Matemáticas · Livro 3 · Grado — Año 1

Matemática universitária — Graduação 1

Matemática universitária — Graduação 1 · Grado — Año 1

11Sequências

As sequências foram manipuladas no volume do ensino médio com o conceito de limite tomado em parte de boa-fé. Aqui a teoria é reconstruída sobre a completude de R\R (Capítulo 10): todo teorema clássico — convergência monótona, sequências adjacentes, Bolzano–Weierstrass, critério de Cauchy — é uma face desse único axioma. O capítulo termina com o estudo prático das sequências definidas por un+1=f(un)u_{n+1} = f(u_n).

11.1 Convergência

Definição 11.1 (Limite de uma sequência)

Uma sequência (un)(u_n) de reais converge para R\ell \in \R quando

ε>0, NN, nN,unε.\forall \varepsilon > 0,\ \exists N \in \N,\ \forall n \geq N, \qquad \abs{u_n - \ell} \leq \varepsilon .

Escreve-se unu_n \to \ell ou limun=\lim u_n = \ell. Uma sequência que não converge (para nenhum real) diverge. Divergência para ++\infty: M, N, nN, unM\forall M,\ \exists N,\ \forall n \geq N,\ u_n \geq M (analogamente para -\infty).

Exemplo 11.2 (Uma demonstração ε\varepsilonNN, escrita por extenso uma vez)

Afirmação: un=n2+12n2312u_n = \dfrac{n^2 + 1}{2n^2 - 3} \to \dfrac12. Primeiro isole o erro:

un12=2(n2+1)(2n23)2(2n23)=522n23=52(2n23)(n2).\Bigl| u_n - \frac12 \Bigr| = \Bigl| \frac{2(n^2 + 1) - (2n^2 - 3)}{2(2n^2 - 3)} \Bigr| = \frac{5}{2\,\abs{2n^2 - 3}} = \frac{5}{2\,(2n^2 - 3)} \quad (n \geq 2).

Depois domine-o por algo simples: para n2n \geq 2, 2n23n22n^2 - 3 \geq n^2, de modo que o erro é 52n252n\leq \frac{5}{2n^2} \leq \frac 5{2n}. Dado ε>0\varepsilon > 0, a propriedade arquimediana fornece Nmax(2,52ε)N \geq \max\bigl(2, \frac{5}{2\varepsilon}\bigr); para nNn \geq N o erro é ε\leq \varepsilon. Pronto. A ideia de fechamento: uma demonstração ε\varepsilonNN tem exatamente três movimentos — calcular o erro, limitá-lo por uma expressão elementar decrescente e resolver para o limiar — e, depois dos teoremas deste capítulo (operações, confronto), quase nunca mais se escreve uma demonstração dessas: os teoremas empacotam os três movimentos de uma vez por todas.

Exemplo 11.3 (Divergência para o infinito, certificada)

Afirmação: un=n2100n+u_n = n^2 - 100n \to +\infty. Fatore o termo dominante: un=n2(1100n)n22u_n = n^2\bigl(1 - \frac{100}{n}\bigr) \geq \frac{n^2}{2} para n200n \geq 200. Dado MM, tome N=max(200,2M)N = \max\bigl(200, \lceil\sqrt{2M}\rceil\bigr): para nNn \geq N, unn22Mu_n \geq \frac{n^2}{2} \geq M. Dois hábitos estão à mostra: a fatoração pelo termo dominante converte uma competição (n2n^2 contra 100n-100n) numa única escala vezes um fator que tende a 11; e o limiar pode ser enorme (u100=0u_{100} = 0, e a sequência é até negativa antes de n=100n = 100) — a divergência para ++\infty é uma afirmação sobre a cauda, indiferente a qualquer quantidade finita de mau comportamento.

Proposição 11.4 (Primeiras propriedades)

  1. O limite, se existe, é único.
  2. Uma sequência convergente é limitada.
  3. Se unu_n \to \ell, modificar finitos termos não altera nem a convergência nem o limite.

Demonstração. (1) Se unu_n \to \ell e unu_n \to \ell' com \ell \neq \ell', tome ε=3\varepsilon = \frac{\abs{\ell - \ell'}}{3}: além dos dois limiares, un+un2ε=23\abs{\ell - \ell'} \leq \abs{\ell - u_n} + \abs{u_n - \ell'} \leq 2\varepsilon = \frac23 \abs{\ell - \ell'}, absurdo.

(2) Com ε=1\varepsilon = 1: além de NN, un+1\abs{u_n} \leq \abs\ell + 1; os finitos termos anteriores também são limitados, de modo que unmax(u0,,uN1,+1)\abs{u_n} \leq \max(\abs{u_0}, \dots, \abs{u_{N-1}}, \abs\ell + 1).

(3) Em detalhe: suponha vn=unv_n = u_n para nn0n \geq n_0 e unu_n \to \ell. Dado ε>0\varepsilon > 0, tome o limiar NN de (un)(u_n): para nmax(N,n0)n \geq \max(N, n_0), vn=unε\abs{v_n - \ell} = \abs{u_n - \ell} \leq \varepsilon. Logo, vnv_n \to \ell: a definição quantifica apenas sobre nNn \geq N, e qualquer prefixo finito pode ser sobrescrito ao custo de aumentar o limiar. (É por isso que hipóteses do tipo “para todo nn grande” bastam em todo este capítulo.)

Teorema 11.5 (Operações com limites)

Se unu_n \to \ell e vnmv_n \to m, então

un+vn+m,unvnm,unvnm (sem0),un.u_n + v_n \to \ell + m, \qquad u_n v_n \to \ell m, \qquad \frac{u_n}{v_n} \to \frac{\ell}{m} \ (\text{se} m \neq 0), \qquad \abs{u_n} \to \abs\ell .

Demonstração. Soma: (un+vn)(+m)un+vnm2ε\abs{(u_n + v_n) - (\ell + m)} \leq \abs{u_n - \ell} + \abs{v_n - m} \leq 2\varepsilon além do maior limiar. Produto: escreva

unvnm=(un)vn+(vnm);u_n v_n - \ell m = (u_n - \ell)\,v_n + \ell\,(v_n - m);

(vn)(v_n) é limitada por algum BB (Proposição 11.4), de modo que o lado direito é Bun+vnm\leq B\abs{u_n - \ell} + \abs{\ell}\,\abs{v_n - m}, arbitrariamente pequeno. Quociente: basta tratar 1vn\frac 1{v_n}. Com ε=m2\varepsilon = \frac{\abs m}{2}: além de certo N0N_0, vnm2\abs{v_n} \geq \frac{\abs m}{2}, de modo que

1vn1m=mvnvnm2m2vnm0.\Bigl| \frac{1}{v_n} - \frac 1m \Bigr| = \frac{\abs{m - v_n}}{\abs{v_n m}} \leq \frac{2}{m^2}\,\abs{v_n - m} \longrightarrow 0 .

Valor absoluto: unun\bigl|\abs{u_n} - \abs\ell\bigr| \leq \abs{u_n - \ell} (desigualdade triangular inversa, Proposição 3.2).

Exemplo 11.6 (Operações mais um truque algébrico)

Calcule lim(n2+nn)\lim\,\bigl(\sqrt{n^2 + n} - n\bigr). As duas parcelas tendem separadamente a ++\infty: o teorema das operações nada diz sobre a diferença delas (uma forma indeterminada). Multiplique pelo conjugado:

n2+nn=(n2+n)n2n2+n+n=nn2+n+n=11+1n+1.\sqrt{n^2 + n} - n = \frac{(n^2 + n) - n^2}{\sqrt{n^2 + n} + n} = \frac{n}{\sqrt{n^2+n} + n} = \frac{1}{\sqrt{1 + \frac1n} + 1} .

Agora tudo converge: 1+1n1\sqrt{1 + \frac1n} \to 1, pois 01+h1=h1+h+1h0 \leq \sqrt{1 + h} - 1 = \frac{h}{\sqrt{1+h} + 1} \leq h (conjugado de novo, e depois confronto com h=1nh = \frac1n); então o teorema das operações dá o limite 11+1=12\frac{1}{1 + 1} = \frac12. A ideia de fechamento: o teorema das operações não é uma calculadora de todos os limites — as formas indeterminadas (\infty - \infty, 00\frac00, 0×0 \times \infty, 11^\infty) devem antes ser transformadas pela álgebra (conjugados, fatoração do termo dominante) até que cada pedaço convirja; a máquina sistemática para os casos resistentes é a expansão assintótica do Capítulo 16.

Teorema 11.7 (Limites e ordem)

  1. Se unvnu_n \leq v_n para todo nn grande e ambas convergem, então limunlimvn\lim u_n \leq \lim v_n. (As desigualdades estritas não passam ao limite: 1n>0\frac 1n > 0, mas lim=0\lim = 0.)
  2. (Teorema do confronto) Se unwnvnu_n \leq w_n \leq v_n para todo nn grande e un,vnu_n, v_n \to \ell, então wnw_n \to \ell.
  3. Se un>0u_n \to \ell > 0, então un>2>0u_n > \frac\ell2 > 0 para todo nn grande.

Demonstração. (1) Suponha =limun>m=limvn\ell = \lim u_n > m = \lim v_n; com ε=m3\varepsilon = \frac{\ell - m}{3}, os termos grandes satisfazem vnm+ε<εunv_n \leq m + \varepsilon < \ell - \varepsilon \leq u_n, contradizendo unvnu_n \leq v_n.

(2) Além dos limiares: εunwnvn+ε\ell - \varepsilon \leq u_n \leq w_n \leq v_n \leq \ell + \varepsilon.

(3) é a Definição 11.1 com ε=2\varepsilon = \frac\ell2.

Exemplo 11.8 (Dois confrontos)

(i) sinnn0\dfrac{\sin n}{n} \to 0: de 1nsinnn1n-\frac1n \leq \frac{\sin n}{n} \leq \frac1n, com as duas paredes se fechando sobre 00 — sem nenhuma necessidade de entender o numerador errático. (ii) (2n+3n)1/n3(2^n + 3^n)^{1/n} \to 3: enquadre o interior,

3n2n+3n23n3(2n+3n)1/n321/n,3^n \leq 2^n + 3^n \leq 2\cdot3^n \quad\Longrightarrow\quad 3 \leq (2^n + 3^n)^{1/n} \leq 3\cdot 2^{1/n} ,

e 21/n=eln2n12^{1/n} = \eu^{\frac{\ln 2}{n}} \to 1 (como para 51/n5^{1/n} no Exercício 11.2): o confronto entrega 33. A ideia de fechamento: uma soma de exponenciais em competição se comporta como o seu maior termo — as menores são absorvidas por um fator constante inofensivo, que a raiz nn-ésima depois apaga.

11.2 Sequências monótonas

Teorema 11.9 (Teorema do limite monótono)

Uma sequência crescente e limitada superiormente converge, para sup{un:nN}\sup\{u_n : n \in \N\}; uma sequência crescente não limitada superiormente diverge para ++\infty. (Enunciados espelhados para sequências decrescentes.)

