Matemática universitária — Graduação 1 · Bachelor Year 1
1Lógica, Conjuntos e Aplicações
Até aqui, as demonstrações foram conduzidas com uma ideia informal, ainda que honesta, do que significa “demonstrar”. Este primeiro capítulo da matemática de graduação torna explícitas as regras do jogo: o que é uma proposição matemática, como os conectivos e os quantificadores combinam proposições, que movimentos são legítimos numa demonstração — e constrói, sobre essa base, as duas linguagens universais da matemática: os conjuntos e as aplicações.
1.1 Proposições e conectivos
Definição 1.1 (Proposição, conectivos)
Uma proposição (ou sentença) é uma frase que é verdadeira (V) ou falsa (F) — exatamente uma das duas. A partir de proposições e formam-se:
- a negação (“não ”), verdadeira exatamente quando é falsa;
- a conjunção (“ e ”), verdadeira exatamente quando ambas são verdadeiras;
- a disjunção (“ ou ”), verdadeira exatamente quando ao menos uma é verdadeira (este “ou” é inclusivo);
- a implicação , falsa exatamente quando é verdadeira e é falsa;
- a equivalência , verdadeira exatamente quando e têm o mesmo valor de verdade.
Observação 1.2
A tabela-verdade de merece uma pausa: quando é falsa, é verdadeira, seja qual for . “Se então ” é uma implicação verdadeira. Uma implicação nada afirma sobre o que acontece quando sua hipótese falha.
Proposição 1.3 (Regras de cálculo com proposições)
Para todas as proposições , , :
- ;
- leis de De Morgan: e ;
- , logo ;
- contraposição: ;
- ;
- distributividade: e .
Demonstração. Cada equivalência se verifica comparando tabelas-verdade: duas proposições compostas construídas a partir de , , são equivalentes exatamente quando assumem o mesmo valor de verdade em cada um dos (quatro ou oito) casos. Exibamos uma tabela por extenso, para a primeira lei de De Morgan:
| V | V | V | F | F | F | F |
| V | F | F | V | F | V | V |
| F | V | F | V | V | F | V |
| F | F | F | V | V | V | V |
As colunas e coincidem, o que demonstra a lei. Para a contraposição um atalho verbal é mais rápido: é falsa exatamente no caso ( verdadeira, falsa), e é falsa exatamente no caso ( verdadeira, falsa), isto é, ( falsa, verdadeira) — o mesmo caso único, de modo que as duas implicações têm tabelas idênticas. As demais regras se verificam do mesmo modo; note que (3) reduz toda implicação a uma disjunção, de sorte que (2) produz mecanicamente a regra de negação : para contradizer uma implicação é preciso exibir um caso em que a hipótese vale e a conclusão falha. ∎
1.2 Quantificadores
Definição 1.4 (Quantificadores)
Seja uma propriedade de um elemento de um conjunto .
- (“para todo em , ”) é verdadeira quando todo elemento de satisfaz ;
- (“existe em tal que ”) é verdadeira quando ao menos um elemento de satisfaz .
Escreve-se para “existe um único”.
Proposição 1.5 (Negação dos quantificadores)
Demonstração. Argumentemos a primeira equivalência nos dois sentidos; a segunda é simétrica. Se é falsa, então nem todo elemento satisfaz : o conjunto não pode ser vazio, e qualquer de seus elementos testemunha . Reciprocamente, se algum satisfaz , então é um contraexemplo e a proposição universal falha. Para a segunda regra: “nenhum satisfaz ” significa que o conjunto é vazio, isto é, todo está em seu complementar . Aplicadas em cascata a um prefixo encaixado de quantificadores, as duas regras fornecem o procedimento mecânico do Exemplo 1.8: a negação percorre a frase da esquerda para a direita, trocando cada por e cada por , e por fim nega o predicado mais interno. ∎
Exemplo 1.6 (Negando frases matemáticas do dia a dia)
Seja . A frase “ é crescente” se escreve
e sua negação, pela Proposição 1.5 junto com a regra :
basta um único par que a testemunhe. Do mesmo modo, “ é limitada” é , com negação
qualquer que seja a cota proposta, algum ponto a supera. A ideia: uma negação correta nunca contém “não” aplicado a um bloco quantificado — ela é uma nova proposição afirmativa, na qual os papéis se invertem: agora produzimos as testemunhas que antes recebíamos.
Exemplo 1.7 (Ordem dos quantificadores)
A ordem de quantificadores distintos importa:
Na primeira proposição pode depender de ; na segunda, um único deve servir para todo . Já dois quantificadores iguais, esses sempre comutam.
Exemplo 1.8 (Lendo uma definição com três quantificadores)
A frase “a sequência converge para ” será escrita no Capítulo 11 como
Sua negação, pela Proposição 1.5 aplicada três vezes, é
Saber negar tais frases mecanicamente, sem pensar no que elas significam, é uma habilidade genuína: ela separa o trabalho lógico do trabalho matemático.
1.3 Técnicas de demonstração
Método 1.9 (Os padrões usuais de demonstração)
Para demonstrar…
- uma implicação diretamente: suponha , deduza ;
- por contraposição: suponha , deduza — legítimo pela Proposição 1.3 (4);
- por absurdo: suponha que a proposição é falsa e derive uma contradição;
- uma equivalência: demonstre as duas implicações separadamente (ou encadeie equivalências já conhecidas);
- uma proposição do tipo “para todo”: tome um arbitrário em (“seja ”) e demonstre ;
- uma proposição do tipo “existe”: exiba uma testemunha, ou demonstre a existência de modo indireto;
- por indução: veja o Teorema 1.12.
