Mathematics · Livro 5 · Bachelor Year 3

Matemática universitária — Graduação 3

Matemática universitária — Graduação 3 · Bachelor Year 3

12Os espaços Lp

A integral de Lebesgue foi construída para a análise; os espaços LpL^p são onde essa análise vive. Eles são espaços de Banach (Riesz–Fischer) — os completamentos que o Exercício 7.1 mostrou faltarem às funções contínuas — e sustentam uma tecnologia de suavização, a convolução com aproximações da identidade, que aproxima qualquer função LpL^p por funções C∞\mathcal C^\infty. Este capítulo demonstra as versões integrais de Hölder e Minkowski, a completude, os teoremas de densidade e a máquina de regularização, encerrando com a geografia de inclusões e interpolações da escala LpL^p. Ao longo de todo o capítulo, (X,A,μ)(X, \mathcal A, \mu) é um espaço de medida e as funções tomam valores complexos; em Rd\R^d, a medida é λd\lambda_d.

12.1 Definição; Hölder e Minkowski

Definição 12.1

Para 1≤p<∞1 \leq p < \infty, Lp(μ)\mathcal L^p(\mu) é o conjunto das funções mensuráveis ff com ∥f∥p=(∫∣f∣p ⁣dμ)1/p<∞\norm f_p = \bigl(\int\abs f^p\dd\mu\bigr)^{1/p} < \infty, e L∞(μ)\mathcal L^\infty(\mu) é o conjunto das ff limitadas fora de um conjunto nulo, com ∥f∥∞\norm f_\infty o supremo essencial — o menor MM com ∣f∣≤M\abs f \leq M q.t.p. (o ínfimo é atingido: intersecte os conjuntos nulos para M+1nM + \frac1n). Como ∥f∥p=0\norm f_p = 0 apenas força f=0f = 0 q.t.p. (Exercício 10.5), definimos

Lp(μ)=Lp(μ)/{f=0 q.t.p.}:L^p(\mu) = \mathcal L^p(\mu)/\{f = 0 \text{ q.t.p.}\} :

seus elementos são classes de funções módulo conjuntos nulos, e ∥⋅∥p\norm\cdot_p é uma norma genuína em LpL^p.

Teorema 12.2 (Desigualdade de Hölder)

Sejam 1≤p,q≤∞1 \leq p, q \leq \infty com 1p+1q=1\frac1p + \frac1q = 1 (expoentes conjugados). Para f,gf, g mensuráveis:

∥fg∥1≤∥f∥p ∥g∥q,\norm{fg}_1 \leq \norm f_p\,\norm g_q ,

com igualdade (para 1<p<∞1 < p < \infty, normas finitas, f,g≠0f,g\ne0) se, e somente se, ∣f∣p\abs f^p e ∣g∣q\abs g^q são proporcionais q.t.p.

Demonstração. Os casos {p,q}={1,∞}\{p, q\} = \{1, \infty\} são diretos (∣fg∣≤∥g∥∞∣f∣\abs{fg} \leq \norm g_\infty\abs f q.t.p.). Seja 1<p<∞1 < p < \infty; normalize ∥f∥p=∥g∥q=1\norm f_p = \norm g_q = 1 (homogeneidade; normas nulas ou infinitas são triviais). A desigualdade de Young ab≤app+bqqab \leq \frac{a^p}p + \frac{b^q}q (a,b≥0a, b \geq 0; concavidade de ln⁡\ln, como no Problema 8.1) dá pontualmente ∣fg∣≤∣f∣pp+∣g∣qq\abs{f g} \leq \frac{\abs f^p}p + \frac{\abs g^q}q; integre: ∥fg∥1≤1p+1q=1\norm{fg}_1 \leq \frac1p + \frac1q = 1. A igualdade força a igualdade q.t.p. em Young, isto é, ∣f∣p=∣g∣q\abs f^p = \abs g^q q.t.p. (após a normalização; desfazendo-a, proporcionalidade). ∎

Teorema 12.3 (Desigualdade de Minkowski)

Para 1≤p≤∞1 \leq p \leq \infty: ∥f+g∥p≤∥f∥p+∥g∥p\norm{f + g}_p \leq \norm f_p + \norm g_p.

Demonstração. p=1,∞p = 1, \infty: desigualdade triangular pontual ou q.t.p. Para 1<p<∞1 < p < \infty, suponha ∥f+g∥p<∞\norm{f+g}_p < \infty (do contrário, use ∣f+g∣p≤2p−1(∣f∣p+∣g∣p)\abs{f+g}^p \leq 2^{p-1}(\abs f^p + \abs g^p), que vem da convexidade de tpt^p, para ver que o membro esquerdo é finito quando o direito o é). Então

∥f+g∥pp≤∫∣f∣ ∣f+g∣p−1+∫∣g∣ ∣f+g∣p−1≤(∥f∥p+∥g∥p) ∥∣f+g∣p−1∥q\norm{f{+}g}_p^p \leq \int\abs f\,\abs{f{+}g}^{p-1} + \int\abs g\,\abs{f{+}g}^{p-1} \leq \bigl(\norm f_p + \norm g_p\bigr)\, \bigl\|\abs{f{+}g}^{p-1}\bigr\|_q

por Hölder, e ∥∣f+g∣p−1∥q=∥f+g∥pp/q\norm{\abs{f+g}^{p-1}}_q = \norm{f+g}_p^{p/q} pois (p−1)q=p(p-1)q = p; divida por ∥f+g∥pp/q\norm{f+g}_p^{p/q} (se não for nulo; caso contrário é trivial) e use p−pq=1p - \frac pq = 1. ∎

12.2 Completude e suas companheiras

Teorema 12.4 (Riesz–Fischer)

Para 1≤p≤∞1 \leq p \leq \infty, Lp(μ)L^p(\mu) é um espaço de Banach. Além disso, toda sequência convergente em LpL^p tem uma subsequência que converge quase em toda parte (com um dominador LpL^p no caso p<∞p < \infty).

Demonstração. p=∞p = \infty: uma sequência de Cauchy para ∥⋅∥∞\norm\cdot_\infty é, fora de um único conjunto nulo (reunião de enumeráveis outros), uniformemente de Cauchy: ela converge uniformemente ali fora; pronto. Seja p<∞p < \infty. Pelo Exercício 7.1(b), basta somar séries absolutamente convergentes: seja ∑∥fk∥p=M<∞\sum\norm{f_k}_p = M < \infty. Ponha Gn=∑k≤n∣fk∣G_n = \sum_{k \leq n}\abs{f_k} e G=∑k∣fk∣G = \sum_k\abs{f_k} (pontualmente em [0,∞][0,\infty]): por Minkowski ∥Gn∥p≤M\norm{G_n}_p \leq M, e a convergência monótona (Gnp↗GpG_n^p \nearrow G^p) dá ∫Gp≤Mp\int G^p \leq M^p: G<∞G < \infty q.t.p., de modo que a série ∑fk(x)\sum f_k(x) converge absolutamente para q.t.p. xx; chame a soma de S(x)S(x) (com valor qualquer no conjunto nulo). Então ∣S−∑k≤nfk∣p≤(2G)p∈L1\abs{S - \sum_{k\leq n}f_k}^p \leq (2G)^p \in L^1, e a convergência dominada dá ∥S−∑k≤nfk∥p→0\norm{S - \sum_{k\leq n}f_k}_p \to 0: a série converge em LpL^p.

Quanto ao enunciado sobre subsequências: se fn→ff_n \to f em LpL^p, escolha nkn_k com ∥fnk+1−fnk∥p≤2−k\norm{f_{n_{k+1}} - f_{n_k}}_p \leq 2^{-k}; a série ∑(fnk+1−fnk)\sum(f_{n_{k+1}} - f_{n_k}) cai no argumento anterior: ela converge absolutamente q.t.p., dominada por um G∈LpG \in L^p, de modo que fnk→fn1+∑(⋯ )f_{n_k} \to f_{n_1} + \sum(\cdots) q.t.p., e esse limite q.t.p. tem de ser (um representante de) ff (ambos são limites LpL^p). O dominador: ∣fnk∣≤∣fn1∣+G\abs{f_{n_k}} \leq \abs{f_{n_1}} + G. ∎

Observação 12.5

A convergência em LpL^p não implica a convergência q.t.p. (a sequência máquina de escrever, Exercício 12.3), nem reciprocamente (ondas que fogem): os dois modos só se ligam por subsequências e dominação. Ter em mente os contraexemplos do Exercício 12.3 é a melhor vacina.

12.3 Teoremas de densidade

Teorema 12.6

Seja 1≤p<∞1 \leq p < \infty.

  1. As funções simples (com suportes de medida finita) são densas em Lp(μ)L^p(\mu).
  2. Em Lp(Rd)L^p(\R^d), as funções contínuas de suporte compacto Cc(Rd)\mathcal C_c(\R^d) são densas.
  3. A translação é contínua em Lp(Rd)L^p(\R^d): escrevendo τhf=f(⋅−h)\tau_hf = f(\cdot - h), ∥τhf−f∥p→0\norm{\tau_hf - f}_p \to 0 quando h→0h \to 0.

Nenhuma das três vale para p=∞p = \infty.

Demonstração. (1) Para f≥0f \geq 0: as sn↗fs_n \nearrow f diádicas do Teorema 10.4 satisfazem ∣f−sn∣p≤fp∈L1\abs{f - s_n}^p \leq f^p \in L^1: convergência dominada. (Cada sn≤fs_n \leq f está em LpL^p, e seus conjuntos de nível têm medida finita onde o valor é positivo: μ(sn≥c)≤c−p∫fp\mu(s_n \geq c) \leq c^{-p}\int f^p.) Separe uma ff geral em quatro partes não negativas.

(2) Por (1), basta aproximar 1A\mathbf 1_A, com AA boreliano e λd(A)<∞\lambda_d(A) < \infty. A regularidade (demonstração como no Teorema 9.13) dá K⊆A⊆UK \subseteq A \subseteq U compacto e aberto com λd(U∖K)<ε\lambda_d(U\setminus K) < \varepsilon; a função de Urysohn

φ(x)=d(x,Rd∖U)d(x,Rd∖U)+d(x,K)\varphi(x) = \frac{d(x, \R^d\setminus U)}{d(x, \R^d\setminus U) + d(x, K)}

é contínua, vale 11 em KK e 00 fora de UU, e pode ser tomada de suporte compacto (encolha primeiro UU a um aberto limitado). Então ∥1A−φ∥pp≤λd(U∖K)<ε\norm{\mathbf 1_A - \varphi}_p^p \leq \lambda_d(U\setminus K) < \varepsilon.

(3) Para g∈Ccg \in \mathcal C_c: a continuidade uniforme dá ∥τhg−g∥∞→0\norm{\tau_hg - g}_\infty \to 0, com suportes em um compacto fixo para ∣h∣≤1\abs h \leq 1: ∥τhg−g∥p→0\norm{\tau_hg - g}_p \to 0. Para ff geral: tome g∈Ccg \in \mathcal C_c com ∥f−g∥p<ε\norm{f - g}_p < \varepsilon; então ∥τhf−f∥p≤2∥f−g∥p+∥τhg−g∥p\norm{\tau_hf - f}_p \leq 2\norm{f - g}_p + \norm{\tau_hg - g}_p (invariância da norma por translação).

Para p=∞p = \infty: a aproximação uniforme de 1(0, ∞)\mathbf 1_{\intoo0\infty} por funções contínuas é impossível (o salto), e ∥τh1(0, ∞)−1(0, ∞)∥∞=1\norm{\tau_h\mathbf 1_{\intoo0\infty} - \mathbf 1_{\intoo0\infty}}_\infty = 1 para h≠0h \neq 0. ∎

12.4 Convolução e regularização

Teorema 12.7 (Desigualdade de Young)

Sejam 1≤p≤∞1 \leq p \leq \infty, f∈L1(Rd)f \in L^1(\R^d), g∈Lp(Rd)g \in L^p(\R^d). Então f∗gf * g está definida q.t.p., pertence a LpL^p e

∥f∗g∥p≤∥f∥1 ∥g∥p.\norm{f * g}_p \leq \norm f_1\,\norm g_p .

