Mathematics · Livro 3 · Bachelor Year 1

Matemática universitária — Graduação 1

Matemática universitária — Graduação 1 · Bachelor Year 1

6Aritmética dos Inteiros

A aritmética — o estudo da divisibilidade em Z\Z — foi iniciada no volume do ensino médio. Este capítulo a reconstrói inteiramente a partir da divisão euclidiana, com demonstrações completas: máximo divisor comum e algoritmo de Euclides, identidade de Bézout e lema de Gauss, fatoração em primos e o cálculo das congruências até o pequeno teorema de Fermat. Além do seu próprio encanto, este material é o modelo que o Capítulo 8 imita para os polinômios.

6.1 Divisibilidade e divisão euclidiana

Definição 6.1 (Divisibilidade)

Para a,bZa, b \in \Z, bb divide aa (escreve-se bab \mid a) quando a=bqa = bq para algum qZq \in \Z. Consequências básicas: se bab \mid a e bab \mid a', então b(ua+va)b \mid (ua + va') para todos u,vZu, v \in \Z; se bab \mid a e a0a \neq 0, então ba\abs b \leq \abs a; e aba \mid b junto com bab \mid a forçam b=±ab = \pm a.

Teorema 6.2 (Divisão euclidiana)

Para todos aZa \in \Z e bNb \in \N^*, existe exatamente um par (q,r)Z×N(q, r) \in \Z \times \N com

a=bq+r,0r<b.a = bq + r, \qquad 0 \leq r < b .

Demonstração. Existência. O conjunto A={abk:kZ}NA = \{a - bk : k \in \Z\} \cap \N é um subconjunto não vazio de N\N (tome k=ak = -\abs a: a+baa+a0a + b\abs a \geq a + \abs a \geq 0). Seja r=abqr = a - bq o seu menor elemento. Se rbr \geq b, então rb=ab(q+1)r - b = a - b(q+1) seria um elemento menor de AA: contradição. Logo, 0r<b0 \leq r < b.

Unicidade. Se bq+r=bq+rbq + r = bq' + r' com 0r,r<b0 \leq r, r' < b, então b(qq)=rrb(q - q') = r' - r e rr<b\abs{r' - r} < b: o múltiplo de bb no lado esquerdo tem de ser 00, de modo que q=qq = q' e r=rr = r'.

Exemplo 6.3 (Numeração posicional por divisões sucessivas)

Escreva 20262026 na base 77. Divida repetidamente por 77, guardando os restos:

2026=7×289+3,289=7×41+2,41=7×5+6,5=7×0+5.2026 = 7 \times 289 + 3, \quad 289 = 7 \times 41 + 2, \quad 41 = 7 \times 5 + 6, \quad 5 = 7 \times 0 + 5 .

Lendo os restos do último ao primeiro: 2026=(5623)72026 = (5\,6\,2\,3)_7. Verificação: 5×343+6×49+2×7+3=1715+294+14+3=20265 \times 343 + 6 \times 49 + 2 \times 7 + 3 = 1715 + 294 + 14 + 3 = 2026. A unicidade da divisão euclidiana é exatamente o que torna cada algarismo forçado: em cada passo, o resto é o único inteiro de [ ⁣[0,6] ⁣]\intint06 congruente ao valor corrente módulo 77, de modo que a escrita na base 77 é única — fato usado silenciosamente sempre que o problema de fim de semana manipula “os algarismos de nn na base pp”.

6.2 Máximo divisor comum

Teorema 6.4 (Subgrupos de Z\Z; existência do mdc)

  1. Todo subgrupo de (Z,+)(\Z, +) é da forma nZ={nk:kZ}n\Z = \{nk : k \in \Z\} para um único nNn \in \N.
  2. Para a,bZa, b \in \Z não simultaneamente nulos, o conjunto aZ+bZ={au+bv:u,vZ}a\Z + b\Z = \{au + bv : u, v \in \Z\} é um subgrupo de Z\Z e, portanto, é igual a dZd\,\Z para um único dNd \in \N^*. Esse dd é o máximo divisor comum gcd(a,b)\gcd(a, b): ele divide aa e bb, e todo divisor comum de aa e bb divide dd.

Demonstração. (1) Seja HZH \subseteq \Z um subgrupo (não vazio, estável por subtração; a definição formal está no Capítulo 7, e apenas estas duas propriedades são usadas). Se H={0}H = \{0\}, tome n=0n = 0. Caso contrário, HH contém um elemento não nulo e o seu oposto, logo um menor elemento estritamente positivo nn. Então nZHn\Z \subseteq H. Para xHx \in H, escreva x=nq+rx = nq + r com 0r<n0 \leq r < n (Teorema 6.2); r=xnqHr = x - nq \in H, e a minimalidade de nn força r=0r = 0: xnZx \in n\Z. Unicidade: nn é o menor elemento positivo de nZn\Z.

(2) aZ+bZa\Z + b\Z contém 00 e é estável por subtração, de modo que é dZd\Z com d1d \geq 1 (ele contém aa ou bb, não nulos). Como a,bdZa, b \in d\Z, dd divide ambos. E, se cc divide aa e bb, então cc divide todo au+bvau + bv — em particular cdc \mid d, pois daZ+bZd \in a\Z + b\Z. Esta é a propriedade anunciada (e ela implica cd\abs c \leq d, de modo que dd merece o nome de máximo divisor comum).

Corolário 6.5 (Identidade de Bézout)

Para a,ba, b não simultaneamente nulos, existem u,vZu, v \in \Z com

au+bv=gcd(a,b).au + bv = \gcd(a, b) .

Em particular (gcd(a,b)=1\gcd(a,b) = 1, o caso dos números primos entre si): aa e bb são primos entre si se, e somente se, au+bv=1au + bv = 1 tem solução.

Demonstração. gcd(a,b)=ddZ=aZ+bZ\gcd(a,b) = d \in d\Z = a\Z + b\Z. Quanto à equivalência: se gcd(a,b)=1\gcd(a,b) = 1, Bézout fornece a solução; reciprocamente, au+bv=1au + bv = 1 força todo divisor comum de a,ba, b a dividir 11.

Método 6.6 (Algoritmo de Euclides, estendido)

Para calcular gcd(a,b)\gcd(a, b) (a>b>0a > b > 0): divida a=bq+ra = bq + r; então gcd(a,b)=gcd(b,r)\gcd(a, b) = \gcd(b, r) (os divisores comuns de (a,b)(a,b) e os de (b,r)(b,r) coincidem, pois r=abqr = a - bq); itere até que o resto seja 00; o último resto não nulo é o mdc. Percorrendo as divisões de trás para diante (ou mantendo os coeficientes na descida), obtém-se um par de Bézout (u,v)(u, v).

Exemplo 6.7

gcd(120,23)\gcd(120, 23): 120=5×23+5120 = 5 \times 23 + 5; 23=4×5+323 = 4 \times 5 + 3; 5=1×3+25 = 1\times 3 + 2; 3=1×2+13 = 1 \times 2 + 1; 2=2×1+02 = 2 \times 1 + 0. Logo, gcd=1\gcd = 1. De trás para diante:

1=32=3(53)=2×35=2(234×5)5=2×239×5=2×239(1205×23)=47×239×120.\begin{align*} 1 &= 3 - 2 = 3 - (5 - 3) = 2\times 3 - 5 = 2(23 - 4\times 5) - 5 \\ &= 2 \times 23 - 9 \times 5 = 2\times 23 - 9(120 - 5\times 23) = 47 \times 23 - 9 \times 120 . \end{align*}

Verificação: 47×23=108147 \times 23 = 1081, 9×120=10809 \times 120 = 1080.

Teorema 6.8 (Lema de Gauss e consequências)

Sejam a,b,cZa, b, c \in \Z.

  1. (Lema de Gauss) Se abca \mid bc e gcd(a,b)=1\gcd(a, b) = 1, então aca \mid c.
  2. Se aca \mid c, bcb \mid c e gcd(a,b)=1\gcd(a,b) = 1, então abcab \mid c.
  3. Se gcd(a,b)=gcd(a,c)=1\gcd(a, b) = \gcd(a, c) = 1, então gcd(a,bc)=1\gcd(a, bc) = 1.

Demonstração. (1) Bézout: au+bv=1au + bv = 1. Multiplique por cc: acu+bcv=cacu + bcv = c. Os dois termos são divisíveis por aa (o segundo porque abca \mid bc), logo aca \mid c.

(2) Escreva c=aqc = aq; de baqb \mid aq e gcd(a,b)=1\gcd(a, b) = 1, o ponto (1) dá bqb \mid q, de modo que abaq=cab \mid aq = c.

(3) au+bv=1au + bv = 1 e au+cv=1au' + cv' = 1. Multiplique as duas relações:

1=(au+bv)(au+cv)=a(auu+ucv+ubv)+bc(vv),1 = (au + bv)(au' + cv') = a\,\bigl(auu' + ucv' + u'bv\bigr) + bc\,(vv') ,

uma relação de Bézout entre aa e bcbc: pelo Corolário 6.5, gcd(a,bc)=1\gcd(a, bc) = 1.

Exemplo 6.9 (Resolvendo uma equação diofantina linear)

Encontre todos os (x,y)Z2(x, y) \in \Z^2 com 6x+10y=46x + 10y = 4. Primeiro, o teste de existência: gcd(6,10)=2\gcd(6, 10) = 2 divide 44, de modo que há soluções (se o mdc não dividisse o lado direito, o lado esquerdo seria sempre um múltiplo dele e não haveria nenhuma). Divida tudo: 3x+5y=23x + 5y = 2. Uma solução particular está à vista: (x0,y0)=(1,1)(x_0, y_0) = (-1, 1). Para a geral, subtraia: 3(x+1)=5(y1)3(x + 1) = -5(y - 1), de modo que 35(y1)3 \mid 5(y-1) e o lema de Gauss (gcd(3,5)=1\gcd(3,5) = 1) dá 3y13 \mid y - 1: y=13ky = 1 - 3k, e então x=1+5kx = -1 + 5k. Reciprocamente, todo par desses serve:

(x,y)=(1+5k, 13k),kZ.(x, y) = (-1 + 5k,\ 1 - 3k), \qquad k \in \Z .