Ao demonstrar uma proposição sobre um elemento bem escolhido, porém arbitrário, nunca lhe atribua propriedades extras: “seja ” seguido de “como …” nada demonstra sobre os negativos.
Observação 1.10 (Armadilhas frequentes nas demonstrações)
Quatro ciladas clássicas, todas dignas de serem nomeadas ao menos uma vez.
- Recíproca no lugar da contrapositiva. não é equivalente a ; só o é. “Se chove, a rua fica molhada” não autoriza a concluir que choveu ao ver a rua molhada.
- Demonstrar uma equivalência por uma só implicação. Um enunciado com “se, e somente se” são dois teoremas; anuncie qual sentido está sendo demonstrado e demonstre os dois. Cadeias de só são legítimas se cada elo for genuinamente reversível — elevar uma equação ao quadrado, por exemplo, não é.
- Demonstrações de trás para diante. Partir da conclusão desejada e deduzir uma proposição verdadeira nada demonstra (de deduz-se, elevando ao quadrado, a verdade ). Um cálculo pode ser descoberto de trás para diante, mas deve ser escrito de frente para trás, ou com equivalências explícitas.
- Testemunha fixa versus elemento arbitrário. Para demonstrar , pode-se exibir um único habilmente escolhido; para demonstrar , o escolhido deve permanecer arbitrário. Misturar as duas coisas — verificar uma afirmação universal num exemplo — é o erro mais comum nas provas dos iniciantes.
Exemplo 1.11 (Contraposição e absurdo em ação)
Para : se é par, então é par. Por contraposição: se é ímpar, , e então é ímpar.
é irracional. Por absurdo: suponha com e a fração irredutível. Então é par, logo é par (ponto anterior), ; então é par, logo é par — contradizendo a irredutibilidade.
Teorema 1.12 (Indução)
Seja uma propriedade do inteiro . Se
- é verdadeira e
- para todo , ,
então é verdadeira para todo .
Indução forte: a conclusão não muda se (2) for substituído por: para todo , .
Demonstração. Esta é uma propriedade do próprio , equivalente a: todo subconjunto não vazio de possui um menor elemento (que tomamos como conhecida). De fato, suponha (1) e (2) e seja . Se , ele tem um menor elemento ; por (1); então , logo vale, e (2) fornece — contradição. Portanto . Para a indução forte, aplique o mesmo argumento: valem todos, pois é o menor elemento de . ∎
Exemplo 1.13 (Demonstrando existência e unicidade)
Uma proposição são duas proposições, demonstradas separadamente: a existência (exibir ou construir algum com ) e a unicidade (supor e , deduzir ). Exemplo: existe um único real com . Existência: serve, pois . Unicidade: se , então
e o segundo fator é positivo (vale ), logo . Note a divisão de trabalho: a existência apoiou-se num palpite feliz, a unicidade em álgebra válida para soluções arbitrárias — nenhum dos dois argumentos faz o trabalho do outro, e esquecer a segunda metade é uma tentação permanente depois que uma solução foi encontrada.
Exemplo 1.14
Para todo : . Caso base : os dois lados valem . Passo: supondo a fórmula para ,
Exemplo 1.15 (Indução forte em ação)
Todo inteiro é um produto de números primos (um primo sendo um inteiro cujos únicos divisores são e ele próprio; os primos são estudados por si mesmos no Capítulo 6). A indução ordinária é impotente aqui: saber que se fatora nada diz sobre . A indução forte se ajusta exatamente. Caso base: é primo, portanto um produto (de um só fator) de primos. Passo: seja e suponha que todo inteiro com seja um produto de primos. Se é primo, nada há a fazer. Caso contrário com ; pela hipótese forte, tanto quanto são produtos de primos, e portanto também é. A ideia: a indução forte é a ferramenta certa sempre que a “razão” de estiver num índice anterior imprevisível, e não no índice .
1.4 Conjuntos
Definição 1.16 (Operações com conjuntos)
Tomamos como primitivas a noção de conjunto e a relação de pertinência . Para conjuntos dentro de um conjunto ambiente :
- inclusão: quando ; igualdade quando e ;
- união , interseção , diferença , complementar ;
- o conjunto vazio , contido em todo conjunto;
- o conjunto das partes : o conjunto de todos os subconjuntos de ;
- o produto : o conjunto dos pares ordenados com , .
Exemplo 1.17 (Familiarizando-se com o conjunto das partes)
Para :
quatro elementos — e note a disciplina de níveis: , mas ; as proposições e são ambas falsas tal como escritas (a segunda exigiria que fosse um subconjunto de ). Iterando a partir do nada: tem um elemento, tem dois, o seguinte tem quatro — conjuntos de conjuntos são conjuntos como quaisquer outros, e o Capítulo 2 confirmará o padrão de duplicação: . Manter os níveis (, , ) bem separados é metade da batalha em exercícios como o Exercícios 1.11 e 1.12.
Proposição 1.18 (Álgebra dos conjuntos)
Para subconjuntos de :
- e ;
- De Morgan: e ;
- .