Demonstração. p=∞p = \infty: cota direta. p=1p = 1: Teorema 11.9. Sejam 1<p<∞1 < p < \infty e qq conjugado. Separe ∣f(y)∣=∣f(y)∣1/q⋅∣f(y)∣1/p\abs{f(y)} = \abs{f(y)}^{1/q}\cdot \abs{f(y)}^{1/p} e aplique Hölder:

∫∣f(y)∣ ∣g(x−y)∣  ⁣dy≤(∫∣f∣)1/q(∫∣f(y)∣ ∣g(x−y)∣p  ⁣dy)1/p.\int\abs{f(y)}\,\abs{g(x{-}y)}\,\dd y \leq \Bigl(\int\abs f\Bigr)^{1/q} \Bigl(\int\abs{f(y)}\,\abs{g(x - y)}^p\,\dd y\Bigr)^{1/p} .

Eleve à pp-ésima potência e integre em xx; Tonelli no segundo fator dá ∥f∥1p/q⋅∥f∥1∥g∥pp\norm f_1^{p/q}\cdot\norm f_1\norm g_p^p, isto é, ∥f∗g∥pp≤∥f∥11+p/q∥g∥pp=(∥f∥1∥g∥p)p\norm{f*g}_p^p \leq \norm f_1^{1 + p/q}\norm g_p^p = (\norm f_1\norm g_p)^p — e a finitude da integral de Tonelli justifica a convergência absoluta q.t.p., como no Teorema 11.9. ∎

Definição 12.8 (Aproximações da identidade)

A função

ρ(x)={c exp⁡(−11−∥x∥2)∥x∥<1,0∥x∥≥1,\rho(x) = \begin{cases} c\,\exp\Bigl(-\dfrac{1}{1 - \norm x^2}\Bigr) & \norm x < 1,\\ 0 & \norm x \geq 1, \end{cases}

com cc normalizando ∫ρ=1\int\rho = 1, é C∞\mathcal C^\infty em Rd\R^d: o ponto é que t↦e−1/t1t>0t \mapsto \eu^{-1/t}\mathbf 1_{t>0} é C∞\mathcal C^\infty em R\R, com todas as derivadas em 0+0^+ iguais a 00 (cada derivada é P(1/t)e−1/tP(1/t)\eu^{-1/t} para um polinômio PP, e isso tende a 00; indução). Para ε>0\varepsilon > 0, ponha ρε(x)=ε−dρ(x/ε)\rho_\varepsilon(x) = \varepsilon^{-d}\rho(x/\varepsilon): com suporte em Bˉ(0,ε)\bar B(0, \varepsilon) e ainda de integral 11.

Teorema 12.9 (Regularização)

Sejam 1≤p<∞1 \leq p < \infty e f∈Lp(Rd)f \in L^p(\R^d). Então:

  1. f∗ρε∈C∞(Rd)f * \rho_\varepsilon \in \mathcal C^\infty(\R^d), com ∂α(f∗ρε)=f∗∂αρε\partial^\alpha(f * \rho_\varepsilon) = f * \partial^\alpha\rho_\varepsilon;
  2. ∥f∗ρε−f∥p→0\norm{f * \rho_\varepsilon - f}_p \to 0 quando ε→0\varepsilon \to 0;
  3. consequentemente, Cc∞(Rd)\mathcal C^\infty_c(\R^d) é denso em Lp(Rd)L^p(\R^d).

Demonstração. (1) Derivação sob o sinal de integral (Teorema 10.15) em xx: para xx em uma bola BB, ∣∂xiρε(x−y)∣≤Cε 1K(y)\abs{\partial_{x_i}\rho_\varepsilon(x - y)} \leq C_\varepsilon\,\mathbf 1_{K}(y) com KK compacto (yy a distância no máximo ε\varepsilon de BB), e ∣f∣ 1K∈L1\abs f\,\mathbf 1_K \in L^1 (Hölder contra 1K\mathbf 1_K): o teorema se aplica; itere para as derivadas de ordem superior.

(2) Como ∫ρε=1\int\rho_\varepsilon = 1:

(f∗ρε)(x)−f(x)=∫(f(x−y)−f(x))ρε(y)  ⁣dy,(f * \rho_\varepsilon)(x) - f(x) = \int \bigl(f(x - y) - f(x)\bigr)\rho_\varepsilon(y)\,\dd y ,

e a desigualdade integral de Minkowski — ou, diretamente, Hölder/Jensen com a medida de probabilidade ρε ⁣dy\rho_\varepsilon\dd y e Tonelli —

∥f∗ρε−f∥pp≤∫(∫∣f(x−y)−f(x)∣p ⁣dx)ρε(y)  ⁣dy=∫∥τyf−f∥pp  ρε(y)  ⁣dy\norm{f*\rho_\varepsilon - f}_p^p \leq \int\Bigl(\int\abs{f(x-y) - f(x)}^p\dd x\Bigr)\rho_\varepsilon(y)\,\dd y = \int \norm{\tau_yf - f}_p^p\;\rho_\varepsilon(y)\,\dd y

(a etapa do meio: aplique a desigualdade de Jensen, Exercício 12.10, à integral interna em yy e, depois, Tonelli). O integrando tem suporte em ∥y∥≤ε\norm y \leq \varepsilon e tende ali a 00 uniformemente quando ε→0\varepsilon \to 0 (Teorema 12.6(3)): a expressão inteira tende a 00.

(3) Aproxime ff por g∈Ccg \in \mathcal C_c (Teorema 12.6(2)) e, depois, gg por g∗ρε∈Cc∞g * \rho_\varepsilon \in \mathcal C_c^\infty (suporte compacto: soma dos suportes). ∎

Exemplo 12.10 (Regularizando ∣x∣\abs x, com taxas)

Tome f(x)=∣x∣f(x) = \abs x em R\R (localmente L1L^1; o teorema se aplica em toda janela limitada) e uma aproximação da identidade simétrica ρε\rho_\varepsilon. Então

fε(x)=(f∗ρε)(x)=∫∣x−y∣ ρε(y)  ⁣dyf_\varepsilon(x) = (f * \rho_\varepsilon)(x) = \int\abs{x - y}\,\rho_\varepsilon(y)\,\dd y

é C∞\mathcal C^\infty; longe do bico, nada acontece: para ∣x∣≥ε\abs x \geq \varepsilon, ∣x−y∣\abs{x - y} é linear em xx no suporte de ρε\rho_\varepsilon, de modo que fε(x)=∣x∣f_\varepsilon(x) = \abs x exatamente (a simetria mata a correção). Perto de 00, a suavização custa precisamente

0≤fε(0)=∫∣y∣ ρε(y)  ⁣dy≤ε,∥fε−f∥∞≤ε:0 \leq f_\varepsilon(0) = \int\abs y\,\rho_\varepsilon(y)\,\dd y \leq \varepsilon, \qquad \norm{f_\varepsilon - f}_\infty \leq \varepsilon :

o erro de aproximação fica confinado à vizinhança de raio ε\varepsilon da singularidade e é da ordem dela. Enquanto isso, fε′′≥0f_\varepsilon'' \geq 0 em toda parte (ff é convexa, e a convolução com ρε≥0\rho_\varepsilon \geq 0 preserva a convexidade), com ∫fε′′=fε′(∞)−fε′(−∞)=2\int f_\varepsilon'' = f_\varepsilon'(\infty) - f_\varepsilon'(-\infty) = 2: a segunda derivada é uma onda de massa 22 espremida em largura O(ε)O(\varepsilon), de modo que ∥fε′′∥∞≳ε−1\norm{f_\varepsilon''}_\infty \gtrsim \varepsilon^{-1}. Suavizar é uma troca: erro uniforme O(ε)O(\varepsilon) contra explosão da derivada O(ε−1)O(\varepsilon^{-1}) — exatamente a taxa de câmbio que a análise quantitativa (desigualdades de interpolação, o círculo de ideias do Problema 12.1) formaliza.

Corolário 12.11 (Lema fundamental do cálculo das variações)

Seja f∈Lloc1(Rd)f \in L^1_{\mathrm{loc}}(\R^d) (integrável nos compactos) com ∫fφ=0\int f\varphi = 0 para toda φ∈Cc∞(Rd)\varphi \in \mathcal C^\infty_c(\R^d). Então f=0f = 0 q.t.p.

Demonstração. Fixe uma bola B=B(0,R)B = B(0, R) e ponha g=f1B(0,R+1)∈L1g = f\mathbf 1_{B(0, R+1)} \in L^1. Para x∈Bx \in B e ε<1\varepsilon < 1: (g∗ρε)(x)=∫f(y)ρε(x−y) ⁣dy=0(g * \rho_\varepsilon)(x) = \int f(y)\rho_\varepsilon(x - y)\dd y = 0, sendo a função de teste y↦ρε(x−y)∈Cc∞y \mapsto \rho_\varepsilon(x-y) \in \mathcal C_c^\infty. Mas g∗ρε→gg * \rho_\varepsilon \to g em L1L^1 (Teorema 12.9): g=0g = 0 q.t.p. em BB; exaura Rd\R^d. ∎

12.5 A geografia dos LpL^p

Proposição 12.12

(a) Se μ(X)<∞\mu(X) < \infty e 1≤p≤q≤∞1 \leq p \leq q \leq \infty, então Lq⊆LpL^q \subseteq L^p com ∥f∥p≤μ(X)1p−1q ∥f∥q\norm f_p \leq \mu(X)^{\frac1p - \frac1q}\,\norm f_q. (b) Em Rd\R^d (medida infinita) não há inclusão alguma: para p≠qp \neq q existem funções em Lp∖LqL^p\setminus L^q. (c) (Interpolação) Se p<r<qp < r < q e α∈(0, 1)\alpha \in \intoo01 é definido por 1r=αp+1−αq\frac1r = \frac\alpha p + \frac{1 - \alpha}q, então

∥f∥r≤∥f∥pα ∥f∥q1−α;\norm f_r \leq \norm f_p^{\alpha}\,\norm f_q^{1 - \alpha} ;

em particular, Lp∩Lq⊆LrL^p \cap L^q \subseteq L^r.

Demonstração. (a) Hölder com os expoentes qp\frac qp e seu conjugado: ∫∣f∣p⋅1≤∥∣f∣p∥q/p ∥1∥(q/p)′=∥f∥qp μ(X)1−p/q\int\abs f^p\cdot 1 \leq \norm{\abs f^p}_{q/p}\,\norm 1_{(q/p)'} = \norm f_q^p\,\mu(X)^{1 - p/q} (q=∞q = \infty diretamente). (b) Perto de 00 e perto de ∞\infty, as potências x−αx^{-\alpha} calibram: Exercício 12.2. (c) Escreva ∣f∣r=∣f∣rα∣f∣r(1−α)\abs f^r = \abs f^{r\alpha}\abs f^{r(1-\alpha)} e aplique Hölder com o par conjugado prα\frac p{r\alpha}, qr(1−α)\frac q{r(1-\alpha)} (conjugados precisamente pela definição de α\alpha): ∫∣f∣r≤∥f∥prα∥f∥qr(1−α)\int\abs f^r \leq \norm f_p^{r\alpha}\norm f_q^{r(1 - \alpha)}. ∎

Método 12.13

A caixa de ferramentas LpL^p, tal como usada em tudo o que segue: para demonstrar uma identidade ou desigualdade para todo f∈Lpf \in L^p — demonstre-a em uma classe densa (Cc∞\mathcal C_c^\infty, via o Teorema 12.9) e estenda por continuidade (Teorema 7.2, sendo ambos os lados contínuos em LpL^p); para demonstrar que f=0f = 0, teste contra Cc∞\mathcal C_c^\infty (Corolário 12.11); para ganhar regularidade, convolua; para trocar expoentes, Hölder e interpolação. A teoria de Fourier do Capítulo 14 é uma longa aplicação desse método.

12.6 Exercícios

Exercício 12.1 ★

(a) Enuncie e demonstre a desigualdade de Cauchy–Schwarz em L2(μ)L^2(\mu) como o caso p=q=2p = q = 2 de Hölder. (b) Em um espaço de probabilidade, mostre que p↦∥f∥pp \mapsto \norm f_p é não decrescente. (c) Quando Hölder é uma igualdade para p=1p = 1, q=∞q = \infty?

Solução

Solução de Exercício 12.1.

