পৃথিবী ও মহাকাশ বিজ্ঞান · বই 2 · শ্রেণি 10–12

Ciências da Terra e do espaço do ensino médio

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Ciências da Terra e do espaço do ensino médio · শ্রেণি 10–12

11As ondas sísmicas revelam o interior

Em 8 de outubro de 1909, um terremoto sacudiu o vale do rio Kupa, a cerca de 40 km40\,\mathrm{km} a sudeste de Zagreb, na Croácia. Alguns meses antes, Andrija Mohorovičić tinha instalado um novo sismógrafo no Observatório Meteorológico de Zagreb, e ele registrou todo o evento. Depois, ele pediu a outros observatórios os seus registros e reuniu os de 41 estações. Nos registros das estações mais distantes, ele encontrou algo inesperado: duas ondas P separadas, uma fraca e depois uma mais forte, onde deveria haver uma só. Desse par de ondas, ele deduziu que a rocha sob a crosta é diferente, e mediu a profundidade da fronteira. Este capítulo mostra como os tempos de chegada das ondas dos terremotos revelam as camadas da Terra: a base da crosta, o núcleo e a sua parte externa líquida, e todo o interior, profundidade por profundidade.

O que você já sabe

Um terremoto começa num ponto dentro da Terra, o foco; o ponto da superfície logo acima dele é o epicentro. Um sismômetro registra a vibração do solo, e a magnitude mede o tamanho de um terremoto (Livro 1, 7º ano). A Terra tem uma crosta, um manto e um núcleo; o núcleo tem uma parte externa líquida e uma parte interna sólida. As ondas dos terremotos são de dois tipos principais, as ondas P, mais rápidas, e as ondas S, mais lentas, e as ondas S não conseguem atravessar um líquido (Livro 1, 6º ano). Uma onda que atravessa a fronteira entre dois materiais nos quais se propaga com as velocidades v1v_1 e v2v_2 é refratada: sin⁡i1/v1=sin⁡i2/v2\sin i_1/v_1 = \sin i_2/v_2, onde os ângulos são medidos a partir da perpendicular à fronteira (lei de Snell; os livros de física).

11.1 As ondas sísmicas e os tempos de percurso

11.1.1 Dois tipos de ondas de volume

Um terremoto envia ondas em todas as direções. Algumas se propagam ao longo da superfície; outras, as ondas de volume, atravessam o interior da Terra, e são elas que o revelam.

Definição 11.1 (Onda P; onda S)

Uma onda P é uma onda sísmica que alternadamente comprime e estica a rocha: a rocha vai e volta ao longo da direção em que a onda se propaga. Ela atravessa sólidos, líquidos e gases, e é a onda sísmica mais rápida, por isso chega primeiro. Uma onda S cisalha a rocha: a rocha se move perpendicularmente à direção em que a onda se propaga. Ela só atravessa sólidos, e chega depois da onda P.

Um líquido escoa e não oferece resistência a uma mudança de forma, de modo que não consegue transmitir um cisalhamento: é por isso que as ondas S param na superfície de um líquido. Na maioria das rochas, uma onda P se propaga cerca de 3≈1.7\sqrt 3 \approx 1.7 vezes mais depressa que uma onda S. Na crosta superior, uma onda P se propaga a cerca de 5.8 km/s5.8\,\mathrm{km}/\mathrm{s} e uma onda S a cerca de 3.2 km/s3.2\,\mathrm{km}/\mathrm{s}; logo abaixo da crosta, elas chegam a cerca de 8.1 km/s8.1\,\mathrm{km}/\mathrm{s} e 4.5 km/s4.5\,\mathrm{km}/\mathrm{s}.

Sismólogos da Puerto Rico Seismic Network e do USGS instalam um sismômetro temporário no sudoeste de Porto Rico, em 10 de janeiro de 2020. Fotografia: Thomas Pratt, USGS (domínio público).
Sismólogos da Puerto Rico Seismic Network e do USGS instalam um sismômetro temporário no sudoeste de Porto Rico, em 10 de janeiro de 2020. Fotografia: Thomas Pratt, USGS (domínio público).

11.1.2 As curvas de tempo de percurso

A distância de um terremoto a uma estação distante é medida como um ângulo: o ângulo Δ\Delta no centro da Terra entre o epicentro e a estação, a distância epicentral. Um grau dela corresponde a 111.2 km111.2\,\mathrm{km} ao longo da superfície.

Definição 11.2 (Tempo de percurso; curva de tempo de percurso)

O tempo de percurso de uma onda sísmica até uma estação é o tempo que ela leva para ir do foco até a estação. A curva de tempo de percurso de uma onda é o gráfico do seu tempo de percurso em função da distância epicentral da estação.

Uma estação registra o instante em que cada onda chega; quando o instante do terremoto é conhecido, a diferença é o tempo de percurso. Milhares de terremotos registrados por milhares de estações deram as curvas de tempo de percurso com grande precisão. Na figura, as curvas são calculadas a partir do modelo de referência da Terra da Seção 11.4, e os pontos são tempos de percurso observados em terremotos reais: os dois concordam em menos de dois por cento em toda parte, e quase sempre em um ou dois segundos.

Curvas de tempo de percurso das ondas P (azul) e das ondas S (laranja) de um terremoto na superfície, calculadas com o modelo de referência da Terra; as curvas tracejada e pontilhada são ondas P que atravessaram o núcleo (pontilhada: o núcleo interno). Pontos pretos: tempos de percurso observados. Entre cerca de 99 e 144, nenhuma onda P chega diretamente (sombreado).
Curvas de tempo de percurso das ondas P (azul) e das ondas S (laranja) de um terremoto na superfície, calculadas com o modelo de referência da Terra; as curvas tracejada e pontilhada são ondas P que atravessaram o núcleo (pontilhada: o núcleo interno). Pontos pretos: tempos de percurso observados. Entre cerca de 99∘99{}^{\circ} e 144∘144{}^{\circ}, nenhuma onda P chega diretamente (sombreado).

A curva S sobe mais abruptamente que a curva P, de modo que o atraso entre as duas chegadas cresce com a distância. Isso dá a distância de um terremoto a partir de um único registro.