Demonstração. Cada identidade traduz uma regra da Proposição 1.3 por meio do dicionário ( ou não) (proposição verdadeira ou falsa): por exemplo, . O ponto (3) é a contraposição. Como segunda amostra, a primeira lei distributiva por extenso:
pela distributividade da Proposição 1.3 (6), e a última proposição se lê . Toda identidade conjuntista desse tipo é demonstrável por essa única tradução mecânica — razão pela qual nenhuma delas precisa ser decorada. ∎
Método 1.19 (Demonstrando igualdades de conjuntos)
Para demonstrar , demonstre as duas inclusões: seja , mostre que ; em seguida seja , mostre que . Alternativamente, encadeie equivalências quando cada passo for de fato uma equivalência.
1.5 Aplicações
Definição 1.20 (Aplicação, imagem, pré-imagem)
Uma aplicação (ou função) associa a cada elemento do conjunto (o domínio) exatamente um elemento do conjunto (o contradomínio). Para e :
são a imagem direta de e a pré-imagem de . A composta de com é , .
Observação 1.21
A notação não pressupõe uma aplicação inversa: está definida para toda . As pré-imagens se comportam melhor que as imagens diretas: preserva uniões, interseções e complementares, ao passo que pode ser estrita (Exercício 1.8).
Exemplo 1.22 (Calculando imagens e pré-imagens)
Seja , . Então:
Para a primeira: todo tem , e todo é atingido como com — note que a imagem não é : imagens de intervalos não se calculam apenas a partir dos extremos. Para a segunda: , o que se desdobra em duas peças. A terceira ilustra que uma pré-imagem pode ser vazia — sempre faz sentido, por menor que seja a interseção de com a imagem. Por fim, observe neste exemplo o fenômeno de estrita inclusão da observação acima: com e , tem-se , ao passo que .
Definição 1.23 (Injetiva, sobrejetiva, bijetiva)
Uma aplicação é:
- injetiva quando elementos distintos têm imagens distintas: ;
- sobrejetiva quando todo elemento de é atingido: ;
- bijetiva quando é as duas coisas, isto é, todo tem exatamente uma pré-imagem.
Teorema 1.24 (Aplicação inversa)
Uma aplicação é bijetiva se, e somente se, existe uma aplicação com e . Nesse caso é única; escreve-se e chama-se a inversa de , e é ela própria bijetiva, com .
Demonstração. () Se é bijetiva, todo tem uma única pré-imagem; defina como sendo essa pré-imagem. Então por construção, e , pois é a pré-imagem de .
() Suponha que exista tal . Se , aplicando obtém-se : é injetiva. Para , satisfaz : é sobrejetiva.
Unicidade: se e servem ambas, então . Por fim, o par de identidades é simétrico em e , de modo que é bijetiva, com inversa . ∎
Exemplo 1.25 (Calculando uma inversa na prática)
Seja , . Para inverter, resolva em , para um dado :
sendo cada passo reversível nos domínios anunciados. O cálculo entrega tudo de uma vez: para cada do contradomínio existe exatamente uma solução , logo é bijetiva, e
Uma verificação rápida das duas compostas ( e ) confirma o critério do Teorema 1.24. A ideia: “resolver em vigiando as equivalências” é simultaneamente a demonstração da existência, a demonstração da unicidade e a fórmula — mas só funciona se o contradomínio tiver sido anunciado corretamente ( não é sobrejetiva sobre ).
Proposição 1.26 (Composição e as três propriedades)
Sejam e .
- Se e são injetivas (resp. sobrejetivas, bijetivas), então também é; e, no caso bijetivo, .
- Se é injetiva, então é injetiva. Se é sobrejetiva, então é sobrejetiva.
Demonstração. (1) Se , a injetividade de dá , e então a injetividade de dá . Se , a sobrejetividade de fornece com , e a sobrejetividade de fornece com , de modo que . No caso bijetivo, verifica-se diretamente que é uma inversa bilateral de , e a unicidade no Teorema 1.24 conclui.
(2) Se , então , e a injetividade de dá . Se , a sobrejetividade de fornece com : então satisfaz . ∎
Exemplo 1.27 (O ponto (2) não pode ser reforçado)
Na Proposição 1.26 (2), não se pode reforçar as conclusões: bijetiva não obriga a ser sobrejetiva nem a ser injetiva. Tome , , com e : então é bijetiva e, no entanto, não atinge o elemento e colapsa os dois elementos. A moral é uma regra precisa de escrituração: a informação da composta flui para a aplicação interna no caso da injetividade e para a aplicação externa no caso da sobrejetividade, nunca no sentido contrário. (O Exercício 1.9 constrói o mesmo fenômeno com conjuntos infinitos, onde ele é o motor por trás das inversas unilaterais.)
Exemplo 1.28
, não é injetiva () nem sobrejetiva ( não tem pré-imagem). Restringindo o domínio e o contradomínio, , é bijetiva, com inversa . A injetividade ou a sobrejetividade de uma aplicação dependem do domínio e do contradomínio anunciados, e não apenas da fórmula.
1.6 Relações
Definição 1.29 (Relação de equivalência)
Uma relação binária sobre um conjunto é uma relação de equivalência quando é: reflexiva ( para todo ), simétrica () e transitiva ( e implicam ). A classe de equivalência de é .
