Mathématiques · Livro 3 · Licence 1

Matemática universitária — Graduação 1

Matemática universitária — Graduação 1 · Licence 1

24Curvas Planas

O cálculo do Capítulos 14 e 16 foi construído para funções y=f(x)y = f(x); a maioria das curvas da geometria e da mecânica — trajetórias, círculos rolando sobre círculos, órbitas — recusa essa forma e apresenta-se antes como curvas parametrizadas t(x(t),y(t))t \mapsto (x(t), y(t)) ou como curvas polares r=r(θ)r = r(\theta). Este capítulo clássico estuda as duas, e fecha com as cônicas.

24.1 Curvas parametrizadas

Definição 24.1

Uma curva parametrizada é uma aplicação f ⁣:IR2f \colon I \to \R^2, tM(t)=(x(t),y(t))t \mapsto M(t) = (x(t), y(t)), com x,yx, y de classe C1C^1 (no mínimo) no intervalo II. O vetor velocidade é f(t)=(x(t),y(t))f'(t) = (x'(t), y'(t)); o ponto M(t0)M(t_0) é regular quando f(t0)(0,0)f'(t_0) \neq (0,0), e a tangente nesse ponto é a reta por M(t0)M(t_0) dirigida por f(t0)f'(t_0).

Por que ff' dirige a tangente. Por Taylor–Young componente a componente, M(t)=M(t0)+(tt0)f(t0)+o(tt0)M(t) = M(t_0) + (t - t_0) f'(t_0) + o(t - t_0): a direção da corda M(t)M(t0)tt0\frac{M(t) - M(t_0)}{t - t_0} tende a f(t0)f'(t_0). A hipótese de regularidade é o que faz do limite uma direção: se f(t0)=0f'(t_0) = 0, a fórmula exibida colapsa em M(t)=M(t0)+o(tt0)M(t) = M(t_0) + o(t - t_0) e nada diz sobre como a curva deixa o ponto — daí o tratamento separado dos pontos singulares no método abaixo, em que a primeira derivada não nula assume o papel de ff'. Note também que a reta tangente é um objeto geométrico: toda reparametrização muda ff' por um fator escalar não nulo e deixa a reta inalterada.

Método 24.2 (Estudar uma curva parametrizada)

  1. Reduza o domínio usando simetrias: relações entre M(t)M(-t), M(t+T)M(t + T), … e M(t)M(t) (reflexões, translações, periodicidade), e depois desenhe apenas a parte reduzida.
  2. Variações: tabule os sinais de xx' e de yy' conjuntamente; a curva move-se para a direita ou para a esquerda conforme xx', e para cima ou para baixo conforme yy'.
  3. Pontos notáveis: tangente horizontal (y=0xy' = 0 \neq x'), tangente vertical (x=0yx' = 0 \neq y'); num ponto singular (f=0f' = 0), examine as derivadas de ordem superior para obter a direção da tangente.
  4. Comportamento assintótico nas extremidades de II, e depois esboce.

Exemplo 24.3 (Ramos assintóticos, trabalhados)

x(t)=tx(t) = t, y(t)=t+1ty(t) = t + \dfrac1t em (0,+)\intoo{0}{+\infty}. Quando t0+t \to 0^{+}: x0x \to 0 enquanto y+y \to +\infty — a curva sobe ao longo da assíntota vertical x=0x = 0 (limite finito para uma coordenada, infinito para a outra). Quando t+t \to +\infty: as duas coordenadas explodem, logo teste uma reta: a diferença

y(t)x(t)=1t0+y(t) - x(t) = \frac1t \longrightarrow 0^{+}

exibe a assíntota oblíqua y=xy = x, aproximada por cima. No meio disso, y=11t2y' = 1 - \frac1{t^2} anula-se em t=1t = 1: o ponto (1,2)(1, 2) é o ponto mais baixo do ramo, e x=1>0x' = 1 > 0 em toda parte, logo a curva avança sempre para a direita. Um arco, duas assíntotas, um mínimo: um quadro completo a partir de três cálculos — com a receita geral visível por baixo: quando x,yx, y \to \infty juntos, examine y/xy/x à procura de um coeficiente angular candidato (aqui 1\to 1), e depois y(inclinac¸a˜o)xy - (\text{inclinação})\,x para a ordenada na origem e para o lado da aproximação.

Exemplo 24.4 (A astroide)

x(t)=cos3tx(t) = \cos^3 t, y(t)=sin3ty(t) = \sin^3 t. Simetrias: M(t+2π)=M(t)M(t + 2\pi) = M(t) (estude um período); M(t)M(-t) é o reflexo de M(t)M(t) no eixo xx; M(πt)M(\pi - t), no eixo yy; M(π2t)M(\frac\pi2 - t), na diagonal y=xy = x: basta estudar t[0,π4]t \in \intcc{0}{\frac\pi4} e desdobrar.

Velocidade: f(t)=3sintcost(cost,sint)f'(t) = 3\sin t\cos t\,(-\cos t, \sin t). Em (0,π2)\intoo{0}{\frac\pi2} todos os pontos são regulares, com tangente dirigida por (cost,sint)(-\cos t, \sin t); em t=0t = 0 (o ponto (1,0)(1,0)) a velocidade se anula: uma cúspide, em que a curva inverte o sentido ao longo da direção tangente (1,0)(±)(-1, 0)\cdot(\pm) — por simetria, as quatro cúspides ficam em (±1,0),(0,±1)(\pm1, 0), (0, \pm1).

Exemplo 24.5 (Um oito, estudado por completo)

x(t)=sintx(t) = \sin t, y(t)=sin2ty(t) = \sin 2t (uma curva de Lissajous). Simetrias: M(t+π)=(x(t),y(t))M(t + \pi) = (-x(t), y(t)) (reflexão no eixo yy), M(t)=(x(t),y(t))M(-t) = (-x(t), -y(t)) (simetria central), M(πt)=(x(t),y(t))M(\pi - t) = (x(t), -y(t)) (reflexão no eixo xx): basta estudar t[0,π2]t \in \intcc{0}{\frac\pi2} e desdobrar. Variações: x=cost0x' = \cos t \geq 0 em toda parte, ao passo que y=2cos2ty' = 2\cos 2t é positiva antes de t=π4t = \frac\pi4 e negativa depois: o arco sobe para a direita até o cume (22, 1)\bigl(\frac{\sqrt2}2,\ 1\bigr) em t=π4t = \frac\pi4 (tangente horizontal), e depois desce para a direita até (1,0)(1, 0) em t=π2t = \frac\pi2, onde x=0yx' = 0 \neq y': tangente vertical. Ponto duplo: M(0)=M(π)=(0,0)M(0) = M(\pi) = (0,0), com duas velocidades diferentes

f(0)=(1, 2),f(π)=(1, 2):f'(0) = (1,\ 2), \qquad f'(\pi) = (-1,\ 2) :

dois ramos regulares cruzando-se na origem sob ângulos distintos — um ponto duplo, não um ponto singular: cada passagem é perfeitamente suave, e as duas passagens apenas partilham a sua localização. A curva inteira é o oito abaixo.

A curva de Lissajous ( t, 2t): um ponto duplo na origem, onde dois ramos regulares se cruzam com velocidades (1, 2) e (-1, 2), e tangentes horizontais nos quatro cumes. A simetria reduziu todo o trabalho a um quarto de período.
A curva de Lissajous (sint,sin2t)(\sin t, \sin 2t): um ponto duplo na origem, onde dois ramos regulares se cruzam com velocidades (1,2)(1, 2) e (1,2)(-1, 2), e tangentes horizontais nos quatro cumes. A simetria reduziu todo o trabalho a um quarto de período.
A astroide ( 3 t, 3 t): quatro arcos que se encontram em quatro cúspides. É a curva traçada por um ponto de um círculo de raio 1/4 rolando dentro do círculo unitário.
A astroide (cos3t,sin3t)(\cos^3 t, \sin^3 t): quatro arcos que se encontram em quatro cúspides. É a curva traçada por um ponto de um círculo de raio 14\frac14 rolando dentro do círculo unitário.

24.2 Curvas polares

Definição 24.6

Uma curva polar é dada por r=r(θ)r = r(\theta): o ponto de parâmetro θ\theta é

M(θ)=r(θ)u(θ),u(θ)=(cosθ,sinθ).M(\theta) = r(\theta)\,\vec u(\theta), \qquad \vec u(\theta) = (\cos\theta, \sin\theta).

Com v(θ)=(sinθ,cosθ)=u(θ)\vec v(\theta) = (-\sin\theta, \cos\theta) = \vec u\,'(\theta), a velocidade é

M(θ)=r(θ)u(θ)+r(θ)v(θ).M'(\theta) = r'(\theta)\, \vec u(\theta) + r(\theta)\, \vec v(\theta) .

Consequências: onde r0r \neq 0, o ponto é regular, e a tangente faz com o raio o ângulo VV dado por tanV=rr\tan V = \frac{r}{r'} (ângulo entre MM' e u\vec u); onde r(θ0)=0r(\theta_0) = 0, a curva passa pela origem com tangente o raio θ=θ0\theta = \theta_0 (direção u(θ0)\vec u(\theta_0), lida em M(θ0)=r(θ0)u(θ0)M'(\theta_0) = r'(\theta_0)\vec u(\theta_0), ou a partir da corda limite: a corda de OO a M(θ)M(\theta) é carregada pelo próprio u(θ)\vec u(\theta), que tende a u(θ0)\vec u(\theta_0) — de modo que a regra vale mesmo quando r(θ0)=0r'(\theta_0) = 0 e o ponto é singular, razão pela qual as cúspides polares na origem, como a da cardioide, ganham a sua tangente de graça).