O padrão é geral: uma solução particular mais os múltiplos inteiros de (bgcd,agcd)\bigl(\frac b{\gcd}, -\frac a{\gcd}\bigr) — a mesma estrutura “particular mais homogênea” do Capítulo 5, com o lema de Gauss desempenhando o papel da unicidade.

Definição 6.10 (Mínimo múltiplo comum)

lcm(a,b)\operatorname{lcm}(a, b) é o gerador em N\N do subgrupo aZbZa\Z \cap b\Z: é um múltiplo comum de aa e bb que divide todo múltiplo comum e, para a,bNa, b \in \N^*,

gcd(a,b)×lcm(a,b)=ab(demonstrac¸a˜o noExercıˊcio 6.5).\gcd(a,b) \times \operatorname{lcm}(a,b) = ab \qquad (\text{demonstração no} \text{Exercício 6.5}).

Exemplo 6.11 (Problemas de alinhamento são problemas de mmc)

Duas engrenagens acopladas têm 8484 e 3636 dentes. Após quantos dentes de movimento comum elas voltam juntas à posição inicial? A configuração se repete quando o número de dentes decorridos é um múltiplo comum de 8484 e 3636; a primeira vez é em

lcm(84,36)=84×36gcd(84,36)=302412=252\operatorname{lcm}(84, 36) = \frac{84 \times 36}{\gcd(84, 36)} = \frac{3024}{12} = 252

dentes — isto é, 33 voltas da engrenagem grande e 77 da pequena (252/84252/84 e 252/36252/36). Note o caminho prático: calcule primeiro o mdc (Euclides: 84=2×36+1284 = 2\times36 + 12, 36=3×1236 = 3\times12) e depois divida — nunca construa o mmc listando múltiplos. Toda questão de coincidência periódica (engrenagens, alinhamentos planetários, dízimas que se reencontram) reduz-se a esse único cálculo.

6.3 Números primos

Definição 6.12

Um inteiro p2p \geq 2 é primo quando os seus únicos divisores positivos são 11 e pp. Para pp primo e aZa \in \Z: ou pap \mid a, ou gcd(p,a)=1\gcd(p, a) = 1. Consequentemente (Teorema 6.8), vale o lema de Euclides: se pabp \mid ab, então pap \mid a ou pbp \mid b.

Observação 6.13 (Testando a primalidade por divisões sucessivas)

Se n=abn = ab com 2ab2 \leq a \leq b, então a2ab=na^2 \leq ab = n, de modo que ana \leq \sqrt n: um nn composto tem sempre um divisor primo n\leq \sqrt n. Assim, para testar se nn é primo basta tentar os primos até n\sqrt n. Para n=271n = 271: 271<17\sqrt{271} < 17, e 271271 não é divisível por nenhum de 2,3,5,7,11,132, 3, 5, 7, 11, 13 (é ímpar, a soma dos algarismos é 1010, não termina em 00 nem em 55, 271=738+5=1124+7=1320+11271 = 7\cdot38 + 5 = 11\cdot24 + 7 = 13\cdot20 + 11): primo, após seis divisões em vez de duzentas. A barreira n\sqrt n é um limiar genuíno: cruzá-la eficientemente para números de cem algarismos exige os testes modernos de primalidade nascidos do Teorema 6.23.

Teorema 6.14 (Euclides)

Existem infinitos números primos.

Demonstração. Todo inteiro n2n \geq 2 tem um divisor primo: o seu menor divisor 2\geq 2 é primo (uma fatoração própria dele produziria um divisor menor de nn). Agora suponha que p1,,pkp_1, \dots, p_k fossem todos os primos e seja N=p1p2pk+12N = p_1 p_2 \cdots p_k + 1 \geq 2. Algum primo pip_i divide NN; mas pip_i também divide N1=p1pkN - 1 = p_1\cdots p_k, de modo que pi1p_i \mid 1 — absurdo.

Teorema 6.15 (Teorema fundamental da aritmética)

Todo inteiro n2n \geq 2 é um produto de primos, e a fatoração

n=p1α1p2α2pkαk(p1<p2<<pk primos, αiN)n = p_1^{\alpha_1} p_2^{\alpha_2} \cdots p_k^{\alpha_k} \qquad (p_1 < p_2 < \dots < p_k \text{ primos},\ \alpha_i \in \N^*)

é única.

Demonstração. Existência por indução forte (Teorema 1.12): n=2n = 2 é primo; para n>2n > 2, ou nn é primo, ou n=abn = ab com 2a,b<n2 \leq a, b < n, e a hipótese de indução fatora aa e bb.

Unicidade. Suponha p1pr=q1qsp_1 \cdots p_r = q_1 \cdots q_s (primos listados com repetição, digamos rsr \leq s) e faça indução em rr. Se r=0r = 0, o lado esquerdo é 11, o que força s=0s = 0 (um produto não vazio de primos excede 11). Para r1r \geq 1: o primo p1p_1 divide q1(q2qs)q_1(q_2\cdots q_s), de modo que, pelo lema de Euclides, ou p1q1p_1 \mid q_1, ou p1q2qsp_1 \mid q_2\cdots q_s; iterando, p1p_1 divide algum qjq_j. Mas qjq_j é primo e p12p_1 \geq 2: necessariamente p1=qjp_1 = q_j. Cancele esse fator comum (legítimo: Z\Z é um domínio de integridade) para obter

p2pr=q1qj^qsp_2 \cdots p_r = q_1 \cdots \widehat{q_j} \cdots q_s

(com o chapéu marcando a omissão), uma igualdade de produtos mais curtos; a hipótese de indução diz que as duas listas p2,,prp_2, \dots, p_r e q1,,qj^,,qsq_1, \dots, \widehat{q_j}, \dots, q_s coincidem a menos da ordem e, portanto, as originais também coincidiam. A forma com expoentes agrupa os primos iguais.

Proposição 6.16 (Valorações)

Para pp primo e nNn \in \N^*, escreva vp(n)v_p(n) para o expoente de pp na fatoração de nn (com vp(n)=0v_p(n) = 0 se pnp \nmid n). Então

vp(mn)=vp(m)+vp(n),mn    p, vp(m)vp(n),v_p(mn) = v_p(m) + v_p(n), \qquad m \mid n \iff \forall p,\ v_p(m) \leq v_p(n),
vp(gcd(m,n))=min(vp(m),vp(n)),vp(lcm(m,n))=max(vp(m),vp(n)).v_p\bigl(\gcd(m,n)\bigr) = \min\bigl(v_p(m), v_p(n)\bigr), \qquad v_p\bigl(\operatorname{lcm}(m,n)\bigr) = \max\bigl(v_p(m), v_p(n)\bigr).

Demonstração. A primeira identidade vale porque as fatorações se multiplicam e a fatoração de mnmn é única. Se mnm \mid n, escreva n=mqn = mq e aplique-a. Reciprocamente, se todos os vp(m)vp(n)v_p(m) \leq v_p(n), o inteiro q=ppvp(n)vp(m)q = \prod_p p^{\,v_p(n) - v_p(m)} satisfaz mq=nmq = n. A fórmula do mdc: o inteiro d=pmind = \prod p^{\min} divide os dois pelo critério, e todo divisor comum cc tem vp(c)minv_p(c) \leq \min para todo pp, de modo que cdc \mid d; mesmo raciocínio para o mmc com o max\max.

Exemplo 6.17 (Quadrados e cubos por meio de valorações)

Um inteiro n1n \geq 1 é um quadrado perfeito se, e somente se, todo vp(n)v_p(n) é par (se n=m2n = m^2, então vp(n)=2vp(m)v_p(n) = 2v_p(m); reciprocamente, divida ao meio cada expoente). Do mesmo modo para os cubos, com múltiplos de 33. Assim, 21168=24×33×7221168 = 2^4 \times 3^3 \times 7^2 não é um quadrado (v3=3v_3 = 3 é ímpar) nem um cubo (v2=4v_2 = 4); o menor inteiro positivo mm tal que 21168m21168\,m seja um cubo é encontrado completando cada expoente até o próximo múltiplo de 33:

m=264×333×732=22×7=28,21168×28=263373=(22×3×7)3=843.m = 2^{6-4} \times 3^{3-3} \times 7^{3-2} = 2^2 \times 7 = 28, \qquad 21168 \times 28 = 2^6\,3^3\,7^3 = (2^2 \times 3 \times 7)^3 = 84^3 .

A ideia: questões multiplicativas (quadrados, cubos, divisores, mdc, mmc) tornam-se questões coordenada a coordenada sobre os vetores de expoentes (v2,v3,v5,)(v_2, v_3, v_5, \dots) — a fatoração única é a afirmação de que essas coordenadas existem e estão bem definidas.

6.4 Congruências

Definição 6.18

Para nNn \in \N^*: ab(modn)a \equiv b \pmod n quando nabn \mid a - b. Esta é uma relação de equivalência compatível com a adição e a multiplicação: se aba \equiv b e aba' \equiv b' (mód. nn), então a+ab+ba + a' \equiv b + b', aabbaa' \equiv bb' e akbka^k \equiv b^k para kNk \in \N.

