Mathematics · Livro 5 · Bachelor Year 3

Matemática universitária — Graduação 3

Matemática universitária — Graduação 3 · Bachelor Year 3

10A integral de Lebesgue

A integral de Riemann fatia o domínio em pequenos intervalos; a de Lebesgue fatia a imagem: para integrar ff, meça os conjuntos {f>t}\{f > t\}. A mudança parece inocente e é revolucionária. Limites e integrais, eternamente em desavença na teoria de Riemann (exigia-se convergência uniforme!), reconciliam-se por três teoremas de convergência — convergência monótona, Fatou, convergência dominada — cujas hipóteses são de uma fraqueza quase embaraçosa. Este capítulo constrói a integral sobre um espaço de medida arbitrário (X,A,μ)(X, \mathcal A, \mu), demonstra os três teoremas, esclarece a relação exata com a integral de Riemann (uma função limitada é Riemann-integrável se, e somente se, é contínua quase em toda parte) e industrializa a derivação de integrais dependentes de parâmetro — a técnica que o problema de fim de semana usa para calcular ∫0∞sin⁡xx  ⁣dx\int_0^\infty\frac{\sin x}x\,\dd x e ∫Re−x2 ⁣dx\int_\R \eu^{-x^2}\dd x.

10.1 Funções mensuráveis

Definição 10.1

Sejam (X,A)(X, \mathcal A) e (Y,B)(Y, \mathcal B) espaços mensuráveis. f ⁣:X→Yf \colon X \to Y é mensurável se f−1(B)∈Af^{-1}(B) \in \mathcal A para todo B∈BB \in \mathcal B. Para funções reais (ou a valores em [−∞,+∞][-\infty,+\infty]), Y=RY = \R carrega sua σ\sigma-álgebra de Borel, e basta verificar f−1((t, +∞))={f>t}∈Af^{-1}(\intoo t{+\infty}) = \{f > t\} \in \mathcal A para todo t∈Rt \in \R: os bons conjuntos {B:f−1(B)∈A}\{B : f^{-1}(B) \in \mathcal A\} formam uma σ\sigma-álgebra (as pré-imagens comutam com as operações de conjuntos) que contém as semirretas geradoras (Definição 9.2, Método 9.17).

Proposição 10.2

(a) Composições de aplicações mensuráveis são mensuráveis; aplicações contínuas são Borel-mensuráveis. (b) Se f,g ⁣:X→Rf, g \colon X \to \R são mensuráveis, também o são f+gf + g, fgfg, max⁡(f,g)\max(f,g), ∣f∣\abs f, λf\lambda f. (c) Se as (fn)(f_n) são mensuráveis com valores em [−∞,+∞][-\infty, +\infty], então sup⁡nfn\sup_nf_n, inf⁡nfn\inf_nf_n, lim sup⁡fn\limsup f_n, lim inf⁡fn\liminf f_n são mensuráveis; se fn→ff_n \to f pontualmente, ff é mensurável.

Demonstração. (a) (g∘f)−1(B)=f−1(g−1(B))(g\circ f)^{-1}(B) = f^{-1}(g^{-1}(B)); a continuidade dá a mensurabilidade via os abertos geradores (Problema 9.1, questão 10, em forma geral). (b) (f,g) ⁣:X→R2(f, g) \colon X \to \R^2 é mensurável para a σ\sigma-álgebra de Borel de R2\R^2 — verifique nos blocos abertos, que a geram (os abertos de R2\R^2 são reuniões enumeráveis de blocos racionais): (f,g)−1(U×V)=f−1(U)∩g−1(V)(f,g)^{-1}(U\times V) = f^{-1}(U)\cap g^{-1}(V) — e +,×,max⁡+, \times, \max são contínuas R2→R\R^2 \to \R: componha. (c) {sup⁡fn>t}=⋃n{fn>t}\{\sup f_n > t\} = \bigcup_n\{f_n > t\}; inf⁡=−sup⁡(−)\inf = -\sup(-); lim sup⁡=inf⁡Nsup⁡n≥N\limsup = \inf_N\sup_{n \geq N}; um limite pontual é seu próprio lim sup⁡\limsup. ∎

Definição 10.3

Uma função simples é uma função mensurável com um número finito de valores: s=∑i=1nci 1Ais = \sum_{i=1}^n c_i\,\mathbf 1_{A_i}, com Ai∈AA_i \in \mathcal A disjuntos e ci≥0c_i \geq 0 (para a teoria não negativa). Sua integral é

∫s  ⁣dμ=∑ici μ(Ai)∈[0,+∞]\int s\,\dd\mu = \sum_i c_i\,\mu(A_i) \in [0, +\infty]

(com a convenção 0⋅∞=00\cdot\infty = 0); o valor não depende da representação (refine duas partições).

Teorema 10.4 (Aproximação por funções simples)

Toda função mensurável f ⁣:X→[0,+∞]f \colon X \to [0, +\infty] é o limite pontual de uma sequência crescente de funções simples:

sn=∑k=1n2nk−12n 1{k−12n≤f<k2n}+n 1{f≥n}↗f.s_n = \sum_{k=1}^{n2^n} \frac{k-1}{2^n}\, \mathbf 1_{\{\frac{k-1}{2^n} \leq f < \frac k{2^n}\}} + n\,\mathbf 1_{\{f \geq n\}} \nearrow f .

Demonstração. Cada sns_n é simples (os conjuntos são pré-imagens de borelianos). Monotonicidade: passar de nn a n+1n+1 divide cada nível diádico em dois e nunca diminui o valor atribuído (um ponto com k−12n≤f(x)<k2n\frac{k-1}{2^n} \leq f(x) < \frac k{2^n} recebe 2k−22n+1\frac{2k-2}{2^{n+1}} ou 2k−12n+1\frac{2k-1}{2^{n+1}}, ambos ≥k−12n\geq \frac{k-1}{2^n}; e o teto nn também sobe). Convergência: se f(x)<∞f(x) < \infty, para n>f(x)n > f(x) temos f(x)−sn(x)≤2−nf(x) - s_n(x) \leq 2^{-n}; se f(x)=∞f(x) = \infty, sn(x)=n→∞s_n(x) = n \to \infty. ∎

10.2 A integral e os teoremas de convergência

Definição 10.5

Para f≥0f \geq 0 mensurável:

∫f  ⁣dμ=sup⁡{∫s  ⁣dμ:s simples, 0≤s≤f}∈[0,+∞].\int f \,\dd\mu = \sup\Bigl\{\int s\,\dd\mu : s \text{ simples}, \ 0 \leq s \leq f\Bigr\} \in [0, +\infty].

Ela é monótona em ff por construção e estende o caso simples (para ff simples, o supremo é atingido em ff: comparação de integrais de funções simples via refinamentos comuns).

Teorema 10.6 (Convergência monótona, Beppo Levi)

Se 0≤fn↗f0 \leq f_n \nearrow f pontualmente (com todas mensuráveis), então

∫fn  ⁣dμ↗∫f  ⁣dμ.\int f_n\,\dd\mu \nearrow \int f\,\dd\mu .

Demonstração. ff é mensurável (Proposição 10.2(c)) e ∫fn\int f_n cresce até algum L≤∫fL \leq \int f (monotonicidade). Reciprocamente, fixe uma função simples s=∑ci1Ai≤fs = \sum c_i\mathbf 1_{A_i} \leq f e θ∈(0,1)\theta \in (0,1); os conjuntos En={fn≥θs}E_n = \{f_n \geq \theta s\} são mensuráveis e crescem até XX (onde s(x)>0s(x) > 0: f(x)≥s(x)>θs(x)f(x) \geq s(x) > \theta s(x), de modo que, a partir de certo índice, fn(x)≥θs(x)f_n(x) \geq \theta s(x); onde s(x)=0s(x) = 0: trivialmente). Então

∫fn≥∫Enθs  ⁣dμ=θ∑ici μ(Ai∩En)→n→∞θ∑ici μ(Ai)=θ∫s\int f_n \geq \int_{E_n}\theta s\,\dd\mu = \theta\sum_i c_i\,\mu(A_i \cap E_n) \xrightarrow[n\to\infty]{} \theta\sum_ic_i\,\mu(A_i) = \theta\int s

por continuidade por baixo (Proposição 9.6(c)). Logo L≥θ∫sL \geq \theta\int s para todo θ<1\theta < 1 e toda s≤fs \leq f simples: L≥∫fL \geq \int f. ∎

Corolário 10.7

Para f,g≥0f, g \geq 0 mensuráveis e c≥0c \geq 0: ∫(f+g)=∫f+∫g\int(f + g) = \int f + \int g e ∫cf=c∫f\int cf = c\int f; e, para uma série de funções mensuráveis não negativas, ∫∑nfn=∑n∫fn\int\sum_nf_n = \sum_n\int f_n.

Demonstração. Para funções simples, a aditividade é um cálculo em um refinamento comum. No caso geral, tome sn↗fs_n \nearrow f, tn↗gt_n \nearrow g (Teorema 10.4): sn+tn↗f+gs_n + t_n \nearrow f + g, e o teorema da convergência monótona passa a aditividade ao limite. O enunciado sobre séries é esse mesmo teorema aplicado às somas parciais. ∎

Teorema 10.8 (Lema de Fatou)

Para fn≥0f_n \geq 0 mensuráveis:

∫lim inf⁡nfn  ⁣dμ  ≤  lim inf⁡n∫fn  ⁣dμ.\int \liminf_n f_n \,\dd\mu \;\leq\; \liminf_n \int f_n\,\dd\mu .

Demonstração. Ponha gN=inf⁡n≥Nfng_N = \inf_{n\geq N}f_n: mensurável, 0≤gN↗lim inf⁡fn0 \leq g_N \nearrow \liminf f_n, e gN≤fng_N \leq f_n para todo n≥Nn \geq N, de modo que ∫gN≤inf⁡n≥N∫fn\int g_N \leq \inf_{n \geq N}\int f_n. Aplique a convergência monótona ao membro esquerdo: ∫lim inf⁡fn=lim⁡N∫gN≤lim⁡Ninf⁡n≥N∫fn=lim inf⁡∫fn\int\liminf f_n = \lim_N\int g_N \leq \lim_N\inf_{n\geq N}\int f_n = \liminf\int f_n. ∎

Definição 10.9

Uma função mensurável f ⁣:X→Rf \colon X \to \R (ou a valores em C\C) é integrável se ∫∣f∣  ⁣dμ<∞\int\abs f\,\dd\mu < \infty; então ∫f=∫f+−∫f−\int f = \int f^+ - \int f^- (partes positiva e negativa; partes real e imaginária no caso complexo). A integral é linear nas funções integráveis (decomponha e recombine as partes positivas; o caso complexo se reduz ao real) e satisfaz ∣∫f∣≤∫∣f∣\abs{\int f} \leq \int\abs f (caso real: ±∫f=∫(±f)≤∫∣f∣\pm\int f = \int(\pm f) \leq \int\abs f; caso complexo: multiplique por uma constante unimodular para tornar a integral real). Uma propriedade vale quase em toda parte (q.t.p.) se falha apenas em um conjunto μ\mu-nulo; modificar ff em um conjunto nulo não altera integral alguma (a diferença é dominada por ∞⋅1N\infty\cdot\mathbf 1_N, de integral 00).