Exemplo 24.7 (A cardioide)

r(θ)=1+cosθr(\theta) = 1 + \cos\theta. Simetria: r(θ)=r(θ)r(-\theta) = r(\theta): reflexão no eixo xx; estude θ[0,π]\theta \in \intcc{0}{\pi}. rr decresce de 22 a 00; em θ=π\theta = \pi, r=0r = 0: a curva atinge a origem tangencialmente ao raio θ=π\theta = \pi (o eixo xx), formando ali uma cúspide — a ponta do coração. Tangente em θ=0\theta = 0: r=0r' = 0, logo tanV=\tan V = \infty: perpendicular ao eixo.

O ângulo VV merece mais uma leitura. Em θ=π2\theta = \frac\pi2: r=1r = 1 e r=1r' = -1, logo tanV=rr=1\tan V = \frac{r}{r'} = -1: a tangente faz três quartos de um ângulo reto com o raio que sai — a curva já está dobrando de volta rumo à sua cúspide. A fórmula tanV=r/r\tan V = r/r' entrega direções tangentes ao longo de toda a curva sem calcular M(θ)M'(\theta) coisa alguma: é o análogo polar de ler um coeficiente angular.

Exemplo 24.8 (De polar a cartesiana: um círculo escondido)

O que é a curva polar r=2cosθr = 2\cos\theta? Multiplique por rr: r2=2rcosθr^2 = 2r\cos\theta, isto é, x2+y2=2xx^2 + y^2 = 2x, isto é,

(x1)2+y2=1:(x - 1)^2 + y^2 = 1 :

o círculo de centro (1,0)(1, 0) e raio 11, que passa pela origem. A contabilidade importa: quando θ\theta percorre (π2,π2]\intoc{-\frac\pi2}{\frac\pi2}, o círculo inteiro é varrido exatamente uma vez (rr anula-se nas duas extremidades), e em θ=±π2\theta = \pm\frac\pi2 a regra “tangente na origem ao longo do raio θ=θ0\theta = \theta_0” dá ali uma tangente vertical — coerente com a geometria, já que o eixo vertical é de fato tangente a este círculo em OO. Para θ\theta além desse intervalo, r<0r < 0 percorre de novo o mesmo círculo: um lembrete de que uma curva polar é um objeto parametrizado, autorizado a passar por cima de si mesmo.

A rosácea de quatro pétalas r = 2 (o ). As pétalas ao longo do eixo y são traçadas com r < 0 (o ponto é marcado no raio oposto a ); as diagonais tracejadas = ± π4 são as tangentes na origem, onde r se anula.
A rosácea de quatro pétalas r=cos2θr = \cos 2\theta (o Exercício 24.4). As pétalas ao longo do eixo yy são traçadas com r<0r < 0 (o ponto é marcado no raio oposto a θ\theta); as diagonais tracejadas θ=±π4\theta = \pm\frac\pi4 são as tangentes na origem, onde rr se anula.
A cardioide r = 1 +. As curvas polares leem-se varrendo o ângulo: o raio incha e encolhe à medida que  gira.
A cardioide r=1+cosθr = 1 + \cos\theta. As curvas polares leem-se varrendo o ângulo: o raio incha e encolhe à medida que θ\theta gira.

24.3 Comprimento de arco

Definição 24.9 (Comprimento de um arco)

O comprimento de um arco C1C^1 f ⁣:[a,b]R2f \colon \intcc{a}{b} \to \R^2 é a integral da velocidade escalar:

L=abf(t) ⁣dt=abx(t)2+y(t)2   ⁣dt.L = \int_a^b \norm{f'(t)}\,\dd t = \int_a^b \sqrt{x'(t)^2 + y'(t)^2}\;\dd t .

(Motivação: num intervalo pequeno, M(t+h)M(t)+hf(t)M(t + h) \approx M(t) + h f'(t), logo o arco é próximo de uma poligonal cujos comprimentos de segmento somam uma soma de Riemann de f\norm{f'}, o Teorema 15.20.) Para uma curva polar r=r(θ)r = r(\theta), a velocidade ru+rvr'\vec u + r\vec v tem componentes ortogonais, logo

L=θ1θ2r(θ)2+r(θ)2   ⁣dθ.L = \int_{\theta_1}^{\theta_2} \sqrt{r'(\theta)^2 + r(\theta)^2}\;\dd\theta .

O comprimento não depende da parametrização (monótona, C1C^1) escolhida: substituir t=φ(s)t = \varphi(s) na integral (o Teorema 15.15) multiplica ff' por φ\varphi' e  ⁣dt\dd t por φ1\varphi'^{-1}.

Exemplo 24.10 (Verificação de coerência: o círculo)

Para f(t)=(Rcost,Rsint)f(t) = (R\cos t, R\sin t) em [0,2π]\intcc{0}{2\pi}: f=R\norm{f'} = R, logo L=2πRL = 2\pi R — a definição devolve a circunferência. Teste de reparametrização: a aplicação g(t)=(Rcos2t,Rsin2t)g(t) = (R\cos 2t, R\sin 2t) em [0,π]\intcc{0}{\pi} desenha o mesmo círculo ao dobro da velocidade g=2R\norm{g'} = 2R, e

0π2R ⁣dt=2πR\int_0^{\pi} 2R\,\dd t = 2\pi R

de novo: metade do tempo, o dobro da velocidade, o mesmo comprimento — a invariância prometida na definição, observada uma vez em números. (Rodar gg em todo o [0,2π]\intcc{0}{2\pi} daria 4πR4\pi R: uma curva percorrida duas vezes é duas vezes mais longa como percurso; o comprimento mede o caminho parametrizado, e a contabilidade honesta do intervalo faz parte do cálculo.) Para a astroide (cos3t,sin3t)(\cos^3t, \sin^3t): f=3sintcost=32sin2t\norm{f'} = 3\abs{\sin t\cos t} = \tfrac32\abs{\sin 2t}, e por simetria L=40π/232sin2t ⁣dt=6L = 4\int_0^{\pi/2} \tfrac32\sin 2t\,\dd t = 6: uma curva desenhada dentro do círculo unitário, de comprimento 6<2π6 < 2\pi. O problema de fim de semana mede o arco mais famoso de todos.

Um arco da cicloide (raio R = 1), o círculo rolante em t = 2, e as duas retas guia do problema de fim de semana: a corda MC até o ponto de contato é normal à curva, e a corda MT até o topo do círculo é tangente.
Um arco da cicloide (raio R=1R = 1), o círculo rolante em t=2t = 2, e as duas retas guia do problema de fim de semana: a corda MCMC até o ponto de contato é normal à curva, e a corda MTMT até o topo do círculo é tangente.

24.4 Cônicas

Definição 24.11 (Definição por foco e diretriz)

Fixe um ponto FF (foco), uma reta DD que não passa por FF (diretriz) e e>0e > 0 (excentricidade). A cônica destes dados é

C={M:d(M,F)=e  d(M,D)}:\mathcal{C} = \{M : d(M, F) = e\; d(M, D)\}:

uma elipse para e<1e < 1, uma parábola para e=1e = 1, uma hipérbole para e>1e > 1. (O círculo aparece como o limite degenerado e0e \to 0.)

Exemplo 24.12 (A definição, conferida numa parábola)

Tome a parábola y2=4xy^2 = 4x, isto é, 2p=42p = 4: foco F=(1,0)F = (1, 0) e diretriz D:x=1D : x = -1 (a forma reduzida do Teorema 24.13 os coloca em ±p2\pm\frac p2). No ponto M=(1,2)M = (1, 2) da curva:

MF=(11)2+22=2,d(M,D)=1(1)=2:MF = \sqrt{(1-1)^2 + 2^2} = 2, \qquad d(M, D) = 1 - (-1) = 2 :

iguais, como e=1e = 1 exige. Em M=(4,4)M' = (4, 4): MF=9+16=5MF' = \sqrt{9 + 16} = 5 e d(M,D)=5d(M', D) = 5 de novo. A definição por foco e diretriz não é uma abstração: é um par de distâncias que se pode medir em qualquer ponto, e a álgebra das equações reduzidas nada mais é do que essa medição feita uma vez por todas.

Teorema 24.13 (Equações reduzidas)

Num referencial ortonormal bem escolhido:

elipse: x2a2+y2b2=1(ab>0),hipeˊrbole: x2a2y2b2=1,paraˊbola: y2=2px,\text{elipse: } \frac{x^2}{a^2} + \frac{y^2}{b^2} = 1 \quad (a \geq b > 0), \qquad \text{hipérbole: } \frac{x^2}{a^2} - \frac{y^2}{b^2} = 1, \qquad \text{parábola: } y^2 = 2px,

com, para a elipse: focos em (±c,0)(\pm c, 0), c=a2b2c = \sqrt{a^2 - b^2}, e=cae = \frac ca, e a caracterização bifocal MF+MF=2aMF + MF' = 2a; para a hipérbole: c=a2+b2c = \sqrt{a^2 + b^2}, e=cae = \frac ca, MFMF=2a\abs{MF - MF'} = 2a, assíntotas y=±baxy = \pm\frac ba x.