Exemplo 1.30 (Verificando os três axiomas)
Em , declare quando . Reflexiva: . Simétrica: se então . Transitiva: se e , então (uma soma de inteiros). Logo é uma relação de equivalência, e : cada classe contém exatamente um representante em , a sua parte fracionária. Em contrapartida, a relação “” em é reflexiva e simétrica, mas não transitiva ( e , e no entanto ): a proximidade não se propaga, e não existe partição em classes — um contraexemplo útil de se ter em mente quando verificar os axiomas começa a parecer rotina.
Teorema 1.31 (As classes formam uma partição)
Seja uma relação de equivalência sobre . Então as classes de equivalência são não vazias, duas a duas disjuntas ou iguais, e sua união é : elas formam uma partição de . Reciprocamente, toda partição de provém desse modo de exatamente uma relação de equivalência (“estar na mesma peça”).
Demonstração. por reflexividade, de modo que as classes são não vazias e sua união é . Suponha , digamos que esteja em ambas. Então e , logo, por simetria e transitividade, . Agora, para qualquer , a transitividade dá , e simetricamente: as duas classes são iguais. Para a recíproca, seja uma partição de e defina como significando “alguma peça contém e ”. Reflexiva: está em alguma peça, que então o contém duas vezes. Simétrica: a condição definidora é simétrica em e . Transitiva: se e , então , logo (peças distintas são disjuntas) e partilham uma peça. A -classe de é exatamente a peça que contém , de modo que as classes são as peças dadas. Por fim, a relação fica determinada por suas classes: duas relações de equivalência com as mesmas classes relacionam os mesmos pares, pois cada uma relaciona e exatamente quando pertence à classe de — donde a unicidade afirmada. ∎
Exemplo 1.32
Em , a congruência módulo ( quando divide ) é uma relação de equivalência; suas classes são os conjuntos de inteiros com um dado resto na divisão por . Este exemplo torna-se o anel no Capítulo 7.
Definição 1.33 (Relação de ordem)
Uma relação sobre é uma ordem quando é reflexiva, antissimétrica ( e implicam ) e transitiva. A ordem é total quando quaisquer dois elementos são comparáveis, e parcial caso contrário. Um elemento é um maior elemento de quando para todo ; o maior (e o menor) elemento são únicos quando existem.
Exemplo 1.34
é totalmente ordenado. é parcialmente ordenado assim que tem dois elementos: e não são comparáveis. O subconjunto de não tem maior elemento, mas tem uma cota superior : a distinção entre maior elemento e cota superior reaparece, para , no Capítulo 10.
Exemplo 1.35 (Duas ordens na grade )
Sobre pares de naturais, compare coordenada a coordenada: quando e (a ordem produto). Isso é uma ordem — cada axioma é herdado coordenada a coordenada — mas parcial: e são incomparáveis. Agora compare como num dicionário: quando , ou e (a ordem lexicográfica). A transitividade exige uma verificação em dois casos, mas vale, e quaisquer dois pares são agora comparáveis: a ordem é total. As duas ordens hierarquizam o mesmo conjunto de modos diferentes — , ainda que a ordem produto nada diga — lembrete de que uma ordem é uma estrutura que se escolhe, e não uma propriedade do conjunto. A comparação lexicográfica é também o truque padrão para reduzir vários critérios de ordenação a um só.
Observação 1.36 (Interlúdio: tamanho como bijeção)
Um tema discreto deste capítulo merece destaque: as bijeções são a noção de “mesmo tamanho” do matemático. Para conjuntos finitos, isso se torna o cálculo de contagem do Capítulo 2, em que toda fórmula é secretamente uma bijeção; para conjuntos infinitos, torna-se o problema de fim de semana abaixo, em que , e acabam por ter tamanhos genuinamente diferentes. O mesmo dicionário reaparece mais duas vezes neste volume, em formas refinadas: as sequências (Capítulo 11) nada mais são do que aplicações , de modo que afirmações sobre sequências são afirmações sobre um conjunto de aplicações; e a álgebra linear medirá os espaços vetoriais não por bijeções, mas por bijeções lineares, cuja existência é governada por um único número, a dimensão (Capítulo 19). Sempre que surge uma nova “igualdade” — equipotência, isomorfismo de grupos (Capítulo 7), isomorfismo linear — o padrão do Teorema 1.24 se repete: ser o mesmo é estar ligado por uma aplicação invertível que respeita a estrutura.
Observação 1.37 (Onde este capítulo é usado)
Em toda parte — mas alguns lugares merecem ser assinalados. A ginástica de três quantificadores do Exemplo 1.8 é o pão de cada dia do Capítulos 11 e 13: toda demonstração de limite é um jogo disputado contra um arbitrário. As classes de equivalência reaparecem como as classes de congruência de no Capítulo 7, onde a partição do Teorema 1.31 adquire uma estrutura algébrica própria. As relações de ordem, as cotas superiores e os supremos tornam-se o coração axiomático de no Capítulo 10. Injeções, sobrejeções e bijeções voltam como as aplicações lineares do Capítulo 20, onde a injetividade pode ser testada num único vetor (o núcleo); e o problema de fim de semana abaixo transforma a mera noção de bijeção numa teoria dos tamanhos dos conjuntos infinitos, cujas conclusões (enumerabilidade de , não enumerabilidade de ) ressurgem no Capítulos 10 e 12.
1.7 Exercícios
Exercício 1.1 ★
Escreva a negação de cada proposição, sem usar a palavra “não”:
- ;
- ;
- (para uma aplicação fixada ).
Em seguida, decida se as proposições (1) e (2) são verdadeiras.
Solução
Solução de Exercício 1.1.