(a) p=q=2p = q = 2 no Teorema 12.2: ∣∫fgˉ  ⁣dμ∣≤∫∣fg∣≤∥f∥2∥g∥2\abs{\int f\bar g\,\dd\mu} \leq \int\abs{fg} \leq \norm f_2\norm g_2 — Cauchy–Schwarz, com igualdade se, e somente se, ∣f∣,∣g∣\abs f, \abs g são proporcionais e as fases estão alinhadas.

(b) Num espaço de probabilidade, para p≤qp \leq q: aplique Jensen (Exercício 12.10) com a convexa Φ(t)=∣t∣q/p\Phi(t) = \abs t^{q/p} à função ∣f∣p\abs f^p: (∫∣f∣p)q/p≤∫∣f∣q\bigl(\int\abs f^p\bigr)^{q/p} \leq \int\abs f^q, isto é, ∥f∥p≤∥f∥q\norm f_p \leq \norm f_q.

(c) ∫∣fg∣=∥f∥1∥g∥∞\int\abs{fg} = \norm f_1\norm g_\infty se, e somente se, ∣g∣=∥g∥∞\abs{g} = \norm g_\infty q.t.p. em {f≠0}\{f \neq 0\} (a desigualdade ∣fg∣≤∣f∣∥g∥∞\abs{fg} \leq \abs f\norm g_\infty deve ser uma igualdade q.t.p.).

Exercício 12.2 ★

Para quais p∈[1, ∞)p \in \intco1\infty as funções seguintes pertencem a LpL^p?

x−1/21(0, 1),x−1/21(1, ∞),1x1/2(1+∣ln⁡x∣) em (0, 1),11+∣x∣ em R.x^{-1/2}\mathbf 1_{\intoo01},\qquad x^{-1/2}\mathbf 1_{\intoo1\infty},\qquad \frac{1}{x^{1/2}(1 + \abs{\ln x})}\ \text{em } \intoo01, \qquad \frac1{1 + \abs x}\ \text{em } \R .

Conclua: em (0, 1)\intoo01, pp pequeno é mais fácil; em (1, ∞)\intoo1\infty, pp grande é mais fácil; e nenhum LpL^p contém outro em R\R.

Solução

Solução de Exercício 12.2.

∫01x−p/2 ⁣dx<∞\int_0^1 x^{-p/2}\dd x < \infty se, e somente se, p<2p < 2: a primeira está em LpL^p para p∈[1, 2)p \in \intco12. ∫1∞x−p/2 ⁣dx<∞\int_1^\infty x^{-p/2}\dd x < \infty se, e somente se, p>2p > 2: a segunda para p∈(2, ∞)p \in \intoo2\infty (e p=∞p = \infty: ela é limitada — inclua-o). Terceira: para p<2p < 2, dominada por x−p/2x^{-p/2}: integrável; para p=2p = 2, substitua u=−ln⁡xu = -\ln x: ∫01 ⁣dxx(1+∣ln⁡x∣)2=∫0∞ ⁣du(1+u)2<∞\int_0^1\frac{\dd x}{x(1 + \abs{\ln x})^2} = \int_0^\infty\frac{\dd u}{(1 + u)^2} < \infty; para p>2p > 2 a potência domina: divergente. Logo p∈[1, 2]p \in \intcc12. Quarta: ∫R ⁣dx(1+∣x∣)p<∞\int_\R\frac{\dd x}{(1 + \abs x)^p} < \infty se, e somente se, p>1p > 1; limitada, de modo que também L∞L^\infty: p∈(1, ∞]p \in \intoc1\infty. Moral: a integrabilidade em 00 gosta de pp pequeno, e em ∞\infty de pp grande; combinando os dois obstáculos, não há inclusão entre os espaços Lp(R)L^p(\R).

Exercício 12.3 ★★

(A máquina de escrever) Enumere os intervalos diádicos I1=[0, 1]I_1 = \intcc01, I2=[0, 12]I_2 = \intcc0{\frac12}, I3=[12, 1]I_3 = \intcc{\frac12}1, I4=[0, 14]I_4 = \intcc0{\frac14}, … e ponha fn=1Inf_n = \mathbf 1_{I_n}. (a) Mostre que fn→0f_n \to 0 em todo Lp([0, 1])L^p(\intcc01), p<∞p < \infty, mas que (fn(x))(f_n(x)) diverge para todo x∈[0, 1]x \in \intcc01. (b) Exiba a subsequência convergente q.t.p. prometida pelo Teorema 12.4. (c) Reciprocamente, dê uma sequência que converge q.t.p. mas não em L1L^1, e outra que converge em L1L^1 mas em nenhum LpL^p com p>1p > 1.

Solução

Solução de Exercício 12.3.

(a) ∥fn∥pp=λ(In)→0\norm{f_n}_p^p = \lambda(I_n) \to 0 (no nível diádico kk o comprimento é 2−k2^{-k}). Mas todo xx está num intervalo de cada nível diádico: fn(x)=1f_n(x) = 1 uma infinidade de vezes e =0= 0 uma infinidade de vezes (intervalos do mesmo nível que não contêm xx): nenhuma convergência em ponto algum.

(b) fnk=1[0, 2−k]f_{n_k} = \mathbf 1_{\intcc0{2^{-k}}} (o primeiro intervalo de cada nível) converge a 00 em todo x>0x > 0: q.t.p.

(c) q.t.p. mas não em L1L^1: n1(0, 1/n)→0n\mathbf 1_{\intoo0{1/n}} \to 0 q.t.p., de integral 11. Em L1L^1, mas em nenhum LpL^p (p>1p > 1): gn=en 1(0, e−n/n)g_n = \eu^n\,\mathbf 1_{(0,\ \eu^{-n}/n)}: ∥gn∥1=1n→0\norm{g_n}_1 = \frac1n \to 0, ao passo que ∥gn∥pp=e(p−1)n/n→∞\norm{g_n}_p^p = \eu^{(p-1)n}/n \to \infty para todo p>1p > 1.

Exercício 12.4 ★★

Sejam μ(X)<∞\mu(X) < \infty e f∈L∞(μ)f \in L^\infty(\mu), f≠0f \neq 0. Mostre que ∥f∥p→∥f∥∞\norm f_p \to \norm f_\infty quando p→∞p \to \infty. (Cota superior por (a) da Proposição 12.12; cota inferior integrando em {∣f∣>∥f∥∞−ε}\{\abs f > \norm f_\infty - \varepsilon\}, de medida positiva.)

Solução

Solução de Exercício 12.4.

Superior: ∥f∥p≤μ(X)1/p∥f∥∞\norm f_p \leq \mu(X)^{1/p}\norm f_\infty (Proposição 12.12(a) com q=∞q = \infty), e μ(X)1/p→1\mu(X)^{1/p} \to 1. Inferior: para ε>0\varepsilon > 0, A={∣f∣>∥f∥∞−ε}A = \{\abs f > \norm f_\infty - \varepsilon\} tem μ(A)>0\mu(A) > 0 (definição do sup essencial), e

∥f∥p≥(∫A∣f∣p)1/p≥(∥f∥∞−ε) μ(A)1/p→p→∞∥f∥∞−ε.\norm f_p \geq \Bigl(\int_A \abs f^p\Bigr)^{1/p} \geq (\norm f_\infty - \varepsilon)\,\mu(A)^{1/p} \xrightarrow[p\to\infty]{} \norm f_\infty - \varepsilon .

Exercício 12.5 ★★

(a) Onde exatamente a demonstração do Teorema 12.6(3) usa p<∞p < \infty? (b) Mostre que f∈L∞(R)f \in L^\infty(\R) satisfaz ∥τhf−f∥∞→0\norm{\tau_hf - f}_\infty \to 0 se, e somente se, ff tem um representante uniformemente contínuo.

Solução

Solução de Exercício 12.5.

(a) Duas vezes: a conversão ∥τhg−g∥p≤C1/p∥τhg−g∥∞\norm{\tau_hg - g}_p \leq C^{1/p}\norm{\tau_hg - g}_\infty (suporte de medida finita) degenera para p=∞p = \infty apenas no fato de que ali falha a densidade de Cc\mathcal C_c — essa é a lacuna real: o passo (2) do Teorema 12.6 não tem análogo L∞L^\infty.

(b) Se ff tem um representante uniformemente contínuo gg: ∥τhf−f∥∞=sup⁡x∣g(x−h)−g(x)∣→0\norm{\tau_hf - f}_\infty = \sup_x\abs{g(x - h) - g(x)} \to 0. Reciprocamente, suponha ∥τhf−f∥∞→0\norm{\tau_hf - f}_\infty \to 0. As regularizações fε=f∗ρεf_\varepsilon = f * \rho_\varepsilon são contínuas, e

∥fε−f∥∞≤sup⁡∥y∥≤ε∥τyf−f∥∞⟶0\norm{f_\varepsilon - f}_\infty \leq \sup_{\norm y \leq \varepsilon}\norm{\tau_yf - f}_\infty \longrightarrow 0

(a convolução é uma média de transladados). Cada fεf_\varepsilon é uniformemente contínua (∥τhfε−fε∥∞≤∥τhf−f∥∞\norm{\tau_hf_\varepsilon - f_\varepsilon}_\infty \leq \norm{\tau_hf - f}_\infty, por média), e um limite uniforme de funções uniformemente contínuas é uniformemente contínuo: ff coincide q.t.p. com uma função uniformemente contínua.

Exercício 12.6 ★★

Sejam p,qp, q conjugados, f∈Lp(Rd)f \in L^p(\R^d), g∈Lq(Rd)g \in L^q(\R^d). Mostre que f∗gf * g está definida em toda parte, é limitada, com ∥f∗g∥∞≤∥f∥p∥g∥q\norm{f*g}_\infty \leq \norm f_p\norm g_q, e uniformemente contínua. (Continuidade da translação em LpL^p; trate p∈{1,∞}p \in \{1, \infty\} à parte — para p=∞p = \infty, use a continuidade da translação no fator L1L^1.)

Solução

Solução de Exercício 12.6.

Por Hölder, para todo xx o integrando y↦f(x−y)g(y)y \mapsto f(x - y)g(y) está em L1L^1 com ∣(f∗g)(x)∣≤∥f∥p∥g∥q\abs{(f*g)(x)} \leq \norm f_p\norm g_q: definida em toda parte e limitada. Continuidade uniforme (p<∞p < \infty):

∣(f∗g)(x+h)−(f∗g)(x)∣=∣∫(τ−hf−f)(x−y) g(y) ⁣dy∣≤∥τ−hf−f∥p ∥g∥q→h→00,\abs{(f*g)(x + h) - (f*g)(x)} = \Bigl|\int\bigl(\tau_{-h}f - f\bigr)(x - y)\,g(y)\dd y\Bigr| \leq \norm{\tau_{-h}f - f}_p\,\norm g_q \xrightarrow[h\to0]{} 0,

uniformemente em xx (Teorema 12.6(3)). Se p=∞p = \infty, então q=1q = 1: escreva f∗g=g∗ff * g = g * f e repita a mesma cota com a translação agindo em g∈L1g \in L^1.

Exercício 12.7 ★★

Seja f∈Lloc1((a, b))f \in L^1_{\mathrm{loc}}(\intoo ab) com ∫fφ′=0\int f\varphi' = 0 para toda φ∈Cc∞((a, b))\varphi \in \mathcal C^\infty_c(\intoo ab). Mostre que ff é q.t.p. igual a uma constante. (Fixe χ∈Cc∞\chi \in \mathcal C_c^\infty com ∫χ=1\int\chi = 1; toda ψ∈Cc∞\psi \in \mathcal C_c^\infty com ∫ψ=0\int\psi = 0 é uma φ′\varphi'; escreva uma função de teste geral como ψ+(∫ψ)χ\psi + (\int\psi)\chi e aplique o Corolário 12.11 a f−cf - c com c=∫fχc = \int f\chi.)

Solução

Solução de Exercício 12.7.