Demonstração. Tome o foco na origem e a diretriz vertical, x=hx = -h (h>0h > 0): a condição MF2=e2d(M,D)2MF^2 = e^2 d(M, D)^2 lê-se x2+y2=e2(x+h)2x^2 + y^2 = e^2 (x + h)^2. Para e=1e = 1: y2=2hx+h2y^2 = 2hx + h^2, uma parábola depois do deslocamento xxh2x \mapsto x - \frac h2 (logo p=hp = h). Para e1e \neq 1: completando o quadrado em xx,

(1e2)(xe2h1e2) ⁣2+y2=e2h2+e4h21e2=e2h21e2.(1 - e^2)\Bigl(x - \frac{e^2 h}{1 - e^2}\Bigr)^{\!2} + y^2 = e^2h^2 + \frac{e^4 h^2}{1 - e^2} = \frac{e^2 h^2}{1 - e^2} .

Ponha X=xe2h1e2X = x - \frac{e^2h}{1-e^2} (um deslocamento do referencial). Quando e<1e < 1, divida pelo lado direito, que é positivo: X2a2+y2b2=1\frac{X^2}{a^2} + \frac{y^2}{b^2} = 1 com a=eh1e2a = \frac{eh}{1 - e^2}, b=eh1e2b = \frac{eh}{\sqrt{1-e^2}}; quando e>1e > 1, os dois lados da fórmula exibida trocam de sinal adequadamente e a mesma divisão dá X2a2y2b2=1\frac{X^2}{a^2} - \frac{y^2}{b^2} = 1 com a=ehe21a = \frac{eh}{e^2 - 1}, b=ehe21b = \frac{eh}{\sqrt{e^2 - 1}}. Os valores indicados de cc seguem (c2=a2b2c^2 = a^2 - b^2 ou a2+b2a^2 + b^2c=eac = ea nos dois casos, colocando o foco corretamente), e as propriedades bifocais são verificações diretas nas equações reduzidas. Em detalhe para a elipse, com F=(c,0)F' = (c, 0) e M=(X,y)M = (X, y) sobre a curva:

MF2=(Xc)2+y2=X22cX+c2+b2(1X2a2)=c2a2X22cX+a2=(aeX)2,MF'^2 = (X - c)^2 + y^2 = X^2 - 2cX + c^2 + b^2\Bigl(1 - \frac{X^2}{a^2}\Bigr) = \frac{c^2}{a^2}X^2 - 2cX + a^2 = (a - eX)^2 ,

usando c2+b2=a2c^2 + b^2 = a^2 e e=cae = \frac ca; como Xa\abs X \leq a e e<1e < 1, aeX>0a - eX > 0, logo MF=aeXMF' = a - eX, sem nunca extrair raiz quadrada alguma. O cálculo espelhado dá MF=a+eXMF = a + eX, donde MF+MF=2aMF + MF' = 2a, constante. Para a hipérbole a mesma álgebra dá MF=a+eXMF = \abs{a + eX} e MF=eXaMF' = \abs{eX - a}, com diferença ±2a\pm2a conforme o ramo.

Exemplo 24.14

x225+y29=1\frac{x^2}{25} + \frac{y^2}{9} = 1: elipse, a=5a = 5, b=3b = 3, c=4c = 4: focos (±4,0)(\pm4, 0), excentricidade 45\frac45. A sua parametrização: (5cost,3sint)(5\cos t, 3\sin t) — um círculo esticado anisotropicamente; a soma das distâncias aos focos, para qualquer um dos seus pontos, é 1010.

Exemplo 24.15 (Ler uma órbita a partir da sua equação polar)

A cônica polar r=11+12cosθr = \dfrac{1}{1 + \frac12\cos\theta} (o Exercício 24.7 com p=1p = 1, e=12e = \frac12) é uma elipse com um foco na origem — a geometria de uma órbita planetária com o sol em OO. Extraia tudo de pp e de ee: pela redução do Teorema 24.13, a=p1e2=13/4=43a = \dfrac{p}{1 - e^2} = \dfrac{1}{3/4} = \dfrac43 e c=ea=23c = ea = \dfrac23. As duas ápsides conferem isso sem teoria alguma:

r(0)=13/2=23=ac(perieˊlio),r(π)=11/2=2=a+c(afeˊlio),r(0) = \frac{1}{3/2} = \frac23 = a - c \quad (\text{periélio}), \qquad r(\pi) = \frac{1}{1/2} = 2 = a + c \quad (\text{afélio}),

e a sua soma 23+2=83=2a\frac23 + 2 = \frac83 = 2a recupera o eixo maior. A forma polar é a natural sempre que um foco é fisicamente distinguido; a forma cartesiana reduzida, sempre que o são os eixos de simetria. Converter entre as duas é exatamente o que faz o cálculo do quadrado completado do teorema.

A excentricidade como um botão, por fim: mantenha p=1p = 1 e gire ee em r=11+ecosθr = \frac{1}{1 + e\cos\theta}. Em e=0e = 0: o círculo r=1r = 1. Em e=12e = \frac12: a elipse que acabamos de estudar, com rr oscilando entre 23\frac23 e 22. Em e=1e = 1: r(θ)r(\theta) \to \infty quando θπ\theta \to \pi — a curva já não se fecha: uma parábola, com o seu ponto mais distante empurrado para o infinito. Em e=2e = 2: o denominador anula-se em cosθ=12\cos\theta = -\frac12, e só θ(2π3,2π3)\theta \in \intoo{-\frac{2\pi}3}{\frac{2\pi}3} sobrevive: um ramo de hipérbole, escapando ao longo de duas direções assintóticas. Uma fórmula, a família das cônicas inteira, e o ponto de transição e=1e = 1 visível como o instante em que o denominador atinge zero pela primeira vez.

Observação 24.16 (Armadilhas comuns)

Pontos duplos não são pontos singulares: num autocruzamento, cada ramo é regular; “singular” refere-se a f(t0)=0f'(t_0) = 0 para um valor do parâmetro (o Exemplo 24.5, contra as cúspides da astroide). Tangente vertical versus cúspide: x(t0)=0y(t0)x'(t_0) = 0 \neq y'(t_0) é um ponto regular com tangente vertical; só x=y=0x' = y' = 0 exige a expansão de ordem superior. Raios negativos marcam-se no raio oposto: para r(θ)<0r(\theta) < 0 o ponto é ru(θ)-\abs{r}\,\vec u(\theta), no ângulo θ+π\theta + \pi (o Exercício 24.5); esquecer isso perde laços internos ou duplica curvas. O comprimento de arco integra f\norm{f'}, e não ff': separe a integral nos zeros da velocidade escalar — para a astroide, integrar 32sin2t\frac32\sin 2t ao longo de um período completo sem valores absolutos dá 00, e não 66. As cônicas têm de ser reduzidas antes de serem lidas: em 9x2+25y236x50y164=09x^2 + 25y^2 - 36x - 50y - 164 = 0, nem os eixos, nem o centro, nem a excentricidade são visíveis antes de completar os quadrados (o Exercício 24.6); e uma parte quadrática que se anula numa variável significa parábola, não “elipse degenerada”.

Observação 24.17 (Para onde vão estas curvas)

As curvas parametrizadas são a língua da mecânica: as trajetórias são curvas, os vetores velocidade são vetores tangentes, e o comprimento de arco da Definição 24.9 é a distância percorrida. As cônicas reaparecem onde quer que atue uma lei do inverso do quadrado — as órbitas planetárias são elipses com o sol num foco. No Capítulo 25, as curvas tornam-se os conjuntos de nível de funções de duas variáveis, e a tangente deste capítulo encontra o gradiente do próximo. O volume do segundo ano de graduação acrescenta a curvatura e a forma canônica local de uma curva; o problema de fim de semana abaixo já extrai, apenas com as ferramentas deste ano, tudo o que o século XVII sabia sobre a sua curva mais celebrada.

Observação 24.18 (Perspectivas dentro do Livro 3)

Este capítulo consome toda a primeira metade do volume e alimenta o último capítulo. Consumido: os vetores tangentes são derivadas (o Capítulo 14), o comprimento de arco e as áreas são integrais (o Capítulo 15), as cúspides são resolvidas por expansões de Taylor (o Capítulo 16), a tautócrona é uma equação diferencial linear (o Capítulo 5), e toda distância e todo ângulo são euclidianos (o Capítulo 23). Alimentado: no Capítulo 25, uma curva t(x(t),y(t))t \mapsto (x(t), y(t)) traçada dentro de um conjunto de nível {f=c}\{f = c\} é derivada pela regra da cadeia, e a identidade resultante f, f(t)=0\langle \nabla f,\ f'(t)\rangle = 0 casa os vetores tangentes deste capítulo com os gradientes do próximo — a reta tangente da curva e a direção normal da superfície são o mesmo cálculo visto das duas margens.

24.5 Exercícios

Exercício 24.1

Estude e esboce a curva x(t)=t2x(t) = t^2, y(t)=t3y(t) = t^3 (simetrias, variações, comportamento no ponto singular t=0t = 0).

Solução

Solução de Exercício 24.1.

