Mathematics · Livro 5 · Bachelor Year 3

Matemática universitária — Graduação 3

Matemática universitária — Graduação 3 · Bachelor Year 3

7Espaços completos: Baire, Ascoli, Stone–Weierstrass

A completude — toda sequência de Cauchy converge — é a propriedade que permite à análise produzir objetos: pontos fixos de contrações, somas de séries, soluções de equações obtidas como limites. Este capítulo reúne as três grandes máquinas de existência da teoria métrica. O teorema de Baire mostra que um espaço completo não pode ser reunião enumerável de pedaços desprezíveis e conjura objetos (funções contínuas em parte alguma deriváveis!) a partir de um raciocínio de puro tipo cardinal. Arzelà–Ascoli identifica os subconjuntos compactos de C(K)\mathcal C(K) e é o cavalo de batalha da análise em matéria de compacidade — o problema de fim de semana o usa para demonstrar o teorema de existência de Peano para equações diferenciais. Stone–Weierstrass mostra que os polinômios, e muito mais, são densos em C(K)\mathcal C(K): a aproximação torna-se uma verificação algébrica. Pelo caminho, construímos completamentos e demonstramos o teorema de extensão das aplicações uniformemente contínuas, o pão de cada dia do Capítulos 12, 13 e 14.

7.1 Espaços completos, completamentos, extensões

Definição 7.1

Um espaço métrico é completo se toda sequência de Cauchy converge (segundo ano: Rn\R^n é completo; C([0,1])\mathcal C(\intcc01) com \norm\cdot_\infty é completo). Um subconjunto fechado de um espaço completo é completo; um subconjunto completo de um espaço métrico qualquer é fechado.

Demonstração. Quanto às duas afirmações: uma sequência de Cauchy do fechado FF converge em XX, e seu limite, aderente a FF, está em FF; uma sequência de um AA completo que converge em XX é de Cauchy, logo converge em AA, e os limites são únicos.

Teorema 7.2 (Extensão das aplicações uniformemente contínuas)

Sejam DXD \subseteq X denso, YY completo e f ⁣:DYf \colon D \to Y uniformemente contínua. Então ff se estende de maneira única a uma aplicação contínua fˉ ⁣:XY\bar f \colon X \to Y, e fˉ\bar f é uniformemente contínua.

Demonstração. Unicidade: duas extensões contínuas coincidem no denso DD e, portanto, em toda parte (o conjunto de coincidência {g=h}\{g = h\} é fechado: pré-imagem da diagonal fechada por x(g(x),h(x))x\mapsto(g(x), h(x))). Existência: para xXx \in X tome dnxd_n \to x, dnDd_n \in D. A sequência (f(dn))(f(d_n)) é de Cauchy: dado ε\varepsilon, a continuidade uniforme fornece δ\delta com d(u,v)<δd(f(u),f(v))<εd(u,v) < \delta \Rightarrow d(f(u), f(v)) < \varepsilon, e (dn)(d_n) é de Cauchy. Defina fˉ(x)=limf(dn)\bar f(x) = \lim f(d_n); o limite não depende da sequência escolhida (entrelace duas delas). fˉ\bar f estende ff (sequências constantes) e herda o módulo de continuidade: se d(x,x)<δd(x, x') < \delta, aproximar ambos por pontos de DD a distância <δd(x,x)2< \frac{\delta - d(x,x')}2d(fˉ(x),fˉ(x))εd(\bar f(x), \bar f(x')) \leq \varepsilon no limite — fˉ\bar f é uniformemente contínua.

Teorema 7.3 (Completamento)

Todo espaço métrico XX mergulha isometricamente como subconjunto denso de um espaço métrico completo X^\hat X, único a menos de uma isometria que fixa XX ponto a ponto: seu completamento.

Demonstração. Existência. Seja X\mathcal X o conjunto das sequências de Cauchy de XX, com a pseudodistância

D((xn),(yn))=limnd(xn,yn),D\bigl((x_n), (y_n)\bigr) = \lim_n d(x_n, y_n),

cujo limite existe porque d(xn,yn)d(xm,ym)d(xn,xm)+d(yn,ym)\abs{d(x_n, y_n) - d(x_m, y_m)} \leq d(x_n, x_m) + d(y_n, y_m) torna a sequência real de Cauchy. Ponha X^=X/\hat X = \mathcal X/{\sim}, identificando as sequências a DD-distância 00; DD desce a uma distância. Mergulhe XX pelas sequências constantes: uma isometria de imagem densa (uma sequência de Cauchy é DD-aproximada pelas constantes construídas sobre seus próprios termos: D((xn),(xk)const)=limnd(xn,xk)0D\bigl((x_n), (x_k)_{\rm const}\bigr) = \lim_n d(x_n, x_k) \to 0 quando kk \to \infty, por ser de Cauchy). Completude de X^\hat X: seja (ξk)(\xi^k) de Cauchy em X^\hat X; por densidade, escolha xkXx_k \in X com D(ξk,xk)2kD(\xi^k, x_k) \leq 2^{-k}; então (xk)(x_k) é de Cauchy em XX (desigualdade triangular através dos ξ\xi), define um ponto ξX^\xi \in \hat X, e D(ξk,ξ)2k+D(xk,ξ)0D(\xi^k, \xi) \leq 2^{-k} + D(x_k, \xi) \to 0 (a distância da constante xkx_k à classe de (xj)j(x_j)_j é limjd(xk,xj)\lim_j d(x_k, x_j), pequena para kk grande).

Unicidade: dois completamentos X^1,X^2\hat X_1, \hat X_2 contêm XX densamente; a identidade de XX, uma isometria, é uniformemente contínua, logo se estende a X^1X^2\hat X_1 \to \hat X_2 (Teorema 7.2), ainda uma isometria em um conjunto denso e, portanto, em toda parte; simetricamente no outro sentido, e as compostas fixam o denso XX: elas são as identidades.

Teorema 7.4 (Ponto fixo de Banach)

Sejam XX completo e não vazio e f ⁣:XXf \colon X \to X uma contração: d(f(x),f(y))kd(x,y)d(f(x), f(y)) \leq k\,d(x,y) com k<1k < 1. Então ff tem um único ponto fixo xx^*, e toda órbita converge para ele, com a taxa explícita d(xn,x)kn1kd(x1,x0)d(x_n, x^*) \leq \frac{k^n}{1-k}\,d(x_1, x_0).

Demonstração. (O segundo ano demonstrou isto; registramos de novo o argumento de duas linhas para que o texto se baste.) A órbita xn+1=f(xn)x_{n+1} = f(x_n) satisfaz d(xn+1,xn)knd(x1,x0)d(x_{n+1}, x_n) \leq k^nd(x_1, x_0), logo é de Cauchy (série geométrica); seu limite xx^* é fixo (continuidade de ff) e único, pois dois pontos fixos satisfazem dkdd \leq k\,d. A taxa: some a cauda geométrica.

Exemplo 7.5 (Perturbando a identidade)

Seja g ⁣:RdRdg \colon \R^d \to \R^d kk-lipschitziana com k<1k < 1. Então φ=id+g\varphi = \mathrm{id} + g é um homeomorfismo de Rd\R^d sobre Rd\R^d. Injetividade, com um módulo quantitativo:

φ(x)φ(y)xyg(x)g(y)(1k)xy.\norm{\varphi(x) - \varphi(y)} \geq \norm{x - y} - \norm{g(x) - g(y)} \geq (1 - k)\norm{x - y} .

A sobrejetividade é o teorema do ponto fixo: resolver φ(x)=y\varphi(x) = y significa x=yg(x)x = y - g(x), e xyg(x)x \mapsto y - g(x) é uma kk-contração do espaço completo Rd\R^d — existe uma única solução x=ψ(y)x = \psi(y) para cada yy. A desigualdade exibida torna a inversa ψ\psi lipschitziana de constante 11k\frac1{1-k}: um homeomorfismo, com cotas explícitas para ambos os módulos. Esse enunciado de aparência inofensiva é o motor dentro do teorema da função inversa (Capítulo 20): perto de um ponto em que DfDf é inversível, ff é uma aplicação linear inversível mais uma pequena perturbação lipschitziana, e o exemplo de hoje faz o resto. Ele também quantifica a robustez numérica: um sistema perturbado por menos do que a margem da inversa permanece solúvel, com a solução deslocando-se no máximo 11k\frac{1}{1-k} vezes a perturbação.

7.2 O teorema de Baire

Teorema 7.6 (Baire)

Em um espaço métrico completo, uma interseção enumerável de abertos densos é densa. Equivalentemente: se X=nFnX = \bigcup_{n}F_n com cada FnF_n fechado, então algum FnF_n tem interior não vazio.

Demonstração. Sejam (Un)(U_n) abertos densos e B0=B(x0,r0)B_0 = B(x_0, r_0) uma bola aberta qualquer; encontramos um ponto de Un\bigcap U_n em B0B_0. Indutivamente: sendo UnU_{n} denso e aberto, ele encontra a bola aberta Bn1B_{n-1} em um aberto, que contém uma bola fechada Bˉ(xn,rn)\bar B(x_n, r_n) com 0<rnrn1/20 < r_n \leq r_{n-1}/2 e Bˉ(xn,rn)Bn1Un\bar B(x_n, r_n) \subseteq B_{n-1}\cap U_n. Os centros formam uma sequência de Cauchy (xmBnx_m \in B_n para mnm \geq n, com raios 0\to 0); o limite xx está em toda Bˉ(xn,rn)\bar B(x_n, r_n) (por serem fechadas), logo em todo UnU_n e em B0B_0. Quanto à segunda forma: se nenhum FnF_n tem interior, os Un=XFnU_n = X \setminus F_n são abertos e densos, e um ponto de Un\bigcap U_n escapa a Fn=X\bigcup F_n = X: absurdo.

Observação 7.7

Vocabulário: um conjunto é nunca denso se seu fecho tem interior vazio, e magro (de primeira categoria) se é uma reunião enumerável de conjuntos nunca densos. Baire: um espaço métrico completo não é magro em si mesmo, e o complementar de um conjunto magro é denso. “Magro” é uma noção de pequenez ortogonal à de medida (o Capítulo 9 produzirá conjuntos magros de medida total), e os argumentos de Baire demonstram existência por abundância: para exibir um objeto sem a propriedade P, mostre que os objetos com P formam um conjunto magro.

Corolário 7.8

(a) R\R é não enumerável. (b) Q\Q não é uma interseção enumerável de abertos de R\R, e um espaço métrico completo não vazio sem pontos isolados é não enumerável.

Demonstração. (a) R=x{x}\R = \bigcup_{x}\{x\} sobre um conjunto enumerável faria algum conjunto unitário ter interior. (b) Se Q=nVn\Q = \bigcap_n V_n com VnV_n abertos (necessariamente densos, pois Q\supseteq \Q), então os conjuntos VnV_n e os complementares R{q}\R\setminus\{q\}, qQq \in \Q, formam uma família enumerável de abertos densos com interseção vazia — contradizendo Baire. Se XX é completo, sem pontos isolados e enumerável, X=xX{x}X = \bigcup_{x \in X}\{x\} o exibe como reunião enumerável de fechados de interior vazio (ausência de pontos isolados): Baire de novo.

Teorema 7.9 (Os monstros de Weierstrass existem)

Existem funções contínuas em [0,1]\intcc01 que não são deriváveis em ponto algum. Mais ainda: o conjunto das fC([0,1])f \in \mathcal C(\intcc01) que têm derivada (finita) em ao menos um ponto é magro em (C([0,1]),)(\mathcal C(\intcc01), \norm\cdot_\infty).

Demonstração. Para n1n \geq 1, ponha

Fn={f:x[0,1], h0 com x+h[0,1], f(x+h)f(x)nh}.F_n = \Bigl\{f : \exists x \in \intcc01,\ \forall h \neq 0 \text{ com } x + h \in \intcc01,\ \abs{f(x+h) - f(x)} \leq n\abs h \Bigr\}.