Método 11.3 (Distância de um terremoto pelo atraso S–P)

  1. No registro, leia o instante da primeira onda P e o da primeira onda S; a sua diferença é o atraso S–P.
  2. Nas curvas de tempo de percurso (ou numa tabela delas), encontre a distância epicentral em que a curva S fica esse atraso acima da curva P.
  3. Converta em quilômetros, se necessário, com 111.2 km111.2\,\mathrm{km} por grau.

Com três estações, o epicentro é o ponto que fica à distância certa das três.

Exemplo 11.4 (Um terremoto a 60∘60{}^{\circ})

Os tempos de percurso observados são de 608 s608\,\mathrm{s} para P e 1101 s1101\,\mathrm{s} para S a 60∘60{}^{\circ}, e de 536 s536\,\mathrm{s} e 967 s967\,\mathrm{s} a 50∘50{}^{\circ}. Uma estação que registra uma onda S 493 s493\,\mathrm{s} (8 minutos e 13 segundos) depois da onda P fica, portanto, a 60∘60{}^{\circ} do epicentro: cerca de 60×111.2≈6670 km60 \times 111.2 \approx 6670\,\mathrm{km}. A 50∘50{}^{\circ}, o atraso seria de apenas 431 s431\,\mathrm{s}.

Num observatório de sismologia, os registros de muitas estações são mostrados lado a lado, e os terremotos que eles localizam são marcados num mapa-múndi (ilustração gerada por IA).
Num observatório de sismologia, os registros de muitas estações são mostrados lado a lado, e os terremotos que eles localizam são marcados num mapa-múndi (ilustração gerada por IA).

11.2 A refração e o Moho

11.2.1 A onda que corre ao longo de uma fronteira

No interior da Terra, a velocidade das ondas sísmicas muda com a profundidade, quase sempre gradualmente, mas em alguns lugares de uma vez.

Definição 11.5 (Descontinuidade sísmica)

Uma descontinuidade sísmica é uma superfície no interior da Terra através da qual a velocidade das ondas sísmicas muda bruscamente — numa espessura muito menor que o comprimento das ondas.

Numa descontinuidade, parte de uma onda é refletida e parte é refratada. Tome uma camada de espessura hh na qual as ondas P se propagam a v1v_1, sobre uma camada na qual elas são mais rápidas, v2>v1v_2 > v_1. Um raio que desce com o ângulo ii em relação à vertical é refratado com o ângulo rr dado por sin⁡r=(v2/v1)sin⁡i\sin r = (v_2/v_1)\sin i: ele se afasta da vertical. Quando sin⁡i\sin i chega a v1/v2v_1/v_2, o raio refratado corre exatamente ao longo da fronteira. O ângulo

ic,sin⁡ic=v1v2,i_c, \qquad \sin i_c = \frac{v_1}{v_2},

é o ângulo crítico. A onda refratada no ângulo crítico se propaga ao longo do topo da camada mais rápida com a velocidade v2v_2 e, à medida que avança, envia ondas de volta para cima, para a camada superior, todas com o ângulo ici_c: elas chegam à superfície como a onda frontal.

A onda direta e a onda frontal (em escala: crosta de 30\, km de espessura). A onda frontal desce com o ângulo crítico i_c, corre ao longo do topo do manto e volta a subir com i_c; ao longo de todo o seu trajeto no Moho, ela envia ondas para a superfície (tracejadas). Ela não chega a nenhuma estação mais próxima que 2h i_c, cerca de 71\, km aqui.
A onda direta e a onda frontal (em escala: crosta de 30 km30\,\mathrm{km} de espessura). A onda frontal desce com o ângulo crítico ici_c, corre ao longo do topo do manto e volta a subir com ici_c; ao longo de todo o seu trajeto no Moho, ela envia ondas para a superfície (tracejadas). Ela não chega a nenhuma estação mais próxima que 2htan⁡ic2h\tan i_c, cerca de 71 km71\,\mathrm{km} aqui.

Proposição 11.6 (Tempo de percurso da onda frontal)

Para uma fonte na superfície, uma estação à distância x≥2htan⁡icx \ge 2h\tan i_c recebe a onda frontal depois de

t(x)=xv2+2hcos⁡icv1.t(x) = \frac{x}{v_2} + \frac{2h\cos i_c}{v_1}.

A sua curva de tempo de percurso é uma reta de inclinação 1/v21/v_2 que, prolongada para trás, corta o eixo dos tempos no tempo de intercepto ti=2hcos⁡ic/v1t_i = 2h\cos i_c/v_1.

Demonstração. O raio desce por um trecho inclinado de comprimento h/cos⁡ich/\cos i_c, que avança horizontalmente htan⁡ich\tan i_c; ele faz o mesmo na subida. Entre os dois, ele corre ao longo da fronteira por x−2htan⁡icx - 2h\tan i_c. O tempo é

t=2hv1cos⁡ic+x−2htan⁡icv2=xv2+2hv1cos⁡ic−2hsin⁡icv2cos⁡ic.t = \frac{2h}{v_1\cos i_c} + \frac{x - 2h\tan i_c}{v_2} = \frac{x}{v_2} + \frac{2h}{v_1\cos i_c} - \frac{2h\sin i_c}{v_2\cos i_c}.

Como 1/v2=sin⁡ic/v11/v_2 = \sin i_c/v_1, os dois últimos termos dão 2hv1cos⁡ic (1−sin⁡2ic)=2hcos⁡icv1\frac{2h}{v_1\cos i_c}\,(1 - \sin^2 i_c) = \frac{2h\cos i_c}{v_1}. ∎

A onda direta chega depois de x/v1x/v_1: a sua curva é uma reta que passa pela origem, mais inclinada que a reta da onda frontal. Perto da fonte, a onda direta chega primeiro; longe, a onda frontal, que percorreu a maior parte do caminho na velocidade maior, a ultrapassa.

Proposição 11.7 (Distância de cruzamento)

A onda frontal chega antes da onda direta além da distância de cruzamento

xc=2hv2+v1v2−v1.x_c = 2h\sqrt{\frac{v_2 + v_1}{v_2 - v_1}}.