M(t)=(t2,t3)M(-t) = (t^2, -t^3): reflexão no eixo xx; estude t0t \geq 0. Tanto x=2tx' = 2t quanto y=3t2y' = 3t^2 são 0\geq 0: o ramo move-se para a direita e para cima, de (0,0)(0,0) ao infinito. Em t=0t = 0 a velocidade se anula; as expansões x=t2x = t^2, y=t3y = t^3 mostram que a tangente é o eixo xx (y/x=t0y/x = t \to 0), com yy mudando de sinal enquanto x0x \geq 0: uma cúspide apontando para a esquerda. A curva é a parábola semicúbica y2=x3y^2 = x^3.

Exercício 24.2

Para a cicloide x(t)=tsintx(t) = t - \sin t, y(t)=1costy(t) = 1 - \cos t (a trajetória de um ponto de uma roda de raio 11 que rola): identifique a simetria de translação por período, os pontos singulares, e a direção da tangente em t=0t = 0 (expanda xx e yy até as primeiras ordens não nulas).

Solução

Solução de Exercício 24.2.

M(t+2π)=M(t)+(2π,0)M(t + 2\pi) = M(t) + (2\pi, 0): a curva se repete, transladada por uma circunferência de roda; estude um período. x(t)=1cost0x'(t) = 1 - \cos t \geq 0, y(t)=sinty'(t) = \sin t: o arco sobe em (0,π)\intoo{0}{\pi}, desce em (π,2π)\intoo{\pi}{2\pi}, culminando em (π,2)(\pi, 2). Pontos singulares onde x=y=0x' = y' = 0: t2πZt \in 2\pi\Z, no solo. Perto de t=0t = 0:

x(t)=t36+o(t3),y(t)=t22+o(t2):x(t) = \frac{t^3}{6} + o(t^3), \qquad y(t) = \frac{t^2}{2} + o(t^2):

xx muda de sinal, y0y \geq 0, e xy3/2\frac{x}{y^{3/2}} é limitado: a tangente é vertical (direção (0,1)(0,1)), uma cúspide em que o ponto acompanhado tem momentaneamente velocidade nula — a assinatura física do rolamento sem escorregamento.

Exercício 24.3

Dê a reta tangente à curva (cos3t,sin3t)(\cos^3 t, \sin^3 t) em t=π4t = \frac\pi4, e verifique que o segmento dessa tangente cortado pelos eixos tem comprimento 11 — uma propriedade famosa da astroide (verdadeira em todo ponto regular).

Solução

Solução de Exercício 24.3.

Em t=π4t = \frac\pi4: M=(24,24)M = \bigl(\frac{\sqrt2}{4}, \frac{\sqrt2}{4}\bigr), direção tangente (cost,sint)=12(1,1)(-\cos t, \sin t) = \frac{1}{\sqrt2}(-1, 1) (o Exemplo 24.4). Reta tangente: y24=(x24)y - \frac{\sqrt2}{4} = -(x - \frac{\sqrt2}{4}), isto é, x+y=22x + y = \frac{\sqrt2}{2}. Interseções com os eixos: (22,0)\bigl(\frac{\sqrt2}{2}, 0\bigr) e (0,22)\bigl(0, \frac{\sqrt2}{2}\bigr); o segmento entre eles tem comprimento 12+12=1\sqrt{\frac12 + \frac12} = 1.

(Ponto geral tt: a tangente em (cos3t,sin3t)(\cos^3 t, \sin^3 t) corta os eixos em (cost,0)(\cos t, 0) e (0,sint)(0, \sin t) — verifique que a reta por esses pontos tem direção (cost,sint)(-\cos t, \sin t) e passa por M(t)M(t) — e o segmento cortado tem comprimento cos2t+sin2t=1\sqrt{\cos^2 t + \sin^2 t} = 1.)

Exercício 24.4

Esboce as curvas polares r=cos2θr = \cos 2\theta (rosácea de quatro pétalas) e r=1cosθr = \frac{1}{\cos\theta} em (π2,π2)\intoo{-\frac\pi2}{\frac\pi2} (reconheça uma reta).

Solução

Solução de Exercício 24.4.

r=cos2θr = \cos 2\theta: período π\pi em θ\theta, simétrica nos dois eixos; rr anula-se em θ=±π4\theta = \pm\frac\pi4 (tangentes na origem ao longo das diagonais) e é negativo para θ(π4,3π4)\theta \in \intoo{\frac\pi4}{\frac{3\pi}{4}}, onde os pontos são marcados no raio oposto — produzindo quatro pétalas ao longo das direções dos eixos θ=0,π2,π,3π2\theta = 0, \frac\pi2, \pi, \frac{3\pi}{2}, cada uma de raio máximo 11.

rcosθ=1r\cos\theta = 1 é a equação x=1x = 1: a curva polar r=1cosθr = \frac{1}{\cos\theta} é a reta vertical x=1x = 1 (percorrida uma vez para θ(π2,π2)\theta \in \intoo{-\frac\pi2}{\frac\pi2}).

Exercício 24.5 ★★

Estude a curva polar r=1+2cosθr = 1 + 2\cos\theta (uma limaçon): domínio em que r0r \geq 0 contra r<0r < 0 (os pontos marcados com raio negativo ficam no raio oposto), passagem pela origem, laço interno, esboço.

Solução

Solução de Exercício 24.5.

r(θ)=1+2cosθr(\theta) = 1 + 2\cos\theta anula-se para cosθ=12\cos\theta = -\frac12: θ=±2π3\theta = \pm\frac{2\pi}{3}. Simetria no eixo xx; estude θ[0,π]\theta \in \intcc{0}{\pi}. Para θ[0,2π3)\theta \in \intco{0}{\frac{2\pi}{3}}: r>0r > 0, decrescente de 33 a 00: arco externo, entrando na origem tangente ao raio θ=2π3\theta = \frac{2\pi}{3}. Para θ(2π3,π]\theta \in \intoc{\frac{2\pi}{3}}{\pi}: r<0r < 0: os pontos ru(θ)r\vec u(\theta) ficam no raio oposto (ângulo θπ(π3,0]\theta - \pi \in \intoc{-\frac\pi3}{0}), com distância r\abs r crescendo de 00 a 11: isto desenha um pequeno laço interno pela origem. Em θ=π\theta = \pi, r=1r = -1 e o ponto é u(π)=(1,0)-\vec u(\pi) = (1, 0): o laço fecha-se no semieixo xx positivo. Esboço: uma grande curva externa em forma de coração, com alcance máximo 33 em θ=0\theta = 0, mais um laço dentro dela, por OO e por (1,0)(1,0).

Exercício 24.6 ★★

Identifique a cônica 9x2+25y236x50y164=09x^2 + 25y^2 - 36x - 50y - 164 = 0: reduza completando quadrados, e dê o centro, os semieixos, os focos e a excentricidade.

Solução

Solução de Exercício 24.6.

Complete os quadrados:

9(x24x)+25(y22y)=164    9(x2)2+25(y1)2=164+36+25=225.9(x^2 - 4x) + 25(y^2 - 2y) = 164 \iff 9(x-2)^2 + 25(y-1)^2 = 164 + 36 + 25 = 225 .

Dividindo por 225225: (x2)225+(y1)29=1\frac{(x-2)^2}{25} + \frac{(y-1)^2}{9} = 1: uma elipse de centro (2,1)(2, 1), semieixos a=5a = 5 (horizontal) e b=3b = 3; c=259=4c = \sqrt{25 - 9} = 4: focos (2±4,1)=(2,1)(2 \pm 4,\, 1) = (-2, 1) e (6,1)(6, 1); excentricidade e=45e = \frac45.

Exercício 24.7 ★★

Demonstre que a equação polar de uma cônica com foco na origem é

r=p1+ecosθr = \frac{p}{1 + e\cos\theta}

(diretriz vertical à distância pe\frac pe à direita do foco). Quais valores de θ\theta são permitidos quando e>1e > 1?

Solução

Solução de Exercício 24.7.

Foco na origem, diretriz D:x=dD: x = d com d=pe>0d = \frac pe > 0. Para um ponto M=(rcosθ,rsinθ)M = (r\cos\theta, r\sin\theta) com r>0r > 0:

MF=r,d(M,D)=drcosθ,MF = r, \qquad d(M, D) = \abs{d - r\cos\theta},

e a condição da cônica MF=ed(M,D)MF = e\,d(M, D), no regime em que MM está do lado do foco em relação à diretriz (rcosθ<dr\cos\theta < d), lê-se r=e(drcosθ)r = e(d - r\cos\theta), isto é,

r(1+ecosθ)=ed=p,r=p1+ecosθ.r(1 + e\cos\theta) = ed = p, \qquad r = \frac{p}{1 + e\cos\theta} .

Para e<1e < 1 o denominador nunca se anula: todos os θ\theta são permitidos (elipse). Para e=1e = 1: θπ\theta \neq \pi (parábola, aberta para o lado oposto ao da diretriz). Para e>1e > 1: é preciso 1+ecosθ>01 + e\cos\theta > 0, isto é, θ(θ0,θ0)\theta \in \intoo{-\theta_0}{\theta_0} com θ0=arccos(1e)\theta_0 = \arccos\bigl(-\frac1e\bigr): um ramo da hipérbole (o outro ramo corresponde à escolha de sinal r<0r < 0, ou ao segundo foco).

Exercício 24.8 ★★

A partir da propriedade bifocal MF+MF=2aMF + MF' = 2a, deduza a “construção do jardineiro” da elipse, e demonstre que a tangente em MM faz ângulos iguais com MFMF e MFMF' (propriedade de reflexão; derive M(t)F+M(t)F=2a\norm{M(t) - F} + \norm{M(t) - F'} = 2a e interprete a soma nula de produtos de vetores unitários).