Se ff é derivável em xx, então fFnf \in F_n para algum nn: o quociente f(x+h)f(x)/h\abs{f(x+h)-f(x)}/\abs h é limitado para hδ\abs h \leq \delta (derivabilidade: ele tende a f(x)\abs{f'(x)}) e limitado por 2f/δ2\norm f_\infty/\delta para hδ\abs h \geq \delta. Assim Fn\bigcup F_n contém todas as funções deriváveis em algum ponto, e basta mostrar que cada FnF_n é fechado e tem interior vazio.

Fechado: seja fkff_k \to f uniformemente, com fkFnf_k \in F_n e testemunhas xkxx_k \to x (compacidade, após extração). Para hh com x+h[0,1]x + h \in \intcc01: escolha hkhh_k \to h com xk+hk[0,1]x_k + h_k \in \intcc01 (por exemplo hk=h+xxkh_k = h + x - x_k truncado); então f(x+h)f(x)=limfk(xk+hk)fk(xk)limnhk=nh\abs{f(x + h) - f(x)} = \lim \abs{f_k(x_k + h_k) - f_k(x_k)} \leq \lim n\abs{h_k} = n\abs h, usando a convergência uniforme e a continuidade de ff nos pontos relevantes: fFnf \in F_n.

Interior vazio: dados fFnf \in F_n e ε>0\varepsilon > 0, encontramos gg com gfε\norm{g - f}_\infty \leq \varepsilon e gFng \notin F_n. Primeiro, aproxime ff a menos de ε/2\varepsilon/2 por uma função φ\varphi afim por partes (continuidade uniforme: interpole em uma grade fina), de inclinações limitadas por algum MM. Some um pequeno dente de serra: g=φ+ε2sNg = \varphi + \frac\varepsilon2\,s_N, em que sN(x)s_N(x) é o zigue-zague 1N\frac1N-periódico de amplitude 11 e inclinação ±2N\pm 2N. Em todo xx, de um dos lados existe hh arbitrariamente pequeno com o dente de serra contribuindo com inclinação ±2Nε2=±εN\pm 2N\cdot\frac\varepsilon2 = \pm\varepsilon N em [x,x+h][x, x+h]: o quociente de diferenças de gg ultrapassa εNM>n\varepsilon N - M > n para NN grande. Logo gFng \notin F_n, a qualquer distância uniforme ε\leq \varepsilon de ff. Conclusão: Fn\bigcup F_n é magro; por Baire, seu complementar — formado por funções em parte alguma deriváveis — é denso em C([0,1])\mathcal C(\intcc01): tais funções existem em abundância.

7.3 Arzelà–Ascoli

Ao longo de toda esta seção, KK é um espaço métrico compacto e C(K)=C(K,Rd)\mathcal C(K) = \mathcal C(K, \R^d), com f=supKf(x)\norm f_\infty = \sup_K \norm{f(x)}: um espaço completo (limites uniformes de contínuas são contínuas — segundo ano).

Definição 7.10

Uma família FC(K)\mathcal F \subseteq \mathcal C(K) é equicontínua se, para todo ε>0\varepsilon > 0, existe δ>0\delta > 0 tal que

d(x,y)<δ    f(x)f(y)<εpara toda fFd(x, y) < \delta \implies \norm{f(x) - f(y)} < \varepsilon \quad\text{para \emph{toda} } f \in \mathcal F

(um único δ\delta para toda a família — por exemplo, qualquer família com uma constante de Lipschitz comum, ou um módulo de Hölder comum), e é pontualmente limitada se supff(x)<\sup_{f}\norm{f(x)} < \infty para cada xx.

Teorema 7.11 (Arzelà–Ascoli)

Um subconjunto FC(K)\mathcal F \subseteq \mathcal C(K) é relativamente compacto (tem fecho compacto) se, e somente se, é equicontínuo e pontualmente limitado. Em particular, toda sequência equicontínua e pontualmente limitada tem uma subsequência uniformemente convergente.

Demonstração. (\Leftarrow) Seja (fk)(f_k) uma sequência de F\mathcal F. O compacto métrico KK é separável: para cada nn, um número finito de bolas de raio 1n\frac1n cobre KK (Teorema 6.16); seus centros formam um conjunto enumerável denso D={x1,x2,}D = \{x_1, x_2, \dots\}. Pela limitação pontual e por Bolzano–Weierstrass, extraia sucessivamente subsequências que convergem em x1x_1, depois também em x2x_2, etc., e tome a subsequência diagonal (gj)(g_j): ela converge em todo ponto de DD. A equicontinuidade eleva isso a uniformemente de Cauchy: dado ε\varepsilon, tome δ\delta como na definição, cubra KK por um número finito de bolas B(xi,δ)B(x_i, \delta) com xiDx_i \in D (imi \leq m) e escolha JJ tão grande que gj(xi)gj(xi)<ε\norm{g_j(x_i) - g_{j'}(x_i)} < \varepsilon para j,jJj, j' \geq J, imi \leq m. Para xB(xi,δ)x \in B(x_i, \delta) arbitrário:

gj(x)gj(x)gj(x)gj(xi)+gj(xi)gj(xi)+gj(xi)gj(x)<3ε.\norm{g_j(x) - g_{j'}(x)} \leq \norm{g_j(x) - g_j(x_i)} + \norm{g_j(x_i) - g_{j'}(x_i)} + \norm{g_{j'}(x_i) - g_{j'}(x)} < 3\varepsilon .

Logo (gj)(g_j) é uniformemente de Cauchy e converge no espaço completo C(K)\mathcal C(K). Assim, toda sequência de F\mathcal F tem subsequência convergente: Fˉ\bar{\mathcal F} é compacto (sequencialmente e, portanto, pelo Teorema 6.16).

(\Rightarrow) Se Fˉ\bar{\mathcal F} é compacto: a limitação pontual é clara (a avaliação é contínua). Quanto à equicontinuidade, cubra F\mathcal F por um número finito de bolas B(fi,ε)B(f_i, \varepsilon) de raio C(K)\mathcal C(K); cada fif_i é uniformemente contínua (Heine, Corolário 6.17), o que dá um δ\delta comum para imi \leq m; então, para fB(fi,ε)f \in B(f_i, \varepsilon) e d(x,y)<δd(x,y) < \delta: f(x)f(y)2ε+fi(x)fi(y)<3ε\norm{f(x)-f(y)} \leq 2\varepsilon + \norm{f_i(x)-f_i(y)} < 3\varepsilon.

Exemplo 7.12

A bola unitária fechada de C([0,1])\mathcal C(\intcc01) não é compacta (fn(x)=xnf_n(x) = x^n não tem subsequência uniformemente convergente: o limite pontual é descontínuo) e, com efeito, (xn)(x^n) não é equicontínua em 11. Em contraste, {f:f1, Lip(f)1}\{f : \norm f_\infty \leq 1,\ \operatorname{Lip}(f) \leq 1\} é compacto: limitado, equicontínuo por serem todas 11-lipschitzianas, e fechado. Ascoli explica por que a compacidade falha em dimensão infinita (Riesz, segundo ano) e o que acrescentar para restaurá-la: um módulo de continuidade uniforme.

7.4 Stone–Weierstrass

Lema 7.13 (Dini)

Sejam KK compacto e (fn)(f_n) uma sequência monótona de funções reais contínuas que converge pontualmente para uma função contínua ff. Então a convergência é uniforme.

Demonstração. Digamos fnff_n \uparrow f; ponha gn=ffn0g_n = f - f_n \downarrow 0, contínua. Dado ε\varepsilon, os abertos Un={gn<ε}U_n = \{g_n < \varepsilon\} crescem e cobrem KK (convergência pontual); extraia uma subcobertura finita: K=Un0K = U_{n_0} para algum n0n_0 (família crescente), isto é, 0gn<ε0 \leq g_n < \varepsilon em toda parte para nn0n \geq n_0.

Lema 7.14

Existe uma sequência de polinômios unu_n com un(t)tu_n(t) \to \sqrt t uniformemente em [0,1]\intcc01.

Demonstração. Defina u0=0u_0 = 0, un+1(t)=un(t)+12(tun(t)2)u_{n+1}(t) = u_n(t) + \frac12\bigl(t - u_n(t)^2\bigr): são polinômios. Por indução, 0un(t)t0 \leq u_n(t) \leq \sqrt t em [0,1]\intcc01: admitindo isso para nn,

tun+1(t)=(tun(t))(112(t+un(t)))0,\sqrt t - u_{n+1}(t) = \bigl(\sqrt t - u_n(t)\bigr) \Bigl(1 - \tfrac12\bigl(\sqrt t + u_n(t)\bigr)\Bigr) \geq 0,

pois t+un2\sqrt t + u_n \leq 2; e un+1un0u_{n+1} \geq u_n \geq 0. Assim (un(t))(u_n(t)) é não decrescente e limitada por t\sqrt t: ela converge pontualmente, e o limite (t)\ell(t) satisfaz =+12(t2)\ell = \ell + \frac12(t - \ell^2): (t)=t\ell(t) = \sqrt t, que é contínua. Dini (Lema 7.13) eleva a convergência a uniforme.

Teorema 7.15 (Stone–Weierstrass, versão real)

Sejam KK um espaço compacto (de Hausdorff) e AC(K,R)\mathcal A \subseteq \mathcal C(K, \R) uma subálgebra (estável por somas, produtos e múltiplos escalares) que contém as constantes e separa pontos (para xyx \neq y, algum fAf \in \mathcal A satisfaz f(x)f(y)f(x) \neq f(y)). Então A\mathcal A é densa em (C(K,R),)(\mathcal C(K,\R), \norm\cdot_\infty).

Demonstração. Seja Aˉ\bar{\mathcal A} o fecho, ainda uma álgebra (produtos de limites uniformes em conjuntos limitados convergem).

Etapa 1: Aˉ\bar{\mathcal A} é um reticulado, isto é, estável por max\max e min\min. Como max(f,g)=f+g+fg2\max(f,g) = \frac{f + g + \abs{f-g}}2, e analogamente para min\min, basta que fAˉfAˉf \in \bar{\mathcal A} \Rightarrow \abs f \in \bar{\mathcal A}: com M=f>0M = \norm f_\infty > 0, f=M(f/M)2\abs f = M\sqrt{(f/M)^2}, e o Lema 7.14 dá polinômios unu_n com un((f/M)2)f/Mu_n\bigl((f/M)^2\bigr) \to \abs f/M uniformemente; polinômios em membros da álgebra (com termo constante: as constantes lá estão) permanecem em Aˉ\bar{\mathcal A}.

Etapa 2: interpolação em dois pontos. Para xyx \neq y e a,bRa, b \in \R, algum gAg \in \mathcal A satisfaz g(x)=ag(x) = a, g(y)=bg(y) = b: tome hh que separe x,yx, y e ponha g=a+(ba)hh(x)h(y)h(x)g = a + (b - a)\frac{h - h(x)}{h(y) - h(x)}.

Etapa 3. Sejam fC(K)f \in \mathcal C(K), ε>0\varepsilon > 0. Para cada par x,yx, y escolha gx,yAg_{x,y} \in \mathcal A com gx,y(x)=f(x)g_{x,y}(x) = f(x), gx,y(y)=f(y)g_{x,y}(y) = f(y) (Etapa 2; para x=yx = y tome a função constante gx,x=f(x)g_{x,x} = f(x)). Fixe xx: para cada yy, o aberto Vy={gx,y<f+ε}V_y = \{g_{x,y} < f + \varepsilon\} contém yy; a compacidade extrai y1,,ymy_1, \dots, y_m com K=VyjK = \bigcup V_{y_j}, e hx=minjgx,yjAˉh_x = \min_j g_{x, y_j} \in \bar{\mathcal A} (Etapa 1) satisfaz hx<f+εh_x < f + \varepsilon em toda parte, além de hx(x)=f(x)h_x(x) = f(x). Agora varie xx: Wx={hx>fε}W_x = \{h_x > f - \varepsilon\} é aberto e contém xx; extraia x1,,xlx_1, \dots, x_l cobrindo KK, e h=maxihxiAˉh = \max_i h_{x_i} \in \bar{\mathcal A} satisfaz fε<h<f+εf - \varepsilon < h < f + \varepsilon: fhε\norm{f - h}_\infty \leq \varepsilon. Logo fAˉf \in \bar{\mathcal A}.