Negações, empurrando através de cada quantificador (Proposição 1.5) e usando :
- ;
- ;
- .
A proposição (1) é verdadeira: dado , tome ; então . A proposição (2) é verdadeira: satisfaz para todo .
Exercício 1.2 ★
Sejam proposições. Usando tabelas-verdade, demonstre que e deduza a negação de: “se uma função é derivável, então ela é contínua”.
Solução
Solução de Exercício 1.2.
Tabela-verdade, escrevendo V/F para os quatro casos :
| V | V | V | F | F | F |
| V | F | F | V | V | V |
| F | V | V | F | F | F |
| F | F | V | F | V | F |
As colunas e coincidem, o que demonstra a equivalência. A negação de “se uma função é derivável, então ela é contínua” é, portanto: “existe uma função que é derivável e não é contínua” (proposição falsa, aliás: a implicação original é verdadeira, veja o Capítulo 14).
Exercício 1.3 ★
Demonstre por contraposição: para , se então . Em seguida, demonstre por absurdo que não existe o menor número real estritamente positivo.
Solução
Solução de Exercício 1.3.
Contraposição. Suponha . Então (a função cubo é crescente) e , logo . Isso demonstra a contrapositiva e, portanto, o enunciado.
Absurdo. Suponha que seja o menor real estritamente positivo. Então é estritamente positivo e (pois ), o que contradiz a minimalidade. Logo, tal não existe.
Exercício 1.4 ★
Demonstre por indução que, para todo :
- ;
- é divisível por .
Solução
Solução de Exercício 1.4.
Caso base : . Passo: supondo a identidade para ,
Caso base : . Passo: se , então
divisível por .
Exercício 1.5 ★
Encontre a falha na seguinte “demonstração” de que todos os lápis têm a mesma cor. Seja : “em todo conjunto de lápis, todos os lápis têm a mesma cor”. é claro. Suponha e tome lápis; retirando o último, os primeiros partilham a cor; retirando o primeiro, os últimos partilham a cor; logo todos os partilham a cor.
Solução
Solução de Exercício 1.5.
O passo de indução supõe silenciosamente que os dois grupos (“os primeiros” e “os últimos”) se sobrepõem, de modo que os lápis comuns transportem a cor de um grupo ao outro. Para os dois grupos são primeiro lápis e segundo lápis: são disjuntos, e o argumento se rompe. Assim, nunca foi demonstrada, e a indução desmorona — ainda que seja válida para todo .
Exercício 1.6 ★
Sejam subconjuntos de . Demonstre:
- ;
- ;
- .
Solução
Solução de Exercício 1.6.
- .
- Usando (1) e a distributividade (Proposição 1.18): .
- Suponha . Então (as duas peças estão em ) e sempre, logo . Suponha : então sempre, e dá , logo . Suponha : então . As três condições são, portanto, equivalentes (demonstramos um ciclo de implicações).
Exercício 1.7 ★★
Para cada aplicação, decida (com demonstração) se ela é injetiva, sobrejetiva ou bijetiva:
- , ;
- , ;
- , .
Para , ajuste o contradomínio de modo a torná-la bijetiva e calcule a inversa.
Solução
Solução de Exercício 1.7.
- é injetiva (), mas não é sobrejetiva: não tem pré-imagem em .
- é bijetiva: é uma inversa bilateral em .
- é injetiva: dá , isto é, , logo . Ela não é sobrejetiva sobre : resolver dá , que não tem solução quando (a equação fica ). Com contradomínio , o mesmo cálculo dá a única pré-imagem , de modo que é bijetiva e : é a sua própria inversa.
Exercício 1.8 ★★
Sejam , e .
- Demonstre que e .
- Demonstre que e dê um exemplo em que a inclusão é estrita.
- Demonstre: é injetiva se, e somente se, para todos .
Solução
Solução de Exercício 1.8.
- . Para as imagens: se, e somente se, para algum em ou em , ou seja, ou .
- Se , então com e , logo e . Estrita inclusão: tome , , , : então , mas .
- () Com , para : se , então , ao passo que , o que contradiz a igualdade suposta; logo é injetiva. () Seja injetiva e : com , ; a injetividade dá , logo . Junto com (2), vale a igualdade.
Exercício 1.9 ★★
Sejam e tais que . Demonstre que é injetiva e é sobrejetiva. Dê um exemplo em que nem nem é bijetiva.
Solução
Solução de Exercício 1.9.
é injetiva e sobrejetiva, logo, pela Proposição 1.26 (2), é injetiva e é sobrejetiva. Exemplo: , , a inclusão , e , para e para . Então para todo , mas não é sobrejetiva e não é injetiva.
Exercício 1.10 ★★
Em , defina . Demonstre que é uma relação de equivalência e descreva a classe de equivalência de cada real . Que classes têm exatamente um elemento?
Solução
Solução de Exercício 1.10.
ou . Reflexiva: serve. Simétrica: a condição “ ou ” é simétrica em e (se , então ). Transitiva: suponha e ; percorrendo os quatro casos, é igual a ou a em cada um deles (por exemplo, e dão ). Logo é uma relação de equivalência e . Essa classe tem um só elemento exatamente quando , isto é, para .
Exercício 1.11 ★★★
(Cantor) Seja um conjunto. Demonstre que não existe sobrejeção de sobre . Sugestão: dada , considere .
Solução
Solução de Exercício 1.11.
