Mathematics · Livro 5 · Bachelor Year 3

Matemática universitária — Graduação 3

Matemática universitária — Graduação 3 · Bachelor Year 3

19Equações diferenciais ordinárias

O segundo ano resolveu equações diferenciais lineares e enunciou o teorema de Cauchy–Lipschitz; este capítulo o demonstra — e duas vezes: existência e unicidade pelo ponto fixo de Banach, estrutura global pela teoria das soluções maximais e pelo teorema da fuga dos compactos. A teoria linear é então reconstruída sobre fundamentos honestos (resolvente, wronskiano, exponencial de matriz, Duhamel), e a segunda metade do capítulo abre a teoria qualitativa — fluxos, equilíbrios, funções de Lyapunov e estabilidade por linearização: como compreender soluções que jamais serão calculadas. O pêndulo, no problema de fim de semana, é o estudo de caso eterno. Ao longo de todo o capítulo, U⊆R×RdU \subseteq \R\times\R^d é aberto e f ⁣:U→Rdf \colon U \to \R^d é contínua; uma solução de x′=f(t,x)x' = f(t, x) é uma aplicação C1\mathcal C^1 x ⁣:I→Rdx \colon I \to \R^d (com II intervalo) de gráfico em UU que satisfaz a equação.

19.1 Cauchy–Lipschitz

Definição 19.1

ff é localmente lipschitziana em xx se todo ponto de UU tem uma vizinhança VV e uma constante LL com ∥f(t,x1)−f(t,x2)∥≤L∥x1−x2∥\norm{f(t, x_1) - f(t, x_2)} \leq L\norm{x_1 - x_2} para (t,x1),(t,x2)∈V(t, x_1), (t, x_2) \in V. Se ff é C1\mathcal C^1 (ou apenas se ∂xf\partial_xf existe e é contínua), ela é localmente lipschitziana em xx: em uma vizinhança compacta convexa, pela desigualdade do valor médio com L=sup⁡∣∣∣∂xf∣∣∣L = \sup\vertiii{\partial_xf}.

Teorema 19.2 (Cauchy–Lipschitz, local)

Sejam ff contínua e localmente lipschitziana em xx, e (t0,x0)∈U(t_0, x_0) \in U. Existe T>0T > 0 tal que o problema de Cauchy

x′=f(t,x),x(t0)=x0x' = f(t, x), \qquad x(t_0) = x_0

tem exatamente uma solução em [t0−T,t0+T][t_0 - T, t_0 + T].

Demonstração. Escolha a,b>0a, b > 0 com Q=[t0−a,t0+a]×Bˉ(x0,b)⊆UQ = [t_0 - a, t_0 + a]\times\bar B(x_0, b) \subseteq U, no qual ∥f∥≤M\norm f \leq M e ff é LL-lipschitziana em xx. Uma função C1\mathcal C^1 é solução se, e somente se, satisfaz a equação integral

x(t)=x0+∫t0tf(s,x(s))  ⁣dsx(t) = x_0 + \int_{t_0}^{t}f\bigl(s, x(s)\bigr)\,\dd s

(teorema fundamental do cálculo, nos dois sentidos). Sejam T=min⁡(a,bM,12L)T = \min\bigl(a, \frac bM, \frac1{2L}\bigr), I=[t0−T,t0+T]I = [t_0 - T, t_0 + T], e

E={x∈C(I,Rd):∥x(t)−x0∥≤b em I},\mathcal E = \{x \in \mathcal C(I, \R^d) : \norm{x(t) - x_0} \leq b\ \text{em } I\},

um subconjunto fechado do espaço de Banach (C(I,Rd),∥⋅∥∞)(\mathcal C(I, \R^d), \norm\cdot_\infty): completo (Definição 7.1). Defina Φ(x)(t)=x0+∫t0tf(s,x(s)) ⁣ds\Phi(x)(t) = x_0 + \int_{t_0}^tf(s, x(s))\dd s: para x∈Ex \in \mathcal E, ∥Φ(x)(t)−x0∥≤M∣t−t0∣≤MT≤b\norm{\Phi(x)(t) - x_0} \leq M\abs{t - t_0} \leq MT \leq b — Φ\Phi leva E\mathcal E nele mesmo — e, para x,y∈Ex, y \in \mathcal E:

∥Φ(x)(t)−Φ(y)(t)∥≤∣∫t0tL ∥x(s)−y(s)∥  ⁣ds∣≤LT ∥x−y∥∞≤12∥x−y∥∞:\norm{\Phi(x)(t) - \Phi(y)(t)} \leq \Bigl|\int_{t_0}^t L\,\norm{x(s) - y(s)}\,\dd s\Bigr| \leq LT\,\norm{x - y}_\infty \leq \tfrac12\norm{x - y}_\infty :

uma contração. O ponto fixo de Banach (Teorema 7.4) dá um único ponto fixo em E\mathcal E: existência, e unicidade entre as soluções que permanecem em Bˉ(x0,b)\bar B(x_0, b) — mas toda solução em II ali permanece (∥x(t)−x0∥≤M∣t−t0∣≤b\norm{x(t) - x_0} \leq M\abs{t - t_0} \leq b enquanto o gráfico ficar em QQ, por um argumento de continuidade): unicidade em II. ∎

Lema 19.3 (Grönwall)

Sejam u ⁣:I→[0, ∞)u \colon I \to \intco0\infty contínua, t0∈It_0 \in I, e suponha

u(t)≤α+β ∣∫t0tu(s)  ⁣ds∣(t∈I)u(t) \leq \alpha + \beta\,\Bigl|\int_{t_0}^{t}u(s)\,\dd s\Bigr| \qquad (t \in I)

com α≥0\alpha \geq 0, β>0\beta > 0. Então u(t)≤α eβ∣t−t0∣u(t) \leq \alpha\,\eu^{\beta\abs{t - t_0}} em II.

Demonstração. Para t≥t0t \geq t_0: ponha v(t)=α+β∫t0tu(s) ⁣dsv(t) = \alpha + \beta\int_{t_0}^tu(s)\dd s, de modo que u≤vu \leq v, v′=βu≤βvv' = \beta u \leq \beta v, e (ve−β(t−t0))′≤0(v\eu^{-\beta(t - t_0)})' \leq 0: v(t)≤v(t0)eβ(t−t0)=αeβ(t−t0)v(t) \leq v(t_0)\eu^{\beta(t-t_0)} = \alpha\eu^{\beta(t - t_0)}. Para t≤t0t \leq t_0, aplique o mesmo a u~(t)=u(2t0−t)\tilde u(t) = u(2t_0 - t). ∎

Corolário 19.4 (Unicidade e dependência contínua)

Sob as hipóteses do Teorema 19.2, duas soluções de x′=f(t,x)x' = f(t,x) que coincidem em um ponto coincidem em seu intervalo comum de definição. Quantitativamente, se x,yx, y são duas soluções cujos gráficos estão em uma região onde ff é LL-lipschitziana em xx, então

∥x(t)−y(t)∥≤∥x(t0)−y(t0)∥ eL∣t−t0∣.\norm{x(t) - y(t)} \leq \norm{x(t_0) - y(t_0)}\,\eu^{L\abs{t - t_0}} .

Demonstração. A estimativa: u=∥x−y∥u = \norm{x - y} satisfaz u(t)≤u(t0)+L∣∫t0tu∣u(t) \leq u(t_0) + L\abs{\int_{t_0}^tu} (subtraia as equações integrais); Grönwall. Unicidade global: o conjunto de coincidência {t:x(t)=y(t)}\{t : x(t) = y(t)\} é fechado no intervalo comum, não vazio e aberto — em torno de qualquer ponto de coincidência, cubra um pedaço compacto do gráfico comum por um número finito de caixas lipschitzianas e aplique a estimativa com u(t1)=0u(t_1) = 0 em cada uma: localmente x≡yx \equiv y. Um subconjunto não vazio, aberto e fechado de um intervalo é o intervalo todo. ∎

19.2 Soluções maximais

Teorema 19.5 (Soluções maximais; fuga dos compactos)

Suponha ff contínua e localmente lipschitziana em xx.

  1. Todo problema de Cauchy tem uma única solução maximal x ⁣:(T−, T+)→Rdx \colon \intoo{T_-}{T_+} \to \R^d: toda outra solução por (t0,x0)(t_0, x_0) é sua restrição. O intervalo é aberto.
  2. (Fuga) Para todo compacto K⊆UK \subseteq U existe ε>0\varepsilon > 0 tal que (t,x(t))∉K(t, x(t)) \notin K para todo t∈(T+−ε, T+)t \in \intoo{T_+ - \varepsilon}{T_+} (e simetricamente em T−T_-): o gráfico de uma solução maximal acaba por deixar todo compacto de UU. Em particular, para U=R×RdU = \R\times\R^d e T+<+∞T_+ < +\infty: ∥x(t)∥→+∞\norm{x(t)} \to +\infty quando t→T+−t \to T_+^- (explosão).

Demonstração. (1) Seja S\mathcal S o conjunto de todas as soluções por (t0,x0)(t_0, x_0); pelo Corolário 19.4, duas quaisquer coincidem na interseção de seus intervalos, de modo que se colam: em J=⋃y∈SIyJ = \bigcup_{y \in \mathcal S}I_y, defina x(t)=y(t)x(t) = y(t) para qualquer yy definida em tt: uma solução bem definida, evidentemente maximal e única. JJ é aberto: uma solução definida em uma extremidade poderia ser prolongada pelo Teorema 19.2 nessa extremidade.

(2) Suponha que a afirmação falhe em T+T_+: existem tn→T+t_n \to T_+ com (tn,x(tn))∈K(t_n, x(t_n)) \in K; note que isso força T+<∞T_+ < \infty ou, se T+=∞T_+ = \infty, nada há a demonstrar (KK é limitado em tempo). Seja, pois, T+<∞T_+ < \infty. Compacidade: constantes uniformes M,L,a,bM, L, a, b servem para todos os dados de Cauchy em uma vizinhança de KK — concretamente, cubra KK por um número finito de caixas QiQ_i como na demonstração do teorema local e seja T∗>0T^* > 0 o mínimo dos tempos de existência correspondentes: todo dado de Cauchy em KK lança uma solução que vive pelo menos T∗T^* além de seu instante inicial. Aplicando isso em (tn,x(tn))(t_n, x(t_n)) com tn>T+−T∗/2t_n > T_+ - T^*/2, estende-se xx além de T+T_+ (a extensão coincide com xx por unicidade e, depois, a prolonga): contradição com a maximalidade. Logo o gráfico deixa KK definitivamente antes de T+T_+. Para U=R×RdU = \R\times\R^d: se ∥x(t)∥↛∞\norm{x(t)}\not\to\infty, uma sequência tn→T+t_n \to T_+ manteria (tn,x(tn))(t_n, x(t_n)) no compacto [t0,T+]×Bˉ(0,R)[t_0, T_+]\times\bar B(0, R): excluído. ∎

Corolário 19.6 (Existência global sob crescimento linear)

Se U=I×RdU = I\times\R^d (com II intervalo aberto) e ∥f(t,x)∥≤α(t)∥x∥+β(t)\norm{f(t, x)} \leq \alpha(t)\norm x + \beta(t) com α,β\alpha, \beta contínuas, então toda solução maximal está definida em todo II.

Demonstração. Em um compacto [t0,T]⊆I[t_0, T] \subseteq I: ∥x(t)∥≤∥x0∥+∫t0t(α∥x∥+β)\norm{x(t)} \leq \norm{x_0} + \int_{t_0}^t(\alpha\norm x + \beta), de modo que, por Grönwall (com α,β\alpha, \beta limitadas por A,BA, B ali), ∥x(t)∥≤(∥x0∥+B(T−t0))eA(T−t0)\norm{x(t)} \leq (\norm{x_0} + B(T - t_0))\eu^{A(T - t_0)}: limitada. Se T+<sup⁡IT_+ < \sup I, o gráfico permanece em um compacto de I×RdI\times\R^d perto de T+T_+: contradiz a fuga (Teorema 19.5). ∎

19.3 Sistemas lineares

Ao longo de toda esta seção, A ⁣:I→Md(R)A \colon I \to M_d(\R) e b ⁣:I→Rdb \colon I \to \R^d são contínuas; o sistema é x′=A(t)x+b(t)x' = A(t)x + b(t) — crescimento linear: todas as soluções maximais vivem em todo II (Corolário 19.6).

Teorema 19.7 (Estrutura)

As soluções do sistema homogêneo x′=A(t)xx' = A(t)x formam um espaço vetorial SHS_H de dimensão dd; para cada t0t_0, a avaliação x↦x(t0)x \mapsto x(t_0) é um isomorfismo SH→RdS_H \to \R^d. O resolvente R(t,s)∈GLd(R)R(t, s) \in GL_d(\R), definido por: t↦R(t,s)vt \mapsto R(t, s)v é a solução de valor vv em ss, satisfaz

R(s,s)=I,R(t,u)R(u,s)=R(t,s),∂tR(t,s)=A(t)R(t,s),R(s,s) = I,\quad R(t, u)R(u, s) = R(t, s),\quad \partial_tR(t,s) = A(t)R(t,s),

e o problema não homogêneo é resolvido pela fórmula de Duhamel:

x(t)=R(t,t0) x0+∫t0tR(t,s) b(s)  ⁣ds.x(t) = R(t, t_0)\,x_0 + \int_{t_0}^{t}R(t, s)\,b(s)\,\dd s .

