Matemática universitária — Graduação 1 · Graduação — Ano 1
8Polinômios
Os polinômios são as funções prediletas do algebrista — salvo que aqui eles não são tratados como funções, e sim como expressões formais numa indeterminada X, somadas e multiplicadas pelas regras de um anel comutativo. A teoria corre de modo notavelmente paralelo ao Capítulo 6: uma divisão euclidiana, um mdc e relações de Bézout, elementos irredutíveis e uma fatoração única. Ao longo do capítulo, K denota Q, R ou C.
8.1 O anel K[X]
Definição 8.1(Polinômio, grau)
Um polinômio com coeficientes em K é uma soma formal
P=a0+a1X+a2X2+⋯+anXn=k∑akXk,
com ak∈K todos nulos a partir de um certo índice. Com a adição natural e o produto
(i∑aiXi)(j∑bjXj)=k∑(i+j=k∑aibj)Xk,
o conjuntoK[X] é um anel comutativo. O graudegP de P=0 é o maior n com an=0; an é o coeficiente líder (P é mônico quando an=1) e, por convenção, deg0=−∞. Todo polinômio define uma função x↦P(x) em K por substituição.
Proposição 8.2(Regras dos graus; domínio de integridade)
Para P,Q∈K[X]:
deg(P+Q)≤max(degP,degQ),deg(PQ)=degP+degQ.
Consequentemente, K[X] é um domínio de integridade, e as suas unidades são as constantes não nulas.
Demonstração. A regra da soma é clara (os coeficientes acima do máximo se anulam). Para o produto, sejam am e bn os coeficientes líderes: o coeficiente de Xm+n em PQ é ambn=0 (K é um corpo, logo um domínio de integridade), e todos os coeficientes superiores se anulam. Se P,Q=0, então degPQ=degP+degQ≥0, de modo que PQ=0: domínio de integridade. Se PQ=1, então degP+degQ=0 força degP=degQ=0: os elementos invertíveis são as constantes invertíveis, isto é, todo o K∗. ∎
Teorema 8.3(Divisão euclidiana)
Sejam A,B∈K[X] com B=0. Existe exatamente um par (Q,R) de polinômios com
A=BQ+R,degR<degB.
Demonstração.Existência, por indução forte em degA. Se degA<degB, tome (Q,R)=(0,A). Caso contrário, escreva A=aXm+…, B=bXn+… com m≥n; o polinômioA1=A−baXm−nB tem grau <m (os termos líderes se cancelam), de modo que, por indução, A1=BQ1+R com degR<degB, e A=B(Q1+baXm−n)+R.
Unicidade: se BQ+R=BQ′+R′, então B(Q−Q′)=R′−R com deg(R′−R)<degB; pela regra dos graus, isso força Q−Q′=0 e, em seguida, R=R′. ∎
Exemplo 8.4
Divida A=X4+X3−2X+1 por B=X2+1:
X4+X3−2X+1=(X2+1)(X2+X−1)+(−3X+2).
(Cálculo: subtraia X2B, depois XB, depois −B; o resto −3X+2 tem grau 1<2.)
Método 8.5(Esquema de Horner)
Para avaliar P=anXn+⋯+a0 em x, ou para dividir P por X−x, evite calcular potências: leia os coeficientes da esquerda para a direita e itere multiplique por x, some o próximo coeficiente:
bn=an,bk=ak+xbk+1(k=n−1,…,0).
Então b0=P(x) e os bk anteriores são os coeficientes do quociente: P=(X−x)(bnXn−1+⋯+b1)+b0 (expanda e compare). Exemplo: P=X4−5X3+6X2+4X−8 em x=2: os b valem 1,−3,0,4,0, de modo que P(2)=0 e P=(X−2)(X3−3X2+4) — uma linha em vez de uma longa divisão, e n multiplicações em vez das ≈n2/2 da avaliação ingênua. Iterar o esquema no mesmo ponto extrai as multiplicidades (compare com o Exemplo 8.12).
Observação 8.6(A aritmética de K[X])
Com a divisão euclidiana em mãos, toda a aritmética do Capítulo 6 se transfere para K[X], com as mesmas demonstrações, sendo o grau o papel do valor absoluto: mdc (normalizado para ser mônico), algoritmo de Euclides estendido, identidade de Bézout, lema de Gauss, polinômios irredutíveis e fatoração única. Usamos livremente esses resultados transferidos, e o Exercício 8.6 reencena um deles.
8.2 Raízes
Teorema 8.7(Teorema do fator)
Sejam P∈K[X] e a∈K. O resto de P na divisão por X−a é a constante P(a). Em particular,
P(a)=0⟺(X−a)∣P.
Mais geralmente, raízes distintas a1,…,ar de P dão a fatoração P=(X−a1)⋯(X−ar)Q.
Demonstração. Divida: P=(X−a)Q+R com degR<1, de modo que R é uma constante c; substituindo X=a (a substituição respeita somas e produtos), obtém-se P(a)=c. A equivalência segue. Para várias raízes, faça indução em r: o caso r=1 é a equivalência recém-demonstrada. Suponha o enunciado para r−1 raízes e sejam a1,…,ar raízes distintas de P. Escreva P=(X−a1)Q1; para cada i≥2, substituindo ai:
0=P(ai)=(ai−a1)Q1(ai),ai−a1=0,
e, como K não tem divisores de zero, Q1(ai)=0: os r−1 pontos distintos a2,…,ar são raízes de Q1. A hipótese de indução fatora Q1=(X−a2)⋯(X−ar)Q, e substituir de volta dá a afirmação. ∎
Corolário 8.8(Um polinômio de grau n tem no máximo n raízes)
Um P∈K[X] não nulo de grau n tem no máximo n raízes distintas em K. Consequentemente, um polinômio (de grau ≤n) que se anula em n+1 pontos distintos é o polinômio nulo, e dois polinômios de grau ≤n que coincidem em n+1 pontos são iguais.