Seja uma aplicação qualquer e ponha . Suponha para algum . Se , então, por definição de , : contradição. Se , então , e por definição de , : contradição. Logo não está na imagem de , e não é sobrejetiva. (Em particular, nenhum conjunto está em bijeção com o seu conjunto das partes: há “mais” subconjuntos de do que inteiros.)
Exercício 1.12 ★★★
Seja uma aplicação. Defina por .
- Demonstre que é sobrejetiva se, e somente se, é injetiva.
- Demonstre que é injetiva se, e somente se, é sobrejetiva.
Solução
Solução de Exercício 1.12.
- () Seja sobrejetiva e . Para , escolha com ; então , logo . Portanto , e simetricamente : é injetiva. () Se não é sobrejetiva, escolha fora da imagem; então com , de modo que não é injetiva.
- () Seja injetiva e . Ponha ; então , e a injetividade dá , logo : é sobrejetiva. () Se não é injetiva, tome com . Toda pré-imagem contém se, e somente se, contém ; logo não é da forma , e não é sobrejetiva.
1.8 Problema: Comparando infinitos
Problema 1.1
Quando é que dois conjuntos têm “o mesmo número de elementos”? A resposta de Cantor — quando existe uma bijeção entre eles — revela-se utilizável mesmo para conjuntos infinitos, e cinde o infinito em tamanhos genuinamente diferentes. Este problema constrói toda a caixa de ferramentas a partir das definições nuas deste capítulo: o teorema de Cantor–Schröder–Bernstein (duas injeções fabricam uma bijeção), a enumerabilidade de , a não enumerabilidade de pelo argumento diagonal e a espantosa conclusão de Cantor, de 1874: existem números transcendentes, e em quantidade massiva, sem que se exiba um único deles. Ao longo do problema, para conjuntos e , escreva quando existe uma injeção de em , e (“ e são equipotentes”) quando existe uma bijeção de sobre .
Parte I — O vocabulário da comparação.
- Mostre que se comporta como uma relação de equivalência: ; se então ; se e então . (Cite precisamente o Teorema 1.24 e a Proposição 1.26.)
- Mostre que é transitiva e que uma injeção induz sempre .
- Seja . Mostre que se, e somente se, existe uma sobrejeção de sobre .
Verifique que é uma bijeção de sobre e que
é uma bijeção de sobre . Portanto, retirar um ponto, ou duplicar para os negativos, não muda o tamanho de .
Parte II — O teorema de Cantor–Schröder–Bernstein. Sejam e duas injeções. Defina
e seja a aplicação que envia em e no único com .
- Verifique que está bem definida: se então , e o elemento com é único.
- Mostre que . (As imagens diretas comutam com as uniões: Exercício 1.8.)
- Mostre que é injetiva. (Três casos; no caso misto , , mostre que forçaria .)
- Mostre que é sobrejetiva: dado , distinga os casos e para algum (por que é impossível?), e exiba uma pré-imagem de em cada caso.
- Conclua com o teorema de Cantor–Schröder–Bernstein: se e , então . Comente em uma frase o que torna esse enunciado não trivial.
- Duas consequências. (a) Mostre que . (b) Mostre que define uma bijeção de sobre — a injetividade por um argumento de paridade, a sobrejetividade por indução forte (Teorema 1.12). Portanto : o plano dos pontos inteiros não é maior do que a reta.
Parte III — Conjuntos enumeráveis. Diga que um conjunto é no máximo enumerável quando , e enumerável quando .
- Mostre que todo subconjunto infinito é enumerável. (Defina recursivamente como o menor elemento de ; mostre que é estritamente crescente, satisfaz e atinge todo elemento de .)
- Deduza que um conjunto é no máximo enumerável se, e somente se, é finito ou enumerável, e observe que a questão 9 fornece o atalho: se e , então é enumerável.
- Mostre que, se e são no máximo enumeráveis, então também é. Deduza que é enumerável.
- Mostre que é enumerável. (Injete em escrevendo cada racional na forma irredutível com denominador positivo — a unicidade dessa representação é demonstrada no Capítulo 6; depois aplique a questão 12.)
- Mostre que uma união enumerável de conjuntos no máximo enumeráveis é no máximo enumerável: se cada () é no máximo enumerável, então também é. (Envie ao par , em que é o menor índice com .)
- Mostre que o conjunto dos subconjuntos finitos de é enumerável. (Associe a um subconjunto finito o número ; demonstre a injetividade comparando o maior elemento em que dois conjuntos finitos diferem, usando do Exercício 1.4.)
Parte IV — Diagonalização. Seja o conjunto de todas as aplicações , isto é, o conjunto das sequências binárias.
- Construa uma bijeção entre e (funções indicadoras).
- (O argumento diagonal) Seja uma aplicação qualquer. Considere a sequência definida por . Mostre que não está na imagem de e conclua que não é no máximo enumerável. Explique em uma frase por que, através da questão 17, isso é exatamente o teorema de Cantor (Exercício 1.11) para .
- Admita — como é familiar desde a escola e estabelecido rigorosamente no Capítulo 10 — que todo tem uma única expansão decimal própria (uma que não termine numa cadeia infinita de s). Dada uma sequência qualquer de elementos de , construa com para todo : escolha o seu -ésimo dígito igual a se o -ésimo dígito de for diferente de , e igual a caso contrário. Justifique cuidadosamente que é próprio e evita todo , e conclua que não é no máximo enumerável.