Exemplo 6.19 (A prova dos noves)

A compatibilidade com ++ e ×\times é um recurso de verificação tão antigo quanto o comércio. Como 101(mod9)10 \equiv 1 \pmod 9, todo inteiro é congruente módulo 99 à soma dos seus algarismos (demonstrado no Exercício 6.2). Para verificar a afirmação 1234×567=6996781234 \times 567 = 699\,678: as somas dos algarismos dão 123411234 \equiv 1 e 567180(mod9)567 \equiv 18 \equiv 0 \pmod 9, de modo que o produto deve ser 1×0=0\equiv 1 \times 0 = 0; e, de fato, 6+9+9+6+7+8=4506 + 9 + 9 + 6 + 7 + 8 = 45 \equiv 0. A verificação passa (e o produto está, de fato, correto). Se alguém tivesse relatado 699478699\,478, a soma dos algarismos 437≢043 \equiv 7 \not\equiv 0 o condenaria instantaneamente. O teste é unilateral — ele apanha um erro a menos que o próprio erro seja um múltiplo de 99 — o que é exatamente a lição dos pseudoprimos do Exemplo 6.24 em miniatura: verificações por congruência refutam, não certificam.

Proposição 6.20 (Invertibilidade módulo nn)

aa é invertível módulo nn (isto é, ab1(modn)ab \equiv 1 \pmod n para algum bb) se, e somente se, gcd(a,n)=1\gcd(a, n) = 1. A inversa é então única módulo nn e calculada pelo algoritmo de Euclides estendido.

Demonstração. ab1(modn)ab \equiv 1 \pmod n significa ab+nk=1ab + nk = 1 para algum kk: uma relação de Bézout, que existe se, e somente se, gcd(a,n)=1\gcd(a,n) = 1 (Corolário 6.5). Unicidade: se abab1ab \equiv ab' \equiv 1, então bb(ab)=(ab)bb(modn)b \equiv b(ab') = (ab)b' \equiv b' \pmod n.

Exemplo 6.21 (Invertendo 77 módulo 2626)

Como gcd(7,26)=1\gcd(7, 26) = 1, a classe de 77 é invertível módulo 2626. Euclides estendido:

26=3×7+5,7=1×5+2,5=2×2+1,26 = 3 \times 7 + 5, \qquad 7 = 1 \times 5 + 2, \qquad 5 = 2 \times 2 + 1 ,

e depois, de trás para diante:

1=52×2=52(75)=3×52×7=3(263×7)2×7=3×2611×7.1 = 5 - 2 \times 2 = 5 - 2(7 - 5) = 3 \times 5 - 2 \times 7 = 3(26 - 3 \times 7) - 2 \times 7 = 3 \times 26 - 11 \times 7 .

Portanto, 7×(11)1(mod26)7 \times (-11) \equiv 1 \pmod{26}, isto é, 711115(mod26)7^{-1} \equiv -11 \equiv 15 \pmod{26}; verificação: 7×15=105=4×26+17 \times 15 = 105 = 4 \times 26 + 1. Com a inversa em mãos, qualquer congruência 7xc(mod26)7x \equiv c \pmod{26} resolve-se com uma multiplicação: x15cx \equiv 15c. Essa inversão mecânica é o cavalo de batalha da aritmética modular — e dos protocolos de chave pública mencionados na Observação 6.27, em que os módulos têm centenas de algarismos, mas o algoritmo é exatamente este.

Exemplo 6.22 (Quando o coeficiente não é invertível)

Resolva 12x8(mod20)12x \equiv 8 \pmod{20}. Aqui gcd(12,20)=4\gcd(12, 20) = 4, de modo que 1212 não é invertível módulo 2020 — mas a equação ainda é tratável. A congruência diz que 2012x820 \mid 12x - 8; dividindo a relação inteira por 44 (divisor dos três ingredientes), ela é equivalente a 53x25 \mid 3x - 2, isto é,

3x2(mod5).3x \equiv 2 \pmod 5 .

Agora, gcd(3,5)=1\gcd(3, 5) = 1 e 312(mod5)3^{-1} \equiv 2 \pmod 5 (3×2=613 \times 2 = 6 \equiv 1), de modo que x4(mod5)x \equiv 4 \pmod 5: as soluções são x4,9,14,19(mod20)x \equiv 4, 9, 14, 19 \pmod{20}quatro classes módulo 2020, correspondendo ao mdc. (Se o lado direito não fosse divisível por 44, digamos 12x6(mod20)12x \equiv 6 \pmod{20}, não haveria solução alguma: o lado esquerdo é sempre 0(mod4)\equiv 0 \pmod 4.) Forma geral: axb(modn)ax \equiv b \pmod n tem solução se, e somente se, gcd(a,n)b\gcd(a, n) \mid b, e nesse caso tem exatamente gcd(a,n)\gcd(a, n) classes de soluções — divida tudo pelo mdc e inverta.

Teorema 6.23 (Pequeno teorema de Fermat)

Seja pp primo. Para todo aZa \in \Z:

apa(modp),a^p \equiv a \pmod p,

e, se pap \nmid a, então ap11(modp)a^{p-1} \equiv 1 \pmod p.

Demonstração. Primeiro, para 1kp11 \leq k \leq p - 1, o coeficiente binomial (pk)=p!k!(pk)!\binom pk = \frac{p!}{k!(p-k)!} é divisível por pp: com efeito, k!(pk)!(pk)=p!k!\,(p-k)!\, \binom pk = p! e pp divide p!p!, mas é primo com k!(pk)!k!(p-k)! (todos os fatores são <p< p), de modo que o lema de Gauss dá p(pk)p \mid \binom pk.

Agora demonstremos apaa^p \equiv a para aNa \in \N por indução. Verdadeiro para a=0a = 0. Se apaa^p \equiv a, então, pelo teorema binomial,

(a+1)p=k=0p(pk)akap+1a+1(modp),(a+1)^p = \sum_{k=0}^{p} \binom pk a^k \equiv a^p + 1 \equiv a + 1 \pmod p,

com todos os termos intermediários se anulando módulo pp. Para a<0a < 0, aplique o resultado a a-a e separe p=2p = 2 (em que xxx \equiv -x) do pp ímpar (em que (a)p=ap(-a)^p = -a^p). Por fim, se pap \nmid a, multiplique apaa^p \equiv a por uma inversa de aa módulo pp (Proposição 6.20).

Exemplo 6.24 (A recíproca de Fermat falha: 341341)

O pequeno teorema de Fermat dá um teste barato de composicionalidade: se an1≢1(modn)a^{n-1} \not\equiv 1 \pmod n para algum aa primo com nn, então nn não é primo. O teste poderia também certificar a primalidade? Não: tome n=341=11×31n = 341 = 11 \times 31, composto, e a=2a = 2. Como 210=1024=3×341+12^{10} = 1024 = 3 \times 341 + 1,

2101(mod341)2340=(210)341(mod341):2^{10} \equiv 1 \pmod{341} \qquad\Longrightarrow\qquad 2^{340} = \bigl(2^{10}\bigr)^{34} \equiv 1 \pmod{341} :

o composto 341341 passa no teste de Fermat na base 22 (é o menor pseudoprimo desse tipo). A base 33 o desmascara (3340≢13^{340} \not\equiv 1), e o teste prático de primalidade, portanto, roda o teste em várias bases, com refinamentos — as versões industriais dessa ideia são o que certifica os grandes primos da Observação 6.27. Moral: uma implicação e a sua recíproca vivem vidas separadas (Observação 1.10), mesmo para teoremas.

Exemplo 6.25 (Cálculos práticos com congruências)

Qual é o resto de 720267^{2026} na divisão por 1111? Por Fermat, 7101(mod11)7^{10} \equiv 1 \pmod{11}. Como 2026=10×202+62026 = 10 \times 202 + 6:

7202676=(72)3=49353=1254(mod11).7^{2026} \equiv 7^6 = (7^2)^3 = 49^3 \equiv 5^3 = 125 \equiv 4 \pmod{11}.

O resto é 44. A estratégia: reduza o expoente módulo a ordem fornecida por Fermat e depois reduza as potências intermediárias a cada passo.

Observação 6.26 (Armadilhas frequentes em aritmética)

  1. Dividir uma congruência. De acbc(modn)ac \equiv bc \pmod n não se pode concluir aba \equiv b, a menos que gcd(c,n)=1\gcd(c, n) = 1: 62(mod4)6 \equiv 2 \pmod 4, mas 3≢1(mod4)3 \not\equiv 1 \pmod 4. A regra geral correta divide também o módulo: acbc(modn)    ab(modn/gcd(c,n))ac \equiv bc \pmod n \iff a \equiv b \pmod{n/\gcd(c,n)}.
  2. Usar mal o lema de Euclides. abca \mid bc implica aba \mid b ou aca \mid c apenas para aa primo (ou primo com um dos fatores): 64×96 \mid 4 \times 9, mas 66 não divide nenhum dos fatores.
  3. Primos entre si” é uma relação, não uma propriedade.88 e 99 são primos entre si” é verdade, embora nenhum deles seja primo; “dois a dois primos entre si” é mais forte que “primos entre si no conjunto” (gcd(6,10,15)=1\gcd(6, 10, 15) = 1, mas nenhum par é formado por primos entre si).
  4. Os expoentes não vivem módulo nn. Em akmodna^k \bmod n, o expoente só pode ser reduzido módulo a ordem de aa (por exemplo, p1p - 1 quando Fermat se aplica), nunca módulo nn: 210mod112^{10} \bmod 11 vale 11, e não 210mod11=2102^{10 \bmod 11} = 2^{10} — a redução que funciona é a que o Exemplo 6.25 executa.