Demonstração. Se a1,…,ar são raízes distintas, o Teorema 8.7 dá P=(X−a1)⋯(X−ar)Q, de modo que n=degP≥r. As duas consequências decorrem por absurdo e por diferença. ∎
ele existe e é único pela interpolação de Lagrange, abaixo. Quanto vale P(n+1)? Elimine os denominadores: o polinômioQ=(X+1)P−X tem grau ≤n+1 e se anula nos n+1 pontos 0,1,…,n, de modo que, pelo Teorema 8.7,
Q=cX(X−1)(X−2)⋯(X−n)
para alguma constante c. Avalie onde Q é conhecido de modo independente: em X=−1, Q(−1)=0⋅P(−1)+1=1, ao passo que o produto vale (−1)(−2)⋯(−1−n)=(−1)n+1(n+1)!; portanto, c=(n+1)!(−1)n+1. Agora avalie em X=n+1:
(n+2)P(n+1)−(n+1)=Q(n+1)=c(n+1)!=(−1)n+1,
de modo que P(n+1)=n+2(n+1)+(−1)n+1: igual a 1 para n ímpar, e a n+2n para n par — o polinômio interpolador não continua o padrão n+2n+1. O truque a reter: codifique os dados como raízes de um polinômio auxiliar, identifique a constante desconhecida num ponto fora dos dados e colha o resultado.
Definição 8.10(Derivada, multiplicidade)
A derivada formal de P=∑akXk é P′=∑k≥1kakXk−1; ela satisfaz as regras usuais (P+Q)′=P′+Q′, (PQ)′=P′Q+PQ′ (verificadas nos monômios e estendidas por linearidade). Uma raiz a de P tem multiplicidadem≥1 quando (X−a)m∣P, mas (X−a)m+1∤P; a raiz é simples se m=1, e múltipla se m≥2.
Em particular, a é raiz múltipla de P se, e somente se, P(a)=P′(a)=0.
Demonstração. Escreva P=(X−a)mQ+R, em que R é o resto da divisão por (X−a)m, degR<m. Derivando k≤m−1 vezes e avaliando em a: o primeiro termo contribui com 0 (cada derivada retém um fator (X−a)), de modo que P(k)(a)=R(k)(a).
Ora, um polinômioR de grau <m fica determinado por R(a),R′(a),…,R(m−1)(a): escrevendo R=∑k<mck(X−a)k (o que é possível: expanda as potências de X=(X−a)+a), encontra-se R(k)(a)=k!ck. Portanto: todos os P(k)(a)=0 para k<m⟺ todos os ck=0⟺R=0⟺(X−a)m∣P. ∎
Exemplo 8.12(Calculando uma multiplicidade)
Qual é a multiplicidade da raiz 2 em P=X4−5X3+6X2+4X−8? Avalie as derivadas sucessivas em 2:
P(2)=16−40+24+8−8=0,P′(2)=32−60+24+4=0,
P′′(2)=48−60+12=0,P′′′(2)=48−30=18=0
(com P′=4X3−15X2+12X+4, P′′=12X2−30X+12, P′′′=24X−30). Três valores nulos e depois um não nulo: multiplicidade exatamente 3. Dividindo, P=(X−2)3(X+1) — o que se confere expandindo (X−2)3=X3−6X2+12X−8 e multiplicando por X+1. A ideia: as multiplicidades são lidas em avaliações, sem necessidade de fatoração — e é exatamente assim que se as detecta quando a fatoração está fora de alcance.
Exemplo 8.13(Detectando raízes múltiplas com um mdc)
Quando nenhuma raiz é conhecida, a Proposição 8.11 ainda fornece um detector global de raízes múltiplas: a é raiz múltipla de P se, e somente se, é raiz comum de P e P′, de modo que P tem raiz múltipla (em C) se, e somente se, gcd(P,P′)=1 — o que é computável pelo algoritmo de Euclides sem resolver nada. Exemplo: P=X3−3X+2, P′=3X2−3=3(X−1)(X+1). Testando as raízes ±1 de P′ dentro de P: P(1)=0, mas P(−1)=4, logo
gcd(P,P′)=X−1:
a raiz 1 é múltipla; dividindo duas vezes, P=(X−1)2(X+2). O mdc chega a relatar o conjunto completo das raízes múltiplas, cada uma com multiplicidade abaixada de uma unidade — fato que todo sistema de álgebra computacional explora para “fatorar sem quadrados” antes de qualquer caça a raízes, e o gêmeo polinomial dos argumentos de ausência de raiz múltipla do Exercício 8.9.
Teorema 8.14(Teorema fundamental da álgebra)
Todo polinômio não constante de C[X] tem uma raiz em C.
Demonstração.Admitido neste nível.∎
Observação 8.15
Apesar do nome, o teorema é um enunciado de análise: toda demonstração conhecida usa a completude de R de alguma forma, e nenhuma é puramente algébrica — a demonstração honesta é dada no volume do terceiro ano de graduação, uma vez disponíveis a integração complexa ou argumentos de compacidade. O que este capítulo genuinamente demonstra é a redução: concedida uma raiz para todo polinômio não constante, as fatorações completas sobre C e sobre R abaixo decorrem por pura álgebra.
Corolário 8.16(Fatoração sobre C e sobre R)
Todo P∈C[X] não nulo se fatora como
P=c(X−a1)m1⋯(X−ar)mr,
com c o coeficiente líder, ai as raízes complexas distintas e ∑mi=degP: contadas com multiplicidade, um polinômio de grau n tem exatamente n raízes complexas.
Todo P∈R[X] não nulo se fatora sobre R como
P=ci∏(X−ai)mij∏(X2+pjX+qj)nj,
sendo os fatores quadráticos distintos e com pj2−4qj<0 (sem raízes reais).
Demonstração. (1) Indução no grau, destacando uma raiz de cada vez pelo Teorema 8.7; a contagem dos graus fecha em cada passo.
(2) Seja P com coeficientes reais. Se z é raiz complexa de multiplicidadem, então z também é: conjugar P(z)=0 dá P(z)=P(z)=0 (os coeficientes são os seus próprios conjugados), e o mesmo se aplica às derivadas (Proposição 8.11). Agrupe as raízes não reais em pares conjugados: cada par contribui com
(X−z)(X−z)=X2−2ℜ(z)X+∣z∣2,
uma quadrática real de discriminante negativo. As raízes reais contribuem com os fatores lineares. ∎
Exemplo 8.17
X4+4 foi fatorado sobre R no Exercício 3.5, emparelhando as quatro raízes complexas ±1±i: X4+4=(X2−2X+2)(X2+2X+2). Nenhuma das quadráticas se decompõe sobre R (discriminantes −4). Note: um polinômio real irredutível tem grau 1 ou 2 — é exatamente o que o teorema de fatoração diz. O mesmo emparelhamento de conjugados aplicado a X4+1, cujas raízes são e±iπ/4 e e±3iπ/4: cada par contribui com X2−2cosθX+1, de modo que
X4+1=(X2−2X+1)(X2+2X+1),
uma identidade invisível a tentativas ingênuas de fatoração sobre Q — o preço de insistir em coeficientes reais (aqui, até irracionais) e um insumo padrão para integrar x4+11 no Capítulo 15.