Teorema 10.10 (Convergência dominada)

Seja fn→ff_n \to f q.t.p., com ∣fn∣≤g\abs{f_n} \leq g q.t.p. para uma gg integrável fixada. Então ff é integrável e

∫fn  ⁣dμ⟶∫f  ⁣dμ,de fato∫∣fn−f∣  ⁣dμ→0.\int f_n\,\dd\mu \longrightarrow \int f\,\dd\mu, \qquad\text{de fato}\quad \int\abs{f_n - f}\,\dd\mu \to 0 .

Demonstração. Descarte um conjunto nulo para tornar as hipóteses pontuais. ∣f∣≤g\abs f \leq g: ff é integrável. As funções hn=2g−∣fn−f∣≥0h_n = 2g - \abs{f_n - f} \geq 0 satisfazem lim inf⁡hn=2g\liminf h_n = 2g; Fatou dá

∫2g≤lim inf⁡∫(2g−∣fn−f∣)=∫2g−lim sup⁡∫∣fn−f∣,\int 2g \leq \liminf\int\bigl(2g - \abs{f_n - f}\bigr) = \int 2g - \limsup\int\abs{f_n - f},

logo lim sup⁡∫∣fn−f∣≤0\limsup\int\abs{f_n - f} \leq 0 (a subtração é legítima: ∫2g<∞\int 2g < \infty). Por fim, ∣∫fn−∫f∣≤∫∣fn−f∣→0\abs{\int f_n - \int f} \leq \int\abs{f_n - f} \to 0. ∎

Método 10.11

Diante de lim⁡n∫fn\lim_n\int f_n: tente, nesta ordem — (1) a sequência é monótona (ou é uma série de termos não negativos)? Convergência monótona, sem precisar de integrabilidade. (2) Existe um único dominador integrável g≥∣fn∣g \geq \abs{f_n}, obtido por estimativas grosseiras (o “sup⁡n\sup_n” das estimativas)? Convergência dominada. (3) Sem dominação nem monotonicidade? Fatou ainda limita um dos lados, e a igualdade pode genuinamente falhar: a onda que foge, fn=n1(0, 1/n)f_n = n\mathbf 1_{\intoo0{1/n}}, tem ∫fn=1\int f_n = 1, mas fn→0f_n \to 0 q.t.p. A dominação é exatamente o que impede a massa de escapar para o infinito, na vertical ou na horizontal.

10.3 Riemann contra Lebesgue

Teorema 10.12 (Critério de Lebesgue)

Seja f ⁣:[a, b]→Rf \colon \intcc ab \to \R limitada. Então ff é Riemann-integrável se, e somente se, ff é contínua λ\lambda-quase em toda parte; nesse caso, ff é Lebesgue-integrável e as duas integrais coincidem.

Demonstração. Para uma subdivisão σ=(a=x0<⋯<xN=b)\sigma = (a = x_0 < \dots < x_N = b), sejam LσL_\sigma e UσU_\sigma as funções escada iguais, em cada (xi−1, xi)\intoo{x_{i-1}}{x_i}, a mi=inf⁡[xi−1,xi]fm_i = \inf_{[x_{i-1}, x_i]}f e a Mi=sup⁡M_i = \sup; as somas de Darboux são suas integrais (Riemann e Lebesgue coincidem em funções escada, ambas dando ∑miΔxi\sum m_i\Delta x_i). Tome uma sequência de subdivisões σn\sigma_n, cada uma refinando a anterior, de malha →0\to 0, com somas de Darboux convergindo às integrais de Darboux inferior e superior de ff. Os refinamentos tornam LσnL_{\sigma_n} não decrescente e UσnU_{\sigma_n} não crescente pontualmente fora do conjunto enumerável DD de todos os pontos de divisão; chame os limites de ℓ\ell e uu (mensuráveis, Proposição 10.2). Para x∉Dx \notin D, escrevendo In(x)I_n(x) para o intervalo aberto de σn\sigma_n que contém xx: ℓ(x)=sup⁡ninf⁡In(x)f\ell(x) = \sup_n\inf_{I_n(x)}f e u(x)=inf⁡nsup⁡In(x)fu(x) = \inf_n\sup_{I_n(x)}f; como as malhas encolhem a 00, essas são as envoltórias inferior e superior de ff em xx — u(x)−ℓ(x)u(x) - \ell(x) é a oscilação de ff em xx —, de modo que ℓ(x)=u(x)\ell(x) = u(x) se, e somente se, ff é contínua em xx. Por convergência monótona ou dominada (função limitada, intervalo finito):

∫[a, b]ℓ  ⁣dλ=lim⁡n∫Lσn=∫‾f,∫[a, b]u  ⁣dλ=∫‾f.\int_{\intcc ab}\ell\,\dd\lambda = \lim_n\int L_{\sigma_n} = \underline{\int}f, \qquad \int_{\intcc ab}u\,\dd\lambda = \overline{\int}f .

ff Riemann-integrável   ⟺  \iff ∫‾f=∫‾f\underline\int f = \overline\int f   ⟺  \iff ∫(u−ℓ)=0\int(u - \ell) = 0   ⟺  \iff u=ℓu = \ell q.t.p. (u−ℓ≥0u - \ell \geq 0; Exercício 10.5)   ⟺  \iff ff contínua q.t.p. Nesse caso, ℓ≤f≤u\ell \leq f \leq u com ℓ=u\ell = u q.t.p.: ff é igual q.t.p. à função mensurável ℓ\ell e, portanto, é Lebesgue-mensurável (completude de λ\lambda), com ∫f  ⁣dλ=∫ℓ  ⁣dλ=∫‾f=∫abf\int f\,\dd\lambda = \int\ell\,\dd\lambda = \underline\int f = \int_a^bf. ∎

Exemplo 10.13

1Q\mathbf 1_\Q não é contínua em ponto algum: não é Riemann-integrável — mas é trivial para Lebesgue: ∫1Q  ⁣dλ=λ(Q)=0\int\mathbf 1_\Q\,\dd\lambda = \lambda(\Q) = 0. A função de Thomae ( 1q\frac1q nos racionais pq\frac pq e 00 nos demais pontos) é contínua exatamente nos irracionais: é Riemann-integrável com integral 00. E as integrais de Riemann impróprias são uma noção diferente: ∫0∞sin⁡xx  ⁣dx\int_0^\infty\frac{\sin x}x\,\dd x converge como limite de ∫0A\int_0^A (o problema de fim de semana a calcula: =π2= \frac\pi2), mas sin⁡xx∉L1((0, +∞))\frac{\sin x}x \notin L^1(\intoo0{+\infty}): a integral absoluta diverge como a série harmônica (Exercício 10.6). A teoria de Lebesgue troca a convergência condicional por teoremas de limite robustos.

10.4 Integrais com parâmetros

Ao longo de toda esta seção, (X,A,μ)(X, \mathcal A, \mu) é um espaço de medida, TT é um espaço métrico (o parâmetro) e f ⁣:T×X→Cf \colon T \times X \to \C é tal que f(t,⋅)f(t, \cdot) é integrável para cada tt; ponha F(t)=∫Xf(t,x)  ⁣dμ(x)F(t) = \int_X f(t, x)\,\dd\mu(x).

Teorema 10.14 (Continuidade)

Suponha: t↦f(t,x)t \mapsto f(t,x) é contínua em t0t_0 para q.t.p. xx, e existe uma função integrável gg com ∣f(t,x)∣≤g(x)\abs{f(t,x)} \leq g(x) para todo tt em uma vizinhança de t0t_0 e q.t.p. xx. Então FF é contínua em t0t_0.

Demonstração. Para uma sequência qualquer tn→t0t_n \to t_0: f(tn,⋅)→f(t0,⋅)f(t_n, \cdot) \to f(t_0, \cdot) q.t.p., dominada por gg: a convergência dominada dá F(tn)→F(t0)F(t_n) \to F(t_0); e a continuidade sequencial basta em espaços métricos (Observação 6.8). ∎

Teorema 10.15 (Derivação sob o sinal de integral)

Seja TT um intervalo aberto de R\R. Suponha: para q.t.p. xx, t↦f(t,x)t \mapsto f(t,x) é derivável em TT, com

∣∂f∂t(t,x)∣≤g(x)para todo t∈T, q.t.p. x,\Bigl|\frac{\partial f}{\partial t}(t, x)\Bigr| \leq g(x) \quad \text{para todo } t \in T,\ \text{q.t.p. } x,

e gg integrável. Então FF é derivável em TT com F′(t)=∫X∂f∂t(t,x)  ⁣dμ(x)F'(t) = \int_X \frac{\partial f}{\partial t}(t, x)\,\dd\mu(x).

Demonstração. Fixe tt e hn→0h_n \to 0: os quocientes de diferenças

φn(x)=f(t+hn,x)−f(t,x)hn⟶∂f∂t(t,x)q.t.p.,\varphi_n(x) = \frac{f(t + h_n, x) - f(t, x)}{h_n} \longrightarrow \frac{\partial f}{\partial t}(t,x) \quad\text{q.t.p.},

e a desigualdade do valor médio limita ∣φn(x)∣≤sup⁡s∣∂tf(s,x)∣≤g(x)\abs{\varphi_n(x)} \leq \sup_{s}\abs{\partial_tf(s,x)} \leq g(x): a convergência dominada se aplica, e F(t+hn)−F(t)hn=∫φn→∫∂tf(t,⋅)\frac{F(t + h_n) - F(t)}{h_n} = \int\varphi_n \to \int\partial_t f(t, \cdot). ∎

Exemplo 10.16 (A função Gama)

Para t>0t > 0, ponha

Γ(t)=∫0+∞xt−1e−x  ⁣dx.\Gamma(t) = \int_0^{+\infty} x^{t-1}\eu^{-x}\,\dd x .