Por fim, o wronskiano w(t)=det⁡R(t,s)w(t) = \det R(t, s) obedece à fórmula de Liouville w′=tr⁡A(t) ww' = \operatorname{tr}A(t)\,w, de modo que w(t)=exp⁡(∫sttr⁡A)>0w(t) = \exp\bigl(\int_s^t\operatorname{tr}A\bigr) > 0.

Demonstração. A linearidade da equação faz das soluções um espaço vetorial; a avaliação é linear, injetora (unicidade: uma solução que se anula em t0t_0 é ≡0\equiv 0) e sobrejetora (existência): dimensão dd. As propriedades do resolvente reafirmam a unicidade (ambos os lados de cada identidade resolvem o mesmo problema de Cauchy); a inversibilidade vem de R(s,t)R(t,s)=IR(s,t)R(t,s) = I. Duhamel: derive a fórmula — x′(t)=A(t)R(t,t0)x0+R(t,t)b(t)+∫t0tA(t)R(t,s)b(s) ⁣ds=A(t)x(t)+b(t)x'(t) = A(t)R(t,t_0)x_0 + R(t,t)b(t) + \int_{t_0}^tA(t)R(t,s)b(s)\dd s = A(t)x(t) + b(t) (a derivação sob a integral é legítima: o integrando é C1\mathcal C^1 em tt, com derivada contínua em (t,s)(t,s); ou verifique pela equação integral). Liouville: w(t+h)=det⁡(R(t+h,t))w(t)w(t + h) = \det\bigl(R(t+h, t)\bigr)w(t) e R(t+h,t)=I+hA(t)+o(h)R(t + h, t) = I + hA(t) + o(h) (da equação integral), de modo que det⁡=1+htr⁡A(t)+o(h)\det = 1 + h\operatorname{tr}A(t) + o(h) (expansão de det⁡\det em II): w′(t)=tr⁡A(t) w(t)w'(t) = \operatorname{tr}A(t)\,w(t); integre a EDO linear escalar. ∎

Teorema 19.8 (Exponencial de matriz)

Para A∈Md(C)A \in M_d(\C), a série eA=∑n≥0Ann!\eu^{A} = \sum_{n\geq0}\frac{A^n}{n!} converge (absolutamente, em qualquer norma submultiplicativa), eA+B=eAeB\eu^{A+B} = \eu^A\eu^B sempre que AB=BAAB = BA, e t↦etAt \mapsto \eu^{tA} é o resolvente do sistema de coeficientes constantes: R(t,s)=e(t−s)AR(t,s) = \eu^{(t-s)A}; ela é C∞\mathcal C^\infty com  ⁣d ⁣dtetA=AetA\frac{\dd}{\dd t}\eu^{tA} = A\eu^{tA}. Além disso: se Re⁡λ<−α<0\operatorname{Re}\lambda < -\alpha < 0 para todo autovalor λ\lambda de AA, então ∣∣∣etA∣∣∣≤Ce−αt\vertiii{\eu^{tA}} \leq C\eu^{-\alpha t} para t≥0t \geq 0.

Demonstração. Convergência: ∣∣∣An/n!∣∣∣≤∣∣∣A∣∣∣n/n!\vertiii{A^n/n!} \leq \vertiii A^n/n!, somável (Exercício 7.1(b) na álgebra de Banach MdM_d). Para A,BA, B que comutam: o produto de Cauchy das duas séries absolutamente convergentes se rearranja, via o teorema binomial (válido quando AB=BAAB = BA), em ∑n(A+B)nn!\sum_n\frac{(A+B)^n}{n!}. Derivabilidade, diretamente: e(t+h)A−etAh=etAehA−Ih→etAA\frac{\eu^{(t+h)A} - \eu^{tA}}h = \eu^{tA}\frac{\eu^{hA} - I}{h} \to \eu^{tA}A, pois ∥ehA−Ih−A∥≤∑n≥2∣h∣n−1∣∣∣A∣∣∣nn!=O(h)\norm{\frac{\eu^{hA} - I}h - A} \leq \sum_{n\geq2}\frac{\abs h^{n-1}\vertiii A^n}{n!} = O(h). Logo t↦e(t−s)Avt \mapsto \eu^{(t - s)A}v resolve o problema de Cauchy que define R(t,s)vR(t,s)v. Cota espectral: pela forma de Jordan (Teorema 3.18), A=P(D+N)P−1A = P(D + N)P^{-1} com DD diagonal carregando os autovalores, NN nilpotente e DN=NDDN = ND. Então etA=P etDetNP−1\eu^{tA} = P\,\eu^{tD}\eu^{tN}P^{-1} com ∣∣∣etD∣∣∣≤e−(α+δ)t\vertiii{\eu^{tD}} \leq \eu^{-(\alpha + \delta)t} para algum δ>0\delta > 0 (t≥0t \geq 0) e etN\eu^{tN} polinomial em tt (nilpotência): o produto é ≤Ce−αt\leq C\eu^{-\alpha t} (um polinômio é vencido por e−δt\eu^{-\delta t}). ∎

Exemplo 19.9 (O plano, classificado)

Para x′=Axx' = Ax com A∈M2(R)A \in M_2(\R) inversível, o retrato de fase perto de 00 é decidido por τ=tr⁡A\tau = \operatorname{tr}A e δ=det⁡A\delta = \det A, através dos autovalores λ±=τ±τ2−4δ2\lambda_\pm = \frac{\tau \pm \sqrt{\tau^2 - 4\delta}}2:

  • δ<0\delta < 0: autovalores reais de sinais opostos — uma sela; duas trajetórias entram, duas saem, e todas as demais passam ao largo. Sempre instável.
  • δ>0\delta > 0, τ2≥4δ\tau^2 \geq 4\delta: autovalores reais de mesmo sinal (=sign⁡τ= \operatorname{sign}\tau) — um nó, estável se, e somente se, τ<0\tau < 0; as trajetórias são tangentes à direção própria lenta.
  • δ>0\delta > 0, τ2<4δ\tau^2 < 4\delta, τ≠0\tau \neq 0: autovalores complexos conjugados τ2±iω\frac\tau2 \pm \iu\omega — uma espiral (foco), estável se, e somente se, τ<0\tau < 0; as soluções são rotações eτt/2×\eu^{\tau t/2}\times de período 2πω\frac{2\pi}\omega.
  • τ=0\tau = 0, δ>0\delta > 0: autovalores puramente imaginários — um centro: órbitas fechadas (elipses), estabilidade sem estabilidade assintótica, exatamente o caso limite que o Teorema 19.12 não consegue decidir para sistemas não lineares (o equilíbrio inferior do pêndulo, Problema 19.1, fica aqui).

A parábola de fronteira τ2=4δ\tau^2 = 4\delta carrega os nós degenerados (blocos de Jordan: trajetórias com uma única direção tangente). Tudo se lê em dois números — e é por isso que o primeiro reflexo diante de um retrato de fase plano é calcular tr⁡\operatorname{tr} e det⁡\det; por exemplo, A=(01−1−c)A = \bigl(\begin{smallmatrix}0 & 1\\ -1 & -c\end{smallmatrix}\bigr) (oscilador amortecido): δ=1>0\delta = 1 > 0, τ=−c\tau = -c: espiral estável para 0<c<20 < c < 2, nó estável para c≥2c \geq 2 — subamortecimento contra superamortecimento, em um relance.

19.4 Fluxos, equilíbrios, estabilidade

Considere agora a equação autônoma x′=F(x)x' = F(x), com F ⁣:Ω→RdF \colon \Omega \to \R^d localmente lipschitziana no aberto Ω⊆Rd\Omega \subseteq \R^d. Escreva φt(x0)=x(t)\varphi_t(x_0) = x(t) para a solução maximal com x(0)=x0x(0) = x_0 (o fluxo); a autonomia dá a propriedade de grupo φt+s=φt∘φs\varphi_{t+s} = \varphi_t\circ\varphi_s onde definida (ambos os lados resolvem o mesmo problema no instante ss).

Definição 19.10

Um equilíbrio é um ponto xˉ\bar x com F(xˉ)=0F(\bar x) = 0 (de modo que φt(xˉ)=xˉ\varphi_t(\bar x) = \bar x). Ele é estável se, para todo ε>0\varepsilon > 0, existe δ>0\delta > 0 tal que ∥x0−xˉ∥<δ\norm{x_0 - \bar x} < \delta implica que a solução existe para todo t≥0t \geq 0 com ∥φt(x0)−xˉ∥<ε\norm{\varphi_t(x_0) - \bar x} < \varepsilon; é assintoticamente estável se, além disso, φt(x0)→xˉ\varphi_t(x_0) \to \bar x para todo x0x_0 perto de xˉ\bar x.

Teorema 19.11 (Funções de Lyapunov)

Sejam xˉ\bar x um equilíbrio e V ⁣:V→RV \colon \mathcal V \to \R uma função C1\mathcal C^1 em uma vizinhança de xˉ\bar x com:

V(xˉ)=0,V(x)>0 para x≠xˉ,V˙(x)=∇V(x)⋅F(x)≤0.V(\bar x) = 0,\qquad V(x) > 0 \text{ para } x \neq \bar x, \qquad \dot V(x) = \nabla V(x)\cdot F(x) \leq 0 .

Então xˉ\bar x é estável. Se, além disso, V˙<0\dot V < 0 fora de xˉ\bar x, então xˉ\bar x é assintoticamente estável.

Demonstração. Ao longo de uma solução,  ⁣d ⁣dtV(x(t))=V˙(x(t))≤0\frac{\dd}{\dd t}V(x(t)) = \dot V(x(t)) \leq 0: VV decresce. Dado ε\varepsilon (pequeno o bastante para que Bˉ(xˉ,ε)⊆V\bar B(\bar x, \varepsilon) \subseteq \mathcal V), ponha m=min⁡{V(x):∥x−xˉ∥=ε}>0m = \min\{V(x) : \norm{x - \bar x} = \varepsilon\} > 0 (compacidade, positividade) e escolha δ<ε\delta < \varepsilon com V<mV < m em B(xˉ,δ)B(\bar x, \delta) (continuidade). Uma solução que parte de B(xˉ,δ)B(\bar x, \delta) satisfaz V(x(t))<mV(x(t)) < m em todos os instantes posteriores, de modo que nunca pode atingir a esfera ∥x−xˉ∥=ε\norm{x - \bar x} = \varepsilon (onde V≥mV \geq m): ela permanece na bola — e então existe para todo t≥0t \geq 0: a solução fica no compacto Bˉ\bar B, de modo que o Teorema 19.5(2) (fuga dos compactos) força T+=+∞T_+ = +\infty. Eis a estabilidade.

Caso assintótico: seja x(t)x(t) partindo de B(xˉ,δ)B(\bar x, \delta); V(x(t))V(x(t)) decresce até algum c≥0c \geq 0. Se c>0c > 0: a trajetória permanece em K={x∈Bˉ(xˉ,ε):V(x)≥c}K = \{x \in \bar B(\bar x, \varepsilon): V(x) \geq c\}, um compacto que exclui uma vizinhança de xˉ\bar x (VV é contínua com V(xˉ)=0<cV(\bar x) = 0 < c). Em KK, a função V˙\dot V é contínua e estritamente negativa, logo μ=max⁡KV˙<0\mu = \max_K\dot V < 0 (compacidade); então V(x(t))≤V(x(0))+μt→−∞V(x(t)) \leq V(x(0)) + \mu t \to -\infty: absurdo, V≥0V \geq 0. Assim c=0c = 0 e x(t)→xˉx(t) \to \bar x (os pontos a distância ≥ρ\geq \rho de xˉ\bar x dentro da bola têm V≥mρ>0V \geq m_\rho > 0). ∎

Teorema 19.12 (Estabilidade por linearização)

Sejam FF de classe C1\mathcal C^1, F(xˉ)=0F(\bar x) = 0, A=DF(xˉ)A = DF(\bar x). Se todo autovalor de AA tem Re⁡λ<0\operatorname{Re}\lambda < 0, então xˉ\bar x é assintoticamente estável.

