Mathematics · Livro 5 · Bachelor Year 3

Matemática universitária — Graduação 3

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14A transformada de Fourier

As séries de Fourier decompõem sinais periódicos em harmônicos discretos; a transformada de Fourier faz o mesmo com sinais em toda a reta, com um contínuo de frequências. Ela converte derivação em multiplicação, convolução em produto e gaussianas em gaussianas — as razões pelas quais resolve equações diferenciais, move o processamento de sinais e vai demonstrar o teorema central do limite no Capítulo 23. Este capítulo desenvolve a teoria L1L^1 (Riemann–Lebesgue, inversão, injetividade), a classe de Schwartz, em que a transformada é uma bijeção perfeita, e a teoria L2L^2 (Plancherel: a transformada é, a menos de uma constante, um operador unitário), com duas aplicações de vitrine: a equação do calor, resolvida de ponta a ponta no problema de fim de semana, e a fórmula de soma de Poisson. Convenção:

f^(ξ)=∫Rf(x) e−iξx  ⁣dx.\hat f(\xi) = \int_\R f(x)\,\eu^{-\iu\xi x}\,\dd x .

14.1 A transformada em L1L^1

Proposição 14.1

Para f∈L1(R)f \in L^1(\R): f^\hat f está bem definida, é limitada (∥f^∥∞≤∥f∥1\norm{\hat f}_\infty \leq \norm f_1) e contínua, e:

  1. τaf^(ξ)=e−iaξf^(ξ)\widehat{\tau_af}(\xi) = \eu^{-\iu a\xi}\hat f(\xi) e eiaxf^(ξ)=f^(ξ−a)\widehat{\eu^{\iu ax}f}(\xi) = \hat f(\xi - a);
  2. f(⋅/λ)^(ξ)=λf^(λξ)\widehat{f(\cdot/\lambda)}(\xi) = \lambda\hat f(\lambda\xi) para λ>0\lambda > 0;
  3. se xf∈L1xf \in L^1, então f^\hat f é C1\mathcal C^1 com (f^)′(ξ)=(−ix)f^(ξ)(\hat f)'(\xi) = \widehat{(-\iu x)f}(\xi);
  4. se f∈C1f \in \mathcal C^1 com f′∈L1f' \in L^1 (e f→0f \to 0 em ±∞\pm\infty, o que aqui é automático), então f′^(ξ)=iξf^(ξ)\widehat{f'}(\xi) = \iu\xi\hat f(\xi);
  5. f∗g^=f^ g^\widehat{f * g} = \hat f\,\hat g para f,g∈L1f, g \in L^1.

Demonstração. Limitação: ∣f^∣≤∫∣f∣\abs{\hat f} \leq \int\abs f. Continuidade: convergência dominada com dominador ∣f∣\abs f (Teorema 10.14). (1), (2): substituições (Teorema 11.10). (3): derivação sob o sinal de integral, com dominador ∣xf∣\abs{xf} (Teorema 10.15). (4): primeiro, f(x)=f(0)+∫0xf′f(x) = f(0) + \int_0^xf' tem limite em ±∞\pm\infty (f′∈L1f' \in L^1), que tem de ser 00 (f∈L1f \in L^1); depois, integre por partes em [−A,A][-A, A] e faça A→∞A \to \infty. (5): Fubini, legítimo porque (x,y)↦f(x−y)g(y)e−iξx(x,y)\mapsto f(x - y)g(y)\eu^{-\iu\xi x} é absolutamente integrável (Teorema 11.9):

f∗g^(ξ)=∬f(x−y)g(y)e−iξ(x−y)e−iξy ⁣dx  ⁣dy=f^(ξ) g^(ξ).\widehat{f*g}(\xi) = \iint f(x - y)g(y)\eu^{-\iu\xi(x - y)} \eu^{-\iu\xi y}\dd x\,\dd y = \hat f(\xi)\,\hat g(\xi).

∎

Exemplo 14.2

A gaussiana: para a>0a > 0,

e−ax2^(ξ)=πa  e−ξ2/4a:\widehat{\eu^{-ax^2}}(\xi) = \sqrt{\frac\pi a}\;\eu^{-\xi^2/4a} :

pelo Exercício 10.7 (o truque da EDO F′=−ξ2FF' = -\frac\xi{2}F, reescalado), ou por (3): g=e−ax2^g = \widehat{\eu^{-ax^2}} satisfaz g′(ξ)=−ξ2ag(ξ)g'(\xi) = -\frac{\xi}{2a}g(\xi) (integre por partes), com g(0)=π/ag(0) = \sqrt{\pi/a}. As gaussianas são pontos fixos da transformada a menos de reescalamento — a razão profunda de governarem o teorema central do limite.

Teorema 14.3 (Riemann–Lebesgue)

Para f∈L1(R)f \in L^1(\R): f^(ξ)→0\hat f(\xi) \to 0 quando ∣ξ∣→∞\abs\xi \to \infty. Assim, f^ ⁣:L1→C0(R)\widehat{\phantom f} \colon L^1 \to \mathcal C_0(\R) (funções contínuas que se anulam no infinito).

Demonstração. Para a indicadora de um intervalo, 1[a, b]^(ξ)=e−iaξ−e−ibξiξ→0\widehat{\mathbf 1_{\intcc ab}}(\xi) = \frac{\eu^{-\iu a\xi} - \eu^{-\iu b\xi}}{\iu\xi} \to 0; logo, para funções escada. As funções escada são densas em L1L^1 (Teorema 12.6(1) mais a aproximação de conjuntos de medida finita por reuniões finitas de intervalos, Exercício 9.7), e a transformada é contínua de ∥⋅∥∞\norm\cdot_\infty em ∥⋅∥1\norm\cdot_1: para ∥f−s∥1<ε\norm{f - s}_1 < \varepsilon, lim sup⁡∣ξ∣→∞∣f^(ξ)∣≤ε\limsup_{\abs\xi\to\infty}\abs{\hat f(\xi)} \leq \varepsilon. ∎

14.2 Inversão e injetividade

Lema 14.4 (Fórmula de multiplicação)

Para f,g∈L1(R)f, g \in L^1(\R): ∫f^ g=∫f g^\displaystyle\int \hat f\,g = \int f\,\hat g.

Demonstração. Ambos os lados valem ∬f(x)g(ξ)e−ixξ ⁣dx  ⁣dξ\iint f(x)g(\xi)\eu^{-\iu x\xi}\dd x\,\dd\xi (Tonelli–Fubini: a integral dupla do valor absoluto é ∥f∥1∥g∥1\norm f_1\norm g_1). ∎

Teorema 14.5 (Inversão)

Seja f∈L1(R)f \in L^1(\R).

  1. (Somabilidade gaussiana) Para todo xx,

    (f∗gε)(x)=12π∫Rf^(ξ) e−εξ2 eixξ  ⁣dξ,em que gε(y)=12πε e−y2/4ε,(f * g_\varepsilon)(x) = \frac1{2\pi}\int_\R \hat f(\xi)\, \eu^{-\varepsilon\xi^2}\,\eu^{\iu x\xi}\,\dd\xi, \qquad\text{em que } g_\varepsilon(y) = \frac{1}{2\sqrt{\pi\varepsilon}}\, \eu^{-y^2/4\varepsilon},

    e f∗gε→ff * g_\varepsilon \to f em L1L^1 quando ε→0\varepsilon \to 0.

  2. Se, além disso, f^∈L1\hat f \in L^1, então, para quase todo xx,

    f(x)=12π∫Rf^(ξ) eixξ  ⁣dξ,f(x) = \frac{1}{2\pi}\int_\R \hat f(\xi)\,\eu^{\iu x\xi}\,\dd\xi ,

    e ff tem um representante contínuo.

  3. (Injetividade) Se f^=0\hat f = 0, então f=0f = 0 q.t.p.

Demonstração. (1) Fixe xx e aplique o Lema 14.4 a ff e a g(ξ)=12πe−εξ2eixξg(\xi) = \frac1{2\pi}\eu^{-\varepsilon\xi^2}\eu^{\iu x\xi}: pelo Exemplo 14.2 (com a regra de modulação),

g^(y)=12ππε e−(y−x)2/4ε=gε(x−y),\hat g(y) = \frac1{2\pi}\sqrt{\frac\pi\varepsilon}\, \eu^{-(y - x)^2/4\varepsilon} = g_\varepsilon(x - y),

de modo que 12π∫f^(ξ)e−εξ2eixξ ⁣dξ=∫f(y)gε(x−y) ⁣dy=(f∗gε)(x)\frac1{2\pi}\int\hat f(\xi)\eu^{-\varepsilon\xi^2} \eu^{\iu x\xi}\dd\xi = \int f(y)g_\varepsilon(x - y)\dd y = (f*g_\varepsilon)(x). As gεg_\varepsilon formam uma aproximação da identidade: gε≥0g_\varepsilon \geq 0, ∫gε=1\int g_\varepsilon = 1 (integral gaussiana), concentrando-se em 00; a demonstração do Teorema 12.9(2) se aplica literalmente (só foram usados ∫gε=1\int g_\varepsilon = 1 e a concentração: para a cauda, ∫∣y∣>δgε→0\int_{\abs y > \delta}g_\varepsilon \to 0): ∥f∗gε−f∥1→0\norm{f * g_\varepsilon - f}_1 \to 0.

(2) Se f^∈L1\hat f \in L^1: o membro direito de (1) converge, por convergência dominada (dominador ∣f^∣\abs{\hat f}), a 12π∫f^(ξ)eixξ ⁣dξ\frac1{2\pi}\int\hat f(\xi)\eu^{\iu x\xi}\dd\xi para todo xx, e essa função limite é contínua (convergência dominada, de novo). Por outro lado, f∗gε→ff * g_\varepsilon \to f em L1L^1, de modo que, ao longo de uma subsequência, q.t.p. (Teorema 12.4): os dois limites coincidem q.t.p.

(3) f^=0\hat f = 0 anula o membro direito de (1): f∗gε=0f * g_\varepsilon = 0 para todo ε\varepsilon, e f∗gε→ff * g_\varepsilon \to f em L1L^1: f=0f = 0 q.t.p. ∎

14.3 A classe de Schwartz

Definição 14.6

A classe de Schwartz S(R)\mathcal S(\R) é formada pelas funções C∞\mathcal C^\infty ff com sup⁡x∣xmf(n)(x)∣<∞\sup_x\abs{x^m f^{(n)}(x)} < \infty para todos m,n≥0m, n \geq 0 (todas as derivadas decaem mais rápido do que qualquer potência). Exemplos: e−ax2\eu^{-ax^2}, Cc∞\mathcal C_c^\infty. Claramente S⊆Lp\mathcal S \subseteq L^p para todo pp (limite por C(1+x2)−1C(1 + x^2)^{-1}), e S\mathcal S é estável por derivação, por multiplicação por polinômios e por produtos.

Teorema 14.7

A transformada de Fourier leva S(R)\mathcal S(\R) bijetivamente sobre si mesma, com inversa gˇ(x)=12π∫g(ξ)eixξ ⁣dξ\check g(x) = \frac1{2\pi}\int g(\xi)\eu^{\iu x\xi}\dd\xi.

Demonstração. Seja f∈Sf \in \mathcal S. Iterando o Proposição 14.1(3), (f^)(n)=(−ix)nf^(\hat f)^{(n)} = \widehat{(-\iu x)^nf} (cada xkf∈L1x^kf \in L^1); iterando (4) com h=(−ix)nf∈Sh = (-\iu x)^nf \in \mathcal S (cujas derivadas são todas integráveis), (iξ)mh^=h(m)^(\iu\xi)^m\hat h = \widehat{h^{(m)}}. Combinando,

∣ξm (f^)(n)(ξ)∣=∣ h(m)^(ξ)∣≤∥((−ix)nf)(m)∥1<∞\abs{\xi^m\,(\hat f)^{(n)}(\xi)} = \bigl|\widehat{\,h^{(m)}}(\xi)\bigr| \leq \bigl\|\bigl((-\iu x)^nf\bigr)^{(m)}\bigr\|_1 < \infty

uniformemente em ξ\xi: f^∈S\hat f \in \mathcal S. Como f^∈L1\hat f \in L^1, a inversão (Teorema 14.5(2)) vale em toda parte (ambos os lados são contínuos): f^ˇ=f\check{\hat f} = f, e simetricamente gˇ^=g\widehat{\check g} = g (a transformada conjugada é g↦12πg^(−⋅)g \mapsto \frac1{2\pi}\hat g(-\cdot), que também preserva S\mathcal S): eis a bijeção. ∎

14.4 Plancherel e L2L^2

Teorema 14.8 (Plancherel)

Para f∈L1∩L2(R)f \in L^1 \cap L^2(\R):

∥f^∥22=2π ∥f∥22.\norm{\hat f}_2^2 = 2\pi\,\norm f_2^2 .