Solução

Solução de Exercício 24.8.

Jardineiro: amarre um barbante de comprimento 2a2a a duas estacas F,FF, F' e mantenha-o esticado com o ponto traçador MM: a restrição é exatamente MF+MF=2aMF + MF' = 2a, logo a curva traçada é a elipse.

Propriedade de reflexão: seja tM(t)t \mapsto M(t) uma parametrização regular e u(t)=M(t)FM(t)Fu(t) = \frac{M(t) - F}{\norm{M(t) - F}}, sendo u(t)u'(t) o vetor unitário análogo em direção a FF'. Derivando MF+MF=2a\norm{M - F} + \norm{M - F'} = 2a, usando  ⁣d ⁣dtMF=MFMF,M\frac{\dd}{\dd t}\norm{M - F} = \bigl\langle \frac{M - F}{\norm{M-F}},\, M'\bigr\rangle (regra da cadeia em ,\sqrt{\langle\cdot,\cdot\rangle}):

u+u,M=0.\bigl\langle u + u',\, M'\bigr\rangle = 0 .

Logo a direção tangente MM' é ortogonal à direção bissetriz u+uu + u' dos dois raios focais: a tangente faz ângulos iguais com MFMF e MFMF'. (Um raio de luz que parte de um foco reflete-se na elipse para o outro foco.)

Exercício 24.9 ★★★

A lemniscata de Bernoulli é a curva polar r2=cos2θr^2 = \cos 2\theta (tome r=cos2θr = \sqrt{\cos2\theta} onde estiver definida).

  1. Dê o seu domínio, as suas simetrias, as tangentes na origem, e esboce-a.
  2. Demonstre que ela é o lugar dos pontos MM com MFMF=12MF \cdot MF' = \frac12, onde F,F=(±12,0)F, F' = \bigl(\pm\frac{1}{\sqrt2}, 0\bigr). (Calcule MF2MF2MF^2\,MF'^2 em coordenadas polares.)
Solução

Solução de Exercício 24.9.

  1. Domínio: cos2θ0\cos 2\theta \geq 0: θ[π4,π4][3π4,5π4]\theta \in \intcc{-\frac\pi4}{\frac\pi4} \cup \intcc{\frac{3\pi}{4}}{\frac{5\pi}{4}}. Simetrias: θθ\theta \mapsto -\theta (eixo xx) e θπθ\theta \mapsto \pi - \theta (eixo yy): estude [0,π4]\intcc{0}{\frac\pi4}; rr decresce de 11 a 00. Em θ=±π4\theta = \pm\frac\pi4: r=0r = 0, tangentes na origem ao longo das diagonais. A curva é o símbolo \infty: dois laços simétricos que se encontram em OO, atingindo (±1,0)(\pm 1, 0).
  2. Com F,F=(±c,0)F, F' = (\pm c, 0), c=12c = \frac{1}{\sqrt 2}, e M=(rcosθ,rsinθ)M = (r\cos\theta, r\sin\theta):

    MF2MF2=((rcosθc)2+r2sin2θ)((rcosθ+c)2+r2sin2θ)=(r2+c2)2(2rccosθ)2,MF^2\, MF'^2 = \bigl((r\cos\theta - c)^2 + r^2\sin^2\theta\bigr) \bigl((r\cos\theta + c)^2 + r^2\sin^2\theta\bigr) = (r^2 + c^2)^2 - (2rc\cos\theta)^2 ,

    pela identidade (AB)(A+B)=A2B2(A - B)(A + B) = A^2 - B^2 com A=r2+c2A = r^2 + c^2, B=2rccosθB = 2rc\cos\theta. Com c2=12c^2 = \frac12:

    MF2MF2=(r2+12)22r2cos2θ=r4+r2(12cos2θ)+14=r4r2cos2θ+14.MF^2 MF'^2 = \Bigl(r^2 + \frac12\Bigr)^2 - 2r^2\cos^2\theta = r^4 + r^2\bigl(1 - 2\cos^2\theta\bigr) + \frac14 = r^4 - r^2\cos 2\theta + \frac14 .

    Sobre a lemniscata, r2=cos2θr^2 = \cos 2\theta: os dois primeiros termos se cancelam, restando MF2MF2=14MF^2MF'^2 = \frac14, isto é, MFMF=12MF \cdot MF' = \frac12. Reciprocamente, o cálculo lido ao contrário mostra que a equação do lugar MFMF=12MF\,MF' = \frac12 é r2=cos2θr^2 = \cos 2\theta (para r0r \neq 0; e OO satisfaz as duas).

Exercício 24.10 ★★

Calcule o comprimento total da cardioide r=1+cosθr = 1 + \cos\theta usando a fórmula polar da Definição 24.9 (a identidade 1+cosθ=2cos2θ21 + \cos\theta = 2\cos^2\frac\theta2 transforma a raiz quadrada em 2cosθ22\abs{\cos\frac\theta2}).

Solução

Solução de Exercício 24.10.

r=1+cosθr = 1 + \cos\theta, r=sinθr' = -\sin\theta:

r2+r2=1+2cosθ+cos2θ+sin2θ=2+2cosθ=4cos2θ2,r^2 + r'^2 = 1 + 2\cos\theta + \cos^2\theta + \sin^2\theta = 2 + 2\cos\theta = 4\cos^2\frac\theta2 ,

logo r2+r2=2cosθ2\sqrt{r^2 + r'^2} = 2\abs{\cos\frac\theta2} e, pela simetria no eixo xx,

L=02π2cosθ2 ⁣dθ=20π2cosθ2 ⁣dθ=2[4sinθ2]0π=8.L = \int_0^{2\pi} 2\Bigl|\cos\frac\theta2\Bigr|\,\dd\theta = 2\int_0^{\pi} 2\cos\frac\theta2\,\dd\theta = 2\Bigl[4\sin\frac\theta2\Bigr]_0^{\pi} = 8 .

Mais um perímetro algébrico, sem π\pi.

Exercício 24.11 ★★

Mostre que a tangente à elipse (acost,bsint)(a\cos t, b\sin t) no ponto de parâmetro tt tem equação

xcosta+ysintb=1,\frac{x\cos t}{a} + \frac{y\sin t}{b} = 1 ,

e deduza a tangente a x2a2+y2b2=1\frac{x^2}{a^2} + \frac{y^2}{b^2} = 1 num ponto (x0,y0)(x_0, y_0) da elipse: xx0a2+yy0b2=1\frac{x\,x_0}{a^2} + \frac{y\,y_0}{b^2} = 1 (a regra do “desdobramento dos quadrados”).

Solução

Solução de Exercício 24.11.

O ponto (acost,bsint)(a\cos t, b\sin t) satisfaz a equação: cos2t+sin2t=1\cos^2 t + \sin^2 t = 1. O vetor normal da reta é (costa,sintb)\bigl(\frac{\cos t}a, \frac{\sin t}b\bigr), e o seu produto com a velocidade (asint,bcost)(-a\sin t, b\cos t) é sintcost+sintcost=0-\sin t\cos t + \sin t\cos t = 0: a reta passa pelo ponto com a direção tangente — ela é a tangente. Para (x0,y0)(x_0, y_0) sobre a elipse, escreva cost=x0a\cos t = \frac{x_0}a, sint=y0b\sin t = \frac{y_0}b e substitua:

xx0a2+yy0b2=1,\frac{x\,x_0}{a^2} + \frac{y\,y_0}{b^2} = 1 ,

obtida da equação da elipse “desdobrando” x2xx0x^2 \mapsto x\,x_0 e y2yy0y^2 \mapsto y\,y_0.

Exercício 24.12 ★★★

A espiral logarítmica é a curva polar r=ekθr = \eu^{k\theta} (k>0k > 0 fixo, θR\theta \in \R).

  1. Mostre que o ângulo VV entre o raio e a tangente é constante (tanV=1k\tan V = \frac1k) — a espiral cruza todo raio sob o mesmo ângulo.
  2. Mostre que girar a espiral por um ângulo cc a leva na sua homotética de razão ekc\eu^{-kc}: toda rotação da espiral é uma ampliação dela (autossemelhança).
  3. Calcule o comprimento do arco θ(,θ0]\theta \in \intoc{-\infty}{\theta_0} (como limite dos comprimentos em [A,θ0]\intcc{A}{\theta_0}, AA \to -\infty) e observe que ele é finito: uma curva que espirala infinitas vezes em torno da origem, de comprimento finito.
Solução

Solução de Exercício 24.12.

  1. r=kekθr' = k\eu^{k\theta}, logo tanV=rr=1k\tan V = \frac{r}{r'} = \frac1k: constante. A espiral corta todo raio a partir da origem sob o mesmo ângulo V=arctan1kV = \arctan\frac1k.
  2. Em notação complexa a espiral é {ekθeiθ:θR}\{\eu^{k\theta} \eu^{\iu\theta} : \theta \in \R\}. Girar por cc multiplica por eic\eu^{\iu c}:

    ekθei(θ+c)=ekcek(θ+c)ei(θ+c),\eu^{k\theta}\eu^{\iu(\theta + c)} = \eu^{-kc}\,\eu^{k(\theta + c)}\eu^{\iu(\theta+c)} ,

    e, à medida que θ+c\theta + c percorre R\R, isto descreve ekc\eu^{-kc} vezes a espiral: rotação == homotetia. Nenhuma outra curva suave, além das retas e dos círculos, tem essa propriedade.