Demonstração. Translade xˉ\bar x para 00 e escreva F(x)=Ax+g(x)F(x) = Ax + g(x) com g(x)=o(∥x∥)g(x) = o(\norm x) (derivabilidade C1\mathcal C^1). Tome α>0\alpha > 0 com ∣∣∣etA∣∣∣≤Ce−αt\vertiii{\eu^{tA}} \leq C\eu^{-\alpha t} (t≥0t \geq 0; Teorema 19.8) e r>0r > 0 com ∥g(x)∥≤α2C∥x∥\norm{g(x)} \leq \frac{\alpha}{2C}\norm x para ∥x∥≤r\norm x \leq r. Duhamel com b(s)=g(x(s))b(s) = g(x(s)):

x(t)=etAx0+∫0te(t−s)Ag(x(s))  ⁣ds,x(t) = \eu^{tA}x_0 + \int_0^t\eu^{(t-s)A}g(x(s))\,\dd s,

válido enquanto ∥x(s)∥≤r\norm{x(s)} \leq r. Então u(t)=eαt∥x(t)∥u(t) = \eu^{\alpha t}\norm{x(t)} satisfaz

u(t)≤C∥x0∥+∫0tC α2C u(s)  ⁣ds,u(t) \leq C\norm{x_0} + \int_0^{t}C\,\frac{\alpha}{2C}\,u(s)\,\dd s ,

de modo que Grönwall dá u(t)≤C∥x0∥eαt/2u(t) \leq C\norm{x_0}\eu^{\alpha t/2}, isto é, ∥x(t)∥≤C∥x0∥e−αt/2\norm{x(t)} \leq C\norm{x_0}\eu^{-\alpha t/2}. Se ∥x0∥<r/C\norm{x_0} < r/C, a cota a priori mantém ∥x(t)∥<r\norm{x(t)} < r para todo tt (um argumento de continuidade e bootstrapping: o conjunto dos instantes em que ∥x∥≤r\norm x \leq r é aberto e fechado em [0, T+)\intco0{T_+}, dada a estimativa estrita), a solução é global e converge a 00 exponencialmente: estabilidade assintótica. ∎

Método 19.13

Diante de uma EDO: (1) existência e unicidade — verifique se é localmente lipschitziana (em geral C1\mathcal C^1); (2) globalidade — crescimento linear, limitação, ou um compacto invariante via função de Lyapunov ou integral primeira; na falta disso, suspeite de explosão e teste na caricatura escalar x′=x2x' = x^2; (3) sistemas lineares — resolvente, Duhamel e, para coeficientes constantes, a estrutura espectral de AA; (4) questões qualitativas — equilíbrios, linearize e cace uma função de Lyapunov (a energia, quando o sistema é mecânico) ou uma integral primeira cujos conjuntos de nível aprisionem as trajetórias. O problema de fim de semana percorre o método inteiro no pêndulo.

Retrato de fase do pêndulo x'' = - x no plano (x, x'): curvas de nível da energia E = x'22 - x. Curvas fechadas (em azul): oscilações, E < 1; curvas correntes (em laranja): rotações completas, E > 1; entre elas, a separatriz (em vermelho), E = 1, ligando os equilíbrios instáveis (±π, 0). O problema de fim de semana demonstra tudo o que esta figura sugere.
Retrato de fase do pêndulo x′′=−sin⁡xx'' = -\sin x no plano (x,x′)(x, x'): curvas de nível da energia E=x′22−cos⁡xE = \frac{x'^2}2 - \cos x. Curvas fechadas (em azul): oscilações, E<1E < 1; curvas correntes (em laranja): rotações completas, E>1E > 1; entre elas, a separatriz (em vermelho), E=1E = 1, ligando os equilíbrios instáveis (±π,0)(\pm\pi, 0). O problema de fim de semana demonstra tudo o que esta figura sugere.

19.5 Exercícios

Exercício 19.1 ★

Resolva explicitamente e determine o intervalo maximal: (a) x′=x2x' = x^2, x(0)=1x(0) = 1; (b) x′=1+x2x' = 1 + x^2, x(0)=0x(0) = 0; (c) x′=x(1−x)x' = x(1-x), x(0)=12x(0) = \frac12. Reconcilie cada resposta com o Teorema 19.5(2) e com o Corolário 19.6.

Solução

Solução de Exercício 19.1.

(a) Separando as variáveis: x(t)=11−tx(t) = \frac1{1 - t} em (−∞, 1)\intoo{-\infty}1: explosão em T+=1T_+ = 1, com x(t)→+∞x(t) \to +\infty — exatamente o Teorema 19.5(2). (b) x(t)=tan⁡tx(t) = \tan t em (−π/2, π/2)\intoo{-\pi/2}{\pi/2}: explosão nos dois extremos. (c) x(t)=11+e−tx(t) = \frac{1}{1 + \eu^{-t}}, global: a solução permanece em (0, 1)\intoo01, um conjunto limitado, de modo que o gráfico não pode escapar de todo compacto de R×R\R\times\R em tempo finito — T±=±∞T_\pm = \pm\infty. Note que (a) e (b) não contradizem o Corolário 19.6: x2x^2 e 1+x21 + x^2 têm crescimento superlinear.

Exercício 19.2 ★

Sejam x,yx, y soluções de x′=f(t,x)x' = f(t,x) com ff globalmente LL-lipschitziana em xx em R×Rd\R\times\R^d. (a) Demonstre ∥x(t)−y(t)∥≤∥x(0)−y(0)∥eL∣t∣\norm{x(t) - y(t)} \leq \norm{x(0) - y(0)}\eu^{L\abs t} e mostre com um exemplo (linear!) que o fator eL∣t∣\eu^{L\abs t} é atingido. (b) Deduza que a aplicação de fluxo x0↦x(t;x0)x_0 \mapsto x(t; x_0) é contínua e, de fato, lipschitziana nos conjuntos limitados.

Solução

Solução de Exercício 19.2.

(a) Essa é a estimativa do Corolário 19.4 com t0=0t_0 = 0. Otimalidade: para x′=Lxx' = Lx (globalmente LL-lipschitziana), duas soluções diferem exatamente de (x0−y0)eLt(x_0 - y_0)\eu^{Lt}. (b) A estimativa se lê: a aplicação de fluxo no tempo tt é eL∣t∣\eu^{L\abs t}-lipschitziana na condição inicial — continuidade, uniformemente para tt em compactos; em conjuntos limitados de ff não globalmente lipschitzianas, repita o mesmo num tubo compacto em torno das trajetórias com a constante local.

Exercício 19.3 ★★

Mostre que cada uma das seguintes tem todas as soluções maximais globais em R\R, citando o teorema adequado: (a) x′=sin⁡(tx)x' = \sin(tx); (b) x′=t x1+x2x' = \frac{t\,x}{1 + x^2}; (c) x′′+q(t)x=0x'' + q(t)x = 0 com qq contínua (converta a um sistema de primeira ordem); (d) x′=A(t)xx' = A(t)x com AA contínua e limitada — e dê a cota de Grönwall para ∥x(t)∥\norm{x(t)}.

Solução

Solução de Exercício 19.3.

(a) ∣sin⁡(tx)∣≤1\abs{\sin(tx)} \leq 1: limitada, isto é, crescimento linear com α=0\alpha = 0, β=1\beta = 1: Corolário 19.6 em U=R×RU = \R\times\R. (b) ∣tx/(1+x2)∣≤∣t∣⋅12\abs{tx/(1 + x^2)} \leq \abs t\cdot\frac12: de novo sublinear (de fato limitada em compactos de tempo): global. (c) X=(x,x′)X = (x, x'): X′=(01−q(t)0)XX' = \bigl(\begin{smallmatrix}0 & 1\\ -q(t) & 0\end{smallmatrix}\bigr)X: linear com coeficientes contínuos: global (o quadro do Teorema 19.7). (d) Global; Grönwall como no Corolário 19.6: ∥x(t)∥≤∥x(t0)∥ eM∣t−t0∣\norm{x(t)} \leq \norm{x(t_0)}\,\eu^{M\abs{t - t_0}} com M=sup⁡∣∣∣A∣∣∣M = \sup\vertiii{A}.

Exercício 19.4 ★★

(a) Calcule etA\eu^{tA} para A=(0−110)A = \bigl(\begin{smallmatrix}0 & -1\\ 1 & 0\end{smallmatrix}\bigr), (λ10λ)\bigl(\begin{smallmatrix}\lambda & 1\\ 0 & \lambda\end{smallmatrix}\bigr) e (0110)\bigl(\begin{smallmatrix}0 & 1\\ 1 & 0\end{smallmatrix}\bigr). (b) Resolva o oscilador forçado x′′+x=cos⁡(ωt)x'' + x = \cos(\omega t) por Duhamel (na forma de sistema), para ω≠1\omega \neq 1 e para ω=1\omega = 1: a ressonância aparece como o termo secular tsin⁡tt\sin t.

Solução

Solução de Exercício 19.4.

(a) A2=−IA^2 = -I para a primeira: etA=cos⁡t I+sin⁡t A=(cos⁡t−sin⁡tsin⁡tcos⁡t)\eu^{tA} = \cos t\,I + \sin t\,A = \bigl(\begin{smallmatrix}\cos t & -\sin t\\ \sin t & \cos t\end{smallmatrix}\bigr). Bloco de Jordan: λI\lambda I e NN comutam: etA=eλt(1t01)\eu^{tA} = \eu^{\lambda t}\bigl(\begin{smallmatrix}1 & t\\ 0 & 1\end{smallmatrix}\bigr). Terceira: A2=IA^2 = I: etA=cosh⁡t I+sinh⁡t A\eu^{tA} = \cosh t\,I + \sinh t\,A.

(b) Sistema X′=(01−10)X+(0cos⁡ωt)X' = \bigl(\begin{smallmatrix}0&1\\-1&0 \end{smallmatrix}\bigr)X + \bigl(\begin{smallmatrix}0\\ \cos\omega t\end{smallmatrix}\bigr); Duhamel com o resolvente da rotação dá as soluções particulares: para ω≠1\omega \neq 1, xp(t)=cos⁡(ωt)1−ω2x_p(t) = \frac{\cos(\omega t)}{1 - \omega^2} (verifique diretamente); para ω=1\omega = 1, a integral ∫0tsin⁡(t−s)cos⁡s  ⁣ds=t2sin⁡t\int_0^t\sin(t - s)\cos s\,\dd s = \frac t2\sin t produz o crescimento secular xp=t2sin⁡tx_p = \frac t2\sin t: ressonância — a forçante bombeia energia na frequência natural e a amplitude cresce linearmente.

Exercício 19.5 ★★

Para a equação escalar x′′+p(t)x′+q(t)x=0x'' + p(t)x' + q(t)x = 0: (a) Mostre que o wronskiano w=x1x2′−x1′x2w = x_1x_2' - x_1'x_2 de duas soluções satisfaz w′=−p ww' = -p\,w (Abel) e deduza que duas soluções com w≠0w \neq 0 em algum ponto formam uma base. (b) Dada uma solução x1x_1 que não se anula, encontre a solução geral por redução de ordem: ponha x2=x1∫e−∫px12x_2 = x_1\int \frac{\eu^{-\int p}}{x_1^2} e verifique. Aplique a t2x′′−2x=0t^2x'' - 2x = 0 em (0, +∞)\intoo0{+\infty} com x1(t)=t2x_1(t) = t^2.

Solução

Solução de Exercício 19.5.

(a) w′=x1x2′′−x1′′x2=x1(−px2′−qx2)−(−px1′−qx1)x2=−p ww' = x_1x_2'' - x_1''x_2 = x_1(-px_2' - qx_2) - (-px_1' - qx_1)x_2 = -p\,w: w(t)=w(t0)e−∫t0tpw(t) = w(t_0)\eu^{-\int_{t_0}^tp}, nunca nulo nem identicamente nulo. Se w≠0w \neq 0, os vetores (xi,xi′)(t0)(x_i, x_i')(t_0) são independentes em R2\R^2 e, como o espaço de soluções tem dimensão 22 (Teorema 19.7 para o sistema), (x1,x2)(x_1, x_2) é uma base.

(b) Com u=∫e−∫px12u = \int\frac{\eu^{-\int p}}{x_1^2}: x2=x1ux_2 = x_1u, x2′=x1′u+e−∫px1x_2' = x_1'u + \frac{\eu^{-\int p}}{x_1}, e

x2′′+px2′+qx2=u (x1′′+px1′+qx1)+(− pe−∫px1+pe−∫px1)=0x_2'' + px_2' + qx_2 = u\,(x_1'' + px_1' + qx_1) + \Bigl(-\,p\frac{\eu^{-\int p}}{x_1} + p\frac{\eu^{-\int p}}{x_1}\Bigr) = 0

(os termos cruzados se cancelam exatamente; expanda com cuidado). Para t2x′′−2x=0t^2x'' - 2x = 0, isto é, x′′−2t2x=0x'' - \frac2{t^2}x = 0 (p=0p = 0) com x1=t2x_1 = t^2: u=∫t−4=−13t3u = \int t^{-4} = -\frac1{3t^3}, de modo que x2=−13tx_2 = -\frac1{3t}: solução geral at2+btat^2 + \frac bt.

Exercício 19.6 ★★

(Logística) Para x′=x(1−x)x' = x(1 - x): determine todos os equilíbrios e sua estabilidade (pelo Teorema 19.12 e diretamente); mostre que toda solução com x(0)∈(0, 1)x(0) \in \intoo01 é crescente, global, com limites 00 e 11 em ∓∞\mp\infty; e resolva explicitamente para confirmar. Mostre, mais geralmente, que as soluções escalares autônomas são monótonas e conclua: não há soluções periódicas não constantes em dimensão 11.