A integral converge: perto de 00, xt−1x^{t-1} é integrável (t>0t > 0); no infinito, xt−1e−x≤Ce−x/2x^{t-1}\eu^{-x} \leq C\eu^{-x/2}. A integração por partes (em [ε,A][\varepsilon, A] e, depois, passando ao limite por convergência monótona) dá a equação funcional Γ(t+1)=t Γ(t)\Gamma(t + 1) = t\,\Gamma(t), donde Γ(n+1)=n!\Gamma(n+1) = n!: o fatorial interpolado. Em todo [a, b]⊆(0, +∞)\intcc ab \subseteq \intoo0{+\infty}, ∂t(xt−1e−x)=ln⁡x⋅xt−1e−x\partial_t\bigl(x^{t-1}\eu^{-x}\bigr) = \ln x\cdot x^{t-1}\eu^{-x} é dominada por ∣ln⁡x∣(xa−1+xb−1)e−x\abs{\ln x}(x^{a-1} + x^{b-1})\eu^{-x}, integrável: Γ\Gamma é C1\mathcal C^1 e, por indução, C∞\mathcal C^\infty, com Γ(k)(t)=∫0∞(ln⁡x)kxt−1e−x ⁣dx\Gamma^{(k)}(t) = \int_0^\infty(\ln x)^kx^{t-1}\eu^{-x}\dd x. O valor Γ(12)=π\Gamma(\frac12) = \sqrt\pi é a integral gaussiana disfarçada (Problema 10.1).

O integrando xx: a integral imprópria ∈t_0∈fty converge por cancelamento alternado entre os arcos, mas as áreas | | dos arcos se comportam como 2π k — uma série harmônica: xx ∉ L1. Ser Lebesgue-integrável é ser absolutamente integrável.
O integrando sin⁡xx\frac{\sin x}x: a integral imprópria ∫0∞\int_0^\infty converge por cancelamento alternado entre os arcos, mas as áreas ∣⋅∣\abs{\cdot} dos arcos se comportam como 2πk\frac2{\pi k} — uma série harmônica: sin⁡xx∉L1\frac{\sin x}x \notin L^1. Ser Lebesgue-integrável é ser absolutamente integrável.

10.5 Exercícios

Exercício 10.1 ★

(a) Mostre que uma função monótona R→R\R \to \R é Borel-mensurável, e que uma derivada (de uma função derivável em toda parte) é Borel-mensurável. (b) Mostre que f ⁣:X→Rf \colon X \to \R é mensurável se, e somente se, {f>q}∈A\{f > q\} \in \mathcal A para todo qq racional.

Solução

Solução de Exercício 10.1.

(a) Se ff é não decrescente, {f>t}\{f > t\} é ∅\varnothing, R\R ou uma semirreta (a, +∞)\intoo a{+\infty} / [a, +∞)\intco a{+\infty}: boreliano em todos os casos; não crescente, do mesmo modo. Uma derivada: f′(x)=lim⁡nn(f(x+1n)−f(x))f'(x) = \lim_n n\bigl(f(x + \frac1n) - f(x)\bigr) é um limite pontual de funções contínuas (logo mensuráveis): Proposição 10.2(c).

(b) {f>t}=⋃q∈Q, q>t{f>q}\{f > t\} = \bigcup_{q \in \Q,\, q > t}\{f > q\}: se os níveis racionais são mensuráveis, todos os níveis são, e as semirretas geram B(R)\mathcal B(\R).

Exercício 10.2 ★

Calcule, com justificativa completa:

lim⁡n→∞∫0+∞cos⁡x(1+x/n)n  ⁣dx,lim⁡n→∞∫01n xn−11+x  ⁣dx.\lim_{n\to\infty}\int_0^{+\infty} \frac{\cos x}{(1 + x/n)^{n}}\,\dd x, \qquad \lim_{n\to\infty}\int_0^1 \frac{n\,x^{n-1}}{1 + x}\,\dd x .

(Para o segundo: substitua u=xnu = x^n antes de dominar.)

Solução

Solução de Exercício 10.2.

Primeiro: (1+x/n)n↗ex(1 + x/n)^n \nearrow \eu^x para x≥0x \geq 0, de modo que o integrando tende pontualmente a e−xcos⁡x\eu^{-x}\cos x; para n≥2n \geq 2, (1+x/n)n≥(1+x/2)2(1 + x/n)^n \geq (1 + x/2)^2, dando o dominante integrável (1+x/2)−2(1 + x/2)^{-2}. TCD:

lim⁡n∫0∞cos⁡x(1+x/n)n ⁣dx=∫0∞e−xcos⁡x  ⁣dx=Re⁡∫0∞e−(1−i)x ⁣dx=Re⁡11−i=12.\lim_n\int_0^\infty\frac{\cos x}{(1 + x/n)^n}\dd x = \int_0^\infty \eu^{-x}\cos x\,\dd x = \operatorname{Re}\int_0^\infty\eu^{-(1 - \iu)x}\dd x = \operatorname{Re}\frac{1}{1 - \iu} = \frac12 .

Segundo: substitua u=xnu = x^n (uma bijeção C1\mathcal C^1 de (0, 1)\intoo01):

∫01nxn−11+x ⁣dx=∫01 ⁣du1+u1/n⟶∫01 ⁣du2=12,\int_0^1\frac{nx^{n-1}}{1 + x}\dd x = \int_0^1\frac{\dd u}{1 + u^{1/n}} \longrightarrow \int_0^1\frac{\dd u}{2} = \frac12,

por TCD: para u∈(0, 1)u \in \intoo01, u1/n→1u^{1/n} \to 1, e o integrando é limitado por 11 num espaço de medida finita.

Exercício 10.3 ★★

(a) Exiba desigualdade estrita no lema de Fatou. (b) Exiba fn→0f_n \to 0 pontualmente com ∫fn=1\int f_n = 1 de três maneiras: fuga em altura, em largura e para o infinito. Qual hipótese isolada da convergência dominada cada uma delas viola? (c) Mostre que, no lema de Fatou, não se pode trocar lim inf⁡\liminf por lim sup⁡\limsup em nenhum dos dois lados.

Solução

Solução de Exercício 10.3.

(a) fn=n 1(0, 1/n)f_n = n\,\mathbf 1_{\intoo0{1/n}}: lim inf⁡fn=0\liminf f_n = 0 pontualmente, ∫fn=1\int f_n = 1: 0<10 < 1.

(b) Altura: n1(0, 1/n)n\mathbf 1_{\intoo0{1/n}}; largura: 1n1(0, n)\frac1n\mathbf 1_{\intoo0n}; translação: 1(n, n+1)\mathbf 1_{\intoo n{n+1}}. Todas tendem a 00 pontualmente com ∫=1\int = 1. Em cada caso falha a hipótese de dominação: sup⁡nfn\sup_nf_n é ≈1/x\approx 1/x perto de 00, ≈\approx é um perfil constante não integrável, 1(1, ∞)\mathbf 1_{\intoo1\infty} do mesmo tipo — nunca integráveis.

(c) “∫lim sup⁡fn≥lim sup⁡∫fn\int\limsup f_n \geq \limsup\int f_n” falha para o pico que translada: membro esquerdo 00, membro direito 11. “lim sup⁡∫≤∫lim sup⁡\limsup\int \leq \int\limsup” é o mesmo enunciado. E Fatou para lim sup⁡\limsup com ≤\leq invertido (“Fatou reverso”) exige um dominante — o mesmo pico é o contraexemplo.

Exercício 10.4 ★★

(a) Mostre que ∫0+∞xex−1  ⁣dx=∑n≥11n2=π26\displaystyle\int_0^{+\infty}\frac{x}{\eu^x - 1}\,\dd x = \sum_{n\geq1}\frac1{n^2} = \frac{\pi^2}6 (expanda 1ex−1\frac1{\eu^x - 1} em série geométrica e integre termo a termo — que teorema o permite?). (b) (O sonho do segundanista) Mostre que ∫01x−x  ⁣dx=∑n≥1n−n\displaystyle\int_0^1 x^{-x}\,\dd x = \sum_{n\geq1}n^{-n}. (Escreva x−x=e−xln⁡x=∑k(−xln⁡x)kk!x^{-x} = \eu^{-x\ln x} = \sum_k\frac{(-x\ln x)^k}{k!} e calcule ∫01(−xln⁡x)k ⁣dx\int_0^1(-x\ln x)^k\dd x substituindo x=e−u/(k+1)x = \eu^{-u/(k+1)}, reconhecendo Γ\Gamma.)

Solução

Solução de Exercício 10.4.

(a) Para x>0x > 0: 1ex−1=e−x1−e−x=∑n≥1e−nx\frac1{\eu^x - 1} = \frac{\eu^{-x}}{1 - \eu^{-x}} = \sum_{n\geq1}\eu^{-nx}, de modo que xex−1=∑n≥1xe−nx\frac{x}{\eu^x - 1} = \sum_{n\geq1}x\eu^{-nx}, uma série de funções mensuráveis não negativas: o Corolário 10.7 permite a integração termo a termo:

∫0∞x  ⁣dxex−1=∑n≥1∫0∞xe−nx ⁣dx=∑n≥11n2=π26\int_0^\infty\frac{x\,\dd x}{\eu^x - 1} = \sum_{n\geq1}\int_0^\infty x\eu^{-nx}\dd x = \sum_{n\geq1}\frac1{n^2} = \frac{\pi^2}6

(∫0∞xe−nx ⁣dx=n−2\int_0^\infty x\eu^{-nx}\dd x = n^{-2} por partes; Basel do volume do segundo ano, ou o Exercício 13.5 por vir).

(b) Em (0, 1)\intoo01, −xln⁡x≥0-x\ln x \geq 0, de modo que x−x=e−xln⁡x=∑k(−xln⁡x)kk!x^{-x} = \eu^{-x\ln x} = \sum_k\frac{(-x\ln x)^k}{k!} é uma série de termos não negativos: troque de novo. Substituindo x=e−u/(k+1)x = \eu^{-u/(k+1)}:

∫01(−xln⁡x)k ⁣dx=∫0∞(uk+1)ke−kuk+1  e−uk+1k+1  ⁣du=1(k+1)k+1∫0∞uke−u ⁣du=k!(k+1)k+1.\int_0^1(-x\ln x)^k\dd x = \int_0^\infty\Bigl(\frac{u}{k+1}\Bigr)^{k} \eu^{-\frac{ku}{k+1}}\;\frac{\eu^{-\frac u{k+1}}}{k+1}\,\dd u = \frac{1}{(k+1)^{k+1}}\int_0^\infty u^k\eu^{-u}\dd u = \frac{k!}{(k+1)^{k+1}} .

Logo ∫01x−x ⁣dx=∑k≥01(k+1)k+1=∑n≥1n−n\int_0^1x^{-x}\dd x = \sum_{k\geq0}\frac{1}{(k+1)^{k+1}} = \sum_{n\geq1}n^{-n}: o sonho do segundanista, com rigor.

Exercício 10.5 ★★

(a) Mostre que f≥0f \geq 0 mensurável com ∫f  ⁣dμ=0\int f\,\dd\mu = 0 satisfaz f=0f = 0 q.t.p. (Considere {f≥1/n}\{f \geq 1/n\} e a desigualdade de Markov: μ({f≥a})≤1a∫f\mu(\{f \geq a\}) \leq \frac1a\int f — demonstre-a.) (b) Mostre que uma ff integrável é finita q.t.p. (c) Mostre que, se ∫Af  ⁣dμ=0\int_A f\,\dd\mu = 0 para todo AA mensurável, então f=0f = 0 q.t.p.