O polinômio de Chebyshev T5=16X5−20X3+5X em [−1,1]: ele oscila exatamente entre −1 e 1, tocando os limites em seis pontos (marcados). Essa equioscilação é o que faz de 2−4T5 a quíntica mônica de menor norma do supremo no intervalo (Exercício 8.10 e problema de fim de semana).
Observação 8.18(Armadilhas frequentes com polinômios)
Polinômio versus função. Sobre K=Q,R,C as duas noções coincidem (funções iguais têm coeficientes iguais, pelo Corolário 8.8 e pela infinitude de K), mas conceitualmente um polinômio é a sua lista de coeficientes: sobre o corpo de dois elementos Z/2Z do Capítulo 7, X2+X se anula nos dois pontos e, no entanto, não é o polinômio nulo.
Graus sob adição.deg(P+Q) pode cair abaixo de max(degP,degQ) quando os termos líderes se cancelam; escrever “deg(P+Q)=max(…)” só é seguro para graus distintos.
Contar as raízes corretamente. “n raízes” no Corolário 8.16 significa com multiplicidade, em C: X2+1 não tem raízes reais, e (X−1)2 tem uma raiz distinta, mas duas com multiplicidade. Enunciados que misturam as três contagens são a fonte mais comum de demonstrações falsas.
A irredutibilidade depende do corpo.X2−2 é irredutível sobre Q e se decompõe sobre R; X2+1 é irredutível sobre R e se decompõe sobre C. A palavra solta “irredutível” nada significa enquanto não se nomear o corpo dos coeficientes.
8.3 Coeficientes e raízes
Teorema 8.19(Relações de Girard)
Seja P=Xn+cn−1Xn−1+⋯+c0mônico, com raízes a1,…,an∈C (com multiplicidade). Então
sendo a k-ésima função simétrica das raízes igual a (−1)kcn−k.
Demonstração. Pelo Corolário 8.16, P=(X−a1)⋯(X−an) (mônico, todas as raízes listadas). Expandir o produto distributivamente produz um termo por escolha, em cada fator, de X ou do termo de raiz −ai: escolher as raízes nos fatores de índices i1<⋯<ik e X nos n−k restantes contribui com (−ai1)⋯(−aik)Xn−k. Agrupando pela potência de X:
P=k=0∑n(−1)k(i1<⋯<ik∑ai1⋯aik)Xn−k,
e identificar com P=∑kcn−kXn−k (os coeficientes são únicos, Definição 8.1) dá cn−k=(−1)kσk, isto é, σk=(−1)kcn−k, em que σk denota a k-ésima função simétrica exibida acima. Os três casos exibidos são k=1, k=2 e k=n. ∎
Exemplo 8.20
Para a quadrática X2−sX+p: soma das raízes s, produto p — já usados repetidamente (Exercício 3.8). Para uma cúbica mônicaX3+aX2+bX+c com raízes α,β,γ:
α+β+γ=−a,αβ+βγ+γα=b,αβγ=−c,
o que permite calcular grandezas simétricas como α2+β2+γ2=a2−2b sem resolver nada.
Exemplo 8.21(Transformar as raízes sem encontrá-las)
Sejam α,β as raízes de X2−3X+1. Que quadrática mônica tem raízes α2,β2? Por Girard, α+β=3 e αβ=1, de modo que
α2+β2=(α+β)2−2αβ=7,α2β2=(αβ)2=1:
a resposta é X2−7X+1 — obtida sem calcular α=23+5. (Verificação: α2=27+35, e de fato α2+β2=7.) A mesma estratégia trata os inversos (transformações do tipo X2−abX+ac), translações e quaisquer dados simétricos: as relações de Girard convertem perguntas sobre raízes desconhecidas em álgebra sobre coeficientes conhecidos. Elas servirão constantemente quando as raízes forem autovalores (Capítulo 22).
Exemplo 8.22(Equações recíprocas)
Resolva X4+X3−4X2+X+1=0. Os coeficientes se leem do mesmo modo nos dois sentidos, de sorte que 0 não é raiz e dividir por X2 não perde soluções:
X2+X−4+X1+X21=0.
Ponha y=X+X1: então X2+X21=y2−2, e a equação colapsa em
y2+y−6=0⟺(y+3)(y−2)=0.
Desdobre cada valor por meio de X2−yX+1=0: para y=2, X2−2X+1=(X−1)2 dá a raiz dupla 1; para y=−3, X2+3X+1=0 dá X=2−3±5. Quatro raízes com multiplicidade para uma quártica, como o Corolário 8.16 exige — obtidas resolvendo duas quadráticas. O truque cobre todo polinômiorecíproco: as suas raízes vêm em pares inversos {x,1/x} (substitua X por 1/X e elimine denominadores), e y=X+X1 é precisamente a grandeza constante em tais pares, reduzindo o grau à metade.
Teorema 8.23(Interpolação de Lagrange)
Sejam x0,…,xn pontos distintos de K e y0,…,yn∈K. Existe exatamente um P∈K[X] de grau ≤n com P(xi)=yi para todo i, a saber
P=i=0∑nyiLi,Li=j=i∏xi−xjX−xj.