  3. r2+r2=1+k2ekθ\sqrt{r^2 + r'^2} = \sqrt{1 + k^2}\,\eu^{k\theta}, logo em [A,θ0]\intcc{A}{\theta_0} o comprimento é 1+k2k(ekθ0ekA)\frac{\sqrt{1+k^2}}{k}\bigl(\eu^{k\theta_0} - \eu^{kA}\bigr), e quando AA \to -\infty:

    L=1+k2kekθ0<:L = \frac{\sqrt{1 + k^2}}{k}\,\eu^{k\theta_0} < \infty :

    infinitas voltas em torno da origem, comprimento total finito (as voltas encolhem geometricamente).

24.6 Problema: a cicloide, rainha das curvas

Problema 24.1

Uma roda de raio RR rola sem escorregar ao longo do eixo xx; o ponto do aro inicialmente na origem traça a cicloide. O século XVII brigou por causa desta curva — Galileu pesou recortes de papel dela, Wren mediu-a, Roberval calculou a sua área, Huygens construiu relógios sobre ela — e cada um desses resultados está ao alcance deste capítulo. Demonstramos os quatro clássicos: a construção da tangente, o comprimento 8R8R de Wren, a área 3πR23\pi R^2, e a propriedade tautócrona de Huygens.

Parte I — O rolamento e a tangente.

  1. Depois de a roda ter girado um ângulo tt, o seu centro fica em Ω(t)=(Rt,R)\Omega(t) = (Rt, R) (rolamento sem escorregamento: distância de contato == arco rolado). Mostre que o ponto marcado está em

    M(t)=(R(tsint),  R(1cost)).M(t) = \bigl(R(t - \sin t),\; R(1 - \cos t)\bigr).
  2. Calcule f(t)f'(t) e mostre que f(t)=2Rsint2\norm{f'(t)} = 2R\,\abs{\sin\frac t2}; localize os pontos singulares (cúspides — cf. o Exercício 24.2) e o topo de cada arco.
  3. Seja C(t)=(Rt,0)C(t) = (Rt, 0) o ponto de contato e T(t)=(Rt,2R)T(t) = (Rt, 2R) o topo da roda. Demonstre que, para 0<t<2π0 < t < 2\pi, o vetor MCM - C é normal à curva em M(t)M(t) e o vetor TMT - M é tangente: para traçar a tangente a uma cicloide, ligue o ponto ao topo do seu círculo rolante. (Fatore tudo através de sint2\sin\frac t2 e cost2\cos\frac t2.)
  4. Interprete a questão 3 cinematicamente: o ponto de contato é o centro instantâneo de rotação, e a velocidade escalar de MM é igual à sua distância a CC (para velocidade angular unitária). Verifique MC=2Rsint2\norm{M - C} = 2R\abs{\sin\frac t2}.
  5. Demonstre a relação altura–velocidade

    f(t)2=2Ry(t):\norm{f'(t)}^2 = 2R\,y(t) :

    numa cicloide percorrida com velocidade angular unitária, a velocidade escalar em cada ponto é exatamente a velocidade de queda livre para uma descida igual à altura corrente. (Guarde isto para a Parte IV.)

Parte II — O teorema de Wren: o arco tem comprimento 8R8R.

  1. Usando a Definição 24.9, calcule o comprimento de um arco:

    L=02π2Rsint2 ⁣dt=8RL = \int_0^{2\pi} 2R\sin\frac t2\,\dd t = 8R

    (teorema de Wren, 1658). Quatro diâmetros de roda, e nenhum π\pi em lugar algum.

  2. Calcule o comprimento de arco a partir da cúspide: s(t)=4R(1cost2)s(t) = 4R\bigl(1 - \cos\frac t2\bigr), e verifique s(2π)=8Rs(2\pi) = 8R.
  3. Meça agora o arco a partir do ápice t=πt = \pi: σ(t)=4Rcost2\sigma(t) = \abs{4R\cos\frac t2}. Demonstre a relação intrínseca

    σ2=8R(2Ry):\sigma^2 = 8R\,\bigl(2R - y\bigr) :

    o quadrado da distância de arco desde o topo é proporcional à queda de altura abaixo do topo.

  4. Verificações de coerência: recupere da questão 8 que o meio arco do ápice à cúspide tem comprimento 4R4R, e compare com o cálculo da astroide do Exemplo 24.10 — as duas curvas têm comprimentos algébricos, sem π\pi; explique o que torna isso possível, embora ambas sejam construídas a partir de círculos. (Olhe para a forma de f\norm{f'}.)

Parte III — A área de Roberval: 3πR23\pi R^2.

  1. Justifique que a área entre um arco e o solo é A=02πy(t)x(t) ⁣dtA = \int_0^{2\pi} y(t)\,x'(t)\,\dd t (a substituição x=x(t)x = x(t) em y ⁣dx\int y\,\dd x, o Teorema 15.15; xx é crescente).
  2. Calcule

    A=R202π(1cost)2 ⁣dt=3πR2:A = R^2\int_0^{2\pi}(1 - \cos t)^2\,\dd t = 3\pi R^2 :

    exatamente três vezes a área da roda — a razão que Galileu havia adivinhado pesando.

  3. Mesmo método para a astroide (cos3t,sin3t)(\cos^3t, \sin^3t): mostre que a área encerrada é 3π8\frac{3\pi}8 (linearize sin4tcos2t\sin^4 t\cos^2 t; só o termo constante sobrevive ao longo de um período completo).
  4. Confira a fórmula da questão 10 no semicírculo unitário superior (cost,sint)(\cos t, \sin t), com tt indo de π\pi a 00: ela devolve π2\frac\pi2?

Parte IV — A tautócrona de Huygens. Vire o arco: uma conta desliza sem atrito, sob a gravidade gg, dentro da tigela cicloidal

x(t)=R(t+sint),y(t)=R(1cost)(t[π,π]),x(t) = R(t + \sin t), \qquad y(t) = R(1 - \cos t) \qquad (t \in \intcc{-\pi}{\pi}),

cujo ponto mais baixo é a origem (yy medido para cima).

  1. Calcule a velocidade escalar f(t)=2Rcost2\norm{f'(t)} = 2R\cos\frac t2, o comprimento de arco a partir do fundo s(t)=4Rsint2s(t) = 4R\sin\frac t2, e demonstre a identidade-chave

    y=s28R.y = \frac{s^2}{8R} .
  2. A conta solta em repouso a partir do ponto de parâmetro t0>0t_0 > 0 obedece à conservação da energia: se s(τ)s(\tau) designa a sua posição de arco no instante τ\tau, então 12( ⁣ds ⁣dτ)2+gy=gy0\frac12\bigl( \frac{\dd s}{\dd\tau}\bigr)^2 + g\,y = g\,y_0. Reescreva isto, usando a questão 14, como

    ( ⁣ds ⁣dτ) ⁣2=g4R(s02s2),s0=s(t0).\Bigl(\frac{\dd s}{\dd\tau}\Bigr)^{\!2} = \frac{g}{4R}\,\bigl(s_0^2 - s^2\bigr), \qquad s_0 = s(t_0).
  3. Derive em relação a τ\tau e obtenha o oscilador harmônico

     ⁣d2s ⁣dτ2=g4Rs;\frac{\dd^2 s}{\dd\tau^2} = -\frac{g}{4R}\,s ;

    resolva-o com o Teorema 5.10 e as condições iniciais: s(τ)=s0cos(ωτ)s(\tau) = s_0\cos(\omega\tau), ω=g/4R\omega = \sqrt{g/4R}.

  4. Deduza a propriedade tautócrona (Huygens, 1659): o tempo para chegar ao fundo,

    T=π2ω=πRg,T_{\downarrow} = \frac{\pi}{2\omega} = \pi\sqrt{\frac Rg}\,,

    não depende do ponto de largada — contas soltas ao mesmo tempo de quaisquer duas alturas da tigela chegam juntas.

  5. Verifique por substituição que s(τ)=s0cosωτs(\tau) = s_0\cos\omega\tau satisfaz exatamente a equação de energia de primeira ordem da questão 15 (e não apenas a equação derivada), e explique numa frase por que um pêndulo circular é apenas aproximadamente isócrono ao passo que a cicloide o é exatamente.
  6. Numericamente: qual raio RR faz o tempo de descida ser exatamente um segundo (g=9.81g = 9.81)? Note quão perto a resposta está de um metro, e como o período completo de oscilação 2π4R/g2\pi\sqrt{4R/g} se compara com a fórmula do pêndulo de pequenas oscilações 2π/g2\pi\sqrt{\ell/g} para =4R\ell = 4R.

Parte V — Dividendos, e síntese.