Solução

Solução de Exercício 10.5.

(a) Markov: a 1{f≥a}≤fa\,\mathbf 1_{\{f \geq a\}} \leq f, integre: μ({f≥a})≤1a∫f\mu(\{f \geq a\}) \leq \frac1a\int f. Se ∫f=0\int f = 0: μ({f≥1n})=0\mu(\{f \geq \frac1n\}) = 0 para todo nn, e {f>0}=⋃n{f≥1n}\{f > 0\} = \bigcup_n\{f \geq \frac1n\} é nulo.

(b) μ({∣f∣=∞})≤μ({∣f∣≥n})≤1n∫∣f∣→0\mu(\{\abs f = \infty\}) \leq \mu(\{\abs f \geq n\}) \leq \frac1n\int\abs f \to 0.

(c) Tome A={f>0}A = \{f > 0\}: ∫f+ ⁣dμ=∫Af  ⁣dμ=0\int f^+\dd\mu = \int_Af\,\dd\mu = 0, de modo que f+=0f^+ = 0 q.t.p. por (a); do mesmo modo, f−=0f^- = 0 q.t.p.

Exercício 10.6 ★★

(a) Aplique o Teorema 10.12 para decidir a integrabilidade de Riemann de: 1Q\mathbf 1_\Q; a função de Thomae; 1K\mathbf 1_K para KK um conjunto de Cantor gordo (Exercício 9.5). (b) Mostre que ∫1+∞∣sin⁡xx∣  ⁣dx=+∞\int_1^{+\infty}\abs{\frac{\sin x}x}\,\dd x = +\infty, ao passo que lim⁡A→∞∫1Asin⁡xx  ⁣dx\lim_{A\to\infty}\int_1^A\frac{\sin x}x\,\dd x existe (integre por partes): convergência imprópria sem integrabilidade.

Solução

Solução de Exercício 10.6.

(a) 1Q\mathbf 1_\Q: descontínua em toda parte, não Riemann-integrável (Teorema 10.12); sua integral de Lebesgue vale λ(Q)=0\lambda(\Q) = 0. Thomae: contínua em todo irracional (dado ε\varepsilon, só finitos racionais em [0, 1]\intcc01 têm denominador ≤1/ε\leq 1/\varepsilon; evite-os por uma pequena vizinhança), descontínua nos racionais (densidade dos irracionais): contínua q.t.p., Riemann-integrável, de integral 00 (ela se anula q.t.p.). 1K\mathbf 1_K, com KK um conjunto de Cantor gordo: o conjunto de descontinuidades é ∂K=K\partial K = K (fechado de interior vazio), de medida 12>0\frac12 > 0: não é Riemann-integrável — e, no entanto, é Lebesgue-integrável, com integral λ(K)=12\lambda(K) = \frac12.

(b) ∫kπ(k+1)π∣sin⁡x∣x ⁣dx≥1(k+1)π∫kπ(k+1)π∣sin⁡x∣ ⁣dx=2(k+1)π\int_{k\pi}^{(k+1)\pi}\frac{\abs{\sin x}}x\dd x \geq \frac1{(k+1)\pi}\int_{k\pi}^{(k+1)\pi}\abs{\sin x}\dd x = \frac{2}{(k+1)\pi}: a série diverge. Convergência da integral imprópria: para A>πA > \pi,

∫πAsin⁡xx ⁣dx=[−cos⁡xx]πA−∫πAcos⁡xx2 ⁣dx,\int_\pi^A\frac{\sin x}x\dd x = \Bigl[\frac{-\cos x}x\Bigr]_\pi^A - \int_\pi^A\frac{\cos x}{x^2}\dd x,

e ambos os termos convergem quando A→∞A \to \infty (1x2\frac1{x^2} é integrável): convergência condicional sem integrabilidade absoluta.

Exercício 10.7 ★★

Justifique que F(t)=∫0+∞e−x2cos⁡(tx)  ⁣dxF(t) = \int_0^{+\infty}\eu^{-x^2}\cos(tx)\,\dd x é C1\mathcal C^1 em R\R e satisfaz F′(t)=−t2F(t)F'(t) = -\frac t2F(t) (integre por partes); deduza F(t)=F(0) e−t2/4F(t) = F(0)\,\eu^{-t^2/4}. (Com o F(0)=π2F(0) = \frac{\sqrt\pi}2 obtido no problema de fim de semana: a gaussiana é essencialmente sua própria transformada de Fourier — o Capítulo 14 sistematizará isso.)

Solução

Solução de Exercício 10.7.

Dominação: ∣∂t(e−x2cos⁡(tx))∣=∣xe−x2sin⁡(tx)∣≤xe−x2\abs{\partial_t(\eu^{-x^2}\cos(tx))} = \abs{x\eu^{-x^2}\sin(tx)} \leq x\eu^{-x^2}, integrável e independente de tt: o Teorema 10.15 se aplica globalmente,

F′(t)=−∫0∞xe−x2sin⁡(tx)  ⁣dx=[12e−x2sin⁡(tx)]0∞−t2∫0∞e−x2cos⁡(tx) ⁣dx=−t2F(t)F'(t) = -\int_0^\infty x\eu^{-x^2}\sin(tx)\,\dd x = \Bigl[\tfrac12\eu^{-x^2}\sin(tx)\Bigr]_0^\infty - \frac t2\int_0^\infty\eu^{-x^2}\cos(tx)\dd x = -\frac t2F(t)

(integração por partes com  ⁣dv=xe−x2 ⁣dx\dd v = x\eu^{-x^2}\dd x). A EDO linear dá F(t)=F(0)e−t2/4F(t) = F(0)\eu^{-t^2/4}; com F(0)=π2F(0) = \frac{\sqrt\pi}2 (Problema 10.1), a gaussiana se reproduz sob essa transformada em cosseno.

Exercício 10.8 ★★★

(Frullani) Sejam 0<a<b0 < a < b. Mostre que

∫0+∞e−ax−e−bxx  ⁣dx=ln⁡ba,\int_0^{+\infty}\frac{\eu^{-ax} - \eu^{-bx}}{x}\,\dd x = \ln\frac ba,

escrevendo o integrando como ∫abe−xt  ⁣dt\int_a^b \eu^{-xt}\,\dd t e justificando a troca pela teoria não negativa (Corolário 10.7 em forma contínua — antecipe Tonelli, ou fatie [a,b][a,b] em nn partes iguais e passe ao limite).

Solução

Solução de Exercício 10.8.

A integral converge: perto de 00 o integrando tende a b−ab - a (limitado), e ele decai como e−ax\eu^{-ax} no infinito. Fixe aa e veja I(b)=∫0∞e−ax−e−bxx ⁣dxI(b) = \int_0^\infty\frac{\eu^{-ax} - \eu^{-bx}}x\dd x como função de b∈[a, +∞)b \in \intco a{+\infty}. Para todo b≥ab \geq a: ∣∂b(integrando)∣=e−bx≤e−ax\abs{\partial_b(\text{integrando})} = \eu^{-bx} \leq \eu^{-ax}, e ∫0∞e−ax ⁣dx=1a<∞\int_0^\infty\eu^{-ax}\dd x = \frac1a < \infty: um dominante integrável. Logo o Teorema 10.15 dá I′(b)=∫0∞e−bx ⁣dx=1bI'(b) = \int_0^\infty\eu^{-bx}\dd x = \frac1b, e I(a)=0I(a) = 0:

I(b)=∫ab ⁣dtt=ln⁡ba.I(b) = \int_a^b\frac{\dd t}t = \ln\frac ba .

(Equivalentemente, o caminho da sugestão: o integrando é ∫abe−xt ⁣dt≥0\int_a^b\eu^{-xt}\dd t \geq 0 e a troca é o análogo contínuo do Corolário 10.7, isto é, Tonelli — demonstrado no Capítulo 11; o caminho paramétrico permanece dentro deste capítulo.)

Exercício 10.9 ★★

Seja f≥0f \geq 0 mensurável em (X,A,μ)(X, \mathcal A, \mu). Mostre que ν(A)=∫Af  ⁣dμ\nu(A) = \int_A f\,\dd\mu define uma medida (de densidade ff em relação a μ\mu) e que ∫g  ⁣dν=∫gf  ⁣dμ\int g\,\dd\nu = \int gf\,\dd\mu para toda g≥0g \geq 0 mensurável (demonstre-o para indicadoras, depois para funções simples e, então, por convergência monótona — a máquina padrão).

Solução

Solução de Exercício 10.9.

ν(∅)=0\nu(\varnothing) = 0; para (An)(A_n) disjuntos, f1⨆An=∑nf1Anf\mathbf 1_{\bigsqcup A_n} = \sum_nf\mathbf 1_{A_n} (pontualmente, todos os termos ≥0\geq 0), e o Corolário 10.7 dá a σ\sigma-aditividade. A fórmula ∫g  ⁣dν=∫gf  ⁣dμ\int g\,\dd\nu = \int gf\,\dd\mu: para g=1Ag = \mathbf 1_A é a definição de ν\nu; para gg simples, linearidade; para g≥0g \geq 0 mensurável, tome sn↗gs_n \nearrow g simples (Teorema 10.4): snf↗gfs_nf \nearrow gf, e o TCM em ambos os membros passa ao limite. (Esse elevador “indicadora →\to simples →\to TCM” é a máquina padrão da teoria.)

Exercício 10.10 ★★★

(Um fracasso ao estilo de Weierstrass) Defina f(t)=∫0+∞sin⁡(tx)x(1+x2)  ⁣dxf(t) = \int_0^{+\infty}\frac{\sin(tx)}{x(1 + x^2)}\,\dd x. (a) Mostre que ff está bem definida e é contínua em R\R, e que C1\mathcal C^1 com f′(t)=∫0∞cos⁡(tx)1+x2 ⁣dxf'(t) = \int_0^\infty\frac{\cos(tx)}{1 + x^2}\dd x para todo tt — mas que derivar de novo sob o sinal de integral é ilegítimo. (b) Admitindo f′(t)=π2e−tf'(t) = \frac\pi2\eu^{-t} para t>0t > 0 (demonstrado no Capítulo 17), quanto vale ∫0∞xsin⁡(tx)1+x2 ⁣dx\int_0^\infty\frac{x\sin(tx)}{1+x^2}\dd x para t>0t > 0, e por que sua fórmula confirma o fracasso de (a)?

Solução

Solução de Exercício 10.10.