Fixe χ∈Cc∞((a, b))\chi \in \mathcal C_c^\infty(\intoo ab) com ∫χ=1\int\chi = 1 e ponha c=∫fχc = \int f\chi. Seja φ∈Cc∞\varphi \in \mathcal C_c^\infty arbitrária e ψ=φ−(∫φ)χ\psi = \varphi - \bigl(\int\varphi\bigr)\chi: então ∫ψ=0\int\psi = 0, de modo que Φ(x)=∫axψ\Phi(x) = \int_a^x\psi define Φ∈Cc∞((a, b))\Phi \in \mathcal C_c^\infty(\intoo ab) (ela se anula perto dos dois extremos: perto de aa trivialmente, perto de bb porque a integral total é 00) com Φ′=ψ\Phi' = \psi. A hipótese dá ∫fψ=∫fΦ′=0\int f\psi = \int f\Phi' = 0, logo

∫fφ=(∫φ)∫fχ=∫c φpara todo φ:∫(f−c)φ=0.\int f\varphi = \Bigl(\int\varphi\Bigr)\int f\chi = \int c\,\varphi \quad\text{para todo } \varphi: \qquad \int(f - c)\varphi = 0 .

Pelo Corolário 12.11 (localizado em (a, b)\intoo ab), f=cf = c q.t.p.

Exercício 12.8 ★★★

(Urysohn suave) Sejam K⊆U⊆RdK \subseteq U \subseteq \R^d, com KK compacto e UU aberto. Construa φ∈Cc∞(Rd)\varphi \in \mathcal C^\infty_c(\R^d) com 0≤φ≤10 \leq \varphi \leq 1, φ=1\varphi = 1 em KK, supp⁡φ⊆U\operatorname{supp}\varphi \subseteq U. (Regularize a indicadora da vizinhança de raio δ\delta, KδK_\delta, de KK com ρδ/2\rho_{\delta/2}, para δ\delta pequeno.) Deduza um enunciado de partição da unidade C∞\mathcal C^\infty para um compacto coberto por finitos abertos.

Solução

Solução de Exercício 12.8.

Seja 3δ<d(K,Rd∖U)3\delta < d(K, \R^d\setminus U) (positivo: Exercício 6.6(b); se U=RdU = \R^d, qualquer δ\delta serve), Kδ={x:d(x,K)≤δ}K_\delta = \{x : d(x, K) \leq \delta\}, e

φ=1Kδ∗ρδ/2.\varphi = \mathbf 1_{K_\delta} * \rho_{\delta/2} .

Então φ∈C∞\varphi \in \mathcal C^\infty (Teorema 12.9(1); a indicadora é L1L^1), 0≤φ≤10 \leq \varphi \leq 1 (∫ρ=1\int\rho = 1), φ=1\varphi = 1 em KK (para x∈Kx \in K, Bˉ(x,δ/2)⊆Kδ\bar B(x, \delta/2) \subseteq K_\delta, de modo que a convolução integra ρ\rho por inteiro) e supp⁡φ⊆K3δ/2⊆U\operatorname{supp}\varphi \subseteq K_{3\delta/2} \subseteq U: com suporte compacto (KδK_\delta é limitado). Partição da unidade: dado K⊆U1∪⋯∪UmK \subseteq U_1\cup\dots\cup U_m, escolha (por compacidade) compactos Ki⊆UiK_i \subseteq U_i com K⊆⋃K˚iK \subseteq \bigcup \mathring K_i, tome φi\varphi_i como acima para (Ki,Ui)(K_i, U_i) e ponha ψi=φi∏j<i(1−φj)\psi_i = \varphi_i\prod_{j <i}(1 - \varphi_j): cada ψi∈Cc∞(Ui)\psi_i \in \mathcal C_c^\infty(U_i), e ∑iψi=1−∏i(1−φi)=1\sum_i\psi_i = 1 - \prod_i(1 - \varphi_i) = 1 em KK.

Exercício 12.9 ★★

Usando a interpolação (Proposição 12.12(c)): (a) mostre que L1(R)∩L∞(R)⊆Lp(R)L^1(\R)\cap L^\infty(\R) \subseteq L^p(\R) para todo pp, com ∥f∥p≤∥f∥11/p∥f∥∞1−1/p\norm f_p \leq \norm f_1^{1/p}\norm f_\infty^{1 - 1/p}; (b) mostre que f↦∥f∥pf \mapsto \norm f_p é, para ff fixada, log-convexa em 1p\frac1p, e dê um exemplo em que f∈Lpf \in L^p exatamente para pp em um intervalo dado (p0,p1)(p_0, p_1).

Solução

Solução de Exercício 12.9.

(a) O expoente de interpolação para (p0,q0)=(1,∞)(p_0, q_0) = (1, \infty) em r=pr = p é α=1p\alpha = \frac1p: a Proposição 12.12(c) dá ∥f∥p≤∥f∥11/p∥f∥∞1−1/p\norm f_p \leq \norm f_1^{1/p}\norm f_\infty^{1 - 1/p}.

(b) Tomando logaritmos na Proposição 12.12(c): ln⁡∥f∥r≤αln⁡∥f∥p+(1−α)ln⁡∥f∥q\ln\norm f_r \leq \alpha\ln\norm f_p + (1-\alpha)\ln\norm f_q, em que 1r\frac1r é a mesma combinação convexa de 1p,1q\frac1p, \frac1q: 1p↦ln⁡∥f∥p\frac1p \mapsto \ln\norm f_p é convexa. Exemplo com pertencimento a LpL^p exatamente em (p0, p1)\intoo{p_0}{p_1}:

f(x)=x−1/p1 1(0, 1)(x)+x−1/p0 1[1, ∞)(x):f(x) = x^{-1/p_1}\,\mathbf 1_{\intoo01}(x) + x^{-1/p_0}\,\mathbf 1_{\intco1\infty}(x):

o primeiro termo é LpL^p se, e somente se, p<p1p < p_1, e o segundo se, e somente se, p>p0p > p_0.

Exercício 12.10 ★★

(Jensen) Sejam μ\mu uma medida de probabilidade, f∈L1(μ)f \in L^1(\mu) real e Φ ⁣:R→R\Phi \colon \R \to \R convexa. Mostre que

Φ(∫f  ⁣dμ)≤∫Φ∘f  ⁣dμ\Phi\Bigl(\int f\,\dd\mu\Bigr) \leq \int \Phi\circ f\,\dd\mu

(reta de suporte de Φ\Phi no ponto m=∫fm = \int f). Deduza a desigualdade entre as médias aritmética e geométrica e a monotonicidade de p↦∥f∥pp \mapsto \norm f_p do Exercício 12.1(b).

Solução

Solução de Exercício 12.10.

Seja m=∫f  ⁣dμ∈Rm = \int f\,\dd\mu \in \R. A convexidade fornece uma reta de suporte em mm: existe ss com Φ(t)≥Φ(m)+s(t−m)\Phi(t) \geq \Phi(m) + s(t - m) para todo tt (tome ss entre as derivadas laterais, que existem para funções convexas). Substitua t=f(x)t = f(x) e integre contra a probabilidade μ\mu:

∫Φ∘f  ⁣dμ≥Φ(m)+s(∫f−m)=Φ(∫f  ⁣dμ)\int\Phi\circ f\,\dd\mu \geq \Phi(m) + s\Bigl(\int f - m\Bigr) = \Phi\Bigl(\int f\,\dd\mu\Bigr)

(mensurabilidade: Φ\Phi é contínua; a integrabilidade da parte negativa de Φ∘f\Phi\circ f é garantida pela reta de suporte). MA–MG: num conjunto finito com pesos wiw_i, tome Φ=exp⁡\Phi = \exp e f=∑(ln⁡ai)1if = \sum(\ln a_i)\mathbf 1_i: exp⁡(∑wiln⁡ai)≤∑wiai\exp\bigl(\sum w_i\ln a_i\bigr) \leq \sum w_ia_i, isto é, ∏aiwi≤∑wiai\prod a_i^{w_i} \leq \sum w_ia_i. A monotonicidade das normas é o Exercício 12.1(b).

Exercício 12.11 ★★★

(Desigualdade de Young para a convolução) Sejam 1≤p,q,r≤∞1 \leq p, q, r \leq \infty com 1p+1q=1+1r\frac1p + \frac1q = 1 + \frac1r, e f∈Lp(Rd)f \in L^p(\R^d), g∈Lq(Rd)g \in L^q(\R^d). (a) Demonstre ∥f∗g∥r≤∥f∥p ∥g∥q\norm{f * g}_r \leq \norm f_p\,\norm g_q. (Escreva, para expoentes conjugados deduzidos de p,q,rp, q, r, ∣f(y)g(x−y)∣=(∣f∣p∣g∣q)1/r⋅∣f∣ p(1/p−1/r)⋅∣g∣ q(1/q−1/r),\abs{f(y)g(x-y)} = \bigl(\abs f^p\abs g^q\bigr)^{1/r} \cdot\abs f^{\,p(1/p - 1/r)}\cdot\abs g^{\,q(1/q - 1/r)}, e aplique a desigualdade de Hölder com três fatores, de expoentes rr, prr−p\frac{pr}{r - p}, qrr−q\frac{qr}{r - q}; depois integre em xx por Tonelli.) (b) Confira os três casos particulares já conhecidos: r=∞r = \infty (Hölder, Exercício 12.6); q=1q = 1 (estabilidade LpL^p da convolução por um núcleo integrável); p=q=1p = q = 1 (L1L^1 é uma álgebra de convolução, Teorema 11.9). (c) Por que não há desigualdade com 1p+1q<1+1r\frac1p + \frac1q < 1 + \frac1r? (Teste em dilatações fλ(x)=f(λx)f_\lambda(x) = f(\lambda x) e compare os reescalamentos dos dois lados.)

Solução

Solução de Exercício 12.11.

(a) Suponha primeiro p,q,r<∞p, q, r < \infty e f,g≥0f, g \geq 0 (substitua pelos valores absolutos). Os três expoentes rr, α=prr−p\alpha = \frac{pr}{r-p}, β=qrr−q\beta = \frac{qr}{r-q} satisfazem 1r+1α+1β=1r+1p−1r+1q−1r=1\frac1r + \frac1\alpha + \frac1\beta = \frac1r + \frac1p - \frac1r + \frac1q - \frac1r = 1 (a relação de escala). Reparta, para xx fixo,

f(y)g(x−y)=[f(y)pg(x−y)q]1/r⋅f(y)1−p/r⋅g(x−y)1−q/r,f(y)g(x-y) = \bigl[f(y)^pg(x-y)^q\bigr]^{1/r}\cdot f(y)^{1 - p/r}\cdot g(x-y)^{1 - q/r},

e Hölder com os três expoentes dá

(f∗g)(x)≤(∫fpg(x−⋅)q)1/r∥f∥p p/α⋅α/p⋯(f*g)(x) \leq \Bigl(\int f^pg(x-\cdot)^q\Bigr)^{1/r} \norm f_p^{\,p/\alpha\cdot\alpha/p}\cdots

mais precisamente: o segundo fator é (∫f(1−p/r)α)1/α=∥f∥pp(1/p−1/r)\bigl(\int f^{(1-p/r)\alpha}\bigr)^{1/\alpha} = \norm f_p^{p(1/p - 1/r)}, pois (1−pr)α=p(1 - \frac pr)\alpha = p, e do mesmo modo o terceiro é ∥g∥qq(1/q−1/r)\norm g_q^{q(1/q - 1/r)}. Eleve à rr-ésima potência e integre em xx (Tonelli no primeiro fator):

∥f∗g∥rr≤∥f∥pp ∥g∥qq⋅∥f∥p rp(1/p−1/r) ∥g∥q rq(1/q−1/r)=∥f∥pr ∥g∥qr.\norm{f*g}_r^r \leq \norm f_p^p\,\norm g_q^q\cdot \norm f_p^{\,rp(1/p - 1/r)}\,\norm g_q^{\,rq(1/q - 1/r)} = \norm f_p^r\,\norm g_q^r .

Os casos extremos (r=∞r = \infty ou um expoente igual a sua cota) são Hölder puro ou estimativas diretas.

(b) r=∞r = \infty força q=p′q = p': ∣f∗g(x)∣≤∥f∥p∥g∥p′\abs{f*g(x)} \leq \norm f_p\norm g_{p'} — Hölder após translação e reflexão. q=1q = 1 dá r=pr = p: ∥f∗g∥p≤∥g∥1∥f∥p\norm{f*g}_p \leq \norm g_1\norm f_p, o burro de carga da regularização (o motor do Teorema 12.9). p=q=1p = q = 1 dá r=1r = 1: a álgebra de convolução (Teorema 11.9).