Consequentemente, f^\widehat{\phantom f} se estende de maneira única a uma aplicação linear contínua F ⁣:L2(R)→L2(R)\mathcal F \colon L^2(\R) \to L^2(\R) com ∥Ff∥2=2π∥f∥2\norm{\mathcal Ff}_2 = \sqrt{2\pi}\norm f_2; F\mathcal F é bijetora, com F−1=12π F∘σ\mathcal F^{-1} = \frac1{2\pi}\,\mathcal F\circ\sigma em que σf=f(−⋅)\sigma f = f(-\cdot), e preserva produtos internos a menos do fator 2π2\pi.

Demonstração. Sejam f∈L1∩L2f \in L^1\cap L^2 e h=f∗f~h = f * \tilde f com f~(x)=f(−x)‾\tilde f(x) = \overline{f(-x)}. Então h∈L1h \in L^1 (Teorema 11.9), hh é contínua e limitada (Exercício 12.6: f,f~∈L2f, \tilde f \in L^2), h(0)=∫ffˉ=∥f∥22h(0) = \int f\bar f = \norm f_2^2, e h^=f^ f~^=f^ f^‾=∣f^∣2≥0\hat h = \hat f\,\widehat{\tilde f} = \hat f\,\overline{\hat f} = \abs{\hat f}^2 \geq 0 (calcule f~^=f^‾\widehat{\tilde f} = \overline{\hat f}). Aplique o Teorema 14.5(1) a hh em x=0x = 0:

(h∗gε)(0)=12π∫h^(ξ) e−εξ2 ⁣dξ.(h * g_\varepsilon)(0) = \frac1{2\pi}\int \hat h(\xi)\,\eu^{-\varepsilon\xi^2}\dd\xi .

Quando ε→0\varepsilon \to 0: o membro esquerdo tende a h(0)h(0) (hh é contínua e limitada: (h∗gε)(0)−h(0)=∫(h(−y)−h(0))gε(y) ⁣dy→0(h*g_\varepsilon)(0) - h(0) = \int(h(-y) - h(0))g_\varepsilon(y)\dd y \to 0, separando yy pequenos e grandes); o membro direito cresce a 12π∫h^\frac1{2\pi}\int\hat h por convergência monótona (h^≥0\hat h \geq 0). Logo 12π∫∣f^∣2=∥f∥22\frac1{2\pi}\int\abs{\hat f}^2 = \norm f_2^2, finito ou não a priori — e finito, o que demonstra tanto a pertinência quanto a identidade.

Extensão: L1∩L2⊇CcL^1\cap L^2 \supseteq \mathcal C_c é denso em L2L^2 (Teorema 12.6); a transformada é ali 2π\sqrt{2\pi}-isométrica, de modo que se estende de maneira única a uma isometria a menos da constante F\mathcal F em L2L^2 (Teorema 7.2). A inversão para S\mathcal S (Teorema 14.7) se transfere pela mesma densidade (ambos os lados são contínuos em L2L^2): F(12πF(σf))=f\mathcal F\bigl(\frac1{2\pi}\mathcal F(\sigma f)\bigr) = f em S\mathcal S e, portanto, em L2L^2: eis a bijetividade. Produtos internos: polarização a partir da identidade de normas. ∎

Teorema 14.9 (Soma de Poisson)

Seja f∈S(R)f \in \mathcal S(\R) (basta ff contínua com ∣f∣+∣f^∣≤C(1+∣⋅∣)−2\abs{f} + \abs{\hat f} \leq C(1 + \abs\cdot)^{-2}). Então

∑n∈Zf(n)  =  ∑k∈Zf^(2πk).\sum_{n\in\Z} f(n) \;=\; \sum_{k\in\Z}\hat f(2\pi k) .

Demonstração. Ponha F(x)=∑n∈Zf(x+n)F(x) = \sum_{n\in\Z}f(x + n): a série converge normalmente nos compactos (decaimento de ff), de modo que FF é contínua, e ela é 11-periódica. Seus coeficientes de Fourier (período 11: ck(F)=∫01F(t)e−2iπkt ⁣dtc_k(F) = \int_0^1F(t)\eu^{-2\iu\pi kt}\dd t):

ck(F)=∑n∫01f(t+n) e−2iπkt ⁣dt=∫Rf(t) e−2iπkt ⁣dt=f^(2πk)c_k(F) = \sum_n\int_0^1 f(t + n)\,\eu^{-2\iu\pi kt}\dd t = \int_\R f(t)\,\eu^{-2\iu\pi kt}\dd t = \hat f(2\pi k)

(a convergência normal justifica a troca; a fase é 11-periódica). A série ∑k∣ck(F)∣\sum_k\abs{c_k(F)} converge (decaimento de f^\hat f), de modo que a série de Fourier de FF converge normalmente; sua soma é uma função contínua com os mesmos coeficientes de Fourier que FF e, portanto, é igual a FF (injetividade no círculo: a diferença tem coeficientes nulos, e o Teorema 13.9 dá zero em L2L^2 e, por continuidade, em toda parte). Avalie em x=0x = 0. ∎

Exemplo 14.10 (A identidade teta)

Aplicando Poisson a f(x)=e−πtx2f(x) = \eu^{-\pi tx^2} (t>0t > 0), cuja transformada é f^(ξ)=t−1/2e−ξ2/4πt\hat f(\xi) = t^{-1/2}\eu^{-\xi^2/4\pi t} (Exemplo 14.2 com a=πta = \pi t):

∑n∈Ze−πn2t=1t∑k∈Ze−πk2/t:\sum_{n\in\Z}\eu^{-\pi n^2t} = \frac1{\sqrt t}\sum_{k\in\Z}\eu^{-\pi k^2/t} :

a equação funcional da função teta de Jacobi, chave da equação funcional da ζ\zeta de Riemann — e um acelerador numérico espetacular: para tt pequeno, o membro esquerdo converge devagar e o direito converge com enorme rapidez.

Método 14.11

Faixas de trabalho: L1L^1 — transformada definida pontualmente, e a inversão exige f^∈L1\hat f \in L^1; S\mathcal S — tudo é legítimo, demonstre primeiro aqui; L2L^2 — transformada definida por densidade (não pela integral!), simetria perfeita, contabilidade de Parseval. Para calcular uma transformada: reduza à tabela (indicadora, exponencial, gaussiana) pelas regras do Proposição 14.1; para demonstrar uma identidade: estabeleça-a em S\mathcal S (ou em Cc∞\mathcal C_c^\infty) e estenda por densidade e continuidade (Método 12.13); para resolver uma EDP ou EDO linear de coeficientes constantes: transforme, divida, inverta.

O núcleo do calor g_t(x) = 12√π t\, -x2/4t em três instantes: massa total 1 para sempre, altura t-1/2, largura √ t. Convoluir os dados iniciais com essa gaussiana que se espalha é todo o conteúdo do problema de fim de semana; em frequência, a mesma figura se lê g_t( ) = -t 2 — as altas frequências morrem primeiro, e essa assimetria é a flecha do tempo.
O núcleo do calor gt(x)=12πt e−x2/4tg_t(x) = \frac1{2\sqrt{\pi t}}\,\eu^{-x^2/4t} em três instantes: massa total 11 para sempre, altura ∼t−1/2\sim t^{-1/2}, largura ∼t\sim \sqrt t. Convoluir os dados iniciais com essa gaussiana que se espalha é todo o conteúdo do problema de fim de semana; em frequência, a mesma figura se lê g^t(ξ)=e−tξ2\hat g_t(\xi) = \eu^{-t\xi^2} — as altas frequências morrem primeiro, e essa assimetria é a flecha do tempo.

14.5 Exercícios

Exercício 14.1 ★

Calcule as transformadas de Fourier de: 1[−a, a]\mathbf 1_{\intcc{-a}a}; e−a∣x∣\eu^{-a\abs x} (a>0a > 0); a função-tenda max⁡(0,1−∣x∣)\max(0, 1 - \abs x); 1x2+a2\frac1{x^2 + a^2} (use a inversão na segunda). Registre a tabela que vai surgindo.

Solução

Solução de Exercício 14.1.

1[−a, a]^(ξ)=∫−aae−iξx ⁣dx=2sin⁡(aξ)ξ\widehat{\mathbf 1_{\intcc{-a}a}}(\xi) = \int_{-a}^a\eu^{-\iu\xi x}\dd x = \frac{2\sin(a\xi)}{\xi} (valor 2a2a em 00). e−a∣x∣^(ξ)=∫0∞e−(a+iξ)x+e−(a−iξ)x  ⁣dx=1a+iξ+1a−iξ=2aa2+ξ2\widehat{\eu^{-a\abs x}}(\xi) = \int_0^\infty\eu^{-(a + \iu\xi)x} + \eu^{-(a - \iu\xi)x}\,\dd x = \frac1{a + \iu\xi} + \frac1{a - \iu\xi} = \frac{2a}{a^2 + \xi^2}. Tenda: max⁡(0,1−∣x∣)=1[−1/2, 1/2]∗1[−1/2, 1/2]\max(0, 1 - \abs x) = \mathbf 1_{\intcc{-1/2}{1/2}} * \mathbf 1_{\intcc{-1/2}{1/2}}, de modo que sua transformada é (2sin⁡(ξ/2)ξ)2=(sin⁡(ξ/2)ξ/2)2\bigl(\frac{2\sin(\xi/2)}\xi\bigr)^2 = \bigl(\frac{\sin(\xi/2)}{\xi/2}\bigr)^2. Última: 2aa2+ξ2∈L1\frac{2a}{a^2+\xi^2} \in L^1, de modo que a inversão (Teorema 14.5(2)) aplicada a e−a∣x∣\eu^{-a\abs x} dá, após renomear as variáveis,

(1x2+a2)^(ξ)=πa e−a∣ξ∣.\widehat{\Bigl(\frac1{x^2 + a^2}\Bigr)}(\xi) = \frac{\pi}{a}\,\eu^{-a\abs\xi} .

Exercício 14.2 ★

Seja f∈L1f \in L^1. Exprima em termos de f^\hat f as transformadas de: f(x−a)f(x - a), f(x)cos⁡(bx)f(x)\cos(bx), f(ax+b)f(ax + b), f(−x)‾\overline{f(-x)}, (f∗f)(x)(f * f)(x). Verifique cada regra na gaussiana.

Solução

Solução de Exercício 14.2.

Da Proposição 14.1: f(⋅−a)^=e−iaξf^(ξ)\widehat{f(\cdot - a)} = \eu^{-\iu a\xi}\hat f(\xi); fcos⁡(b⋅)^=12(f^(ξ−b)+f^(ξ+b))\widehat{f\cos(b\cdot)} = \frac12\bigl(\hat f(\xi - b) + \hat f(\xi + b)\bigr); f(a⋅+b)^(ξ)=1a eibξ/a f^(ξ/a)\widehat{f(a\cdot + b)}(\xi) = \frac1a\,\eu^{\iu b\xi/a}\,\hat f(\xi/a) (a>0a > 0); f(−⋅)‾^=f^‾\widehat{\overline{f(-\cdot)}} = \overline{\hat f}; f∗f^=f^2\widehat{f * f} = \hat f^2. Na gaussiana (e−x2^=πe−ξ2/4\widehat{\eu^{-x^2}} = \sqrt\pi\eu^{-\xi^2/4}), cada regra é uma verificação de uma linha — por exemplo, e−(x−a)2\eu^{-(x-a)^2} tem transformada π e−iaξe−ξ2/4\sqrt\pi\,\eu^{-\iu a\xi}\eu^{-\xi^2/4}, o que o cálculo direto (completar o quadrado) confirma.