Demonstração. Seja s=sup{un}s = \sup\{u_n\} (Teorema 10.2). Dado ε>0\varepsilon > 0, a caracterização por ε\varepsilon (Proposição 10.4) fornece NN com uN>sεu_N > s - \varepsilon; pela monotonicidade, sε<uNunss - \varepsilon < u_N \leq u_n \leq s para todo nNn \geq N: convergência para ss. Se ilimitada: para todo MM algum uN>Mu_N > M, e a monotonicidade mantém todos os termos posteriores acima de MM.

Exemplo 11.10 (O teorema monótono como máquina de existência)

Seja un=k=1n(1+12k)u_n = \prod_{k=1}^{n} \bigl(1 + \frac{1}{2^k}\bigr). Cada fator excede 11, de modo que (un)(u_n) é crescente. Limitada superiormente? Tome logaritmos e use ln(1+x)x\ln(1 + x) \leq x (o Exemplo 14.20 a antecipa; ou a desigualdade grosseira 1+xex1 + x \leq \eu^x, do volume do ensino médio):

lnun=k=1nln(1+12k)k=1n12k<1,\ln u_n = \sum_{k=1}^{n} \ln\Bigl(1 + \frac{1}{2^k}\Bigr) \leq \sum_{k=1}^{n} \frac{1}{2^k} < 1 ,

de modo que un<eu_n < \eu. Crescente e limitada: (un)(u_n) converge para algum (u1,e]\ell \in \intoc{u_1}{\eu} — um número real perfeitamente bem definido, sem forma fechada à vista (=2.384\ell = 2.384\dots). A ideia de fechamento: o teorema do limite monótono é a máquina de existência mais barata da análise; foi ela que nomeou o próprio e\eu (Exemplo 11.12, abaixo), e no Capítulo 17 ela decidirá a convergência de toda série de termos positivos por mera limitação.

Teorema 11.11 (Sequências adjacentes)

Sejam (an)(a_n) crescente e (bn)(b_n) decrescente, com bnan0b_n - a_n \to 0. Então ambas convergem, para um limite comum \ell, e anbna_n \leq \ell \leq b_n para todo nn.

Demonstração. Primeiro, anbna_n \leq b_n para todo nn: a sequência (bnan)(b_n - a_n) é decrescente e tende a 00, de modo que é 0\geq 0 (um termo negativo a congelaria abaixo de 00). Então (an)(a_n) é crescente e limitada superiormente por b0b_0: ela converge para algum \ell (Teorema 11.9); do mesmo modo, (bn)(b_n) \to \ell'; e =lim(bnan)=0\ell' - \ell = \lim (b_n - a_n) = 0. As desigualdades anbna_n \leq \ell \leq b_n decorrem da monotonicidade (=supakan\ell = \sup a_k \geq a_n, etc.).

Sequências adjacentes: (a_n) sobe, (b_n) desce, e o vão entre elas encolhe a 0. Cada intervalo [a_n, b_n] contém todos os posteriores, e o limite comum  é o único ponto que resta em todos os intervalos — a figura por trás das demonstrações por dicotomia de Bolzano–Weierstrass, abaixo, e do teorema do valor intermediário no .
Sequências adjacentes: (an)(a_n) sobe, (bn)(b_n) desce, e o vão entre elas encolhe a 00. Cada intervalo [an,bn]\intcc{a_n}{b_n} contém todos os posteriores, e o limite comum \ell é o único ponto que resta em todos os intervalos — a figura por trás das demonstrações por dicotomia de Bolzano–Weierstrass, abaixo, e do teorema do valor intermediário no Capítulo 13.

Exemplo 11.12 (O número e\eu)

Ponha an=k=0n1k!a_n = \sum_{k=0}^{n} \frac{1}{k!} e bn=an+1nn!b_n = a_n + \frac{1}{n \cdot n!} (n1n \geq 1). Então (an)(a_n) cresce; e

bn+1bn=1(n+1)!+1(n+1)(n+1)!1nn!=n(n+1)+n(n+1)2n(n+1)(n+1)!=1n(n+1)(n+1)!<0,b_{n+1} - b_n = \frac{1}{(n+1)!} + \frac{1}{(n+1)(n+1)!} - \frac{1}{n\,n!} = \frac{n(n+1) + n - (n+1)^2}{n(n+1)(n+1)!} = \frac{-1}{n(n+1)(n+1)!} < 0 ,

de modo que (bn)(b_n) decresce, e bnan0b_n - a_n \to 0: adjacentes. O seu limite comum é (por definição, aqui) o número e2.71828\eu \approx 2.71828; as desigualdades an<e<bna_n < \eu < b_n são suficientemente finas para demonstrar que eQ\eu \notin \Q (Exercício 11.9).

11.3 Subsequências e Bolzano–Weierstrass

Definição 11.13 (Subsequência)

Uma subsequência de (un)(u_n) é uma sequência (uφ(n))(u_{\varphi(n)}), em que φ ⁣:NN\varphi \colon \N \to \N é estritamente crescente (note que φ(n)n\varphi(n) \geq n, por indução).

Proposição 11.14

Se unu_n \to \ell (R\ell \in \R ou ±\pm\infty), toda subsequência tende a \ell. Consequentemente, uma sequência com duas subsequências de limites diferentes diverge. Reciprocamente, se (u2n)(u_{2n}) e (u2n+1)(u_{2n+1}) convergem ambas para o mesmo \ell, então unu_n \to \ell.

Demonstração. Além do limiar NN de (un)(u_n), todos os índices φ(n)nN\varphi(n) \geq n \geq N servem (a desigualdade φ(n)n\varphi(n) \geq n é a indução notada na Definição 11.13: φ(0)0\varphi(0) \geq 0, e φ(n+1)>φ(n)n\varphi(n+1) > \varphi(n) \geq n força φ(n+1)n+1\varphi(n+1) \geq n + 1). Para a recíproca: dado ε\varepsilon, tome os dois limiares N0N_0 (pares) e N1N_1 (ímpares); um índice arbitrário nmax(2N0,2N1+1)n \geq \max(2N_0, 2N_1 + 1) é par, n=2kn = 2k com kN0k \geq N_0, ou ímpar, n=2k+1n = 2k+1 com kN1k \geq N_1 — e, nos dois casos, unε\abs{u_n - \ell} \leq \varepsilon: todo índice é coberto por uma das duas subsequências, e essa é toda a questão.

Exemplo 11.15 (Limites subsequenciais)

Para un=(1)nnn+1u_n = (-1)^n \frac{n}{n+1}: a subsequência de índices pares tende a 11, e a de índices ímpares a 1-1, de modo que a sequência diverge — mas o faz de maneira organizada, agrupando-se em torno dos dois valores ±1\pm 1. Para un=cos2πn3u_n = \cos\frac{2\pi n}{3}: as três subsequências de índices 3k3k, 3k+13k + 1 e 3k+23k + 2 são constantes, iguais a 11, 12-\frac12 e 12-\frac12; o conjunto dos limites subsequenciais é {1,12}\{1, -\frac12\}. A ideia de fechamento: uma sequência limitada converge exatamente quando tem um único limite subsequencial (Exercício 11.8); a divergência de uma sequência limitada sempre significa ao menos dois agrupamentos, e Bolzano–Weierstrass, abaixo, garante que existe ao menos um.

Teorema 11.16 (Bolzano–Weierstrass)

Toda sequência limitada de reais tem uma subsequência convergente.

Demonstração. Seja un[a,b]u_n \in \intcc{a}{b} para todo nn. Construa segmentos encaixados por dicotomia: ponha [a0,b0]=[a,b]\intcc{a_0}{b_0} = \intcc{a}{b}; dado [ak,bk]\intcc{a_k}{b_k} que contém unu_n para infinitos nn, uma das suas duas metades ainda contém unu_n para infinitos nn — chame-a [ak+1,bk+1]\intcc{a_{k+1}}{b_{k+1}}. As sequências (ak)(a_k) e (bk)(b_k) são adjacentes (bkak=ba2k0b_k - a_k = \frac{b-a}{2^k} \to 0), com limite comum \ell (Teorema 11.11).

Extração: escolha φ(0)\varphi(0) com uφ(0)[a0,b0]u_{\varphi(0)} \in \intcc{a_0}{b_0} e, indutivamente, φ(k+1)>φ(k)\varphi(k+1) > \varphi(k) com uφ(k+1)[ak+1,bk+1]u_{\varphi(k+1)} \in \intcc{a_{k+1}}{b_{k+1}} — o que é possível, pois esse segmento contém infinitos termos. Então akuφ(k)bka_k \leq u_{\varphi(k)} \leq b_k, e o teorema do confronto dá uφ(k)u_{\varphi(k)} \to \ell.

Observação 11.17 (O que Bolzano–Weierstrass diz, e o que não diz)

Ele diz: só da limitação, alguma subsequência converge — existência sem fórmula, como a demonstração por dicotomia deixa claro (nada nos diz quais índices sobrevivem). Ele não diz que o limite é único: ((1)n)((-1)^n) tem subsequências convergindo para 11 e para 1-1, e o conjunto dos limites subsequenciais pode até ser infinito (Exemplo 11.15, e todo o conjunto de Cantor no Problema 12.1). Ele não sobrevive à ilimitação: (n)(n) não tem subsequência convergente alguma — embora sempre se possa extrair de qualquer sequência ilimitada uma subsequência que tenda a ++\infty ou a -\infty (escolha φ(k)\varphi(k) com uφ(k)ku_{\varphi(k)} \geq k, digamos). Usado corretamente, o teorema é uma bomba de existência: ele aparece no ponto crucial do critério de Cauchy, abaixo, do teorema de Heine e do teorema de Weierstrass — sempre para produzir um ponto que nenhuma construção explícita oferece.

11.4 Sequências de Cauchy e completude

Definição 11.18

Uma sequência (un)(u_n) é uma sequência de Cauchy quando os seus termos se tornam arbitrariamente próximos uns dos outros:

ε>0, N, p,qN,upuqε.\forall \varepsilon > 0,\ \exists N,\ \forall p, q \geq N, \qquad \abs{u_p - u_q} \leq \varepsilon .

Exemplo 11.19 (Verificando a propriedade de Cauchy à mão)

Seja un=k=0ncosk2ku_n = \sum_{k=0}^{n} \frac{\cos k}{2^k} — sem monotonicidade, sem limite adivinhável. Para p>qp > q:

upuq=k=q+1pcosk2kk=q+1p12k<12q,\abs{u_p - u_q} = \Bigl| \sum_{k=q+1}^{p} \frac{\cos k}{2^k} \Bigr| \leq \sum_{k=q+1}^{p} \frac{1}{2^k} < \frac{1}{2^{q}} ,

pela desigualdade triangular, por cosk1\abs{\cos k} \leq 1 e por uma soma geométrica finita. Dado ε>0\varepsilon > 0, escolha NN com 2Nε2^{-N} \leq \varepsilon: todas as distâncias além de NN são ε\leq \varepsilon, a sequência é de Cauchy e, portanto, converge — para um limite que ninguém sabe nomear em forma fechada, o que é exatamente o ponto. A ideia de fechamento: a dominação geométrica dos incrementos é a maneira padrão de conquistar a propriedade de Cauchy, e o Capítulo 17 engarrafará o argumento como “convergência absoluta implica convergência”.