(c) Substitua f,gf, g por fλ=f(λ⋅)f_\lambda = f(\lambda\cdot), gλ=g(λ⋅)g_\lambda = g(\lambda\cdot): então fλ∗gλ=λ−d(f∗g)(λ⋅)f_\lambda*g_\lambda = \lambda^{-d}(f*g)(\lambda\cdot) e, comparando normas,

ME∼λ−d−d/r,MD∼λ−d/p−d/q:\text{ME} \sim \lambda^{-d - d/r}, \qquad \text{MD} \sim \lambda^{-d/p - d/q} :

uma desigualdade válida para todos f,gf, g força os dois expoentes de escala a coincidir, isto é, 1+1r=1p+1q1 + \frac1r = \frac1p + \frac1q exatamente. Qualquer outra combinação morre em λ→0\lambda \to 0 ou em ∞\infty: a relação de Young não é uma conveniência, mas uma lei de escala.

Exercício 12.12 ★★

(Casos de igualdade) (a) Na desigualdade de Hölder ∫∣fg∣≤∥f∥p∥g∥q\int\abs{fg} \leq \norm f_p\norm g_q (1<p<∞1 < p < \infty), mostre que a igualdade vale se, e somente se, ∣f∣p\abs f^p e ∣g∣q\abs g^q são proporcionais q.t.p. (Acompanhe o caso de igualdade da desigualdade de Young ab≤app+bqqab \leq \frac{a^p}p + \frac{b^q}q, que é ap=bqa^p = b^q.) (b) Na desigualdade de Minkowski ∥f+g∥p≤∥f∥p+∥g∥p\norm{f + g}_p \leq \norm f_p + \norm g_p (1<p<∞1 < p < \infty), mostre que a igualdade com f,g≠0f, g \neq 0 força g=cfg = cf q.t.p. com c>0c > 0. (c) Contraste com p=1p = 1 e p=∞p = \infty: descreva os casos de igualdade (muito maiores) que ali ocorrem, com exemplos.

Solução

Solução de Exercício 12.12.

(a) Normalize ∥f∥p=∥g∥q=1\norm f_p = \norm g_q = 1. A demonstração de Hölder integra a desigualdade de Young ∣fg∣≤∣f∣pp+∣g∣qq\abs{fg} \leq \frac{\abs f^p}p + \frac{\abs g^q}q; a igualdade das integrais força a igualdade q.t.p. em Young, o que (convexidade estrita de exp⁡\exp; igualdade se, e somente se, ap=bqa^p = b^q) significa ∣f∣p=∣g∣q\abs f^p = \abs g^q q.t.p. Desfazendo a normalização: ∣f∣p∥g∥qq=∣g∣q∥f∥pp\abs f^p\norm g_q^q = \abs g^q\norm f_p^p q.t.p. — proporcionalidade.

(b) Minkowski são dois Hölder aplicados a ∣f+g∣p−1∣f∣\abs{f + g}^{p-1} \abs f e ∣f+g∣p−1∣g∣\abs{f+g}^{p-1}\abs g; a igualdade força a proporcionalidade de (a) em ambos: ∣f∣p\abs f^p e ∣g∣p\abs g^p cada um proporcional a ∣f+g∣(p−1)q=∣f+g∣p\abs{f+g}^{(p-1)q} = \abs{f+g}^p, de modo que ∣g∣=t∣f∣\abs g = t\abs f q.t.p. para uma constante t≥0t \geq 0; e a desigualdade triangular pontual inicial ∣f+g∣≤∣f∣+∣g∣\abs{f + g} \leq \abs f + \abs g também tem de ser uma igualdade q.t.p., o que, para valores complexos, significa que ff e gg têm q.t.p. o mesmo argumento onde ambas são não nulas. Combinando: g=tfg = tf q.t.p., t>0t > 0 (ambas não nulas).

(c) p=1p = 1: a igualdade em ∫∣f+g∣=∫∣f∣+∫∣g∣\int\abs{f + g} = \int\abs f + \int\abs g vale sempre que f,gf, g têm o mesmo padrão de sinais (mesmo argumento q.t.p.) — sem necessidade de proporcionalidade: f=1[0, 1]f = \mathbf 1_{\intcc01} e g=1[0, 2]g = \mathbf 1_{\intcc02} servem. p=∞p = \infty: ∥f+g∥∞=∥f∥∞+∥g∥∞\norm{f+g}_\infty = \norm f_\infty + \norm g_\infty assim que as duas funções atingem seus picos de modo compatível num ponto comum (ou ao longo de uma sequência comum): f=g f = g\, perto de um ponto basta, qualquer que seja o comportamento nos demais. A convexidade estrita das bolas LpL^p para 1<p<∞1 < p < \infty — e sua falha nos extremos — é exatamente o que esses casos de igualdade testemunham.

12.7 Problema: a desigualdade de Hardy

Problema 12.1

Problema de fim de semana — a desigualdade de Hardy e sua constante ótima

Para f∈Lp((0, +∞))f \in L^p(\intoo0{+\infty}), 1<p<∞1 < p < \infty, defina o operador de Hardy

(Hf)(x)=1x∫0xf(t)  ⁣dt.(Hf)(x) = \frac1x\int_0^x f(t)\,\dd t .

A desigualdade de Hardy (1920) afirma

∥Hf∥p  ≤  pp−1 ∥f∥p,\norm{Hf}_p \;\leq\; \frac{p}{p-1}\,\norm f_p ,

e a constante pp−1\frac p{p-1} é ótima e não é atingida. Este problema demonstra tudo e, em seguida, estende o resultado a séries.

Parte I — A desigualdade. Suponha primeiro f≥0f \geq 0 contínua de suporte compacto em (0, +∞)\intoo0{+\infty}, e ponha F(x)=∫0xfF(x) = \int_0^xf.

  1. Mostre que Hf∈LpHf \in L^p: perto de 00, FF se anula em uma vizinhança de 00; perto de ∞\infty, FF é limitada, de modo que (Hf)(x)=O(1/x)(Hf)(x) = O(1/x), e x↦1xx \mapsto \frac1x pertence a Lp((1, +∞))L^p(\intoo1{+\infty}) para p>1p > 1.
  2. Integre por partes para mostrar

    ∫0∞(Fx)p ⁣dx=pp−1∫0∞(Fx)p−1f(x)  ⁣dx.\int_0^\infty \Bigl(\frac Fx\Bigr)^p\dd x = \frac{p}{p-1}\int_0^\infty\Bigl(\frac Fx\Bigr)^{p-1}f(x)\,\dd x .

    (Derive x1−pFpx^{1-p}F^p; os termos de fronteira se anulam — justifique nas duas pontas.)

  3. Aplique Hölder ao membro direito e deduza ∥Hf∥p≤pp−1∥f∥p\norm{Hf}_p \leq \frac p{p-1}\norm f_p para tais ff.
  4. Estenda a todo o LpL^p: para f≥0f \geq 0, construa fnf_n contínuas de suporte compacto em (0, +∞)\intoo0{+\infty}, com 0≤fn↗f0 \leq f_n \nearrow f q.t.p. (trunque e aproxime monotonamente — justifique a construção); então Hfn↗HfHf_n \nearrow Hf pontualmente (convergência monótona dentro da média) e a convergência monótona passa a desigualdade ao limite. Para ff com sinal ou complexa, conclua com ∣Hf∣≤H∣f∣\abs{Hf} \leq H\abs f.

Parte II — Otimalidade.

  1. Para A>1A > 1, ponha fA(t)=t−1/p 1[1, A](t)f_A(t) = t^{-1/p}\,\mathbf 1_{\intcc1A}(t). Calcule ∥fA∥pp=ln⁡A\norm{f_A}_p^p = \ln A e, para 1≤x≤A1 \leq x \leq A,

    (HfA)(x)=pp−1  x−1/p (1−x−(1−1/p)).(Hf_A)(x) = \frac p{p-1}\;x^{-1/p}\, \bigl(1 - x^{-(1 - 1/p)}\bigr).
  2. Deduza lim inf⁡A→∞∥HfA∥p/∥fA∥p≥pp−1\liminf_{A\to\infty} \norm{Hf_A}_p/ \norm{f_A}_p \geq \frac{p}{p-1} e conclua que a constante é ótima.
  3. Mostre que a igualdade ∥Hf∥p=pp−1∥f∥p\norm{Hf}_p = \frac p{p-1}\norm f_p com f≠0f \neq 0 é impossível. (Acompanhe o caso de igualdade de Hölder na questão 3: ela forçaria um comportamento do tipo f=cx−1/pf = cx^{-1/p}, que não está em LpL^p.)

Parte III — A desigualdade discreta.

  1. Para g≥0g \geq 0 não crescente em (0,∞)(0,\infty) e an=g(n)a_n = g(n), compare ∑anp\sum a_n^p e ∫gp\int g^p, e as médias de HH correspondentes, para deduzir da Parte I a desigualdade discreta de Hardy: para an≥0a_n \geq 0,

    ∑n≥1(a1+⋯+ann)p  ≤  (pp−1)p ∑n≥1anp\sum_{n\geq1}\Bigl(\frac{a_1 + \dots + a_n}{n}\Bigr)^{p} \;\leq\; \Bigl(\frac{p}{p-1}\Bigr)^{p}\,\sum_{n\geq1}a_n^p

    — demonstre-a primeiro para (an)(a_n) não crescente, pela comparação acima, e reduza depois o caso geral ao não crescente por rearranjo (admita, com uma justificativa de uma linha, que ordenar (an)(a_n) de maneira decrescente só pode aumentar o membro esquerdo, deixando o direito inalterado).

  2. Deduza: se ∑anp<∞\sum a_n^p < \infty, então as médias de Cesàro de (an)(a_n) estão de novo em ℓp\ell^p — e dê um exemplo (p=2p = 2) em que (an)∈ℓ2(a_n) \in \ell^2 mas ana_n não é somável, e ainda assim Hardy controla as médias.

Parte IV — Epílogo.

  1. Mostre que a desigualdade de Hardy falha para p=1p = 1: com f=1[0, 1]f = \mathbf 1_{\intcc01}, calcule HfHf e observe que Hf∉L1Hf \notin L^1. Onde a demonstração se quebra?

Parte V — A função maximal e o teorema de diferenciação de Lebesgue. Hardy faz médias a partir da origem; Hardy–Littlewood fazem médias em torno de cada ponto. Para f∈L1(R)f \in L^1(\R), defina

Mf(x)=sup⁡r>0 12r∫x−rx+r∣f∣  ⁣dλ.Mf(x) = \sup_{r>0}\ \frac1{2r}\int_{x-r}^{x+r}\abs f\,\dd\lambda .
  1. (Vitali, versão finita) Sejam B1,…,BNB_1, \dots, B_N intervalos abertos. Mostre que existe uma subfamília disjunta Bi1,…,BikB_{i_1}, \dots, B_{i_k} com ⋃jBj⊆⋃l3Bil\bigcup_jB_j \subseteq \bigcup_l3B_{i_l}, em que 3B3B denota o intervalo de mesmo centro e comprimento triplo (guloso: escolha repetidamente o intervalo mais longo disjunto dos já escolhidos).
  2. (Tipo fraco (1,1)(1,1)) Mostre que, para todo t>0t > 0,

    λ({Mf>t})  ≤  3t ∥f∥1:\lambda\bigl(\{Mf > t\}\bigr) \;\leq\; \frac3t\,\norm f_1 :

    cada xx com Mf(x)>tMf(x) > t é dono de um intervalo centrado BxB_x com ∫Bx∣f∣>t λ(Bx)\int_{B_x}\abs f > t\,\lambda(B_x); tome um compacto K⊆{Mf>t}K \subseteq \{Mf > t\} (regularidade interior), cubra-o por um número finito de BxB_x, aplique a questão 11 e exaura.