Demonstração. As duas chegam juntas quando x/v1=x/v2+2hcos⁡ic/v1x/v_1 = x/v_2 + 2h\cos i_c/v_1, isto é, x (v2−v1)/(v1v2)=2hcos⁡ic/v1x\,(v_2 - v_1)/(v_1 v_2) = 2h\cos i_c/v_1, logo x=2hcos⁡ic v2/(v2−v1)x = 2h\cos i_c\,v_2/(v_2 - v_1). Ora, cos⁡ic=1−v12/v22=(v2−v1)(v2+v1)/v2\cos i_c = \sqrt{1 - v_1^2/v_2^2} = \sqrt{(v_2 - v_1)(v_2 + v_1)}/v_2, portanto x=2h(v2+v1)(v2−v1)/(v2−v1)=2h(v2+v1)/(v2−v1)x = 2h\sqrt{(v_2 + v_1)(v_2 - v_1)}/(v_2 - v_1) = 2h\sqrt{(v_2 + v_1)/(v_2 - v_1)}. Além dela, a onda frontal, cuja reta é menos inclinada, chega primeiro. ∎

Tempos de percurso da onda direta e da onda frontal para a crosta da figura anterior. A reta da onda frontal, prolongada para trás (tracejada), corta o eixo dos tempos no tempo de intercepto; além da distância de cruzamento x_c 165\, km, a onda frontal chega primeiro.
Tempos de percurso da onda direta e da onda frontal para a crosta da figura anterior. A reta da onda frontal, prolongada para trás (tracejada), corta o eixo dos tempos no tempo de intercepto; além da distância de cruzamento xc≈165 kmx_c \approx 165\,\mathrm{km}, a onda frontal chega primeiro.

11.2.2 A base da crosta

Definição 11.8 (Moho)

A descontinuidade de Mohorovičić, ou Moho, é a descontinuidade sísmica na base da crosta, onde a velocidade das ondas P salta de no máximo cerca de 7 km/s7\,\mathrm{km}/\mathrm{s} para cerca de 8 km/s8\,\mathrm{km}/\mathrm{s}, a velocidade no topo do manto.

História — Mohorovičić e as duas ondas P, 1909

Andrija Mohorovičić (1857–1936) descobriu, nos registros do terremoto de 1909, que além de uma certa distância — em geral entre 100 e 150 km150\,\mathrm{km} — uma onda P fraca e mais rápida chegava antes da onda P forte. Ele a explicou como uma onda que tinha atravessado uma rocha mais rápida sob a crosta. Ele chamou as duas ondas de Pg (a onda direta na crosta) e Pn (a onda frontal ao longo do topo do manto), fez o mesmo para as ondas S, e deduziu as velocidades das duas camadas e a profundidade da fronteira entre elas. A onda Pn se propaga a cerca de 8.0 km/s8.0\,\mathrm{km}/\mathrm{s}, a velocidade do topo do manto. Os seus artigos de 1910 provaram que a crosta e o manto são diferentes; a fronteira leva o seu nome.

Método 11.9 (Profundidade do Moho a partir de um diagrama de tempos de percurso)

  1. Represente os tempos das primeiras chegadas em função da distância ao epicentro.
  2. Trace a reta da onda direta (pela origem) e a reta da onda frontal; as suas inclinações são 1/v11/v_1 e 1/v21/v_2.
  3. Prolongue a reta da onda frontal para trás até o eixo dos tempos: ela o corta no tempo de intercepto tit_i.
  4. Com sin⁡ic=v1/v2\sin i_c = v_1/v_2, a espessura da crosta é h=v1 ti2cos⁡ich = \dfrac{v_1\,t_i}{2\cos i_c}.

Exemplo 11.10 (Uma crosta de 30 km30\,\mathrm{km} de espessura)

Com v1=6.2 km/sv_1 = 6.2\,\mathrm{km}/\mathrm{s} e v2=8.1 km/sv_2 = 8.1\,\mathrm{km}/\mathrm{s}, sin⁡ic=0.765\sin i_c = 0.765, ic≈49.9∘i_c \approx 49.9{}^{\circ} e cos⁡ic≈0.644\cos i_c \approx 0.644. Um tempo de intercepto de 6.23 s6.23\,\mathrm{s} dá h=6.2×6.23/(2×0.644)≈30 kmh = 6.2 \times 6.23/(2 \times 0.644) \approx 30\,\mathrm{km}. A onda frontal chega à superfície pela primeira vez a 2htan⁡ic≈71 km2h\tan i_c \approx 71\,\mathrm{km} e ultrapassa a onda direta além de xc=6014.3/1.9≈165 kmx_c = 60\sqrt{14.3/1.9} \approx 165\,\mathrm{km}.

Medido dessa maneira no mundo inteiro, o Moho fica apenas a cerca de 5 km5\,\mathrm{km} abaixo do fundo dos oceanos. Sob os continentes, ele fica em média a cerca de 41 km41\,\mathrm{km} de profundidade: cerca de 30 km30\,\mathrm{km} onde a crosta foi estirada, mais de 45 km45\,\mathrm{km} sob as cadeias de montanhas, e até cerca de 100 km100\,\mathrm{km} sob as cordilheiras mais altas. A crosta é uma pele fina: mesmo 41 km41\,\mathrm{km} são menos de um por cento do raio da Terra.

11.3 O núcleo

11.3.1 Raios que se curvam

No manto, a velocidade das ondas sísmicas aumenta com a profundidade. Um raio que desce atravessa rochas cada vez mais rápidas e, pela lei de Snell, se afasta um pouco mais da vertical a cada passo: o seu trajeto se curva e volta a subir em direção à superfície. Quanto mais fundo um raio faz a curva, mais longe do terremoto ele volta à superfície. A figura mostra raios desse tipo, calculados com as velocidades do modelo de referência da Terra.

Raios de um terremoto no topo da Terra, calculados com as velocidades do modelo de referência. À direita: raios P que fazem a curva no manto, até cerca de 99, e raios P que atravessam o núcleo e saem além de cerca de 144; entre os dois, nenhum raio P chega diretamente. À esquerda: raios S, que fazem a curva no manto; nenhum atravessa o núcleo externo líquido, e nenhuma onda S direta chega além de cerca de 103.
Raios de um terremoto no topo da Terra, calculados com as velocidades do modelo de referência. À direita: raios P que fazem a curva no manto, até cerca de 99∘99{}^{\circ}, e raios P que atravessam o núcleo e saem além de cerca de 144∘144{}^{\circ}; entre os dois, nenhum raio P chega diretamente. À esquerda: raios S, que fazem a curva no manto; nenhum atravessa o núcleo externo líquido, e nenhuma onda S direta chega além de cerca de 103∘103{}^{\circ}.