Demonstração. Cada Li tem grau n e satisfaz Li(xi)=1, Li(xj)=0 para j=i (cada fator se anula no xj correspondente). Logo, o P exibido tem grau ≤n e interpola. Unicidade: dois polinômios interpoladores de grau ≤n coincidem nos n+1 pontos xi e, portanto, são iguais (Corolário 8.8). ∎
Observação 8.24(Interlúdio: polinômios também são vetores)
Uma mudança de ponto de vista que o Capítulo 18 tornará oficial: os polinômios de grau ≤n formam um espaço em que a adição e a multiplicação por escalar se comportam exatamente como coordenadas — um polinômioé a sua lista de n+1 coeficientes. Três enunciados deste capítulo são álgebra linear disfarçada. A interpolação de Lagrange (Teorema 8.23) diz que os dados de avaliação (P(x0),…,P(xn)) determinam P de modo único: avaliar em n+1 pontos é uma bijeção linear, e os Li são a base adaptada a ela. A expansão R=∑ck(X−a)k na demonstração da Proposição 8.11 diz que as potências de (X−a) formam outro sistema de coordenadas, com ck=R(k)(a)/k! como coordenadas. E o Corolário 8.8 — mais raízes que o grau força o polinômio nulo — é o motor de todas as unicidades: ele se tornará “uma aplicação linear injetiva num espaço de dimensão n+1” no Capítulo 19. Quando esses capítulos chegarem, o espaço Kn[X] será o seu exemplo predileto; vale chegar lá já fluente nele.
Observação 8.25(Onde este capítulo é usado)
A fatoração sobre R e C (Corolário 8.16) é o motor das frações parciais no Capítulo 9, logo de uma vasta classe de integrais no Capítulo 15. A expansão de um polinômio em potências de (X−a), encontrada na demonstração da Proposição 8.11, é a sombra algébrica das fórmulas de Taylor do Capítulo 16. Os polinômios característicos já apareceram para as equações diferenciais (Capítulo 5) e voltam para as matrizes no Capítulo 22; a interpolação de Lagrange é o primeiro teorema de existência e unicidade da análise numérica, e os polinômios de Chebyshev do Exercício 8.10 — cuja otimalidade o problema de fim de semana abaixo estabelece — dizem a essa disciplina onde interpolar. Por fim, toda a aritmética de K[X], copiada do Capítulo 6, alimenta o estudo dos ideais de K[X] e dos anéis quocientes no volume do segundo ano de graduação.
8.4 Exercícios
Exercício 8.1★
Efetue as divisões euclidianas: X5−1 por X2+X+1; depois 2X4+X3−X+3 por X2−2.
Solução
Solução de Exercício 8.1.
X5−1=(X2+X+1)(X3−X2+1)+(−X−2). Passos: subtraia X3B, depois −X2B, depois B; o resto −X−2 tem grau 1<2. Verificação em X=1:0=3×1+(−3).
2X4+X3−X+3=(X2−2)(2X2+X+4)+(X+11). Verificação em X=0:3=(−2)(4)+11.
Exercício 8.2★
Para quais n∈N o polinômioX2+X+1divideX2n+Xn+1? Sugestão: as raízes de X2+X+1 são j e j2, com j=e2iπ/3; discuta n módulo 3.
Solução
Solução de Exercício 8.2.
X2+X+1=(X−j)(X−j2) com j=e2iπ/3, j3=1. Ele divideQn=X2n+Xn+1 se, e somente se, j e j2 são raízes de Qn; como Qn tem coeficientes reais, Qn(j2)=Qn(j), de modo que a condição é apenas Qn(j)=0. Ora, Qn(j)=j2n+jn+1 depende de n módulo 3:
n≡0: Qn(j)=1+1+1=3=0;
n≡1: Qn(j)=j2+j+1=0;
n≡2: Qn(j)=j4+j2+1=j+j2+1=0.
Logo, X2+X+1∣X2n+Xn+1 exatamente quando 3∤n.
Exercício 8.3★
Determine os reais a,b para que (X−1)2 divida P=X4+aX3+bX2+1, e depois fatore P sobre R para esses valores.
Solução
Solução de Exercício 8.3.
Pela Proposição 8.11, (X−1)2∣P se, e somente se, P(1)=P′(1)=0:
P(1)=2+a+b=0,P′(1)=4+3a+2b=0.
Resolvendo: b=−a−2 e 4+3a−2a−4=a=0, de modo que a=0, b=−2: P=X4−2X2+1=(X2−1)2=(X−1)2(X+1)2, que é a fatoração real.
Exercício 8.4★
Fatore sobre C e sobre R: X3−1; X4+X2+1; X6−1.
Solução
Solução de Exercício 8.4.
X3−1=(X−1)(X−j)(X−j2) sobre C (j=e2iπ/3) e (X−1)(X2+X+1) sobre R.
X4+X2+1=(X2+X+1)(X2−X+1) sobre R (efetue o produto, ou note que X4+X2+1=(X2+1)2−X2); sobre C, cada quadrática se decompõe: raízes j,j2 e −j,−j2, isto é, e±2iπ/3,e±iπ/3.
X6−1=∏k=05(X−eikπ/3) sobre C e, sobre R:
X6−1=(X−1)(X+1)(X2+X+1)(X2−X+1),
agrupando os pares conjugados e±2iπ/3 e e±iπ/3.
Exercício 8.5★★
Seja P=X3−6X2+11X−6.
Encontre as raízes racionais (uma raiz racional p/q na forma irredutível de um polinômio inteiro mônico é um inteiro que divide o termo constante — demonstre-o) e fatore P.
Sem resolver, calcule a soma dos quadrados e a soma dos inversos das raízes pelas relações de Girard, e confira na fatoração.
Solução
Solução de Exercício 8.5.
Seja p/q (irredutível) uma raiz do polinômio inteiro mônicoX3+⋯+c0: eliminar denominadores em P(p/q)=0 dá p3=−q(inteiro), de modo que q∣p3; a coprimalidade força q=±1: a raiz é um inteiro p, e p∣c0 (isole c0). Aqui os candidatos dividem6: testando, P(1)=0, P(2)=0, P(3)=0. Logo, P=(X−1)(X−2)(X−3).
Girard: s1=6, s2=11, s3=6. Soma dos quadrados: s12−2s2=36−22=14=1+4+9, como esperado. Soma dos inversos: s3s2=611=1+21+31, como esperado.
de modo que a divisão de X4−1 por X3−X2+X−1 é exata (quociente X+1, resto 0), e o algoritmo para de imediato:
gcd(X4−1,X3−X2+X−1)=X3−X2+X−1
(já mônico). A relação de Bézout é a trivial: gcd=0⋅(X4−1)+1⋅(X3−X2+X−1). Verificação de coerência por fatoração: X3−X2+X−1=(X−1)(X2+1), que é de fato o produto dos fatores irredutíveis comuns de X4−1=(X−1)(X+1)(X2+1).