Exercício 14.3 ★★

(a) Mostre que 1[−1, 1]∗1[−1, 1]\mathbf 1_{\intcc{-1}1} * \mathbf 1_{\intcc{-1}1} tem transformada (2sin⁡ξξ)2\bigl(\frac{2\sin\xi}\xi \bigr)^2 e deduza ∫R(sin⁡ξξ)2 ⁣dξ=π\int_\R\bigl(\frac{\sin\xi}\xi\bigr)^2\dd\xi = \pi por Plancherel — ou por inversão em 00. Compare com o Problema 10.1. (b) Calcule ∫R ⁣dx(x2+1)2\int_\R\frac{\dd x}{(x^2+1)^2} via Plancherel aplicado a e−∣x∣\eu^{-\abs x}.

Solução

Solução de Exercício 14.3.

(a) h=1[−1, 1]∗1[−1, 1]h = \mathbf 1_{\intcc{-1}1}*\mathbf 1_{\intcc{-1}1} tem h^=(2sin⁡ξξ)2∈L1\hat h = \bigl(\frac{2\sin\xi}\xi\bigr)^2 \in L^1; a inversão em x=0x = 0, onde h(0)=λ([−1, 1]∩[−1, 1])=2h(0) = \lambda(\intcc{-1}1\cap\intcc{-1}1) = 2:

2=12π∫R(2sin⁡ξξ)2 ⁣dξ ⟹ ∫R(sin⁡ξξ)2 ⁣dξ=π,2 = \frac1{2\pi}\int_\R\Bigl(\frac{2\sin\xi}\xi\Bigr)^2 \dd\xi \ \Longrightarrow\ \int_\R\Bigl(\frac{\sin\xi}\xi\Bigr)^2\dd\xi = \pi ,

coerente com ∫0∞sin⁡2ξ2=π2\int_0^\infty\frac{\sin^2}{\xi^2} = \frac\pi2 (Problema 10.1).

(b) Plancherel para f=e−∣x∣f = \eu^{-\abs x}: ∫∣f^∣2=2π∫∣f∣2\int\abs{\hat f}^2 = 2\pi\int\abs f^2 se lê ∫4  ⁣dξ(1+ξ2)2=2π∫e−2∣x∣ ⁣dx=2π\int\frac{4\,\dd\xi}{(1 + \xi^2)^2} = 2\pi\int\eu^{-2\abs x}\dd x = 2\pi: ∫R ⁣dξ(1+ξ2)2=π2\int_\R\frac{\dd\xi}{(1+\xi^2)^2} = \frac\pi2.

Exercício 14.4 ★★

(Álgebra do núcleo do calor) Com gt(x)=12πte−x2/4tg_t(x) = \frac1{2\sqrt{\pi t}}\eu^{-x^2/4t}: (a) verifique g^t(ξ)=e−tξ2\hat g_t(\xi) = \eu^{-t\xi^2}; (b) deduza a lei de semigrupo gt∗gs=gt+sg_t * g_s = g_{t+s} sem nenhum cálculo de integral; (c) mostre ∥gt∥1=1\norm{g_t}_1 = 1 e ∥gt∥22=(8πt)−1/2\norm{g_t}_2^2 = (8\pi t)^{-1/2}.

Solução

Solução de Exercício 14.4.

(a) gt(x)=12πte−x2/4tg_t(x) = \frac1{2\sqrt{\pi t}}\eu^{-x^2/4t}: pelo Exemplo 14.2 com a=14ta = \frac1{4t}, g^t(ξ)=12πt4πt e−tξ2=e−tξ2\hat g_t(\xi) = \frac1{2\sqrt{\pi t}}\sqrt{4\pi t}\,\eu^{-t\xi^2} = \eu^{-t\xi^2}. (b) gt∗gs^=e−tξ2e−sξ2=gt+s^\widehat{g_t * g_s} = \eu^{-t\xi^2}\eu^{-s\xi^2} = \widehat{g_{t+s}}, e a transformada é injetora em L1L^1 (Teorema 14.5(3)): gt∗gs=gt+sg_t * g_s = g_{t+s}. (c) ∥gt∥1=1\norm{g_t}_1 = 1 (integral gaussiana); ∥gt∥22=14πt∫e−x2/2t ⁣dx=2πt4πt=18πt\norm{g_t}_2^2 = \frac1{4\pi t}\int\eu^{-x^2/2t}\dd x = \frac{\sqrt{2\pi t}}{4\pi t} = \frac1{\sqrt{8\pi t}}.

Exercício 14.5 ★★

Mostre que, se f∈L1f \in L^1 é par e real, f^\hat f é par e real; e que, se ff é ímpar e real, f^\hat f é ímpar e puramente imaginária. O que f^(0)\hat f(0) calcula? Deduza que f≥0f \geq 0 força ∥f^∥∞=f^(0)=∫f\norm{\hat f}_\infty = \hat f(0) = \int f e interprete para densidades de probabilidade (Capítulo 23: uma função característica tem módulo ≤1\leq 1, atingido em 00).

Solução

Solução de Exercício 14.5.

Para ff real par: f^(ξ)=∫fcos⁡(ξx) ⁣dx\hat f(\xi) = \int f\cos(\xi x)\dd x (a parte em seno se cancela): real e par. Ímpar: f^(ξ)=−i∫fsin⁡(ξx)\hat f(\xi) = -\iu\int f\sin(\xi x): ímpar, puramente imaginária. f^(0)=∫f\hat f(0) = \int f: a massa total. Se f≥0f \geq 0: ∣f^(ξ)∣≤∫∣f∣=∫f=f^(0)\abs{\hat f(\xi)} \leq \int\abs f = \int f = \hat f(0), de modo que o supremo é atingido em 00. Para uma densidade de probabilidade, f^(−ξ)\hat f(-\xi) é a função característica do Capítulo 23: módulo ≤1\leq 1 em toda parte, =1= 1 na origem.

Exercício 14.6 ★★★

(Não sobrejetividade) Mostre que f^ ⁣:L1→C0\widehat{\phantom f}\colon L^1 \to \mathcal C_0 é injetora e contínua, mas não é sobrejetora, em três etapas. (i) Injetividade (Teorema 14.5) e continuidade (∥f^∥∞≤∥f∥1\norm{\hat f}_\infty \leq \norm f_1), e C0\mathcal C_0 é um espaço de Banach (fechado em ∥⋅∥∞\norm\cdot_\infty). (ii) Se a aplicação fosse sobrejetora, ela seria bijetora, e o teorema da aplicação aberta (Teorema 8.12) daria uma constante CC com ∥f∥1≤C∥f^∥∞\norm f_1 \leq C\norm{\hat f}_\infty para toda f∈L1f \in L^1. (iii) Contradiga isso com fn(x)=sin⁡xx⋅sin⁡(x/n)x/nf_n(x) = \frac{\sin x}{x}\cdot\frac{\sin(x/n)}{x/n}: sua transformada é (a menos de constantes) o trapézio do tipo convolução 1[−1, 1]∗1[−1/n, 1/n]\mathbf 1_{\intcc{-1}1} * \mathbf 1_{\intcc{-1/n}{1/n}} — mostre que ∥f^n∥∞≤π\norm{\hat f_n}_\infty \leq \pi uniformemente, enquanto ∥fn∥1≥cln⁡n\norm{f_n}_1 \geq c\ln n, contando os arcos de ∣sin⁡x∣x\frac{\abs{\sin x}}x em [1,n][1, n] (onde o segundo fator é limitado inferiormente), como no Teorema 8.11.

Solução

Solução de Exercício 14.6.

(i) A injetividade é o Teorema 14.5(3); a continuidade é ∥f^∥∞≤∥f∥1\norm{\hat f}_\infty \leq \norm f_1 (com valores em C0\mathcal C_0 por Riemann–Lebesgue); C0\mathcal C_0 é fechado na norma do sup (limites uniformes de funções que se anulam no infinito se anulam no infinito): de Banach.

(ii) Uma bijeção contínua entre espaços de Banach tem inversa contínua (Teorema 8.12): existiria CC com ∥f∥1≤C∥f^∥∞\norm f_1 \leq C\norm{\hat f}_\infty.

(iii) Seja fn(x)=sin⁡xx⋅sin⁡(x/n)x/nf_n(x) = \frac{\sin x}x\cdot\frac{\sin(x/n)}{x/n}: um produto de duas funções L2L^2, e O(x−2)O(x^{-2}) no infinito, de modo que fn∈L1∩L2f_n \in L^1\cap L^2. Como (sin⁡(ax)ax)\bigl(\frac{\sin(ax)}{ax}\bigr) tem transformada L2L^2 πa1[−a, a]\frac\pi a\mathbf 1_{\intcc{-a}a}, a fórmula do produto gh^=12πg^∗h^\widehat{gh} = \frac1{2\pi}\hat g * \hat h (válida para g,h∈L2g, h \in L^2 com gh∈L1gh \in L^1; verifique-a em funções de Schwartz por Fubini e estenda pela continuidade L2L^2 dos dois membros via Plancherel) dá

f^n=12π (π1[−1, 1])∗(πn 1[−1/n, 1/n]):\hat f_n = \frac1{2\pi}\,\bigl(\pi\mathbf 1_{\intcc{-1}1}\bigr) * \bigl(\pi n\,\mathbf 1_{\intcc{-1/n}{1/n}}\bigr):

um trapézio de altura πn2⋅2n=π\frac{\pi n}2\cdot\frac2n = \pi: ∥f^n∥∞=π\norm{\hat f_n}_\infty = \pi para todo nn. Mas em [1,n][1, n], sin⁡(x/n)x/n≥sin⁡1>0\frac{\sin(x/n)}{x/n} \geq \sin 1 > 0, de modo que

∥fn∥1≥sin⁡1∫1n∣sin⁡x∣x ⁣dx≥cln⁡n\norm{f_n}_1 \geq \sin 1\int_1^n\frac{\abs{\sin x}}x\dd x \geq c\ln n

(contagem de arcos, como no Teorema 8.11). A cota ∥fn∥1≤Cπ\norm{f_n}_1 \leq C\pi falha para nn grande: não é sobrejetora. (A imagem é um subespaço denso — por argumentos do tipo Stone–Weierstrass — mas próprio de C0\mathcal C_0.)

Exercício 14.7 ★★

(O dicionário regularidade ↔\leftrightarrow decaimento) Demonstre: f∈L1f \in L^1 com f^(ξ)=O(∣ξ∣−k−1−δ)\hat f(\xi) = O(\abs\xi^{-k-1-\delta}) para algum δ>0\delta > 0 implica que ff tem um representante Ck\mathcal C^k. Reciprocamente, f∈Cckf \in \mathcal C^k_c implica f^(ξ)=O(∣ξ∣−k)\hat f(\xi) = O(\abs\xi^{-k}). Ilustre as duas direções na função-tenda.

Solução

Solução de Exercício 14.7.

Se f^(ξ)=O(∣ξ∣−k−1−δ)\hat f(\xi) = O(\abs\xi^{-k-1-\delta}): então ξjf^∈L1\xi^j\hat f \in L^1 para 0≤j≤k0 \leq j \leq k (integrável no infinito pelo decaimento, e localmente pela continuidade de f^\hat f). A inversão (Teorema 14.5(2)) representa ff q.t.p. por x↦12π∫f^(ξ)eixξ ⁣dξx \mapsto \frac1{2\pi}\int\hat f(\xi)\eu^{\iu x\xi}\dd\xi, e a derivação sob o sinal de integral (dominantes ∣ξjf^∣\abs{\xi^j\hat f}) torna esse representante Ck\mathcal C^k. Reciprocamente, para f∈Cckf \in \mathcal C_c^k: iterando a Proposição 14.1(4), (iξ)kf^=f(k)^(\iu\xi)^k\hat f = \widehat{f^{(k)}}, de modo que ∣f^∣≤∥f(k)∥1∣ξ∣−k\abs{\hat f} \leq \norm{f^{(k)}}_1\abs\xi^{-k}. Função tenda: contínua de suporte compacto (k=0k = 0: transformada limitada), e sua transformada ∼ξ−2=O(∣ξ∣−0−1−1)\sim \xi^{-2} = O(\abs\xi^{-0-1-1}) devolve, pela primeira direção, um representante C0\mathcal C^0 — ambos ótimos: a tenda não é C1\mathcal C^1, e sua transformada não decai mais rápido que ξ−2\xi^{-2}.