Teorema 11.20 (Completude de R\R)

Uma sequência de reais converge se, e somente se, é uma sequência de Cauchy.

Demonstração. (\Rightarrow) Se unu_n \to \ell: além do limiar para ε2\frac\varepsilon2, upuqup+uqε\abs{u_p - u_q} \leq \abs{u_p - \ell} + \abs{\ell - u_q} \leq \varepsilon.

(\Leftarrow) Seja (un)(u_n) de Cauchy. Ela é limitada: com ε=1\varepsilon = 1, além de NN todos os termos ficam a distância 11 de uNu_N, e a cabeça é finita. Extração: pelo Teorema 11.16, alguma subsequência uφ(n)u_{\varphi(n)} \to \ell. Conclusão: dado ε>0\varepsilon > 0, tome NN (de Cauchy, para ε2\frac\varepsilon2) e nNn \geq N com uφ(n)ε2\abs{u_{\varphi(n)} - \ell} \leq \frac\varepsilon2 e φ(n)N\varphi(n) \geq N; então, para todo pNp \geq N:

upupuφ(n)+uφ(n)ε.\abs{u_p - \ell} \leq \abs{u_p - u_{\varphi(n)}} + \abs{u_{\varphi(n)} - \ell} \leq \varepsilon . \qedhere

Observação 11.21

O valor do critério: ele certifica a convergência sem nomear o limite. Ele falha sobre Q\Q (as truncagens decimais de 2\sqrt 2 formam uma sequência de Cauchy de racionais sem limite racional): a completude é uma propriedade de R\R, equivalente ao axioma do supremo. Ele é também o cavalo de batalha por trás da convergência das séries (Capítulo 17).

Exemplo 11.22 (Uma sequência de Cauchy com limite invisível)

Seja Sn=k=1n1k2S_n = \sum_{k=1}^{n} \frac{1}{k^2}. Para p>q1p > q \geq 1:

SpSq=k=q+1p1k2k=q+1p1k(k1)=k=q+1p(1k11k)=1q1p<1q,S_p - S_q = \sum_{k=q+1}^{p} \frac{1}{k^2} \leq \sum_{k=q+1}^{p} \frac{1}{k(k-1)} = \sum_{k=q+1}^{p} \Bigl(\frac{1}{k-1} - \frac 1k\Bigr) = \frac 1q - \frac 1p < \frac 1q ,

de modo que, além de N>1εN > \frac1\varepsilon, todas as distâncias são ε\leq \varepsilon: (Sn)(S_n) é de Cauchy e, portanto, converge. Note o que acabou de acontecer: demonstramos que um número real específico existe sem ter nome algum para ele. (Ele vale π26\frac{\pi^2}{6} — célebre identidade de Euler, demonstrada no volume do segundo ano de graduação; nada neste capítulo poderia nos dizer isso.) Essa divisão de trabalho — existência agora, identificação depois, se algum dia — é todo o sentido do critério de Cauchy, e o motor da teoria das séries no Capítulo 17.

11.5 Sequências recorrentes

Método 11.23 (Estudando un+1=f(un)u_{n+1} = f(u_n))

Dados ff e um ponto de partida u0u_0:

  1. Intervalo estável: encontre um intervalo II com f(I)If(I) \subseteq I contendo u0u_0: então todos os unIu_n \in I (por indução).
  2. Candidatos a limite: se unIu_n \to \ell \in I e ff é contínua em \ell (Capítulo 13), então \ell é um ponto fixo: f()=f(\ell) = \ell. Resolva f(x)=xf(x) = x.
  3. Monotonicidade: se ff é crescente em II, então (un)(u_n) é monótona (crescente se u1u0u_1 \geq u_0, e decrescente caso contrário); combinado com a limitação, o Teorema 11.9 conclui. Se ff é decrescente, estude as duas subsequências (u2n)(u_{2n}) e (u2n+1)(u_{2n+1}), que são monótonas para fff \circ f.
  4. Controle do erro: uma desigualdade f(x)kx\abs{f(x) - \ell} \leq k\abs{x - \ell} com k<1k < 1unknu00\abs{u_n - \ell} \leq k^n \abs{u_0 - \ell} \to 0 diretamente.

Exemplo 11.24 (Método de Heron)

Sejam u0=2u_0 = 2 e un+1=12(un+2un)u_{n+1} = \dfrac12\Bigl(u_n + \dfrac{2}{u_n}\Bigr): o antigo algoritmo para 2\sqrt 2.

  • Estabilidade: para x>0x > 0, a desigualdade entre as médias aritmética e geométrica dá 12(x+2x)x2x=2\frac12(x + \frac2x) \geq \sqrt{x \cdot \frac 2x} = \sqrt 2; assim, I=[2,+)I = \intco{\sqrt 2}{+\infty} é estável e contém u1u_1 (com efeito, u1=322u_1 = \frac32 \geq \sqrt 2).
  • Monotonicidade: para x2x \geq \sqrt 2,   xf(x)=x222x0\;x - f(x) = \frac{x^2 - 2}{2x} \geq 0: a sequência decresce a partir de u1u_1 e é limitada inferiormente por 2\sqrt 2: ela converge.
  • Limite: os pontos fixos resolvem x=12(x+2x)x = \frac12(x + \frac2x), isto é, x2=2x^2 = 2: em II, =2\ell = \sqrt 2.
  • Velocidade: un+12=(un2)22un(un2)222u_{n+1} - \sqrt 2 = \frac{(u_n - \sqrt2)^2}{2u_n} \leq \frac{(u_n - \sqrt 2)^2}{2\sqrt 2}: o número de algarismos corretos aproximadamente dobra a cada passo (convergência quadrática).
A iteração de Heron u_n+1 = 1/2 (u_n + 2/u_n ), desenhada como uma escada entre o gráfico de f e a diagonal y = x: a partir de u_0 = 2, os iterados descem até o ponto fixo √ 2.
A iteração de Heron un+1=12(un+2un)u_{n+1} = \frac12\bigl(u_n + \frac{2}{u_n}\bigr), desenhada como uma escada entre o gráfico de ff e a diagonal y=xy = x: a partir de u0=2u_0 = 2, os iterados descem até o ponto fixo 2\sqrt 2.

Observação 11.25 (Armadilhas frequentes com limites)

Quatro clássicas. (i) Passos pequenos não implicam convergência: un+1un0u_{n+1} - u_n \to 0 é muito mais fraco que a propriedade de Cauchy — as somas harmônicas HnH_n têm passos 1n+10\frac{1}{n+1} \to 0 e, ainda assim, divergem para ++\infty (Exercício 11.5); a condição de Cauchy controla upuq\abs{u_p - u_q} para todos os pares grandes, e não apenas os consecutivos. (ii) As desigualdades estritas morrem no limite: de un<vnu_n < v_n para todo nn obtém-se apenas limunlimvn\lim u_n \leq \lim v_n (Teorema 11.7); 1n>0\frac1n > 0 e, ainda assim, lim=0\lim = 0. (iii) Limitada não é convergente: ((1)n)((-1)^n) é limitada e diverge; limitação mais monotonicidade converge, e a limitação sozinha só garante uma subsequência convergente (Teorema 11.16). (iv) A equação de ponto fixo vem em segundo lugar, não em primeiro: para un+1=f(un)u_{n+1} = f(u_n), resolver f()=f(\ell) = \ell identifica o limite apenas depois de demonstrada a convergência. A recorrência un+1=2unu_{n+1} = 2u_n tem o único ponto fixo =0\ell = 0 e, no entanto, a partir de u0=1u_0 = 1 a sequência corre para ++\infty: a equação =2\ell = 2\ell nunca teve direito a um limite. Ordem das operações, sempre: existência primeiro (Método 11.23, passos 1–3), identificação depois.

Exemplo 11.26 (Um ff decrescente: a recorrência áurea)

Sejam u0=1u_0 = 1 e un+1=11+unu_{n+1} = \dfrac{1}{1 + u_n}. Aqui f(x)=11+xf(x) = \frac{1}{1+x} é decrescente, de modo que a sequência não é monótona (ela alterna em torno do seu limite); o passo de contração do Método 11.23 é a ferramenta certa. Estabilidade: se x[12,1]x \in \intcc{\frac12}{1}, então 1+x[32,2]1 + x \in \intcc{\frac32}{2}, de modo que f(x)[12,23][12,1]f(x) \in \intcc{\frac12}{\frac23} \subseteq \intcc{\frac12}{1}, e u1=12u_1 = \frac12 põe a sequência inteira ali. Ponto fixo: =11+\ell = \frac{1}{1+\ell} com >0\ell > 02+1=0\ell^2 + \ell - 1 = 0, isto é,

=512=0.6180\ell = \frac{\sqrt5 - 1}{2} = 0.6180\dots

(o inverso da razão áurea). Contração: para x,y[12,1]x, y \in \intcc{\frac12}{1},

f(x)f(y)=xy(1+x)(1+y)xy(3/2)2=49xy,\abs{f(x) - f(y)} = \frac{\abs{x - y}}{(1+x)(1+y)} \leq \frac{\abs{x-y}}{(3/2)^2} = \frac49\,\abs{x - y} ,

de modo que un(49)n1u10\abs{u_n - \ell} \leq \bigl(\frac49\bigr)^{n-1}\abs{u_1 - \ell} \to 0: convergência, com velocidade geométrica, sem necessidade de monotonicidade. A ideia de fechamento: os métodos monótonos e os métodos de contração repartem entre si o mundo recorrente — ff crescente dá órbitas monótonas, e ff decrescente dá órbitas alternadas domadas por uma constante de Lipschitz <1< 1 (a teoria sistemática é o Exercício 14.11).

Observação 11.27 (Perspectivas dentro deste volume)

As sequências são o instrumento de medida que o restante do volume encosta em todo objeto. No Capítulo 12 elas caracterizam a fecho e a compacidade; no Capítulo 13 elas transportam limites de funções; no Capítulo 15 as somas de Riemann são sequências que convergem para a integral; o Capítulo 17 é a teoria de uma classe especial de sequências, as somas parciais. Até os capítulos de álgebra as consomem: os iterados de uma matriz no Capítulo 21 formam sequências cujo comportamento (convergência de AnA^n) é uma questão de álgebra linear com o vocabulário deste capítulo. Os dois teoremas a levar consigo por toda parte: limite monótono (existência a partir da ordem) e Bolzano–Weierstrass (existência a partir da limitação) — entre os dois nasce quase todo limite deste livro.