  1. Aplique a regra da tangente da questão 3 em t=π2t = \frac\pi2 (tome R=1R = 1): calcule MM, TT, a direção de MTMT, e confira contra f(π2)f'(\frac\pi2).
  2. (Trocoides) Marque em vez disso um ponto à distância dd do centro (dRd \neq R): a curva é x=Rtdsintx = Rt - d\sin t, y=Rdcosty = R - d\cos t. Mostre que, para d<Rd < R, a curva é regular em toda parte e não apresenta comportamento singular algum (x>0x' > 0: ela avança), ao passo que, para d>Rd > R, a abscissa xx' muda de sinal e a curva faz laços — a roda ferroviária com friso, cujos pontos do aro viajam para trás.
  3. (Prévia da braquistócrona) Da cúspide (πR,2R)(\pi R, 2R) da tigela até o fundo, compare o tempo de descida pela cicloide πR/g\pi\sqrt{R/g} com o tempo ao longo da rampa reta que liga os mesmos pontos (aceleração constante gsinαg\sin\alpha ao longo da corda): mostre que a corda leva π2+4R/g3.72R/g\sqrt{\pi^2 + 4}\,\sqrt{R/g} \approx 3.72\sqrt{R/g}. A curva vence a reta — ela é, de fato, a mais rápida de todas as curvas, um resultado do cálculo das variações.
  4. Mostre que, no arco (0<t<2π0 < t < 2\pi),

     ⁣dy ⁣dx=cott2, ⁣d2y ⁣dx2=14Rsin4t2<0:\frac{\dd y}{\dd x} = \cot\frac t2, \qquad \frac{\dd^2 y}{\dd x^2} = -\frac{1}{4R\sin^4\frac t2} < 0 :

    o arco é côncavo, com tangentes verticais exatamente nas cúspides.

  5. Recupere geometricamente a tangente vertical na cúspide do Exercício 24.2: calcule a direção limite da corda MTMT da questão 3 quando t0+t \to 0^{+}, sem expansão alguma.
  6. Síntese, em quatro frases: quais três teoremas nomeados este problema demonstrou (com os seus números 8R8R, 3πR23\pi R^2, πR/g\pi\sqrt{R/g} e os seus autores); qual único artifício de cálculo (as fatorações sint2\sin\frac t2, cost2\cos\frac t2) alimentou todas as Partes I, II e IV; como a relação intrínseca y=s2/8Ry = s^2/8R converteu geometria numa equação diferencial linear; e em qual capítulo deste livro cada Parte se apoiou.
Solução

Solução de Problema 24.1.

1. Rolar sem escorregar significa que o ponto de contato percorreu uma distância igual ao arco de roda desenrolado: depois de girar por tt, o centro está em (Rt,R)(Rt, R). O ponto marcado fica no aro, num ângulo tt atrás da vertical descendente (a roda gira no sentido horário enquanto avança):

M(t)=Ω(t)+R(sint,cost)=(R(tsint), R(1cost)),M(t) = \Omega(t) + R(-\sin t, -\cos t) = \bigl(R(t - \sin t),\ R(1 - \cos t)\bigr),

o que é correto em t=0t = 0 (M=(0,0)M = (0,0)) e em t=πt = \pi (M=(πR,2R)M = (\pi R, 2R), o topo).

2. f(t)=R(1cost, sint)f'(t) = R(1 - \cos t,\ \sin t) e

f2=R2((1cost)2+sin2t)=2R2(1cost)=4R2sin2t2,\norm{f'}^2 = R^2\bigl((1-\cos t)^2 + \sin^2 t\bigr) = 2R^2(1 - \cos t) = 4R^2\sin^2\frac t2 ,

logo f=2Rsint2\norm{f'} = 2R\abs{\sin\frac t2}. Pontos singulares em t2πZt \in 2\pi\Z: as cúspides no solo (o Exercício 24.2); o topo do arco é t=πt = \pi, onde a velocidade 2R2R é máxima.

3. Fatorações de meio ângulo:

f(t)=2Rsint2(sint2, cost2),MC=2Rsint2(cost2, sint2),f'(t) = 2R\sin\frac t2\,\Bigl(\sin\frac t2,\ \cos\frac t2\Bigr), \quad M - C = 2R\sin\frac t2\,\Bigl(-\cos\frac t2,\ \sin\frac t2\Bigr),
TM=(Rsint, R(1+cost))=2Rcost2(sint2, cost2).T - M = \bigl(R\sin t,\ R(1 + \cos t)\bigr) = 2R\cos\frac t2\,\Bigl(\sin\frac t2,\ \cos\frac t2\Bigr).

Para 0<t<2π0 < t < 2\pi, sint20\sin\frac t2 \neq 0: MCM - C é ortogonal à direção tangente (sint2,cost2)\bigl(\sin\frac t2, \cos\frac t2\bigr) (o produto deles é sint2cost2+sint2cost2=0-\sin\frac t2\cos\frac t2 + \sin\frac t2\cos\frac t2 = 0), e TMT - M é paralelo a ela. A corda até o topo da roda é a tangente; a corda até o ponto de contato é a normal.

4. A cada instante a roda pivota em torno do seu ponto de contato (esse ponto tem velocidade nula: rolamento sem escorregamento), logo todo ponto rígido da roda move-se ortogonalmente à reta que o liga a CC, com velocidade escalar (velocidade angular 11) igual a essa distância. Verificação: MC=2Rsint2=f(t)\norm{M - C} = 2R\abs{\sin\frac t2} = \norm{f'(t)}.

5. 2Ry(t)=2R2Rsin2t2=4R2sin2t2=f(t)22R\,y(t) = 2R\cdot 2R\sin^2\frac t2 = 4R^2\sin^2\frac t2 = \norm{f'(t)}^2. A velocidade escalar à altura yy é 2Ry\sqrt{2R\,y} — formalmente a lei v=2ghv = \sqrt{2gh} da queda livre, com o solo fazendo o papel de teto; a Parte IV transforma esta observação em maquinaria de relógio.

6. Pela Definição 24.9 e pela questão 2 (sint20\sin\frac t2 \geq 0 em [0,2π]\intcc{0}{2\pi}):

L=02π2Rsint2 ⁣dt=2R[2cost2]02π=2R(2+2)=8R.L = \int_0^{2\pi} 2R\sin\frac t2\,\dd t = 2R\Bigl[-2\cos\frac t2\Bigr]_0^{2\pi} = 2R(2 + 2) = 8R .

O teorema de Wren: exatamente quatro diâmetros.

7. s(t)=0t2Rsinu2 ⁣du=4R(1cost2)s(t) = \int_0^t 2R\sin\frac u2\,\dd u = 4R\bigl(1 - \cos\frac t2\bigr); s(2π)=4R(1+1)=8Rs(2\pi) = 4R(1+1) = 8R, coerente.

8. σ(t)=s(t)s(π)=4R(1cost2)4R=4Rcost2\sigma(t) = \abs{s(t) - s(\pi)} = \abs{4R(1 - \cos\frac t2) - 4R} = 4R\abs{\cos\frac t2}, logo σ2=16R2cos2t2\sigma^2 = 16R^2\cos^2\frac t2; e 2Ry=R(1+cost)=2Rcos2t22R - y = R(1 + \cos t) = 2R\cos^2\frac t2, donde 8R(2Ry)=16R2cos2t2=σ28R(2R - y) = 16R^2\cos^2\frac t2 = \sigma^2.

9. Na cúspide t=0t = 0 (ou 2π2\pi): σ=4R\sigma = 4R, metade de 8R8R: o ápice divide o arco ao meio. Nos dois cálculos a velocidade escalar é polinoˆmio trigonomeˊtrico em t/2\abs{\text{polinômio trigonométrico em } t/2}, cuja primitiva é de novo trigonométrica: o comprimento é uma diferença de valores de cossenos — números racionais vezes RR — sem nenhum arco de círculo a medir, logo sem π\pi. O próprio círculo tem velocidade constante, de modo que a sua integral de comprimento produz o comprimento total do intervalo, 2π2\pi; a velocidade da cicloide anula-se nas extremidades e integra-se algebricamente.

10. O arco é percorrido com xx crescendo de 00 a 2πR2\pi R (x=R(1cost)0x' = R(1 - \cos t) \geq 0, anulando-se apenas em pontos isolados). Substituir x=x(t)x = x(t) na integral de área 02πRy ⁣dx\int_0^{2\pi R} y\,\dd x (o Teorema 15.15) dá A=02πy(t)x(t) ⁣dtA = \int_0^{2\pi} y(t)\,x'(t)\,\dd t.

11.

A=02πR(1cost)R(1cost) ⁣dt=R202π(12cost+cos2t) ⁣dt=R2(2π0+π)=3πR2,A = \int_0^{2\pi} R(1 - \cos t)\cdot R(1 - \cos t)\,\dd t = R^2\int_0^{2\pi}\bigl(1 - 2\cos t + \cos^2 t\bigr)\dd t = R^2\Bigl(2\pi - 0 + \pi\Bigr) = 3\pi R^2 ,

usando 02πcos2=π\int_0^{2\pi}\cos^2 = \pi. Exatamente três áreas de roda: a balança de Galileu dizia “cerca de 33”; o cálculo de Roberval diz “exatamente”.

12. Com x=cos3tx = \cos^3 t, y=sin3ty = \sin^3 t: yx=3sin4tcos2ty\,x' = -3\sin^4 t\cos^2 t. Linearize:

sin4tcos2t=1cos2t2sin22t4=sin22t8sin22tcos2t8,\sin^4 t\cos^2 t = \frac{1 - \cos 2t}{2}\cdot\frac{\sin^2 2t}{4} = \frac{\sin^2 2t}{8} - \frac{\sin^2 2t\cos 2t}{8} ,

e em [0,2π]\intcc{0}{2\pi}: sin22t=π\int\sin^2 2t = \pi, sin22tcos2t=[sin32t6]=0\int \sin^2 2t\cos 2t = \bigl[\frac{\sin^3 2t}{6}\bigr] = 0. Logo y ⁣dx=3π8\oint y\,\dd x = -3\cdot\frac\pi8, e a área encerrada é 3π8\frac{3\pi}8 (o sinal registra a orientação anti-horária).