Corolário 7.16

(a) (Weierstrass) Os polinômios são densos em C([a,b],R)\mathcal C(\intcc ab, \R); os polinômios em nn variáveis são densos em C(K,R)\mathcal C(K, \R) para KRnK \subseteq \R^n compacto. (b) (Versão complexa) Se AC(K,C)\mathcal A \subseteq \mathcal C(K, \C) é uma subálgebra que contém as constantes, separa pontos e é estável por conjugação, então ela é densa. (c) (Versão trigonométrica) Os polinômios trigonométricos nNcneint\sum_{\abs n \leq N}c_n\eu^{\iu n t} são densos no espaço das funções contínuas 2π2\pi-periódicas com \norm\cdot_\infty.

Demonstração. (a) Os polinômios formam uma álgebra com constantes; as funções coordenadas separam os pontos de Rn\R^n. (b) As partes real e imaginária f+fˉ2\frac{f + \bar f}2, ffˉ2i\frac{f - \bar f}{2\iu} dos membros de A\mathcal A formam uma álgebra real ARC(K,R)\mathcal A_\R \subseteq \mathcal C(K, \R) com constantes; ela separa pontos (f(x)f(y)f(x) \ne f(y) força Ref\operatorname{Re}f ou Imf\operatorname{Im}f a separar). Aplique o teorema real e recombine. (c) Veja as funções 2π2\pi-periódicas como C(S1,C)\mathcal C(S^1, \C) (S1=R/2πZS^1 = \R/2\pi\Z, compacto: Exercício 6.5); a álgebra gerada por eit,eit\eu^{\iu t}, \eu^{-\iu t} e pelas constantes é estável por conjugação e separa os pontos do círculo (eit\eu^{\iu t} é injetora nele). Aplique (b).

Observação 7.17

A versão trigonométrica repara, e generaliza amplamente, a lacuna deixada no capítulo de Fourier do segundo ano: a densidade dos polinômios trigonométricos em (C(S1),2)(\mathcal C(S^1), \norm\cdot_2) decorre a fortiori (2\norm\cdot_2 \leq \norm\cdot_\infty a menos da constante de normalização), o que fará do sistema de Fourier uma base ortonormal no Capítulo 13, demonstrando enfim Parseval em plena generalidade.

7.5 Exercícios

Exercício 7.1

(a) Mostre que C([0,1],R)\mathcal C(\intcc01, \R) com f1=01f\norm f_1 = \int_0^1\abs f não é completo: as funções fnf_n iguais a 00 em [0,12]\intcc0{\frac12}, a 11 em [12+1n,1]\intcc{\frac12 + \frac1n}1 e afins entre esses trechos são de Cauchy para 1\norm\cdot_1 sem limite contínuo. (b) Mostre que um espaço normado em que toda série absolutamente convergente converge é completo. (Extraia de uma sequência de Cauchy uma subsequência com xnk+1xnk2k\norm{x_{n_{k+1}} - x_{n_k}} \leq 2^{-k}.)

Solução

Solução de Exercício 7.1.

(a) Para mnm \geq n, fnfmf_n - f_m se anula fora de um intervalo de comprimento 1n\frac1n e é limitada por 11: fnfm11n0\norm{f_n - f_m}_1 \leq \frac1n \to 0: de Cauchy. Se fnff_n \to f em 1\norm\cdot_1 com ff contínua: para α<12\alpha < \frac12 fixo, 0αf=lim0αffn+fnlim(ffn1+0)=0\int_0^{\alpha}\abs f = \lim \int_0^\alpha\abs{f - f_n + f_n} \leq \lim\bigl(\norm{f - f_n}_1 + 0\bigr) = 0 (fn0f_n \equiv 0 ali para nn grande), de modo que f0f \equiv 0 em [0,12)[0, \frac12) (continuidade); do mesmo modo f1f \equiv 1 em (12,1](\frac12, 1]: nenhuma função contínua faz as duas coisas. Logo o espaço é incompleto — o completado é L1L^1, construído no Capítulo 12.

(b) Seja (xn)(x_n) de Cauchy; escolha n1<n2<n_1 < n_2 < \cdots com xnk+1xnk2k\norm{x_{n_{k+1}} - x_{n_k}} \leq 2^{-k}. A série k(xnk+1xnk)\sum_k (x_{n_{k+1}} - x_{n_k}) converge absolutamente, logo converge; suas somas parciais são xnk+1xn1x_{n_{k+1}} - x_{n_1}, de modo que (xnk)(x_{n_k}) converge, e uma sequência de Cauchy com uma subsequência convergente converge.

Exercício 7.2

Usando Baire: (a) mostre que um espaço normado completo não tem base (algébrica) enumerável — deduza que o espaço dos polinômios não é completo para norma alguma; (b) mostre que, se uma sequência de funções contínuas fn ⁣:RRf_n \colon \R \to \R converge pontualmente para ff, o conjunto dos pontos de continuidade de ff é denso. (Para (b): admita ou demonstre que Ωδ={x:oscxf<δ}\Omega_\delta = \{x : \operatorname{osc}_x f < \delta\} é aberto, e mostre que ele é denso usando FN={x:fn(x)fm(x)δ/3 n,mN}F_{N} = \{x: \abs{f_n(x) - f_m(x)} \leq \delta/3\ \forall n,m \geq N\}, fechados que cobrem R\R; trabalhe em uma bola fechada arbitrária para aplicar Baire.)

Solução

Solução de Exercício 7.2.

(a) Suponha EE completo com base algébrica (en)nN(e_n)_{n\in\N} e seja Fn=Vect(e1,,en)F_n = \operatorname{Vect}(e_1, \dots, e_n): fechado (subespaços de dimensão finita são completos, logo fechados — volume do segundo ano), de interior vazio: se B(x,r)FnB(x, r) \subseteq F_n, tome vFnv \notin F_n; então x+r2vvB(x,r)Fnx + \frac{r}{2\norm v}v \in B(x,r) \setminus F_n, absurdo. Mas E=FnE = \bigcup F_n (todo vetor é uma combinação finita): contradiz Baire (Teorema 7.6). O espaço R[X]\R[X] tem a base enumerável (Xn)(X^n), de modo que nenhuma norma o torna completo.

(b) Fixe δ>0\delta > 0 e uma bola aberta não vazia BB; encontramos em BB um ponto de Ωδ={x:oscxf<δ}\Omega_\delta = \{x : \operatorname{osc}_xf < \delta\}, onde oscxf=infVxdiamf(V)\operatorname{osc}_xf = \inf_{V \ni x}\operatorname{diam} f(V). (Ωδ\Omega_\delta é aberto: se diamf(V)<δ\operatorname{diam}f(V) < \delta para um aberto VxV \ni x, todo yVy \in V tem oscilação <δ< \delta.) Os conjuntos

FN={x:fn(x)fm(x)δ3  n,mN}F_N = \bigl\{x : \abs{f_n(x) - f_m(x)} \leq \tfrac\delta3\ \ \forall\, n, m \geq N \bigr\}

são fechados (interseções de pré-imagens de fechados) e cobrem R\R (a convergência pontual torna (fn(x))(f_n(x)) de Cauchy). Aplicando Baire dentro do completo Bˉ\bar B: algum FNBˉF_N \cap \bar B contém uma bola B=B(x0,ρ)B' = B(x_0, \rho). Fazendo mm \to \infty: fNfδ3\abs{f_N - f} \leq \frac\delta3 em BB'. Pela continuidade de fNf_N em x0x_0, encolha para Bx0B'' \ni x_0 onde fNfN(x0)δ3\abs{f_N - f_N(x_0)} \leq \frac\delta3; então, para xBx \in B'',

f(x)f(x0)ffN(x)+fN(x)fN(x0)+fNf(x0)δ:\abs{f(x) - f(x_0)} \leq \abs{f - f_N}(x) + \abs{f_N(x) - f_N(x_0)} + \abs{f_N - f}(x_0) \leq \delta:

diamf(B)2δ\operatorname{diam} f(B'') \leq 2\delta, de modo que x0Ω3δBx_0 \in \Omega_{3\delta} \cap B. Assim, cada Ωδ\Omega_\delta é aberto e denso; kΩ1/k\bigcap_k\Omega_{1/k} — o conjunto dos pontos de continuidade — é denso por Baire.

Exercício 7.3 ★★

(a) Mostre que f(x)=12(x+ax)f(x) = \frac12\bigl(x + \frac ax\bigr) (a>1a > 1) é uma contração de [a,+)[\sqrt a, +\infty) e identifique seu ponto fixo — o método de Heron. Estime o número de iterações para uma precisão de 101210^{-12} partindo de x0=ax_0 = a, no caso a=2a = 2. (b) (Equação de Kepler) Para 0e<10 \leq e < 1 e mRm \in \R, mostre que x=m+esinxx = m + e\sin x tem uma única solução, que depende continuamente de mm.

Solução

Solução de Exercício 7.3.

(a) f(x)=12(x+ax)f(x) = \frac12(x + \frac ax) leva [a,)[\sqrt a, \infty) em si mesmo (MA–MG: f(x)xax=af(x) \geq \sqrt{x \cdot \frac ax} = \sqrt a), e f(x)=12(1ax2)[0,12)f'(x) = \frac12(1 - \frac a{x^2}) \in [0, \frac12) ali: uma contração 12\frac12-lipschitziana de um conjunto fechado (completo). Ponto fixo: x=f(x)    x2=ax = f(x) \iff x^2 = a: x=ax^* = \sqrt a. Velocidade (Teorema 7.4): d(xn,a)2n+1d(x1,x0)d(x_n, \sqrt a) \leq 2^{-n+1}\,d(x_1, x_0). Para a=2a = 2, x0=2x_0 = 2: d(x1,x0)=12d(x_1, x_0) = \frac12, de modo que n=40n = 40 garante 240<10122^{-40} < 10^{-12}. (Na realidade, o método de Newton converge quadraticamente: um punhado de iterações basta; a estimativa por contração é pessimista, mas gratuita.)

(b) fm(x)=m+esinxf_m(x) = m + e\sin x é ee-lipschitziana com e<1e < 1 no completo R\R: único ponto fixo x(m)x(m). Para dois parâmetros:

x(m)x(m)=fm(x(m))fm(x(m))mm+ex(m)x(m),\abs{x(m) - x(m')} = \abs{f_m(x(m)) - f_{m'}(x(m'))} \leq \abs{m - m'} + e\abs{x(m) - x(m')},

de modo que x(m)x(m)mm1e\abs{x(m) - x(m')} \leq \frac{\abs{m - m'}}{1 - e}: até lipschitziana em mm.

Exercício 7.4 ★★

(a) Sejam XX completo e f ⁣:XXf \colon X \to X tal que algum iterado fpf^p é uma contração. Mostre que ff tem um único ponto fixo. Aplicação: o operador integral TT em C([0,a])\mathcal C(\intcc0a), Tf(x)=0xfTf(x) = \int_0^x f, satisfaz Tpap/p!\norm{T^p} \leq a^p/p! — deduza que u=g+λTuu = g + \lambda Tu é solúvel para toda λ\lambda. (b) (Edelstein) Sejam KK compacto e f ⁣:KKf\colon K \to K com d(f(x),f(y))<d(x,y)d(f(x), f(y)) < d(x, y) para xyx \neq y. Mostre que ff tem um único ponto fixo, mas que a taxa de contração pode se perder: em X=[1,+)X = [1, +\infty) (completo, não compacto), f(x)=x+1xf(x) = x + \frac1x não tem ponto fixo, apesar de diminuir estritamente as distâncias.

Solução

Solução de Exercício 7.4.

(a) Seja xx^* o único ponto fixo de fpf^p. Então fp(f(x))=f(fp(x))=f(x)f^p(f(x^*)) = f(f^p(x^*)) = f(x^*): f(x)f(x^*) é um ponto fixo de fpf^p, de modo que f(x)=xf(x^*) = x^*. Um ponto fixo de ff é um de fpf^p: a unicidade se transfere. Para TT: por indução Tpf(x)fxp/p!\abs{T^pf(x)} \leq \norm f_\infty x^p/p! (cada integração acrescenta um fator xk\frac xk), de modo que Tpap/p!\norm{T^p} \leq a^p/p!. A aplicação S(u)=g+λTuS(u) = g + \lambda Tu satisfaz Sp(u)Sp(v)=λpTp(uv)S^p(u) - S^p(v) = \lambda^pT^p(u - v), de norma λpap/p!uv0\leq \abs\lambda^pa^p/p!\,\norm{u - v} \to 0: algum SpS^p é uma contração, e SS tem um único ponto fixo: a equação de Volterra u=g+λTuu = g + \lambda Tu é unicamente solúvel para toda λ\lambda.