Observação 6.27 (Onde este capítulo é usado)

Este capítulo é tanto um modelo quanto uma caixa de ferramentas. Toda a cadeia — divisão euclidiana, mdc, Bézout, Gauss, fatoração única — é reencenada literalmente para os polinômios no Capítulo 8, em que o “grau” faz o papel do valor absoluto; comparar os dois capítulos lado a lado é a melhor maneira de entender ambos. O cálculo das congruências torna-se o anel Z/nZ\Z/n\Z no Capítulo 7, cujos elementos invertíveis (Proposição 6.20) formam o primeiro exemplo não trivial de um grupo de unidades. As valorações voltam no problema de fim de semana abaixo (fórmula de Legendre) e alimentam as demonstrações de irracionalidade do Capítulo 10. Além deste volume, a inversão de Bézout módulo nn é o motor da criptografia de chave pública, e o pequeno teorema de Fermat é o avô dos testes de primalidade que certificam os grandes primos ali usados.

Observação 6.28 (Interlúdio: Z\Z como modelo)

Afaste-se dos teoremas individuais e observe a arquitetura do capítulo: uma ferramenta (a divisão euclidiana) produziu uma classificação (os subgrupos nZn\Z), que produziu um teorema de existência (mdc, Bézout), que produziu um cálculo de divisibilidade (Gauss), que produziu a fatoração única — cada andar apoiado apenas no de baixo. O mesmo edifício será erguido mais duas vezes neste volume, com térreos diferentes: no Capítulo 8, em que a divisão pelo grau substitui a divisão pelo tamanho e tudo acima se repete literalmente; e, em miniatura, dentro de cada Z/nZ\Z/n\Z do Capítulo 7, em que questões de invertibilidade (a Proposição 6.20 deste capítulo) se tornam enunciados estruturais sobre anéis e corpos. Reconhecer um argumento como “o argumento de Z\Z, transplantado” é o modo mais rápido de aprender esses capítulos — e o primeiro sabor do hábito central da álgebra: demonstrar teoremas sobre axiomas, e não sobre objetos.

Linhas 0 a 7 do triângulo de Pascal com as entradas ímpares preenchidas: a linha n contém 2s_2(n) delas, em que s_2(n) é o número de uns na escrita binária de n (linhas 1, 2, 4: duas entradas ímpares; linha 7 = (111)_2: todas as oito). O padrão autossemelhante — cada “triângulo de ímpares” gera duas cópias de si mesmo — é o teorema de Kummer em forma de figura, demonstrado no problema de fim de semana abaixo.
Linhas 00 a 77 do triângulo de Pascal com as entradas ímpares preenchidas: a linha nn contém 2s2(n)2^{s_2(n)} delas, em que s2(n)s_2(n) é o número de uns na escrita binária de nn (linhas 1,2,41, 2, 4: duas entradas ímpares; linha 7=(111)27 = (111)_2: todas as oito). O padrão autossemelhante — cada “triângulo de ímpares” gera duas cópias de si mesmo — é o teorema de Kummer em forma de figura, demonstrado no problema de fim de semana abaixo.

6.5 Exercícios

Exercício 6.1

Calcule gcd(1001,777)\gcd(1\,001, 777) pelo algoritmo de Euclides, e um par de Bézout para ele.

Solução

Solução de Exercício 6.1.

1001=1×777+2241001 = 1 \times 777 + 224; 777=3×224+105777 = 3 \times 224 + 105; 224=2×105+14224 = 2 \times 105 + 14; 105=7×14+7105 = 7 \times 14 + 7; 14=2×7+014 = 2 \times 7 + 0. Logo, gcd(1001,777)=7\gcd(1001, 777) = 7. De trás para diante:

7=1057×14=1057(2242×105)=15×1057×2247 = 105 - 7 \times 14 = 105 - 7(224 - 2\times 105) = 15 \times 105 - 7 \times 224
=15(7773×224)7×224=15×77752×224=15×77752(1001777)=67×77752×1001.= 15(777 - 3\times 224) - 7\times 224 = 15 \times 777 - 52 \times 224 = 15 \times 777 - 52(1001 - 777) = 67 \times 777 - 52 \times 1001 .

Verificação: 67×777=5205967 \times 777 = 52\,059 e 52×1001=5205252 \times 1001 = 52\,052; a diferença é 77. Par de Bézout: (u,v)=(52,67)(u, v) = (-52, 67) para 1001u+777v=71001u + 777v = 7.

Exercício 6.2

Demonstre os critérios de divisibilidade na base 1010: um inteiro é congruente módulo 99 à soma dos seus algarismos, e módulo 1111 à soma alternada dos seus algarismos. Quanto vale 123456789123\,456\,789 módulo 99 e módulo 1111?

Solução

Solução de Exercício 6.2.

Como 101(mod9)10 \equiv 1 \pmod 9: 10k110^k \equiv 1, de modo que kdk10kkdk(mod9)\sum_k d_k 10^k \equiv \sum_k d_k \pmod 9. Como 101(mod11)10 \equiv -1 \pmod{11}: 10k(1)k10^k \equiv (-1)^k, de modo que o inteiro é congruente à soma alternada k(1)kdk\sum_k (-1)^k d_k módulo 1111 (começando pelo algarismo das unidades com sinal ++).

123456789123\,456\,789: soma dos algarismos 450(mod9)45 \equiv 0 \pmod 9. Soma alternada a partir das unidades: 98+76+54+32+1=59 - 8 + 7 - 6 + 5 - 4 + 3 - 2 + 1 = 5, de modo que o número é 5(mod11)\equiv 5 \pmod{11}.

Exercício 6.3

Resolva em Z\Z: 91x1(mod237)91x \equiv 1 \pmod{237} (Euclides estendido).

Solução

Solução de Exercício 6.3.

Euclides: 237=2×91+55237 = 2 \times 91 + 55; 91=1×55+3691 = 1 \times 55 + 36; 55=1×36+1955 = 1 \times 36 + 19; 36=1×19+1736 = 1 \times 19 + 17; 19=1×17+219 = 1 \times 17 + 2; 17=8×2+117 = 8 \times 2 + 1. De trás para diante:

1=178×2=178(1917)=9×178×19=9(3619)8×19=9×3617×191 = 17 - 8\times 2 = 17 - 8(19 - 17) = 9\times 17 - 8\times 19 = 9(36 - 19) - 8\times 19 = 9\times 36 - 17\times 19
=9×3617(5536)=26×3617×55=26(9155)17×55=26×9143×55= 9\times 36 - 17(55 - 36) = 26\times 36 - 17\times 55 = 26(91 - 55) - 17\times 55 = 26\times 91 - 43\times 55
=26×9143(2372×91)=112×9143×237.= 26\times 91 - 43(237 - 2\times 91) = 112 \times 91 - 43 \times 237.

Logo, 91×1121(mod237)91 \times 112 \equiv 1 \pmod{237}: as soluções são x112(mod237)x \equiv 112 \pmod{237}. (Verificação: 91×112=10192=43×237+191 \times 112 = 10\,192 = 43 \times 237 + 1.)

Exercício 6.4

Encontre todos os pares (x,y)Z2(x, y) \in \Z^2 com 17x+39y=117x + 39y = 1; depois todos os pares com 17x+39y=517 x + 39 y = 5.

Solução

Solução de Exercício 6.4.

gcd(17,39)=1\gcd(17, 39) = 1: Euclides dá 39=2×17+539 = 2\times 17 + 5, 17=3×5+217 = 3\times 5 + 2, 5=2×2+15 = 2\times 2 + 1 e, de trás para diante,

1=52×2=52(173×5)=7×52×17=7(392×17)2×17=7×3916×17.1 = 5 - 2\times 2 = 5 - 2(17 - 3\times 5) = 7\times 5 - 2\times 17 = 7(39 - 2\times 17) - 2\times 17 = 7\times 39 - 16\times 17 .

Solução particular (x0,y0)=(16,7)(x_0, y_0) = (-16, 7). Solução geral da equação homogênea 17x+39y=017x + 39y = 0: x=39kx = 39k, y=17ky = -17k (pois 1739y17 \mid 39y e gcd(17,39)=1\gcd(17,39) = 1 forçam 17y17 \mid y — lema de Gauss). Portanto,

(x,y)=(16+39k,  717k),kZ.(x, y) = (-16 + 39k,\; 7 - 17k), \qquad k \in \Z .

Para o lado direito 55, multiplique a solução particular por 55: (x,y)=(80+39k,  3517k)(x, y) = (-80 + 39k,\; 35 - 17k), kZk \in \Z.

Exercício 6.5 ★★

Demonstre que, para a,bNa, b \in \N^*: gcd(a,b)×lcm(a,b)=ab\gcd(a,b) \times \operatorname{lcm}(a,b) = ab. (Use as fórmulas de valoração da Proposição 6.16 e min(α,β)+max(α,β)=α+β\min(\alpha,\beta) + \max(\alpha,\beta) = \alpha + \beta.)

Solução

Solução de Exercício 6.5.

Para todo primo pp, com α=vp(a)\alpha = v_p(a) e β=vp(b)\beta = v_p(b):

vp(gcd(a,b))+vp(lcm(a,b))=min(α,β)+max(α,β)=α+β=vp(ab).v_p\bigl(\gcd(a,b)\bigr) + v_p\bigl(\operatorname{lcm}(a,b)\bigr) = \min(\alpha, \beta) + \max(\alpha, \beta) = \alpha + \beta = v_p(ab) .

Dois inteiros positivos com a mesma valoração em todo primo são iguais (Proposição 6.16), de modo que gcd(a,b)lcm(a,b)=ab\gcd(a,b)\operatorname{lcm}(a,b) = ab.