Exercício 8.7★★
Seja P∈R[X] com P(x)≥0 para todo x∈R. Demonstre que P é uma soma de dois quadrados de polinômios reais: P=A2+B2. Sugestão: na fatoração real, as raízes reais têm multiplicidade par; escreva os fatores quadráticos como (X−z)(X−z) e use ∣⋅∣2=(ℜ)2+(ℑ)2 no produto dos (X−z).
de modo que P=SS, em que S tem os coeficientes conjugados. Separe S=A+iB com A,B∈R[X]: então
P=(A+iB)(A−iB)=A2+B2.
Exercício 8.8★★
Encontre o polinômioP de grau ≤2 com P(0)=1, P(1)=3, P(2)=2, primeiro pela fórmula de Lagrange e depois resolvendo o sistema linear nos coeficientes. Verifique que as duas respostas coincidem.
Sistema: P=aX2+bX+c com c=1; a+b+1=3; 4a+2b+1=2. Subtraindo o dobro da segunda da terceira: 2a−1=−4, de modo que a=−23, b=27. Mesmo polinômio: P=−23X2+27X+1. (Verificação: P(2)=−6+7+1=2.)
Exercício 8.9★★
Demonstre que P=X2n+1−1 tem exatamente uma raiz real e que, para todo n≥1, o polinômio1+X+2!X2+⋯+n!Xn não tem raiz múltipla (compare P e P′).
Solução
Solução de Exercício 8.9.
P=X2n+1−1: P′=(2n+1)X2n≥0, de modo que a função polinomial é crescente (estritamente, exceto em 0), com limites ∓∞: ela se anula exatamente uma vez em R (em x=1).
Seja En=∑k=0nk!Xk. Então En′=En−1=En−n!Xn. Uma raiz múltipla a satisfaria En(a)=En′(a)=0 (Proposição 8.11), donde n!an=En(a)−En′(a)=0, de modo que a=0; mas En(0)=1=0. Nenhuma raiz múltipla.
Demonstre por indução que Tn(cosθ)=cosnθ para todo θ.
Deduza as n raízes de Tn e o seu coeficiente líder.
Demonstre que supx∈[−1,1]∣Tn(x)∣=1, atingido em n+1 pontos de [−1,1].
Solução
Solução de Exercício 8.10.
Indução (os dois casos base valem). Usando cos(n+1)θ+cos(n−1)θ=2cosθcosnθ:
Tn+1(cosθ)=2cosθcosnθ−cos(n−1)θ=cos(n+1)θ.
Tn(cosθ)=0 se, e somente se, nθ≡2π(modπ): os números
xk=cos(2n(2k+1)π),k=0,1,…,n−1,
são n pontos distintos de (−1,1) (os ângulos ficam em (0,π), onde cos é injetivo), todos raízes de Tn; como degTn=n (pela recorrência, com coeficiente líder 2n−1 para n≥1, por indução), essas são todas as raízes, cada uma simples.
Para x=cosθ∈[−1,1]: ∣Tn(x)∣=∣cosnθ∣≤1, com igualdade se, e somente se, nθ≡0(modπ), isto é, nos n+1 pontos yk=cosnkπ, k=0,…,n, em que Tn(yk)=(−1)k. (Essa equioscilação faz de 21−nTn o polinômio mônico de grau n de menor norma do supremo em [−1,1] — demonstrado no problema de fim de semana deste capítulo.)
Exercício 8.11★★★
Seja P∈C[X] não constante, com raízes distintas a1,…,ar (de multiplicidadesm1,…,mr). Demonstre a identidade de funções racionais
P(X)P′(X)=i=1∑rX−aimi,
e deduza o teorema de Gauss–Lucas: toda raiz de P′ está na envoltória convexa das raízes de P(avalie a identidade numa raiz w de P′ que não seja raiz de P, tome conjugados e leia o resultado como sendo w uma média ponderada dos ai).
Solução
Solução de Exercício 8.11.
Escreva P=c∏i(X−ai)mi. A regra do produto (estendida a vários fatores) dá
P′=ci∑mi(X−ai)mi−1k=i∏(X−ak)mk,
e, dividindo por P: PP′=∑iX−aimi (como funções racionais, isto é, longe das raízes).
Seja w uma raiz de P′. Se w é um dos ai, ele está na envoltória convexa trivialmente. Caso contrário, avaliando em w:
0=i∑w−aimi=i∑mi∣w−ai∣2w−ai.
Conjugando: ∑iλi(w−ai)=0, em que λi=∣w−ai∣2mi>0. Portanto,
w=∑iλi∑iλiai:
uma combinação convexa (pesos positivos com soma 1 após normalização) das raízes ai. Logo, toda raiz de P′ está na envoltória convexa das raízes de P.
Exercício 8.12★★
(Filtro das raízes da unidade) Sejam n∈N∗ e j=e2iπ/3. Avaliando (1+X)n em 1, j e j2, demonstre que
k≥0∑(3kn)=32n+2cos3nπ,
e confira a fórmula para n=3 e n=6. Sugestão: 1+jm+j2m vale 3 se 3∣m e 0 caso contrário; e 1+j=eiπ/3.
Solução
Solução de Exercício 8.12.
Some as avaliações de (1+X)n nas três raízes cúbicas da unidade:
pois 1+jk+j2k é uma soma geométrica igual a 3 quando 3∣k e a jk−1j3k−1=0 caso contrário. Ora, 1+j=21+i23=eiπ/3 e 1+j2=1+j=e−iπ/3, de modo que (1+j)n+(1+j2)n=2cos3nπ e
8.5 Problema: Polinômios de Chebyshev e o polinômio mais achatado
Problema 8.1
Entre todos os polinômiosmônicos de grau n, qual deles fica mais próximo de zero em [−1,1]? A resposta — o teorema de Chebyshev, a certidão de nascimento da teoria da aproximação — é 21−nTn, em que Tn é o polinômio de Chebyshev do Exercício 8.10, e nenhum concorrente mônico consegue superar o seu desvio 21−n. Este problema desenvolve a álgebra da família (Tn) (lei de composição, coeficientes explícitos, a família de segunda espécie Un, uma equação diferencial), demonstra o teorema de extremalidade com o seu caso de igualdade e recolhe aplicações: nós ótimos de interpolação, o valor exato de cos36∘ e uma congruênciaTp≡Xp(modp). Ao longo do problema, T0=1, T1=X, Tn+1=2XTn−Tn−1, e usamos livremente Tn(cosθ)=cosnθ do Exercício 8.10.