Exercício 14.8 ★★★

(Desigualdade de Heisenberg) Para f∈S(R)f \in \mathcal S(\R) real com ∥f∥2=1\norm f_2 = 1, demonstre

(∫x2f(x)2 ⁣dx)⋅(12π∫ξ2∣f^(ξ)∣2 ⁣dξ)  ≥  14,\Bigl(\int x^2f(x)^2\dd x\Bigr)\cdot \Bigl(\frac1{2\pi}\int \xi^2\abs{\hat f(\xi)}^2\dd\xi\Bigr) \;\geq\; \frac14 ,

com igualdade para as gaussianas. (Escreva 1=∫f2=−∫x (f2)′1 = \int f^2 = -\int x\,(f^2)' por partes, limite por Cauchy–Schwarz e converta ∥f′∥2\norm{f'}_2 por Plancherel.) Interpretação: um sinal e seu espectro não podem estar ambos concentrados.

Solução

Solução de Exercício 14.8.

Integração por partes (f∈Sf \in \mathcal S; os termos de bordo se anulam):

1=∫f2=[xf2]−∞∞−∫x (f2)′=−2∫xff′≤2 ∥xf∥2 ∥f′∥2.1 = \int f^2 = \bigl[xf^2\bigr]_{-\infty}^{\infty} - \int x\,(f^2)' = -2\int xff' \leq 2\,\norm{xf}_2\,\norm{f'}_2 .

Plancherel e f′^=iξf^\widehat{f'} = \iu\xi\hat f: ∥f′∥22=12π∫ξ2∣f^∣2\norm{f'}_2^2 = \frac1{2\pi}\int\xi^2\abs{\hat f}^2. Elevando ao quadrado a expressão em destaque:

14≤∥xf∥22⋅12π∫ξ2∣f^∣2 ⁣dξ.\frac14 \leq \norm{xf}_2^2\cdot\frac1{2\pi} \int\xi^2\abs{\hat f}^2\dd\xi .

A igualdade exige a igualdade em Cauchy–Schwarz: f′=λxff' = \lambda xf com λ<0\lambda < 0 (integrabilidade), isto é, f(x)=c eλx2/2f(x) = c\,\eu^{\lambda x^2/2}: gaussianas. Um sinal concentrado em xx (∥xf∥2\norm{xf}_2 pequeno) precisa ter espectro espalhado, e reciprocamente: o princípio da incerteza.

Exercício 14.9 ★★

Justifique o Exemplo 14.10 em detalhe (hipóteses de Poisson para a gaussiana) e use a identidade para avaliar ∑n∈Ze−πn2\sum_{n\in\Z}\eu^{-\pi n^2} com seis casas decimais usando três termos. Quantos termos da série original seriam necessários para a mesma precisão em t=10−2t = 10^{-2}, comparado à série transformada?

Solução

Solução de Exercício 14.9.

A gaussiana f(x)=e−πtx2f(x) = \eu^{-\pi tx^2} é de Schwartz, de modo que o Teorema 14.9 se aplica, e f^(ξ)=t−1/2e−ξ2/4πt\hat f(\xi) = t^{-1/2}\eu^{-\xi^2/4\pi t}; em ξ=2πk\xi = 2\pi k o membro direito se torna t−1/2e−πk2/tt^{-1/2}\eu^{-\pi k^2/t}: a identidade teta. Em t=1t = 1:

∑n∈Ze−πn2=1+2e−π+2e−4π+⋯≈1+0.0864278+0.0000070=1.0864348,\sum_{n\in\Z}\eu^{-\pi n^2} = 1 + 2\eu^{-\pi} + 2\eu^{-4\pi} + \cdots \approx 1 + 0.0864278 + 0.0000070 = 1.0864348,

exata até 66 casas decimais com três termos (e−9π≈5⋅10−13\eu^{-9\pi} \approx 5\cdot10^{-13}). Em t=10−2t = 10^{-2}: a série que define precisa de e−πn2/100<10−7\eu^{-\pi n^2/100} < 10^{-7}, isto é, n≳23n \gtrsim 23 — cerca de 4747 termos —, ao passo que a série transformada é 10∑ke−100πk210\sum_k\eu^{-100\pi k^2}, em que já o termo k=1k = 1 vale ∼10−136\sim 10^{-136}: um termo basta.

Exercício 14.10 ★★

(Funções de banda limitada) Seja f∈L2(R)f \in L^2(\R) com Ff\mathcal Ff suportada em [−π, π]\intcc{-\pi}\pi. Mostre que ff tem um representante cujos valores são todos recuperáveis a partir de amostras: demonstre a interpolação de Shannon nos inteiros,

f(x)=∑n∈Zf(n) sin⁡(π(x−n))π(x−n)em L2,f(x) = \sum_{n\in\Z} f(n)\, \frac{\sin\bigl(\pi(x - n)\bigr)}{\pi(x - n)} \quad\text{em } L^2,

expandindo Ff\mathcal Ff na base de Fourier de L2([−π, π])L^2(\intcc{-\pi}\pi) (Teorema 13.9) e transformando de volta termo a termo.

Solução

Solução de Exercício 14.10.

Ff∈L2([−π, π])⊆L1([−π, π])\mathcal Ff \in L^2(\intcc{-\pi}\pi) \subseteq L^1(\intcc{-\pi}\pi) (medida finita), de modo que a inversão dá o representante contínuo f(x)=12π∫−ππFf(ξ)eixξ ⁣dξf(x) = \frac1{2\pi}\int_{-\pi}^\pi\mathcal Ff(\xi)\eu^{\iu x\xi}\dd\xi, com

f(n)=12π∫−ππFf(ξ) einξ ⁣dξ=⟨e−n,Ff⟩f(n) = \frac1{2\pi}\int_{-\pi}^{\pi}\mathcal Ff(\xi)\,\eu^{\iu n\xi}\dd\xi = \langle e_{-n}, \mathcal Ff\rangle

na notação do Teorema 13.9. Expandindo nessa base hilbertiana: Ff=∑nf(n) e−inξ\mathcal Ff = \sum_nf(n)\,\eu^{-\iu n\xi} em L2([−π, π])L^2(\intcc{-\pi}\pi). Aplique a F−1\mathcal F^{-1}, contínua em L2L^2, termo a termo:

F−1(1[−π, π]e−inξ)(x)=12π∫−ππeiξ(x−n) ⁣dξ=sin⁡(π(x−n))π(x−n),\mathcal F^{-1}\bigl(\mathbf 1_{\intcc{-\pi}\pi}\eu^{-\iu n\xi}\bigr)(x) = \frac1{2\pi}\int_{-\pi}^{\pi}\eu^{\iu\xi(x - n)}\dd\xi = \frac{\sin\bigl(\pi(x-n)\bigr)}{\pi(x - n)} ,

dando f=∑nf(n)sinc⁡(⋅−n)f = \sum_nf(n)\operatorname{sinc}(\cdot - n) em L2L^2: um sinal de banda limitada é determinado por suas amostras inteiras — o teorema da amostragem de Shannon.

Exercício 14.11 ★★

(A transformada como operador de ordem quatro) Em S(R)\mathcal S(\R), seja Ff=f^\mathcal F f = \hat f. (a) Usando a fórmula de inversão, mostre (F2f)(x)=2π f(−x)(\mathcal F^2f)(x) = 2\pi\,f(-x) e deduza F4=(2π)2 id\mathcal F^4 = (2\pi)^2\, \mathrm{id}. (b) Deduza que todo autovalor de F\mathcal F em S\mathcal S pertence a {±2π,±i2π}\{\pm\sqrt{2\pi}, \pm\iu\sqrt{2\pi}\} e exiba uma autofunção para +2π+\sqrt{2\pi} (qual função deste capítulo é proporcional à sua própria transformada?). (c) Mostre que as funções pares satisfazem F2f=2πf\mathcal F^2f = 2\pi f e as ímpares F2f=−2πf\mathcal F^2f = -2\pi f; produza uma autofunção para o autovalor −i2π-\iu\sqrt{2\pi} a partir de xe−x2/2x\eu^{-x^2/2}, calculando sua transformada (derive a transformada da gaussiana).

Solução

Solução de Exercício 14.11.

(a) Inversão em S\mathcal S: f(x)=12π∫f^(ξ)eixξ ⁣dξ=12π(Ff^)(−x)f(x) = \frac1{2\pi}\int\hat f(\xi)\eu^{\iu x\xi}\dd\xi = \frac1{2\pi}(\mathcal F\hat f)(-x), isto é, (F2f)(x)=2πf(−x)(\mathcal F^2f)(x) = 2\pi f(-x). Aplicando duas vezes: F4f=2π F2f(−⋅)=(2π)2f\mathcal F^4f = 2\pi\,\mathcal F^2f(-\cdot) = (2\pi)^2f.

(b) Se Ff=λf\mathcal Ff = \lambda f com f≠0f \neq 0: (2π)2f=F4f=λ4f(2\pi)^2f = \mathcal F^4f = \lambda^4f, de modo que λ4=(2π)2\lambda^4 = (2\pi)^2: λ∈{±2π,±i2π}\lambda \in \{\pm\sqrt{2\pi}, \pm\iu\sqrt{2\pi}\}. A gaussiana g(x)=e−x2/2g(x) = \eu^{-x^2/2} tem g^=2π g\hat g = \sqrt{2\pi}\,g (Exemplo 14.2 em a=12a = \frac12): autofunção para +2π+\sqrt{2\pi}.

(c) F2f=2πf(−⋅)\mathcal F^2f = 2\pi f(-\cdot) vale ±2πf\pm2\pi f conforme a paridade. Para h(x)=xe−x2/2h(x) = x\eu^{-x^2/2}: derivando g^(ξ)=2πe−ξ2/2\hat g(\xi) = \sqrt{2\pi}\eu^{-\xi^2/2} com a regra xf^=i ⁣d ⁣dξf^\widehat{xf} = \iu\frac{\dd}{\dd\xi}\hat f:

h^(ξ)=i  ⁣d ⁣dξ(2πe−ξ2/2)=−i2π ξe−ξ2/2=−i2π h(ξ):\hat h(\xi) = \iu\,\frac{\dd}{\dd\xi}\bigl(\sqrt{2\pi} \eu^{-\xi^2/2}\bigr) = -\iu\sqrt{2\pi}\,\xi\eu^{-\xi^2/2} = -\iu\sqrt{2\pi}\,h(\xi) :

uma autofunção para −i2π-\iu\sqrt{2\pi}. (As funções de Hermite continuam o padrão, percorrendo ciclicamente os quatro autovalores — o relógio de Fourier discreto.)

Exercício 14.12 ★★

(Autocorrelação e lema de Wiener) Para f∈L2(R)f \in L^2(\R), defina f~(x)=f(−x)‾\tilde f(x) = \overline{f(-x)} e a autocorrelação Af=f∗f~A_f = f * \tilde f. (a) Mostre que AfA_f é uma função contínua limitada com Af(0)=∥f∥22≥∣Af(x)∣A_f(0) = \norm f_2^2 \geq \abs{A_f(x)} para todo xx (Exercício 12.6 e Cauchy–Schwarz). (b) Mostre, primeiro para f∈L1∩L2f \in L^1\cap L^2, que Af^=∣f^ ∣2≥0\widehat{A_f} = \abs{\hat f\,}^2 \geq 0: a autocorrelação tem transformada não negativa — os espectros de autocorrelações são espectros de potência. (c) Deduza a identidade ∫R∣f^(ξ)∣2eixξ  ⁣dξ=2πAf(x)\int_\R\abs{\hat f(\xi)}^2\eu^{\iu x\xi}\,\dd\xi = 2\pi A_f(x) (inversão; justifique sua aplicabilidade quando f^∈L2\hat f \in L^2 tem ∣f^∣2∈L1\abs{\hat f}^2 \in L^1) e avalie-a para f=1[−1/2, 1/2]f = \mathbf 1_{\intcc{-1/2}{1/2}} em x=0x = 0: recupere ∫R(sin⁡uu)2 ⁣du=π\int_\R\bigl(\frac{\sin u}u\bigr)^2\dd u = \pi.

Solução

Solução de Exercício 14.12.

(a) f~∈L2\tilde f \in L^2 com ∥f~∥2=∥f∥2\norm{\tilde f}_2 = \norm f_2; o Exercício 12.6 (expoentes conjugados p=q=2p = q = 2) torna Af=f∗f~A_f = f * \tilde f limitada e uniformemente contínua, com

Af(x)=∫f(y) f(y−x)‾  ⁣dy,Af(0)=∥f∥22,∣Af(x)∣≤∥f∥2 ∥f(⋅−x)∥2=Af(0)A_f(x) = \int f(y)\,\overline{f(y - x)}\,\dd y, \qquad A_f(0) = \norm f_2^2, \qquad \abs{A_f(x)} \leq \norm f_2\,\norm{f(\cdot - x)}_2 = A_f(0)

por Cauchy–Schwarz.