11.3.2 A zona de sombra e o núcleo externo líquido

Em 1906, o sismólogo Oldham percebeu que as ondas P registradas do outro lado da Terra em relação a um terremoto chegavam atrasadas em comparação com os tempos esperados, e propôs um núcleo central no qual elas se propagam mais devagar. Em 1912, Gutenberg mostrou que as ondas P não chegam a toda uma faixa de distâncias, entre cerca de 105∘105{}^{\circ} e 143∘143{}^{\circ}, com chegadas fortes logo além de 143∘143{}^{\circ}; em 1914, ele situou o topo do núcleo a 2900 km2900\,\mathrm{km} de profundidade.

Definição 11.11 (Zona de sombra)

A zona de sombra de uma onda sísmica é a faixa de distâncias epicentrais que a onda não consegue alcançar diretamente a partir de um terremoto, porque o núcleo a desvia ou a detém.

Os raios a explicam. Os raios P que fazem a curva logo acima do núcleo voltam à superfície a cerca de 100∘100{}^{\circ} do terremoto. Um raio que desce um pouco mais inclinado entra no núcleo, onde a velocidade P cai bruscamente de 13.7 km/s13.7\,\mathrm{km}/\mathrm{s} para cerca de 8.1 km/s8.1\,\mathrm{km}/\mathrm{s}: pela lei de Snell, ele se inclina em direção à vertical, atravessa o núcleo e sai muito mais longe, além de cerca de 144∘144{}^{\circ}. Nenhum raio P que faz a curva no manto e nenhum raio P que atravessa o núcleo cai entre os dois. No modelo de referência, a zona de sombra P vai de 98.5∘98.5{}^{\circ} a 143.8∘143.8{}^{\circ}, perto dos 105∘105{}^{\circ}–143∘143{}^{\circ} de Gutenberg.

As ondas S dizem mais. Nenhuma onda S atravessa o núcleo externo: o núcleo externo não transmite ondas de cisalhamento, logo ele é líquido. Em consequência, nenhuma onda S chega diretamente além de cerca de 103∘103{}^{\circ} no modelo de referência — em todo o lado oposto da Terra.

Definição 11.12 (Limite manto–núcleo; limite do núcleo interno)

O limite manto–núcleo é a descontinuidade sísmica entre o manto sólido e o núcleo externo líquido, a uma profundidade de 2891 km2891\,\mathrm{km}; ali, a velocidade P cai de cerca de 13.7 km/s13.7\,\mathrm{km}/\mathrm{s} para cerca de 8.1 km/s8.1\,\mathrm{km}/\mathrm{s}, e as ondas S param. O limite do núcleo interno, a uma profundidade de 5150 km5150\,\mathrm{km}, separa o núcleo externo líquido do núcleo interno sólido; ali, a velocidade P salta de cerca de 10.4 km/s10.4\,\mathrm{km}/\mathrm{s} para cerca de 11.0 km/s11.0\,\mathrm{km}/\mathrm{s}.

A zona de sombra não é completamente silenciosa: ondas P fracas chegam a ela. Inge Lehmann as explicou em 1936 com um núcleo interno sólido, no qual as ondas P se propagam mais depressa (Livro 1, 6º ano). Os raios mostram como. Um raio P que chega ao núcleo interno se afasta da vertical onde a velocidade salta para cima, como no Moho, e sai do núcleo mais cedo: no modelo de referência, os raios que atravessam o núcleo interno chegam à superfície a partir de cerca de 121∘121{}^{\circ}, dentro da zona de sombra (curva pontilhada da figura dos tempos de percurso).

11.4 Um modelo de referência da Terra

Reunidos, milhões de tempos de percurso dão a velocidade das ondas P e S em cada profundidade. As suas velocidades dependem da rocha e da sua densidade, e a massa total da Terra fixa a sua densidade média; juntas, elas dão também a densidade em cada profundidade.

Definição 11.13 (Modelo de referência da Terra)

Um modelo de referência da Terra é uma tabela da velocidade das ondas P, da velocidade das ondas S e da densidade em função da profundidade, a mesma em todas as direções, escolhida para concordar com os tempos de percurso observados das ondas sísmicas e com a massa da Terra.

O mais usado é o Preliminary Reference Earth Model (PREM), publicado por A. M. Dziewonski e D. L. Anderson em 1981. Os raios e os tempos de percurso deste capítulo foram calculados com ele: o tempo de percurso P a 60∘60{}^{\circ}, por exemplo, sai 607 s607\,\mathrm{s}, contra 608 s608\,\mathrm{s} observados.

As velocidades das ondas P e S e a densidade em função da profundidade no Preliminary Reference Earth Model (Dziewonski e Anderson, 1981). As linhas pontilhadas marcam as principais descontinuidades abaixo do Moho, que é raso demais para aparecer nesta escala.
As velocidades das ondas P e S e a densidade em função da profundidade no Preliminary Reference Earth Model (Dziewonski e Anderson, 1981). As linhas pontilhadas marcam as principais descontinuidades abaixo do Moho, que é raso demais para aparecer nesta escala.

Lendo o modelo de cima para baixo:

  • a crosta, com velocidades P de 5.8 a 6.8 km/s6.8\,\mathrm{km}/\mathrm{s}, termina no Moho (24.4 km24.4\,\mathrm{km} neste modelo médio);
  • no manto, as velocidades sobem com a profundidade, com saltos bruscos menores, os maiores perto de 400 km400\,\mathrm{km} e de 670 km670\,\mathrm{km};
  • a 2891 km2891\,\mathrm{km}, a velocidade S cai a zero e a velocidade P cai mais de 5 km/s5\,\mathrm{km}/\mathrm{s}: o núcleo externo líquido;
  • a 5150 km5150\,\mathrm{km}, as ondas S voltam a existir: o núcleo interno sólido, de 1220 km1220\,\mathrm{km} de raio.