(a) ∣sin⁡(tx)∣≤∣t∣x\abs{\sin(tx)} \leq \abs tx dá ∣sin⁡(tx)x(1+x2)∣≤∣t∣1+x2\abs{\frac{\sin(tx)}{x(1+x^2)}} \leq \frac{\abs t}{1+x^2}: a integral converge e, em ∣t∣≤T\abs t \leq T, o dominante T1+x2\frac{T}{1+x^2} fornece a continuidade (Teorema 10.14). Derivação: ∣∂t∣=∣cos⁡(tx)1+x2∣≤11+x2\abs{\partial_t} = \abs{\frac{\cos(tx)}{1+x^2}} \leq \frac1{1+x^2}, integrável: f′(t)=∫0∞cos⁡(tx)1+x2 ⁣dxf'(t) = \int_0^\infty\frac{\cos(tx)}{1+x^2}\dd x para todo tt. Uma segunda derivação exigiria integrar xsin⁡(tx)1+x2\frac{x\sin(tx)}{1 + x^2}, cujo valor absoluto se comporta como ∣sin⁡(tx)∣x\frac{\abs{\sin(tx)}} x no infinito: não integrável — não existe dominante e o Teorema 10.15 não pode ser aplicado de novo.

(b) Admitindo f′(t)=π2e−tf'(t) = \frac\pi2\eu^{-t} para t>0t > 0: pela imparidade de ff, f′f' é par, de modo que f′(t)=π2e−∣t∣f'(t) = \frac\pi2\eu^{-\abs t} — que não é derivável em 00: ff é C1\mathcal C^1, mas não C2\mathcal C^2, confirmando que a segunda derivação bloqueada não era um acidente técnico. Para t>0t > 0, a integral imprópria ∫0∞xsin⁡(tx)1+x2 ⁣dx\int_0^\infty\frac{x\sin(tx)}{1+x^2}\dd x vale −f′′(t)=π2e−t-f''(t) = \frac\pi2\eu^{-t} (derivando a fórmula admitida onde isso é legítimo, isto é, em (0, ∞)\intoo0\infty) — um valor impróprio, não Lebesgue.

Exercício 10.11 ★★

(Lema de Scheffé) Sejam fn,f≥0f_n, f \geq 0 integráveis com fn→ff_n \to f q.t.p. e ∫fn→∫f\int f_n \to \int f. (a) Mostre que ∫∣fn−f∣→0\int\abs{f_n - f} \to 0. (Aplique a convergência dominada a gn=(f−fn)+≤fg_n = (f - f_n)^+ \leq f e escreva ∫∣fn−f∣=2∫gn−∫(f−fn)\int\abs{f_n - f} = 2\int g_n - \int(f - f_n).) (b) Mostre com um exemplo que a hipótese ∫fn→∫f\int f_n \to \int f não pode ser descartada (uma onda deslizante ou que se concentra), e que a conclusão falha para fnf_n com sinal, sem controle em valor absoluto: fn=n1(0, 1/n]−n1(−1/n, 0]f_n = n\mathbf 1_{\intoc0{1/n}} - n\mathbf 1_{\intoc{-1/n}0} tem fn→0f_n \to 0 q.t.p., ∫fn=0→0\int f_n = 0 \to 0, e no entanto ∫∣fn∣=2\int\abs{f_n} = 2. (c) Aplicação (densidades): se densidades de probabilidade pn→pp_n \to p q.t.p., então automaticamente ∫∣pn−p∣→0\int\abs{p_n - p} \to 0: a convergência pontual de densidades é convergência L1L^1 — um ganho de convergência de graça.

Solução

Solução de Exercício 10.11.

(a) Seja gn=(f−fn)+g_n = (f - f_n)^+: então 0≤gn≤f0 \leq g_n \leq f (positividade de fnf_n), gn→0g_n \to 0 q.t.p., e ff é um dominante integrável: ∫gn→0\int g_n \to 0 (TCD). Como ∣fn−f∣=2(f−fn)+−(f−fn)\abs{f_n - f} = 2(f - f_n)^+ - (f - f_n),

∫∣fn−f∣=2∫gn−(∫f−∫fn)⟶0+0.\int\abs{f_n - f} = 2\int g_n - \Bigl(\int f - \int f_n\Bigr) \longrightarrow 0 + 0 .

(b) O pico deslizante fn=1[n, n+1]f_n = \mathbf 1_{\intcc n{n+1}} tem fn→0f_n \to 0 q.t.p. e ∫fn=1↛0\int f_n = 1 \not\to 0: sem a convergência das integrais, a convergência L1L^1 falha (e a hipótese também). O exemplo com sinal: fn→0f_n \to 0 em todo x≠0x \neq 0, ∫fn=0\int f_n = 0, mas ∫∣fn∣=2\int\abs{f_n} = 2: para sequências com sinal, o teorema é genuinamente uma questão de controle do tipo ∣fn∣\abs{f_n}, e a positividade foi usada exatamente em gn≤fg_n \leq f.

(c) Densidades satisfazem ∫pn=1=∫p\int p_n = 1 = \int p: a hipótese de (a) é automática, de modo que pn→pp_n \to p q.t.p. força ∥pn−p∥L1→0\norm{p_n - p}_{L^1} \to 0 — e, portanto, a convergência das probabilidades ∫Apn→∫Ap\int_Ap_n \to \int_Ap uniformemente em todo mensurável AA (∣∫A(pn−p)∣≤∥pn−p∥1\abs{\int_A(p_n - p)} \leq \norm{p_n - p}_1): Scheffé transforma a convergência pontual das densidades em convergência em variação total das leis.

Exercício 10.12 ★★

Limites clássicos, com justificativa completa por convergência monótona ou dominada:

(a) lim⁡n→∞∫0n(1−xn)nex/2  ⁣dx,(b) lim⁡n→∞∫01n xn−11+x  ⁣dx,\text{(a)}\ \lim_{n\to\infty}\int_0^n\Bigl(1 - \frac xn\Bigr)^n\eu^{x/2}\,\dd x, \qquad \text{(b)}\ \lim_{n\to\infty}\int_0^1\frac{n\,x^{n-1}}{1 + x}\,\dd x,
(c) lim⁡n→∞∫0∞ ⁣dx(1+x/n)n x1/n.\text{(c)}\ \lim_{n\to\infty}\int_0^\infty \frac{\dd x}{(1 + x/n)^n\,x^{1/n}} .

(Para (a): (1−x/n)n↗e−x(1 - x/n)^n \nearrow \eu^{-x} com xx fixado — demonstre a monotonicidade via log⁡\log; para (b), integre por partes ou substitua x=u1/nx = u^{1/n} e identifique uma concentração na fronteira; para (c), encontre um dominador integrável válido para todo n≥2n \geq 2 separando em x=1x = 1.)

Solução

Solução de Exercício 10.12.

(a) Em (0, n)\intoo0n, φn(x)=nlog⁡(1−xn)\varphi_n(x) = n\log(1 - \frac xn) cresce em nn até −x-x (a aplicação t↦log⁡(1−xt)tt \mapsto \frac{\log(1 - xt)}{t} decresce quando t=1n↓0t = \frac1n \downarrow 0; ou expanda: φn′≥0\varphi_{n}' \geq 0 em nn via log⁡(1−u)+u1−u≥0\log(1-u) + \frac{u}{1-u} \geq 0). Logo (1−xn)nex/21x<n↗e−x/2(1 - \frac xn)^n\eu^{x/2}\mathbf 1_{x<n} \nearrow \eu^{-x/2}, e o TCM dá

lim⁡n∫0n(1−xn)nex/2 ⁣dx=∫0∞e−x/2 ⁣dx=2.\lim_n\int_0^n\Bigl(1 - \frac xn\Bigr)^n\eu^{x/2}\dd x = \int_0^\infty\eu^{-x/2}\dd x = 2 .

(b) Substitua u=xnu = x^n (x=u1/nx = u^{1/n}, nxn−1 ⁣dx= ⁣dun x^{n-1}\dd x = \dd u):

∫01nxn−11+x ⁣dx=∫01 ⁣du1+u1/n.\int_0^1\frac{nx^{n-1}}{1 + x}\dd x = \int_0^1\frac{\dd u}{1 + u^{1/n}} .

Para u∈(0, 1)u \in \intoo01: u1/n→1u^{1/n} \to 1, de modo que o integrando tende a 12\frac12, dominado por 11: o limite é 12\frac12 (TCD). (A massa de nxn−1nx^{n-1} se concentra em x=1x = 1, onde 11+x=12\frac1{1+x} = \frac12: a substituição torna a concentração visível.)

(c) Pontualmente, (1+x/n)n↗ex(1 + x/n)^n \nearrow \eu^x e x1/n→1x^{1/n} \to 1 (x>0x > 0): o integrando tende a e−x\eu^{-x}. Dominante para n≥2n \geq 2: em (0, 1]\intoc01, x−1/n≤x−1/2x^{-1/n} \leq x^{-1/2} e (1+x/n)−n≤1(1 + x/n)^{-n} \leq 1: cota x−1/2x^{-1/2}, integrável; em (1, ∞)\intoo1\infty, x−1/n≤1x^{-1/n} \leq 1 e (1+x/n)n≥1+(n2)x2n2≥1+x24(1 + x/n)^n \geq 1 + \binom n2\frac{x^2}{n^2} \geq 1 + \frac{x^2}4: cota 44+x2\frac{4}{4 + x^2}, integrável. TCD:

lim⁡n∫0∞ ⁣dx(1+x/n)nx1/n=∫0∞e−x ⁣dx=1.\lim_n\int_0^\infty\frac{\dd x}{(1 + x/n)^nx^{1/n}} = \int_0^\infty\eu^{-x}\dd x = 1 .

10.6 Problema: duas integrais célebres

Problema 10.1

Problema de fim de semana — a integral gaussiana e a integral de Dirichlet, só com parâmetros

Duas integrais governam a análise aplicada:

G=∫−∞+∞e−x2 ⁣dx=π,D=∫0+∞sin⁡xx  ⁣dx=π2G = \int_{-\infty}^{+\infty}\eu^{-x^2}\dd x = \sqrt\pi, \qquad D = \int_0^{+\infty}\frac{\sin x}{x}\,\dd x = \frac\pi2

(a segunda como integral imprópria, Exemplo 10.13). Demonstramos ambas usando apenas as ferramentas deste capítulo.

Parte I — A gaussiana. Para t≥0t \geq 0, ponha

A(t)=(∫0te−x2 ⁣dx)2,B(t)=∫01e−t2(1+x2)1+x2  ⁣dx.A(t) = \Bigl(\int_0^t\eu^{-x^2}\dd x\Bigr)^{2}, \qquad B(t) = \int_0^1\frac{\eu^{-t^2(1 + x^2)}}{1 + x^2}\,\dd x .
  1. Justifique que AA e BB são C1\mathcal C^1 em (0, +∞)\intoo0{+\infty} e calcule A′A' e B′B'; mostre que A′(t)+B′(t)=0A'(t) + B'(t) = 0. (Em B′B', substitua u=txu = tx.)
  2. Calcule A(0)+B(0)A(0) + B(0) e lim⁡t→+∞(A+B)(t)\lim_{t\to+\infty}(A + B)(t) — justifique a passagem ao limite sob a integral em BB.
  3. Conclua ∫0∞e−x2 ⁣dx=π2\int_0^\infty \eu^{-x^2}\dd x = \frac{\sqrt\pi}2, logo G=πG = \sqrt\pi, e deduza Γ(12)=π\Gamma(\tfrac12) = \sqrt\pi (substitua x=u2x = u^2 em Γ(12)\Gamma(\frac12)).