(b) Para f∈L1∩L2f \in L^1\cap L^2: f~∈L1\tilde f \in L^1 também, e o teorema da convolução dá Af^=f^ f~^\widehat{A_f} = \hat f\, \widehat{\tilde f}; calculando, f~^(ξ)=∫f(−x)‾e−iξx ⁣dx=∫f(u)e−iξu ⁣du‾=f^(ξ)‾\widehat{\tilde f}(\xi) = \int\overline{f(-x)}\eu^{-\iu\xi x}\dd x = \overline{\int f(u)\eu^{-\iu\xi u}\dd u} = \overline{\hat f(\xi)}: Af^=∣f^∣2≥0\widehat{A_f} = \abs{\hat f}^2 \geq 0.

(c) Quando ∣f^∣2∈L1\abs{\hat f}^2 \in L^1, a inversão se aplica à contínua AfA_f (sua transformada é integrável; Teorema 14.5):

Af(x)=12π∫∣f^(ξ)∣2eixξ  ⁣dξ.A_f(x) = \frac1{2\pi}\int\abs{\hat f(\xi)}^2 \eu^{\iu x\xi}\,\dd\xi .

Para f=1[−1/2, 1/2]f = \mathbf 1_{\intcc{-1/2}{1/2}}: f^(ξ)=2sin⁡(ξ/2)ξ=sin⁡(ξ/2)ξ/2\hat f(\xi) = \frac{2\sin(\xi/2)}\xi = \frac{\sin(\xi/2)}{\xi/2} e, em x=0x = 0:

1=∥f∥22=12π∫R(sin⁡(ξ/2)ξ/2)2 ⁣dξ=12π⋅2∫R(sin⁡uu)2 ⁣du1 = \norm f_2^2 = \frac1{2\pi}\int_\R \Bigl(\frac{\sin(\xi/2)}{\xi/2}\Bigr)^2\dd\xi = \frac1{2\pi}\cdot2\int_\R\Bigl(\frac{\sin u}u\Bigr)^2\dd u

(ξ=2u\xi = 2u), isto é, ∫R(sin⁡uu)2 ⁣du=π\int_\R\bigl(\frac{\sin u}u\bigr)^2\dd u = \pi — a integral predileta de Plancherel, recuperada por autocorrelação.

14.6 Problema: a equação do calor na reta

Problema 14.1

Problema de fim de semana — ∂tu=∂xx2u\partial_tu = \partial^2_{xx}u, resolvida de ponta a ponta

O calor se espalha; a equação ∂tu=∂xx2u\partial_tu = \partial_{xx}^2u diz que sua densidade se difunde a uma taxa dada pela curvatura local do perfil de temperatura. Resolvemos o problema de Cauchy em R\R — dado ff, encontrar u(t,x)u(t, x) para t>0t > 0 com u(0,⋅)=fu(0, \cdot) = f —, demonstramos as propriedades notáveis da solução e vemos por que o tempo não pode ser invertido. Ao longo de todo o problema, gt(x)=12πte−x2/4tg_t(x) = \frac1{2\sqrt{\pi t}}\eu^{-x^2/4t} é o núcleo do calor e u(t,⋅)=gt∗fu(t, \cdot) = g_t * f.

Parte I — Deduzindo o núcleo. Trabalhe primeiro formalmente: suponha que u(t,⋅)∈Su(t, \cdot) \in \mathcal S resolva a equação e seja u^(t,ξ)\hat u(t, \xi) a transformada em xx.

  1. Mostre (formalmente) que ∂tu^=−ξ2u^\partial_t\hat u = -\xi^2\hat u, logo u^(t,ξ)=e−tξ2f^(ξ)\hat u(t,\xi) = \eu^{-t\xi^2}\hat f(\xi), e reconheça u(t)=gt∗fu(t) = g_t * f (Exercício 14.4). Isso motiva a definição de uu; tudo é agora demonstrado diretamente, para f∈Cb(R)f \in \mathcal C_b(\R) (contínua e limitada) ou f∈Lpf \in L^p.

Parte II — Verificação.

  1. Mostre que, para t>0t > 0, u(t,x)=∫gt(x−y)f(y) ⁣dyu(t, x) = \int g_t(x-y)f(y)\dd y está bem definida para f∈Cbf \in \mathcal C_b, e que uu é C∞\mathcal C^\infty em (t,x)(t, x) sobre (0, ∞)×R\intoo0\infty\times\R (derive sob o sinal de integral; domine as derivadas gaussianas localmente de maneira uniforme em (t,x)(t,x)).
  2. Verifique ∂tgt=∂xx2gt\partial_tg_t = \partial^2_{xx}g_t por cálculo direto e deduza ∂tu=∂xx2u\partial_tu = \partial^2_{xx}u para t>0t > 0.
  3. (Condição inicial) Mostre que, para f∈Cbf \in \mathcal C_b, u(t,x)→f(x)u(t, x) \to f(x) quando t→0+t \to 0^+, uniformemente nos compactos (aproximação da identidade: separe ∣y∣≤δ\abs y \leq \delta, ∣y∣>δ\abs y > \delta); para f∈Lpf \in L^p (p<∞p < \infty), mostre ∥u(t)−f∥p→0\norm{u(t) - f}_p \to 0.
  4. (Suavização instantânea) Conclua: mesmo para ff apenas contínua e limitada, a solução é C∞\mathcal C^\infty para todo t>0t > 0 — o calor apaga instantaneamente a aspereza. Calcule u(t,⋅)u(t, \cdot) explicitamente para f=1(0, ∞)f = \mathbf 1_{\intoo0\infty} (uma função erro) e esboce seu perfil para três valores de tt.

Parte III — Propriedades estruturais.

  1. (Positividade e comparação) Se f≥0f \geq 0, então u>0u > 0 para todo t>0t > 0 (estritamente, salvo se f=0f = 0 q.t.p.); se f1≤f2f_1 \leq f_2, então u1≤u2u_1 \leq u_2. Um ponto frio se aquece instantaneamente: comente.
  2. (Conservação) Para f∈L1f \in L^1: ∫u(t,x) ⁣dx=∫f\int u(t, x)\dd x = \int f para todo tt (Tonelli) — o calor total se conserva.
  3. (Dissipação) Para f∈L1∩L2f \in L^1\cap L^2, mostre via Plancherel que t↦∥u(t)∥2t \mapsto \norm{u(t)}_2 é não crescente, estritamente salvo se f=0f = 0, e calcule seu limite quando t→∞t \to \infty. Mostre, além disso, que ∥u(t)∥∞≤∥f∥12πt→0\norm{u(t)}_\infty \leq \frac{\norm f_1}{2\sqrt{\pi t}} \to 0: o calor se espalha e morre.
  4. (Unicidade, classe L2L^2) Seja uu uma solução com u(t)∈L2u(t) \in L^2 para todo tt, u∈C1((0, ∞),L2)u \in \mathcal C^1(\intoo0\infty, L^2) no sentido natural e u(t)→fu(t) \to f em L2L^2 quando t→0t\to0; admitindo que a transformada a converte em ∂tu^=−ξ2u^\partial_t\hat u = -\xi^2\hat u pontualmente q.t.p. em ξ\xi para q.t.p. tt (justificado testando contra Cc∞\mathcal C_c^\infty em ξ\xi — esboce isso), mostre que u^(t,ξ)=e−tξ2f^(ξ)\hat u(t,\xi) = \eu^{-t\xi^2}\hat f(\xi) e, portanto, a unicidade nessa classe.

Parte IV — A flecha do tempo.

  1. Mostre que o problema retrógrado é mal posto: para que a solução exista no instante −s-s (s>0s > 0) com dados ff no instante 00 — isto é, para que f=gs∗hf = g_s * h tenha solução h∈L2h \in L^2 —, é necessário que esξ2f^(ξ)∈L2\eu^{s\xi^2}\hat f(\xi) \in L^2: uma condição extrema de decaimento sobre f^\hat f. Exiba uma f∈L2f \in L^2 suave explícita para a qual não existe solução retrógrada em intervalo de tempo algum: tome a função com f^(ξ)=e−∣ξ∣\hat f(\xi) = \eu^{-\abs\xi} — identifique ff (Exercício 14.1) e mostre que esξ2e−∣ξ∣∉L2\eu^{s\xi^2}\eu^{-\abs\xi} \notin L^2 para todo s>0s > 0.
  2. (Suavização e informação) Explique em um parágrafo curto, usando as questões 5, 9 e 10, por que o semigrupo do calor (f↦gt∗f)t≥0(f \mapsto g_t * f)_{t\geq0} é injetor mas não sobrejetor em L2L^2, e por que isso exprime a irreversibilidade da difusão.

Parte V — O teorema da amostragem de Shannon. Uma função f∈L2(R)f \in L^2(\R) é de banda limitada a Ω\Omega se f^=0\hat f = 0 q.t.p. fora de [−Ω, Ω]\intcc{-\Omega}\Omega; escrevemos PWΩPW_\Omega (espaço de Paley–Wiener) para essas funções.

  1. Mostre que toda f∈PWΩf \in PW_\Omega coincide q.t.p. com a função C∞\mathcal C^\infty dada por 12π∫−ΩΩf^(ξ)eixξ  ⁣dξ\frac1{2\pi}\int_{-\Omega}^{\Omega}\hat f(\xi)\eu^{\iu x\xi}\,\dd\xi (justifique a regularidade e a identificação), com todas as derivadas limitadas: a limitação de banda é uma forma extrema de regularidade. Daqui em diante, ff denota esse representante.
  2. Expanda f^∈L2([−Ω, Ω])\hat f \in L^2(\intcc{-\Omega}\Omega) na base de Fourier desse intervalo e identifique os coeficientes como amostras de ff:

    f^(ξ)=πΩ∑n∈Zf(nπΩ) e−inπξ/Ωem L2([−Ω, Ω]).\hat f(\xi) = \frac\pi\Omega\sum_{n\in\Z} f\Bigl(\frac{n\pi}\Omega\Bigr)\, \eu^{-\iu n\pi\xi/\Omega} \quad\text{em } L^2(\intcc{-\Omega}\Omega) .
  3. Deduza o teorema da amostragem: para f∈PWΩf \in PW_\Omega,

    f(x)=∑n∈Zf(nπΩ) sinc⁡(Ωx−nπ),sinc⁡t=sin⁡tt,f(x) = \sum_{n\in\Z}f\Bigl(\frac{n\pi} \Omega\Bigr)\,\operatorname{sinc}(\Omega x - n\pi), \qquad \operatorname{sinc}t = \frac{\sin t}t,

    com convergência em L2(R)L^2(\R) e uniforme em R\R (injete a série da questão 13 na fórmula de inversão e calcule a integral elementar): um sinal de banda limitada fica inteiramente determinado por seus valores em uma grade de passo π/Ω\pi/\Omega — a taxa de Nyquist.

  4. Mostre que as funções x↦sinc⁡(Ωx−nπ)x \mapsto \operatorname{sinc}(\Omega x - n\pi), n∈Zn \in \Z, formam uma família ortogonal em L2(R)L^2(\R) de norma constante π/Ω\sqrt{\pi/\Omega}, e deduza a identidade de energia ∥f∥22=πΩ∑n∣f(nπ/Ω)∣2\norm f_2^2 = \frac\pi\Omega\sum_n\abs{f(n\pi/\Omega)}^2.
  5. (Aliasing) Exiba uma g∈PW2Ωg \in PW_{2\Omega} não nula que se anula em todo ponto de amostragem nπΩ\frac{n\pi}\Omega (considere g(x)=sin⁡(Ωx)sinc⁡(Ωx)g(x) = \sin(\Omega x)\operatorname{sinc}(\Omega x) e verifique sua banda): amostrar abaixo da taxa de Nyquist perde informação — dois sinais diferentes podem partilhar todas as amostras: o efeito estroboscópico da roda de carroça, matematizado.
  6. (Graus de liberdade) Usando as questões 14–15, justifique a regra de engenharia: um sinal de banda limitada a Ω\Omega cuja energia é essencialmente carregada por uma janela temporal de comprimento TT é descrito por aproximadamente ΩTπ\frac{\Omega T}\pi amostras reais — torne “essencialmente” preciso por meio da identidade de energia e da cauda ∑∣nπ/Ω∣>T/2\sum_{\abs{n\pi/\Omega} > T/2}.
  7. (Verificações de coerência) Confira o teorema da amostragem à mão em dois membros de PWΩPW_\Omega: (a) f=sinc⁡(Ω ⋅)f = \operatorname{sinc}(\Omega\,\cdot), cujas amostras são δn0\delta_{n0}; (b) sinais de banda estreita do tipo f(x)=cos⁡(ωx)sinc⁡(εx)f(x) = \cos(\omega x) \operatorname{sinc}(\varepsilon x) — mais precisamente, mostre que, para f∈PWΩ′f \in PW_{\Omega'} com Ω′<Ω\Omega' < \Omega, a série na taxa Ω\Omega também reconstrói ff (sobreamostrar é inofensivo), mergulhando PWΩ′⊆PWΩPW_ {\Omega'} \subseteq PW_\Omega.