(b) φ(x)=d(x,f(x))\varphi(x) = d(x, f(x)) é contínua no compacto KK: atinge seu mínimo em algum x0x_0. Se f(x0)x0f(x_0) \neq x_0, então φ(f(x0))=d(f(x0),f2(x0))<d(x0,f(x0))=minφ\varphi(f(x_0)) = d(f(x_0), f^2(x_0)) < d(x_0, f(x_0)) = \min\varphi: absurdo. Unicidade: dois pontos fixos xyx \ne y dariam d(x,y)=d(f(x),f(y))<d(x,y)d(x,y) = d(f(x), f(y)) < d(x,y). Sem compacidade: f(x)=x+1xf(x) = x + \frac1x em [1,)[1, \infty) satisfaz, para x<yx < y, f(y)f(x)=(yx)(11xy)<yxf(y) - f(x) = (y - x)\bigl(1 - \frac1{xy}\bigr) < y - x, e, no entanto, f(x)>xf(x) > x sempre: nenhum ponto fixo — a diminuição estrita das distâncias é mais fraca que um fator de contração uniforme.

Exercício 7.5 ★★

(a) Duas aplicações contínuas em um espaço de Hausdorff que coincidem em um subconjunto denso coincidem em toda parte; onde isso foi usado no capítulo? (b) Sejam DXD \subseteq X denso e f ⁣:DYf \colon D \to Y uma bijeção isométrica sobre um subconjunto denso de um YY completo, com XX completo. Mostre que ff se estende a uma bijeção isométrica XYX \to Y. Deduza novamente a unicidade dos completamentos.

Solução

Solução de Exercício 7.5.

(a) O conjunto A={g=h}A = \{g = h\} é a pré-imagem da diagonal ΔY\Delta_Y por x(g(x),h(x))x \mapsto (g(x), h(x)), contínua; ΔY\Delta_Y é fechada porque YY é de Hausdorff (para y1y2y_1 \neq y_2, vizinhanças abertas disjuntas dão um bloco aberto em torno de (y1,y2)(y_1, y_2) disjunto da diagonal, de modo que o complementar de ΔY\Delta_Y é aberto): logo AA é fechado, contém um conjunto denso e é igual a XX. Usado: a unicidade no Teorema 7.2 e, portanto, na unicidade dos completados.

(b) ff, uma isometria, é uniformemente contínua: estende-se a F ⁣:XYF\colon X \to Y (Teorema 7.2), ainda isométrica (a relação d(F(x),F(x))=d(x,x)d(F(x), F(x')) = d(x, x') vale num conjunto denso de pares e ambos os membros são contínuos). Do mesmo modo, f1 ⁣:f(D)Xf^{-1}\colon f(D) \to X se estende a G ⁣:YXG \colon Y \to X. A composta GFG \circ F é contínua e fixa o denso DD: é idX\mathrm{id}_X (parte (a)); simetricamente FG=idYF \circ G = \mathrm{id}_Y. Logo FF é uma bijeção isométrica. Unicidade dos completados: aplique isso a D=XD = X mergulhado densamente em dois completados.

Exercício 7.6 ★★

Quais das famílias seguintes são equicontínuas, pontualmente limitadas e relativamente compactas em C([0,1])\mathcal C(\intcc01)?

{xsin(nx)}n,{xxn}n,\{x \mapsto \sin(nx)\}_{n},\qquad \{x \mapsto x^n\}_n,
{fC1:f1, f1},{f:Lip(f)1, f(0)=0}.\Bigl\{f \in \mathcal C^1 : \norm f_\infty \leq 1,\ \norm{f'}_\infty \leq 1\Bigr\},\qquad \{f : \operatorname{Lip}(f)\leq 1,\ f(0) = 0\}.

Justifique cada resposta com Ascoli ou com uma sequência que sirva de contraexemplo.

Solução

Solução de Exercício 7.6.

{sin(nx)}\{\sin(nx)\}: pontualmente limitada por 11; não equicontínua: em x=0x = 0, sin(nπ2n)=1\sin(n\cdot\frac{\pi}{2n}) = 1 com π2n0\frac\pi{2n} \to 0, violando qualquer δ\delta comum para ε=12\varepsilon = \frac12. Não relativamente compacta (necessidade em Ascoli, Teorema 7.11).

{xn}\{x^n\}: limitada; não equicontínua em 11: 1(1δ)n11 - (1 - \delta)^n \to 1 quando nn \to \infty para δ\delta fixo. Não relativamente compacta — coerentemente, seu limite pontual é descontínuo, de modo que nenhuma subsequência converge uniformemente.

{f1,f1}\{\norm f_\infty \leq 1, \norm{f'}_\infty \leq 1\}: a desigualdade do valor médio torna a família 11-lipschitziana, logo equicontínua; limitada: relativamente compacta por Ascoli. (Não compacta: ela não é fechada — limites uniformes não precisam ser C1\mathcal C^1; seu fecho são as funções 11-lipschitzianas de norma 1\leq 1.)

{Lip(f)1,f(0)=0}\{\operatorname{Lip}(f) \leq 1, f(0) = 0\}: equicontínua; pontualmente limitada (f(x)x1\abs{f(x)} \leq x \leq 1); e fechada por limites uniformes (a desigualdade de Lipschitz e o valor em 00 passam ao limite): compacta.

Exercício 7.7 ★★★

(Operadores integrais compactos) Sejam kC([0,1]2)k \in \mathcal C(\intcc01^2) e, para fC([0,1])f \in \mathcal C(\intcc01), Tf(x)=01k(x,y)f(y) ⁣dyTf(x) = \int_0^1k(x,y)f(y)\,\dd y. (a) Mostre que TT leva a bola unitária de C([0,1])\mathcal C(\intcc01) em um conjunto equicontínuo e uniformemente limitado; conclua que TT é um operador compacto: as imagens de conjuntos limitados são relativamente compactas. (b) Deduza que, se (fn)(f_n) é limitada, (Tfn)(Tf_n) tem subsequência uniformemente convergente, e que TT não pode ser uma bijeção de inversa contínua. (A imagem da bola unitária seria uma vizinhança compacta de 00 em C([0,1])\mathcal C(\intcc01): proibido pelo teorema de Riesz do segundo ano.)

Solução

Solução de Exercício 7.7.

(a) Para f1\norm f_\infty \leq 1: Tf(x)k\abs{Tf(x)} \leq \norm k_\infty, e

Tf(x)Tf(x)01k(x,y)k(x,y) ⁣dyωk(xx),\abs{Tf(x) - Tf(x')} \leq \int_0^1\abs{k(x,y) - k(x',y)}\,\dd y \leq \omega_k\bigl(\abs{x - x'}\bigr),

onde ωk\omega_k é um módulo de continuidade uniforme de kk no quadrado compacto (Heine): a imagem da bola unitária é uniformemente limitada e equicontínua, logo relativamente compacta (Ascoli). Por linearidade, todo conjunto limitado tem imagem relativamente compacta: TT é um operador compacto.

(b) A afirmação sobre subsequências é a definição de compacidade relativa aplicada a {Tfn}\{Tf_n\}. Se TT fosse bijetor com inverso contínuo, então T(B(0,1))B(0,ε)T(B(0,1)) \supseteq B(0, \varepsilon) para algum ε>0\varepsilon > 0 (T1T^{-1} contínuo em 00); a bola fechada Bˉ(0,ε)\bar B(0,\varepsilon), subconjunto fechado do compacto T(B(0,1))\overline{T(B(0,1))}, seria compacta — impossível no espaço de dimensão infinita C([0,1])\mathcal C(\intcc01) pelo teorema de Riesz (volume do segundo ano).

Exercício 7.8 ★★

Demonstre ou refute, para fn ⁣:[0,1]Rf_n \colon \intcc01 \to \R contínuas: (a) fn0f_n \downarrow 0 pontualmente \Rightarrow uniformemente (Dini — redemonstre-o); (b) o mesmo sem monotonicidade; (c) o mesmo com monotonicidade, mas com ff descontínua; (d) o mesmo com monotonicidade e limite contínuo, mas em (0,1)\intoo01.

Solução

Solução de Exercício 7.8.

(a) Dini: veja o Lema 7.13 — o argumento de cobertura. (b) Falso: o pico móvel fn(x)=max(0,1nx1)f_n(x) = \max(0, 1 - \abs{nx - 1}) tende a 00 pontualmente (para x>0x > 0, fn(x)=0f_n(x) = 0 assim que n>2/xn > 2/x; fn(0)=0f_n(0) = 0), mas fn=1\norm{f_n}_\infty = 1. (c) Falso: fn(x)=xnf_n(x) = x^n decresce para a descontínua 1{1}\mathbf 1_{\{1\}}; sup[0,1]fnf=sup[0,1)xn=1\sup_{[0,1]}\abs{f_n - f} = \sup_{[0,1)} x^n = 1. (d) Falso: xn0x^n \downarrow 0 pontualmente no não compacto (0,1)\intoo01, com sup(0,1)xn=1\sup_{(0,1)}x^n = 1. Cada hipótese de Dini é necessária.

Exercício 7.9 ★★

(a) (Os momentos determinam) Seja fC([0,1])f \in \mathcal C(\intcc01) com 01f(x)xn ⁣dx=0\int_0^1 f(x)\,x^n\,\dd x = 0 para todo nNn \in \N. Mostre que f=0f = 0. (Aproxime ff uniformemente por polinômios e calcule f2\int f^2.) (b) Mostre que os polinômios pares são densos em C([0,1])\mathcal C(\intcc01) mas não em C([1,1])\mathcal C(\intcc{-1}1); onde falha a hipótese de Stone–Weierstrass? (c) A álgebra gerada apenas por xeixx \mapsto \eu^{\iu x} (sem eix\eu^{-\iu x}) é densa em C(S1,C)\mathcal C(S^1, \C)? (Considere 02πf(t)eit ⁣dt\int_0^{2\pi}f(t)\,\eu^{\iu t}\dd t.)

Solução

Solução de Exercício 7.9.

(a) Por linearidade, 01fP=0\int_0^1 fP = 0 para todo polinômio PP. Escolha PnfP_n \to f uniformemente (Corolário 7.16): 01f2=lim01fPn=0\int_0^1 f^2 = \lim\int_0^1 fP_n = 0, e a função contínua f20f^2 \geq 0 de integral nula se anula identicamente.

(b) Em [0,1]\intcc01: os polinômios em x2x^2 formam uma álgebra com as constantes, que separa pontos (xx2x \mapsto x^2 é injetora em [0,1]\intcc01): densa por Stone–Weierstrass. Em [1,1]\intcc{-1}1: x2x^2 assume valores iguais em ±x\pm x, e todo polinômio em x2x^2 também: um limite uniforme desses é uma função par. Se funções pares gng_n convergissem uniformemente para a identidade, então x=limgn(x)=limgn(x)=xx = \lim g_n(x) = \lim g_n(-x) = -x para todo xx: absurdo — não é densa. A hipótese de separação falha nos pares {x,x}\{x, -x\}.

(c) Não. Para ff na álgebra A\mathcal A gerada pelas constantes e por eit\eu^{\iu t} — combinações lineares de eint\eu^{\iu nt}, n0n \geq 0 —, tem-se Λ(f)=02πf(t)eit ⁣dt=0\Lambda(f) = \int_0^{2\pi}f(t)\,\eu^{\iu t}\,\dd t = 0 (cada 02πei(n+1)t ⁣dt=0\int_0^{2\pi}\eu^{\iu(n+1)t}\dd t = 0). Λ\Lambda é contínua para \norm\cdot_\infty (Λ(f)2πf\abs{\Lambda(f)}\leq 2\pi\norm f_\infty), de modo que Λ\Lambda se anula em Aˉ\bar{\mathcal A}; mas Λ(eit)=2π0\Lambda(\eu^{-\iu t}) = 2\pi \neq 0: eitAˉ\eu^{-\iu t} \notin \bar{\mathcal A}. (Stone–Weierstrass não se aplica: A\mathcal A não é estável por conjugação — e o obstáculo é precisamente o que a teoria das funções holomorfas sistematizará no Capítulo 16.)