A densidade sobe de 2.6 g/cm32.6\,\mathrm{g}/\mathrm{cm}^{3} na crosta para 5.6 g/cm35.6\,\mathrm{g}/\mathrm{cm}^{3} na base do manto, depois salta para 9.9 g/cm39.9\,\mathrm{g}/\mathrm{cm}^{3} no topo do núcleo e chega a 13.1 g/cm313.1\,\mathrm{g}/\mathrm{cm}^{3} no centro. A densidade média de todo o modelo é de 5.5 g/cm35.5\,\mathrm{g}/\mathrm{cm}^{3}, o dobro da das rochas da crosta: o interior profundo, e sobretudo o núcleo, é feito de um material muito mais denso que a superfície. O núcleo contém cerca de um terço da massa da Terra.

11.5 Exercícios

Exercício 11.1 ★

Dê duas diferenças entre as ondas P e as ondas S. Qual delas é registrada primeiro por um sismômetro, e por quê?

Solução

Solução de Exercício 11.1.

Uma onda P comprime e estica a rocha, que se move ao longo da direção de propagação; uma onda S a cisalha, e a rocha se move perpendicularmente a essa direção. As ondas P atravessam sólidos e líquidos; as ondas S, só sólidos. A onda P é registrada primeiro, porque é a mais rápida das duas.

Exercício 11.2 ★

Uma estação fica a 40∘40{}^{\circ} de um epicentro. A que distância ela está, medida ao longo da superfície? A quantos graus fica uma estação a 8900 km8900\,\mathrm{km} de um epicentro?

Solução

Solução de Exercício 11.2.

40×111.2=4448 km40 \times 111.2 = 4448\,\mathrm{km}, cerca de 4450 km4450\,\mathrm{km}. 8900/111.2≈80∘8900/111.2 \approx 80{}^{\circ}.

Exercício 11.3 ★

Os tempos de percurso observados a 40∘40{}^{\circ} são de 456 s456\,\mathrm{s} para P e 822 s822\,\mathrm{s} para S. Converta-os em minutos e segundos, e dê o atraso S–P.

Solução

Solução de Exercício 11.3.

456 s456\,\mathrm{s} são 7 minutos e 36 segundos; 822 s822\,\mathrm{s} são 13 minutos e 42 segundos. O atraso S–P é de 822−456=366 s822 - 456 = 366\,\mathrm{s}, isto é, 6 minutos e 6 segundos.

Exercício 11.4 ★

Uma crosta na qual as ondas P se propagam a 6.0 km/s6.0\,\mathrm{km}/\mathrm{s} repousa sobre um manto onde elas se propagam a 8.0 km/s8.0\,\mathrm{km}/\mathrm{s}. Calcule o ângulo crítico.

Solução

Solução de Exercício 11.4.

sin⁡ic=6.0/8.0=0.75\sin i_c = 6.0/8.0 = 0.75, logo ic≈48.6∘i_c \approx 48.6{}^{\circ}.

Exercício 11.5 ★

No modelo de referência, o limite manto–núcleo fica a 2891 km2891\,\mathrm{km} de profundidade e o limite do núcleo interno a 5150 km5150\,\mathrm{km}; o raio da Terra é de 6371 km6371\,\mathrm{km}. Calcule a espessura do núcleo externo, o raio do núcleo e o raio do núcleo como fração do raio da Terra.

Solução

Solução de Exercício 11.5.

O núcleo externo tem 5150−2891=2259 km5150 - 2891 = 2259\,\mathrm{km} de espessura. O raio do núcleo é 6371−2891=3480 km6371 - 2891 = 3480\,\mathrm{km}, e 3480/6371≈0.553480/6371 \approx 0.55: um pouco mais da metade do raio da Terra.

Exercício 11.6 ★★

Os atrasos S–P observados são de 224 s224\,\mathrm{s} a 20∘20{}^{\circ}, 298 s298\,\mathrm{s} a 30∘30{}^{\circ}, 366 s366\,\mathrm{s} a 40∘40{}^{\circ}, 431 s431\,\mathrm{s} a 50∘50{}^{\circ} e 493 s493\,\mathrm{s} a 60∘60{}^{\circ}. Uma estação registra uma onda S 6 minutos e 6 segundos depois da onda P. A que distância está o terremoto, em graus e em quilômetros? Por que uma única estação não consegue dizer onde está o terremoto?

Solução

Solução de Exercício 11.6.

6 minutos e 6 segundos são 366 s366\,\mathrm{s}: o terremoto está a 40∘40{}^{\circ}, isto é, 40×111.2≈4450 km40 \times 111.2 \approx 4450\,\mathrm{km}. Um único atraso só dá a distância: o epicentro pode estar em qualquer ponto de um círculo desse raio em torno da estação. São precisas mais duas estações para encontrar o único ponto que fica à distância certa das três.

Exercício 11.7 ★★

Com as velocidades do Exercício 11.4 e uma crosta de 35 km35\,\mathrm{km} de espessura, calcule os tempos de percurso da onda direta e da onda frontal numa estação a 200 km200\,\mathrm{km} do epicentro. Qual chega primeiro?

Solução

Solução de Exercício 11.7.

ic≈48.6∘i_c \approx 48.6{}^{\circ} e cos⁡ic≈0.661\cos i_c \approx 0.661. Onda direta: 200/6.0≈33.3 s200/6.0 \approx 33.3\,\mathrm{s}. Onda frontal: 200/8.0+2×35×0.661/6.0≈25.0+7.7=32.7 s200/8.0 + 2 \times 35 \times 0.661/6.0 \approx 25.0 + 7.7 = 32.7\,\mathrm{s}. A onda frontal chega primeiro, cerca de 0.6 s0.6\,\mathrm{s} antes.

Exercício 11.8 ★★

Para a crosta do Exercício 11.7, calcule a distância crítica 2htan⁡ic2h\tan i_c e a distância de cruzamento. Verifique que a resposta ao Exercício 11.7 concorda.

Solução

Solução de Exercício 11.8.

tan⁡ic≈1.134\tan i_c \approx 1.134: a distância crítica é 2×35×1.134≈79 km2 \times 35 \times 1.134 \approx 79\,\mathrm{km}. A distância de cruzamento é 2×35×14.0/2.0=707≈185 km2 \times 35 \times \sqrt{14.0/2.0} = 70\sqrt 7 \approx 185\,\mathrm{km}. A estação do Exercício 11.7 fica a 200 km200\,\mathrm{km}, além do cruzamento: a onda frontal chega primeiro, como se encontrou.