Observação 11.28 (Sequências complexas)

Uma sequência (zn)(z_n) de números complexos converge para \ell quando zn0\abs{z_n - \ell} \to 0; equivalentemente, quando (zn)()\Re(z_n) \to \Re(\ell) e (zn)()\Im(z_n) \to \Im(\ell) (compare z\abs{z} com z+z\abs{\Re z} + \abs{\Im z}). Os teoremas que não envolvem ordem — operações, Bolzano–Weierstrass (extraia duas vezes), critério de Cauchy — transferem-se literalmente.

11.6 Exercícios

Exercício 11.1

Diretamente da Definição 11.1, demonstre que 2n+1n+32\dfrac{2n+1}{n+3} \to 2 e que (un)=((1)n)(u_n) = ((-1)^n) diverge.

Solução

Solução de Exercício 11.1.

2n+1n+32=5n+3\Bigl|\dfrac{2n+1}{n+3} - 2\Bigr| = \dfrac{5}{n+3}. Dado ε>0\varepsilon > 0, tome N>5ε3N > \frac 5\varepsilon - 3 (Arquimedes): para nNn \geq N, 5n+3ε\frac{5}{n+3} \leq \varepsilon. Logo, o limite é 22.

((1)n)((-1)^n): as suas subsequências (u2n)=(1)(u_{2n}) = (1) e (u2n+1)=(1)(u_{2n+1}) = (-1) convergem para limites diferentes, de modo que a sequência diverge (Proposição 11.14). (Diretamente: qualquer candidato \ell falha para ε=12\varepsilon = \frac12, pois termos consecutivos estão a distância 22.)

Exercício 11.2

Calcule os limites:

n23n+12n2+5,n+1n,2n+n33nn2,5n (=51/n).\frac{n^2 - 3n + 1}{2n^2 + 5}, \qquad \sqrt{n+1} - \sqrt n, \qquad \frac{2^n + n^3}{3^n - n^2}, \qquad \sqrt[n]{5}\ \Bigl(= 5^{1/n}\Bigr).
Solução

Solução de Exercício 11.2.

Dividindo por n2n^2: 13/n+1/n22+5/n212\dfrac{1 - 3/n + 1/n^2}{2 + 5/n^2} \to \dfrac12.

n+1n=1n+1+n0\sqrt{n+1} - \sqrt n = \dfrac{1}{\sqrt{n+1} + \sqrt n} \to 0 (conjugado).

2n+n33nn2=(2/3)n+n3/3n1n2/3n0+010=0\dfrac{2^n + n^3}{3^n - n^2} = \dfrac{(2/3)^n + n^3/3^n}{1 - n^2/3^n} \to \dfrac{0 + 0}{1 - 0} = 0, usando qn0q^n \to 0 para q<1\abs q < 1 e a comparação polinômio contra geométrica (Proposição 4.6).

51/n=eln5ne0=15^{1/n} = \eu^{\frac{\ln 5}{n}} \to \eu^0 = 1.

Exercício 11.3

Demonstre a comparação padrão: se q<1\abs{q} < 1, então qn0q^n \to 0 (escreva 1q=1+h\frac{1}{\abs q} = 1 + h, com h>0h > 0, e use a desigualdade de Bernoulli (1+h)n1+nh(1+h)^n \geq 1 + nh, a ser demonstrada por indução). Quais são os comportamentos para q=1q = 1, q=1q = -1 e q>1\abs q > 1?

Solução

Solução de Exercício 11.3.

Bernoulli: (1+h)n1+nh(1+h)^n \geq 1 + nh para h1h \geq -1, por indução — (1+h)n+1=(1+h)n(1+h)(1+nh)(1+h)=1+(n+1)h+nh21+(n+1)h(1+h)^{n+1} = (1+h)^n(1+h) \geq (1+nh)(1+h) = 1 + (n+1)h + nh^2 \geq 1 + (n+1)h.

Para 0<q<10 < \abs q < 1: escreva 1q=1+h\frac{1}{\abs q} = 1 + h, com h>0h > 0; então qn=1(1+h)n11+nh0\abs{q}^n = \frac{1}{(1+h)^n} \leq \frac{1}{1 + nh} \to 0, e o confronto dá qn0q^n \to 0 (o caso q=0q = 0 é trivial). Para q=1q = 1: sequência constante, limite 11. Para q=1q = -1: diverge (Exercício 11.1). Para q>1\abs q > 1: qn=(1+h)n1+nh+\abs q^n = (1 + h)^n \geq 1 + nh \to +\infty, de modo que (qn)(q^n) é ilimitada e, portanto, divergente (para ++\infty se q>1q > 1; com sinais alternados, sem limite, se q<1q < -1).

Exercício 11.4

Seja un+1=un+32u_{n+1} = \frac{u_n + 3}{2}, com u0=0u_0 = 0. Encontre o ponto fixo \ell, demonstre que vn=unv_n = u_n - \ell é geométrica e dê uma fórmula explícita e o limite de (un)(u_n).

Solução

Solução de Exercício 11.4.

Ponto fixo: =+32\ell = \frac{\ell + 3}{2}=3\ell = 3. Então

vn+1=un+13=un+323=un32=vn2:v_{n+1} = u_{n+1} - 3 = \frac{u_n + 3}{2} - 3 = \frac{u_n - 3}{2} = \frac{v_n}{2}:

(vn)(v_n) é geométrica de razão 12\frac12, com v0=3v_0 = -3. Logo, un=332n3u_n = 3 - \frac{3}{2^n} \to 3.

Exercício 11.5 ★★

(Série harmônica) Seja Hn=k=1n1kH_n = \sum_{k=1}^{n} \frac 1k. Demonstre que H2nHn12H_{2n} - H_n \geq \frac12 para todo n1n \geq 1 e conclua que (Hn)(H_n) não é uma sequência de Cauchy e, portanto, diverge (para ++\infty, por ser crescente).

Solução

Solução de Exercício 11.5.

H2nHn=k=n+12n1kn12n=12H_{2n} - H_n = \sum_{k=n+1}^{2n} \frac 1k \geq n \cdot \frac{1}{2n} = \frac12 (cada um dos nn termos é 12n\geq \frac{1}{2n}). Se (Hn)(H_n) fosse de Cauchy, tomar ε=13\varepsilon = \frac13 forçaria H2nHn13\abs{H_{2n} - H_n} \leq \frac13 para nn grande: contradição. Uma sequência crescente não convergente diverge para ++\infty (Teorema 11.9): Hn+H_n \to +\infty.

Exercício 11.6 ★★

Suponha que (u2n)(u_{2n}), (u2n+1)(u_{2n+1}) e (u3n)(u_{3n}) convirjam todas. Demonstre que (un)(u_n) converge. (Encontre subsequências comuns para igualar os limites.)

Solução

Solução de Exercício 11.6.

Sejam a=limu2na = \lim u_{2n}, b=limu2n+1b = \lim u_{2n+1}, c=limu3nc = \lim u_{3n}. A sequência (u6n)(u_{6n}) é subsequência tanto de (u2n)(u_{2n}) quanto de (u3n)(u_{3n}): o seu limite é igual a aa e a cc, de modo que a=ca = c. A sequência (u6n+3)(u_{6n+3}) é subsequência de (u2n+1)(u_{2n+1}) (índices ímpares) e de (u3n)(u_{3n}) (índices 6n+3=3(2n+1)6n + 3 = 3(2n+1)): logo, b=cb = c. Portanto, a=ba = b, e a Proposição 11.14 (pares e ímpares com limites iguais) dá a convergência de (un)(u_n).

Exercício 11.7 ★★

Estude a sequência u0=0u_0 = 0, un+1=2+unu_{n+1} = \sqrt{2 + u_n}: estabilidade, monotonicidade, limite. Depois demonstre a estimativa do erro un223n\abs{u_n - 2} \leq \dfrac{2}{3^{\,n}} (mostre que 2un+1=2un2+2+un2 - u_{n+1} = \dfrac{2 - u_n}{2 + \sqrt{2 + u_n}} e limite o denominador inferiormente por 33).

Solução

Solução de Exercício 11.7.

Estabilidade e cotas: I=[0,2]I = \intcc{0}{2} é estável: para xIx \in I, 2+x[2,2]I\sqrt{2 + x} \in \intcc{\sqrt 2}{2} \subseteq I; e u0=0Iu_0 = 0 \in I.

Monotonicidade: f(x)=2+xf(x) = \sqrt{2+x} é crescente e u1=2>u0u_1 = \sqrt 2 > u_0: por indução, (un)(u_n) é crescente. Crescente e limitada superiormente por 22: ela converge (Teorema 11.9).

Limite: =2+\ell = \sqrt{2 + \ell} com 0\ell \geq 022=0\ell^2 - \ell - 2 = 0, de modo que =2\ell = 2.

Estimativa do erro: multiplicando pelo conjugado,

2un+1=22+un=4(2+un)2+2+un=2un2+2+un2un3,2 - u_{n+1} = 2 - \sqrt{2 + u_n} = \frac{4 - (2 + u_n)}{2 + \sqrt{2+u_n}} = \frac{2 - u_n}{2 + \sqrt{2 + u_n}} \leq \frac{2 - u_n}{3},

pois 2+un2>1\sqrt{2 + u_n} \geq \sqrt 2 > 1. Por indução a partir de 2u0=22 - u_0 = 2:   02un23n\;0 \leq 2 - u_n \leq \frac{2}{3^n}.

Exercício 11.8 ★★

Seja (un)(u_n) limitada, tal que toda subsequência convergente de (un)(u_n) tenha o mesmo limite \ell. Demonstre que unu_n \to \ell. (Absurdo mais Bolzano–Weierstrass.)

Solução

Solução de Exercício 11.8.

Suponha que (un)(u_n) não convirja para \ell: para algum ε0>0\varepsilon_0 > 0, infinitos índices satisfazem un>ε0\abs{u_n - \ell} > \varepsilon_0; eles formam uma subsequência (uφ(n))(u_{\varphi(n)}). Essa subsequência é limitada, de modo que, por Bolzano–Weierstrass (Teorema 11.16), ela tem uma sub-subsequência convergente, cujo limite \ell' satisfaz ε0\abs{\ell' - \ell} \geq \varepsilon_0 (passe a desigualdade ao limite, Teorema 11.7). Mas uma sub-subsequência de (un)(u_n) é uma subsequência convergente de (un)(u_n), de sorte que, por hipótese, =\ell' = \ell: contradição.

Exercício 11.9 ★★★

Com a notação do Exemplo 11.12, suponha que e=pq\eu = \frac pq com p,qNp, q \in \N^*. Usando aq<e<bq=aq+1qq!a_q < \eu < b_q = a_q + \frac{1}{q\, q!}, multiplique por q!q! e derive uma contradição entre dois inteiros. Conclua: e\eu é irracional.