Exercício 7.10 ★★★

(Limitação uniforme, versão métrica) Sejam XX um espaço métrico completo e FC(X,R)\mathcal F \subseteq \mathcal C(X, \R) uma família pontualmente limitada: supfFf(x)<\sup_{f \in \mathcal F}\abs{f(x)} < \infty para cada xx. Mostre que existe um aberto não vazio UXU \subseteq X no qual F\mathcal F é uniformemente limitada: supfsupUf<\sup_{f}\sup_U \abs f < \infty. (Considere Fn={x:f(x)n f}F_n = \{x : \abs{f(x)} \leq n\ \forall f\}.) Este é o motor por trás de Banach–Steinhaus no Capítulo 8.

Solução

Solução de Exercício 7.10.

Fn=fF{x:f(x)n}F_n = \bigcap_{f \in \mathcal F}\{x : \abs{f(x)} \leq n\} é uma interseção de fechados: fechado. A limitação pontual dá X=nFnX = \bigcup_n F_n. Baire (Teorema 7.6) fornece n0n_0 com U=F˚n0U = \mathring F_{n_0} \neq \varnothing: em UU, fn0\abs f \leq n_0 para toda fFf \in \mathcal F simultaneamente.

Exercício 7.11 ★★

(C1\mathcal C^1 precisa de sua própria norma) Em E=C1([0,1],R)E = \mathcal C^1(\intcc01, \R), considere fC1=f+f\norm f_{\mathcal C^1} = \norm f_\infty + \norm{f'}_\infty. (a) Mostre que (E,C1)(E, \norm\cdot_{\mathcal C^1}) é completo (uma sequência de Cauchy para C1\mathcal C^1 tem fnff_n \to f e fngf_n' \to g uniformemente; identifique g=fg = f' passando ao limite em fn(x)=fn(0)+0xfnf_n(x) = f_n(0) + \int_0^xf_n'). (b) Mostre que (E,)(E, \norm\cdot_\infty) não é completo: exiba um limite uniforme de funções C1\mathcal C^1 que não é derivável (por exemplo, aproximações suaves de x12\abs{x - \tfrac12}). (c) Deduza de (a), (b) e do círculo de ideias da aplicação aberta — ou diretamente — que nenhuma constante CC satisfaz fCf\norm{f'}_\infty \leq C\,\norm f_\infty em EE: exiba uma sequência que o ateste. A derivação é ilimitada; esse é o precipício por trás do Teorema 7.9.

Solução

Solução de Exercício 7.11.

(a) Uma sequência de Cauchy para C1\norm\cdot_{\mathcal C^1} é uniformemente de Cauchy junto com suas derivadas: fnff_n \to f e fngf_n' \to g uniformemente, com f,gf, g contínuas. Passando ao limite (a convergência uniforme o permite sob o sinal de integral) em fn(x)=fn(0)+0xfn(t) ⁣dtf_n(x) = f_n(0) + \int_0^xf_n'(t)\,\dd t, obtém-se f(x)=f(0)+0xgf(x) = f(0) + \int_0^xg: ff é C1\mathcal C^1 com f=gf' = g, e fnfC10\norm{f_n - f}_{\mathcal C^1} \to 0. Completo.

(b) h(x)=x12h(x) = \abs{x - \frac12} é um limite uniforme de funções C1\mathcal C^1, por exemplo hn(x)=(x12)2+1nh_n(x) = \sqrt{(x - \frac12)^2 + \frac1n} (hnh1n\abs{h_n - h} \leq \frac1{\sqrt n} pela cota da quantidade conjugada), e, no entanto, hEh \notin E: a norma sup\sup em EE não é completa — seu completado é C([0,1])\mathcal C(\intcc01).

(c) fn(x)=sin(2πnx)f_n(x) = \sin(2\pi nx) tem fn=1\norm{f_n}_\infty = 1 e fn=2πn\norm{f_n'}_\infty = 2\pi n \to \infty: não existe CC. (Conceitualmente: se a derivação fosse limitada para a norma do sup, as duas normas de (a)–(b) seriam equivalentes, tornando (E,)(E, \norm\cdot_\infty) completo — contradizendo (b). Essa ilimitação é exatamente a razão pela qual funções contínuas genéricas podem não ser deriváveis em ponto algum, Teorema 7.9.)

Exercício 7.12 ★★★

(Lema de Croft) Seja f ⁣:(0,)Rf\colon\intoo0\infty\to\R contínua e suponha que, para todo x>0x > 0, f(nx)0f(nx) \to 0 quando o inteiro nn \to \infty. Mostre que f(t)0f(t) \to 0 quando t+t \to +\infty. (Fixe ε>0\varepsilon > 0; os conjuntos FN={x>0:f(nx)ε  nN}F_N = \{x > 0 : \abs{f(nx)} \leq \varepsilon\ \ \forall n \geq N\} são fechados e cobrem (0,)\intoo0\infty; Baire em algum intervalo [a,b]\intcc abNN e um subintervalo [a,b]FN\intcc{a'}{b'} \subseteq F_N; então os dilatados [na,nb]\bigl[na', nb'\bigr], nNn \geq N, cobrem toda uma vizinhança de ++\infty assim que n(ba)an(b' - a') \geq a'.) Onde se usa a hipótese “para todo xx” (e não apenas para xx racional)?

Solução

Solução de Exercício 7.12.

Fixe ε>0\varepsilon > 0. Cada FNF_N é uma interseção, sobre nNn \geq N, de pré-imagens do fechado [ε,ε]\intcc{-\varepsilon} \varepsilon pela contínua xf(nx)x \mapsto f(nx): fechado. A hipótese diz que todo x>0x > 0 está em algum FNF_N. Por Baire aplicado dentro do completo [a,b]\intcc ab (qualquer 0<a<b0 < a < b), algum FNF_N é denso num subintervalo; sendo fechado, ele contém um intervalo [a,b]\intcc{a'}{b'} com 0<a<b0 < a' < b'. Então, para todo nmax(N,aba)n \geq \max(N, \frac{a'}{b' - a'}), os intervalos [na,nb]\intcc{na'}{nb'} e [(n+1)a,(n+1)b]\intcc{(n+1)a'}{(n+1)b'} se sobrepõem (nb(n+1)anb' \geq (n+1)a'), de modo que

nn0[na,nb][n0a,+),\bigcup_{n \geq n_0}\intcc{na'}{nb'} \supseteq \intco{n_0a'}{+\infty},

e todo tn0at \geq n_0a' é t=nxt = nx com nNn \geq N, x[a,b]FNx \in \intcc{a'}{b'} \subseteq F_N: f(t)ε\abs{f(t)} \leq \varepsilon. Logo lim suptfε\limsup_{t\to\infty}\abs f \leq \varepsilon para todo ε\varepsilon: f0f \to 0. A hipótese completa é necessária porque FNF_N precisa cobrir um intervalo inteiro de xx — só com xx racionais, a união dos FNF_N é enumerável e Baire nada dá; e, de fato, há contraexemplos contínuos que se anulam ao longo de todas as semirretas racionais, mas não no infinito.

7.6 Problema: o teorema de existência de Peano

Problema 7.1

Problema de fim de semana — existência de soluções de x=f(t,x)x' = f(t, x) sem Lipschitz

Cauchy–Lipschitz (segundo ano; redemonstrado no Capítulo 19) exige ff lipschitziana em xx. Peano (1890): a continuidade de ff já garante a existência — embora não a unicidade. Demonstramo-lo com poligonais de Euler e Ascoli. Cenário: f ⁣:RRdf \colon R \to \R^d contínua no retângulo R=[t0a,t0+a]×Bˉ(x0,b)R×RdR = \intcc{t_0 - a}{t_0 + a}\times \bar B(x_0, b) \subseteq \R\times\R^d, M=supRfM = \sup_R\norm f, e

T=min(a, b/M)(se M=0 o problema eˊ trivial).T = \min\bigl(a,\ b/M\bigr) \qquad (\text{se } M = 0 \text{ o problema é trivial}).

Parte I — Poligonais de Euler. Para n1n \geq 1, subdivida [t0,t0+T][t_0, t_0 + T] por tk=t0+kT/nt_k = t_0 + kT/n (0kn0 \leq k \leq n) e defina φn\varphi_n de maneira afim por partes: φn(t0)=x0\varphi_n(t_0) = x_0 e, em [tk,tk+1][t_k, t_{k+1}],

φn(t)=φn(tk)+(ttk)f(tk,φn(tk)).\varphi_n(t) = \varphi_n(t_k) + (t - t_k)\,f\bigl(t_k, \varphi_n(t_k)\bigr).
  1. Mostre por indução que φn\varphi_n está bem definida, com φn(t)x0M(tt0)b\norm{\varphi_n(t) - x_0} \leq M(t - t_0) \leq b em [t0,t0+T][t_0, t_0 + T] — de modo que os pontos de avaliação permanecem em RR. (É aqui que Tb/MT \leq b/M entra.)
  2. Mostre que cada φn\varphi_n é MM-lipschitziana.
  3. Deduza de Arzelà–Ascoli (Teorema 7.11) que uma subsequência (φnj)(\varphi_{n_j}) converge uniformemente em [t0,t0+T][t_0, t_0 + T] para alguma φ\varphi, ela própria MM-lipschitziana e com φ(t0)=x0\varphi(t_0) = x_0.

Parte II — O limite resolve a equação. Defina o defeito Δn(t)=φn(t)f(t,φn(t))\Delta_n(t) = \varphi_n'(t) - f\bigl(t, \varphi_n(t)\bigr) nos pontos que não são da grade.

  1. Mostre que ff é uniformemente contínua em RR e deduza: para todo ε>0\varepsilon > 0 existe n0n_0 tal que, para nn0n \geq n_0 e todo tt fora da grade, Δn(t)ε\norm{\Delta_n(t)} \leq \varepsilon. (Em (tk,tk+1)(t_k, t_{k+1}), φn(t)=f(tk,φn(tk))\varphi_n'(t) = f(t_k, \varphi_n(t_k)), e (t,φn(t))(t, \varphi_n(t)) está a distância no máximo (1+M)T/n(1 + M)\,T/n de (tk,φn(tk))(t_k, \varphi_n(t_k)).)
  2. Estabeleça a forma integral: para todo tt,

    φn(t)=x0+t0tf(s,φn(s)) ⁣ds+t0tΔn(s) ⁣ds,\varphi_n(t) = x_0 + \int_{t_0}^{t} f\bigl(s, \varphi_n(s)\bigr)\dd s + \int_{t_0}^t \Delta_n(s)\,\dd s,

    sendo o integrando do meio contínuo por partes.

  3. Passe ao limite ao longo de (nj)(n_j): mostre que f(s,φnj(s))f(s,φ(s))f(s, \varphi_{n_j}(s)) \to f(s, \varphi(s)) uniformemente (continuidade uniforme de ff, de novo), e conclua

    φ(t)=x0+t0tf(s,φ(s)) ⁣ds.\varphi(t) = x_0 + \int_{t_0}^t f\bigl(s, \varphi(s)\bigr)\dd s .
  4. Deduza que φ\varphi é C1\mathcal C^1 em [t0,t0+T][t_0, t_0 + T] e resolve x=f(t,x)x' = f(t, x), x(t0)=x0x(t_0) = x_0; estenda a construção a [t0T,t0][t_0 - T, t_0] (inversão do tempo). Este é o teorema de Peano.

Parte III — A unicidade falha de verdade. Considere x=2xx' = 2\sqrt{\abs x}, x(0)=0x(0) = 0, em R\R.