Parte VI — Incerteza, mais duas vezes. A desigualdade de Heisenberg (Exercício 14.8) limita quanto ff e f^\hat f podem estar conjuntamente concentradas; eis sua irmã do tipo tudo-ou-nada e sua saturação exata.

  1. Seja f∈L1f \in L^1 com supp⁡f⊆[−A, A]\operatorname{supp}f \subseteq \intcc{-A}A. Mostre que f^\hat f é a soma de uma série de potências convergente em toda parte:

    f^(ξ)=∑k≥0(−iξ)kk! mk,mk=∫−AAxkf(x)  ⁣dx,∣mk∣≤Ak∥f∥1\hat f(\xi) = \sum_{k\geq0}\frac{(-\iu\xi)^k}{k!} \,m_k, \qquad m_k = \int_{-A}^{A}x^kf(x)\,\dd x, \quad \abs{m_k} \leq A^k\norm f_1

    (expanda e−iξx\eu^{-\iu\xi x} e justifique a troca pela convergência normal): a transformada é real-analítica, com raio de convergência infinito em todo ponto.

  2. Deduza a dicotomia dos suportes: uma função real-analítica que se anula em um intervalo aberto não vazio se anula identicamente (o conjunto em que todas as derivadas se anulam é aberto e fechado — desenvolva o argumento de Taylor); conclua que nenhuma ff não nula tem ff e f^\hat f ambas de suporte compacto, e que PWΩPW_\Omega não contém função não nula de suporte compacto — os sinais de banda limitada duram para sempre, e os sinais de duração limitada vazam para todas as frequências.
  3. (Saturação de Heisenberg) Na família gaussiana f=e−ax2f = \eu^{-ax^2}, calcule os dois fatores de concentração e verifique que o produto normalizado (∫x2∣f∣2)(12π∫ξ2∣f^∣2)/∥f∥24\bigl(\int x^2\abs f^2\bigr)\bigl(\frac1{2\pi}\int \xi^2\abs{\hat f}^2\bigr)\big/\norm f_2^4 vale 14\frac14 para todo aa — a família de igualdade do Exercício 14.8 em carne e osso; explique por um argumento de reescalamento por que o produto tem de ser constante ao longo da família.
  4. Explique a leitura física (densidades de posição e de momento de um estado quântico; o ℏ\hbar da normalização dá σxσp≥ℏ2\sigma_x\sigma_p \geq \frac\hbar2) e faça a conexão ao longo do capítulo: a suavização instantânea (Parte II), a irreversibilidade (Parte IV), a amostragem (Parte V), Heisenberg e a dicotomia dos suportes são cinco expressões de uma mesma lei — o comportamento de f^\hat f no infinito legisla o que ff pode fazer em qualquer lugar.

Parte VII — A álgebra do núcleo e um exemplo resolúvel.

  1. (Semigrupo) Demonstre a identidade de Chapman–Kolmogorov gt∗gs=gt+sg_t * g_s = g_{t+s} para t,s>0t, s > 0 (via o teorema da convolução e a injetividade da transformada em L1L^1) e deduza u(t+s)=gs∗u(t)u(t + s) = g_s * u(t): evoluir por um tempo t+st + s é evoluir por tt e, depois, por ss. Refine a dissipação da questão 8: escrevendo ∥u(t)∥22=12π∫e−2tξ2∣f^(ξ)∣2 ⁣dξ\norm{u(t)}_2^2 = \frac1{2\pi}\int \eu^{-2t\xi^2}\abs{\hat f(\xi)}^2\dd\xi, mostre por Cauchy–Schwarz que

    t⟼ln⁡ ∥u(t)∥2eˊ convexa em (0, +∞):t \longmapsto \ln\,\norm{u(t)}_2 \quad\text{é convexa em } \intoo0{+\infty} :

    a energia L2L^2 não apenas decresce: ela decresce de maneira log-convexa.

  2. (Para onde vai o calor) Sejam f≥0f \geq 0, f∈L1f \in L^1, com ∫x2f(x) ⁣dx<∞\int x^2f(x)\dd x < \infty. Mostre que, para todo t>0t > 0,

    ∫Rx u(t,x)  ⁣dx=∫Rxf(x)  ⁣dx,∫Rx2u(t,x)  ⁣dx=∫Rx2f(x)  ⁣dx+2t∫Rf:\int_\R x\,u(t, x)\,\dd x = \int_\R x f(x)\,\dd x, \qquad \int_\R x^2u(t, x)\,\dd x = \int_\R x^2f(x)\,\dd x + 2t\int_\R f :

    o centro do calor nunca se move, e a variância cresce linearmente no tempo — o reescalamento difusivo x∼2tx \sim \sqrt{2t}, a ser relido quando o movimento browniano aparecer no Capítulo 22. (Calcule os dois primeiros momentos de gtg_t e use Tonelli na convolução.)

  3. (A gaussiana, resolvida de ponta a ponta) Para f(x)=e−x2f(x) = \eu^{-x^2}, estabeleça a forma fechada

    u(t,x)=11+4t exp⁡(−x21+4t),u(t, x) = \frac1{\sqrt{1 + 4t}}\, \exp\Bigl(-\frac{x^2}{1 + 4t}\Bigr),

    e verifique nela, à mão: a equação ∂tu=∂xx2u\partial_tu = \partial^2_{xx}u; a conservação ∫u(t)=π\int u(t) = \sqrt\pi; a lei de dissipação ∥u(t)∥2=(π/2)1/4(1+4t)−1/4\norm{u(t)}_2 = (\pi/2)^{1/4}(1 + 4t)^{-1/4} (compare seu decaimento t−1/4t^{-1/4} com o decaimento t−1/2t^{-1/2} da norma do supremo, questão 8); e o crescimento exato da variância da questão 24. Em t=6t = 6: o pico caiu a 15\frac15 de sua altura inicial, enquanto o perfil está cinco vezes mais largo — o mesmo calor, espalhado.

Solução

Solução de Problema 14.1.

1. Transformando a equação em xx (formalmente): ∂tu^(t,ξ)=∂xx2u^=(iξ)2u^=−ξ2u^\partial_t\hat u(t,\xi) = \widehat{\partial^2_{xx}u} = (\iu\xi)^2\hat u = -\xi^2\hat u, uma EDO em tt para cada frequência: u^(t,ξ)=e−tξ2f^(ξ)\hat u(t,\xi) = \eu^{-t\xi^2}\hat f(\xi). Como e−tξ2=g^t\eu^{-t\xi^2} = \hat g_t (Exercício 14.4), o produto é a transformada de gt∗fg_t * f.

2. ∣u(t,x)∣≤∥f∥∞∫gt=∥f∥∞\abs{u(t,x)} \leq \norm f_\infty\int g_t = \norm f_\infty: bem definida. Em [t0,T]×[−A,A][t_0, T]\times[-A, A]: cada derivada mista ∂tm∂xngt(x−y)\partial^m_t\partial^n_xg_t(x - y) é um polinômio em (x−y)(x - y) e t−1t^{-1} vezes e−(x−y)2/4t\eu^{-(x-y)^2/4t}, limitado para ∣y∣≥2A\abs y \geq 2A por C (1+y2)Ne−(∣y∣−A)2/4TC\,(1 + y^2)^N\eu^{-(\abs y - A)^2/4T}, um dominante integrável independente de (t,x)(t, x) na janela (e limitado para ∣y∣≤2A\abs y \leq 2A): a derivação repetida sob o sinal de integral (Teorema 10.15) se aplica: u∈C∞((0, ∞)×R)u \in \mathcal C^\infty(\intoo0\infty\times\R).

3. Com gt(x)=12πte−x2/4tg_t(x) = \frac1{2\sqrt{\pi t}}\eu^{-x^2/4t}:

∂tgt=gt(x24t2−12t)=∂xx2gt\partial_tg_t = g_t\Bigl(\frac{x^2}{4t^2} - \frac1{2t}\Bigr) = \partial^2_{xx}g_t

(derive duas vezes em xx: ∂xgt=−x2tgt\partial_xg_t = -\frac x{2t}g_t, ∂xx2gt=(x24t2−12t)gt\partial^2_{xx}g_t = \bigl(\frac{x^2}{4t^2} - \frac1{2t}\bigr)g_t). Pela questão 2, as derivadas passam para dentro da integral: ∂tu=∂xx2u\partial_tu = \partial^2_{xx}u.

4. u(t,x)−f(x)=∫gt(y)(f(x−y)−f(x)) ⁣dyu(t,x) - f(x) = \int g_t(y)\bigl(f(x - y) - f(x)\bigr)\dd y. Dados um compacto KK e ε\varepsilon: a continuidade uniforme de ff numa vizinhança de KK dá δ\delta com ∣f(x−y)−f(x)∣<ε\abs{f(x-y) - f(x)} < \varepsilon para x∈Kx \in K, ∣y∣≤δ\abs y \leq \delta; a cauda contribui com massa ≤2∥f∥∞∫∣y∣>δgt(y) ⁣dy=2∥f∥∞ P\leq 2\norm f_\infty\int_{\abs y > \delta}g_t(y)\dd y = 2\norm f_\infty\,\P além de δ\delta, que é 2π∫δ/2t∞e−z2 ⁣dz→0\frac2{\sqrt\pi}\int_{\delta/2\sqrt t}^\infty\eu^{-z^2}\dd z \to 0 quando t→0t \to 0. Para f∈Lpf \in L^p: ∥u(t)−f∥p≤∫gt(y)∥τyf−f∥p ⁣dy\norm{u(t) - f}_p \leq \int g_t(y)\norm{\tau_yf - f}_p\dd y (Minkowski/Jensen como no Teorema 12.9); reparta do mesmo modo usando o Teorema 12.6(3).

5. A suavização instantânea é a questão 2 (u(t)u(t) é C∞\mathcal C^\infty para t>0t > 0 sem que se use regularidade alguma de ff). Para f=1(0, ∞)f = \mathbf 1_{\intoo0\infty}:

u(t,x)=∫0∞gt(x−y) ⁣dy=1π∫−x/2t∞e−z2 ⁣dz=12(1+erf⁡(x2t)),erf⁡(s)=2π∫0se−z2 ⁣dz:u(t, x) = \int_0^\infty g_t(x - y)\dd y = \frac1{\sqrt\pi}\int_{-x/2\sqrt t}^{\infty}\eu^{-z^2}\dd z = \frac12\Bigl(1 + \operatorname{erf}\Bigl(\frac{x}{2\sqrt t}\Bigr)\Bigr), \qquad \operatorname{erf}(s) = \frac2{\sqrt\pi}\int_0^s\eu^{-z^2}\dd z :

um degrau suavizado cuja zona de transição se alarga como t\sqrt t (perfis em t1<t2<t3t_1 < t_2 < t_3: rampas cada vez mais planas atravessando (0,12)(0, \frac12)).

6. O integrando gt(x−y)f(y)g_t(x-y)f(y) é ≥0\geq 0 e o núcleo é estritamente positivo: u(t,x)=0u(t,x) = 0 forçaria f=0f = 0 q.t.p. A monotonicidade em ff é a monotonicidade da integral. Um trecho em que f=0f = 0 num intervalo ainda tem u(t,⋅)>0u(t, \cdot) > 0 ali para todo t>0t > 0: o calor se propaga a velocidade infinita (qualquer positividade em qualquer lugar é sentida em toda parte instantaneamente).