  3. Calcule M1[0, 1](x)M\mathbf 1_{\intcc01}(x) para x>1x > 1 e deduza que Mf∉L1Mf \notin L^1 para todo f≠0f \neq 0 (Mf(x)≥c∣x∣Mf(x) \geq \frac c{\abs x} no infinito): em p=1p = 1, a desigualdade fraca da questão 12 é o melhor enunciado possível.
  4. (Tipo forte para p>1p > 1) Para f∈Lpf \in L^p: separe f=f 1∣f∣>t/2+f 1∣f∣≤t/2f = f\,\mathbf 1_{\abs f > t/2} + f\,\mathbf 1_{\abs f \leq t/2}, observe que Mf≤M(f1∣f∣>t/2)+t2Mf \leq M\bigl(f\mathbf 1_{\abs f > t/2}\bigr) + \frac t2 e combine a questão 12 com a fórmula do bolo de camadas (Proposição 11.8) e Tonelli para demonstrar

    ∥Mf∥pp  ≤  6p 2p−1p−1 ∥f∥pp.\norm{Mf}_p^p \;\leq\; \frac{6p\,2^{p-1}}{p-1}\,\norm f_p^p .

    (A explosão quando p↓1p \downarrow 1 é o fracasso da questão 13, quantificado.)

  5. (Teorema de diferenciação de Lebesgue) Demonstre: para f∈L1(R)f \in L^1(\R),

    12r∫x−rx+rf  ⁣dλ  ⟶  f(x)(r→0)para q.t.p. x.\frac1{2r}\int_{x-r}^{x+r}f\,\dd\lambda \;\longrightarrow\; f(x) \qquad (r \to 0)\quad\text{para q.t.p.\ }x .

    (Claro para ff contínua. No caso geral, escreva f=g+hf = g + h, com gg contínua de suporte compacto e ∥h∥1<ε\norm h_1 < \varepsilon (Teorema 12.6); o conjunto em que o lim sup⁡r→0\limsup_{r\to0} da oscilação média ultrapassa δ\delta está contido em {Mh>δ/2}∪{∣h∣>δ/2}\{Mh > \delta/2\} \cup \{\abs h > \delta/2\}, de medida O(ε/δ)O(\varepsilon/\delta); faça ε→0\varepsilon \to 0 e, depois, δ→0\delta \to 0 ao longo de uma sequência.)

  6. Deduza: (a) quase todo ponto é um ponto de Lebesgue de ff; (b) para f∈L1f \in L^1, a primitiva F(x)=∫0xfF(x) = \int_0^xf é derivável q.t.p. com F′=fF' = f q.t.p. — a metade integral do teorema fundamental do cálculo no mundo de Lebesgue, fechando o círculo aberto pela escada (Problema 9.1), que mostrou que a outra metade pode falhar.
  7. (Pontos de densidade) Para A⊆RA \subseteq \R mensurável, mostre que quase todo x∈Ax \in A satisfaz λ(A∩[x−r, x+r])2r→1\frac{\lambda(A\cap\intcc{x-r}{x+r})}{2r} \to 1: os conjuntos mensuráveis são localmente cheios em quase todos os seus pontos. Esboce, em duas linhas, como isso fornece mais uma demonstração do teorema de Steinhaus (Exercício 9.8).

Parte VI — Variações sobre o tema da média.

  1. (Hardy com peso) Para α<p−1\alpha < p - 1 e f≥0f \geq 0, mostre que

    ∫0∞(F(x)x)pxα  ⁣dx  ≤  (pp−1−α)p∫0∞f(x)p xα  ⁣dx\int_0^\infty\Bigl(\frac{F(x)}x\Bigr)^{p} x^{\alpha}\,\dd x \;\leq\; \Bigl(\frac{p}{p - 1 - \alpha}\Bigr)^{p} \int_0^\infty f(x)^p\,x^{\alpha}\,\dd x

    pela mesma integração por partes, e verifique que o caso limite α=p−1\alpha = p - 1 é genuinamente proibido (adapte o contraexemplo da questão 10).

  2. (O adjunto) Seja H∗f(x)=∫x∞f(t)t  ⁣dtH^*f(x) = \int_x^{\infty}\frac{f(t)}t\,\dd t. Mostre que ⟨Hf,g⟩=⟨f,H∗g⟩\langle Hf, g\rangle = \langle f, H^*g\rangle para f,gf, g não negativas (Tonelli) e demonstre ∥H∗f∥p≤p ∥f∥p\norm{H^*f}_p \leq p\,\norm f_p (diretamente por partes, ou a partir de Hardy no expoente conjugado por dualidade — atenção a qual expoente recebe qual constante).
  3. (Uma desigualdade do tipo Hilbert) Deduza que, para f∈Lpf \in L^p não negativas, g∈Lqg \in L^q:

    ∫0∞ ⁣ ⁣∫0∞f(x) g(y)max⁡(x,y)  ⁣dx  ⁣dy  ≤  (p+q) ∥f∥p ∥g∥q\int_0^\infty\!\!\int_0^\infty \frac{f(x)\,g(y)}{\max(x,y)}\,\dd x\,\dd y \;\leq\; (p + q)\,\norm f_p\,\norm g_q

    (separe ao longo de y<xy < x / y≥xy \geq x: cada metade é um emparelhamento de uma função contra a transformada de Hardy da outra).

  4. (Otimalidade, caso discreto) Mostre que a constante (pp−1)p\bigl(\frac p{p-1}\bigr)^p da questão 8 também é ótima: teste em an=n−1/p 1n≤Na_n = n^{-1/p}\,\mathbf 1_{n \leq N}, compare os dois lados com integrais e faça N→∞N \to \infty (o espelho discreto da Parte II).
  5. (Síntese) Três operadores de média apareceram neste problema: o HH de Hardy, a média discreta de Cesàro e o operador maximal MM. Enuncie em uma linha o que a limitação de cada um diz, observe que os três falham exatamente em p=1p = 1 e explique por que se trata do mesmo fracasso três vezes (a cauda harmônica 1x\frac1x).

Parte VII — A desigualdade de Carleman, e quão ótimo é ótimo.

  1. (Desigualdade de Carleman) Seja an≥0a_n \geq 0 com ∑an<∞\sum a_n < \infty. Aplique a desigualdade discreta de Hardy da questão 8 a bn=an1/pb_n = a_n^{1/p}, use a desigualdade entre as médias aritmética e geométrica e faça p→∞p \to \infty (mostre que p↦(pp−1)pp \mapsto \bigl(\frac p{p-1}\bigr)^p decresce até e\eu) para obter

    ∑n≥1(a1a2⋯an)1/n  ≤  e ∑n≥1an:\sum_{n\geq1}\bigl(a_1a_2\cdots a_n\bigr)^{1/n} \;\leq\; \eu\,\sum_{n\geq1}a_n :

    as médias geométricas de uma sequência somável são somáveis, ao custo de no máximo e\eu.

  2. (A constante e\eu é ótima) Teste an=1n 1n≤Na_n = \frac1n\,\mathbf 1_{n\leq N}: usando o enquadramento de Stirling do Problema 11.1, mostre que (n!)−1/n=en(1+O(ln⁡nn))(n!)^{-1/n} = \frac\eu n\bigl(1 + O\bigl(\frac{\ln n}n\bigr)\bigr), deduza que ambos os lados de Carleman crescem como eln⁡N\eu\ln N e conclua que nenhuma constante menor que e\eu pode funcionar. (Observe o padrão: os otimizadores de Hardy e de Carleman são ambos as sequências de tipo harmônico que por pouco deixam de estar no espaço.)
  3. (Com que lentidão se aproxima o “ótimo”?) Tome p=2p = 2. Para f=1[0, 1]f = \mathbf 1_{\intcc01}, calcule ∥Hf∥2/∥f∥2=2\norm{Hf}_2/\norm f_2 = \sqrt2, contra a cota 22. Para os quase-otimizadores fAf_A da questão 5, demonstre a identidade exata

    ∥HfA∥22=4ln⁡A−8+8A,logo∥HfA∥22∥fA∥22=4−8−8A−1/2ln⁡A.\norm{Hf_A}_2^2 = 4\ln A - 8 + \frac{8}{\sqrt A}, \qquad\text{logo}\qquad \frac{\norm{Hf_A}_2^2}{\norm{f_A}_2^2} = 4 - \frac{8 - 8A^{-1/2}}{\ln A} .

    Avalie em A=e10A = \eu^{10} (razão ≈1.790\approx 1.790) e comente: o supremo 22 é aproximado apenas à velocidade 1/ln⁡A1/\ln A — uma constante ótima pode ser quase invisível numericamente.

Solução

Solução de Problema 12.1.

1. ff tem suporte em algum [α,β]⊆(0, ∞)[\alpha, \beta] \subseteq \intoo0\infty, de modo que F=0F = 0 em [0,α][0, \alpha] e F≡F(β)F \equiv F(\beta) em [β,∞)[\beta, \infty): HfHf se anula perto de 00 e é O(1/x)O(1/x) no infinito; ∫1∞x−p ⁣dx<∞\int_1^\infty x^{-p}\dd x < \infty para p>1p > 1, e HfHf é contínua: Hf∈LpHf \in L^p.

2. (x1−pF(x)p)′=(1−p)x−pFp+p x1−pFp−1f\bigl(x^{1-p}F(x)^p\bigr)' = (1-p)x^{-p}F^p + p\,x^{1-p}F^{p-1}f. Os dois valores de bordo se anulam: em 00 porque F=0F = 0 perto de 00; em ∞\infty porque x1−pFp≤F(β)px1−p→0x^{1-p}F^p \leq F(\beta)^p x^{1-p} \to 0 (p>1p > 1). Integrando a identidade em (0, ∞)\intoo0\infty:

0=(1−p)∫0∞(Fx)p ⁣dx+p∫0∞(Fx)p−1f(x)  ⁣dx,0 = (1 - p)\int_0^\infty\Bigl(\frac Fx\Bigr)^p\dd x + p\int_0^\infty\Bigl(\frac Fx\Bigr)^{p-1}f(x)\,\dd x,

que é a relação em destaque.

3. Hölder com expoentes q=pp−1q = \frac p{p-1} e pp:

∫(Fx)p−1f≤(∫(Fx)p)1−1/p ∥f∥p,\int\Bigl(\frac Fx\Bigr)^{p-1}f \leq \Bigl(\int\Bigl(\frac Fx\Bigr)^{p}\Bigr)^{1 - 1/p}\,\norm f_p ,

de modo que ∥Hf∥pp≤pp−1∥Hf∥pp−1∥f∥p\norm{Hf}_p^p \leq \frac p{p-1}\norm{Hf}_p^{p-1}\norm f_p; divida (finito pela questão 1 e, se for 00, nada há a demonstrar).

4. Sejam f∈Lpf \in L^p, f≥0f \geq 0. Escolha φk∈Cc((0, ∞))\varphi_k \in \mathcal C_c(\intoo0\infty) com φk→f\varphi_k \to f em LpL^p (Teorema 12.6(2), intersectado com a semirreta aberta — aproxime f1[1/k,k]f\mathbf 1_{[1/k, k]} e diagonalize), e substitua φk\varphi_k por ∣φk∣\abs{\varphi_k} (ainda contínua e mais próxima de f≥0f \geq 0). Para todo x>0x > 0 fixo, Hölder em (0, x)\intoo0x dá

∣Hφk(x)−Hf(x)∣≤1x x1−1/p ∥φk−f∥p→0:\abs{H\varphi_k(x) - Hf(x)} \leq \frac1x\,x^{1 - 1/p}\,\norm{\varphi_k - f}_p \to 0 :

Hφk→HfH\varphi_k \to Hf pontualmente. Fatou e a questão 3:

∫(Hf)p≤lim inf⁡k∫(Hφk)p≤(pp−1)plim inf⁡k∥φk∥pp=(pp−1)p∥f∥pp.\int (Hf)^p \leq \liminf_k\int(H\varphi_k)^p \leq \Bigl(\frac p{p-1}\Bigr)^p\liminf_k\norm{\varphi_k}_p^p = \Bigl(\frac p{p-1}\Bigr)^p\norm f_p^p .

Para ff com sinal ou complexa: ∣Hf∣≤H∣f∣\abs{Hf} \leq H\abs f pontualmente, e o caso não negativo se aplica a ∣f∣\abs f.

5. ∥fA∥pp=∫1At−1 ⁣dt=ln⁡A\norm{f_A}_p^p = \int_1^A t^{-1}\dd t = \ln A. Para 1≤x≤A1 \leq x \leq A:

(HfA)(x)=1x∫1xt−1/p ⁣dt=x1−1/p−1(1−1p) x=pp−1 x−1/p(1−x−(1−1/p)).(Hf_A)(x) = \frac1x\int_1^x t^{-1/p}\dd t = \frac{x^{1 - 1/p} - 1}{(1 - \tfrac1p)\,x} = \frac p{p-1}\,x^{-1/p}\bigl(1 - x^{-(1 - 1/p)}\bigr).