Exercício 11.9 ★★

Sob um oceano, uma crosta de 6 km6\,\mathrm{km} de espessura, na qual as ondas P se propagam a 6.5 km/s6.5\,\mathrm{km}/\mathrm{s}, repousa sobre um manto a 8.0 km/s8.0\,\mathrm{km}/\mathrm{s}. Calcule o ângulo crítico, o tempo de intercepto e a distância de cruzamento. Por que as estações precisam estar muito mais próximas umas das outras para encontrar o Moho sob um oceano do que sob um continente?

Solução

Solução de Exercício 11.9.

sin⁡ic=6.5/8.0=0.8125\sin i_c = 6.5/8.0 = 0.8125, ic≈54.3∘i_c \approx 54.3{}^{\circ} e cos⁡ic≈0.583\cos i_c \approx 0.583. Tempo de intercepto: 2×6×0.583/6.5≈1.1 s2 \times 6 \times 0.583/6.5 \approx 1.1\,\mathrm{s}. Distância de cruzamento: 1214.5/1.5≈37 km12\sqrt{14.5/1.5} \approx 37\,\mathrm{km}. Sob um continente, o cruzamento fica perto de 165 km165\,\mathrm{km}, de modo que estações a algumas dezenas de quilômetros umas das outras captam as duas retas; sob o oceano, a onda frontal já chega primeiro além de cerca de 37 km37\,\mathrm{km}, e a reta da onda direta tem apenas algumas dezenas de quilômetros de comprimento: as estações precisam estar a alguns quilômetros umas das outras para traçá-la.

Exercício 11.10 ★★

Um raio P no manto mais profundo, onde se propaga a 13.7 km/s13.7\,\mathrm{km}/\mathrm{s}, encontra o limite manto–núcleo a 30∘30{}^{\circ} da perpendicular. Abaixo do limite, a velocidade P é de 8.06 km/s8.06\,\mathrm{km}/\mathrm{s}. Calcule o ângulo do raio refratado. O raio se inclina em direção à perpendicular ou se afasta dela? Use isso para explicar por que os raios P que entram no núcleo saem longe do terremoto.

Solução

Solução de Exercício 11.10.

sin⁡r=(8.06/13.7)sin⁡30∘≈0.294\sin r = (8.06/13.7)\sin30{}^{\circ} \approx 0.294, logo r≈17.1∘r \approx 17.1{}^{\circ}: o raio se inclina em direção à perpendicular, isto é, em direção ao centro da Terra. Ele atravessa, portanto, o núcleo por um longo trajeto perto do seu meio, e volta a sair bem longe, do outro lado: os raios P que entram no núcleo saem muito mais longe do terremoto que os raios que passam logo ao lado dele.

Exercício 11.11 ★★

No modelo de referência, uma onda P que desce em linha reta passando pelo centro leva 1210 s1210\,\mathrm{s} para chegar ao ponto oposto da Terra. Quanto tempo ela levaria se percorresse todo o diâmetro (12 742 km12\,742\,\mathrm{km}) a 13.7 km/s13.7\,\mathrm{km}/\mathrm{s}, a velocidade P na base do manto? O que Oldham concluiu desses atrasos?

Solução

Solução de Exercício 11.11.

12 742/13.7≈930 s12\,742/13.7 \approx 930\,\mathrm{s}, cerca de 15.5 minutos, enquanto a onda leva 1210 s1210\,\mathrm{s}, cerca de 20 minutos: ela chega uns 280 segundos atrasada. Mesmo na velocidade mais alta do manto, a onda chegaria muito antes, de modo que o meio da Terra precisa freá-la. Oldham concluiu que a Terra tem um núcleo central no qual as ondas P se propagam mais devagar que no manto.

Exercício 11.12 ★★★

(1) A partir da Proposição 11.6, mostre que a espessura da crosta é

h=ti v1v22v22−v12.h = \frac{t_i\,v_1 v_2}{2\sqrt{v_2^2 - v_1^2}}.

(2) Aplique-a a ti=6.23 st_i = 6.23\,\mathrm{s}, v1=6.2 km/sv_1 = 6.2\,\mathrm{km}/\mathrm{s} e v2=8.1 km/sv_2 = 8.1\,\mathrm{km}/\mathrm{s}.

Solução

Solução de Exercício 11.12.

(1) Pela proposição, ti=2hcos⁡ic/v1t_i = 2h\cos i_c/v_1, e cos⁡ic=1−v12/v22=v22−v12/v2\cos i_c = \sqrt{1 - v_1^2/v_2^2} = \sqrt{v_2^2 - v_1^2}/v_2. Logo

ti=2hv22−v12v1v2,portantoh=ti v1v22v22−v12.t_i = \frac{2h\sqrt{v_2^2 - v_1^2}}{v_1 v_2}, \qquad\text{portanto}\qquad h = \frac{t_i\,v_1 v_2}{2\sqrt{v_2^2 - v_1^2}}.

(2) h=6.23×6.2×8.1/(265.61−38.44)≈312.9/10.43≈30.0 kmh = 6.23 \times 6.2 \times 8.1/\bigl(2\sqrt{65.61 - 38.44}\bigr) \approx 312.9/10.43 \approx 30.0\,\mathrm{km}.

Exercício 11.13 ★★★

A densidade média da Terra é de 5.52 g/cm35.52\,\mathrm{g}/\mathrm{cm}^{3}. Trate a Terra como um núcleo de raio 3480 km3480\,\mathrm{km} e densidade uniforme ρc\rho_c, dentro de um manto e de uma crosta de densidade uniforme 4.45 g/cm34.45\,\mathrm{g}/\mathrm{cm}^{3} (a média do modelo de referência). (1) Que fração do volume da Terra é o núcleo? (2) Calcule ρc\rho_c. (3) Compare com a densidade no topo do núcleo no modelo de referência, 9.9 g/cm39.9\,\mathrm{g}/\mathrm{cm}^{3}, e com a densidade da crosta.

Solução

Solução de Exercício 11.13.