Solução

Solução de Exercício 19.6.

Equilíbrios 0,10, 1; f′(x)=1−2xf'(x) = 1 - 2x: f′(0)=1>0f'(0) = 1 > 0 (instável — as soluções próximas se afastam, como a forma explícita mostra), f′(1)=−1<0f'(1) = -1 < 0: assintoticamente estável (Teorema 19.12 em dimensão 11). Para x(0)∈(0, 1)x(0) \in \intoo01: f>0f > 0 ali, de modo que, enquanto a solução permanecer em (0, 1)\intoo01, ela cresce; ela nunca pode atingir 00 nem 11 (unicidade: essas são trajetórias), de modo que ela permanece, é limitada — logo global — e cresce até um limite L∈(x(0), 1]L \in \intoc{x(0)}1. Se f(L)≠0f(L) \neq 0, então x′≥c>0x' \geq c > 0 perto do limite, forçando xx a passar de LL: logo f(L)=0f(L) = 0, L=1L = 1; simetricamente, x→0x \to 0 em −∞-\infty. Explicitamente, x(t)=11+Ce−tx(t) = \frac1{1 + C\eu^{-t}} confirma tudo. Em geral: se uma solução escalar autônoma tivesse x′(t0)=0x'(t_0) = 0, então x(t0)x(t_0) é um equilíbrio e a unicidade torna xx constante; caso contrário, f(x(t))f(x(t)) mantém sinal fixo (ela nunca se anula, e t↦f(x(t))t \mapsto f(x(t)) é contínua): xx é estritamente monótona — de modo que uma solução periódica não constante é impossível.

Exercício 19.7 ★★

(Integrais primeiras) Seja H ⁣:Ω→RH \colon \Omega \to \R de classe C1\mathcal C^1 e considere o sistema hamiltoniano plano x′=∂yHx' = \partial_yH, y′=−∂xHy' = -\partial_xH. (a) Mostre que HH é constante ao longo das soluções. (b) Para H=y22+x44H = \frac{y^2}2 + \frac{x^4}4: mostre que todas as soluções são globais e limitadas, e que a origem é estável (Lyapunov: HH), embora a linearização ((0100)\bigl(\begin{smallmatrix}0&1\\0&0\end{smallmatrix}\bigr)) não seja assintoticamente estável: a linearização pode ser inconclusiva.

Solução

Solução de Exercício 19.7.

(a)  ⁣d ⁣dtH(x,y)=Hxx′+Hyy′=HxHy+Hy(−Hx)=0\frac{\dd}{\dd t}H(x,y) = H_xx' + H_yy' = H_xH_y + H_y(-H_x) = 0. (b) Os conjuntos de nível de H=y22+x44H = \frac{y^2}2 + \frac{x^4}4 são compactos (HH coerciva), de modo que as soluções ficam presas em compactos: globais e limitadas (Teorema 19.5). Estabilidade de (0,0)(0,0): V=HV = H é definida positiva (H=0H = 0 só na origem) com V˙=0\dot V = 0: Teorema 19.11. A linearização x′=yx' = y, y′=0y' = 0 tem a matriz nilpotente não diagonalizável de autovalor 00: o Teorema 19.12 nada diz (sua hipótese Re⁡λ<0\operatorname{Re}\lambda < 0 falha) e, de fato, o sistema linearizado é instável (y0≠0y_0 \ne 0 deriva), ao passo que o não linear é estável: a linearização num equilíbrio não hiperbólico nada demonstra.

Exercício 19.8 ★★★

(Pêndulo amortecido) x′′+cx′+sin⁡x=0x'' + cx' + \sin x = 0, c>0c > 0; sistema: x′=yx' = y, y′=−sin⁡x−cyy' = -\sin x - cy. (a) Mostre que V(x,y)=y22+1−cos⁡xV(x, y) = \frac{y^2}2 + 1 - \cos x satisfaz V˙=−cy2≤0\dot V = -cy^2 \leq 0: a origem é estável. (b) V˙\dot V se anula em todo o eixo y=0y = 0: o critério estrito de Lyapunov falha. Demonstre a estabilidade assintótica assim mesmo, por linearização (Teorema 19.12): calcule os autovalores da matriz linearizada em (0,0)(0,0) e verifique Re⁡<0\operatorname{Re} < 0 para todo c>0c > 0. (c) O que acontece no equilíbrio (π,0)(\pi, 0)? Calcule a linearização e conclua (um autovalor positivo: instabilidade — você pode usar o enunciado de instabilidade informalmente ou produzir uma solução explícita do sistema linear que escapa).

Solução

Solução de Exercício 19.8.

(a) V˙=y y′+sin⁡x⋅x′=y(−sin⁡x−cy)+ysin⁡x=−cy2≤0\dot V = y\,y' + \sin x\cdot x' = y(-\sin x - cy) + y\sin x = -cy^2 \leq 0, e V=y22+(1−cos⁡x)V = \frac{y^2}2 + (1 - \cos x) é definida positiva em {∣x∣<2π}\{\abs x < 2\pi\} em torno da origem: estável (Teorema 19.11). (b) A matriz linearizada em (0,0)(0,0) é (01−1−c)\bigl(\begin{smallmatrix}0 & 1\\ -1 & -c\end{smallmatrix}\bigr), de polinômio característico λ2+cλ+1\lambda^2 + c\lambda + 1: raízes −c±c2−42\frac{-c \pm \sqrt{c^2 - 4}}2 — ambas reais negativas se c≥2c \geq 2, complexas de parte real −c2<0-\frac c2 < 0 se 0<c<20 < c < 2. Em todos os casos Re⁡λ<0\operatorname{Re}\lambda < 0: o Teorema 19.12 dá estabilidade assintótica (apesar do V˙\dot V degenerado). (c) Em (π,0)(\pi, 0): sin⁡(π+u)=−sin⁡u\sin(\pi + u) = -\sin u, linearização (011−c)\bigl(\begin{smallmatrix}0&1\\1&-c\end{smallmatrix}\bigr), característico λ2+cλ−1\lambda^2 + c\lambda - 1: raízes de sinais opostos (λ+λ−=−1\lambda_+\lambda_- = -1). Ao longo do autovetor instável, o sistema linear tem a solução explicitamente fugidia eλ+tv+\eu^{\lambda_+t}v_+ com λ+>0\lambda_+ > 0: o pêndulo invertido é instável para todo amortecimento.

Exercício 19.9 ★★

(Fronteira da unicidade) Para α∈(0, 1)\alpha \in \intoo01, mostre que o problema x′=∣x∣αx' = \abs x^{\alpha}, x(0)=0x(0) = 0 tem infinitas soluções (adapte o Problema 7.1, Parte III). Mostre, ao contrário, que para α=1\alpha = 1 (isto é, x′=∣x∣x' = \abs x) a solução por 00 é única, e identifique com precisão qual hipótese do Teorema 19.2 distingue os dois casos.

Solução

Solução de Exercício 19.9.

Para α∈(0, 1)\alpha \in \intoo01: além de x≡0x \equiv 0, cada

xc(t)={0t≤c,((1−α)(t−c))1/(1−α)t≥c,x_c(t) = \begin{cases}0 & t \leq c,\\ \bigl((1-\alpha)(t - c)\bigr)^{1/(1-\alpha)} & t \geq c, \end{cases}

é C1\mathcal C^1 e resolve a equação (o expoente 11−α>1\frac1{1-\alpha} > 1 faz a derivada se anular em cc): um contínuo de soluções por (0,0)(0,0). Para α=1\alpha = 1: x↦∣x∣x \mapsto \abs x é globalmente 11-lipschitziana (∣∣a∣−∣b∣∣≤∣a−b∣\abs{\abs a - \abs b} \leq \abs{a - b}), de modo que o Teorema 19.2 se aplica e a única solução por 00 é x≡0x \equiv 0. A fronteira é exatamente a condição de Lipschitz local em 00: ∣x∣α\abs x^\alpha tem quocientes de diferenças ilimitados ali para α<1\alpha < 1.

Exercício 19.10 ★★★

(Cotas a priori aprisionam soluções) Seja F ⁣:Rd→RdF \colon \R^d \to \R^d localmente lipschitziana com ⟨F(x),x⟩≤0\langle F(x), x\rangle \leq 0 sempre que ∥x∥≥R\norm x \geq R. (a) Mostre que a bola fechada Bˉ(0,R)\bar B(0, R) é positivamente invariante: as soluções que partem de dentro ali permanecem para t≥0t \geq 0. (Se ∥x(t2)∥>R\norm{x(t_2)} > R, considere o último instante t1<t2t_1 < t_2 com ∥x(t1)∥=R\norm{x(t_1)} = R e estude  ⁣d ⁣dt∥x(t)∥2\frac{\dd}{\dd t}\norm{x(t)}^2 em [t1, t2]\intcc{t_1}{t_2}.) (b) Deduza a existência global para a frente com dados na bola. Trate em seguida o sistema gradiente x′=−∇G(x)x' = -\nabla G(x), G∈C2G \in \mathcal C^2 com G(x)→+∞G(x) \to +\infty quando ∥x∥→∞\norm x \to \infty: mostre que GG decresce ao longo das soluções, que cada solução permanece no conjunto de subnível (limitado) {G≤G(x0)}\{G \leq G(x_0)\}, e conclua a existência global para a frente.

Solução

Solução de Exercício 19.10.

(a) Suponha ∥x(t2)∥>R\norm{x(t_2)} > R para algum t2>0t_2 > 0 com ∥x(0)∥≤R\norm{x(0)} \leq R, e seja t1=sup⁡{t≤t2:∥x(t)∥≤R}t_1 = \sup\{t \leq t_2 : \norm{x(t)} \leq R\}: então ∥x(t1)∥=R\norm{x(t_1)} = R e ∥x(t)∥>R\norm{x(t)} > R em (t1, t2]\intoc{t_1}{t_2}. Nesse intervalo, g(t)=∥x(t)∥2g(t) = \norm{x(t)}^2 tem g′(t)=2⟨x(t),F(x(t))⟩≤0g'(t) = 2\langle x(t), F(x(t))\rangle \leq 0 (a hipótese se aplica: ∥x(t)∥≥R\norm{x(t)} \geq R), de modo que g(t2)≤g(t1)=R2g(t_2) \leq g(t_1) = R^2: contradição. A bola é positivamente invariante. (b) Uma solução presa na bola compacta não pode ter T+<∞T_+ < \infty (Teorema 19.5(2)): global para a frente. Sistema gradiente:  ⁣d ⁣dtG(x(t))=⟨∇G,−∇G⟩=−∥∇G(x(t))∥2≤0\frac{\dd}{\dd t}G(x(t)) = \langle\nabla G, -\nabla G\rangle = -\norm{\nabla G(x(t))}^2 \leq 0: GG decresce, de modo que a solução permanece em {G≤G(x0)}\{G \leq G(x_0)\}, que é limitado (coercividade: fora de uma bola grande, G>G(x0)G > G(x_0)) e fechado: compacto. A fuga é impossível: toda solução de um sistema gradiente coercivo é global para a frente, deslizando ladeira abaixo para sempre.

Exercício 19.11 ★★

(Explosão por comparação) Considere x′=x2+t2x' = x^2 + t^2, x(0)=1x(0) = 1. (a) Mostre que a solução maximal existe em algum [0, T+)\intco0{T_+} com T+<∞T_+ < \infty: compare com y′=y2y' = y^2, y(0)=1y(0) = 1 (demonstre o lema de comparação de que precisa: se x′≥F(x)x' \geq F(x) e y′=F(y)y' = F(y) com x(0)≥y(0)x(0) \geq y(0), então x≥yx \geq y onde ambas vivem), e deduza T+≤1T_+ \leq 1. (b) Limite T+T_+ por baixo: em [0, 1]\intcc01, x′≤x2+1x' \leq x^2 + 1; compare com a supersolução z′=z2+1z' = z^2 + 1, z(0)=1z(0) = 1, resolvida por z(t)=tan⁡(t+π4)z(t) = \tan\bigl(t + \frac\pi4\bigr), e conclua T+≥π4T_+ \geq \frac\pi4. (c) Reúna π4≤T+≤1\frac\pi4 \leq T_+ \leq 1 e formule a moral: o crescimento superlinear do membro direito é o que mata a existência global (sendo o Exercício 19.3 o contraponto), estando a fronteira na convergência de ∫∞ ⁣dsF(s)\int^{\infty}\frac{\dd s}{F(s)}.

Solução

Solução de Exercício 19.11.