Parte I — A família (Tn).
Calcule T2,T3,T4,T5 pela recorrência. (Compare T3 com a identidade cos3θ=4cos3θ−3cosθ do Exemplo 3.9.)
Demonstre por indução que degTn=n, com coeficiente líder 2n−1 para n≥1, e que Tn tem a paridade de n (só aparecem potências pares ou só ímpares).
Demonstre o princípio de unicidade: Tn é o únicopolinômio que satisfaz P(cosθ)=cosnθ para todo θ. (Dois polinômios que coincidem em [−1,1] coincidem em toda parte: Corolário 8.8.)
Recorde do Exercício 8.10 as raízes xk=cos2n(2k+1)π e os pontos de equioscilação yk=cosnkπ, com Tn(yk)=(−1)k. Escreva a fatoração completa de Tn sobre R e justifique que os yk se intercalam: yn<xn−1<yn−1<⋯<x0<y0.
Demonstre que Tn(cosht)=cosh(nt) para todo t∈R (mesma indução, usando a Proposição 4.18) e deduza, para x≥1, a forma fechada
Tn(x)=2(x+x2−1)n+(x−x2−1)n,
de modo que Tn(x)>1 para x>1: fora de [−1,1] o polinômio escapa imediatamente.
Parte II — Coeficientes, a família Un e uma equação diferencial.
A partir da fórmula de De Moivre (Corolário 3.8), demonstre a expressão explícita
Tn(x)=0≤2j≤n∑(2jn)xn−2j(x2−1)j,
e verifique-a para n=3.
Calcule Tn(1), Tn(−1) e Tn(0) para todo n.
Defina Un (de segunda espécie) por U0=1, U1=2X, Un+1=2XUn−Un−1. Demonstre que Un(cosθ)=sinθsin(n+1)θ para θ∈/πZ, e que Tn′=nUn−1 para n≥1.
Demonstre que ∣sinnθ∣≤n∣sinθ∣ para todo θ (indução) e deduza a estimativa do tipo Markov
∣Tn′(x)∣≤n2em[−1,1],comTn′(±1)=(±1)n−1n2.
Mostre que y=Tn satisfaz a equação diferencial
(1−x2)y′′−xy′+n2y=0,
derivando a identidade sinθTn′(cosθ)=nsinnθ em relação a θ; verifique diretamente para T2.
Parte III — O teorema de extremalidade de Chebyshev. Seja Tn=21−nTn (mônico pela questão 2) e escreva ∥P∥∞=supx∈[−1,1]∣P(x)∣.
Justifique que Tn∞=21−n, atingido com sinais alternados nos n+1 pontos yn<⋯<y0.
Suponha que algum Pmônico de grau n tivesse ∥P∥∞<21−n, e ponha D=Tn−P. Mostre que degD≤n−1 e que D(yk) tem o sinal estrito de (−1)k para cada k=0,…,n.
Deduza que D tem pelo menos n raízes reais distintas (uma em cada intervalo, pela propriedade do valor intermediário, usada aqui no nível do ensino médio e demonstrada no Capítulo 13) e conclua o teorema de Chebyshev: todo Pmônico de grau n satisfaz
∥P∥∞≥21−n.
(Caso de igualdade, primeiro passo) Suponha agora ∥P∥∞=21−n exatamente, com Pmônico de grau n, e seja D=Tn−P. Mostre que (−1)kD(yk)≥0 para todo k e que, se D(yk)=0 num ponto interioryk (0<k<n), então D′(yk)=0 também. (Num yk interior, tanto Tn quanto P atingem um extremo de valor absoluto ∥⋅∥∞; uma função derivável tem derivada nula num extremo interior — usado no nível do ensino médio, demonstrado no Capítulo 14.)
(Caso de igualdade, conclusão) Conte as raízes de D com multiplicidade para mostrar que D=0: o minimizante é único, P=Tn.
Transporte para um segmento arbitrário [a,b]: mostre que a norma do supremo mínima de um polinômio mônico de grau n em [a,b] é 2(4b−a)n, atingida por um polinômio de Chebyshev reescalonado. (Substitua x=2a+b+2b−at e acompanhe o coeficiente líder.)
Parte IV — Aplicações.
Trabalhe o caso n=3 à mão: localize os extremos de T3=X3−43X em [−1,1], verifique a equioscilação em quatro pontos com valor 41 e conclua que nenhuma cúbica mônica faz melhor.
(Nós ótimos de interpolação) Para n+1 nós x0,…,xn∈[−1,1], o erro de interpolação é governado por ω(X)=∏i(X−xi) (como o Capítulo 16 quantificará). Demonstre que a escolha que minimiza ∥ω∥∞ é o conjunto das n+1 raízes de Tn+1, com ∥ω∥∞=2−n: os nós de Chebyshev são os lugares certos para interpolar.
Usando T5, demonstre que c=cos36∘ satisfaz 16c5−20c3+5c+1=0, fatore esse polinômio como (x+1)(4x2−2x−1)2 e conclua que
cos36∘=41+5.
Verifique a coerência com cos72∘=45−1 do Exercício 3.8.
Estime T10(1.1) com a forma fechada da questão 6 (dois algarismos significativos bastam) e interprete: um polinômio limitado por 1 em [−1,1] já pode exceder 40 em x=1.1. (Que Tn cresça o mais rápido entre tais polinômios é outra propriedade extremal da família, além deste problema.)
Demonstre a congruência: para todo primo ímpar p, todos os coeficientes de Tp−Xp são divisíveis por p. (Use a questão 7 e p∣(2jp) para 0<2j<p, da demonstração do Teorema 6.23.) Verifique em T3 e T5.
Parte V — Síntese.
Calcule explicitamente a quadrática mônica de norma do supremo mínima em [0,1] e o seu desvio. (Questão 17 com n=2.)