(1) (3480/6371)3≈0.163(3480/6371)^3 \approx 0.163: o núcleo é cerca de 16 %16\,\% do volume. (2) A densidade média é a média ponderada pelos volumes: 5.52=0.163ρc+0.837×4.455.52 = 0.163 \rho_c + 0.837 \times 4.45, logo ρc≈(5.52−3.72)/0.163≈11.0 g/cm3\rho_c \approx (5.52 - 3.72)/0.163 \approx 11.0\,\mathrm{g}/\mathrm{cm}^{3}. (3) Isso é mais que 9.9 g/cm39.9\,\mathrm{g}/\mathrm{cm}^{3}, como deve ser, já que a densidade do núcleo aumenta em direção ao centro (até 13.1 g/cm313.1\,\mathrm{g}/\mathrm{cm}^{3}); é cerca de quatro vezes a densidade da crosta, 2.6 g/cm32.6\,\mathrm{g}/\mathrm{cm}^{3}. O núcleo é feito de um material muito mais denso que as rochas da superfície.

Exercício 11.14 ★★★

A zona de sombra P de Gutenberg vai de 105∘105{}^{\circ} a 143∘143{}^{\circ}. (1) Dê os seus limites em quilômetros ao longo da superfície. (2) Numa esfera, a área entre as distâncias angulares aa e bb de um ponto é a fração (cos⁡a−cos⁡b)/2(\cos a - \cos b)/2 de toda a superfície. Que fração da superfície da Terra não recebe nenhuma onda P direta de um dado terremoto? (3) Por que cada terremoto tem a sua própria zona de sombra?

Solução

Solução de Exercício 11.14.

(1) 105×111.2≈11 700 km105 \times 111.2 \approx 11\,700\,\mathrm{km} e 143×111.2≈15 900 km143 \times 111.2 \approx 15\,900\,\mathrm{km}. (2) (cos⁡105∘−cos⁡143∘)/2≈(−0.259+0.799)/2≈0.27(\cos105{}^{\circ} - \cos143{}^{\circ})/2 \approx (-0.259 + 0.799)/2 \approx 0.27: cerca de 27 %27\,\% da superfície, um anel em torno do ponto oposto ao terremoto. (3) A zona de sombra é uma faixa de distâncias ao epicentro: ela se desloca com o terremoto. Cada terremoto tem o seu próprio anel.

Exercício 11.15 ★★★

Sob uma alta cadeia de montanhas, um levantamento de refração encontra v1=6.3 km/sv_1 = 6.3\,\mathrm{km}/\mathrm{s}, v2=8.1 km/sv_2 = 8.1\,\mathrm{km}/\mathrm{s} e um tempo de intercepto de 9.5 s9.5\,\mathrm{s}. (1) Calcule a espessura da crosta ali. (2) Que tempo de intercepto daria uma crosta de 30 km30\,\mathrm{km} de espessura com as mesmas velocidades? (3) Compare com a espessura média da crosta continental.

Solução

Solução de Exercício 11.15.

(1) h=9.5×6.3×8.1/(265.61−39.69)≈484.8/10.18≈48 kmh = 9.5 \times 6.3 \times 8.1/\bigl(2\sqrt{65.61 - 39.69}\bigr) \approx 484.8/10.18 \approx 48\,\mathrm{km}. (2) sin⁡ic=6.3/8.1≈0.778\sin i_c = 6.3/8.1 \approx 0.778, cos⁡ic≈0.629\cos i_c \approx 0.629, e ti=2×30×0.629/6.3≈6.0 st_i = 2 \times 30 \times 0.629/6.3 \approx 6.0\,\mathrm{s}. (3) A crosta sob a cordilheira tem cerca de 48 km48\,\mathrm{km} de espessura, mais que a média continental de cerca de 41 km41\,\mathrm{km} e perto da média das cadeias de montanhas: as cordilheiras altas se apoiam numa crosta espessa.

11.6 Problema: encontrar o Moho

Problema 11.1

Problema de fim de semana — a profundidade da crosta a partir de quinze estações

Um pequeno terremoto ocorre a uma profundidade muito rasa sob um continente. Quinze estações dispostas numa linha reta a partir do epicentro registram os instantes de chegada da primeira onda P e, onde é possível lê-los, de uma segunda. As leituras abaixo são inventadas, mas calculadas como um levantamento real as encontraria, ao décimo de segundo. Pg é a onda que se propaga pela crosta, Pn a que correu ao longo do topo do manto.

distância (km\mathrm{km})Pg (s\mathrm{s})Pn (s\mathrm{s})distância (km\mathrm{km})Pg (s\mathrm{s})Pn (s\mathrm{s})
203.3—18029.028.5
406.5—20032.330.9
609.7—220—33.3
8012.816.2240—35.8
10016.118.6260—38.3
12019.321.1280—40.8
14022.623.6300—43.2
16025.826.0

Parte I — A onda direta.

  1. Em papel milimetrado, represente os tempos Pg e Pn em função da distância (1 cm1\,\mathrm{cm} para 20 km20\,\mathrm{km} e para 5 s5\,\mathrm{s}). Como se dispõem os pontos Pg?
  2. Por que a reta Pg passa perto da origem?
  3. Usando as estações a 20 e a 200 km200\,\mathrm{km}, calcule a inclinação da reta Pg em segundos por quilômetro.
  4. Deduza a velocidade v1v_1 das ondas P na crosta.
  5. Se a crosta continuasse, quando a onda Pg chegaria à estação a 300 km300\,\mathrm{km}?

Parte II — A onda refratada.

  1. Usando as estações a 100 e a 300 km300\,\mathrm{km}, calcule a inclinação da reta Pn e a velocidade v2v_2 das ondas P sob a crosta.
  2. Compare v2v_2 com a velocidade da onda Pn que Mohorovičić mediu, cerca de 8.0 km/s8.0\,\mathrm{km}/\mathrm{s}. Que rocha fica sob a crosta?
  3. Calcule o ângulo crítico ici_c.
  4. Nenhuma estação mais próxima que 80 km80\,\mathrm{km} registra uma onda Pn. Usando a Proposição 11.6, explique por que existe uma distância mínima a partir da qual a onda frontal pode ser registrada.
  5. Entre 80 e 160 km160\,\mathrm{km}, Pn chega depois de Pg. Por que ela ainda é registrada?