13. Para (cost,sint)(\cos t, \sin t) com tt indo de π\pi a 00, xx cresce de 1-1 a 11 e

π0sint(sint) ⁣dt=0πsin2t ⁣dt=π2:\int_\pi^0 \sin t\cdot(-\sin t)\,\dd t = \int_0^\pi \sin^2 t\,\dd t = \frac\pi2 :

a fórmula devolve a área do semidisco superior, como deve.

14. x=R(1+cost)=2Rcos2t2x' = R(1 + \cos t) = 2R\cos^2\frac t2, y=Rsint=2Rsint2cost2y' = R\sin t = 2R\sin\frac t2\cos\frac t2, logo f=2Rcost2\norm{f'} = 2R\cos\frac t2 (não negativa em [π,π]\intcc{-\pi}{\pi}). Arco a partir do fundo: s(t)=0t2Rcosu2 ⁣du=4Rsint2s(t) = \int_0^t 2R\cos\frac u2\,\dd u = 4R\sin\frac t2. Então

y=R(1cost)=2Rsin2t2=2R(s4R) ⁣2=s28R.y = R(1 - \cos t) = 2R\sin^2\frac t2 = 2R\Bigl(\frac{s}{4R}\Bigr)^{\!2} = \frac{s^2}{8R} .

15. Conservação da energia com v= ⁣ds ⁣dτv = \frac{\dd s}{\dd\tau} e y=s28Ry = \frac{s^2}{8R}, y0=s028Ry_0 = \frac{s_0^2}{8R}:

( ⁣ds ⁣dτ) ⁣2=2g(y0y)=2g8R(s02s2)=g4R(s02s2).\Bigl(\frac{\dd s}{\dd\tau}\Bigr)^{\!2} = 2g(y_0 - y) = \frac{2g}{8R}\bigl(s_0^2 - s^2\bigr) = \frac{g}{4R}\bigl(s_0^2 - s^2\bigr).

16. Derivando em τ\tau: 2ss=g4R2ss2s's'' = -\frac{g}{4R}\,2ss', logo, onde quer que s0s' \neq 0 (e portanto em toda parte, por continuidade), s=g4Rss'' = -\frac{g}{4R}s: o oscilador harmônico. Pelo Teorema 5.10, s(τ)=Acosωτ+Bsinωτs(\tau) = A\cos\omega\tau + B\sin\omega\tau com ω=g/(4R)\omega = \sqrt{g/(4R)}; as condições iniciais s(0)=s0s(0) = s_0, s(0)=0s'(0) = 0 dão s(τ)=s0cosωτs(\tau) = s_0\cos\omega\tau.

17. A conta atinge o fundo quando s=0s = 0, isto é, em ωτ=π2\omega\tau = \frac\pi2:

T=π2ω=π24Rg=πRg,T_{\downarrow} = \frac{\pi}{2\omega} = \frac\pi2\sqrt{\frac{4R}{g}} = \pi\sqrt{\frac Rg}\,,

independente de s0s_0: soltas de qualquer lugar da tigela, todas as contas chegam no mesmo instante — a tautócrona.

18. Substituindo s=s0cosωτs = s_0\cos\omega\tau: o lado esquerdo é s02ω2sin2ωτs_0^2\omega^2\sin^2\omega\tau e o lado direito é g4Rs02(1cos2ωτ)=s02ω2sin2ωτ\frac{g}{4R}s_0^2(1 - \cos^2\omega\tau) = s_0^2\omega^2\sin^2\omega\tau: igualdade exata, logo nenhuma solução espúria foi introduzida. Para um arco circular, yy não é proporcional a s2s^2 (y=(1coss)=s22s4243+y = \ell(1 - \cos\frac s\ell) = \frac{s^2}{2\ell} - \frac{s^4}{24\ell^3} + \dots): o termo restaurador é apenas aproximadamente linear, de modo que o período de um pêndulo circular varia com a amplitude, ao passo que o da cicloide é rigorosamente constante.

19. πR/g=1\pi\sqrt{R/g} = 1R=gπ29.819.870.994R = \frac{g}{\pi^2} \approx \frac{9.81}{9.87} \approx 0.994 m — quase exatamente um metro. A oscilação completa leva 2πω=2π4R/g\frac{2\pi}\omega = 2\pi\sqrt{4R/g}, que é precisamente a fórmula de pequenas oscilações 2π/g2\pi\sqrt{\ell/g} para um pêndulo de comprimento =4R\ell = 4R: Huygens suspendeu o seu pêndulo entre faces cicloidais exatamente dessa proporção.

20. Em t=π2t = \frac\pi2, R=1R = 1: M=(π21, 1)M = \bigl(\frac\pi2 - 1,\ 1\bigr), T=(π2, 2)T = \bigl(\frac\pi2,\ 2\bigr), logo TM=(1,1)T - M = (1, 1). E f(π2)=(10, 1)=(1,1)f'(\frac\pi2) = (1 - 0,\ 1) = (1, 1): a corda até o topo é a velocidade, como prometido.

21. Para a trocoide, x(t)=Rdcostx'(t) = R - d\cos t e y(t)=dsinty'(t) = d\sin t. Se d<Rd < R: xRd>0x' \geq R - d > 0, o ponto sempre avança; a velocidade nunca se anula (a sua primeira componente é positiva): nenhum ponto singular, uma onda regular. Se d>Rd > R: x(0)=Rd<0<R+d=x(π)x'(0) = R - d < 0 < R + d = x'(\pi), logo o ponto move-se para trás perto dos instantes de contato e para a frente nos demais: a curva cruza-se a si mesma em laços. Um ponto no friso de uma roda ferroviária (abaixo do boleto do trilho, d>Rd > R) viaja para trás a cada volta.

22. A corda da cúspide (πR,2R)(\pi R, 2R) até a origem tem comprimento L=Rπ2+4L = R\sqrt{\pi^2 + 4} e ângulo de inclinação α\alpha com sinα=2RL\sin\alpha = \frac{2R}{L}. Deslizando do repouso com aceleração constante gsinαg\sin\alpha: L=12gsinαT2L = \frac12 g\sin\alpha\,T^2, logo

T=2Lgsinα=2L22Rg=LRg=π2+4Rg3.72Rg,T = \sqrt{\frac{2L}{g\sin\alpha}} = \sqrt{\frac{2L^2}{2Rg}} = \frac{L}{\sqrt{Rg}} = \sqrt{\pi^2 + 4}\,\sqrt{\frac Rg} \approx 3.72\sqrt{\frac Rg}\,,

contra πR/g3.14R/g\pi\sqrt{R/g} \approx 3.14\sqrt{R/g} para a cicloide: o caminho curvo é mais rápido. Ele é, de fato, o mais rápido possível — a braquistócrona — um teorema do cálculo das variações, além deste volume.

23.  ⁣dy ⁣dx=yx=sint1cost=cott2\dfrac{\dd y}{\dd x} = \dfrac{y'}{x'} = \dfrac{\sin t}{1 - \cos t} = \cot\dfrac t2 (fórmulas de meio ângulo). Então

 ⁣d2y ⁣dx2= ⁣d ⁣dt(cott2)1x(t)=12sin2t212Rsin2t2=14Rsin4t2<0:\frac{\dd^2y}{\dd x^2} = \frac{\dd}{\dd t}\Bigl(\cot\frac t2\Bigr)\cdot\frac{1}{x'(t)} = -\frac{1}{2\sin^2\frac t2}\cdot\frac{1}{2R\sin^2\frac t2} = -\frac{1}{4R\sin^4\frac t2} < 0 :

côncavo ao longo de todo o arco; quando t0+t \to 0^+ ou 2π2\pi^-, o coeficiente angular cott2±\cot\frac t2 \to \pm\infty: tangentes verticais nas cúspides.

24. A direção da corda é TM(sint2,cost2)T - M \parallel \bigl(\sin\frac t2, \cos\frac t2\bigr), que tende a (0,1)(0, 1) quando t0+t \to 0^{+}: a tangente na cúspide é vertical — recuperada por pura geometria, sem nenhuma expansão de Taylor.

25. (i) O teorema de Wren, L=8RL = 8R; a área de Roberval, A=3πR2A = 3\pi R^2 (a razão 33 conjecturada por Galileu); a tautócrona de Huygens, T=πR/gT_\downarrow = \pi\sqrt{R/g}. (ii) Todo cálculo apoiou-se nas fatorações de meio ângulo f=2Rsint2(sint2,cost2)f' = 2R\sin\frac t2(\sin\frac t2, \cos\frac t2) e no seu análogo para a tigela — uma única identidade alimentando tangente, comprimento e relógio. (iii) A relação intrínseca y=s2/8Ry = s^2/8R converteu a equação de energia em s=g4Rss'' = -\frac{g}{4R}s, uma equação linear de coeficientes constantes cujas soluções são exatamente isócronas. (iv) A Parte I usou o cálculo diferencial do Capítulo 14, as Partes II–III a integral do Capítulo 15, e a Parte IV as equações diferenciais do Capítulo 5 — a cicloide é o currículo deste livro enrolado numa só curva.