Síntese, num parágrafo curto: o teorema diz que o polinômio mônico mais achatado é aquele que equioscila, e a demonstração converte a otimalidade numa contagem de raízes. Comente esse mecanismo, o papel da substituição x=cosθ como ponte entre álgebra e trigonometria, e nomeie os dois lugares em que o problema precisou de fatos de análise (TVI, extremo interior) que capítulos posteriores demonstram.
Solução
Solução de Problema 8.1.
1.T2=2X2−1; T3=2X(2X2−1)−X=4X3−3X; T4=2XT3−T2=8X4−8X2+1; T5=2XT4−T3=16X5−20X3+5X. A identidade T3(cosθ)=cos3θ é exatamente cos3θ=4cos3θ−3cosθ do Exemplo 3.9.
2. Verdadeiro para n=1,2. Se Tn−1 e Tn têm graus n−1 e n e coeficientes líderes 2n−2 e 2n−1, então 2XTn tem grau n+1 e coeficiente líder 2n, ao passo que Tn−1 tem grau menor: Tn+1 tem grau n+1 e coeficiente líder 2n. Paridade: se Tn−1 tem a paridade de n−1 e Tn a de n, então 2XTn e Tn−1 têm ambos a paridade de n+1, e portanto Tn+1 também.
3. Se P(cosθ)=cosnθ para todo θ, então P e Tn coincidem em todo ponto de [−1,1] — um conjunto infinito — de modo que P−Tn tem infinitas raízes e é o polinômio nulo (Corolário 8.8).
4. Para x=cosθ: Tm(Tn(cosθ))=Tm(cosnθ)=cos(mnθ)=Tmn(cosθ), e 2TmTn(cosθ)=2cosmθcosnθ=cos(m+n)θ+cos∣m−n∣θ. As duas identidades valem em [−1,1] e, portanto, como identidades polinomiais, pelo argumento da questão 3.
5. Os xk são n raízes simples distintas e o coeficiente líder é 2n−1:
Tn=2n−1k=0∏n−1(X−cos2n(2k+1)π).
Intercalação: os ângulos 0<2nπ<nπ<2n3π<n2π<⋯<π alternam entre os ângulos y, nkπ, e os ângulos x, 2n(2k+1)π; como cos é estritamente decrescente em [0,π], os valores se intercalam na ordem inversa: yn<xn−1<yn−1<⋯<x0<y0. Entre dois extremos consecutivos há exatamente uma raiz, como uma figura de cosnθ sugere.
6. Indução com 2coshacoshb=cosh(a+b)+cosh(a−b) (Proposição 4.18): Tn+1(cosht)=2coshtcoshnt−cosh(n−1)t=cosh(n+1)t. Para x≥1, escreva x=cosht com t≥0; então et=x+x2−1 e e−t=x−x2−1, de modo que
Tn(x)=cosh(nt)=2(x+x2−1)n+(x−x2−1)n.
Para x>1, o primeiro termo excede 21(1)n estritamente e cresce geometricamente: Tn(x)>1.
7. De Moivre: cosnθ=ℜ((cosθ+isinθ)n)=∑2j≤n(2jn)cosn−2jθ(isinθ)2j, e (isinθ)2j=(−sin2θ)j=(cos2θ−1)j. Substituindo x=cosθ e invocando a questão 3:
Tn(x)=0≤2j≤n∑(2jn)xn−2j(x2−1)j.
Para n=3: (03)x3+(23)x(x2−1)=x3+3x3−3x=4x3−3x, como na questão 1.
8.Tn(1)=cos(n⋅0)=1; Tn(−1)=cos(nπ)=(−1)n; Tn(0)=cos2nπ, que vale 0 para n ímpar e (−1)n/2 para n par.
9. Indução para Un(cosθ)=sinθsin(n+1)θ: verdadeiro para U0=1 e U1=2X (sin2θ=2sinθcosθ); o passo é a identidade de transformação em produto sin(n+2)θ=2cosθsin(n+1)θ−sinnθ. Agora derive Tn(cosθ)=cosnθ em θ: −sinθTn′(cosθ)=−nsinnθ, de modo que, para θ∈/πZ:
Tn′(cosθ)=nsinθsinnθ=nUn−1(cosθ),
e os polinômiosTn′ e nUn−1, que coincidem em (−1,1), são iguais.
10.∣sin(n+1)θ∣=∣sinnθcosθ+cosnθsinθ∣≤∣sinnθ∣+∣sinθ∣, e a indução dá ∣sinnθ∣≤n∣sinθ∣. Portanto, ∣Un−1∣≤n em (−1,1) e ∣Tn′∣=n∣Un−1∣≤n2 ali; em ±1 a estimativa se estende por limites (ou diretamente: Un−1(1)=n pela recorrência, Un(1)=n+1 por indução, e a paridade dá Un−1(−1)=(−1)n−1n). Assim, Tn′(1)=n2 e Tn′(−1)=(−1)n−1n2: a estimativa n2 é atingida nas extremidades.
11. Derive sinθTn′(cosθ)=nsinnθ (questão 9) em relação a θ:
Com x=cosθ e sin2θ=1−x2: xTn′−(1−x2)Tn′′=n2Tn em [−1,1], logo em toda parte: (1−x2)y′′−xy′+n2y=0 para y=Tn. Verificação para T2=2x2−1: (1−x2)(4)−x(4x)+4(2x2−1)=4−4x2−4x2+8x2−4=0.
12.Tn é mônico (questão 2) e Tn=21−n∣Tn∣≤21−n em [−1,1], com Tn(yk)=(−1)k21−n nos n+1 pontos yk (Exercício 8.10): a norma vale exatamente 21−n, atingida com sinais alternados.
13.Tn e P são ambos mônicos de grau n, de modo que os termos líderes se cancelam: degD≤n−1. Em yk: D(yk)=(−1)k21−n−P(yk), e ∣P(yk)∣≤∥P∥∞<21−n força o sinal de D(yk) a ser o de (−1)k21−n, estritamente.
14.D muda de sinal entre yk+1 e yk para cada k=0,…,n−1: pela propriedade do valor intermediário, D tem uma raiz em cada um desses n intervalos abertos dois a dois disjuntos — n raízes distintas para um polinômio não nulo de grau ≤n−1, o que é impossível. E D=0 também é impossível (as normas diferem). Contradição: nenhum Pmônico de grau n tem ∥P∥∞<21−n, o que é o teorema de Chebyshev.