  1. Verifique que f(x)=2xf(x) = 2\sqrt{\abs x} é contínua mas não é lipschitziana em vizinhança alguma de 00.
  2. Verifique que x0x \equiv 0 e, para todo c0c \geq 0,

    xc(t)={0tc,(tc)2tc,x_c(t) = \begin{cases} 0 & t \leq c,\\ (t - c)^2 & t \geq c,\end{cases}

    são todas soluções por (0,0)(0,0): um contínuo de soluções distintas.

  3. Onde exatamente a iteração de Picard (ponto fixo de Banach) se quebra para esse ff?

Parte IV — Limites do método.

  1. Mostre que o teorema de Peano falha em dimensão infinita: admitimos (ou você pode aceitar de boa-fé) o exemplo clássico de Dieudonné no espaço c0c_0 das sequências nulas; em vez disso, demonstre o ingrediente de dimensão finita que ali falha: a bola unitária fechada de c0c_0 (norma do supremo) não é compacta — exiba uma sequência limitada sem subsequência convergente e explique qual etapa da Parte I se quebra.
  2. Resuma: que hipóteses dão existência? e existência mais unicidade? Enuncie com precisão os dois teoremas (Peano; Cauchy–Lipschitz) lado a lado.

Parte V — Osgood: unicidade além de Lipschitz. Seja ω ⁣:(0,)(0,)\omega\colon\intoo0\infty\to\intoo0\infty contínua, não decrescente, com

01 ⁣drω(r)=+(divergeˆncia em 0),\int_0^1\frac{\dd r}{\omega(r)} = +\infty \qquad(\text{divergência em } 0),

e suponha que ff satisfaça f(t,x)f(t,y)ω(xy)\norm{f(t, x) - f(t, y)} \leq \omega\bigl(\norm{x - y}\bigr) em RR.

  1. Verifique que ω(r)=Lr\omega(r) = Lr serve (é lipschitziana), que ω(r)=rlog1r\omega(r) = r\log\frac1r (estendida por continuidade, para rr pequeno) serve, embora não seja O(r)O(r), e que ω(r)=2r\omega(r) = 2\sqrt r não serve. Calcule a integral em cada caso.
  2. Sejam x1,x2x_1, x_2 soluções da equação em [t0,t0+T][t_0, t_0 + T] com x1(t0)=x2(t0)x_1(t_0) = x_2(t_0), e ponha δ(t)=x1(t)x2(t)\delta(t) = \norm{x_1(t) - x_2(t)}. Mostre, apenas a partir das formas integrais, que para t0stt_0 \leq s \leq t:

    δ(t)δ(s)+stω(δ(v)) ⁣dv.\delta(t) \leq \delta(s) + \int_s^t\omega\bigl(\delta(v)\bigr)\dd v .
  3. (Teorema de Osgood) Suponha δ(t1)>0\delta(t_1) > 0 para algum t1t_1, e seja τ=sup{tt1:δ(t)=0}\tau = \sup\{t \leq t_1 : \delta(t) = 0\}. Para s(τ,t1)s \in \intoo\tau{t_1}, ponha u(t)=δ(s)+stω(δ(v)) ⁣dvu(t) = \delta(s) + \int_s^t\omega(\delta(v))\,\dd v. Mostre que δu\delta \leq u, u=ω(δ)ω(u)u' = \omega(\delta) \leq \omega(u), e deduza

    δ(s)u(t1) ⁣drω(r)t1st1τ.\int_{\delta(s)}^{u(t_1)}\frac{\dd r}{\omega(r)} \leq t_1 - s \leq t_1 - \tau .

    Faça sτs \downarrow \tau e obtenha uma contradição com a divergência da integral. Conclua: soluções que passam por uma mesma condição inicial coincidem — unicidade sob a condição de Osgood.

  4. Tire as consequências: a unicidade de Cauchy–Lipschitz é o caso ω(r)=Lr\omega(r) = Lr; a equação x=xlog1xx' = x\log\frac1{\abs x} (estendida por 00 em 00) tem soluções únicas embora seu lado direito não seja lipschitziano em 00; e, para x=2xx' = 2\sqrt{\abs x}, a convergência de 0 ⁣dr2r\int_0\frac{\dd r}{2\sqrt r} é exatamente o que permite a uma solução deixar 00 em tempo finito — compare o valor da integral 0h2 ⁣dr2r=h\int_0^{h^2}\frac{\dd r}{2\sqrt r} = h com o comportamento de fuga de xcx_c.

Parte VI — Taxas, esquemas, funis.

  1. (Lema integral de Grönwall) Seja e,η0e, \eta \geq 0 contínua em [t0,t0+T][t_0, t_0+T] com e(t)t0t(Le(s)+η(s)) ⁣dse(t) \leq \int_{t_0} ^t\bigl(L\,e(s) + \eta(s)\bigr)\dd s para todo tt. Mostre que

    e(t)supηL(eL(tt0)1)e(t) \leq \frac{\sup\eta}{L}\bigl(\eu^{L(t - t_0)} - 1\bigr)

    (ponha G(t)=t0t(Le+η)G(t) = \int_{t_0}^t(Le + \eta), note que GLG+supηG' \leq LG + \sup\eta e derive eLtG(t)\eu^{-Lt}G(t)).

  2. (Euler converge com uma taxa) Suponha agora ff LL-lipschitziana em xx e LL'-lipschitziana em tt em RR. Combinando a cota do defeito da questão 4 (tornada quantitativa: Δn(L+LM)T/n\norm{\Delta_n} \leq (L' + LM)T/n) com a questão 17, demonstre

    sup[t0,t0+T]φnφ    (L+LM)TneLT1L=O(1n),\sup_{[t_0, t_0+T]}\norm{\varphi_n - \varphi} \;\leq\; \frac{(L' + LM)\,T}{n}\cdot \frac{\eu^{LT} - 1}{L} = O\Bigl(\frac1n\Bigr),

    em que φ\varphi é a solução: com dados lipschitzianos, a sequência inteira converge, com uma taxa explícita — sem precisar de subsequências. Por que a unicidade eleva a convergência de subsequências à convergência plena, mesmo sem esse cálculo?

  3. (O esquema escolhe) Para x=2xx' = 2\sqrt{\abs x}, x(0)=0x(0) = 0: mostre que toda poligonal de Euler é identicamente nula, de modo que o esquema converge para a solução x0x \equiv 0; mas, iniciado em x(0)=ε>0x(0) = \varepsilon > 0, ele converge (quando nn \to \infty e, em seguida, ε0\varepsilon \to 0) para tt2t \mapsto t^2, uma solução diferente pela origem. A não unicidade ressurge como sensibilidade do esquema numérico a perturbações.
  4. Mostre que o conjunto S\mathcal S de todas as soluções de x=f(t,x)x' = f(t,x), x(t0)=x0x(t_0) = x_0 em [t0,t0+T][t_0, t_0+T] (com valores em Bˉ(x0,b)\bar B(x_0, b)) é não vazio (Parte II), uniformemente MM-lipschitziano e fechado em (C([t0,t0+T],Rd),)\bigl(\mathcal C([t_0, t_0+T], \R^d), \norm\cdot_\infty\bigr); conclua por Ascoli que S\mathcal S é compacto. (O teorema de Kneser acrescenta que S\mathcal S é conexo; não o demonstraremos.)
  5. Verifique o fenômeno de Kneser no exemplo: para x=2xx' = 2\sqrt{\abs x}, x(0)=0x(0) = 0, em [0,1][0, 1], mostre que S={xc:c[0,]}\mathcal S = \{x_c : c \in \intcc0\infty\} com x0x_\infty \equiv 0 (para uma solução qualquer, ponha c=sup{t:x(t)=0}c = \sup\{t : x(t) = 0\} e integre (x)=1(\sqrt x)' = 1 em {x>0}\{x > 0\}), que cxcc \mapsto x_c é contínua de [0,]\intcc0\infty (compactificação por um ponto, isto é, com c=c = \infty colado como limite) em C([0,1])\mathcal C([0,1]), e conclua que S\mathcal S é de fato compacto e conexo — um funil em forma de segmento.
  6. (Conjuntos atingíveis) Deduza da questão 20 que, para cada tt fixado, o conjunto atingível S(t)={x(t):xS}\mathcal S(t) = \{x(t) : x \in \mathcal S\} é compacto; calcule-o para o exemplo da questão 21 e verifique que ele é também conexo: S(t)=[0,t2]\mathcal S(t) = \intcc0{t^2} — todo estado intermediário é atingido por alguma solução.

Parte VII — Complementos: dependência, otimalidade e um esquema calculado à mão.

  1. (Dependência contínua) Suponha ff LL-lipschitziana em xx em RR e sejam x,yx, y duas soluções com valores iniciais x0,y0x_0, y_0 em t0t_0. Adaptando a demonstração da questão 17 à desigualdade e(t)x0y0+t0tLe(s) ⁣dse(t) \leq \norm{x_0 - y_0} + \int_{t_0}^tL\,e(s)\dd s, mostre que

    x(t)y(t)x0y0eL(tt0),\norm{x(t) - y(t)} \leq \norm{x_0 - y_0}\, \eu^{L(t - t_0)},

    e verifique em x=Lxx' = Lx que a cota é atingida: Grönwall é ótimo. Deduza de novo a unicidade (x0=y0x_0 = y_0) e que a aplicação de fluxo x0x(t;x0)x_0 \mapsto x(t; x_0) é lipschitziana, de constante eLT\eu^{LT}, onde quer que esteja definida.

  2. (Osgood é ótimo) Reciprocamente, seja ω\omega contínua, não decrescente, positiva em (0,)\intoo0\infty, com ω(r)0\omega(r) \to 0 quando r0+r \to 0^+, mas

    01 ⁣drω(r)<+,\int_0^1\frac{\dd r}{\omega(r)} < +\infty,

    e estenda f(x)=ω(x)f(x) = \omega(\abs x) por f(0)=0f(0) = 0. Mostre que Ω(x)=0x ⁣drω(r)\Omega(x) = \int_0^x\frac{\dd r}{\omega(r)} é uma bijeção crescente de (0,1]\intoc0{1} sobre (0,Ω(1)]\intoc0{\Omega(1)}, que sua inversa gg resolve g=ω(g)g' = \omega(g) com g(0+)=0g(0^+) = 0, e que gg, estendida por 00 para t0t \leq 0, é uma solução C1\mathcal C^1 de x=f(x)x' = f(x) por (0,0)(0, 0) distinta de x0x \equiv 0 (para g(0)=0g'(0) = 0, limite g(t)t\frac{g(t)}t por ω(g(t))\omega(g(t))). Conclua: a hipótese de divergência da questão 15 não é uma comodidade, mas a fronteira exata da unicidade; recupere a Parte III a partir de ω(r)=2r\omega(r) = 2\sqrt r, Ω(x)=x\Omega(x) = \sqrt x.

  3. (Euler calculado à mão) Para x=xx' = x, x(0)=1x(0) = 1 em [0,1][0, 1]: mostre que a poligonal de Euler satisfaz φn(1)=(1+1n)n\varphi_n(1) = \bigl(1 + \frac1n\bigr)^n. Demonstre a expansão

    (1+1n)n=e(112n+O(1n2)),\Bigl(1 + \frac1n\Bigr)^{n} = \eu\Bigl(1 - \frac1{2n} + O\Bigl(\frac1{n^2}\Bigr) \Bigr),

    de modo que o erro em t=1t = 1 é e2n+O(n2)\frac{\eu}{2n} + O(n^{-2}): a taxa O(1n)O(\frac1n) da questão 18, com a constante exata. Confira numericamente para n=10n = 10: 1.110=2.593741.1^{10} = 2.59374 contra e2.71828\eu \approx 2.71828, um erro 0.124540.12454 a comparar com e200.13591\frac{\eu}{20} \approx 0.13591.

Solução

Solução de Problema 7.1.

1. Indução sobre kk: se φn(tk)x0M(tkt0)MTb\norm{\varphi_n(t_k) - x_0} \leq M(t_k - t_0) \leq MT \leq b, o ponto (tk,φn(tk))(t_k, \varphi_n(t_k)) está em RR, de modo que a inclinação f(tk,φn(tk))f(t_k, \varphi_n(t_k)) está definida, de norma M\leq M; então, para t[tk,tk+1]t \in [t_k, t_{k+1}], φn(t)x0φn(tk)x0+M(ttk)M(tt0)MTb\norm{\varphi_n(t) - x_0} \leq \norm{\varphi_n(t_k) - x_0} + M(t - t_k) \leq M(t - t_0) \leq MT \leq b.