(a) Lema de comparação: seja w=x−yw = x - y no intervalo comum; w(0)≥0w(0) \geq 0 e w′=x′−y′≥F(x)−F(y)=c(t)ww' = x' - y' \geq F(x) - F(y) = c(t)w com c(t)=F(x)−F(y)x−yc(t) = \frac{F(x) - F(y)}{x - y} limitada em intervalos de tempo compactos (FF localmente lipschitziana); então (we−∫c)′≥0(w\eu^{-\int c})' \geq 0, de modo que w≥0w \geq 0 em toda parte. Com F(x)=x2F(x) = x^2: y(t)=11−ty(t) = \frac1{1 - t} explode em 11, e x≥yx \geq y enquanto xx viver; se T+>1T_+ > 1, então xx seria finita em t=1t = 1 enquanto domina y→∞y \to \infty: absurdo. T+≤1T_+ \leq 1.

(b) A comparação invertida (mesmo lema, papéis trocados): em [0, 1]∩[0, T+)\intcc01\cap\intco0{T_+}, t2≤1t^2 \leq 1 dá x′≤x2+1x' \leq x^2 + 1, ao passo que z(t)=tan⁡(t+π4)z(t) = \tan(t + \frac\pi4) satisfaz z′=z2+1z' = z^2 + 1, z(0)=1=x(0)z(0) = 1 = x(0): logo x≤zx \leq z enquanto ambas estiverem definidas. Como zz é finita em [0, π4)\intco0{\frac\pi4}, xx não pode explodir antes de π4\frac\pi4: T+≥π4T_+ \geq \frac\pi4.

(c) Juntas: π4≤T+≤1\frac\pi4 \leq T_+ \leq 1 (numericamente T+≈0.96T_+ \approx 0.96). Moral: para x′=F(t,x)x' = F(t, x) com FF superlinear em xx, as soluções explodem em tempo finito sempre que ∫∞ ⁣dsF(s)<∞\int^\infty\frac{\dd s}{F(s)} < \infty (a solução de comparação atinge o infinito nesse tempo finito); o crescimento linear, em que a integral diverge, força a existência global (Exercício 19.3). É a mesma integral de Osgood do Problema 7.1, governando agora a fuga para o infinito em vez da fuga a partir do zero.

Exercício 19.12 ★★★

(Teorema de comparação de Sturm) Sejam q1≤q2q_1 \leq q_2 contínuas em um intervalo II, e sejam u≠0u \neq 0 solução de u′′+q1u=0u'' + q_1u = 0 e v≠0v \neq 0 solução de v′′+q2v=0v'' + q_2v = 0. (a) Estabeleça a identidade do wronskiano: com W=uv′−u′vW = uv' - u'v, W′=(q1−q2) uvW' = (q_1 - q_2)\,uv. (b) (Sturm) Mostre que, entre dois zeros consecutivos a<ba < b de uu, ou vv se anula em algum ponto de (a, b)\intoo ab, ou q1=q2q_1 = q_2 e v∝uv \propto u ali (suponha u>0u > 0 em (a, b)\intoo ab e v>0v > 0 também; integre (a) de aa a bb e examine os sinais dos termos de fronteira W(a),W(b)W(a), W(b)). (c) Deduza: as soluções de u′′+qu=0u'' + qu = 0 com q≥m>0q \geq m > 0 se anulam ao menos uma vez em todo intervalo de comprimento π/m\pi/\sqrt m (compare com v′′+mv=0v'' + mv = 0); as soluções com q≤0q \leq 0 se anulam no máximo uma vez em R\R. Teste ambas em q≡±1q \equiv \pm1.

Solução

Solução de Exercício 19.12.

(a) W′=uv′′−u′′v=u(−q2v)−(−q1u)v=(q1−q2) uvW' = uv'' - u''v = u(-q_2v) - (-q_1u)v = (q_1 - q_2)\,uv.

(b) Sejam a<ba < b zeros consecutivos de uu; normalize u>0u > 0 em (a, b)\intoo ab (de modo que u′(a)>0u'(a) > 0, u′(b)<0u'(b) < 0 — não nulos por unicidade, já que u(a)=u′(a)=0u(a) = u'(a) = 0 forçaria u≡0u \equiv 0). Suponha que vv não tenha zero em (a, b)\intoo ab; normalize v>0v > 0 ali (logo v(a),v(b)≥0v(a), v(b) \geq 0 por continuidade). Integre (a):

W(b)−W(a)=∫ab(q1−q2) uv  ≤  0.W(b) - W(a) = \int_a^b(q_1 - q_2)\,uv \;\leq\; 0 .

Mas W(a)=u(a)v′(a)−u′(a)v(a)=−u′(a)v(a)≤0W(a) = u(a)v'(a) - u'(a)v(a) = -u'(a)v(a) \leq 0 e W(b)=−u′(b)v(b)≥0W(b) = -u'(b)v(b) \geq 0: logo W(b)−W(a)≥0W(b) - W(a) \geq 0. Igualdade em toda a cadeia: ∫(q1−q2)uv=0\int(q_1 - q_2)uv = 0 com uv>0uv > 0 no intervalo aberto força q1=q2q_1 = q_2 ali; e W(a)=W(b)=0W(a) = W(b) = 0 força v(a)=v(b)=0v(a) = v(b) = 0; então W≡0W \equiv 0 em [a, b]\intcc ab (sua derivada se anula), isto é, (v/u)′=−W/u2=0(v/u)' = -W/u^2 = 0 em (a, b)\intoo ab: v∝uv \propto u.

(c) Tome q1=mq_1 = m e u=sin⁡(m(t−t0))u = \sin(\sqrt m(t - t_0)), cujos zeros consecutivos distam π/m\pi/\sqrt m, e q2=q≥mq_2 = q \geq m: por (b), toda solução vv de v′′+qv=0v'' + qv = 0 se anula em cada intervalo aberto de comprimento π/m\pi/\sqrt m (na alternativa degenerada q≡mq \equiv m, v∝uv \propto u também se anula). Se, em vez disso, q≤0q \leq 0: aplique (b) com q1=qq_1 = q, u=vu = v e q2=0q_2 = 0 com a solução sem zeros 1\mathbf 1 de v′′=0v'' = 0. Se vv tivesse dois zeros consecutivos, (b) forçaria ou um zero de 1\mathbf 1 entre eles, ou o caso degenerado 1∝v\mathbf 1 \propto v — ambos absurdos: vv se anula no máximo uma vez. Testes: para q=1q = 1, sin⁡t\sin t se anula a cada π=π/1\pi = \pi/\sqrt1, como previsto; para q=−1q = -1, sinh⁡t\sinh t se anula exatamente uma vez e et\eu^t nunca — no máximo um zero, como previsto.

19.6 Problema: o pêndulo, completamente resolvido

Problema 19.1

Problema de fim de semana — oscilações, rotações, separatriz e o período

A equação do pêndulo x′′=−sin⁡xx'' = -\sin x — como sistema: x′=yx' = y, y′=−sin⁡xy' = -\sin x em R2\R^2 — é a drosófila da dinâmica: simples de escrever, impossível de resolver por fórmulas elementares e, ainda assim, inteiramente compreensível pelo método qualitativo. Seja E(x,y)=y22−cos⁡xE(x, y) = \frac{y^2}2 - \cos x (a energia).

Parte I — Estrutura global.

  1. Mostre que todas as soluções maximais são globais (definidas em R\R): use E˙=0\dot E = 0 e o Teorema 19.5. Equilíbrios: (kπ,0)(k\pi, 0); classifique suas linearizações (do tipo centro para kk par, sela para kk ímpar).
  2. Mostre que as trajetórias estão contidas nos conjuntos de nível {E=E0}\{E = E_0\}, e esboce-as ou descreva-as pelo valor de E0∈[−1, +∞)E_0 \in \intco{-1}{+\infty}: E0=−1E_0 = -1 (equilíbrios), −1<E0<1-1 < E_0 < 1 (curvas fechadas em torno de (2kπ,0)(2k\pi, 0)), E0=1E_0 = 1 (a separatriz por (±π,0)(\pm\pi, 0)), E0>1E_0 > 1 (gráficos sobre xx: rotações).
  3. Demonstre que o equilíbrio inferior (0,0)(0,0) é estável mas não assintoticamente estável. (Lyapunov com V=E+1V = E + 1; não assintótico: a conservação de energia aprisiona as órbitas em curvas de nível afastadas da origem.)

Parte II — Oscilações e seu período. Fixe −1<E0<1-1 < E_0 < 1 e escreva E0=−cos⁡aE_0 = -\cos a com a∈(0, π)a \in \intoo0\pi (a amplitude).

  1. Mostre que a solução com x(0)=ax(0) = a, y(0)=0y(0) = 0 oscila: x(t)∈[−a, a]x(t) \in \intcc{-a}a, e que a órbita é a curva fechada y2=2(cos⁡x−cos⁡a)y^2 = 2(\cos x - \cos a). Justifique que a solução é periódica: a órbita é uma curva compacta sem equilíbrios, percorrida com velocidade limitada inferiormente — transforme isso em um argumento (a solução volta a seu ponto inicial em tempo finito e, então, a unicidade força a periodicidade).
  2. Estabeleça a fórmula do período

    T(a)=4∫0a ⁣dx2(cos⁡x−cos⁡a)T(a) = 4\int_0^{a}\frac{\dd x}{\sqrt{2(\cos x - \cos a)}}

    (em um quarto de órbita, y= ⁣dx ⁣dt>0y = \frac{\dd x}{\dd t} > 0 e separe variáveis; justifique a convergência imprópria em x=ax = a).

  3. (Pequenas oscilações) Substitua sin⁡x2=sin⁡a2 sin⁡φ\sin\frac x2 = \sin\frac a2\,\sin\varphi e mostre que

    T(a)=4∫0π/2 ⁣dφ1−k2sin⁡2φ,k=sin⁡a2T(a) = 4\int_0^{\pi/2}\frac{\dd\varphi}{\sqrt{1 - k^2\sin^2\varphi}}, \qquad k = \sin\frac a2

    (uma integral elíptica completa). Deduza por convergência dominada que T(a)→2πT(a) \to 2\pi quando a→0+a \to 0^+: o limite harmônico, independente da amplitude — o isocronismo aproximado de Galileu, com sua correção exata T(a)=2π(1+k24+O(k4))T(a) = 2\pi\bigl(1 + \frac{k^2}4 + O(k^4)\bigr) (expanda o integrando e integre termo a termo, justificando pela convergência normal).

  4. Mostre que T(a)→+∞T(a) \to +\infty quando a→π−a \to \pi^- (limite o integrando por baixo perto de φ=π2\varphi = \frac\pi2 quando k→1k \to 1, ou aplique a convergência monótona): ao se aproximar da separatriz, o pêndulo desacelera sem limite.

Parte III — A separatriz.

  1. Para E0=1E_0 = 1, y=2cos⁡x2y = 2\cos\frac x2 no ramo superior: separe variáveis e integre para encontrar a solução explícita

    x(t)=4arctan⁡(et)−πx(t) = 4\arctan\bigl(\eu^{t}\bigr) - \pi

    (com x(0)=0x(0) = 0, y(0)=2y(0) = 2). Verifique diretamente que ela resolve a equação do pêndulo e calcule seus limites e os limites de y(t)y(t) quando t→±∞t \to \pm\infty.

  2. Conclua: a órbita separatriz liga a sela (−π,0)(-\pi, 0) (quando t→−∞t \to -\infty) à sela (π,0)(\pi, 0) (quando t→+∞t \to +\infty), mas não alcança nenhuma delas em tempo finito — coerentemente com a unicidade (por que alcançar uma sela em tempo finito contradiria o Corolário 19.4?).

Parte IV — Rotações e o quadro completo.

  1. Para E0>1E_0 > 1: mostre que yy nunca se anula, que xx é estritamente monótona e global com x(t)→±∞x(t) \to \pm\infty, e que t↦y(t)t \mapsto y(t) é periódica de período

    τ(E0)=∫−ππ ⁣dx2(E0+cos⁡x).\tau(E_0) = \int_{-\pi}^{\pi} \frac{\dd x}{\sqrt{2(E_0 + \cos x)}} .
  2. Monte o retrato de fase completo (a figura do capítulo), com justificativa integral de cada característica, e escreva um resumo de dez linhas do método: energia, conjuntos de nível, compacidade, unicidade — como cada teorema do capítulo entrou. Em que momento precisamos de uma fórmula para a solução geral?

Parte V — A função período sob o microscópio.

  1. Demonstre os momentos de Wallis

    Wn=∫0π/2sin⁡2nφ  ⁣dφ=π2⋅(2n)!4n (n!)2W_n = \int_0^{\pi/2}\sin^{2n}\varphi\,\dd\varphi = \frac\pi2\cdot\frac{(2n)!}{4^n\,(n!)^2}

    por indução (integre por partes), expanda o integrando da questão 6 pela série binomial e justifique a integração termo a termo para obter a série completa

    T(a)=2π∑n≥0((2n)!4n(n!)2) ⁣2k2n=2π(1+k24+9k464+O(k6)),k=sin⁡a2.T(a) = 2\pi\sum_{n\geq0} \Bigl(\frac{(2n)!}{4^n(n!)^2}\Bigr)^{\!2}k^{2n} = 2\pi\Bigl(1 + \frac{k^2}4 + \frac{9k^4}{64} + O(k^6)\Bigr), \qquad k = \sin\frac a2 .
  2. Converta para a amplitude:

    T(a)=2π(1+a216+11 a43072+O(a6))T(a) = 2\pi\Bigl(1 + \frac{a^2}{16} + \frac{11\,a^4}{3072} + O(a^6)\Bigr)

    (substitua a expansão de sin⁡a2\sin\frac a2 e agrupe). O isocronismo falha na ordem a2a^2, e a falha está agora quantificada até a ordem a4a^4.