Parte III — O cruzamento.

  1. Pela tabela, entre quais duas estações a primeira onda a chegar passa de Pg para Pn?
  2. Escreva as equações das duas retas, usando os pontos a 20 km20\,\mathrm{km} (Pg) e a 100 km100\,\mathrm{km} (Pn).
  3. Calcule a distância em que as duas retas se cruzam.
  4. Além de 200 km200\,\mathrm{km}, nenhuma estação registra Pg como uma onda separada. Que onda uma estação a 250 km250\,\mathrm{km} registra primeiro, e quando?

Parte IV — A profundidade do Moho.

  1. Prolongue a reta Pn para trás até o eixo dos tempos: qual é o tempo de intercepto tit_i?
  2. Calcule cos⁡ic\cos i_c, e a espessura hh da crosta pelo Método 11.9.
  3. Verifique: com esse hh, calcule a distância de cruzamento com a Proposição 11.7 e compare com a questão 13.
  4. Verifique de novo: calcule a distância crítica 2htan⁡ic2h\tan i_c e compare com a estação mais próxima que registra Pn.
  5. Os sismólogos dão hh apenas a alguns quilômetros. Por que um valor mais fino não se justifica?
  6. Conclua: a que profundidade fica o Moho sob esta região? A crosta aqui é fina ou espessa para um continente?
Solução

Solução de Problema 11.1.

1. Os pontos Pg ficam numa reta; os pontos Pn ficam em outra reta, menos inclinada.

2. O terremoto está a uma profundidade muito rasa sob o epicentro: uma estação à distância zero registraria a onda imediatamente.

3. (32.3−3.3)/(200−20)=29.0/180≈0.161(32.3 - 3.3)/(200 - 20) = 29.0/180 \approx 0.161 s\mathrm{s} por quilômetro.

4. v1=180/29.0≈6.2 km/sv_1 = 180/29.0 \approx 6.2\,\mathrm{km}/\mathrm{s}.

5. 3.3+280×0.161≈48.4 s3.3 + 280 \times 0.161 \approx 48.4\,\mathrm{s}.

6. (43.2−18.6)/(300−100)=24.6/200=0.123(43.2 - 18.6)/(300 - 100) = 24.6/200 = 0.123 s\mathrm{s} por quilômetro, logo v2=200/24.6≈8.13 km/sv_2 = 200/24.6 \approx 8.13\,\mathrm{km}/\mathrm{s}.

7. Ela é próxima de 8.0 km/s8.0\,\mathrm{km}/\mathrm{s}: sob a crosta fica a rocha do topo do manto.

8. sin⁡ic=6.21/8.13≈0.763\sin i_c = 6.21/8.13 \approx 0.763, logo ic≈49.8∘i_c \approx 49.8{}^{\circ}.

9. A onda frontal desce com o ângulo ici_c e volta a subir com o mesmo ângulo. O primeiro ponto em que ela pode voltar à superfície fica htan⁡ich\tan i_c além do ponto em que ela chegou ao Moho, que por sua vez fica a htan⁡ich\tan i_c da fonte: nenhuma estação mais próxima que 2htan⁡ic2h\tan i_c pode recebê-la.

10. Um sismômetro registra todas as ondas que chegam até ele, não só a primeira; a onda Pn chega depois da onda Pg, mas ainda aparece como uma onda separada no registro.

11. A 160 km160\,\mathrm{km}, Pg (25.8 s25.8\,\mathrm{s}) vem antes de Pn (26.0 s26.0\,\mathrm{s}); a 180 km180\,\mathrm{km}, Pn (28.5 s28.5\,\mathrm{s}) vem antes de Pg (29.0 s29.0\,\mathrm{s}). A mudança acontece entre essas duas estações.

12. Pg: t=3.3+0.1611 (x−20)≈0.08+0.1611 xt = 3.3 + 0.1611\,(x - 20) \approx 0.08 + 0.1611\,x. Pn: t=18.6+0.123 (x−100)=6.30+0.123 xt = 18.6 + 0.123\,(x - 100) = 6.30 + 0.123\,x (xx em quilômetros, tt em segundos).

13. 0.08+0.1611 x=6.30+0.123 x0.08 + 0.1611\,x = 6.30 + 0.123\,x dá x≈6.22/0.0381≈163 kmx \approx 6.22/0.0381 \approx 163\,\mathrm{km}.

14. Pn, depois de 6.30+0.123×250≈37.1 s6.30 + 0.123 \times 250 \approx 37.1\,\mathrm{s}.

15. ti≈6.3 st_i \approx 6.3\,\mathrm{s}.

16. cos⁡ic≈0.646\cos i_c \approx 0.646, logo h=6.21×6.3/(2×0.646)≈30.3 kmh = 6.21 \times 6.3/(2 \times 0.646) \approx 30.3\,\mathrm{km}.

17. xc=2×30.3×14.34/1.92≈60.6×2.73≈165 kmx_c = 2 \times 30.3 \times \sqrt{14.34/1.92} \approx 60.6 \times 2.73 \approx 165\,\mathrm{km}, a menos de 2 km2\,\mathrm{km} dos 163 km163\,\mathrm{km} da questão 13.

18. tan⁡ic≈1.18\tan i_c \approx 1.18: 2×30.3×1.18≈72 km2 \times 30.3 \times 1.18 \approx 72\,\mathrm{km}. A estação mais próxima que registra Pn fica a 80 km80\,\mathrm{km}, e a de 60 km60\,\mathrm{km} não registra: os dois resultados concordam.

19. Os tempos são lidos a 0.1 s0.1\,\mathrm{s}, e um erro de 0.1 s0.1\,\mathrm{s} só em tit_i muda hh em cerca de 0.5 km0.5\,\mathrm{km}; as velocidades, tiradas de inclinações, também são incertas, e o terremoto não estava exatamente na superfície. A crosta também não é perfeitamente uniforme. Uma precisão de um ou dois quilômetros é o máximo que os dados permitem.

20. O Moho fica a cerca de 30 km30\,\mathrm{km} sob esta região: a crosta aqui é do lado fino para um continente, cuja crosta tem em média cerca de 41 km41\,\mathrm{km}; 30 km30\,\mathrm{km} é típico das regiões onde a crosta foi estirada.

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