7. Tonelli (gt(x−y)∣f(y)∣g_t(x-y)\abs{f(y)} é integrável em R2\R^2): ∫u(t,x) ⁣dx=∫f(y)(∫gt(x−y) ⁣dx) ⁣dy=∫f\int u(t,x)\dd x = \int f(y)\bigl(\int g_t(x - y)\dd x\bigr)\dd y = \int f.

8. Plancherel: 2π∥u(t)∥22=∫e−2tξ2∣f^(ξ)∣2 ⁣dξ2\pi\norm{u(t)}_2^2 = \int\eu^{-2t\xi^2}\abs{\hat f(\xi)}^2\dd\xi, não crescente em tt (pontualmente), estritamente a menos que f^=0\hat f = 0 q.t.p. (=f=0= f = 0), com limite 00 quando t→∞t\to\infty pelo TCD. E ∥u(t)∥∞≤∥gt∥∞∥f∥1=∥f∥12πt→0\norm{u(t)}_\infty \leq \norm{g_t}_\infty\norm f_1 = \frac{\norm f_1}{2\sqrt{\pi t}} \to 0.

9. Para φ∈Cc∞\varphi \in \mathcal C_c^\infty, t↦⟨φ,u^(t)⟩t \mapsto \langle\varphi, \hat u(t)\rangle é C1\mathcal C^1 com derivada ⟨φ,∂tu^⟩=⟨φ,∂xxu^⟩=⟨ξ2φ… ⟩\langle\varphi, \partial_t\hat u\rangle = \langle\varphi, \widehat{\partial_{xx}u}\rangle = \langle\xi^2\varphi\dots\rangle — mais precisamente, ∂xx2u^=−ξ2u^\widehat{\partial^2_{xx}u} = -\xi^2\hat u transfere a equação. Então, para q.t.p. ξ\xi, a função absolutamente contínua t↦etξ2u^(t,ξ)t \mapsto \eu^{t\xi^2}\hat u(t,\xi) tem derivada etξ2(ξ2u^+∂tu^)=0\eu^{t\xi^2}(\xi^2\hat u + \partial_t\hat u) = 0 no sentido integrado: ela é constante e, fazendo t→0t \to 0 (u^(t)→f^\hat u(t) \to \hat f em L2L^2, q.t.p. ao longo de uma subsequência): u^(t,ξ)=e−tξ2f^(ξ)\hat u(t, \xi) = \eu^{-t\xi^2}\hat f(\xi) q.t.p. Duas soluções na classe têm a mesma transformada: são iguais.

10. f=gs∗hf = g_s * h com h∈L2h \in L^2 força f^=e−sξ2h^\hat f = \eu^{-s\xi^2}\hat h, isto é, h^=esξ2f^∈L2\hat h = \eu^{s\xi^2}\hat f \in L^2. Tome f^(ξ)=e−∣ξ∣\hat f(\xi) = \eu^{-\abs\xi}: então f(x)=1π⋅11+x2f(x) = \frac1\pi\cdot\frac1{1 + x^2} (Exercício 14.1, inversão), uma função L2L^2 perfeitamente suave; mas e2sξ2−2∣ξ∣→∞\eu^{2s\xi^2 - 2\abs\xi} \to \infty: esξ2f^∉L2\eu^{s\xi^2}\hat f \notin L^2 para todo s>0s > 0. O perfil de Cauchy nunca é o resultado de uma difusão anterior.

11. O semigrupo do calor multiplica as transformadas por e−tξ2\eu^{-t\xi^2}, que não se anula em parte alguma: injetivo — formalmente, nenhuma informação é destruída. Mas sua imagem consiste em funções cujas transformadas decaem como e−tξ2\eu^{-t\xi^2}: um subespaço minúsculo, denso mas próprio, de L2L^2 (a questão 10 mostra que mesmo funções excelentes ficam de fora). Inverter amplificaria a frequência ξ\xi por etξ2\eu^{t\xi^2}: ilimitado, logo instável diante de qualquer perturbação. A difusão é irreversível não porque a aplicação esqueça, mas porque sua inversa não pode ser contínua — uma flecha do tempo feita de análise funcional.

12. f^∈L2([−Ω, Ω])⊆L1\hat f \in L^2(\intcc{-\Omega}\Omega) \subseteq L^1 (Cauchy–Schwarz num intervalo limitado), de modo que F(x)=12π∫−ΩΩf^(ξ)eixξ ⁣dξF(x) = \frac1{2\pi}\int_{-\Omega}^\Omega\hat f(\xi)\eu^{\iu x\xi}\dd\xi está definida em toda parte, e a derivação sob o sinal de integral (dominada por Ωk∣f^∣∈L1\Omega^k\abs{\hat f} \in L^1 na banda) a torna C∞\mathcal C^\infty com ∣F(k)∣≤Ωk2π∥f^∥L1\abs{F^{(k)}} \leq \frac{\Omega^k}{2\pi}\norm{\hat f}_{L^1} em toda parte. E F=fF = f q.t.p.: ambos os membros têm a mesma transformada, e a transformada é injetora em L2L^2 (Teorema 14.8 e sua extensão L2L^2).

13. As exponenciais ξ↦e−inπξ/Ω\xi \mapsto \eu^{-\iu n\pi\xi/\Omega}, n∈Zn \in \Z, formam uma base hilbertiana de L2([−Ω, Ω])L^2(\intcc{-\Omega}\Omega) (Teorema 13.9, reescalado). O coeficiente de f^\hat f ao longo da nn-ésima é

12Ω∫−ΩΩf^(ξ) einπξ/Ω ⁣dξ=2π2Ω⋅12π∫−ΩΩf^(ξ) ei(nπ/Ω)ξ ⁣dξ=πΩ f(nπΩ),\frac1{2\Omega}\int_{-\Omega}^\Omega\hat f(\xi)\, \eu^{\iu n\pi\xi/\Omega}\dd\xi = \frac{2\pi}{2\Omega}\cdot \frac1{2\pi}\int_{-\Omega}^{\Omega}\hat f(\xi)\, \eu^{\iu(n\pi/\Omega)\xi}\dd\xi = \frac\pi\Omega\,f\Bigl(\frac{n\pi}\Omega\Bigr),

pela fórmula da questão 12 em x=nπΩx = \frac{n\pi}\Omega: a expansão enunciada vale em L2L^2 da banda.

14. Insira a expansão na fórmula de inversão da questão 12; a troca de soma e integral é a continuidade do pareamento L2L^2 contra 12πeixξ1∣ξ∣≤Ω\frac1{2\pi} \eu^{\iu x\xi}\mathbf 1_{\abs\xi\leq\Omega} (de norma L2L^2 2Ω2π\frac{\sqrt{2\Omega}}{2\pi}, independente de xx — donde a uniformidade):

f(x)=∑nf(nπΩ)⋅12Ω∫−ΩΩei(x−nπ/Ω)ξ ⁣dξ=∑nf(nπΩ)sinc⁡(Ωx−nπ),f(x) = \sum_nf\Bigl(\frac{n\pi}\Omega\Bigr)\cdot \frac1{2\Omega}\int_{-\Omega}^\Omega \eu^{\iu(x - n\pi/\Omega)\xi}\dd\xi = \sum_nf\Bigl(\frac{n\pi}\Omega\Bigr) \operatorname{sinc}(\Omega x - n\pi),

pois 12Ω∫−ΩΩeiuξ ⁣dξ=sin⁡(Ωu)Ωu\frac1{2\Omega}\int_{-\Omega}^\Omega\eu^{\iu u\xi}\dd\xi = \frac{\sin(\Omega u)}{\Omega u}.

15. Lendo o cálculo da questão 14 de trás para a frente, a transformada de sn=sinc⁡(Ω⋅−nπ)s_n = \operatorname{sinc}(\Omega\cdot - n\pi) é s^n=πΩ e−inπξ/Ω 1[−Ω, Ω]\hat s_n = \frac\pi\Omega\,\eu^{-\iu n\pi\xi/\Omega}\,\mathbf 1_{\intcc{-\Omega}\Omega}. Plancherel:

⟨sn,sm⟩=12π(πΩ)2∫−ΩΩei(n−m)πξ/Ω ⁣dξ=πΩ δnm:\langle s_n, s_m\rangle = \frac1{2\pi} \Bigl(\frac\pi\Omega\Bigr)^2\int_{-\Omega}^\Omega \eu^{\iu(n-m)\pi\xi/\Omega}\dd\xi = \frac\pi\Omega\,\delta_{nm} :

uma família ortogonal de norma constante π/Ω\sqrt{\pi/\Omega}. Tomando normas na expansão da questão 14: ∥f∥22=πΩ∑n∣f(nπ/Ω)∣2\norm f_2^2 = \frac\pi\Omega\sum_n\abs{f(n\pi/\Omega)}^2.

16. g(x)=sin⁡(Ωx)sinc⁡(Ωx)=sin⁡2(Ωx)Ωxg(x) = \sin(\Omega x)\operatorname{sinc} (\Omega x) = \frac{\sin^2(\Omega x)}{\Omega x} se anula em todo ponto da malha nπΩ\frac{n\pi}\Omega (inclusive em 00, pelo limite) e não é identicamente nula. Sua banda: escreva g=12i(eiΩx−e−iΩx)sinc⁡(Ωx)g = \frac1{2\iu}\bigl(\eu^{\iu\Omega x} - \eu^{-\iu\Omega x}\bigr)\operatorname{sinc}(\Omega x); a modulação por e±iΩx\eu^{\pm\iu\Omega x} desloca a transformada de ∓Ω\mp\Omega, de modo que g^\hat g tem suporte em [−2Ω, 2Ω]\intcc{-2\Omega}{2\Omega} (de fato, na união de duas bandas deslocadas): g∈PW2Ωg \in PW_{2\Omega}, invisível à amostragem à taxa Ω\Omega — o alias encarnado.

17. Pela questão 15, as amostras carregam a energia democraticamente: ∥f∥2=πΩ∑∣f(nπ/Ω)∣2\norm f^2 = \frac\pi\Omega\sum \abs{f(n\pi/\Omega)}^2. Se a energia do sinal fora da janela temporal [−T/2, T/2]\intcc{-T/2}{T/2} é ≤ε2∥f∥2\leq \varepsilon^2\norm f^2, as amostras fora da janela satisfazem (a menos de termos de bordo controlados pela cota uniforme da questão 12) πΩ∑∣nπ/Ω∣>T/2∣f(nπ/Ω)∣2≈∥f 1∣x∣>T/2∥2≤ε2∥f∥2\frac\pi\Omega\sum_{\abs{n\pi/\Omega} > T/2} \abs{f(n\pi/\Omega)}^2 \approx \norm{f\,\mathbf 1_{\abs x > T/2}}^2 \leq \varepsilon^2\norm f^2: truncar a série de amostragem aos ≈ΩTπ\approx \frac{\Omega T}\pi índices dentro da janela reconstrói ff a menos de erro relativo ≈ε\approx\varepsilon. Logo o produto tempo–banda ΩTπ\frac{\Omega T}{\pi} conta os graus de liberdade reais efetivos do sinal — a regra por trás de todo formato de áudio.

18. (a) sinc⁡(Ωx)\operatorname{sinc}(\Omega x) tem amostras f(nπ/Ω)=sinc⁡(nπ)=δn0f(n\pi/\Omega) = \operatorname{sinc}(n\pi) = \delta_{n0}: a série se reduz a seu termo n=0n = 0, sinc⁡(Ωx)\operatorname{sinc}(\Omega x) — o teorema reproduz seu próprio núcleo. (b) Se f^\hat f tem suporte em [−Ω′, Ω′]⊆[−Ω, Ω]\intcc{-\Omega'}{\Omega'} \subseteq \intcc{-\Omega}\Omega, cada passo das questões 13–14 vale literalmente com a banda maior Ω\Omega (a expansão de f^\hat f no intervalo maior continua legítima): amostrar mais rápido que a própria taxa de Nyquist nada muda na reconstrução — a superamostragem é inofensiva e, na prática, benéfica (podem-se então usar núcleos de reconstrução de decaimento mais rápido).

19. Expanda e−iξx=∑k(−iξx)kk!\eu^{-\iu\xi x} = \sum_k\frac{(-\iu\xi x)^k}{k!} dentro da integral; em [−A, A]\intcc{-A}A a série converge normalmente (∑k∣ξ∣kAkk!∣f∣∈L1\sum_k\frac{\abs{\xi}^kA^k}{k!}\abs f \in L^1), de modo que a integração termo a termo é legítima:

f^(ξ)=∑k≥0(−iξ)kk!mk,∣mk∣≤Ak∥f∥1.\hat f(\xi) = \sum_{k\geq0}\frac{(-\iu\xi)^k}{k!}m_k, \qquad \abs{m_k} \leq A^k\norm f_1 .

