fundam árvores genealógicas independentes, e a extinção total é a interseção de kk eventos de extinção independentes: probabilidade qkq^k. Para λ=1.5\lambda = 1.5: uma probabilidade de surto 1−qk≥0.991 - q^k \geq 0.99 exige qk≤0.01q^k \leq 0.01, isto é, k≥ln⁡0.01ln⁡0.417≈5.3k \geq \frac{\ln 0.01}{\ln 0.417} \approx 5.3: seis casos iniciais tornam o surto 99%99\% certo.

24. G′(q)<1G'(q) < 1: G−idG - \mathrm{id} é convexa e se anula em qq e 11, de modo que é ≤0\leq 0 em [q, 1]\intcc q1; se G′(q)=1G'(q) = 1, a tangente em qq (que a convexidade coloca abaixo de GG) forçaria G(t)≥tG(t) \geq t em [q, 1]\intcc q1, portanto G≡idG \equiv \mathrm{id} ali, matando todos os coeficientes pnp_n (n≥2n \geq 2) e contradizendo m>1m > 1. Convergência geométrica: qn<qq_n < q para todo nn (indução, GG crescente), e o teorema do valor médio dá q−qn+1=G′(cn)(q−qn)q - q_{n+1} = G'(c_n)(q - q_n) com cn∈(qn, q)c_n \in \intoo{q_n}q, de modo que G′(cn)≤G′(q)<1G'(c_n) \leq G'(q) < 1 e q−qn≤q G′(q)nq - q_n \leq q\,G'(q)^n. Processo companheiro: G^(t)=G(qt)/q=∑kpkqk−1tk\widehat G(t) = G(qt)/q = \sum_kp_kq^{k-1}t^k tem coeficientes não negativos e G^(1)=G(q)/q=1\widehat G(1) = G(q)/q = 1: uma função geradora; sua média é G^′(1)=G′(q)<1\widehat G'(1) = G'(q) < 1: subcrítica. Família geométrica: G(t)=q1−ptG(t) = \frac{q}{1-pt}, qext=qpq_{\mathrm{ext}} = \frac qp, e

G^(t)=pq⋅q1−pqpt=p1−qt:\widehat G(t) = \frac pq\cdot\frac{q}{1 - p\frac qp t} = \frac{p}{1 - qt} :

a lei de descendência geométrica com pp e qq trocados — o processo supercrítico visto sobre seu evento de extinção é o subcrítico espelhado.

25. A tabela: m<1m < 1: q=1q = 1, P(Zn>0)≍mn\P(Z_n > 0) \asymp m^n (questões 4–5), E(Y)=11−m\E(Y) = \frac1{1-m}, gerações sobreviventes de média condicional limitada. m=1m = 1: q=1q = 1, P(Zn>0)∼2σ2n\P(Z_n > 0) \sim \frac2{\sigma^2n} (Kolmogorov), E(Y)=∞\E(Y) = \infty com P(Y>n)≍n−1/2\P(Y > n) \asymp n^{-1/2}, sobreviventes de tamanho ∼σ2n2\sim \frac{\sigma^2n}2. m>1m > 1: q<1q < 1 é o menor ponto fixo, q−qn=O(G′(q)n)q - q_n = O(G'(q)^n), crescimento E(Zn)=mn\E(Z_n) = m^n e, condicionado a morrer, o processo é o companheiro subcrítico (questão 24). As ferramentas: a composição de funções geradoras transformou a recursão populacional em iteração de funções; a convexidade fixou a geometria dos pontos fixos; Taylor em 1−1^- converteu hipóteses de momentos em desenvolvimentos locais; e a média de Cesàro extraiu o 1/n1/n de Kolmogorov de uma soma telescópica. O volume do terceiro ano de graduação acrescenta o martingal Zn/mnZ_n/ m^n — cujo limite quase certo refina E(Zn)=mn\E(Z_n) = m^n numa taxa de crescimento trajetória a trajetória — e o teorema de Yaglom, a lei limite por trás da geometria condicional observada na questão 11.

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