  3. Mostre que a↦T(a)a \mapsto T(a) é contínua e estritamente crescente em (0, π)\intoo0\pi, e conclua, com as questões 6–7, que TT é uma bijeção de (0, π)\intoo0\pi sobre (2π, +∞)\intoo{2\pi}{+\infty}: todo período supercrítico é realizado por exatamente uma amplitude.
  4. (Aritmética do relojoeiro) Um pêndulo regulado a amplitude infinitesimal marca o tempo ideal; mostre que, operando a amplitude aa, ele atrasa a fração a216+O(a4)\frac{a^2}{16} + O(a^4) do tempo ideal, e calcule a deriva para a=0.2a = 0.2 rad: cerca de 216216 segundos por dia. (As bochechas cicloidais de Huygens e as pequenas amplitudes constantes dos escapamentos são ambas respostas a esse número.)
  5. Volte ao período de rotação τ\tau da questão 10: mostre que τ\tau é estritamente decrescente em (1, +∞)\intoo1{+\infty}, que τ(E0)→+∞\tau(E_0) \to +\infty quando E0→1+E_0 \to 1^+ (convergência monótona) e que 2E0 τ(E0)→2π\sqrt{2E_0}\,\tau(E_0) \to 2\pi quando E0→+∞E_0 \to +\infty (convergência dominada): o giro rápido é assintoticamente uma rotação livre de velocidade angular 2E0\sqrt{2E_0}.

Parte VI — O método exportado: Lotka–Volterra. A receita do pêndulo — integral primeira, curvas de nível compactas, unicidade — resolve um ecossistema. Fixe α,β,γ,δ>0\alpha, \beta, \gamma, \delta > 0 e considere, no quadrante aberto Q=(0, +∞)×(0, +∞)Q = \intoo0{+\infty}\times\intoo0{+\infty},

x′=x (α−βy),y′=y (δx−γ)x' = x\,(\alpha - \beta y), \qquad y' = y\,(\delta x - \gamma)

(xx presas, yy predadores).

  1. Mostre que QQ é invariante — os eixos são reuniões de órbitas, explicitamente calculáveis, que nenhuma solução pode cruzar (Corolário 19.4) — e que o único equilíbrio em QQ é (x∗,y∗)=(γδ,αβ)(x_*, y_*) = \bigl(\frac\gamma\delta, \frac\alpha\beta\bigr).
  2. Mostre que

    H(x,y)=δx−γln⁡x+βy−αln⁡yH(x, y) = \delta x - \gamma\ln x + \beta y - \alpha\ln y

    é uma integral primeira, que H=f(x)+g(y)H = f(x) + g(y) com f,gf, g estritamente convexas e próprias em (0, +∞)\intoo0{+\infty} com mínimos em x∗x_*, y∗y_*, e deduza que todas as soluções maximais em QQ são globais.

  3. Mostre que, para h>h∗=H(x∗,y∗)h > h_* = H(x_*, y_*), o conjunto de nível {H=h}∩Q\{H = h\}\cap Q é uma curva fechada em torno do equilíbrio: dois ramos contínuos y±(x)y_\pm(x) sobre um intervalo compacto [x−, x+]∋x∗\intcc{x_-}{x_+} \ni x_*, colados nas extremidades — o análogo dos ovais do pêndulo.
  4. Demonstre que toda órbita não estacionária em QQ é periódica: estabeleça a circulação anti-horária pelas quatro regiões recortadas pelas retas x=x∗x = x_* e y=y∗y = y_*, limite o tempo de travessia de cada arco por uma integral com singularidade de raiz quadrada convergente (como na questão 5) e feche com a unicidade (como na questão 4).
  5. (Lei das médias de Volterra) Se TT é o período de uma tal órbita, mostre que

    1T∫0Tx(t)  ⁣dt=γδ,1T∫0Ty(t)  ⁣dt=αβ:\frac1T\int_0^Tx(t)\,\dd t = \frac\gamma\delta, \qquad \frac1T\int_0^Ty(t)\,\dd t = \frac\alpha\beta :

    as médias temporais são iguais aos valores de equilíbrio, qualquer que seja a amplitude (integre (ln⁡x)′=α−βy(\ln x)' = \alpha - \beta y ao longo de um período).

  6. (O paradoxo da pesca) Colha as duas espécies à taxa ε∈(0, α)\varepsilon \in \intoo0\alpha: o sistema mantém sua forma, com α−ε\alpha - \varepsilon e γ+ε\gamma + \varepsilon no lugar de α\alpha e γ\gamma. O que acontece com as populações médias? Explique a observação de d’Ancona (1914–1918): quando a pesca no Adriático diminuiu durante a guerra, a proporção de predadores (tubarões) na captura aumentou — e por que a pesca moderada favorece as presas.
  7. Escreva a moral em dez linhas: que teoremas do capítulo movem cada etapa, o que substitui a energia do pêndulo, e por que nenhum dos dois sistemas precisou — ou admite — uma solução elementar em forma fechada.
  8. (Modulação da velocidade) No regime de rotação E0>1E_0 > 1, mostre que y=x′y = x' oscila entre 2(E0−1)\sqrt{2(E_0 - 1)} (em x≡π mod 2πx \equiv \pi \bmod 2\pi) e 2(E0+1)\sqrt{2(E_0 + 1)} (em x≡0x \equiv 0), que a média temporal de yy ao longo de um período vale exatamente 2πτ(E0)\frac{2\pi}{\tau(E_0)}, e que a razão de modulação E0+1E0−1→1\sqrt{\frac{E_0 + 1}{E_0 - 1}} \to 1 quando E0→∞E_0 \to \infty: a rotação rápida é assintoticamente uniforme.
  9. (Monotonicidade do período de rotação) Mostre que τ(E0)\tau(E_0) é C1\mathcal C^1 e estritamente decrescente em (1, +∞)\intoo1{+\infty} (derive sob o sinal de integral, com dominação em todo [1+δ, ∞)\intco{1 + \delta}\infty), com τ→∞\tau \to \infty quando E0→1+E_0 \to 1^+ e τ→0\tau \to 0 quando E0→∞E_0 \to \infty. Monte o quadro completo de bifurcação do pêndulo ao longo do eixo da energia: equilíbrios em E0=−1E_0 = -1, librações com período crescendo de 2π2\pi a ∞\infty em −1<E0<1-1 < E_0 < 1, a separatriz em E0=1E_0 = 1 e as rotações com período decrescendo de ∞\infty a 00 além dela.
Solução

Solução de Problema 19.1.

1. E˙=yy′+sin⁡x⋅x′=−ysin⁡x+ysin⁡x=0\dot E = yy' + \sin x\cdot x' = -y\sin x + y\sin x = 0: a energia é uma integral primeira. Numa solução maximal, y2=2(E0+cos⁡x)≤2(E0+1)y^2 = 2(E_0 + \cos x) \leq 2(E_0 + 1): yy é limitada; então ∣x(t)∣≤∣x(0)∣+tsup⁡∣y∣\abs{x(t)} \leq \abs{x(0)} + t\sup\abs y cresce no máximo linearmente: em qualquer intervalo de tempo finito a trajetória permanece num compacto de R2\R^2, de modo que o Teorema 19.5(2) força T±=±∞T_\pm = \pm\infty. Equilíbrios (kπ,0)(k\pi, 0); linearização (01∓10)\bigl(\begin{smallmatrix}0&1\\ \mp1&0\end{smallmatrix}\bigr) com −cos⁡(kπ)=∓1-\cos(k\pi) = \mp1: autovalores ±i\pm\iu para kk par (tipo centro, inconclusivo por si só) e ±1\pm1 para kk ímpar (sela).

2. EE constante ao longo das soluções confina cada trajetória a um conjunto de nível {y2=2(E0+cos⁡x)}\{y^2 = 2(E_0 + \cos x)\}. Para E0=−1E_0 = -1: apenas os pontos (2kπ,0)(2k\pi, 0). Para −1<E0<1-1 < E_0 < 1: escrevendo E0=−cos⁡aE_0 = -\cos a, o conjunto é uma união disjunta de curvas fechadas y=±2(cos⁡x−cos⁡a)y = \pm\sqrt{2(\cos x - \cos a)} sobre x∈[2kπ−a,2kπ+a]x \in [2k\pi - a, 2k\pi + a], uma em torno de cada equilíbrio estável. Para E0=1E_0 = 1: as curvas y=±2cos⁡x2y = \pm2\cos\frac x2 que ligam selas consecutivas — a separatriz — junto com as próprias selas. Para E0>1E_0 > 1: dois gráficos y=±2(E0+cos⁡x)y = \pm\sqrt{2(E_0 + \cos x)}, definidos para todo xx, nunca tocando y=0y = 0.

3. V=E+1=y22+(1−cos⁡x)V = E + 1 = \frac{y^2}2 + (1 - \cos x) se anula em (0,0)(0,0), é positiva numa vizinhança perfurada (∣x∣<2π\abs x < 2\pi), e V˙=0≤0\dot V = 0 \leq 0: o Teorema 19.11 dá a estabilidade. Não assintótica: a solução por (a,0)(a, 0) (0<a0 < a pequeno) permanece na curva de nível E=−cos⁡aE = -\cos a, cuja distância à origem é positiva (a curva encontra o eixo xx apenas em ±a\pm a): φt(a,0)↛(0,0)\varphi_t(a, 0) \not\to (0,0).

4. Na curva de nível CaC_a: sem equilíbrios (y=0y = 0 força x=±ax = \pm a com sin⁡(±a)≠0\sin(\pm a) \neq 0 para 0<a<π0 < a < \pi), de modo que a velocidade ∥(y,−sin⁡x)∥\norm{(y, -\sin x)} tem mínimo positivo mm no compacto CaC_a. Siga a solução a partir de (a,0)(a, 0): no semiplano inferior x′=y<0x' = y < 0, de modo que xx decresce de aa a −a-a em tempo finito (as integrais de quarto/meio período convergem: a análise da questão 5), atingindo (−a,0)(-a, 0); pela simetria (x,y)↦(x,−y)(x, y) \mapsto (x, -y), t↦−tt \mapsto -t da equação, a metade superior é percorrida de volta no mesmo tempo T2\frac T2: a solução retorna a (a,0)(a, 0) no tempo TT. A unicidade (Corolário 19.4) então propaga: x(t+T)=x(t)x(t + T) = x(t) para todo tt: periódica.

5. No ramo em que y>0y > 0: y=2(cos⁡x−cos⁡a)y = \sqrt{2(\cos x - \cos a)} e  ⁣dt= ⁣dxy\dd t = \frac{\dd x}{y}; integrar xx de −a-a a aa dá o meio período, e a simetria x↦−xx \mapsto -x divide a integral pela metade de novo:

T(a)=4∫0a ⁣dx2(cos⁡x−cos⁡a).T(a) = 4\int_0^a\frac{\dd x}{\sqrt{2(\cos x - \cos a)}} .

Convergência em x=a−x = a^-: cos⁡x−cos⁡a=sin⁡(a)(a−x)+O((a−x)2)\cos x - \cos a = \sin(a)(a - x) + O((a-x)^2) com sin⁡a>0\sin a > 0: o integrando se comporta como (2sin⁡a (a−x))−1/2\bigl(2\sin a\,(a - x)\bigr)^{-1/2}, integrável.

6. Com sin⁡x2=ksin⁡φ\sin\frac x2 = k\sin\varphi, k=sin⁡a2k = \sin\frac a2: cos⁡x−cos⁡a=2(k2−sin⁡2x2)=2k2cos⁡2φ\cos x - \cos a = 2(k^2 - \sin^2\frac x2) = 2k^2\cos^2\varphi e 12cos⁡x2  ⁣dx=kcos⁡φ  ⁣dφ\frac12\cos\frac x2\,\dd x = k\cos\varphi\,\dd\varphi, de modo que

T(a)=4∫0π/2 ⁣dφ1−k2sin⁡2φ.T(a) = 4\int_0^{\pi/2} \frac{\dd\varphi}{\sqrt{1 - k^2\sin^2\varphi}} .