15. Agora vale apenas ∣P(yk)∣≤21−n, de modo que (−1)kD(yk)=21−n−(−1)kP(yk)≥21−n−∣P(yk)∣≥0. Suponha que D(yk)=0 num yk interior (0<k<n): então P(yk)=(−1)k21−n, de sorte que ∣P∣ atinge o seu supremo 21−n no ponto interior yk, donde P′(yk)=0 (extremo interior); e Tn′(yk)=nUn−1(yk)=0, pois sin(n⋅nkπ)=0 — de modo que Tn′(yk)=0 também, e D′(yk)=0: yk é raiz de D de multiplicidade pelo menos 2.
16. Conte as raízes de D com multiplicidade. Seja z o número de pontos interiores yk com D(yk)=0 (cada um uma raiz dupla, pela questão 15) e e∈{0,1,2} o número de extremidades (y0 ou yn) com D=0 (cada uma ao menos uma raiz simples). Um intervalo (yk+1,yk) cujas duas extremidades têm ambas D=0 carrega sinais estritamente alternados, logo uma raiz interior. Cada ponto interior que se anula estraga no máximo os dois intervalos adjacentes, e cada extremidade que se anula, no máximo um intervalo: pelo menos n−2z−e intervalos ainda contribuem com uma raiz cada, todas distintas das raízes y. Total: pelo menos (n−2z−e)+2z+e=n raízes com multiplicidade, para um polinômio de grau ≤n−1: logo D=0 e P=Tn. O minimizante é único.
17. A aplicação afim t↦x=2a+b+2b−at é uma bijeção [−1,1]→[a,b]. Se P é mônico de grau n, então Q(t)=P(x(t)) é um polinômio em t com coeficiente líder (2b−a)n, e sup[a,b]∣P∣=sup[−1,1]∣Q∣. O polinômio mônicoQ/(2b−a)n tem norma do supremo ≥21−n (questões 13–14), de modo que
[a,b]sup∣P∣≥(2b−a)n21−n=2(4b−a)n,
com igualdade exatamente para P(x)=(2b−a)nTn(t(x)) (questão 16).
18.T3=4T3=X3−43X; T3′=3X2−43 se anula em ±21. Valores: T3(−1)=−41, T3(−21)=41, T3(21)=−41, T3(1)=41: quatro extremos alternados de valor absoluto 41 — de modo que T3∞=41, e, pelo teorema de Chebyshev, nenhuma cúbica mônica tem norma do supremo menor em [−1,1].
19.ω é mônico de grau n+1, de modo que ∥ω∥∞≥2−n pelo teorema de Chebyshev (grau n+1), com igualdade se, e somente se, ω=Tn+1=2−nTn+1 (questão 16), isto é, se, e somente se, os nós são as n+1 raízes de Tn+1. Com os nós de Chebyshev, o fator de erro ∥ω∥∞ vale 2−n — o menor possível.
20.5×36∘=180∘, de modo que T5(c)=cos180∘=−1: 16c5−20c3+5c+1=0. Testando x=−1: −16+20−5+1=0, e a expansão confirma que
16x5−20x3+5x+1=(x+1)(4x2−2x−1)2.
Como c=cos36∘=−1, c é raiz de 4x2−2x−1, cujas raízes são 41±5; como c>0,
cos36∘=41+5.
Coerência: cos72∘=T2(c)=2c2−1=2⋅83+5−1=45−1, o valor encontrado no Exercício 3.8.
21.1.12−1=0.21≈0.458, de modo que x+x2−1≈1.558 e (1.558)10≈84.5, ao passo que (1.1−0.458)10≈0.01: T10(1.1)≈284.5+0.01≈42. Um polinômio preso a [−1,1] no intervalo já cresceu além de 40 a um décimo fora da sua borda: ser limitado num segmento nada diz uma polegada fora dele.
22. Na fórmula da questão 7 para Tp, o termo j=0 é Xp; todo outro termo carrega (2jp) com 0<2j<p (note que 2j=p, pois p é ímpar), que é divisível por p pelo primeiro passo da demonstração do Teorema 6.23. Portanto, todo coeficiente de Tp−Xp é múltiplo de p. Verificações: T3−X3=3X3−3X=3(X3−X); T5−X5=15X5−20X3+5X=5(3X5−4X3+X).
23. Pela questão 17 com [a,b]=[0,1] e n=2: desvio mínimo 2(41)2=81, atingido por (21)2T2(2x−1)=41((2x−1)2−21)=x2−x+81. A quadrática mônica mais próxima de zero em [0,1] é x2−x+81, com norma do supremo 81.
24. (i) A rigidez — um polinômio com mais raízes que o seu grau é nulo — alimentou o princípio de unicidade (questão 3), a transferência de identidades trigonométricas para identidades polinomiais (questões 4, 7, 9 e 11) e os dois argumentos de contagem de raízes da demonstração de extremalidade (questões 14 e 16). (ii) A trigonometria do Capítulo 3 (De Moivre, transformação em produto) e as funções hiperbólicas do Capítulo 4 forneceram todas as identidades por trás da família; a substituição x=cosθ é a ponte. (iii) A divisibilidadep∣(2jp) do Capítulo 6 transformou a fórmula dos coeficientes na congruência da questão 22.
25. O teorema de Chebyshev converte uma otimização sobre uma família de dimensão infinita (todos os polinômios mônicos) em combinatória finita: um concorrente melhor que Tn difereria dele por um polinômio de grau baixo obrigado a mudar de sinal n vezes — uma raiz a mais do que o seu grau permite. O padrão de equioscilação não é, portanto, uma curiosidade, mas o próprio certificado de otimalidade, e o caso de igualdade refina a contagem de raízes com multiplicidades. A substituição x=cosθ merece a última palavra: ela transporta o mundo rígido e discreto dos polinômios para o mundo periódico da trigonometria, em que as raízes e os extremos de Tn são simplesmente a grade regular de cosnθ. Os dois fatos de análise tomados emprestados — a propriedade do valor intermediário (questão 14; demonstrada no Capítulo 13) e a derivada nula num extremo interior (questão 15; demonstrada no Capítulo 14) — são exatamente as ferramentas que esses capítulos posteriores devolverão, fechando o ciclo.