6. Fixe ε>0\varepsilon > 0 e X0X_0 com (1−x−(1−1/p))p≥1−ε(1 - x^{-(1-1/p)})^p \geq 1 - \varepsilon para x≥X0x \geq X_0. Então

∥HfA∥pp≥∫X0A(pp−1)p1−εx  ⁣dx=(pp−1)p(1−ε) (ln⁡A−ln⁡X0),\norm{Hf_A}_p^p \geq \int_{X_0}^A\Bigl(\frac p{p-1}\Bigr)^p\frac{1 - \varepsilon}{x}\,\dd x = \Bigl(\frac p{p-1}\Bigr)^p(1 - \varepsilon)\,(\ln A - \ln X_0),

de modo que ∥HfA∥pp∥fA∥pp≥(pp−1)p(1−ε)(1−ln⁡X0ln⁡A)→(pp−1)p(1−ε)\dfrac{\norm{Hf_A}_p^p}{\norm{f_A}_p^p} \geq \bigl(\frac p{p-1}\bigr)^p(1 - \varepsilon)\bigl(1 - \frac{\ln X_0}{\ln A}\bigr) \to \bigl(\frac p{p-1}\bigr)^p(1 - \varepsilon) quando A→∞A \to \infty: a constante não pode ser melhorada.

7. A igualdade na questão 3 força a igualdade em Hölder: fpf^p proporcional a (Fx)(p−1)q=(Fx)p\bigl(\frac Fx\bigr)^{(p-1)q} = \bigl(\frac Fx\bigr)^p q.t.p., isto é, f=γ Fxf = \gamma\,\frac Fx q.t.p. para algum γ≥0\gamma \geq 0. Como F(x)=∫0xfF(x) = \int_0^xf é absolutamente contínua com F′=fF' = f q.t.p., FF resolve F′=γF/xF' = \gamma F/x: em qualquer intervalo em que F>0F > 0, (ln⁡F)′=γ/x(\ln F)' = \gamma/x, de modo que F=c xγF = c\,x^{\gamma} e f=cγxγ−1f = c\gamma x^{\gamma - 1} ali. Mas nenhuma potência não nula xγ−1x^{\gamma-1} pertence a Lp((0, ∞))L^p(\intoo0\infty) (é preciso p(γ−1)<−1p(\gamma - 1) < -1 em ∞\infty e >−1> -1 em 00: incompatível), e FF não pode se anular identicamente a menos que f=0f = 0. Logo a igualdade exige f=0f = 0.

8. Dada (an)(a_n) não crescente ≥0\geq 0, defina a função escada g(t)=a⌈t⌉g(t) = a_{\lceil t\rceil} em (0, +∞)\intoo0{+\infty}: não crescente, com ∫0∞gp=∑nanp\int_0^\infty g^p = \sum_na_n^p e ∫0ng=a1+⋯+an\int_0^ng = a_1 + \dots + a_n, de modo que (Hg)(n)=a1+⋯+ann(Hg)(n) = \frac{a_1 + \dots + a_n}n. A média de uma função não crescente é não crescente, de modo que HgHg o é, e

∑n≥1(a1+…+ann)p=∑n≥1(Hg)(n)p≤∑n≥1∫n−1n(Hg)(t)p  ⁣dt=∥Hg∥pp≤(pp−1)p∑nanp\sum_{n\geq1}\Bigl(\frac{a_1{+}\dots{+}a_n}n\Bigr)^p = \sum_{n\geq1}(Hg)(n)^p \leq \sum_{n\geq1}\int_{n-1}^n (Hg)(t)^p\,\dd t = \norm{Hg}_p^p \leq \Bigl(\frac p{p-1}\Bigr)^p\sum_n a_n^p

pela Parte I. Para uma sequência não negativa geral, seja (an∗)(a_n^*) seu rearranjo não crescente (possível quando an→0a_n \to 0, o que podemos supor — caso contrário, ambos os membros são infinitos): o membro direito não muda, e cada soma parcial a1+⋯+ana_1 + \dots + a_n é no máximo a1∗+⋯+an∗a_1^* + \dots + a_n^* (os nn maiores termos): o membro esquerdo apenas cresce. Logo a desigualdade vale para toda (an)(a_n).

9. Se (an)∈ℓp(a_n) \in \ell^p, a sequência das médias de Cesàro está em ℓp\ell^p com norma ≤pp−1∥a∥p\leq \frac p{p-1}\norm a_p. Exemplo (p=2p = 2): an=1n ln⁡na_n = \frac1{\sqrt n\,\ln n} (n≥2n \geq 2): ∑an2=∑1nln⁡2n<∞\sum a_n^2 = \sum\frac1{n\ln^2n} < \infty, e, no entanto, ∑an=∞\sum a_n = \infty (teste da integral); Hardy ainda garante ∑n(a1+⋯+ann)2<∞\sum_n\bigl(\frac{a_1 + \dots + a_n}n\bigr)^2 < \infty.

10. Para f=1[0, 1]f = \mathbf 1_{\intcc01}: Hf(x)=1Hf(x) = 1 em (0, 1]\intoc01 e =1x= \frac1x para x≥1x \geq 1: ∫0∞Hf=1+∫1∞ ⁣dxx=∞\int_0^\infty Hf = 1 + \int_1^\infty\frac{\dd x}x = \infty, ao passo que ∥f∥1=1\norm f_1 = 1. A demonstração desaba em dois pontos: a constante pp−1\frac p{p-1} explode quando p→1p \to 1, e o termo de bordo x1−pFpx^{1-p}F^p deixa de se anular no infinito para p=1p = 1. A desigualdade de Hardy é um fenômeno honestamente de p>1p > 1.

11. Tome o intervalo mais longo Bi1B_{i_1}; descarte todo intervalo que o encontre; tome o mais longo sobrevivente Bi2B_{i_2}; itere (há finitos intervalos). Os escolhidos são disjuntos por construção, e todo BB descartado encontrou um intervalo escolhido ao menos tão longo: um intervalo que encontra um de comprimento maior ou igual está contido em seu triplo, B⊆3BilB \subseteq 3B_{i_l}.

12. {Mf>t}\{Mf > t\} é aberto: cada média x↦12r∫x−rx+r∣f∣x \mapsto \frac1{2r}\int_{x-r}^{x+r}\abs f é contínua (convergência dominada em xx), e um supremo de funções contínuas é semicontínuo inferiormente. Cada xx nele possui Bx=(x−rx, x+rx)B_x = \intoo{x-r_x}{x+r_x} com ∫Bx∣f∣>t λ(Bx)\int_{B_x}\abs f > t\,\lambda(B_x). Para K⊆{Mf>t}K \subseteq \{Mf > t\} compacto: finitos BxB_x cobrem KK, Vitali (questão 11) extrai B1′,…,Bk′B_1', \dots, B_k' disjuntos com K⊆⋃l3Bl′K \subseteq \bigcup_l3B_l', de modo que

λ(K)≤3∑lλ(Bl′)<3t∑l∫Bl′∣f∣≤3t ∥f∥1\lambda(K) \leq 3\sum_l\lambda(B_l') < \frac3t\sum_l\int_{B_l'}\abs f \leq \frac3t\,\norm f_1

por disjunção; a regularidade interior (Teorema 9.13) conclui.

13. Para x>1x > 1: com r∈[x−1, x]r \in \intcc{x-1}x, a média é r−x+12r\frac{r - x + 1}{2r}, crescente em rr; para r≥xr \geq x ela é 12r\frac1{2r}, decrescente: o supremo é 12x\frac1{2x}, atingido em r=xr = x. Logo M1[0, 1]∉L1M\mathbf 1_{\intcc01} \notin L^1. Em geral, se ∫I∣f∣=c>0\int_I\abs f = c > 0 num intervalo limitado I⊆[−C, C]I \subseteq \intcc{-C}C, então Mf(x)≥c2(∣x∣+C)Mf(x) \geq \frac{c}{2(\abs x + C)} para todo xx: nunca integrável, a menos que f=0f = 0 q.t.p.

14. Com ft=f 1∣f∣>t/2f_t = f\,\mathbf 1_{\abs f > t/2}: M(f−ft)≤t2M(f - f_t) \leq \frac t2, de modo que {Mf>t}⊆{Mft>t2}\{Mf > t\} \subseteq \{Mf_t > \frac t2\} e a questão 12 dá λ(Mf>t)≤6t∫∣f∣>t/2∣f∣\lambda(Mf > t) \leq \frac6t\int_{\abs f > t/2}\abs f. Fórmula das camadas (Proposição 11.8) e Tonelli:

∥Mf∥pp=p∫0∞tp−1λ(Mf>t) ⁣dt≤6p∫∣f∣∫02∣f∣tp−2  ⁣dt  ⁣dλ=6p 2p−1p−1 ∥f∥pp.\norm{Mf}_p^p = p\int_0^\infty t^{p-1}\lambda(Mf > t)\dd t \leq 6p\int\abs f\int_0^{2\abs f}t^{p-2}\,\dd t\,\dd\lambda = \frac{6p\,2^{p-1}}{p-1}\,\norm f_p^p .

15. Escreva Arf(x)=12r∫x−rx+rfA_rf(x) = \frac1{2r}\int_{x-r}^{x+r}f. Para gg contínua: Arg(x)→g(x)A_rg(x) \to g(x) em toda parte. Dado ε>0\varepsilon > 0, reparta f=g+hf = g + h com gg contínua de suporte compacto e ∥h∥1<ε\norm h_1 < \varepsilon (Teorema 12.6); então

lim sup⁡r→0 ∣Arf(x)−f(x)∣≤Mh(x)+∣h(x)∣,\limsup_{r\to0}\,\abs{A_rf(x) - f(x)} \leq Mh(x) + \abs{h(x)},

de modo que Ωδ={lim sup⁡r∣Arf−f∣>δ}⊆{Mh>δ2}∪{∣h∣>δ2}\Omega_\delta = \{\limsup_r\abs{A_rf - f} > \delta\} \subseteq \{Mh > \tfrac\delta2\} \cup \{\abs h > \tfrac\delta2\} tem medida ≤6εδ+2εδ\leq \frac{6\varepsilon}\delta + \frac{2\varepsilon}\delta (questão 12; Markov). ε\varepsilon arbitrário: λ(Ωδ)=0\lambda(\Omega_\delta) = 0; união em δ=1k\delta = \frac1k: Arf→fA_rf \to f q.t.p.

16. (a) Para cada q∈Qq \in \Q, a questão 15 aplicada a ∣f−q∣\abs{f - q} dá Ar∣f−q∣(x)→∣f(x)−q∣A_r\abs{f - q}(x) \to \abs{f(x) - q} q.t.p.; na interseção desses conjuntos de medida total, escolha qq com ∣f(x)−q∣<η\abs{f(x) - q} < \eta: lim sup⁡rAr∣f−f(x)∣(x)≤2η\limsup_rA_r\abs{f - f(x)}(x) \leq 2\eta para todo η\eta: quase todo xx é ponto de Lebesgue. (b) Num ponto de Lebesgue,

∣F(x+h)−F(x)h−f(x)∣=∣1h∫xx+h(f−f(x))∣≤2 A∣h∣∣f−f(x)∣(x)→0:\Bigl|\frac{F(x + h) - F(x)}h - f(x)\Bigr| = \Bigl|\frac1h\int_x^{x+h}\bigl(f - f(x)\bigr)\Bigr| \leq 2\,A_{\abs h}\abs{f - f(x)}(x) \to 0 :

F′=fF' = f q.t.p. — primitivas de funções L1L^1 de fato derivam de volta; a escada (Problema 9.1) é o contraexemplo apenas para a direção recíproca.

17. Aplique a questão 15 a 1A∩[−n,n]\mathbf 1_{A\cap[-n,n]} e faça nn crescer: para q.t.p. x∈Ax \in A, a densidade λ(A∩[x−r, x+r])2r→1\frac{\lambda(A\cap\intcc{x-r}{x+r})}{2r} \to 1. Steinhaus: em torno de um ponto de densidade, tome rr com densidade >34> \frac34; para ∣t∣<r2\abs t < \frac r2, AA e A+tA + t preenchem, cada um, mais de 32r\frac32r de um intervalo de comprimento ≤52r\leq \frac52r, e portanto se intersectam: (−r/2, r/2)⊆A−A\intoo{-r/2}{r/2} \subseteq A - A.