Solução

Solução de Exercício 11.9.

Suponha e=pq\eu = \frac pq, com q1q \geq 1. As desigualdades estritas aq<e<aq+1qq!a_q < \eu < a_q + \frac{1}{q\,q!} (estritas, pois (an)(a_n) é estritamente crescente e (bn)(b_n) estritamente decrescente), multiplicadas por q!q!, dão

q!aq  <  q!pq  <  q!aq+1qq!aq+1.q!\,a_q \;<\; q!\,\frac pq \;<\; q!\,a_q + \frac 1q \leq q!\,a_q + 1.

Ora, N=q!aq=k=0qq!k!N = q!\,a_q = \sum_{k=0}^{q} \frac{q!}{k!} é um inteiro (cada q!k!\frac{q!}{k!} é um produto de inteiros para kqk \leq q), e o mesmo vale para q!pq=(q1)!pq!\,\frac pq = (q-1)!\,p. A expressão coloca, assim, o inteiro (q1)!p(q-1)!\,p estritamente entre NN e N+1qN+1N + \frac 1q \leq N + 1: um inteiro estritamente dentro de (N,N+1)\intoo{N}{N+1}, o que é impossível. Portanto, eQ\eu \notin \Q.

Exercício 11.10 ★★★

(Médias de Cesàro) Para uma sequência (un)n1(u_n)_{n \geq 1}, ponha cn=u1++unnc_n = \frac{u_1 + \dots + u_n}{n}.

  1. Demonstre que unu_n \to \ell implica cnc_n \to \ell (corte a soma num limiar NN; limite a cabeça por uma quantidade fixa dividida por nn, e a cauda por ε\varepsilon).
  2. Mostre com um exemplo que a recíproca falha.
  3. Deduza que, se un+1unu_{n+1} - u_n \to \ell, então unn\frac{u_n}{n} \to \ell.
Solução

Solução de Exercício 11.10.

  1. Sejam ε>0\varepsilon > 0 e NN com ukε2\abs{u_k - \ell} \leq \frac{\varepsilon}{2} para k>Nk > N. Para n>Nn > N:

    cn=k=1n(uk)nk=1Nukn+nNnε2Cn+ε2,\abs{c_n - \ell} = \Bigl|\frac{\sum_{k=1}^{n}(u_k - \ell)}{n}\Bigr| \leq \frac{\sum_{k=1}^{N} \abs{u_k - \ell}}{n} + \frac{n - N}{n}\cdot\frac{\varepsilon}{2} \leq \frac{C}{n} + \frac{\varepsilon}{2},

    em que C=k=1NukC = \sum_{k=1}^N \abs{u_k - \ell} é fixo. Para nn grande, Cnε2\frac Cn \leq \frac\varepsilon2: então cnε\abs{c_n - \ell} \leq \varepsilon.

  2. un=(1)nu_n = (-1)^n: diverge e, ainda assim, cn0c_n \to 0 (somas parciais limitadas por 11, divididas por nn).
  3. Aplique (1) à sequência vn=un+1unv_n = u_{n+1} - u_n \to \ell: a sua média de Cesàro é un+1u1n\frac{u_{n+1} - u_1}{n} \to \ell (telescopando), e un+1n=un+1u1n+u1n\frac{u_{n+1}}{n} = \frac{u_{n+1} - u_1}{n} + \frac{u_1}{n} \to \ell; renormalizando os índices (unn=unn1n1n\frac{u_n}{n} = \frac{u_n}{n-1}\cdot\frac{n-1}{n}), obtém-se unn\frac{u_n}{n} \to \ell.

Exercício 11.11 ★★★

Seja (un)(u_n) satisfazendo 0um+num+un0 \leq u_{m+n} \leq u_m + u_n para todos m,nm, n (subaditividade). Demonstre que (unn)\bigl(\frac{u_n}{n}\bigr) converge para infn1unn\inf_{n \geq 1} \frac{u_n}{n}. (Para mm fixado, escreva n=qm+rn = qm + r e limite unn\frac{u_n}{n} usando unqum+uru_n \leq q\,u_m + u_r.)

Solução

Solução de Exercício 11.11.

Sejam L=infn1unn0L = \inf_{n \geq 1} \frac{u_n}{n} \geq 0 e ε>0\varepsilon > 0. Escolha mm com ummL+ε\frac{u_m}{m} \leq L + \varepsilon. Todo nn se escreve n=qm+rn = qm + r, 0r<m0 \leq r < m; a subaditividade (iterada) dá unqum+uru_n \leq q\,u_m + u_r, de modo que

unnqmnumm+urnumm+max(u0,,um1)nL+ε+Cmn,\frac{u_n}{n} \leq \frac{q m}{n}\cdot\frac{u_m}{m} + \frac{u_r}{n} \leq \frac{u_m}{m} + \frac{\max(u_0, \dots, u_{m-1})}{n} \leq L + \varepsilon + \frac{C_m}{n},

usando qmnqm \leq n. Para nn grande, Cmnε\frac{C_m}{n} \leq \varepsilon: assim, LunnL+2εL \leq \frac{u_n}{n} \leq L + 2\varepsilon para todo nn grande, o que é a convergência para LL.

Exercício 11.12 ★★★

Usando a densidade do subgrupo Z+2πZ\Z + 2\pi\Z de (R,+)(\R, +) (Exercício 10.9), demonstre que a sequência (sinn)nN(\sin n)_{n \in \N} é densa em [1,1]\intcc{-1}{1} — em particular, ela diverge.

Solução

Solução de Exercício 11.12.

O subgrupo G=Z+2πZG = \Z + 2\pi\Z de (R,+)(\R, +) é denso: ele não é αZ\alpha\Z, pois 1=pα1 = p\alpha, 2π=qα2\pi = q\alpha fariam de 2π=qp2\pi = \frac qp um racional — e πQ\pi \notin \Q (admitido aqui; uma demonstração é esboçada no Capítulo 15). Pelo Exercício 10.9, GG é denso em R\R.

Sejam agora y[1,1]y \in \intcc{-1}{1} e θ=arcsiny\theta = \arcsin y. Pela densidade, para todo ε>0\varepsilon > 0 existem nZn \in \Z, kZk \in \Z com (n+2πk)θε\abs{(n + 2\pi k) - \theta} \leq \varepsilon, isto é, nn está a menos de ε\varepsilon de θ2πk\theta - 2\pi k; então, sendo sin\sin 2π2\pi-periódica e 11-lipschitziana (sinasinbab\abs{\sin a - \sin b} \leq \abs{a - b}, pela desigualdade do valor médio do Capítulo 14),

sinny=sin(n+2πk)sinθn+2πkθε.\abs{\sin n - y} = \abs{\sin(n + 2\pi k) - \sin\theta} \leq \abs{n + 2\pi k - \theta} \leq \varepsilon .

Um detalhe: nn percorre Z\Z, mas sin(n)=sinn\sin(-n) = -\sin n e yy era arbitrário em [1,1]\intcc{-1}{1}, de modo que índices não negativos bastam (troque (n,y)(n, y) por (n,y)(-n, -y) se necessário). Portanto, {sinn:nN}\{\sin n : n \in \N\} é denso em [1,1]\intcc{-1}{1}; e uma sequência densa num segmento tem subsequências que se aproximam de valores distintos, de sorte que ela diverge.

11.7 Problema: Cesàro, Stolz e a queda lenta do seno

Problema 11.1

Problema de fim de semana — o teorema de Cesàro–Stolz e a assintótica un3/nu_n \sim \sqrt{3/n} para un+1=sinunu_{n+1} = \sin u_n

O teorema de Cesàro–Stolz é a regra de l’Hôpital discreta: para encontrar o limite de um quociente an/bna_n/b_n, basta encontrar o limite do quociente dos incrementos (an+1an)/(bn+1bn)(a_{n+1} - a_n)/(b_{n+1} - b_n). Este problema demonstra o teorema, colhe com ele limites clássicos e depois o aponta para um alvo famoso: a sequência un+1=sinunu_{n+1} = \sin u_n, que se arrasta até 00 na velocidade exatamente calculável un3/nu_n \sim \sqrt{3/n}. Dois fatos do volume do ensino médio são concedidos aqui e redemonstrados honestamente mais adiante neste volume: a desigualdade da reta tangente

eu1+u(uR),(G1)\tag{G1} \eu^{u} \geq 1 + u \quad (u \in \R),

redemonstrada por convexidade no Capítulo 14, e o enquadramento do seno

xx36    sinx    xx36+x5120(0x1),sinxx(xR),(G2)\tag{G2} x - \frac{x^3}{6} \;\leq\; \sin x \;\leq\; x - \frac{x^3}{6} + \frac{x^5}{120} \quad (0 \leq x \leq 1), \qquad \abs{\sin x} \leq \abs{x} \quad (x \in \R),

redemonstrado pela fórmula de Taylor no Capítulo 16.

Parte I — Somas sem fórmulas fechadas.

  1. Usando 1+2++n=n(n+1)21 + 2 + \dots + n = \frac{n(n+1)}{2} e 12++n2=n(n+1)(2n+1)61^2 + \dots + n^2 = \frac{n(n+1)(2n+1)}{6}, calcule lim1+2++nn2\lim \frac{1 + 2 + \dots + n}{n^2} e lim12++n2n3\lim \frac{1^2 + \dots + n^2}{n^3}.
  2. Seja Tn=k=1nkT_n = \sum_{k=1}^n \sqrt k, para o qual não existe fórmula fechada. Demonstre o enquadramento

    122n3/2    Tn    n3/2\frac{1}{2\sqrt 2}\,n^{3/2} \;\leq\; T_n \;\leq\; n^{3/2}

    (guarde apenas os termos k>n2k > \frac n2 para a estimativa inferior). Assim, TnT_n tem a ordem n3/2n^{3/2} — mas com que constante? Segure a pergunta até a questão 8.

  3. (Lema telescópico) Seja (bn)(b_n) estritamente crescente e suponha que, para todo kNk \geq N,

    m    ak+1akbk+1bk    M.m \;\leq\; \frac{a_{k+1} - a_k}{b_{k+1} - b_k} \;\leq\; M .

    Demonstre que manaNbnbNMm \leq \dfrac{a_n - a_N}{b_n - b_N} \leq M para todo n>Nn > N.

Parte II — O teorema de Cesàro–Stolz. Seja (bn)(b_n) estritamente crescente com bn+b_n \to +\infty, e suponha que an+1anbn+1bnR\dfrac{a_{n+1} - a_n}{b_{n+1} - b_n} \to \ell \in \R.