Exercício 6.6 ★★

Sejam a=210×34×52a = 2^{10} \times 3^4 \times 5^2 e b=26×37×7b = 2^6 \times 3^7 \times 7. Calcule gcd(a,b)\gcd(a, b), lcm(a,b)\operatorname{lcm}(a,b) e o número de divisores positivos de aa. (Demonstre a fórmula de contagem de divisores i(αi+1)\prod_i (\alpha_i + 1).)

Solução

Solução de Exercício 6.6.

Valorações: gcd(a,b)=2min(10,6)3min(4,7)5min(2,0)7min(0,1)=2634=5184\gcd(a, b) = 2^{\min(10,6)} 3^{\min(4,7)} 5^{\min(2,0)} 7^{\min(0,1)} = 2^6\, 3^4 = 5184; lcm(a,b)=21037527\operatorname{lcm}(a,b) = 2^{10}\, 3^7\, 5^2\, 7.

Contagem de divisores: um divisor positivo de n=piαin = \prod p_i^{\alpha_i} é exatamente uma escolha piβi\prod p_i^{\beta_i} com 0βiαi0 \leq \beta_i \leq \alpha_i (Proposição 6.16); as escolhas são independentes, de modo que há i(αi+1)\prod_i (\alpha_i + 1) divisores. Para aa: (10+1)(4+1)(2+1)=165(10+1)(4+1)(2+1) = 165.

Exercício 6.7 ★★

Demonstre que p\sqrt p é irracional para todo primo pp, usando valorações: compare vpv_p dos dois lados de pq2=r2p q^2 = r^2.

Solução

Solução de Exercício 6.7.

Suponha p=rq\sqrt p = \frac rq com r,qNr, q \in \N^*, isto é, pq2=r2p q^2 = r^2. Aplique vpv_p: vp(pq2)=1+2vp(q)v_p(pq^2) = 1 + 2v_p(q) é ímpar, ao passo que vp(r2)=2vp(r)v_p(r^2) = 2 v_p(r) é par. Um inteiro não pode ter ao mesmo tempo valoração pp-ádica ímpar e par: contradição. Logo, pQ\sqrt p \notin \Q.

Exercício 6.8 ★★

(Problema chinês do resto) Encontre todos os inteiros xx com

x2(mod7),x5(mod11).x \equiv 2 \pmod 7, \qquad x \equiv 5 \pmod{11}.

Demonstre, ao longo do caminho, que, para m,nm, n primos entre si, o par de congruências xa (m)x \equiv a \ (m), xb (n)x \equiv b\ (n) sempre tem solução, única módulo mnmn.

Solução

Solução de Exercício 6.8.

Fato geral. Com gcd(m,n)=1\gcd(m,n) = 1, Bézout dá mu+nv=1mu + nv = 1. Ponha x0=bmu+anvx_0 = b\,mu + a\,nv. Então x0anva(1mu)a(modm)x_0 \equiv a\,nv \equiv a(1 - mu) \equiv a \pmod m e, do mesmo modo, x0b(modn)x_0 \equiv b \pmod n: existência. Se xx e xx' são duas soluções, mm e nn dividem xxx - x', de modo que mnxxmn \mid x - x' (Teorema 6.8 (2)): unicidade módulo mnmn.

Numericamente: m=7m = 7, n=11n = 11: 7×(3)+11×2=17 \times (-3) + 11 \times 2 = 1. Logo, x0=5×7×(3)+2×11×2=105+44=6116(mod77)x_0 = 5 \times 7 \times (-3) + 2 \times 11 \times 2 = -105 + 44 = -61 \equiv 16 \pmod{77}. Verificação: 16=2×7+22(mod7)16 = 2\times 7 + 2 \equiv 2 \pmod 7; 16=11+55(mod11)16 = 11 + 5 \equiv 5 \pmod{11}. Soluções: x16(mod77)x \equiv 16 \pmod{77}.

Exercício 6.9 ★★

Calcule 310003^{1000} módulo 77 e os dois últimos algarismos decimais de 71007^{100} (módulo 100=4×25100 = 4 \times 25: use o Exercício 6.8).

Solução

Solução de Exercício 6.9.

Módulo 77: Fermat dá 3613^6 \equiv 1, e 1000=6×166+41000 = 6 \times 166 + 4, de modo que 3100034=814(mod7)3^{1000} \equiv 3^4 = 81 \equiv 4 \pmod 7.

Últimos dois algarismos de 71007^{100}: trabalhe módulo 44 e módulo 2525. Módulo 44: 717 \equiv -1, de modo que 710017^{100} \equiv 1. Módulo 2525: 72=4917^2 = 49 \equiv -1, de modo que 7417^4 \equiv 1 e 7100=(74)2517^{100} = (7^4)^{25} \equiv 1. Pelo teorema chinês do resto (Exercício 6.8), 71001(mod100)7^{100} \equiv 1 \pmod{100}: os dois últimos algarismos são 0101.

Exercício 6.10 ★★★

Para m,nNm, n \in \N^*, demonstre que gcd(2m1,2n1)=2gcd(m,n)1\gcd(2^m - 1,\, 2^n - 1) = 2^{\gcd(m,n)} - 1. Sugestão: mostre primeiro que o resto de 2m12^m - 1 módulo 2n12^n - 1 é 2r12^r - 1, em que rr é o resto de mm módulo nn; depois siga o algoritmo de Euclides.

Solução

Solução de Exercício 6.10.

Escreva m=nq+rm = nq + r, 0r<n0 \leq r < n. Então

2m1=2r(2nq1)+2r1,2^m - 1 = 2^r\bigl(2^{nq} - 1\bigr) + 2^r - 1,

e 2n12^n - 1 divide 2nq1=(2n1)(2n(q1)++1)2^{nq} - 1 = (2^n - 1)(2^{n(q-1)} + \dots + 1). Assim, módulo 2n12^n - 1,   2m12r1\;2^m - 1 \equiv 2^r - 1 e, como 02r1<2n10 \leq 2^r - 1 < 2^n - 1, este é o resto euclidiano.

Portanto, o algoritmo de Euclides sobre o par (2m1,2n1)(2^m - 1, 2^n - 1) espelha, expoente por expoente, o algoritmo sobre (m,n)(m, n): cada passo de divisão substitui (m,n)(m, n) por (n,r)(n, r) em cima e (2m1,2n1)(2^m - 1, 2^n - 1) por (2n1,2r1)(2^n - 1, 2^r - 1) embaixo. O algoritmo de cima termina em gcd(m,n)\gcd(m,n), de modo que o de baixo termina em 2gcd(m,n)12^{\gcd(m,n)} - 1.

Exercício 6.11 ★★★

(Teorema de Wilson) Seja pp um primo. Demonstre que

(p1)!1(modp),(p-1)! \equiv -1 \pmod p ,

emparelhando cada fator de (p1)!(p-1)! com a sua inversa módulo pp e identificando os fatores emparelhados consigo mesmos (resolva antes x21(modp)x^2 \equiv 1 \pmod p). Verifique a recíproca: se n2n \geq 2 não é primo, então (n1)!≢1(modn)(n-1)! \not\equiv -1 \pmod n.

Solução

Solução de Exercício 6.11.

Resolva primeiro x21(modp)x^2 \equiv 1 \pmod p: p(x1)(x+1)p \mid (x-1)(x+1), de modo que, pelo lema de Euclides, x1x \equiv 1 ou x1(modp)x \equiv -1 \pmod p.

No produto (p1)!=1×2××(p1)(p-1)! = 1 \times 2 \times \dots \times (p-1), todo fator aa é invertível módulo pp, e a sua inversa a1a^{-1} é de novo um dos fatores (Proposição 6.20). Emparelhe cada aa com a1a^{-1}: os pares multiplicam-se dando 11, salvo os fatores emparelhados consigo mesmos (a=a1a = a^{-1}, isto é, a21a^2 \equiv 1), que ficam sozinhos — e estes são exatamente 11 e p1p - 1. Portanto,

(p1)!1×(p1)1(modp).(p-1)! \equiv 1 \times (p - 1) \equiv -1 \pmod p .

(Para p=2p = 2: 1!=11(mod2)1! = 1 \equiv -1 \pmod 2; o argumento de emparelhamento degenera, mas o resultado vale.)

Recíproca. Seja n2n \geq 2 composto, n=abn = ab com 1<ab<n1 < a \leq b < n. Se a<ba < b, ambos aparecem como fatores distintos de (n1)!(n-1)!, de modo que n(n1)!n \mid (n-1)! e (n1)!0≢1(n-1)! \equiv 0 \not\equiv -1. Se a=ba = b (isto é, n=a2n = a^2): para a3a \geq 3, tanto aa quanto 2a2a são <n< n, logo n=a2a×2a(n1)!n = a^2 \mid a \times 2a \mid (n-1)!, mesma conclusão; para n=4n = 4, (n1)!=62≢1(mod4)(n-1)! = 6 \equiv 2 \not\equiv -1 \pmod 4.

Exercício 6.12 ★★★

(Números de Fermat) Para nNn \in \N, seja Fn=22n+1F_n = 2^{2^n} + 1.

  1. Demonstre que F0F1Fn1=Fn2F_0 F_1 \cdots F_{n-1} = F_n - 2 para n1n \geq 1 (indução).
  2. Deduza que os números de Fermat são dois a dois primos entre si.
  3. Deduza uma segunda demonstração, independente do Teorema 6.14, de que existem infinitos primos.
Solução

Solução de Exercício 6.12.