2. Cada peça afim tem inclinação de norma M\leq M; uma função afim por partes com inclinações limitadas por MM é MM-lipschitziana (encadeie pelos pontos da malha).

3. A família (φn)(\varphi_n) é pontualmente limitada (valores em Bˉ(x0,b)\bar B(x_0, b)) e equicontínua (constante de Lipschitz comum MM): Ascoli (Teorema 7.11) extrai φnjφ\varphi_{n_j} \to \varphi uniformemente em [t0,t0+T][t_0, t_0 + T]. As cotas passam ao limite: φ\varphi é MM-lipschitziana, φ(t0)=x0\varphi(t_0) = x_0.

4. RR é compacto e ff contínua: uniformemente contínua (Heine, Corolário 6.17); seja δ(ε)\delta(\varepsilon) um módulo. Para t(tk,tk+1)t \in (t_k, t_{k+1}) fora da malha: φn(t)=f(tk,φn(tk))\varphi_n'(t) = f(t_k, \varphi_n(t_k)), e os dois pontos de avaliação de ff diferem de ttkT/n\abs{t - t_k} \leq T/n no tempo e de φn(t)φn(tk)MT/n\norm{\varphi_n(t) - \varphi_n(t_k)} \leq MT/n no espaço. Para nn0n \geq n_0 com (1+M)T/n0<δ(ε)(1 + M)T/n_0 < \delta(\varepsilon): Δn(t)ε\norm{\Delta_n(t)} \leq \varepsilon.

5. Em cada [tk,tk+1][t_k, t_{k+1}], φn\varphi_n é afim, de modo que φn(tk+1)φn(tk)=tktk+1φn(s) ⁣ds\varphi_n(t_{k+1}) - \varphi_n(t_k) = \int_{t_k}^{t_{k+1}} \varphi_n'(s)\dd s, sendo a derivada a inclinação constante; somando sobre as peças (e cortando a última em tt): φn(t)=x0+t0tφn(s) ⁣ds\varphi_n(t) = x_0 + \int_{t_0}^t\varphi_n'(s)\,\dd s. Escrevendo φn=f(s,φn(s))+Δn(s)\varphi_n' = f(s, \varphi_n(s)) + \Delta_n(s) (integrandos contínuos por partes, com finitos saltos), obtém-se a fórmula em destaque.

6. Dado ε\varepsilon: para jj grande, φnjφ<δ(ε)\norm{\varphi_{n_j} - \varphi}_\infty < \delta(\varepsilon), de modo que f(s,φnj(s))f(s,φ(s))ε\norm{f(s, \varphi_{n_j}(s)) - f(s, \varphi(s))} \leq \varepsilon para todo ss: convergência uniforme dos integrandos, e t0tf(s,φnj(s)) ⁣dst0tf(s,φ(s)) ⁣ds\int_{t_0}^t f(s,\varphi_{n_j}(s))\dd s \to \int_{t_0}^tf(s, \varphi(s))\dd s uniformemente em tt. Além disso, t0tΔnjTsupΔnj0\norm{\int_{t_0}^t\Delta_{n_j}} \leq T\sup\norm{\Delta_{n_j}} \to 0 (questão 4). Passando ao limite na identidade da questão 5: φ(t)=x0+t0tf(s,φ(s)) ⁣ds\varphi(t) = x_0 + \int_{t_0}^tf(s, \varphi(s))\,\dd s.

7. O integrando sf(s,φ(s))s \mapsto f(s, \varphi(s)) é contínuo, de modo que o membro direito é C1\mathcal C^1 em tt, com derivada f(t,φ(t))f(t, \varphi(t)): φ\varphi resolve o problema de Cauchy em [t0,t0+T][t_0, t_0 + T]. Para a metade esquerda, ponha g(t,x)=f(2t0t,x)g(t, x) = -f(2t_0 - t, x), contínua no retângulo refletido com a mesma cota MM; uma solução ψ\psi de y=g(t,y)y' = g(t,y), y(t0)=x0y(t_0) = x_0 em [t0,t0+T][t_0, t_0 + T] fornece φ(t)=ψ(2t0t)\varphi(t) = \psi(2t_0 - t), que resolve a equação original em [t0T,t0][t_0 - T, t_0]; as duas metades se colam numa solução C1\mathcal C^1 (as duas derivadas laterais em t0t_0 valem f(t0,x0)f(t_0, x_0)). — Teorema de Peano: uma ff contínua admite uma solução local por toda condição inicial.

8. A continuidade é clara. A condição de Lipschitz perto de 00 falha: f(h)f(0)=2h\abs{f(h) - f(0)} = 2\sqrt h, e 2hLh2\sqrt h \leq L h é falso para h<4/L2h < 4/L^2.

9. Para tct \leq c: xc0x_c \equiv 0 resolve. Para tct \geq c: xc(t)=2(tc)=2(tc)2=2xcx_c'(t) = 2(t - c) = 2\sqrt{(t-c)^2} = 2\sqrt{\abs{x_c}}. Em t=ct = c, as duas derivadas laterais valem 00: xcx_c é C1\mathcal C^1 e resolve globalmente, com xc(0)=0x_c(0) = 0 para todo c0c \geq 0 — junto com x0x \equiv 0, um contínuo de soluções pela origem.

10. A iteração de Picard monta Φ(x)(t)=x0+0tf(x(s)) ⁣ds\Phi(x)(t) = x_0 + \int_0^t f(x(s))\dd s e precisa de Φ(x)Φ(y)kxy\norm{\Phi(x) - \Phi(y)} \leq k\norm{x - y} com k<1k < 1 numa bola adequada — o que decorre de uma cota de Lipschitz sobre ff, transferida para debaixo da integral. Aqui \sqrt\cdot não admite cota de Lipschitz perto de 00, e nenhuma escolha de intervalo ou de bola conserta isso. E, de fato, nenhuma demonstração de unicidade poderia ter êxito: a unicidade é falsa (questão 9).

11. Em c0c_0, os vetores unitários en=(0,,0,1,0,)e_n = (0, \dots, 0, 1, 0, \dots) satisfazem enem=1\norm{e_n - e_m}_\infty = 1 para nmn \neq m: nenhuma subsequência é de Cauchy, de modo que a bola unitária fechada não é compacta. O passo que se quebra é a extração (questão 3): Ascoli para C([t0,t0+T],E)\mathcal C([t_0, t_0+T], E) exige que os valores vivam num espaço em que os limitados sejam relativamente compactos — verdade em Rd\R^d (Bolzano–Weierstrass), falso em c0c_0; a extração pontual deixa de estar disponível (de fato, o exemplo de Dieudonné não tem solução local alguma).

12. Peano: ff contínua numa vizinhança de (t0,x0)(t_0, x_0) em R×Rd\R\times\R^d \Rightarrow existe uma solução C1\mathcal C^1 de x=f(t,x)x' = f(t,x), x(t0)=x0x(t_0) = x_0, em algum [t0T,t0+T][t_0 - T, t_0 + T]. Cauchy–Lipschitz (Capítulo 19): se, além disso, ff é localmente lipschitziana na variável xx, a solução é única (duas quaisquer coincidem em seu intervalo comum) — existência e unicidade. O par (x=2x, x(0)=0)(x' = 2\sqrt{\abs x},\ x(0) = 0) separa os dois teoremas.

13. ω(r)=Lr\omega(r) = Lr: 01 ⁣drLr=+\int_0^1\frac{\dd r}{Lr} = +\infty: serve. ω(r)=rlog1r\omega(r) = r\log\frac1r (perto de 00):  ⁣drrlog(1/r)=[loglog1r]+\int\frac{\dd r}{r\log(1/r)} = \bigl[-\log\log\frac1r\bigr] \to +\infty quando r0r \to 0: serve — e, no entanto, ω(r)/r=log1r\omega(r)/r = \log\frac1r \to \infty: não lipschitziana. ω(r)=2r\omega(r) = 2\sqrt r: 01 ⁣dr2r=[r]01=1<\int_0^1\frac{\dd r}{2\sqrt r} = \bigl[\sqrt r\bigr]_0^1 = 1 < \infty: falha.

14. Subtraia as duas formas integrais:

x1(t)x2(t)=x1(s)x2(s)+st(f(v,x1(v))f(v,x2(v))) ⁣dv,x_1(t) - x_2(t) = x_1(s) - x_2(s) + \int_s^t\bigl(f(v, x_1(v)) - f(v, x_2(v))\bigr)\dd v,

tome normas e use o módulo de Osgood: δ(t)δ(s)+stω(δ(v)) ⁣dv\delta(t) \leq \delta(s) + \int_s^t\omega(\delta(v))\,\dd v.

15. τ\tau está bem definido (δ(t0)=0\delta(t_0) = 0), com δ(τ)=0\delta(\tau) = 0 (continuidade) e δ>0\delta > 0 em (τ,t1]\intoc\tau{t_1}. Fixe s(τ,t1)s \in \intoo\tau{t_1}. Então uu é C1\mathcal C^1, u(s)=δ(s)>0u(s) = \delta(s) > 0, uδu \geq \delta em [s,t1][s, t_1] (questão 14), e u=ω(δ)ω(u)u' = \omega(\delta) \leq \omega(u) (ω\omega não decrescente, u>0u > 0). Divida e integre:

δ(s)u(t1) ⁣drω(r)=st1u(v)ω(u(v)) ⁣dvt1st1τ.\int_{\delta(s)}^{u(t_1)}\frac{\dd r}{\omega(r)} = \int_s^{t_1}\frac{u'(v)}{\omega(u(v))}\,\dd v \leq t_1 - s \leq t_1 - \tau .

Embora uu dependa de ss, a cota u(t1)δ(t1)u(t_1) \geq \delta(t_1) vale para todo ss, de modo que o membro esquerdo é pelo menos δ(s)δ(t1) ⁣drω(r)\int_{\delta(s)}^{\delta(t_1)}\frac{\dd r}{\omega(r)}, que tende a ++\infty quando sτs \downarrow \tau (então δ(s)δ(τ)=0\delta(s) \to \delta(\tau) = 0, e a integral diverge em 00): o membro direito, limitado, é contradito. Logo δ0\delta \equiv 0: unicidade.

16. Lipschitz é ω=Lr\omega = Lr: unicidade recuperada. Para x=xlog1xx' = x\log\frac1{\abs x}: o membro direito satisfaz o módulo de Osgood ω(r)=rlog1r\omega(r) = r\log\frac1r perto de 00 (desigualdade do valor médio em xxlog1xx \mapsto x\log\frac1x, cuja derivada log1x1\log\frac1x - 1 é ilimitada — Lipschitz falha, Osgood vale): soluções únicas; note que x0x \equiv 0 é uma delas, de modo que nenhuma outra solução pode tocar 00. Para ω(r)=2r\omega(r) = 2\sqrt r: 0h2 ⁣dr2r=h\int_0^{h^2}\frac{\dd r}{2\sqrt r} = h — o “orçamento de Osgood” para subir de 00 até a altura h2h^2 é exatamente o tempo hh e, de fato, xc(c+h)=h2x_c(c + h) = h^2: a solução gasta o tempo hh fazendo precisamente o que a integral convergente permite. A divergência da integral é a impossibilidade de deixar 00 em tempo finito; a convergência é a rota de fuga.

17. G(t)=t0t(Le(s)+η(s)) ⁣dsG(t) = \int_{t_0}^t(Le(s) + \eta(s))\dd s é C1\mathcal C^1 com G=Le+ηLG+supηG' = Le + \eta \leq LG + \sup\eta (hipótese eGe \leq G). Então (eLt(G+supηL))=eLt(GLGsupη)0\bigl(\eu^{-Lt}(G + \tfrac{\sup\eta}L)\bigr)' = \eu^{-Lt}(G' - LG - \sup\eta) \leq 0: o colchete decresce, de modo que G(t)+supηLeL(tt0)(G(t0)+supηL)=eL(tt0)supηLG(t) + \frac{\sup\eta}L \leq \eu^{L(t - t_0)}\bigl(G(t_0) + \frac{\sup\eta}L\bigr) = \eu^{L(t-t_0)}\frac{\sup\eta}L, isto é, e(t)G(t)supηL(eL(tt0)1)e(t) \leq G(t) \leq \frac{\sup\eta}L(\eu^{L(t-t_0)} - 1).