18. Seja G(x)=xα+1−pF(x)pG(x) = x^{\alpha+1-p}F(x)^p: GG se anula em 00 (FF se anula perto de 00) e em ∞\infty (FF limitada, α+1−p<0\alpha + 1 - p < 0), de modo que ∫0∞G′=0\int_0^\infty G' = 0 com

G′=(α+1−p) xα−pFp+p xα+1−pFp−1f=(α+1−p)(Fx)pxα+p(Fx)p−1f xα.G' = (\alpha + 1 - p)\,x^{\alpha-p}F^p + p\,x^{\alpha+1-p}F^{p-1}f = (\alpha + 1 - p)\Bigl(\frac Fx\Bigr)^px^\alpha + p\Bigl(\frac Fx\Bigr)^{p-1}f\,x^\alpha .

Logo ∫(F/x)pxα=pp−1−α∫(F/x)p−1f xα\int(F/x)^px^\alpha = \frac{p}{p-1-\alpha} \int(F/x)^{p-1}f\,x^\alpha; Hölder para a medida xα ⁣dxx^\alpha\dd x (expoentes pp−1\frac p{p-1} e pp) conclui como na questão 3. Caso limite α=p−1\alpha = p - 1: com f(t)=1t1[1, A]f(t) = \frac1t\mathbf 1_{\intcc1A}, o membro direito é ln⁡A\ln A, ao passo que o esquerdo contém ∫1A(ln⁡x)px ⁣dx=(ln⁡A)p+1p+1\int_1^A\frac{(\ln x)^p}x\dd x = \frac{(\ln A)^{p+1}}{p+1}: nenhuma constante sobrevive a A→∞A \to \infty.

19. Tonelli em {0<t<x}\{0 < t < x\}:

⟨Hf,g⟩=∫0∞g(x)x∫0xf(t)  ⁣dt  ⁣dx=∫0∞f(t)∫t∞g(x)x  ⁣dx  ⁣dt=⟨f,H∗g⟩.\langle Hf, g\rangle = \int_0^\infty\frac{g(x)}x\int_0^xf(t)\,\dd t\,\dd x = \int_0^\infty f(t)\int_t^\infty\frac{g(x)}x\,\dd x\,\dd t = \langle f, H^*g\rangle .

Dualidade: ∥H∗f∥p=sup⁡{⟨f,Hg⟩:g≥0,∥g∥q≤1}≤∥f∥p⋅sup⁡∥Hg∥q≤qq−1∥f∥p=p ∥f∥p\norm{H^*f}_p = \sup\{\langle f, Hg\rangle : g \geq 0, \norm g_q \leq 1\} \leq \norm f_p\cdot \sup\norm{Hg}_q \leq \frac q{q-1}\norm f_p = p\,\norm f_p, sendo Hardy invocado em LqL^q, cuja constante qq−1\frac q{q-1} é igual a pp.

20. Reparta ao longo da diagonal (nula). Em {y≤x}\{y \leq x\}:

∬y≤xf(x)g(y)x  ⁣dy  ⁣dx=∫f(x) (Hg)(x)  ⁣dx≤∥f∥p ∥Hg∥q≤p ∥f∥p∥g∥q,\iint_{y\leq x}\frac{f(x)g(y)}{x}\,\dd y\,\dd x = \int f(x)\,(Hg)(x)\,\dd x \leq \norm f_p\,\norm{Hg}_q \leq p\,\norm f_p\norm g_q,

pois Hardy em LqL^q carrega a constante qq−1=p\frac q{q-1} = p. Simetricamente, ∬y>x=∫g (Hf)≤∥g∥q∥Hf∥p≤q ∥f∥p∥g∥q\iint_{y>x} = \int g\,(Hf) \leq \norm g_q\norm{Hf}_p \leq q\,\norm f_p\norm g_q (pp−1=q\frac p{p-1} = q). Total: (p+q) ∥f∥p∥g∥q(p + q)\,\norm f_p\norm g_q.

21. Para an=n−1/pa_n = n^{-1/p}, n≤Nn \leq N: o membro direito é (pp−1)p∑n≤N1n=(pp−1)pln⁡N+O(1)\bigl(\frac p{p-1}\bigr)^p\sum_{n\leq N}\frac1n = \bigl(\frac p{p-1}\bigr)^p\ln N + O(1). No esquerdo, para n≤Nn \leq N: a1+⋯+an≥∫1n+1t−1/p ⁣dt=pp−1((n+1)1−1/p−1)a_1 + \dots + a_n \geq \int_1^{n+1}t^{-1/p}\dd t = \frac{p}{p-1}\bigl((n+1)^{1-1/p} - 1\bigr), de modo que a nn-ésima média de Cesàro é ≥pp−1n−1/p(1−o(1))\geq \frac p{p-1}n^{-1/p}(1 - o(1)) uniformemente para nn em qualquer faixa n≥n0(η)n \geq n_0(\eta); elevando à pp e somando, o membro esquerdo é ≥(pp−1)p(1−η)ln⁡N+Oη(1)\geq \bigl(\frac p{p-1}\bigr)^p(1 - \eta)\ln N + O_\eta(1). Dividindo e fazendo N→∞N \to \infty e depois η→0\eta \to 0: nenhuma constante menor que (pp−1)p\bigl(\frac p{p-1}\bigr)^p pode servir.

22. HH limitado em LpL^p: médias cumulativas não inflam as normas pp (constante pp−1\frac p{p-1}); Cesàro em ℓp\ell^p: o mesmo, discretizado; MM limitado em LpL^p: nem mesmo a melhor média local escapa ao controle (constante O(1p−1)O(\frac1{p-1})). Os três falham em p=1p = 1, e por uma única razão: fazer a média de uma unidade de massa concentrada produz uma cauda 1x\frac1x (questões 10 e 13), e 1x\frac1x pertence a todo LpL^p perto do infinito, exceto L1L^1. A suavização espalha a massa exatamente até a fronteira harmônica da integrabilidade.

23. Ponha bn=an1/pb_n = a_n^{1/p}, de modo que ∑bnp=∑an\sum b_n^p = \sum a_n. A questão 8 dá

∑n≥1(b1+⋯+bnn)p≤(pp−1)p∑n≥1an,\sum_{n\geq1}\Bigl(\frac{b_1 + \dots + b_n}n\Bigr)^{p} \leq \Bigl(\frac p{p-1}\Bigr)^{p}\sum_{n\geq1}a_n,

e a MA–MG minora cada parcela:

(b1+⋯+bnn)p≥(b1⋯bn)p/n=(a1⋯an)1/n.\Bigl(\frac{b_1 + \dots + b_n}n\Bigr)^{p} \geq \bigl(b_1\cdots b_n\bigr)^{p/n} = \bigl(a_1\cdots a_n\bigr)^{1/n}.

Logo ∑(a1⋯an)1/n≤(pp−1)p∑an\sum(a_1\cdots a_n)^{1/n} \leq \bigl(\frac p{p-1}\bigr)^p\sum a_n para todo p>1p > 1. Com m=p−1m = p - 1,

(pp−1)p=(1+1m)m+1,\Bigl(\frac p{p-1}\Bigr)^{p} = \Bigl(1 + \frac1m\Bigr)^{m+1},

que decresce para e\eu quando m→∞m \to \infty (a clássica sequência monótona superior para e\eu). Tomando o ínfimo em pp, obtém-se a desigualdade de Carleman com constante e\eu.

24. Para an=1na_n = \frac1n, (a1⋯an)1/n=(n!)−1/n(a_1\cdots a_n)^{1/n} = (n!)^{-1/n}. O enquadramento do Problema 11.1 dá 2πn (n/e)n≤n!≤2πn (n/e)ne1/(12n)\sqrt{2\pi n}\,(n/\eu)^n \leq n! \leq \sqrt{2\pi n}\,(n/\eu)^n\eu^{1/(12n)}, de modo que

(n!)1/n=ne (2πn)1/(2n)eO(1/n2)=ne(1+O(ln⁡nn)),(n!)^{1/n} = \frac n\eu\,(2\pi n)^{1/(2n)} \eu^{O(1/n^2)} = \frac n\eu\Bigl(1 + O\Bigl(\frac{\ln n}{n}\Bigr)\Bigr),

pois (2πn)1/(2n)=exp⁡(ln⁡(2πn)2n)(2\pi n)^{1/(2n)} = \exp\bigl(\frac{\ln(2\pi n)}{2n}\bigr). Invertendo, (n!)−1/n=en(1+O(ln⁡nn))(n!)^{-1/n} = \frac\eu n(1 + O(\frac{\ln n}n)), e somando em n≤Nn \leq N:

∑n≤N(n!)−1/n=eln⁡N+O(1),e∑n≤N1n=eln⁡N+O(1)\sum_{n\leq N}(n!)^{-1/n} = \eu\ln N + O(1), \qquad \eu\sum_{n\leq N}\frac1n = \eu\ln N + O(1)

(a série de erros ∑ln⁡nn2\sum\frac{\ln n}{n^2} converge). Uma desigualdade de Carleman com constante cc forçaria eln⁡N+O(1)≤c (ln⁡N+O(1))\eu\ln N + O(1) \leq c\,(\ln N + O(1)), logo c≥ec \geq \eu ao dividir por ln⁡N\ln N. As sequências otimizantes se alinham: a constante de Hardy é aproximada por n−1/pn^{-1/p} (questão 21), a de Carleman por n−1n^{-1} — em cada caso, a sequência do tipo harmônico que fica logo fora do espaço sobre o qual se faz a média.

25. Para f=1[0, 1]f = \mathbf 1_{\intcc01}: Hf(x)=1Hf(x) = 1 em (0, 1]\intoc01 e Hf(x)=1xHf(x) = \frac1x para x>1x > 1, de modo que ∥Hf∥22=1+∫1∞x−2 ⁣dx=2\norm{Hf}_2^2 = 1 + \int_1^\infty x^{-2}\dd x = 2 e a razão é 2≈1.414\sqrt2 \approx 1.414, cerca de 71%71\% da cota ótima. Para fAf_A (p=2p = 2): F(x)=2(x−1)F(x) = 2(\sqrt x - 1) em [1, A]\intcc1A, de modo que, nessa faixa, HfA=2x−1/2−2x−1Hf_A = 2x^{-1/2} - 2x^{-1} e, para x>Ax > A, HfA(x)=2(A−1)/xHf_A(x) = 2(\sqrt A - 1)/x. Elevando ao quadrado e integrando,

∫1A(2x−1/2−2x−1)2 ⁣dx=4ln⁡A−12+16A−4A,∫A∞4(A−1)2x2  ⁣dx=4−8A+4A,\begin{align*} \int_1^A\bigl(2x^{-1/2} - 2x^{-1}\bigr)^2\dd x &= 4\ln A - 12 + \frac{16}{\sqrt A} - \frac4A,\\ \int_A^{\infty}\frac{4(\sqrt A - 1)^2}{x^2}\,\dd x &= 4 - \frac{8}{\sqrt A} + \frac4A, \end{align*}

donde ∥HfA∥22=4ln⁡A−8+8A−1/2\norm{Hf_A}_2^2 = 4\ln A - 8 + 8A^{-1/2}; dividir por ∥fA∥22=ln⁡A\norm{f_A}_2^2 = \ln A dá a identidade enunciada. Em A=e10A = \eu^{10}: 4−8(1−e−5)10=3.20544 - \frac{8(1 - \eu^{-5})}{10} = 3.2054, de modo que a razão é 3.2054≈1.790<2\sqrt{3.2054} \approx 1.790 < 2. O defeito 4−∥HfA∥22/∥fA∥22∼8/ln⁡A4 - \norm{Hf_A}_2^2/\norm{f_A}_2^2 \sim 8/\ln A decai apenas logaritmicamente: para atingir a razão 1.991.99 seria preciso ln⁡A≈200\ln A \approx 200, isto é, A≈1087A \approx 10^{87}. Constantes ótimas são teoremas, não experimentos.

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