A cota faz a série convergir para todo ξ\xi complexo; em torno de qualquer ponto ξ0\xi_0, reagrupar (convergência absoluta) dá uma série de potências em ξ−ξ0\xi - \xi_0: f^\hat f é real-analítica de raio infinito em toda parte.

20. Seja gg real-analítica em R\R (série de Taylor convergindo para gg perto de cada ponto) e Z={ξ:g(k)(ξ)=0 ∀k}Z = \{\xi : g^{(k)}(\xi) = 0\ \forall k\}. ZZ é fechado (interseção de fechados); é aberto, pois em ξ0∈Z\xi_0 \in Z a expansão de Taylor local de gg é a série nula, de modo que gg se anula identicamente perto de ξ0\xi_0, junto com todas as derivadas. Se gg se anula num intervalo, Z≠∅Z \neq \varnothing; por conexidade de R\R, Z=RZ = \R: g≡0g \equiv 0. Ora, se f≠0f \neq 0 tivesse suporte compacto junto com f^\hat f: a questão 19 torna f^\hat f real-analítica, anulando-se fora de um compacto, logo em intervalos: f^≡0\hat f \equiv 0, de modo que f=0f = 0 q.t.p. por injetividade — contradição. Do mesmo modo, uma f∈PWΩf \in PW_\Omega não nula não pode ter suporte compacto (troque os papéis de ff e f^\hat f via inversão): sinais de banda limitada nunca morrem, sinais de duração limitada ocupam espectro ilimitado.

21. Para f=e−ax2f = \eu^{-ax^2}: ∥f∥22=π2a\norm f_2^2 = \sqrt{\frac\pi{2a}} e ∫x2∣f∣2=14aπ2a\int x^2\abs f^2 = \frac1{4a}\sqrt{\frac{\pi}{2a}} (segundo momento gaussiano); f^=πa e−ξ2/4a\hat f = \sqrt{\frac\pi a}\,\eu^{-\xi^2/4a} (Exemplo 14.2) e

12π∫ξ2∣f^∣2 ⁣dξ=12π⋅πa∫ξ2e−ξ2/2a ⁣dξ=12a⋅a2πa=2πa2.\frac1{2\pi}\int\xi^2\abs{\hat f}^2\dd\xi = \frac1{2\pi}\cdot\frac\pi a\int\xi^2 \eu^{-\xi^2/2a}\dd\xi = \frac1{2a}\cdot a\sqrt{2\pi a} = \frac{\sqrt{2\pi a}}2 .

Produto normalizado: 14aπ2a⋅2πa2/π2a=14\frac1{4a}\sqrt{\frac\pi{2a}}\cdot \frac{\sqrt{2\pi a}}2\big/\frac{\pi}{2a} = \frac14, independente de aa. O reescalamento explica a constância: substituir ff por f(λ⋅)f(\lambda\cdot) multiplica ∫x2∣f∣2/∥f∥2\int x^2\abs f^2/\norm f^2 por λ−2\lambda^{-2} e 12π∫ξ2∣f^∣2/∥f∥2\frac1{2\pi}\int\xi^2\abs{\hat f}^2/\norm f^2 por λ2\lambda^{2}: o produto é um invariante de dilatação, e as gaussianas formam uma única órbita de dilatação.

22. Com ∣f∣2\abs f^2 a densidade de posição e 12π∣f^∣2\frac1{2\pi}\abs{\hat f}^2 a densidade de momento de um estado quântico (as unidades físicas inserem ℏ\hbar), o Exercício 14.8 se lê σxσp≥ℏ2\sigma_x\sigma_p \geq \frac\hbar2: nenhum estado é nítido nos dois observáveis. Ao longo do capítulo, uma lei veste cinco trajes: o calor suaviza instantaneamente porque e−tξ2\eu^{-t\xi^2} aniquila as altas frequências (Parte II); o fluxo não pode correr para trás porque restaurá-las é ilimitado (Parte IV); um sinal de banda limitada é rígido o bastante para viver numa malha enumerável (Parte V); nenhuma função vence o piso de Heisenberg; e nenhuma função tem suporte compacto dos dois lados da transformada (questões 19–20). O que f^\hat f faz no infinito governa o que ff pode fazer em qualquer lugar.

23. Tanto gtg_t quanto gsg_s estão em L1L^1 com gt^(ξ)=e−tξ2\widehat{g_t}(\xi) = \eu^{-t\xi^2} (o cálculo da questão 1), de modo que o teorema da convolução dá gt∗gs^=e−tξ2e−sξ2=e−(t+s)ξ2=gt+s^\widehat{g_t * g_s} = \eu^{-t\xi^2}\eu^{-s\xi^2} = \eu^{-(t+s)\xi^2} = \widehat{g_{t+s}}; duas funções L1L^1 com a mesma transformada coincidem q.t.p. (injetividade, via o teorema de inversão — aqui ambos os membros são contínuos, de modo que coincidem em toda parte): gt∗gs=gt+sg_t * g_s = g_{t+s}. Consequentemente, u(t+s)=gt+s∗f=gs∗(gt∗f)=gs∗u(t)u(t + s) = g_{t+s} * f = g_s * (g_t * f) = g_s * u(t) (associatividade da convolução, Tonelli). Log-convexidade: seja N(t)=∥u(t)∥22=12π∫e−2tξ2∣f^∣2 ⁣dξN(t) = \norm{u(t)}_2^2 = \frac1{2\pi}\int \eu^{-2t\xi^2}\abs{\hat f}^2\dd\xi (Plancherel, questão 8). Para t=t1+t22t = \frac{t_1 + t_2}2, escreva

e−2tξ2∣f^∣2=(e−2t1ξ2∣f^∣2)1/2(e−2t2ξ2∣f^∣2)1/2,\eu^{-2t\xi^2}\abs{\hat f}^2 = \Bigl(\eu^{-2t_1\xi^2}\abs{\hat f}^2\Bigr)^{1/2} \Bigl(\eu^{-2t_2\xi^2}\abs{\hat f}^2\Bigr)^{1/2},

e Cauchy–Schwarz dá N(t1+t22)≤N(t1) N(t2)N\bigl(\frac{t_1+t_2}2\bigr) \leq \sqrt{N(t_1)\,N(t_2)}: ln⁡N\ln N é convexa no ponto médio e, sendo contínua (convergência dominada em tt), convexa; ln⁡∥u(t)∥2=12ln⁡N(t)\ln\norm{u(t)}_2 = \frac12\ln N(t) também. Decaimento com logaritmo convexo: o fluxo do calor não pode perder energia num acesso e depois estagnar.

24. Os momentos do núcleo: ∫gt=1\int g_t = 1 (questão 7 com f=gsf = g_s, ou diretamente a integral gaussiana), ∫x gt(x) ⁣dx=0\int x\,g_t(x)\dd x = 0 (integrando ímpar) e, substituindo x=2t vx = 2\sqrt t\,v,

∫Rx2gt(x)  ⁣dx=4tπ∫Rv2e−v2 ⁣dv=2t.\int_\R x^2g_t(x)\,\dd x = \frac{4t}{\sqrt\pi}\int_\R v^2\eu^{-v^2}\dd v = 2t .

Substituindo x=z+yx = z + y na convolução e notando que ∬(∣z∣+∣y∣)2gt(z)f(y)  ⁣dz  ⁣dy<∞\iint(\abs z + \abs y)^2g_t(z)f(y)\,\dd z\,\dd y < \infty (cada um de ∫∣z∣kgt\int\abs z^kg_t, ∫∣y∣kf\int\abs y^kf é finito para k≤2k \leq 2, usando ∣y∣≤1+y22\abs y \leq \frac{1 + y^2}2), Fubini e Tonelli se aplicam às integrais de momentos abaixo:

∫x u(t,x) ⁣dx=∬(z+y) gt(z)f(y)  ⁣dz  ⁣dy=0⋅ ⁣∫ ⁣f+1⋅ ⁣∫ ⁣yf(y) ⁣dy,\int x\,u(t,x)\dd x = \iint (z + y)\,g_t(z)f(y)\,\dd z\,\dd y = 0\cdot\!\int\! f + 1\cdot\!\int\! yf(y)\dd y,

que é a primeira afirmação; e

∬(z+y)2gt(z)f(y)  ⁣dz  ⁣dy=2t∫f+2⋅0⋅ ⁣∫ ⁣yf+∫y2f(y) ⁣dy,\iint (z+y)^2g_t(z)f(y)\,\dd z\,\dd y = 2t\int f + 2\cdot0\cdot\!\int\! yf + \int y^2f(y)\dd y ,

a segunda. As médias se somam, as variâncias se somam, e o núcleo contribui com média 00 e variância 2t2t: após o tempo tt, o calor se espalhou por uma largura da ordem de 2t\sqrt{2t} — a distância cresce como a raiz quadrada do tempo, a assinatura da difusão (e das trajetórias brownianas do Capítulo 22).

25. Lado da transformada: f^(ξ)=π e−ξ2/4\hat f(\xi) = \sqrt\pi\,\eu^{-\xi^2/4}, de modo que u^(t,ξ)=π e−(t+14)ξ2\hat u(t,\xi) = \sqrt\pi\,\eu^{-(t + \frac14)\xi^2}, que é a transformada de (1+4t)−1/2exp⁡(−x2/(1+4t))(1 + 4t)^{-1/2}\exp\bigl(-x^2/(1+4t)\bigr) (o dicionário gaussiano e−ax2↦π/a e−ξ2/4a\eu^{-ax^2} \mapsto \sqrt{\pi/a}\,\eu^{-\xi^2/4a} com a=11+4ta = \frac1{1+4t}): a forma fechada. Verificação direta, com σ=1+4t\sigma = 1 + 4t:

∂tu=σ−1/2e−x2/σ(−2σ+4x2σ2)=∂xx2u,\partial_tu = \sigma^{-1/2}\eu^{-x^2/\sigma} \Bigl(-\frac2\sigma + \frac{4x^2}{\sigma^2}\Bigr) = \partial^2_{xx}u ,

ambos os membros calculados a partir de ∂xu=−2xσ u\partial_xu = -\frac{2x}\sigma\,u. Conservação: ∫u(t)=σ−1/2πσ=π\int u(t) = \sigma^{-1/2}\sqrt{\pi\sigma} = \sqrt\pi para todo tt. Dissipação:

∥u(t)∥22=1σ∫e−2x2/σ ⁣dx=1σπσ2=π2 (1+4t)−1/2,\norm{u(t)}_2^2 = \frac1\sigma\int\eu^{-2x^2/\sigma}\dd x = \frac1\sigma\sqrt{\frac{\pi\sigma}2} = \sqrt{\frac\pi2}\,(1+4t)^{-1/2},

de modo que ∥u(t)∥2=(π/2)1/4(1+4t)−1/4\norm{u(t)}_2 = (\pi/2)^{1/4}(1+4t)^{-1/4}, não crescente e com logaritmo convexo (questão 23); a norma L2L^2 decai como t−1/4t^{-1/4}, exatamente metade do expoente t−1/2t^{-1/2} de ∥u(t)∥∞\norm{u(t)}_\infty — coerente com ∥u∥22≤∥u∥∞∥u∥1\norm u_2^2 \leq \norm u_\infty\norm u_1 e com a conservação de ∥u∥1\norm u_1. Variância: ∫x2u(t)=1σ⋅σ3/2π2=π2 (1+4t)=∫x2f+2tπ\int x^2u(t) = \frac1\sigma\cdot\frac{\sigma^{3/2}\sqrt\pi}2 = \frac{\sqrt\pi}2\,(1 + 4t) = \int x^2f + 2t\sqrt\pi, como a questão 24 prevê (∫x2f=π2\int x^2f = \frac{\sqrt\pi}2, ∫f=π\int f = \sqrt\pi). Em t=6t = 6: σ=25\sigma = 25, altura de pico u(6,0)=15u(6, 0) = \frac15 contra u(0,0)=1u(0,0) = 1, escala de largura σ=5\sqrt\sigma = 5 vezes a inicial, e ∫u=π≈1.7725\int u = \sqrt\pi \approx 1.7725 o tempo todo: a mancha está cinco vezes mais baixa, cinco vezes mais larga, e não falta uma caloria.

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