Parte II — A integral de Dirichlet. Para t≥0t \geq 0, ponha

F(t)=∫0+∞e−tx sin⁡xx  ⁣dx.F(t) = \int_0^{+\infty}\eu^{-tx}\,\frac{\sin x}{x}\,\dd x .
  1. Mostre que a integral que define F(t)F(t) converge para todo t>0t > 0 como integral de Lebesgue e, para t=0t = 0, como integral imprópria; mostre que D=lim⁡A→∞∫0Asin⁡xx ⁣dxD = \lim_{A\to\infty}\int_0^A\frac{\sin x}x\dd x existe (integre por partes em [π,A][\pi, A]).
  2. Mostre que FF é C1\mathcal C^1 em (0, +∞)\intoo0{+\infty} com

    F′(t)=−∫0+∞e−txsin⁡x  ⁣dx=−11+t2F'(t) = -\int_0^{+\infty}\eu^{-tx}\sin x\,\dd x = -\frac{1}{1 + t^2}

    (dominação em [t0,∞)[t_0, \infty) para cada t0>0t_0 > 0; a última integral por duas integrações por partes ou por exponenciais complexas).

  3. Mostre que F(t)→0F(t) \to 0 quando t→+∞t \to +\infty, e deduza F(t)=π2−arctan⁡tF(t) = \frac\pi2 - \arctan t em (0, +∞)\intoo0{+\infty}.
  4. O ponto delicado: D=lim⁡t→0+F(t)D = \lim_{t\to0^+}F(t). Demonstre-o por controle uniforme da cauda: para 0≤t≤10 \leq t \leq 1 e A≥πA \geq \pi, integre por partes para mostrar que

    ∣∫A+∞e−txsin⁡xx  ⁣dx∣≤CA\Bigl|\int_A^{+\infty}\eu^{-tx}\frac{\sin x}x\,\dd x\Bigr| \leq \frac{C}{A}

    com CC independente de tt (derive e−txx\frac{\eu^{-tx}}x e limite ∣cos⁡∣\abs{\cos} por 11; note que te−tx≤1/x⋅(txe−tx)t\eu^{-tx} \leq 1/x\cdot(tx\eu^{-tx}) com sup⁡u≥0ue−u<1\sup_{u\geq0}u\eu^{-u} < 1); depois, separe F(t)−DF(t) - D em [0,A][0, A] (onde a convergência dominada se aplica quando t→0t \to 0) e [A,∞)[A, \infty).

  5. Conclua: D=π2D = \frac\pi2.

Parte III — Dividendos.

  1. Calcule ∫0+∞sin⁡2xx2  ⁣dx\int_0^{+\infty}\frac{\sin^2x}{x^2}\,\dd x (integre por partes e reduza a DD via sin⁡2x=2sin⁡xcos⁡x\sin 2x = 2\sin x\cos x).
  2. Calcule ∫0+∞1−cos⁡xx2  ⁣dx\int_0^{+\infty}\frac{1 - \cos x}{x^2}\,\dd x e confira a coerência dos dois resultados.
  3. Para a>0a > 0, calcule ∫0+∞sin⁡(ax)x ⁣dx\int_0^{+\infty}\frac{\sin(ax)}x\dd x e ∫−∞+∞e−ax2 ⁣dx\int_{-\infty}^{+\infty}\eu^{-ax^2}\dd x, e registre as regras de reescalamento (elas serão os cavalos de batalha do Capítulo 14).
  4. Explique com precisão por que DD não poderia ter sido tratada diretamente por convergência dominada em t=0t = 0 (não há dominador integrável em [0,1]×[0,∞)[0,1]\times[0,\infty)), e por que a separação de cauda da questão 7 é o substituto honesto — esse padrão (“integrabilidade uniforme das caudas”) reaparece por toda a análise.

Parte IV — A função Gama segundo Bohr e Mollerup. A função Γ\Gamma (Exemplo 10.16) satisfaz Γ(1)=1\Gamma(1) = 1 e Γ(x+1)=xΓ(x)\Gamma(x+1) = x\Gamma(x) — mas infinitas outras funções também satisfazem (multiplique por qualquer ondulação 11-periódica). Uma única condição de convexidade fixa Γ\Gamma de maneira única, e suas identidades mais profundas caem então mecanicamente. Uma função positiva ff em um intervalo é log-convexa se log⁡f\log f é convexa.

  1. Mostre que log-convexa implica convexa, que produtos de funções log-convexas e suas composições com aplicações afins são log-convexos e — via a desigualdade de Hölder para duas funções ∫∣uv∣≤(∫∣u∣p)1/p(∫∣v∣q)1/q\int\abs{uv} \leq \bigl(\int\abs u^p\bigr)^{1/p}\bigl(\int\abs v^q\bigr)^{1/q}, demonstrada diretamente a partir da desigualdade de Young — que Γ\Gamma é log-convexa em (0, ∞)\intoo0\infty.
  2. (Lema das inclinações) Seja gg convexa em (0, ∞)\intoo0\infty com g(n+1)−g(n)=log⁡ng(n+1) - g(n) = \log n para todo inteiro n≥1n \geq 1. Para x∈(0, 1]x \in \intoc01 e n≥2n \geq 2, compare as inclinações de gg em [n−1,n][n-1, n], [n,n+x][n, n+x] e [n,n+1][n, n+1], e deduza

    xlog⁡(n−1)  ≤  g(n+x)−g(n)  ≤  xlog⁡n.x\log(n-1) \;\leq\; g(n + x) - g(n) \;\leq\; x\log n .
  3. (Bohr–Mollerup) Seja f>0f > 0 com f(1)=1f(1) = 1, f(x+1)=xf(x)f(x+1) = xf(x) e log⁡f\log f convexa. Desenrolando a recursão em f(n+x)=x(x+1)⋯(x+n−1) f(x)f(n + x) = x(x+1)\cdots(x + n - 1)\,f(x) e f(n)=(n−1)!f(n) = (n-1)!, deduza da questão 14 que, para x∈(0, 1]x \in \intoc01,

    f(x)=lim⁡n→∞n! nxx(x+1)⋯(x+n):f(x) = \lim_{n\to\infty} \frac{n!\,n^x}{x(x+1)\cdots(x+n)} :

    ff é única, logo f=Γf = \Gamma, e vale a fórmula-limite de Gauss (estenda a todo x>0x > 0 pela recursão).

  4. Defina a função Beta B(x,y)=∫01tx−1(1−t)y−1  ⁣dtB(x, y) = \int_0^1t^{x-1}(1-t)^{y-1}\,\dd t (x,y>0x, y > 0). Demonstre a convergência, a recursão B(x+1,y)=xx+y B(x,y)B(x+1, y) = \frac{x}{x+y}\,B(x, y) (integre por partes) e B(1,y)=1yB(1, y) = \frac1y.
  5. Mostre que x↦B(x,y)x \mapsto B(x, y) é log-convexa (Hölder de novo) e aplique Bohr–Mollerup a

    f(x)=B(x,y) Γ(x+y)Γ(y)f(x) = \frac{B(x, y)\,\Gamma(x + y)}{\Gamma(y)}

    para concluir a fórmula de Euler: B(x,y)=Γ(x)Γ(y)Γ(x+y)B(x, y) = \dfrac{\Gamma(x)\Gamma(y)}{\Gamma(x+y)} — sem nenhuma integral dupla.

  6. Calcule B(12,12)B(\frac12, \frac12) diretamente (substitua t=sin⁡2θt = \sin^2\theta) e deduza Γ(12)=π\Gamma(\frac12) = \sqrt\pi: a integral gaussiana da Parte I, recuperada por convexidade pura. Compare as duas demonstrações em uma frase cada.
  7. (Duplicação de Legendre) Mostre que

    g(x)=2x−1π Γ(x2)Γ(x+12)g(x) = \frac{2^{x-1}}{\sqrt\pi}\, \Gamma\Bigl(\frac x2\Bigr) \Gamma\Bigl(\frac{x+1}2\Bigr)

    satisfaz as três hipóteses de Bohr–Mollerup e conclua g=Γg = \Gamma, isto é, Γ(2z)=22z−1π Γ(z) Γ(z+12)\Gamma(2z) = \frac{2^{2z-1}}{\sqrt\pi}\,\Gamma(z)\,\Gamma(z + \tfrac12) para todo z>0z > 0.

  8. Deduza a forma fechada Γ(n+12)=(2n)!4n n!π\Gamma\bigl(n + \tfrac12\bigr) = \dfrac{(2n)!}{4^n\,n!}\sqrt\pi e demonstre, pelo lema das inclinações aplicado a log⁡Γ\log\Gamma em torno de inteiros grandes, as assintóticas

    Γ(n+12)Γ(n) n⟶1.\frac{\Gamma(n + \frac12)}{\Gamma(n)\,\sqrt n} \longrightarrow 1 .
  9. Combine as duas últimas questões na assintótica do coeficiente binomial central

    (2nn)∼4nπn,\binom{2n}{n} \sim \frac{4^n}{\sqrt{\pi n}},

    e verifique numericamente para n=10n = 10 ((2010)=184756\binom{20}{10} = 184756, contra 410/10π≈1870794^{10}/\sqrt{10\pi} \approx 187079: razão ≈0.988\approx 0.988).

  10. (Síntese) A constante π\sqrt\pi já apareceu como a integral gaussiana (Parte I), como B(12,12)B(\frac12, \frac12) (questão 18) e dentro da duplicação (questão 19); a estimativa do binomial central antecipa tanto Stirling (o problema de fim de semana do Capítulo 11) quanto de Moivre–Laplace. Mapeie as conexões: que enunciados são equivalentes a quais, e o que cada técnica — derivação sob a integral contra convexidade — traz que a outra não pode trazer?

Parte V — Mais três dividendos.

  1. (Wallis, via Beta) Para p>−1p > -1, substitua t=sin⁡2θt = \sin^2\theta para mostrar

    Wp=∫0π/2sin⁡pθ  ⁣dθ=12 B(p+12,12),W_p = \int_0^{\pi/2}\sin^p\theta\,\dd\theta = \frac12\,B\Bigl(\frac{p+1}2, \frac12\Bigr),

    e deduza da recursão da Beta (questão 16) que Wn+2=n+1n+2 WnW_{n+2} = \frac{n+1}{n+2}\,W_n para inteiros n≥0n \geq 0. Calcule W2nW_{2n} e W2n+1W_{2n+1} em forma fechada, mostre W2n+1/W2n→1W_{2n+1}/W_{2n} \to 1 por confinamento e conclua com o produto de Wallis

    π2=lim⁡n→∞∏k=1n4k24k2−1.\frac\pi2 = \lim_{n\to\infty} \prod_{k=1}^{n}\frac{4k^2}{4k^2 - 1} .
  2. (A gaussiana encontra uma frequência) Para b∈Rb \in \R, ponha

    Φ(b)=∫−∞+∞e−x2cos⁡(2bx)  ⁣dx.\Phi(b) = \int_{-\infty}^{+\infty} \eu^{-x^2}\cos(2bx)\,\dd x .