Quando a→0+a \to 0^+, k→0k \to 0: para k≤k0<1k \leq k_0 < 1 o integrando é dominado por (1−k02sin⁡2φ)−1/2(1 - k_0^2\sin^2\varphi)^{-1/2}, contínua em [0, π/2]\intcc0{\pi/2}: o TCD dá T→4⋅π2=2πT \to 4\cdot\frac\pi2 = 2\pi. Expandindo (1−u)−1/2=1+u2+3u28+⋯(1 - u)^{-1/2} = 1 + \frac u2 + \frac{3u^2}8 + \cdots com u=k2sin⁡2φu = k^2\sin^2\varphi (convergência normal para k<1k < 1) e ∫0π/2sin⁡2=π4\int_0^{\pi/2}\sin^2 = \frac\pi4:

T(a)=2π(1+k24+O(k4)):T(a) = 2\pi\Bigl(1 + \frac{k^2}{4} + O(k^4)\Bigr) :

o isocronismo vale apenas em primeira ordem; o período cresce com a amplitude.

7. Quando k↑1k \uparrow 1, os integrandos crescem até (1−sin⁡2φ)−1/2=1cos⁡φ(1 - \sin^2\varphi)^{-1/2} = \frac1{\cos\varphi}, cuja integral diverge: por convergência monótona, T(a)→+∞T(a) \to +\infty quando a→π−a \to \pi^-.

8. No ramo y=2cos⁡x2y = 2\cos\frac x2 (∣x∣<π\abs x < \pi):  ⁣dx2cos⁡(x/2)= ⁣dt\frac{\dd x}{2\cos(x/2)} = \dd t; com u=x2u = \frac x2, ∫ ⁣ducos⁡u=ln⁡tan⁡(u2+π4)\int\frac{\dd u}{\cos u} = \ln\tan\bigl(\frac u2 + \frac\pi4\bigr), de modo que t=ln⁡tan⁡(x4+π4)t = \ln\tan\bigl(\frac x4 + \frac\pi4\bigr), isto é,

x(t)=4arctan⁡(et)−π,y(t)=x′(t)=4et1+e2t=2cosh⁡t.x(t) = 4\arctan(\eu^t) - \pi, \qquad y(t) = x'(t) = \frac{4\eu^t}{1 + \eu^{2t}} = \frac{2}{\cosh t} .

Verificação pela energia: com θ=arctan⁡et\theta = \arctan\eu^t, sin⁡2θ=1cosh⁡t\sin2\theta = \frac1{\cosh t}, de modo que cos⁡x=−cos⁡4θ=−1+2cosh⁡2t\cos x = -\cos4\theta = -1 + \frac{2}{\cosh^2t} e E=y22−cos⁡x=2cosh⁡2t+1−2cosh⁡2t=1E = \frac{y^2}2 - \cos x = \frac2{\cosh^2t} + 1 - \frac2{\cosh^2t} = 1: a trajetória está na separatriz, e derivar y2=2(1+cos⁡x)y^2 = 2(1 + \cos x) onde y>0y > 0 reproduz y′=−sin⁡xy' = -\sin x. Limites: x→±πx \to \pm\pi e y→0y \to 0 quando t→±∞t \to \pm\infty.

9. A órbita tende à sela (π,0)(\pi, 0) para a frente e a (−π,0)(-\pi, 0) para trás, mas nunca chega: se ela atingisse (π,0)(\pi, 0) num tempo finito t∗t^*, duas soluções maximais distintas — a solução separatriz e a solução constante na sela — passariam pelo mesmo ponto (t∗,(π,0))(t^*, (\pi, 0)), contradizendo o Corolário 19.4. As selas só são atingidas assintoticamente.

10. Para E0>1E_0 > 1: y2=2(E0+cos⁡x)≥2(E0−1)>0y^2 = 2(E_0 + \cos x) \geq 2(E_0 - 1) > 0: yy mantém seu sinal, e ∣x′∣=∣y∣≥2(E0−1)\abs{x'} = \abs y \geq \sqrt{2(E_0 - 1)}: xx é estritamente monótona, global (questão 1), com x(t)→±∞x(t) \to \pm\infty. Como y(t)=±2(E0+cos⁡x(t))y(t) = \pm\sqrt{2(E_0 + \cos x(t))} e cos⁡\cos é 2π2\pi-periódico, yy retorna a seu valor cada vez que xx avança 2π2\pi; o tempo necessário é

τ(E0)=∫x0x0+2π ⁣dx2(E0+cos⁡x)=∫−ππ ⁣dx2(E0+cos⁡x)\tau(E_0) = \int_{x_0}^{x_0 + 2\pi}\frac{\dd x}{\sqrt{2(E_0 + \cos x)}} = \int_{-\pi}^{\pi}\frac{\dd x}{\sqrt{2(E_0 + \cos x)}}

(substituição; periodicidade): yy é τ\tau-periódica — o pêndulo gira com taxa de rotação assintoticamente constante 2π/τ≈2E02\pi/\tau \approx \sqrt{2E_0} para energias grandes.

11. O método, em ordem: a energia (E˙=0\dot E = 0) reduz o fluxo bidimensional a curvas de nível unidimensionais; a limitação de yy em cada nível, mais a fuga de compactos, dá a existência global; a compacidade dos níveis fechados dá cotas de velocidade e, portanto, a periodicidade; a unicidade converte o primeiro retorno em periodicidade exata, proíbe a chegada em tempo finito às selas e separa os tipos de órbita; linearização e Lyapunov classificam os equilíbrios; a integral do período é analisada com os teoremas de convergência do Capítulo 10. Em ponto algum possuímos — ou precisamos de — uma solução geral em forma fechada: a teoria qualitativa extraiu da própria equação todas as características do movimento.

12. Por partes: Wn=∫0π/2sin⁡2n−1φ⋅sin⁡φ  ⁣dφ=(2n−1)∫0π/2sin⁡2n−2φcos⁡2φ  ⁣dφ=(2n−1)(Wn−1−Wn)W_n = \int_0^{\pi/2}\sin^{2n-1}\varphi \cdot\sin\varphi\,\dd\varphi = (2n-1)\int_0^{\pi/2} \sin^{2n-2}\varphi\cos^2\varphi\,\dd\varphi = (2n-1)(W_{n-1} - W_n), de modo que Wn=2n−12nWn−1W_n = \frac{2n-1}{2n}W_{n-1}; com W0=π2W_0 = \frac\pi2 e ∏j=1n2j−12j=(2n)!4n(n!)2\prod_{j=1}^n\frac{2j-1}{2j} = \frac{(2n)!}{4^n(n!)^2} (separe (2n)!=2nn!∏(2j−1)(2n)! = 2^nn!\prod(2j-1)), a indução dá o valor em destaque. Série binomial: (1−u)−1/2=∑n≥0cnun(1 - u)^{-1/2} = \sum_{n\geq0}c_nu^n com cn=(2n)!4n(n!)2∈(0, 1]c_n = \frac{(2n)!}{4^n(n!)^2} \in \intoc01, raio 11. Para k≤k0<1k \leq k_0 < 1 e u=k2sin⁡2φu = k^2\sin^2\varphi, a série ∑cnk2nsin⁡2nφ\sum c_nk^{2n}\sin^{2n}\varphi converge normalmente em φ\varphi (cnk2n≤k02nc_nk^{2n} \leq k_0^{2n}), de modo que a integração termo a termo na fórmula da questão 6 é legítima:

T(a)=4∑n≥0cnk2nWn=4⋅π2∑n≥0cn2 k2n=2π∑n≥0((2n)!4n(n!)2) ⁣2k2n.T(a) = 4\sum_{n\geq0}c_nk^{2n}W_n = 4\cdot\frac\pi2\sum_{n\geq0}c_n^2\,k^{2n} = 2\pi\sum_{n\geq0} \Bigl(\frac{(2n)!}{4^n(n!)^2}\Bigr)^{\!2}k^{2n} .

Com c0=1c_0 = 1, c1=12c_1 = \frac12, c2=38c_2 = \frac38: T(a)=2π(1+k24+9k464+O(k6))T(a) = 2\pi\bigl(1 + \frac{k^2}4 + \frac{9k^4}{64} + O(k^6)\bigr), sendo o resto uniforme para k≤k0k \leq k_0 (cauda dominada por uma série geométrica).

13. k=sin⁡a2=a2−a348+O(a5)k = \sin\frac a2 = \frac a2 - \frac{a^3}{48} + O(a^5), de modo que

k2=a24−a448+O(a6),k4=a416+O(a6),k^2 = \frac{a^2}4 - \frac{a^4}{48} + O(a^6), \qquad k^4 = \frac{a^4}{16} + O(a^6) ,

e

T(a)2π=1+14(a24−a448)+964⋅a416+O(a6)=1+a216+11 a43072+O(a6),\frac{T(a)}{2\pi} = 1 + \frac14\Bigl(\frac{a^2}4 - \frac{a^4}{48}\Bigr) + \frac9{64}\cdot\frac{a^4}{16} + O(a^6) = 1 + \frac{a^2}{16} + \frac{11\,a^4}{3072} + O(a^6) ,

pois −1192+91024=−16+273072=113072-\frac1{192} + \frac9{1024} = \frac{-16 + 27}{3072} = \frac{11}{3072}.

14. Na forma elíptica da questão 6, a↦k=sin⁡a2a \mapsto k = \sin\frac a2 é uma bijeção contínua estritamente crescente de (0, π)\intoo0\pi sobre (0, 1)\intoo01 e, para cada φ∈(0, π/2]\varphi \in \intoc0{\pi/2}, o integrando (1−k2sin⁡2φ)−1/2(1 - k^2\sin^2\varphi)^{-1/2} é estritamente crescente em kk: TT é estritamente crescente. Continuidade: em k≤k0<1k \leq k_0 < 1, o integrando é dominado pela contínua (1−k02sin⁡2φ)−1/2(1 - k_0^2\sin^2\varphi)^{-1/2}, de modo que a convergência dominada se aplica ao longo de k′→kk' \to k. Com os limites T→2πT \to 2\pi quando a→0+a \to 0^+ (questão 6) e T→+∞T \to +\infty quando a→π−a \to \pi^- (questão 7), a monotonicidade estrita e o teorema do valor intermediário fazem de TT uma bijeção de (0, π)\intoo0\pi sobre (2π, +∞)\intoo{2\pi}{+\infty}.

15. Um relógio conta oscilações; regulado em amplitude nula, ele contabiliza o período harmônico 2π2\pi por oscilação (na unidade de tempo do pêndulo). Operando na amplitude aa, o período verdadeiro é T(a)=2π(1+a216+O(a4))T(a) = 2\pi\bigl(1 + \frac{a^2}{16} + O(a^4)\bigr): o relógio contabiliza 2π2\pi enquanto T(a)T(a) de fato transcorre, de modo que ele atrasa pela fração

T(a)−2πT(a)=a216+O(a4).\frac{T(a) - 2\pi}{T(a)} = \frac{a^2}{16} + O(a^4) .

Para a=0.2a = 0.2 rad (cerca de 11.511.5 graus): a216=0.0416=1400\frac{a^2}{16} = \frac{0.04}{16} = \frac1{400}, e um dia tem 8640086400 s: o relógio perde 86400/400=21686400/400 = 216 segundos — uns três minutos e meio — por dia. Daí os dois remédios históricos: impor uma amplitude minúscula e constante (o escapamento), ou dobrar o vínculo de modo que o período seja exatamente independente da amplitude (as faces cicloidais de Huygens, 1657).

16. Em τ(E0)=∫−ππ ⁣dx2(E0+cos⁡x)\tau(E_0) = \int_{-\pi}^{\pi}\frac{\dd x}{\sqrt{2(E_0 + \cos x)}}, o integrando é, para cada xx fixo, estritamente decrescente em E0E_0: τ\tau é estritamente decrescente. Quando E0↓1E_0 \downarrow 1, os integrandos crescem pontualmente até (2(1+cos⁡x))−1/2=12∣cos⁡x2∣\bigl(2(1 + \cos x)\bigr)^{-1/2} = \frac1{2\abs{\cos\frac x2}}, cuja integral em (−π, π)\intoo{-\pi}\pi diverge (cos⁡x2\cos\frac x2 se anula em primeira ordem em ±π\pm\pi): a convergência monótona dá τ(E0)→+∞\tau(E_0) \to +\infty. Quando E0→+∞E_0 \to +\infty:

2E0 τ(E0)=∫−ππ ⁣dx1+cos⁡x/E0⟶2π\sqrt{2E_0}\,\tau(E_0) = \int_{-\pi}^{\pi} \frac{\dd x}{\sqrt{1 + \cos x/E_0}} \longrightarrow 2\pi

por convergência dominada (para E0≥2E_0 \geq 2 o integrando é no máximo 2\sqrt2). Logo τ≈2π/2E0\tau \approx 2\pi/\sqrt{2E_0}: uma volta leva o tempo da rotação livre à velocidade 2E0\sqrt{2E_0}, reduzido o potencial a uma ondulação — batendo com a taxa de rotação da questão 10.