  1. Fixe ε>0\varepsilon > 0. Mostre que existe NN tal que εanaNbnbN+ε\ell - \varepsilon \leq \dfrac{a_n - a_N}{b_n - b_N} \leq \ell + \varepsilon para todo n>Nn > N.
  2. Estabeleça, para n>Nn > N, a identidade

    anbn=aNbNbn+(1bNbn)(anaNbnbN),\frac{a_n}{b_n} - \ell = \frac{a_N - \ell\,b_N}{b_n} + \Bigl(1 - \frac{b_N}{b_n}\Bigr) \Bigl(\frac{a_n - a_N}{b_n - b_N} - \ell\Bigr),

    e conclua o teorema: anbn\dfrac{a_n}{b_n} \to \ell.

  3. Demonstre a variante ++\infty: se an+1anbn+1bn+\dfrac{a_{n+1} - a_n}{b_{n+1} - b_n} \to +\infty (mesmas hipóteses sobre (bn)(b_n)), então anbn+\dfrac{a_n}{b_n} \to +\infty.
  4. Tome bn=nb_n = n: recupere o teorema da média de Cesàro do Exercício 11.10. Depois mostre que a recíproca de Cesàro–Stolz falha: para an=(1)na_n = (-1)^n, bn=nb_n = n, o quociente an/bna_n/b_n converge, ao passo que o quociente dos incrementos não. Stolz é uma via de mão única.

Parte III — Primeiros dividendos.

  1. Demonstre que (1+h)3/21=3h+3h2+h3(1+h)3/2+1(1+h)^{3/2} - 1 = \dfrac{3h + 3h^2 + h^3}{(1+h)^{3/2} + 1} por conjugação, deduza n((1+1n)3/21)32n\bigl((1 + \tfrac1n)^{3/2} - 1\bigr) \to \tfrac32 e conclua com Cesàro–Stolz:

    Tn=k=1nk    23n3/2,T_n = \sum_{k=1}^{n} \sqrt k \;\sim\; \tfrac23\, n^{3/2} ,

    resolvendo o suspense da questão 2.

  2. Só a partir de (G1), deduza o enquadramento do logaritmo

    t1+t    ln(1+t)    t(t>1)\frac{t}{1 + t} \;\leq\; \ln(1 + t) \;\leq\; t \qquad (t > -1)

    (aplique (G1) em u=ln(1+t)u = \ln(1+t) e em u=t/(1+t)u = -t/(1+t)).

  3. Mostre que bn=lnnb_n = \ln n é estritamente crescente com lnn+\ln n \to +\infty, e demonstre, com Cesàro–Stolz e a questão 9, que

    Hn=k=1n1k    lnn.H_n = \sum_{k=1}^{n} \frac 1k \;\sim\; \ln n .

    (A estrutura mais fina Hn=lnn+γ+o(1)H_n = \ln n + \gamma + o(1) é o problema de fim de semana do Capítulo 17.)

  4. (De razões a raízes) Seja un>0u_n > 0 com un+1unL>0\frac{u_{n+1}}{u_n} \to L > 0. Usando a questão 9, mostre que lnun+1unlnL\ln\frac{u_{n+1}}{u_n} \to \ln L; aplique Cesàro para concluir que lnunnlnL\frac{\ln u_n}{n} \to \ln L e, depois, com (G1), que un1/nLu_n^{1/n} \to L. Aplicação: calcule lim(2nn)1/n\lim\,\binom{2n}{n}^{1/n}.

Parte IV — A queda lenta do seno. Sejam u0Ru_0 \in \R e un+1=sinunu_{n+1} = \sin u_n.

  1. A partir de (G2), mostre que 0<sinx<x0 < \sin x < x para 0<x10 < x \leq 1. Deduza: u1[1,1]u_1 \in \intcc{-1}{1}; se u1=0u_1 = 0, a sequência é nula a partir do posto 11; e, se u1>0u_1 > 0 (o caso u1<0u_1 < 0 sendo simétrico, pois sin\sin é ímpar), então (un)n1(u_n)_{n \geq 1} é estritamente decrescente, positiva e converge para 00 (identifique o limite via =sin\ell = \sin \ell, usando sinasinbab\abs{\sin a - \sin b} \leq \abs{a - b}, ela própria consequência de (G2) e da fórmula de transformação de produto em soma).
  2. Suponha de agora em diante que u1(0,1]u_1 \in \intoc{0}{1}. Mostre, por confronto, usando (G2):

    sinunun1eunsinunun316.\frac{\sin u_n}{u_n} \to 1 \qquad\text{e}\qquad \frac{u_n - \sin u_n}{u_n^{3}} \to \frac16 .
  3. Demonstre a fatoração

    wn:=1un+121un2=unsinunun3un+sinunun(unsinun)2,w_n := \frac{1}{u_{n+1}^{2}} - \frac{1}{u_n^{2}} = \frac{u_n - \sin u_n}{u_n^{3}} \cdot \frac{u_n + \sin u_n}{u_n} \cdot \Bigl(\frac{u_n}{\sin u_n}\Bigr)^{2},

    e deduza que wn13w_n \to \frac13.

  4. Conclua com o Exercício 11.10 (versão dos incrementos) que 1nun213\frac{1}{n\,u_n^{2}} \to \frac13 e, depois, por um argumento de conjugação para a raiz quadrada, o resultado central:

    n  un3,i.e.un3n.\sqrt n\;u_n \longrightarrow \sqrt 3 , \qquad\text{i.e.}\qquad u_n \sim \sqrt{\frac 3n} .
  5. Quantifique a lentidão: mostre que, a partir de certo ponto, 2/nun2/n\sqrt{2/n} \leq u_n \leq 2/\sqrt n, de modo que atingir un102u_n \leq 10^{-2} exige mais de 2000020\,000 iterações (cerca de 3000030\,000, pela assintótica). Contraste com o método de Heron (Exemplo 11.24) e explique a razão estrutural: no ponto fixo 00, a inclinação de sin\sin vale 11 (um ponto fixo neutro), ao passo que iterações que dividem o erro ao meio precisam de inclinação de módulo <1< 1.
  6. Mostre que, para todo ponto de partida u0Ru_0 \in \R, ou un=0u_n = 0 a partir do posto 11, ou un3/n\abs{u_n} \sim \sqrt{3/n} — a queda é universal, e só o sinal se lembra de u0u_0.

Parte V — O princípio geral. O seno é uma instância de uma máquina.

  1. Sejam un>0u_n > 0, un0u_n \to 0 e unun+1un2a>0\dfrac{u_n - u_{n+1}}{u_n^{2}} \to a > 0. Demonstre sucessivamente: un+1un1\frac{u_{n+1}}{u_n} \to 1; depois 1un+11una\frac{1}{u_{n+1}} - \frac{1}{u_n} \to a; depois nun1an\,u_n \to \frac1a.
  2. (Modelo exato) Para un+1=un1+unu_{n+1} = \dfrac{u_n}{1 + u_n}, com u0>0u_0 > 0: mostre que 1un\frac{1}{u_n} é aritmética, resolva exatamente e confira a conclusão da questão 18 contra a fórmula exata.
  3. Para un+1=uneunu_{n+1} = u_n \eu^{-u_n}, com u0>0u_0 > 0: mostre que un0u_n \to 0, use (G1) para enquadrar 1ett\frac{1 - \eu^{-t}}{t} entre 11+t\frac{1}{1+t} e 11 para t>0t > 0, e conclua que un1nu_n \sim \frac 1n.
  4. (Contato cúbico, telescópio ao quadrado) Sejam un>0u_n > 0, un0u_n \to 0, unun+1un3a>0\dfrac{u_n - u_{n+1}}{u_n^{3}} \to a > 0. Adapte a fatoração da questão 14 para mostrar que 1un+121un22a\frac{1}{u_{n+1}^2} - \frac{1}{u_n^2} \to 2a e conclua que nun212an\,u_n^{2} \to \frac{1}{2a}. Verifique que a=16a = \frac16 recupera a Parte IV.

Parte VI — Limites do método e morais.

  1. Mostre que a hipótese bn+b_n \to +\infty não pode ser abandonada: para an=22na_n = 2 - 2^{-n} e bn=12nb_n = 1 - 2^{-n}, o quociente dos incrementos tende a 11, ao passo que anbn2\frac{a_n} {b_n} \to 2. Aponte a linha exata da demonstração da questão 5 que se quebra.
  2. (Stolz duas vezes) Demonstre que k=1nHknlnn\sum_{k=1}^{n} H_k \sim n \ln n (uma aplicação de Cesàro–Stolz, depois a questão 10; limite (n+1)ln(n+1)nlnn(n+1)\ln(n+1) - n\ln n usando a questão 9).
  3. (Médias geométricas) Se un>0u_n > 0 e un>0u_n \to \ell > 0, mostre que (u1u2un)1/n(u_1 u_2 \cdots u_n)^{1/n} \to \ell; se un+u_n \to +\infty, mostre que (u1un)1/n+(u_1 \cdots u_n)^{1/n} \to +\infty. Deduza que (n!)1/n+(n!)^{1/n} \to +\infty.
  4. Síntese, uma frase para cada: (i) onde exatamente entrou a completude neste problema; (ii) em que sentido Cesàro–Stolz é uma regra de l’Hôpital discreta (a sua gêmea diferencial repousa no teorema do valor médio do Capítulo 14); (iii) enuncie a heurística que liga a ordem de contato de ff num ponto fixo neutro ao expoente de decaimento de un+1=f(un)u_{n+1} = f(u_n); (iv) rastreie a constante 33 de 3/n\sqrt{3/n} ao longo do encadeamento 16133\frac16 \to \frac13 \to 3.
Solução

Solução de Problema 11.1.

1. n(n+1)/2n2=1+1/n212\dfrac{n(n+1)/2}{n^2} = \dfrac{1 + 1/n}{2} \to \dfrac12 e n(n+1)(2n+1)/6n3=(1+1/n)(2+1/n)613\dfrac{n(n+1)(2n+1)/6}{n^3} = \dfrac{(1 + 1/n)(2 + 1/n)}{6} \to \dfrac13.

2. Superior: cada um dos nn termos é n\leq \sqrt n, de modo que TnnnT_n \leq n\sqrt n. Inferior: os termos com k>n2k > \frac n2 são em número de ao menos n2\frac n2, e cada um é n/2\geq \sqrt{n/2}:

Tnn2n2=n3/222.T_n \geq \frac n2 \sqrt{\frac n2} = \frac{n^{3/2}}{2\sqrt 2} .

3. Para kNk \geq N, como bk+1bk>0b_{k+1} - b_k > 0: m(bk+1bk)ak+1akM(bk+1bk)m(b_{k+1} - b_k) \leq a_{k+1} - a_k \leq M(b_{k+1} - b_k). Somando para k=N,,n1k = N, \dots, n - 1, os dois lados telescopam:

m(bnbN)anaNM(bnbN),m\,(b_n - b_N) \leq a_n - a_N \leq M\,(b_n - b_N),

e dividir por bnbN>0b_n - b_N > 0 dá a afirmação.