  1. Indução. Para n=1n = 1: F0=3=F12=52F_0 = 3 = F_1 - 2 = 5 - 2. Supondo F0Fn1=Fn2F_0\cdots F_{n-1} = F_n - 2:

    F0Fn=(Fn2)Fn=(22n1)(22n+1)=22n+11=Fn+12.F_0 \cdots F_n = (F_n - 2)F_n = \bigl(2^{2^n} - 1\bigr)\bigl(2^{2^n} + 1\bigr) = 2^{2^{n+1}} - 1 = F_{n+1} - 2 .
  2. Sejam m<nm < n e d=gcd(Fm,Fn)d = \gcd(F_m, F_n). Por (1), FmF_m divide Fn2F_n - 2, de modo que dd divide tanto FnF_n quanto Fn2F_n - 2 e, portanto, divide 22. Mas todo número de Fermat é ímpar, logo d=1d = 1.
  3. Cada Fn3F_n \geq 3 tem um divisor primo pnp_n (primeiro passo do Teorema 6.14). Se mnm \neq n, então pmpnp_m \neq p_n, pois um primo comum dividiria gcd(Fm,Fn)=1\gcd(F_m, F_n) = 1. A aplicação npnn \mapsto p_n é, portanto, injetiva de N\N nos primos: existem infinitos primos.

6.6 Problema: A fórmula de Legendre e os transportes de Kummer

Problema 6.1

Quantos zeros terminam a escrita decimal de 1000!1000! — e, mais a fundo, qual é a potência exata de um primo pp que divide n!n! ou que divide um coeficiente binomial? As respostas completas são duas joias da aritmética elementar: a fórmula de Legendre vp(n!)=k1n/pkv_p(n!) = \sum_{k\geq1} \lfloor n/p^k \rfloor, com o seu avatar digital vp(n!)=nsp(n)p1v_p(n!) = \frac{n - s_p(n)}{p-1}, e o teorema de Kummer: vp(m+nm)v_p\binom{m+n}m conta os transportes (os “vai um”) na soma de mm e nn na base pp. Este problema demonstra os dois, confere um contra o outro numericamente e colhe as consequências clássicas — zeros finais, a paridade do triângulo de Pascal e uma primeira estimativa na direção do teorema dos números primos. Ao longo do problema, pp é um primo, x\floor{x} é a parte inteira e sp(n)s_p(n) denota a soma dos algarismos de nn escrito na base pp.

Parte I — Partes inteiras, valorações e a fórmula de Legendre.

  1. Aquecimento: calcule 10!10! e leia o seu número de zeros finais; calcule v2(10!)v_2(10!) e v5(10!)v_5(10!) diretamente a partir da fatoração de cada fator 1,2,,101, 2, \dots, 10.
  2. Demonstre que, para xRx \in \R e nNn \in \N^*, x/n=x/n\bigl\lfloor \lfloor x \rfloor / n \bigr\rfloor = \lfloor x/n \rfloor.
  3. Demonstre que vp(a+b)min(vp(a),vp(b))v_p(a + b) \geq \min\bigl(v_p(a), v_p(b)\bigr) para todos a,bNa, b \in \N^*, com igualdade sempre que vp(a)vp(b)v_p(a) \neq v_p(b).
  4. Mostre que o número de múltiplos de mm em [ ⁣[1,n] ⁣]\intint1n é n/m\lfloor n/m \rfloor.
  5. Demonstre a fórmula de Legendre: para todo nNn \in \N^*,

    vp(n!)=k=1npkv_p(n!) = \sum_{k=1}^{\infty} \Bigl\lfloor \frac{n}{p^k} \Bigr\rfloor

    (uma soma finita: os termos se anulam assim que pk>np^k > n). Conte, para cada kk, os fatores de [ ⁣[1,n] ⁣]\intint1n divisíveis por pkp^k: cada um contribui com exatamente uma unidade por nível que alcança.

Parte II — A forma digital e os zeros finais.

  1. Calcule v5(1000!)v_5(1000!) e v2(1000!)v_2(1000!), e conclua: quantos zeros terminam 1000!1000!?
  2. Demonstre a forma digital da fórmula de Legendre: escrevendo n=iaipin = \sum_i a_i p^i na base pp,

    vp(n!)=nsp(n)p1.v_p(n!) = \frac{n - s_p(n)}{p - 1} .
  3. Duas consequências para p=2p = 2: mostre que 2n2^n nunca divide n!n!, e que 2n12^{n-1} divide n!n! exatamente quando nn é uma potência de 22.
  4. Estime o defeito: mostre que np1logp(n)1vp(n!)<np1\frac n{p-1} - \log_p(n) - 1 \leq v_p(n!) < \frac n{p-1}, de modo que vp(n!)n1p1\frac{v_p(n!)}{n} \to \frac1{p-1}: a longo prazo, acumula-se uma proporção 1p1\frac1{p-1} de um fator pp por unidade.
  5. Seja Z(n)=v5(n!)Z(n) = v_5(n!) o número de zeros finais de n!n!. Mostre que Z(n)Z(n1)=v5(n)Z(n) - Z(n-1) = v_5(n), deduza que ZZ pula inteiramente o valor 55 (calcule Z(24)Z(24) e Z(25)Z(25)) e demonstre que nenhum fatorial termina em exatamente cinco zeros.

Parte III — O teorema de Kummer.

  1. Demonstre que x+yxy{0,1}\lfloor x + y \rfloor - \lfloor x \rfloor - \lfloor y \rfloor \in \{0, 1\} para todos x,yRx, y \in \R, e deduza da fórmula de Legendre que

    vp(m+nm)=k1(m+npkmpknpk),v_p\binom{m+n}m = \sum_{k\geq1}\Bigl( \Bigl\lfloor\frac{m+n}{p^k}\Bigr\rfloor - \Bigl\lfloor\frac{m}{p^k}\Bigr\rfloor - \Bigl\lfloor\frac{n}{p^k}\Bigr\rfloor\Bigr),

    uma soma cujos termos valem cada um 00 ou 11.

  2. Demonstre o teorema de Kummer: o kk-ésimo termo dessa soma vale 11 exatamente quando a soma de mm e nn na base pp produz um transporte para a posição kk; portanto, vp(m+nm)v_p\binom{m+n}m é o número total de transportes. (Escreva m=pkm1+m0m = p^km_1 + m_0 e n=pkn1+n0n = p^kn_1 + n_0 com 0m0,n0<pk0 \leq m_0, n_0 < p^k e examine (m0+n0)/pk\lfloor (m_0 + n_0)/p^k \rfloor.)
  3. Deduza que, para 0<j<pk0 < j < p^k:

    vp(pkj)=kvp(j),v_p\binom{p^k}{j} = k - v_p(j) ,

    contando os transportes na soma j+(pkj)j + (p^k - j). (Em particular, p(pj)p \mid \binom p j para 0<j<p0 < j < p: o passo-chave do Teorema 6.23, recuperado.)

  4. Demonstre que v2(2nn)=s2(n)v_2\binom{2n}n = s_2(n). Deduza que o coeficiente binomial central é sempre par e que (2nn)2(mod4)\binom{2n}n \equiv 2 \pmod 4 exatamente quando nn é uma potência de 22.
  5. Mostre, usando a identidade de Vandermonde (Exercício 2.7) e a questão 13, que (2pp)2(modp)\binom{2p}p \equiv 2 \pmod p para todo primo pp.
  6. Calcule v3(1000500)v_3\binom{1000}{500} duas vezes: uma por Kummer (escreva 500500 na base 33 e conte os transportes em 500+500500 + 500), outra pela forma digital de Legendre (calcule s3(500)s_3(500) e s3(1000)s_3(1000)); verifique que as duas dão o mesmo valor.

Parte IV — A paridade do triângulo de Pascal e uma estimativa de densidade dos primos.

  1. Demonstre o critério digital: (nk)\binom nk é ímpar se, e somente se, todo algarismo binário de kk é no máximo o algarismo correspondente de nn. Enuncie e demonstre o critério análogo para p(nk)p \nmid \binom nk na base pp.
  2. Deduza que a linha nn do triângulo de Pascal contém exatamente 2s2(n)2^{s_2(n)} entradas ímpares; verifique nas linhas 44 e 55.
  3. Deduza que todas as entradas interiores (nk)\binom nk (0<k<n0 < k < n) são pares se, e somente se, nn é uma potência de 22.
  4. Demonstre que toda potência de primo que divide (m+nm)\binom{m+n}m é no máximo m+nm + n: se pa(m+nm)p^a \mid \binom{m+n}m, então pam+np^a \leq m + n. (Quantos termos não nulos pode ter a soma da questão 11?)
  5. Deduza que (2nn)\binom{2n}n divide lcm(1,2,,2n)\operatorname{lcm}(1, 2, \dots, 2n) e combine com a estimativa inferior (2nn)4n2n+1\binom{2n}n \geq \frac{4^n}{2n+1} (que você demonstrará: a entrada central é a maior das 2n+12n + 1 entradas da linha 2n2n) para obter

    lcm(1,,2n)4n2n+1:\operatorname{lcm}(1, \dots, 2n) \geq \frac{4^n}{2n+1} :

    os múltiplos comuns dos primeiros inteiros crescem exponencialmente — um primeiro vislumbre quantitativo da abundância dos primos.

Parte V — Síntese.

  1. Encontre o menor nn tal que n!n! termine em pelo menos 20262026 zeros. (Estime Z(n)n/4Z(n) \approx n/4 e depois ajuste usando a fórmula exata.)
  2. Uma última verificação cruzada: mostre que 77 não divide (10050)\binom{100}{50}, primeiro escrevendo 5050 na base 77 e conferindo que a soma 50+5050 + 50 não tem transportes, e depois calculando v7(100!)v_7(100!) e v7(50!)v_7(50!) com a fórmula de Legendre.
  3. Onde exatamente o problema usou: (i) a fatoração única; (ii) a decomposição pela divisão euclidiana n=pkn1+n0n = p^k n_1 + n_0; (iii) um argumento de contagem do Capítulo 2? Uma frase para cada.
  4. Síntese, num parágrafo curto: a fórmula de Legendre transforma uma questão de divisibilidade em aritmética de algarismos, e o teorema de Kummer lê a resposta nos transportes de uma única soma — comente essa tradução, as verificações da questão 16 e o que a estimativa da questão 21 sugere sobre os primos (o enunciado completo, o teorema dos números primos, está muito além deste volume; o análogo polinomial do instrumental deste capítulo está no Capítulo 8).
Solução

Solução de Problema 6.1.