    Mostre que Φ\Phi é C1\mathcal C^1 em R\R, que uma integração por partes fornece a equação diferencial Φ′(b)=−2b Φ(b)\Phi'(b) = -2b\,\Phi(b) e conclua

    Φ(b)=π e−b2:\Phi(b) = \sqrt\pi\,\eu^{-b^2} :

    a gaussiana se reproduz sob essa transformada — a única identidade sobre a qual o Capítulo 14 vai funcionar.

  3. (A integral de Frullani) Para 0<a<b0 < a < b, mostre que

    ∫0+∞e−ax−e−bxx  ⁣dx=log⁡ba,\int_0^{+\infty} \frac{\eu^{-ax} - \eu^{-bx}}{x}\,\dd x = \log\frac ba ,

    derivando no parâmetro aa (justifique a dominação em todo [a0, +∞)\intco{a_0}{+\infty}, a0>0a_0 > 0, e identifique a constante fazendo a→ba \to b). Onde exatamente o integrando precisa de sua singularidade removível em x=0x = 0?

Solução

Solução de Problema 10.1.

1. AA é C1\mathcal C^1 pelo teorema fundamental do cálculo e pela regra da cadeia: A′(t)=2e−t2∫0te−x2 ⁣dxA'(t) = 2\eu^{-t^2}\int_0^t\eu^{-x^2}\dd x. Para BB: ∂t(e−t2(1+x2)1+x2)=−2t e−t2(1+x2)\partial_t\bigl(\frac{\eu^{-t^2(1+x^2)}}{1+x^2}\bigr) = -2t\,\eu^{-t^2(1+x^2)}, contínua e limitada em [t0,T]×[0, 1][t_0, T] \times \intcc01 para qualquer 0<t0<T0 < t_0 < T (a dominação por limitada num espaço de medida finita basta): BB é C1\mathcal C^1 em (0, +∞)\intoo0{+\infty} com

B′(t)=−2t∫01e−t2(1+x2) ⁣dx=−2e−t2∫01t e−(tx)2 ⁣dx=−2e−t2∫0te−u2 ⁣du=−A′(t)B'(t) = -2t\int_0^1 \eu^{-t^2(1+x^2)}\dd x = -2\eu^{-t^2}\int_0^1 t\,\eu^{-(tx)^2}\dd x = -2\eu^{-t^2}\int_0^t\eu^{-u^2}\dd u = -A'(t)

(substituição u=txu = tx).

2. A(0)=0A(0) = 0 e B(0)=∫01 ⁣dx1+x2=π4B(0) = \int_0^1\frac{\dd x}{1+x^2} = \frac\pi4. A+BA + B tem derivada nula em (0, +∞)\intoo0{+\infty} e é contínua em 00 (BB pela dominação 11+x2\frac1{1+x^2} e pelo Teorema 10.14): A+B≡π4A + B \equiv \frac\pi4. Quando t→+∞t\to+\infty: 0≤B(t)≤e−t2→00 \leq B(t) \leq \eu^{-t^2} \to 0, e A(t)→(∫0∞e−x2 ⁣dx)2A(t) \to \bigl(\int_0^\infty\eu^{-x^2}\dd x\bigr)^2 (TCM ou apenas convergência monótona da integral interna).

3. Logo (∫0∞e−x2 ⁣dx)2=π4\bigl(\int_0^\infty\eu^{-x^2}\dd x\bigr)^2 = \frac\pi4: ∫0∞e−x2 ⁣dx=π2\int_0^\infty\eu^{-x^2}\dd x = \frac{\sqrt\pi}2 e, por paridade, G=πG = \sqrt\pi. Além disso, Γ(12)=∫0∞x−1/2e−x ⁣dx=x=u22∫0∞e−u2 ⁣du=π\Gamma(\frac12) = \int_0^\infty x^{-1/2}\eu^{-x}\dd x \overset{x = u^2}{=} 2\int_0^\infty\eu^{-u^2}\dd u = \sqrt\pi.

4. Para t>0t > 0: ∣e−txsin⁡xx∣≤e−tx\abs{\eu^{-tx}\frac{\sin x}x} \leq \eu^{-tx}, integrável. Para t=0t = 0, convergência imprópria: em [π,A][\pi, A],

∫πAsin⁡xx ⁣dx=[−cos⁡xx]πA−∫πAcos⁡xx2 ⁣dx,\int_\pi^A\frac{\sin x}x\dd x = \Bigl[-\frac{\cos x}x\Bigr]_\pi^A - \int_\pi^A\frac{\cos x}{x^2}\dd x,

ambos os termos convergentes quando A→∞A \to \infty; perto de 00 o integrando se estende continuamente por 11.

5. Em [t0,+∞)[t_0, +\infty) (t0>0t_0 > 0): ∣∂t(e−txsin⁡xx)∣=e−tx∣sin⁡x∣≤e−t0x\abs{\partial_t\bigl(\eu^{-tx}\tfrac{\sin x}x\bigr)} = \eu^{-tx}\abs{\sin x} \leq \eu^{-t_0x}, integrável: o Teorema 10.15 se aplica em todo intervalo desses, logo em todo (0, +∞)\intoo0{+\infty}:

F′(t)=−∫0∞e−txsin⁡x  ⁣dx=−Im⁡∫0∞e−(t−i)x ⁣dx=−Im⁡1t−i=−11+t2.F'(t) = -\int_0^\infty\eu^{-tx}\sin x\,\dd x = -\operatorname{Im}\int_0^\infty\eu^{-(t - \iu)x}\dd x = -\operatorname{Im}\frac{1}{t - \iu} = -\frac{1}{1 + t^2}.

6. ∣F(t)∣≤∫0∞e−tx ⁣dx=1t→0\abs{F(t)} \leq \int_0^\infty\eu^{-tx}\dd x = \frac1t \to 0. Integrando F′=−11+t2F' = -\frac1{1+t^2}: F(t)=C−arctan⁡tF(t) = C - \arctan t, e t→∞t \to \infty força C=π2C = \frac\pi2: F(t)=π2−arctan⁡tF(t) = \frac\pi2 - \arctan t em (0, +∞)\intoo0{+\infty}.

7. Integre por partes em [A,R][A, R] com sin⁡x=(−cos⁡x)′\sin x = (-\cos x)' e faça R→∞R \to \infty:

∫A∞e−txsin⁡xx ⁣dx=cos⁡A  e−tAA−∫A∞cos⁡x (tx+1x2)e−tx ⁣dx.\int_A^{\infty}\eu^{-tx}\frac{\sin x}x\dd x = \frac{\cos A\;\eu^{-tA}}{A} - \int_A^\infty \cos x\,\Bigl(\frac tx + \frac1{x^2}\Bigr)\eu^{-tx}\dd x .

Majorando ∣cos⁡∣≤1\abs{\cos} \leq 1: o primeiro termo é ≤1A\leq \frac1A; a integral é no máximo ∫A∞te−tx ⁣dxx+∫A∞ ⁣dxx2≤1A∫0∞te−tx ⁣dx+1A=2A\int_A^\infty t\eu^{-tx}\frac{\dd x}x + \int_A^\infty\frac{\dd x}{x^2} \leq \frac1A\int_0^\infty t\eu^{-tx}\dd x + \frac1A = \frac2A. Total: ≤3A\leq \frac 3A, uniformemente para t∈[0,1]t \in [0, 1] (incluído o caso t=0t = 0). Agora

∣F(t)−D∣≤∣∫0A(e−tx−1) sin⁡xx  ⁣dx∣+6A.\abs{F(t) - D} \leq \Bigl|\int_0^A(\eu^{-tx} - 1)\,\frac{\sin x}x\,\dd x\Bigr| + \frac6A .

Em [0,A][0, A]: ∣e−tx−1∣≤tx≤tA\abs{\eu^{-tx} - 1} \leq tx \leq tA e ∣sin⁡xx∣≤1\abs{\frac{\sin x}x} \leq 1, de modo que o primeiro termo é no máximo tA2tA^2. Escolha AA com 6A<ε\frac6A < \varepsilon e depois t<ε/A2t < \varepsilon/A^2: ∣F(t)−D∣<2ε\abs{F(t) - D} < 2\varepsilon.

8. Portanto, D=lim⁡t→0+F(t)=lim⁡t→0+(π2−arctan⁡t)=π2D = \lim_{t\to0^+}F(t) = \lim_{t\to0^+}\bigl(\frac\pi2 - \arctan t\bigr) = \frac\pi2.

9. Por partes (u=sin⁡2xu = \sin^2x, v′=x−2v' = x^{-2}):

∫0∞sin⁡2xx2 ⁣dx=[−sin⁡2xx]0∞+∫0∞2sin⁡xcos⁡xx ⁣dx=∫0∞sin⁡2xx ⁣dx=D=π2\int_0^\infty\frac{\sin^2x}{x^2}\dd x = \Bigl[-\frac{\sin^2x}{x}\Bigr]_0^\infty + \int_0^\infty\frac{2\sin x\cos x}{x}\dd x = \int_0^\infty\frac{\sin 2x}{x}\dd x = D = \frac\pi2

(substitua u=2xu = 2x no último passo; os termos de bordo se anulam: sin⁡2x/x→0\sin^2 x/x \to 0 nos dois extremos).

10. Por partes (u=1−cos⁡xu = 1 - \cos x, v′=x−2v' = x^{-2}): ∫0∞1−cos⁡xx2 ⁣dx=∫0∞sin⁡xx ⁣dx=π2\int_0^\infty\frac{1 - \cos x}{x^2}\dd x = \int_0^\infty\frac{\sin x}x\dd x = \frac\pi2. Coerência: 1−cos⁡x=2sin⁡2x21 - \cos x = 2\sin^2\frac x2, e a substituição x=2ux = 2u transforma ∫2sin⁡2(x/2)x2 ⁣dx\int\frac{2\sin^2(x/2)}{x^2}\dd x em ∫sin⁡2uu2 ⁣du\int\frac{\sin^2u}{u^2}\dd u: os dois cálculos concordam.