4. Pela definição de limite existe NN com εak+1akbk+1bk+ε\ell - \varepsilon \leq \frac{a_{k+1} - a_k}{b_{k+1} - b_k} \leq \ell + \varepsilon para todo kNk \geq N; a questão 3 com m=εm = \ell - \varepsilon, M=+εM = \ell + \varepsilon transfere o enquadramento para anaNbnbN\frac{a_n - a_N}{b_n - b_N}.

5. Expandindo o lado direito da identidade:

aNbNbn+anaNbnbnbNbn=anbnbn=anbn.\frac{a_N - \ell b_N}{b_n} + \frac{a_n - a_N}{b_n} - \ell\,\frac{b_n - b_N}{b_n} = \frac{a_n - \ell b_n}{b_n} = \frac{a_n}{b_n} - \ell .

Pela questão 4, o segundo fator do produto é limitado por ε\varepsilon em valor absoluto, e 0<1bNbn10 < 1 - \frac{b_N}{b_n} \leq 1 para nn grande, de modo que

anbnaNbNbn+ε2ε\Bigl|\frac{a_n}{b_n} - \ell\Bigr| \leq \frac{\abs{a_N - \ell b_N}}{b_n} + \varepsilon \leq 2\varepsilon

assim que bnaNbNεb_n \geq \frac{\abs{a_N - \ell b_N}}{\varepsilon}, o que ocorre a partir de certo ponto, pois bn+b_n \to +\infty. Portanto, anbn\frac{a_n}{b_n} \to \ell: o teorema de Cesàro–Stolz.

6. Dado MM, escolha NN com ak+1akbk+1bkM\frac{a_{k+1} - a_k}{b_{k+1} - b_k} \geq M para kNk \geq N; a metade inferior da questão 3 dá anaNM(bnbN)a_n - a_N \geq M(b_n - b_N), de modo que

anbnaNbn+M(1bNbn)M.\frac{a_n}{b_n} \geq \frac{a_N}{b_n} + M\Bigl(1 - \frac{b_N}{b_n}\Bigr) \longrightarrow M .

Além de certo posto, anbnM1\frac{a_n}{b_n} \geq M - 1; como MM era arbitrário, anbn+\frac{a_n}{b_n} \to +\infty.

7. Com bn=nb_n = n e an=u1++una_n = u_1 + \dots + u_n: o quociente dos incrementos é un+1u_{n+1} \to \ell, de modo que a média de Cesàro ann\frac{a_n}{n} tende a \ell: parte (1) do Exercício 11.10. Com an=una_n = u_n: o quociente dos incrementos é un+1unu_{n+1} - u_n, o que dá a parte (3). Recíproca: an=(1)na_n = (-1)^n, bn=nb_n = n tem anbn0\frac{a_n}{b_n} \to 0 e, no entanto, an+1an=±2a_{n+1} - a_n = \pm 2 alterna: o quociente dos incrementos não tem limite.

8. Conjugação:

((1+h)3/21)((1+h)3/2+1)=(1+h)31=3h+3h2+h3.\bigl((1+h)^{3/2} - 1\bigr)\bigl((1+h)^{3/2} + 1\bigr) = (1+h)^3 - 1 = 3h + 3h^2 + h^3 .

Para h=1nh = \frac1n: n((1+1n)3/21)=3+3/n+1/n2(1+1/n)3/2+1n\bigl((1 + \frac1n)^{3/2} - 1\bigr) = \frac{3 + 3/n + 1/n^2}{(1 + 1/n)^{3/2} + 1}, e 1(1+1n)3/2(1+1n)211 \leq (1 + \frac1n)^{3/2} \leq (1 + \frac1n)^2 \to 1 (confronto), de modo que o denominador tende a 22 e a expressão a 32\frac32. Agora, Stolz com an=Tna_n = T_n, bn=n3/2b_n = n^{3/2} (estritamente crescente, +\to +\infty):

n+1(n+1)3/2n3/2=n+1n1n((1+1n)3/21)123,\frac{\sqrt{n+1}}{(n+1)^{3/2} - n^{3/2}} = \frac{\sqrt{n+1}}{\sqrt n} \cdot \frac{1}{n\bigl((1 + \frac1n)^{3/2} - 1\bigr)} \longrightarrow 1 \cdot \frac{2}{3},

donde Tn23n3/2T_n \sim \frac23\,n^{3/2}. (O enquadramento da questão 2 tinha prendido a constante em [0.35,1]\intcc{0.35}{1}; Stolz a fixa.)

9. (G1) em u=ln(1+t)u = \ln(1+t): 1+t=eln(1+t)1+ln(1+t)1 + t = \eu^{\ln(1+t)} \geq 1 + \ln(1+t), de modo que ln(1+t)t\ln(1+t) \leq t. (G1) em u=t1+tu = -\frac{t}{1+t}: et/(1+t)1t1+t=11+t>0\eu^{-t/(1+t)} \geq 1 - \frac{t}{1+t} = \frac{1}{1+t} > 0; tomando ln\ln (crescente): t1+tln(1+t)-\frac{t}{1+t} \geq -\ln(1+t), isto é, ln(1+t)t1+t\ln(1+t) \geq \frac{t}{1+t}.

10. ln\ln é estritamente crescente (Proposição 4.1), e ln(2k)=kln2\ln(2^k) = k\ln 2 é ilimitado, de modo que lnn+\ln n \to +\infty. Incrementos: com t=1nt = \frac1n na questão 9,

1n+1=1/n1+1/nln(1+1n)1nnn+11/(n+1)ln(1+1/n)1,\frac 1{n+1} = \frac{1/n}{1 + 1/n} \leq \ln\Bigl(1 + \frac1n\Bigr) \leq \frac1n \quad\Longrightarrow\quad \frac{n}{n+1} \leq \frac{1/(n+1)}{\ln(1 + 1/n)} \leq 1 ,

de sorte que o quociente dos incrementos Hn+1Hnln(n+1)lnn\frac{H_{n+1} - H_n}{\ln(n+1) - \ln n} tende a 11; Stolz dá HnlnnH_n \sim \ln n.

11. Ponha xn=un+1unLx_n = \frac{u_{n+1}}{u_n} \to L e tn=xnL10t_n = \frac{x_n}{L} - 1 \to 0. Questão 9: tn1+tnln(1+tn)tn\frac{t_n}{1 + t_n} \leq \ln(1 + t_n) \leq t_n, de modo que lnxnlnL=ln(1+tn)0\ln x_n - \ln L = \ln(1 + t_n) \to 0, por confronto. Cesàro (questão 7) aplicado a (lnxk)(\ln x_k):

1nk=0n1lnxk=lnunlnu0nlnL,\frac1n \sum_{k=0}^{n-1} \ln x_k = \frac{\ln u_n - \ln u_0}{n} \longrightarrow \ln L ,

de modo que lnunnlnL\frac{\ln u_n}{n} \to \ln L. Com hn=lnunnlnL0h_n = \frac{\ln u_n}{n} - \ln L \to 0: un1/n=Lehnu_n^{1/n} = L\,\eu^{h_n}, e (G1) enquadra 1+hnehn11hn1 + h_n \leq \eu^{h_n} \leq \frac{1}{1 - h_n} (para hn<1h_n < 1), de sorte que ehn1\eu^{h_n} \to 1 e un1/nLu_n^{1/n} \to L. Aplicação: un=(2nn)u_n = \binom{2n}{n}

un+1un=(2n+1)(2n+2)(n+1)2=2(2n+1)n+14,logo(2nn)1/n4.\frac{u_{n+1}}{u_n} = \frac{(2n+1)(2n+2)}{(n+1)^2} = \frac{2(2n+1)}{n+1} \longrightarrow 4 , \qquad\text{logo}\qquad \binom{2n}{n}^{1/n} \to 4 .

12. Para 0<x10 < x \leq 1, (G2) dá sinxx(1x26)5x6>0\sin x \geq x(1 - \frac{x^2}{6}) \geq \frac{5x}{6} > 0 e

xsinxx36x5120=x3(16x2120)19120x3>0:x - \sin x \geq \frac{x^3}{6} - \frac{x^5}{120} = x^3\Bigl(\frac16 - \frac{x^2}{120}\Bigr) \geq \frac{19}{120}\,x^3 > 0 :

logo 0<sinx<x0 < \sin x < x em (0,1]\intoc{0}{1}. Sempre u1=sinu0[1,1]u_1 = \sin u_0 \in \intcc{-1}{1}. Se u1=0u_1 = 0, então un=0u_n = 0 para n1n \geq 1. Se u1(0,1]u_1 \in \intoc{0}{1}: por indução, 0<un+1=sinun<un10 < u_{n+1} = \sin u_n < u_n \leq 1, de modo que (un)n1(u_n)_{n\geq1} é estritamente decrescente e limitada inferiormente por 00: ela converge para algum [0,1)\ell \in \intco{0}{1} (Teorema 11.9). A fórmula de transformação de produto em soma e (G2) dão sinasinb=2cosa+b2sinab2ab\abs{\sin a - \sin b} = 2\abs{\cos \frac{a+b}{2}}\,\abs{\sin\frac{a-b}{2}} \leq \abs{a - b}, de modo que un+1=sinunsinu_{n+1} = \sin u_n \to \sin \ell: =sin\ell = \sin\ell. Se >0\ell > 0, então sin<\sin\ell < \ell: impossível. Logo, un0u_n \to 0.

13. Dividindo (G2) por un>0u_n > 0:

1un26sinunun1un26+un41201,1 - \frac{u_n^2}{6} \leq \frac{\sin u_n}{u_n} \leq 1 - \frac{u_n^2}{6} + \frac{u_n^4}{120} \leq 1 ,

e un0u_n \to 0 comprime sinunun1\frac{\sin u_n}{u_n} \to 1. Dividindo xsinxx - \sin x por x3x^3:

16un2120unsinunun31616.\frac16 - \frac{u_n^2}{120} \leq \frac{u_n - \sin u_n}{u_n^3} \leq \frac16 \longrightarrow \frac16 .

14. Como un+1=sinunu_{n+1} = \sin u_n:

wn=un2sin2unun2sin2un=(unsinun)(un+sinun)un2sin2un=unsinunun3un+sinunun(unsinun)2w_n = \frac{u_n^2 - \sin^2 u_n}{u_n^2 \sin^2 u_n} = \frac{(u_n - \sin u_n)(u_n + \sin u_n)}{u_n^2 \sin^2 u_n} = \frac{u_n - \sin u_n}{u_n^3}\cdot \frac{u_n + \sin u_n}{u_n}\cdot \Bigl(\frac{u_n}{\sin u_n}\Bigr)^{2}

(confira as potências de unu_n: 3+1+(4)3 + 1 + (-4) contra o un2u_n^2 embaixo e o un4u_n^4 em cima). Pela questão 13, os três fatores tendem a 16\frac16, 22 e 11: wn13w_n \to \frac13.