1. 10!=362880010! = 3\,628\,800: dois zeros finais. Valorações fator a fator: as potências de 22 vêm de 2,4=22,6,8=23,102, 4 = 2^2, 6, 8 = 2^3, 10, totalizando v2(10!)=1+2+1+3+1=8v_2(10!) = 1 + 2 + 1 + 3 + 1 = 8; as potências de 55 vêm de 55 e 1010: v5(10!)=2v_5(10!) = 2. Zeros finais =min(v2,v5)=2= \min(v_2, v_5) = 2, coerente.

2. Escreva a divisão euclidiana x=nq+r\lfloor x\rfloor = nq + r, 0rn10 \leq r \leq n - 1. Então x=nq+r+{x}x = nq + r + \{x\} com 0r+{x}<n0 \leq r + \{x\} < n, de modo que x/n=q=x/n\lfloor x/n \rfloor = q = \bigl\lfloor \lfloor x \rfloor / n \bigr\rfloor.

3. Seja α=vp(a)β=vp(b)\alpha = v_p(a) \leq \beta = v_p(b) (troque se necessário) e escreva a=pαaa = p^\alpha a', b=pβbb = p^\beta b' com pa,bp \nmid a', b'. Então a+b=pα(a+pβαb)a + b = p^\alpha\bigl(a' + p^{\beta - \alpha}b'\bigr), de modo que vp(a+b)α=minv_p(a + b) \geq \alpha = \min. Se α<β\alpha < \beta, o parêntese vale a+pβαba≢0(modp)a' + p^{\beta-\alpha}b' \equiv a' \not\equiv 0 \pmod p: a valoração é exatamente α\alpha.

4. Os múltiplos de mm em [ ⁣[1,n] ⁣]\intint1n são m,2m,,qmm, 2m, \dots, qm, em que qq é o maior inteiro com qmnqm \leq n, isto é, q=n/mq = \lfloor n/m \rfloor.

5. Pela fatoração única, vp(n!)=j=1nvp(j)v_p(n!) = \sum_{j=1}^{n} v_p(j). Conte de outro modo: cada jj contribui com vp(j)=#{k1:pkj}v_p(j) = \#\{k \geq 1 : p^k \mid j\}, de modo que

vp(n!)=j=1n#{k:pkj}=k1#{jn:pkj}=k1npkv_p(n!) = \sum_{j=1}^n \#\{k : p^k \mid j\} = \sum_{k\geq1} \#\{j \leq n : p^k \mid j\} = \sum_{k\geq1} \Bigl\lfloor \frac n{p^k} \Bigr\rfloor

pela questão 4 — a fórmula de Legendre. A soma é finita: os termos com pk>np^k > n se anulam.

6. v5(1000!)=200+40+8+1=249v_5(1000!) = 200 + 40 + 8 + 1 = 249 (divisões por 5,25,125,6255, 25, 125, 625); v2(1000!)=500+250+125+62+31+15+7+3+1=994v_2(1000!) = 500 + 250 + 125 + 62 + 31 + 15 + 7 + 3 + 1 = 994. Zeros finais de 1000!1000!: cada zero consome um 22 e um 55, de modo que há min(994,249)=249\min(994, 249) = 249 deles.

7. Com n=iaipin = \sum_i a_ip^i, a questão 2 dá n/pk=ikaipik\lfloor n/p^k \rfloor = \sum_{i \geq k} a_ip^{i-k} (trunque a expansão na base pp). Somando sobre k1k \geq 1 e trocando as duas somas finitas:

vp(n!)=i1aik=1ipik=i0aipi1p1=nsp(n)p1.v_p(n!) = \sum_{i\geq1} a_i \sum_{k=1}^{i} p^{i-k} = \sum_{i\geq0} a_i\,\frac{p^i - 1}{p - 1} = \frac{n - s_p(n)}{p - 1} .

8. Para p=2p = 2: v2(n!)=ns2(n)v_2(n!) = n - s_2(n). Como n1n \geq 1 tem s2(n)1s_2(n) \geq 1, sempre v2(n!)n1<nv_2(n!) \leq n - 1 < n: 2nn!2^n \nmid n!. E v2(n!)=n1v_2(n!) = n - 1 se, e somente se, s2(n)=1s_2(n) = 1, se, e somente se, nn é potência de 22.

9. nn tem logpn+1\lfloor \log_p n \rfloor + 1 algarismos na base pp, cada um no máximo p1p - 1, de modo que 1sp(n)(p1)(logp(n)+1)1 \leq s_p(n) \leq (p-1)\bigl(\log_p(n) + 1\bigr). Substituindo na questão 7:

np1logp(n)1    vp(n!)  <  np1,\frac n{p-1} - \log_p(n) - 1 \;\leq\; v_p(n!) \;<\; \frac n{p-1},

e, dividindo por nn: vp(n!)n1p1\frac{v_p(n!)}n \to \frac1{p-1}.

10. Z(n)Z(n1)=v5(n!/(n1)!)=v5(n)Z(n) - Z(n-1) = v_5(n!/(n-1)!) = v_5(n): a contagem de zeros finais salta de v5(n)v_5(n) em cada múltiplo de 55 e é constante entre eles. Z(24)=24/5=4Z(24) = \lfloor24/5\rfloor = 4 e Z(25)=5+1=6Z(25) = 5 + 1 = 6: em n=25n = 25 a contagem salta de 44 direto para 66 (v5(25)=2v_5(25) = 2) e, como ZZ é não decrescente com Z4Z \leq 4 antes e Z6Z \geq 6 depois, o valor 55 nunca é atingido: nenhum fatorial termina em exatamente cinco zeros.

11. Escreva x=x+{x}x = \lfloor x\rfloor + \{x\}: x+y=x+y+{x}+{y}\lfloor x + y\rfloor = \lfloor x\rfloor + \lfloor y\rfloor + \lfloor \{x\} + \{y\}\rfloor, e 0{x}+{y}<20 \leq \{x\} + \{y\} < 2 faz com que o último piso valha 00 ou 11. Então, aplicando Legendre três vezes,

vp(m+nm)=vp((m+n)!)vp(m!)vp(n!)=k1(m+npkmpknpk),v_p\binom{m+n}m = v_p\bigl((m{+}n)!\bigr) - v_p(m!) - v_p(n!) = \sum_{k\geq1}\Bigl( \Bigl\lfloor\frac{m+n}{p^k}\Bigr\rfloor - \Bigl\lfloor\frac{m}{p^k}\Bigr\rfloor - \Bigl\lfloor\frac{n}{p^k}\Bigr\rfloor\Bigr),

uma soma finita de 00s e 11s (aplique a primeira afirmação a x=m/pkx = m/p^k, y=n/pky = n/p^k).

12. Fixe k1k \geq 1 e escreva m=pkm1+m0m = p^km_1 + m_0, n=pkn1+n0n = p^kn_1 + n_0 com 0m0,n0<pk0 \leq m_0, n_0 < p^k (divisão euclidiana: m0m_0 é o número formado pelos kk algarismos baixos de mm). Então

m+npkmpknpk=m0+n0pk,\Bigl\lfloor\frac{m+n}{p^k}\Bigr\rfloor - \Bigl\lfloor\frac m{p^k}\Bigr\rfloor - \Bigl\lfloor\frac n{p^k}\Bigr\rfloor = \Bigl\lfloor\frac{m_0 + n_0}{p^k}\Bigr\rfloor ,

que vale 11 se m0+n0pkm_0 + n_0 \geq p^k e 00 caso contrário. Mas m0+n0pkm_0 + n_0 \geq p^k diz precisamente que somar os kk algarismos baixos de mm e de nn transborda para a posição kk — um transporte para a posição kk no algoritmo escolar da adição. Somando sobre kk: vp(m+nm)v_p\binom{m+n}m é o número de transportes na adição m+nm + n na base pp. (Kummer, 1852.)

13. Aplique Kummer a m=jm = j, n=pkjn = p^k - j, cuja soma é pk=(100k)pp^k = (1\underbrace{0\cdots0}_{k})_p. Seja a=vp(j)a = v_p(j), de modo que os algarismos de jj na base pp nas posições 0,,a10, \dots, a-1 são 00 e o algarismo na posição aa é não nulo. Os algarismos de pkjp^k - j abaixo da posição aa também são 00 (pkj=pa(pkaj/pa)p^k - j = p^a(p^{k-a} - j/p^a)). Na posição aa, os dois algarismos não nulos devem somar pp (algarismo resultante 00): um transporte; em cada posição a+1,,k1a+1, \dots, k-1, os algarismos mais o transporte que chega somam pp (de novo, algarismo resultante 00): o transporte se propaga. Total: kak - a transportes, de modo que vp(pkj)=kvp(j)v_p\binom{p^k}j = k - v_p(j). Para k=1k = 1: vp(pj)=1v_p\binom pj = 1 para 0<j<p0 < j < p, a divisibilidade usada no Teorema 6.23.