- Deduza que é não enumerável e que o conjunto dos números irracionais também é não enumerável. Em que sentido preciso “quase todos” os números reais são irracionais?
Parte V — O teorema de Cantor de 1874: existem números transcendentes. Um número real é algébrico quando para algum polinômio não nulo com coeficientes inteiros, e transcendente caso contrário. Admita nesta parte — é demonstrado no Capítulo 8 — que um polinômio não nulo de grau tem no máximo raízes reais.
- Mostre que todo número racional é algébrico e encontre polinômios explícitos com coeficientes inteiros que anulem e .
- Para fixado, mostre que o conjunto dos polinômios de grau no máximo com coeficientes inteiros é enumerável. (Injete-o em e faça indução em com a questão 13.)
- Deduza que o conjunto de todos os polinômios com coeficientes inteiros é enumerável.
- Demonstre o teorema de Cantor sobre os números algébricos: o conjunto dos números reais algébricos é enumerável.
- Conclua: existem números reais transcendentes, e o conjunto dos números transcendentes é não enumerável. Depois faça o balanço de todo o problema em algumas frases: a cadeia , o salto estrito para (essencialmente) , onde cada ferramenta (Cantor–Schröder–Bernstein, uniões enumeráveis, o argumento diagonal) foi decisiva — e o alcance filosófico de demonstrar que os números transcendentes formam um conjunto não enumerável sem nomear um único deles. (Demonstrar que um número específico, como , é transcendente é bem mais difícil e está além deste volume.)
Solução
Solução de Problema 1.1.
1. Reflexiva: é uma bijeção de sobre si mesmo. Simétrica: se é bijetiva, o Teorema 1.24 fornece , ela própria bijetiva. Transitiva: se e são bijeções, a Proposição 1.26 (1) diz que é uma bijeção. (Isso é apenas “como” uma relação de equivalência: a coleção de todos os conjuntos não é ela própria um conjunto, pelos paradoxos que o Exercício 1.11 insinua; o que importa são as três propriedades.)
2. Se e são injetivas, é injetiva pela Proposição 1.26 (1): . Para o segundo ponto, correstrinja à sua imagem: a aplicação , , é sobrejetiva por construção de e injetiva porque o é, logo bijetiva: .
3. () Seja injetiva e fixe (). Defina por: é o único com quando (unicidade pela injetividade), e caso contrário. Para todo , , logo todo é atingido: é sobrejetiva. () Seja sobrejetiva. Para cada , escolha um com e ponha . Se , então : é injetiva.
4. leva em , é injetiva () e sobrejetiva (todo é com ). Quanto a : ele leva os números pares em e os ímpares em Injetividade: as entradas pares caem em () e as entradas ímpares caem nos inteiros estritamente negativos (), de modo que uma colisão teria de ocorrer dentro de uma mesma classe de paridade, onde é estritamente monótona ( ou força ). Sobrejetividade: é ; é com ímpar. Logo e .
5. , de modo que implica , isto é, : algum satisfaz . Se também , a injetividade de dá . Assim, a segunda cláusula da definição de seleciona um único elemento, bem definido, .
6. As imagens diretas comutam com as uniões (Exercício 1.8 (1), aplicado a e depois a ):
7. Sejam em . Se ambos estão em , então pela injetividade de . Se nenhum dos dois está em , então , logo . Se e (o caso misto, a menos de troca de nomes): suponha , isto é, . Aplicando : , e a questão 6 dá — contradição. Logo em todos os casos: é injetiva.
8. Seja . Caso 1: . Então : o elemento é uma pré-imagem. Caso 2: , digamos . Como , temos , logo e : existe com . A injetividade de dá , e , logo . Nos dois casos, é atingido: é sobrejetiva e, portanto, bijetiva.
9. Se e , escolha injeções e ; as questões 5–8 constroem uma bijeção , logo . O enunciado é não trivial porque as duas injeções dadas não guardam relação alguma — nenhuma delas precisa ser sobrejetiva, e nenhuma fórmula ingênua que misture e define uma aplicação: todo o conteúdo está na partição de na região (onde se copia ) e no seu complementar (onde se percorre ao contrário).
10. (a) A inclusão é injetiva; e leva injetivamente em (é afim com coeficiente angular não nulo). Pela questão 9, — uma bijeção bastante desagradável de escrever explicitamente. (b) Injetividade. Suponha com, digamos, . Dividindo por : . Se , o lado direito é par e o esquerdo é ímpar — impossível; logo , e então e . Sobrejetividade. Mostramos por indução forte que todo inteiro é da forma . Para : . Seja e suponha a afirmação para todos os inteiros de . Se é ímpar, com . Se é par, com ; por hipótese, , logo . Portanto atinge todo , e é uma bijeção .
11. Como é infinito, nunca é vazio, e a propriedade do menor elemento de (usada para demonstrar o Teorema 1.12) torna legítima a definição recursiva. Estritamente crescente: pertence a , cujo mínimo é ; logo , e a igualdade está excluída, donde . : por indução, , e . A injetividade decorre da monotonicidade estrita. Sobrejetividade sobre : suponha que algum nunca seja atingido. Como , o conjunto dos com é não vazio; seja o seu menor elemento. Para todo , , e portanto ( não é atingido). Então está em e , contradizendo a minimalidade que define . Logo é uma bijeção , e é enumerável.