17. Os eixos carregam as soluções explícitas t↦(x0eαt,0)t \mapsto (x_0\eu^{\alpha t}, 0) e t↦(0,y0e−γt)t \mapsto (0, y_0\eu^{-\gamma t}), junto com o equilíbrio (0,0)(0, 0): eles são uniões de órbitas. O campo é C1\mathcal C^1, logo localmente lipschitziano; uma solução que comece em QQ e tocasse um eixo passaria por um ponto de uma dessas órbitas e, pelo Corolário 19.4, coincidiria com ela — impossível, uma vivendo no eixo e a outra não. Logo QQ é invariante nas duas direções do tempo. Equilíbrios em QQ: x>0x > 0 força α−βy=0\alpha - \beta y = 0 e y>0y > 0 força δx−γ=0\delta x - \gamma = 0: o único ponto (x∗,y∗)=(γδ,αβ)(x_*, y_*) = \bigl(\frac\gamma\delta, \frac\alpha\beta\bigr).

18. Ao longo de uma solução,

H˙=(δ−γx)x′+(β−αy)y′=(δx−γ)(α−βy)+(βy−α)(δx−γ)=0.\dot H = \Bigl(\delta - \frac\gamma x\Bigr)x' + \Bigl(\beta - \frac\alpha y\Bigr)y' = (\delta x - \gamma)(\alpha - \beta y) + (\beta y - \alpha)(\delta x - \gamma) = 0 .

f(x)=δx−γln⁡xf(x) = \delta x - \gamma\ln x tem f′′=γ/x2>0f'' = \gamma/x^2 > 0, com f′f' anulando-se apenas em x∗x_*, e f→+∞f \to +\infty tanto em 0+0^+ quanto em +∞+\infty: estritamente convexa e própria, de mínimo f(x∗)f(x_*); do mesmo modo, g(y)=βy−αln⁡yg(y) = \beta y - \alpha\ln y, de mínimo g(y∗)g(y_*). Logo H≥h∗H \geq h_*, com igualdade apenas em (x∗,y∗)(x_*, y_*), e cada subnível {H≤h}∩Q\{H \leq h\}\cap Q é compacto: f(x)≤h−g(y∗)f(x) \leq h - g(y_*) confina xx a um intervalo compacto de (0, +∞)\intoo0{+\infty} por ser própria, do mesmo modo yy, e o conjunto é fechado em R2\R^2, pois H→+∞H \to +\infty no bordo de QQ. Uma solução maximal permanece em seu conjunto de nível compacto, de modo que ela não pode deixar todo compacto em tempo finito: o Teorema 19.5 a torna global.

19. Fixe h>h∗h > h_* e ponha c=h−g(y∗)>f(x∗)c = h - g(y_*) > f(x_*). Como ff decresce estritamente de +∞+\infty a f(x∗)f(x_*) em (0, x∗]\intoc0{x_*} e cresce estritamente de volta até +∞+\infty em [x∗, +∞)\intco{x_*}{+\infty}, a equação f(x)=cf(x) = c tem exatamente duas raízes x−<x∗<x+x_- < x_* < x_+, e {f≤c}=[x−, x+]\{f \leq c\} = \intcc{x_-}{x_+}. Para x∈(x−, x+)x \in \intoo{x_-}{x_+}: g(y)=h−f(x)>g(y∗)g(y) = h - f(x) > g(y_*) tem exatamente duas raízes y−(x)<y∗<y+(x)y_-(x) < y_* < y_+(x), contínuas em xx (inversas das restrições contínuas estritamente monótonas de gg de cada lado de y∗y_*), com y±(x)→y∗y_\pm(x) \to y_* quando x→x±x \to x_\pm; em x=x±x = x_\pm a única solução é y=y∗y = y_*. Logo {H=h}∩Q\{H = h\}\cap Q é a união dos gráficos de y+y_+ e y−y_- sobre [x−, x+]\intcc{x_-}{x_+}, colados em (x±,y∗)(x_\pm, y_*): uma curva fechada em torno de (x∗,y∗)(x_*, y_*) — o análogo dos ovais do pêndulo.

20. Seja Ch={H=h}∩QC_h = \{H = h\}\cap Q com h>h∗h > h_*: o único equilíbrio de QQ está fora de ChC_h, de modo que o campo nunca se anula sobre ela. Sinais: x′=βx(y∗−y)x' = \beta x(y_* - y), y′=δy(x−x∗)y' = \delta y(x - x_*): o movimento vai para a direita abaixo da reta y=y∗y = y_*, para cima à direita de x=x∗x = x_*, para a esquerda acima e para baixo à esquerda — circulação anti-horária. Siga a solução a partir de um ponto (x0,y−(x0))(x_0, y_-(x_0)) do ramo inferior aberto, em que x′>0x' > 0: o tempo para atingir o canto direito B=(x+,y∗)B = (x_+, y_*) é

∫x0x+ ⁣dxβx (y∗−y−(x)).\int_{x_0}^{x_+}\frac{\dd x}{\beta x\,\bigl(y_* - y_-(x)\bigr)} .

Perto de x+x_+, escolha x′∈(x∗, x+)x' \in \intoo{x_*}{x_+}; para x∈[x′, x+]x \in \intcc{x'}{x_+}, f(x+)−f(x)≥f′(x′) (x+−x)f(x_+) - f(x) \geq f'(x')\,(x_+ - x) (f′f' é crescente e positiva além de x∗x_*), ao passo que a relação de nível e a desigualdade de Taylor dão g(y−(x))−g(y∗)≤12 (max⁡g′′) (y∗−y−(x))2g(y_-(x)) - g(y_*) \leq \frac12\,\bigl(\max g''\bigr)\,(y_* - y_-(x))^2 na faixa compacta de yy de ChC_h: logo y∗−y−(x)≥c x+−xy_* - y_-(x) \geq c\,\sqrt{x_+ - x} com c>0c > 0, e o integrando é O((x+−x)−1/2)O\bigl((x_+ - x)^{-1/2}\bigr): integrável — a convergência da questão 5, transposta. No resto do ramo, o integrando é contínuo. Logo BB é atingido em tempo finito; ali y′=δy∗(x+−x∗)>0y' = \delta y_*(x_+ - x_*) > 0, a órbita entra na região x>x∗x > x_*, y>y∗y > y_*, sobe até o canto superior (x∗,y+)(x_*, y_+) pela estimativa simétrica (papéis de ff e gg trocados), e assim por diante ao longo dos quatro arcos: após um tempo finito T>0T > 0 a solução retorna a seu ponto de partida. Pelo Corolário 19.4, ela é TT-periódica — o argumento da questão 4, literalmente.

21. Numa órbita TT-periódica em QQ, t↦ln⁡x(t)t \mapsto \ln x(t) é C1\mathcal C^1 e TT-periódica, de modo que

0=∫0T(ln⁡x)′  ⁣dt=∫0T(α−βy)  ⁣dt=αT−β∫0Ty  ⁣dt,0 = \int_0^T(\ln x)'\,\dd t = \int_0^T(\alpha - \beta y)\,\dd t = \alpha T - \beta\int_0^Ty\,\dd t ,

dando 1T∫0Ty=αβ\frac1T\int_0^Ty = \frac\alpha\beta; do mesmo modo, 0=∫0T(ln⁡y)′=δ∫0Tx  ⁣dt−γT0 = \int_0^T(\ln y)' = \delta\int_0^Tx\,\dd t - \gamma T dá 1T∫0Tx=γδ\frac1T\int_0^Tx = \frac\gamma\delta. As médias temporais são os valores de equilíbrio, para toda órbita, independentemente da amplitude — uma lei de conservação que ninguém colocou à mão.

22. Com colheita, o sistema é de novo da forma de Lotka–Volterra, com parâmetros α−ε\alpha - \varepsilon, β\beta, γ+ε\gamma + \varepsilon, δ\delta (o equilíbrio interior persiste, pois ε<α\varepsilon < \alpha). A questão 21 aplicada ao novo sistema:

xˉ=γ+εδ  (meˊdia de presas sobe),yˉ=α−εβ  (meˊdia de predadores cai):\bar x = \frac{\gamma + \varepsilon}{\delta} \ \ (\text{média de presas sobe}), \qquad \bar y = \frac{\alpha - \varepsilon}{\beta} \ \ (\text{média de predadores cai}) :

a colheita indiscriminada desloca o equilíbrio em favor da presa. Os dados de D’Ancona leem isso ao contrário: a guerra cortou a pesca, ε\varepsilon caiu, de modo que a média de predadores (α−ε)/β(\alpha - \varepsilon)/\beta subiu e a média de presas caiu — uma fração maior de tubarões na captura, exatamente o que os mercados de peixe do Adriático registraram. Esse é o princípio de Volterra, o mesmo mecanismo por trás dos paradoxos dos pesticidas: abater os dois níveis tróficos beneficia o nível que é comido.

23. A receita, nas duas vezes: (i) uma integral primeira — EE para o pêndulo, HH aqui, obtida separando  ⁣dy/ ⁣dx\dd y/\dd x — colapsa o plano em curvas; (ii) a propriedade de ser própria e a compacidade dos conjuntos de nível dão a existência global pelo Teorema 19.5; (iii) a geometria dos níveis — ovais, vindos da forma de cos⁡\cos lá e da convexidade estrita de ff e gg aqui — é lida na integral, não no fluxo; (iv) um campo não nulo num oval compacto, mais singularidades integráveis nos cantos, força um tempo de retorno finito; (v) a unicidade (Corolário 19.4) converte retorno em periodicidade e proíbe a chegada em tempo finito aos equilíbrios; (vi) os dividendos — expansões do período, leis de médias — vêm dos teoremas de convergência aplicados às integrais resultantes. Nem x′′=−sin⁡xx'' = -\sin x nem Lotka–Volterra admite solução elementar em forma fechada (integrais elípticas num caso, curvas de nível transcendentes no outro) e, em ponto algum, foi preciso uma: a própria equação, interrogada qualitativamente, entregou o movimento inteiro.

24. Num nível de energia E0>1E_0 > 1, y2=2(E0+cos⁡x)>0y^2 = 2(E_0 + \cos x) > 0: extremos de y2y^2 em cos⁡x=±1\cos x = \pm1, dando as cotas enunciadas, atingidas em x≡0,πx \equiv 0, \pi. Média temporal num período τ=τ(E0)\tau = \tau(E_0): xx avança exatamente 2π2\pi, de modo que

1τ∫0τy  ⁣dt=x(τ)−x(0)τ=2πτ.\frac1\tau\int_0^\tau y\,\dd t = \frac{x(\tau) - x(0)}{\tau} = \frac{2\pi}\tau .

A razão entre as velocidades extremas é E0+1E0−1=1+O(E0−1)→1\sqrt{\frac{E_0 + 1}{E_0 - 1}} = 1 + O(E_0^{-1}) \to 1: em alta energia, a ondulação ±1\pm1 do potencial é desprezível diante de E0E_0, e o pêndulo gira quase uniformemente — a tábua de lavar se aplaina.

25. Em E0≥1+δE_0 \geq 1 + \delta, o integrando de τ(E0)=∫−ππ ⁣dx2(E0+cos⁡x)\tau(E_0) = \int_{-\pi}^{\pi}\frac{\dd x}{\sqrt{2(E_0 + \cos x)}} é dominado por (2δ)−1/2(2\delta)^{-1/2}, e sua derivada em E0E_0,

∂E012(E0+cos⁡x)=−1(2(E0+cos⁡x))3/2\partial_{E_0}\frac1{\sqrt{2(E_0 + \cos x)}} = -\frac{1}{\bigl(2(E_0 + \cos x)\bigr)^{3/2}}

por (2δ)−3/2(2\delta)^{-3/2}, ambos integráveis no compacto [−π, π]\intcc{-\pi}\pi: a derivação sob o sinal de integral (Teorema 10.15) se aplica e dá τ′(E0)<0\tau'(E_0) < 0 (o integrando é estritamente negativo): estritamente decrescente, C1\mathcal C^1. Limites: quando E0→∞E_0 \to \infty, τ≤2π2(E0−1)→0\tau \leq \frac{2\pi}{\sqrt{2(E_0 - 1)}} \to 0; quando E0→1+E_0 \to 1^+: escreva E0+cos⁡x=(E0−1)+2cos⁡2x2E_0 + \cos x = (E_0 - 1) + 2\cos^2\frac x2; o integrando cresce quando E0E_0 decresce, de modo que, por convergência monótona,

τ(E0)  ↗  ∫−ππ ⁣dx2 ∣cos⁡x2∣=+∞,\tau(E_0) \;\nearrow\; \int_{-\pi}^{\pi}\frac{\dd x}{2\,\abs{\cos\frac x2}} = +\infty,

divergindo a integral limite em x=±πx = \pm\pi (ali ∣cos⁡x2∣∼∣x∓π∣2\abs{\cos\frac x2} \sim \frac{\abs{x \mp \pi}}2, um 1∣⋅∣\frac1{\abs\cdot} não integrável): o período explode ao se aproximar da separatriz, batendo com o T(a)→∞T(a) \to \infty da Parte II pelo lado das librações. O eixo da energia se lê: repouso em E0=−1E_0 = -1; librações, 2π↗∞2\pi \nearrow \infty, em (−1, 1)\intoo{-1}1; a separatriz infinitamente lenta em E0=1E_0 = 1; rotações, ∞↘0\infty \searrow 0, além. Uma integral, a vida inteira do pêndulo.

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