14. Pela forma digital (questão 7), usando s2(2n)=s2(n)s_2(2n) = s_2(n) (basta acrescentar um algarismo zero):

v2(2nn)=(2ns2(2n))2(ns2(n))=2s2(n)s2(2n)=s2(n)1:v_2\binom{2n}n = \bigl(2n - s_2(2n)\bigr) - 2\bigl(n - s_2(n)\bigr) = 2s_2(n) - s_2(2n) = s_2(n) \geq 1 :

(2nn)\binom{2n}n é sempre par, e v2=1v_2 = 1 (isto é, (2nn)2(mod4)\binom{2n}n \equiv 2 \pmod 4) exatamente quando s2(n)=1s_2(n) = 1, ou seja, quando nn é uma potência de 22.

15. Vandermonde com m=n=k=pm = n = k = p: (2pp)=j=0p(pj)(ppj)=j=0p(pj)2\binom{2p}p = \sum_{j=0}^p \binom pj\binom p{p-j} = \sum_{j=0}^p \binom pj^2. Para 0<j<p0 < j < p, p(pj)p \mid \binom pj (questão 13), de modo que (pj)20(modp)\binom pj^2 \equiv 0 \pmod p; os termos das pontas dão 1+11 + 1: (2pp)2(modp)\binom{2p}p \equiv 2 \pmod p.

16. Base 33: 500=486+9+3+2500 = 486 + 9 + 3 + 2, algarismos (do menos para o mais significativo) (2,1,1,0,0,2)(2, 1, 1, 0, 0, 2), de modo que s3(500)=6s_3(500) = 6; e 1000=729+243+27+11000 = 729 + 243 + 27 + 1, algarismos (1,0,0,1,0,1,1)(1, 0, 0, 1, 0, 1, 1), de modo que s3(1000)=4s_3(1000) = 4. Kummer: some 500+500500 + 500 na base 33: posição 00: 2+2=42 + 2 = 4, algarismo 11, transporte 11; posição 11: 1+1+1=31 + 1 + 1 = 3, algarismo 00, transporte 11; posição 22: 1+1+1=31 + 1 + 1 = 3, algarismo 00, transporte 11; posição 33: 0+0+1=10 + 0 + 1 = 1, sem transporte; posição 44: 00; posição 55: 2+2=42 + 2 = 4, algarismo 11, transporte 11; posição 66: o transporte cai ali: algarismo 11. Quatro transportes: v3(1000500)=4v_3\binom{1000}{500} = 4. Legendre: v3(1000!)=100042=498v_3(1000!) = \frac{1000 - 4}2 = 498 e v3(500!)=50062=247v_3(500!) = \frac{500 - 6}2 = 247, de modo que v3(1000500)=4982×247=4v_3\binom{1000}{500} = 498 - 2\times247 = 4. Os dois cálculos concordam — e os algarismos da adição (1,0,0,1,0,1,1)(1, 0, 0, 1, 0, 1, 1) reproduzem 10001000, como devem.

17. Por Kummer (p=2p = 2, m=km = k, n=nkn' = n - k): (nk)\binom nk é ímpar se, e somente se, a adição k+(nk)k + (n - k) na base 22 não tem transporte, isto é, se, e somente se, em cada posição os algarismos satisfazem ki+(nk)i=nik_i + (n - k)_i = n_i; nesse caso, kinik_i \leq n_i para todo ii. Reciprocamente, se kinik_i \leq n_i para todo ii, então o número de algarismos nikin_i - k_i é nkn - k e a adição não tem transportes. Mesma demonstração na base pp: p(nk)p \nmid \binom nk se, e somente se, todo algarismo de kk na base pp é no máximo o algarismo correspondente de nn.

18. Contando os k[ ⁣[0,n] ⁣]k \in \intint0n cujos algarismos obedecem a kinik_i \leq n_i: cada algarismo de kk é escolhido independentemente entre ni+1n_i + 1 valores, o que dá i(ni+1)\prod_i (n_i + 1) escolhas; na base 22 isso é 2#{i:ni=1}=2s2(n)2^{\#\{i : n_i = 1\}} = 2^{s_2(n)}. Linha 4=(100)24 = (100)_2: 21=22^1 = 2 entradas ímpares — de fato, 1,4,6,4,11, 4, 6, 4, 1 tem entradas ímpares apenas nas pontas. Linha 5=(101)25 = (101)_2: 22=42^2 = 4 — de fato, 1,5,10,10,5,11, 5, 10, 10, 5, 1.

19. Todas as entradas interiores são pares     \iff a linha tem exatamente 22 entradas ímpares (as duas pontas são sempre ímpares)     2s2(n)=2    s2(n)=1    n\iff 2^{s_2(n)} = 2 \iff s_2(n) = 1 \iff n é uma potência de 22.

20. Na soma da questão 11, o kk-ésimo termo se anula assim que pk>m+np^k > m + n (os três pisos são então iguais; com efeito, o primeiro vale 00 quando pk>m+np^k > m+n; mais simplesmente, cada termo é 00). Portanto, no máximo logp(m+n)\lfloor \log_p(m+n)\rfloor termos são não nulos, cada um valendo 11: a=vp(m+nm)logp(m+n)a = v_p\binom{m+n}m \leq \log_p(m+n), isto é, pam+np^a \leq m + n.

21. Para todo primo pp, vp(lcm(1,,2n))=logp(2n)v_p\bigl(\operatorname{lcm}(1, \dots, 2n)\bigr) = \lfloor\log_p(2n)\rfloor (a maior potência de pp que não excede 2n2n aparece entre 1,,2n1, \dots, 2n). A questão 20 com m=nm = nvp(2nn)logp(2n)v_p\binom{2n}n \leq \lfloor\log_p(2n)\rfloor para todo pp: pela Proposição 6.16, (2nn)lcm(1,,2n)\binom{2n}n \mid \operatorname{lcm}(1, \dots, 2n). Quanto ao tamanho: a razão (2nk+1)/(2nk)=2nkk+11\binom{2n}{k+1}/\binom{2n}k = \frac{2n-k}{k+1} \geq 1 exatamente para k<nk < n, de modo que a entrada central é a maior das 2n+12n + 1 entradas da linha 2n2n, donde 4n=k(2nk)(2n+1)(2nn)4^n = \sum_k \binom{2n}k \leq (2n+1)\binom{2n}n. Combinando:

lcm(1,,2n)(2nn)4n2n+1.\operatorname{lcm}(1, \dots, 2n) \geq \binom{2n}n \geq \frac{4^n}{2n + 1} .

Se houvesse poucos primos abaixo de 2n2n, o mmc não poderia ser tão grande: o crescimento exponencial do mmc é um traço quantitativo da abundância dos primos.

22. Z(n)=kn/5kn4Z(n) = \sum_k\lfloor n/5^k\rfloor \approx \frac n4, de modo que se deve mirar perto de n=4×2026=8104n = 4 \times 2026 = 8104: Z(8104)=1620+324+64+12+2=2022Z(8104) = 1620 + 324 + 64 + 12 + 2 = 2022. Suba de 55 em 55: Z(8110)=2024Z(8110) = 2024, Z(8115)=2025Z(8115) = 2025, e

Z(8120)=1624+324+64+12+2=2026.Z(8120) = 1624 + 324 + 64 + 12 + 2 = 2026 .

Como ZZ é constante entre múltiplos de 55 e Z(8119)=Z(8115)=2025Z(8119) = Z(8115) = 2025, o menor nn com pelo menos 20262026 zeros finais é n=8120n = 8120.

23. Base 77: 50=49+150 = 49 + 1, algarismos (do menos para o mais significativo) (1,0,1)(1, 0, 1). Somando 50+5050 + 50: posição 00: 1+1=2<71 + 1 = 2 < 7, sem transporte; posição 11: 0+0=00 + 0 = 0; posição 22: 1+1=2<71 + 1 = 2 < 7, sem transporte. Sem transportes, de modo que, por Kummer, v7(10050)=0v_7\binom{100}{50} = 0: 7(10050)7 \nmid \binom{100}{50}. Legendre concorda: v7(100!)=100/7+100/49=14+2=16v_7(100!) = \lfloor 100/7 \rfloor + \lfloor 100/49 \rfloor = 14 + 2 = 16 e v7(50!)=7+1=8v_7(50!) = 7 + 1 = 8, de modo que v7(10050)=162×8=0v_7\binom{100}{50} = 16 - 2\times8 = 0.

24. (i) A fatoração única sustenta a própria definição de vpv_p e a sua aditividade, logo a fórmula de Legendre e toda conclusão de divisibilidade (Proposição 6.16). (ii) A divisão euclidiana produziu a identidade de truncamento da questão 2 e a separação m=pkm1+m0m = p^km_1 + m_0 que isola o transporte (questão 12). (iii) Contagem: a contagem dos múltiplos de mm (questão 4), o produto de escolhas de algarismos (questão 18) e a estimativa da soma de linha 4n(2n+1)(2nn)4^n \leq (2n+1)\binom{2n}n (questão 21) são todos argumentos ao estilo do Capítulo 2.

25. Legendre converte “que potência de pp divide n!n!” em aritmética de algarismos na base pp; Kummer comprime a resposta para os coeficientes binomiais nos transportes de uma única adição — a divisibilidade, aparentemente uma propriedade global de números enormes, é lida localmente, algarismo a algarismo. A questão 16 é o paradigma: quatro transportes, calculados à mão, determinam a potência exata de 33 num número com centenas de algarismos. E a questão 21 mostra o mesmo círculo de ideias roçando águas profundas: uma estimativa inferior exponencial para lcm(1,,2n)\operatorname{lcm}(1, \dots, 2n) é um primeiro passo, inteiramente elementar, rumo ao teorema dos números primos, cuja demonstração está muito além deste volume. Todo o instrumental — divisão, mdc, valorações — é reencenado para os polinômios no Capítulo 8, em que o análogo de uma expansão em algarismos é a expansão em potências de (Xa)(X - a).