12. Seja por meio de uma injeção ; então (questão 2). Se é finito, é finito; se é infinito, a questão 11 dá , logo por transitividade (questão 1). Reciprocamente, conjuntos finitos e conjuntos enumeráveis injetam-se obviamente em . O atalho: e dão diretamente por Cantor–Schröder–Bernstein — sem nenhum argumento de enumeração.
13. Sejam e injeções. Então é uma injeção : se as imagens coincidem, a injetividade de (questão 10) dá e , e então , . Quanto a : os dois fatores são enumeráveis (questão 4), logo ; ele é infinito (contém ) e, portanto, enumerável pela questão 12.
14. Todo racional tem uma única representação com , e a fração irredutível (a unicidade é demonstrada no Capítulo 6; para , tome ). A aplicação é então injetiva: o par determina . Portanto pela questão 13. Como dá , a questão 12 (ou diretamente Cantor–Schröder–Bernstein) mostra que : os racionais são enumeráveis.
15. Para cada , fixe uma injeção . Para , seja o menor com e ponha . Se , a injetividade de dá e , e então pela injetividade de . Assim, a união se injeta em : ela é no máximo enumerável.
16. Seja para finito (). Suponha e seja o maior elemento em que eles diferem, digamos (troque os nomes se necessário). Os elementos pertencem a ambos ou a nenhum, de modo que contribuem igualmente para as duas somas; comparando as contribuições dos elementos :
usando a soma geométrica do Exercício 1.4. Portanto : é injetiva e o conjunto dos subconjuntos finitos de é no máximo enumerável; ele é infinito (contém todos os conjuntos unitários) e, portanto, enumerável.
17. Envie à sua função indicadora , se e caso contrário; envie a . As duas aplicações são inversas uma da outra: e (verifique o valor em cada ). Pelo Teorema 1.24, cada uma é uma bijeção: .
18. Para todo , , de modo que as sequências e diferem no índice : . Logo nenhum é sobrejetivo e, pela questão 3, também não existe injeção : não é no máximo enumerável. Através do dicionário da questão 17, uma aplicação é uma aplicação , e corresponde ao conjunto (com efeito, ): o argumento diagonal é a demonstração de Cantor do Exercício 1.11 para .
19. Escreva na forma própria e defina se , se , e depois Essa expansão usa apenas os algarismos e , de modo que não termina em uma cadeia de s: é a expansão própria de um real . Para cada , os -ésimos algarismos de e de diferem (, por construção); como as expansões próprias são únicas, . Assim, nenhuma sequência esgota : pela questão 3, novamente, não é no máximo enumerável.
20. , de modo que uma injeção se restringiria a uma injeção em , contradizendo a questão 19: é não enumerável. Se fosse no máximo enumerável, então seria uma união de dois conjuntos no máximo enumeráveis e, portanto, no máximo enumerável pela questão 15 (tome , para ) — contradição. Logo os irracionais são não enumeráveis. Mais precisamente: dentro de , os racionais formam um conjunto enumerável, enquanto o seu complementar é não enumerável; nenhuma bijeção pode jamais casar com — há estritamente “mais” irracionais do que racionais, embora ambos sejam infinitos e ambos sejam densos.
21. (com ) é raiz de , um polinômio não nulo com coeficientes inteiros. é raiz de . Para : , logo e , isto é,
é raiz de .
22. Associe a (grau , coeficientes inteiros) a lista : isso é injetivo, pois um polinômio fica determinado por seus coeficientes. Por indução em : é enumerável (questão 4), e é no máximo enumerável pela questão 13. Logo cada conjunto de polinômios inteiros de grau limitado é no máximo enumerável; ele é infinito (contém as constantes) e, portanto, enumerável pela questão 12.
23. O conjunto de todos os polinômios inteiros é , uma união enumerável de conjuntos enumeráveis: no máximo enumerável pela questão 15, infinito e, portanto, enumerável.
24. Para cada polinômio inteiro não nulo , o conjunto de raízes é finito (no máximo elementos, admitido). Pela questão 23, os polinômios inteiros não nulos podem ser enumerados ; então é uma união enumerável de conjuntos finitos (logo no máximo enumeráveis): no máximo enumerável pela questão 15. Ele contém (questão 21), logo é infinito: é enumerável.
25. Se fosse no máximo enumerável, seria no máximo enumerável (questão 15), contradizendo a questão 20. Logo existem números transcendentes, que formam até mesmo um conjunto não enumerável, ao passo que os números algébricos — entre os quais figura todo número construído a partir de inteiros por radicais — formam um mero esqueleto enumerável dentro de . Resumo da arquitetura: as questões 1–3 montam a linguagem da comparação; Cantor–Schröder–Bernstein (questões 5–9) permite demonstrar a equipotência por meio de duas injeções fáceis, em vez de uma bijeção engenhosa, e foi usado para , para e ao longo de toda a Parte V; a bijeção de emparelhamento (questão 10) alimentou os produtos e as uniões enumeráveis (questões 13 e 15), que por sua vez alimentaram , os polinômios inteiros e ; o argumento diagonal (questões 18–19) forneceu a única desigualdade estrita que torna toda a história não trivial. A conclusão de Cantor é filosoficamente notável: a demonstração não exibe nenhum número transcendente, e ainda assim mostra que, no sentido da equipotência, quase todo número real é transcendente. Nomear um transcendente específico — ou — exigiu uma matemática inteiramente diferente e décadas a mais de trabalho.