18. Defeito quantitativo: em (tk,tk+1)(t_k, t_{k+1}), Δn(t)=f(tk,φn(tk))f(t,φn(t))\Delta_n(t) = f(t_k, \varphi_n(t_k)) - f(t, \varphi_n(t)) com ttkT/n\abs{t - t_k} \leq T/n e φn(t)φn(tk)MT/n\norm{\varphi_n(t) - \varphi_n(t_k)} \leq MT/n, de modo que ΔnLT/n+LMT/n\norm{\Delta_n} \leq L'T/n + LMT/n. Subtraindo as identidades integrais de φn\varphi_n (questão 5) e de φ\varphi e usando a cota de Lipschitz:

φn(t)φ(t)t0tLφnφ(s) ⁣ds+t0tΔn(s) ⁣ds,\norm{\varphi_n(t) - \varphi(t)} \leq \int_{t_0}^t L\,\norm{\varphi_n - \varphi}(s)\,\dd s + \int_{t_0}^t\norm{\Delta_n(s)}\,\dd s,

e a questão 17 com η=Δn\eta = \norm{\Delta_n} dá a cota O(1/n)O(1/n) enunciada, sendo φ\varphi única por Cauchy–Lipschitz (ou Osgood). Mesmo sem velocidades: toda subsequência das (φn)(\varphi_n), equilimitadas e equilipschitzianas, tem uma sub-subsequência que converge (Ascoli + Parte II) para uma solução, que a unicidade obriga a ser φ\varphi: uma sequência cujas subsequências têm todas sub-subsequências de mesmo limite converge.

19. De φn(tk)=0\varphi_n(t_k) = 0: a inclinação 20=02\sqrt0 = 0φn(tk+1)=0\varphi_n(t_{k+1}) = 0; indução: φn0\varphi_n \equiv 0, convergindo para a solução nula. De ε>0\varepsilon > 0: em [ε,)[\varepsilon', \infty) com ε<ε\varepsilon' < \varepsilon, a função 2x2\sqrt x é lipschitziana, de modo que a questão 18 se aplica e Euler converge para a única solução por (0,ε)(0, \varepsilon), a saber x(t)=(t+ε)2x(t) = (t + \sqrt\varepsilon)^2 (verifique: x=2(t+ε)=2xx' = 2(t + \sqrt \varepsilon) = 2\sqrt x). Quando ε0\varepsilon \to 0, (t+ε)2t2(t + \sqrt\varepsilon)^2 \to t^2 uniformemente em [0,1][0,1]: o limite duplo cai em x0(t)=t2x_0(t) = t^2, não em 00. Uma perturbação arbitrariamente pequena do dado inicial redireciona o esquema de uma solução para outra: a não unicidade lida como instabilidade numérica.

20. Não vazio: Parte II. Toda solução satisfaz x=f(t,x)M\norm{x'} = \norm{f(t, x)} \leq M: S\mathcal S é uniformemente MM-lipschitziana e uniformemente limitada (valores em Bˉ(x0,b)\bar B(x_0, b)). Fechado: se xnSxx_n \in \mathcal S \to x uniformemente, passe ao limite em xn(t)=x0+t0tf(s,xn(s)) ⁣dsx_n(t) = x_0 + \int_{t_0}^tf(s, x_n(s))\dd s (os integrandos convergem uniformemente pela continuidade uniforme de ff no compacto RR): xSx \in \mathcal S. Ascoli: S\mathcal S é um subconjunto fechado, limitado e equicontínuo de C([t0,t0+T],Rd)\mathcal C([t_0, t_0+T], \R^d): compacto.

21. Toda solução é não decrescente (x=2x0x' = 2\sqrt{\abs x} \geq 0) com x(0)=0x(0) = 0, logo x0x \geq 0. Seja c=sup{t[0,1]:x(t)=0}c = \sup\{t \in [0,1] : x(t) = 0\} (possivelmente c=c = \infty se x0x \equiv 0, caso em que x=xx = x_\infty). Para t>ct > c: x>0x > 0 (monotonicidade mais a definição de cc), e ali (x)=x2x=1(\sqrt x)' = \frac{x'}{2\sqrt x} = 1, de modo que x(t)=tc\sqrt{x(t)} = t - c (continuidade em cc): x=xcx = x_c. Continuidade de cxcc \mapsto x_c: para c,c[0,1]c, c' \in [0, 1], sup[0,1](tc)+2(tc)+22cc\sup_{[0,1]}\abs{(t - c)_+^2 - (t - c')_+^2} \leq 2\abs{c - c'} (a aplicação c(tc)+2c \mapsto (t-c)_+^2 é 22-lipschitziana uniformemente em t[0,1]t \in [0,1]) e, como xc0x_c \equiv 0 em [0,1][0,1] para todo c1c \geq 1, a família se reduz a S={xc:c[0,1]}\mathcal S = \{x_c : c \in [0,1]\} (com x1=0=xx_1 = 0 = x_\infty). Logo S\mathcal S é a imagem do compacto conexo [0,1][0,1] pela aplicação contínua cxcc \mapsto x_c: compacto e conexo. O funil de soluções é um segmento contínuo que vai de t2t^2 (fuga imediata) até 00 (repouso eterno).

22. A avaliação evt ⁣:C([0,1])R\operatorname{ev}_t\colon \mathcal C([0,1]) \to \R, xx(t)x \mapsto x(t), é contínua (x(t)y(t)xy\abs{x(t) - y(t)} \leq \norm{x - y}_\infty), de modo que S(t)=evt(S)\mathcal S(t) = \operatorname{ev}_t(\mathcal S) é imagem contínua de um compacto: compacto — e de um conexo: conexo. Para o exemplo: xc(t)=(tc)+2x_c(t) = (t - c)_+^2 varre, quando cc percorre [0,1][0, 1], todos os valores de t2t^2 (em c=0c = 0) até 00 (em ctc \geq t), continuamente: S(t)=[0,t2]\mathcal S(t) = \intcc0{t^2}. Em cada instante, a seção transversal do funil é um segmento inteiro: entre o repouso e a fuga máxima, todo compromisso é realizado por uma solução efetiva.

23. Subtraindo as formas integrais x(t)=x0+t0tf(s,x(s)) ⁣dsx(t) = x_0 + \int_{t_0}^tf(s, x(s))\dd s e sua análoga para yy, e pondo e(t)=x(t)y(t)e(t) = \norm{x(t) - y(t)}, d=x0y0d = \norm{x_0 - y_0}:

e(t)d+t0tLe(s) ⁣ds=G(t).e(t) \leq d + \int_{t_0}^tL\,e(s)\dd s = G(t).

Então G(t0)=dG(t_0) = d e G=LeLGG' = Le \leq LG, de modo que (eL(tt0)G)0\bigl(\eu^{-L(t - t_0)}G\bigr)' \leq 0 e G(t)deL(tt0)G(t) \leq d\,\eu^{L(t - t_0)}; logo e(t)deL(tt0)e(t) \leq d\,\eu^{L(t-t_0)}. Otimalidade: para x=Lxx' = Lx, as soluções por x0x_0 e y0y_0 são x0eL(tt0)x_0\eu^{L(t - t_0)} e y0eL(tt0)y_0\eu^{L(t-t_0)}, cuja distância é exatamente deL(tt0)d\,\eu^{L(t-t_0)}. Com d=0d = 0, e0e \equiv 0: a unicidade de Cauchy–Lipschitz, reobtida em duas linhas. E, para t[t0,t0+T]t \in [t_0, t_0 + T] fixo, x(t;x0)x(t;y0)eLTx0y0\norm{x(t; x_0) - x(t; y_0)} \leq \eu^{LT}\norm{x_0 - y_0}: o fluxo é lipschitziano na condição inicial — dependência determinística, a um preço exponencial controlado.

24. Em (0,1]\intoc01, Ω\Omega está bem definida (a integral converge em 00 por hipótese), C1\mathcal C^1 com Ω=1ω>0\Omega' = \frac1\omega > 0: uma bijeção crescente sobre (0,Ω(1)]\intoc0{\Omega(1)}, com Ω(x)0\Omega(x) \to 0 quando x0+x \to 0^+. Sua inversa g ⁣:(0,Ω(1)](0,1]g \colon \intoc0{\Omega(1)} \to \intoc01 é C1\mathcal C^1 com

g(t)=1Ω(g(t))=ω(g(t))>0,g(t)t0+0.g'(t) = \frac1{\Omega'(g(t))} = \omega\bigl(g(t)\bigr) > 0, \qquad g(t) \xrightarrow[t \to 0^+]{} 0 .

Estenda gg por 00 em t0t \leq 0: a continuidade é clara e, em t=0t = 0, para t>0t > 0,

g(t)t=1t0tg(s) ⁣ds=1t0tω(g(s)) ⁣dsω(g(t))t0+0\frac{g(t)}t = \frac1t\int_0^tg'(s)\dd s = \frac1t\int_0^t\omega\bigl(g(s)\bigr)\dd s \leq \omega\bigl(g(t)\bigr) \xrightarrow[t\to0^+]{} 0

(ω\omega não decrescente, gg crescente, ω(0+)=0\omega(0^+) = 0): g(0)=0=f(g(0))g'(0) = 0 = f(g(0)), e g=f(g)g' = f(g) vale dos dois lados de 00. Logo x0x \equiv 0 e gg são duas soluções C1\mathcal C^1 distintas por (0,0)(0, 0): quando 0 ⁣drω(r)\int_0\frac{\dd r} {\omega(r)} converge, a unicidade falha — a divergência da questão 15 é exatamente a fronteira. Para ω(r)=2r\omega(r) = 2\sqrt r: Ω(x)=0x ⁣dr2r=x\Omega(x) = \int_0^x\frac{\dd r}{2\sqrt r} = \sqrt x, g(t)=t2g(t) = t^2, e as translações no tempo dão toda a família xcx_c da Parte III.

25. Com passo h=1nh = \frac1n: φn(tk+1)=φn(tk)+hφn(tk)=(1+h)φn(tk)\varphi_n(t_{k+1}) = \varphi_n(t_k) + h\,\varphi_n(t_k) = (1 + h)\varphi_n(t_k), de modo que φn(1)=(1+1n)n\varphi_n(1) = (1 + \frac1n)^n após nn passos. Desenvolvimento:

nlog(1+1n)=n(1n12n2+O(1n3))=112n+O(1n2),n\log\Bigl(1 + \frac1n\Bigr) = n\Bigl(\frac1n - \frac1{2n^2} + O\Bigl(\frac1{n^3}\Bigr) \Bigr) = 1 - \frac1{2n} + O\Bigl(\frac1{n^2}\Bigr),

e, exponenciando, (1+1n)n=ee1/(2n)+O(n2)=e(112n+O(n2))(1 + \frac1n)^n = \eu\,\eu^{-1/(2n) + O(n^{-2})} = \eu\bigl(1 - \frac1{2n} + O(n^{-2})\bigr). O erro em t=1t = 1 é, portanto, eφn(1)=e2n+O(n2)\eu - \varphi_n(1) = \frac{\eu}{2n} + O(n^{-2}): o O(1n)O(\frac1n) da questão 18, aqui com sua constante exata e2\frac\eu2. Numericamente, n=10n = 10: 1.110=2.59374246011.1^{10} = 2.5937424601 (1.12=1.211.1^2 = 1.21, 1.14=1.46411.1^4 = 1.4641, 1.18=2.143588811.1^8 = 2.14358881, vezes 1.211.21), e e2.593740.12454\eu - 2.59374 \approx 0.12454, contra a previsão assintótica e200.13591\frac{\eu}{20} \approx 0.13591: acordo a menos da correção O(n2)O(n^{-2}), cujo termo dominante aqui rebaixa a previsão em direção ao valor observado.