15. vn=1un2v_n = \frac{1}{u_n^2} tem incrementos vn+1vn=wn13v_{n+1} - v_n = w_n \to \frac13, de modo que vnn13\frac{v_n}{n} \to \frac13, pelo Exercício 11.10 (3): nun23n u_n^2 \to 3. Então

nun3=nun23nun+3nun2330:\abs{\sqrt n\,u_n - \sqrt 3} = \frac{\abs{n u_n^2 - 3}}{\sqrt n\,u_n + \sqrt 3} \leq \frac{\abs{n u_n^2 - 3}}{\sqrt 3} \longrightarrow 0 :

nun3\sqrt n\,u_n \to \sqrt 3, i.e. un3/nu_n \sim \sqrt{3/n}.

16. Como nun23n u_n^2 \to 3, a partir de certo ponto 2nun242 \leq n u_n^2 \leq 4, isto é, 2/nun2/n\sqrt{2/n} \leq u_n \leq 2/\sqrt n. Se un102u_n \leq 10^{-2} com nn nessa faixa, então 2/n1042/n \leq 10^{-4}: n20000n \geq 20\,000; e 3/n=102\sqrt{3/n} = 10^{-2} em n=30000n = 30\,000. O método de Heron eleva o erro ao quadrado a cada passo — a contagem de algarismos dobra — porque, no seu ponto fixo, a inclinação relevante tem módulo <1< 1 (com efeito, a iteração é contrativa). Aqui, sin0=cos0=1\sin' 0 = \cos 0 = 1: o ponto fixo é neutro, não existe contração geométrica alguma, e o decaimento é governado pelo primeiro termo não linear x36-\frac{x^3}{6}, sendo portanto polinomial. Um passo de Heron ganha mais precisão que dez mil passos do seno.

17. Para u0u_0 arbitrário: u1=sinu0[1,1]u_1 = \sin u_0 \in \intcc{-1}{1}. Se u1=0u_1 = 0, a sequência se anula a partir do posto 11. Se u1>0u_1 > 0, a Parte IV se aplica literalmente. Se u1<0u_1 < 0, ponha vn=unv_n = -u_n: a imparidade de sin\sinvn+1=sinun=sin(un)=sinvnv_{n+1} = -\sin u_n = \sin(-u_n) = \sin v_n com v1(0,1]v_1 \in \intoc{0}{1}, de modo que vn3/nv_n \sim \sqrt{3/n}, isto é, un3/nu_n \sim -\sqrt{3/n}. Em todos os casos, un3/n\abs{u_n} \sim \sqrt{3/n} (ou a sequência é nula a partir de certo ponto): a queda é universal, e só o sinal se lembra do início.

18. Primeiro, un+1un=1unun+1un2un1a0=1\frac{u_{n+1}}{u_n} = 1 - \frac{u_n - u_{n+1}}{u_n^2}\,u_n \to 1 - a \cdot 0 = 1. Então

1un+11un=unun+1unun+1=unun+1un2unun+1a1=a,\frac{1}{u_{n+1}} - \frac{1}{u_n} = \frac{u_n - u_{n+1}}{u_n u_{n+1}} = \frac{u_n - u_{n+1}}{u_n^2}\cdot\frac{u_n}{u_{n+1}} \longrightarrow a \cdot 1 = a ,

e o Exercício 11.10 (3) dá 1nuna\frac{1}{n u_n} \to a, isto é, nun1an u_n \to \frac1a.

19. vn=1unv_n = \frac{1}{u_n}: vn+1=1+unun=vn+1v_{n+1} = \frac{1 + u_n}{u_n} = v_n + 1, de modo que vn=v0+nv_n = v_0 + n e

un=u01+nu0,nun=nu01+nu01.u_n = \frac{u_0}{1 + n u_0} , \qquad n u_n = \frac{n u_0}{1 + n u_0} \longrightarrow 1 .

Verificação do lema: unun+1=un21+unu_n - u_{n+1} = \frac{u_n^2}{1 + u_n}, de sorte que unun+1un2=11+un1=a\frac{u_n - u_{n+1}}{u_n^2} = \frac{1}{1 + u_n} \to 1 = a, e a questão 18 prevê nun1n u_n \to 1: concordância exata.

20. Positividade por indução (eu>0\eu^{-u} > 0); decrescente, pois eun<1\eu^{-u_n} < 1 para un>0u_n > 0; logo, un0u_n \to \ell \geq 0 (Teorema 11.9). Ponte de continuidade: com hn=un0h_n = \ell - u_n \to 0, eun=eehne\eu^{-u_n} = \eu^{-\ell} \eu^{h_n} \to \eu^{-\ell}, pelo confronto (G1) 1+hnehn11hn1 + h_n \leq \eu^{h_n} \leq \frac{1}{1 - h_n}; de modo que =e\ell = \ell\, \eu^{-\ell}, e >0\ell > 0 forçaria e=1\eu^{-\ell} = 1, falso: =0\ell = 0. Para t>0t > 0, (G1) dá et1t\eu^{-t} \geq 1 - t e et11+t\eu^{-t} \leq \frac{1}{1 + t}, de sorte que

11+t1ett1.\frac{1}{1 + t} \leq \frac{1 - \eu^{-t}}{t} \leq 1 .

Com t=unt = u_n: unun+1un2=1eunun1\frac{u_n - u_{n+1}}{u_n^2} = \frac{1 - \eu^{-u_n}}{u_n} \to 1. A questão 18 com a=1a = 1: nun1n u_n \to 1, de modo que un1nu_n \sim \frac1n.

21. Como na questão 18, un+1un=1unun+1un3un21\frac{u_{n+1}}{u_n} = 1 - \frac{u_n - u_{n+1}}{u_n^3}\,u_n^2 \to 1. Então

1un+121un2=(unun+1)(un+un+1)un2un+12=unun+1un3un+un+1un(unun+1)2a21=2a,\frac{1}{u_{n+1}^2} - \frac{1}{u_n^2} = \frac{(u_n - u_{n+1})(u_n + u_{n+1})}{u_n^2 u_{n+1}^2} = \frac{u_n - u_{n+1}}{u_n^3}\cdot \frac{u_n + u_{n+1}}{u_n}\cdot \Bigl(\frac{u_n}{u_{n+1}}\Bigr)^2 \longrightarrow a \cdot 2 \cdot 1 = 2a ,

e o Exercício 11.10 (3) dá 1nun22a\frac{1}{n u_n^2} \to 2a: nun212an u_n^2 \to \frac{1}{2a}. Para o seno, a=16a = \frac16 (questão 13): nun23n u_n^2 \to 3, exatamente a Parte IV.

22. Incrementos: an+1an=2n2n1=2n1=bn+1bna_{n+1} - a_n = 2^{-n} - 2^{-n-1} = 2^{-n-1} = b_{n+1} - b_n, de modo que o quociente dos incrementos é constantemente 11. E, no entanto, anbn=22n12n21\frac{a_n}{b_n} = \frac{2 - 2^{-n}}{1 - 2^{-n}} \to 2 \neq 1. A demonstração da questão 5 se quebra no termo de fronteira: aNbNbn0\frac{a_N - \ell b_N}{b_n} \to 0 precisava de bn+b_n \to +\infty; aqui (com =1\ell = 1), aNbN=1a_N - b_N = 1 e bn1b_n \to 1, de sorte que o termo tende a 11 — precisamente o vão residual 212 - 1.

23. Stolz com An=k=1nHkA_n = \sum_{k=1}^n H_k e Bn=nlnnB_n = n\ln n: Bn+1Bn=ln(n+1)+nln(1+1n)>0B_{n+1} - B_n = \ln(n+1) + n\ln(1 + \frac1n) > 0 e Bn+B_n \to +\infty. Pela questão 9, nn+1nln(1+1n)1\frac{n}{n+1} \leq n\ln(1 + \frac1n) \leq 1, de modo que Bn+1Bn=ln(n+1)+θnB_{n+1} - B_n = \ln(n+1) + \theta_n com 12θn1\frac12 \leq \theta_n \leq 1. Portanto,

An+1AnBn+1Bn=Hn+1ln(n+1)11+θn/ln(n+1)11=1\frac{A_{n+1} - A_n}{B_{n+1} - B_n} = \frac{H_{n+1}}{\ln(n+1)}\cdot \frac{1}{1 + \theta_n/\ln(n+1)} \longrightarrow 1 \cdot 1 = 1

(questão 10 para o primeiro fator; θn\theta_n limitado e ln(n+1)\ln(n+1) \to \infty para o segundo). Stolz conclui: k=1nHknlnn\sum_{k=1}^n H_k \sim n\ln n.

24. Se un>0u_n \to \ell > 0: como na questão 11, lnunln\ln u_n \to \ln\ell (confronto da questão 9 sobre lnun\ln\frac{u_n}{\ell}), de modo que as médias de Cesàro 1nk=1nlnukln\frac1n\sum_{k=1}^n \ln u_k \to \ln\ell, e a ponte exponencial da questão 11 dá (u1un)1/n=exp(1nlnuk)(u_1\cdots u_n)^{1/n} = \exp\bigl(\frac1n\sum\ln u_k\bigr) \to \ell. Se un+u_n \to +\infty: para todo MM, a partir de certo ponto uneMu_n \geq \eu^M, de sorte que lnunM\ln u_n \geq M: lnun+\ln u_n \to +\infty; o Cesàro para ++\infty (questão 6, bn=nb_n = n) dá 1nlnuk+\frac1n\sum \ln u_k \to +\infty, e (G1) (es1+s\eu^s \geq 1 + s) manda a média geométrica a ++\infty. Com un=nu_n = n: (n!)1/n+(n!)^{1/n} \to +\infty.

25. (i) A completude entrou apenas pelo teorema do limite monótono, para produzir os limites das questões 12 e 20; o teorema de Cesàro–Stolz em si é pura administração de ε\varepsilon, válida sobre Q\Q. (ii) Stolz substitui limanbn\lim \frac{a_n}{b_n} pelo limite do quociente dos incrementos, exatamente como l’Hôpital substitui limfg\lim\frac fg por limfg\lim\frac{f'}{g'} — a gêmea diferencial repousa no teorema do valor médio do Capítulo 14. (iii) Heurística: se f(x)=xaxp+1+o(xp+1)f(x) = x - a\,x^{p+1} + o(x^{p+1}) no ponto fixo neutro 00, então 1un+1p1unppa\frac{1}{u_{n+1}^p} - \frac{1}{u_n^p} \to pa e un(pan)1/pu_n \sim (pan)^{-1/p}: contato de ordem p+1p + 1 produz decaimento n1/pn^{-1/p} — quanto mais achatado o gráfico contra a diagonal, mais lenta a queda. (iv) A constante: (G2) fornece o coeficiente cúbico 16\frac16; a fatoração da questão 14 o duplica no incremento do telescópio 13\frac13; Cesàro converte 1un2\frac{1}{u_n^2} em n3\frac n3; inverter e tomar raízes entrega 3/n\sqrt{3/n}.