11. ∫0∞sin⁡(ax)x ⁣dx=π2\int_0^\infty\frac{\sin(ax)}x\dd x = \frac\pi2 para todo a>0a > 0 (substitua u=axu = ax: a integral é invariante por escala); ∫Re−ax2 ⁣dx=π/a\int_\R\eu^{-ax^2}\dd x = \sqrt{\pi/a} (substitua u=a xu = \sqrt a\,x). Reescalar o argumento deixa a integral de Dirichlet fixa e divide a gaussiana por a\sqrt a.

12. Um dominante válido para todo t∈[0,1]t \in [0,1] teria de dominar sup⁡t∈[0,1]∣e−txsin⁡xx∣=∣sin⁡xx∣\sup_{t\in[0,1]}\abs{\eu^{-tx}\frac{\sin x}x} = \abs{\frac{\sin x}x}, que não é integrável (Exercício 10.6): o TCD não consegue atravessar t=0t = 0. O substituto da questão 7 — caudas uniformemente pequenas no parâmetro, parte compacta tratada pelo TCD — é o padrão usual da “integrabilidade uniforme” e reaparece sempre que a convergência condicional encontra a troca de limites.

13. Se g=log⁡fg = \log f é convexa, então f=exp⁡∘gf = \exp\circ g é convexa (exp é convexa crescente: f(λx+(1−λ)y)≤eλg(x)+(1−λ)g(y)≤λf(x)+(1−λ)f(y)f(\lambda x + (1-\lambda) y) \leq \eu^{\lambda g(x) + (1-\lambda)g(y)} \leq \lambda f(x) + (1-\lambda)f(y), o último passo pela convexidade de exp entre os pontos g(x),g(y)g(x), g(y)). Produtos e substituições afins: os logaritmos os transformam em somas e substituições afins de funções convexas. Hölder (1p+1q=1\frac1p + \frac1q = 1): para ∫∣u∣p=∫∣v∣q=1\int\abs u^p = \int\abs v^q = 1, Young dá ∣uv∣≤∣u∣pp+∣v∣qq\abs{uv} \leq \frac{\abs u^p}p + \frac{\abs v^q}q; integre: ∫∣uv∣≤1\int\abs{uv} \leq 1; o caso geral por homogeneidade. Então, para λ∈(0, 1)\lambda \in \intoo01, aplique-o com p=1λp = \frac1\lambda à fatoração

tλx+(1−λ)y−1e−t=(tx−1e−t)λ(ty−1e−t)1−λ:Γ(λx+(1−λ)y)≤Γ(x)λ Γ(y)1−λ.t^{\lambda x + (1-\lambda)y - 1}\eu^{-t} = \bigl(t^{x-1}\eu^{-t}\bigr)^{\lambda} \bigl(t^{y-1}\eu^{-t}\bigr)^{1-\lambda} : \qquad \Gamma(\lambda x + (1{-}\lambda)y) \leq \Gamma(x)^\lambda\,\Gamma(y)^{1-\lambda} .

14. Para uma gg convexa, a inclinação de uma corda cresce com seus extremos (desigualdade das três cordas). Comparando as cordas sobre [n−1,n][n-1, n], [n,n+x][n, n+x], [n,n+1][n, n+1]:

log⁡(n−1)=g(n)−g(n−1)1≤g(n+x)−g(n)x≤g(n+1)−g(n)1=log⁡n,\log(n-1) = \frac{g(n) - g(n-1)}1 \leq \frac{g(n+x) - g(n)}x \leq \frac{g(n+1) - g(n)}1 = \log n,

e multiplicar por x>0x > 0 dá o afirmado.

15. Com f(n)=(n−1)!f(n) = (n-1)! (recorrência a partir de f(1)=1f(1) = 1) e f(n+x)=x(x+1)⋯(x+n−1) f(x)f(n + x) = x(x+1)\cdots(x+n-1)\,f(x), a questão 14 se lê

(n−1)x (n−1)!  ≤  x(x+1)⋯(x+n−1) f(x)  ≤  nx (n−1)!.(n-1)^x\,(n-1)! \;\leq\; x(x+1)\cdots(x+n-1)\,f(x) \;\leq\; n^x\,(n-1)! .

A cota superior se reescreve como f(x)≤n! nxx(x+1)⋯(x+n)⋅x+nnf(x) \leq \frac{n!\,n^x}{x(x+1)\cdots(x+n)}\cdot\frac{x+n}n, e a cota inferior na ordem n+1n+1 como f(x)≥n! nxx(x+1)⋯(x+n)f(x) \geq \frac{n!\,n^x}{x(x+1)\cdots(x+n)}. O fator de correção x+nn→1\frac{x+n}n \to 1: o sanduíche força

f(x)=lim⁡nn! nxx(x+1)⋯(x+n)(x∈(0, 1]),f(x) = \lim_n\frac{n!\,n^x}{x(x+1)\cdots(x+n)} \qquad (x \in \intoc01),

uma expressão independente de ff: unicidade em (0, 1]\intoc01, logo em toda parte pela recorrência. Como Γ\Gamma satisfaz as três hipóteses (questão 13), f=Γf = \Gamma, e a fórmula de Gauss vale — para todo x>0x > 0, já que ambos os membros obedecem à mesma recorrência.

16. Perto de 00, o integrando é ∼tx−1\sim t^{x-1}, integrável se, e somente se, x>0x > 0; perto de 11, simétrico com yy. Integração por partes em [ε, 1−ε]\intcc\varepsilon{1-\varepsilon}, fazendo ε→0\varepsilon \to 0 (os termos de bordo se anulam para x,y>0x, y > 0):

B(x+1,y)=[−tx(1−t)yy]01+xy∫01tx−1(1−t)y  ⁣dt=xy(B(x,y)−B(x+1,y)),B(x{+}1, y) = \Bigl[-t^x\frac{(1-t)^y}y\Bigr]_0^1 + \frac xy\int_0^1t^{x-1}(1-t)^y\,\dd t = \frac xy\bigl(B(x, y) - B(x{+}1, y)\bigr),

usando (1−t)y=(1−t)y−1(1−t)(1-t)^y = (1-t)^{y-1}(1 - t); resolvendo, B(x+1,y)=xx+yB(x,y)B(x+1, y) = \frac{x}{x+y}B(x, y). E B(1,y)=∫01(1−t)y−1 ⁣dt=1yB(1, y) = \int_0^1(1-t)^{y-1}\dd t = \frac1y.

17. f(1)=1y⋅Γ(1+y)Γ(y)=1f(1) = \frac1y\cdot\frac{\Gamma(1+y)}{\Gamma(y)} = 1; f(x+1)=xx+yB(x,y)⋅(x+y)Γ(x+y)Γ(y)=x f(x)f(x+1) = \frac{x}{x+y}B(x,y)\cdot\frac{(x+y)\Gamma(x+y)} {\Gamma(y)} = x\,f(x); e ff é log-convexa em xx como produto da log-convexa B(⋅,y)B(\cdot, y) (Hölder na fatoração t(λx1+(1−λ)x2)−1(1−t)y−1=(⋯ )λ(⋯ )1−λt^{(\lambda x_1 + (1-\lambda)x_2)-1}(1-t)^{y-1} = (\cdots)^\lambda(\cdots)^{1-\lambda}, como na questão 13) e de Γ(⋅+y)\Gamma(\cdot + y) (translação afim). Bohr–Mollerup: f=Γf = \Gamma, isto é, B(x,y)=Γ(x)Γ(y)Γ(x+y)B(x, y) = \frac{\Gamma(x)\Gamma(y)}{\Gamma(x+y)}.

18. Com t=sin⁡2θt = \sin^2\theta,  ⁣dt=2sin⁡θcos⁡θ  ⁣dθ\dd t = 2\sin\theta\cos\theta\,\dd\theta e t−1/2(1−t)−1/2=1sin⁡θcos⁡θt^{-1/2}(1-t)^{-1/2} = \frac1{\sin\theta\cos\theta}:

B(12,12)=∫0π/22  ⁣dθ=π=Γ(12)2Γ(1)⟹Γ(12)=π.B\Bigl(\frac12, \frac12\Bigr) = \int_0^{\pi/2}2\,\dd\theta = \pi = \frac{\Gamma(\frac12)^2}{\Gamma(1)} \quad\Longrightarrow\quad \Gamma\Bigl(\frac12\Bigr) = \sqrt\pi .

A Parte I chegou à mesma constante derivando em um parâmetro e fazendo duas funções correrem até seus limites; aqui a convexidade sozinha enrijeceu o problema até que só um valor sobrevivesse. Análise por movimento contra análise por forma.

19. g(1)=20πΓ(12)Γ(1)=1g(1) = \frac{2^0}{\sqrt\pi}\Gamma(\frac12) \Gamma(1) = 1. Recorrência:

g(x+1)=2xπ Γ(x+12)Γ(x2+1)=2xπ⋅x2 Γ(x2)Γ(x+12)=x g(x).g(x+1) = \frac{2^{x}}{\sqrt\pi}\, \Gamma\Bigl(\frac{x+1}2\Bigr)\Gamma\Bigl(\frac x2 + 1\Bigr) = \frac{2^{x}}{\sqrt\pi}\cdot\frac x2\, \Gamma\Bigl(\frac x2\Bigr)\Gamma\Bigl(\frac{x+1}2\Bigr) = x\,g(x) .

Log-convexidade: produto de e(x−1)log⁡2\eu^{(x-1)\log2} (log-afim) e de duas reparametrizações afins da log-convexa Γ\Gamma. Bohr–Mollerup dá g=Γg = \Gamma; pondo x=2zx = 2z: Γ(2z)=22z−1πΓ(z)Γ(z+12)\Gamma(2z) = \frac{2^{2z-1}}{\sqrt\pi}\Gamma(z)\Gamma(z + \frac12).

20. De Γ(12)=π\Gamma(\frac12) = \sqrt\pi e da recorrência, Γ(n+12)=(n−12)(n−32)⋯12 π=(2n−1)(2n−3)⋯12nπ=(2n)!4nn!π\Gamma(n + \frac12) = (n - \frac12)(n - \frac32)\cdots\frac12\,\sqrt\pi = \frac{(2n-1)(2n-3)\cdots1}{2^n}\sqrt\pi = \frac{(2n)!}{4^nn!}\sqrt\pi (complete o produto ímpar com os pares). Assintótica: a questão 14 com g=log⁡Γg = \log\Gamma e x=12x = \frac12 dá n−1≤Γ(n+12)Γ(n)≤n\sqrt{n-1} \leq \frac{\Gamma(n+\frac12)}{\Gamma(n)} \leq \sqrt n, de modo que a razão para n\sqrt n fica espremida entre 1−1n\sqrt{1 - \frac1n} e 11.

21. Da questão 20, (2n)!=4nn!πΓ(n+12)(2n)! = \frac{4^nn!}{\sqrt\pi}\Gamma(n + \tfrac12), de modo que

(2nn)=(2n)!(n!)2=4n Γ(n+12)π  n!=4nπ⋅Γ(n+12)n Γ(n)∼4nπ⋅nn=4nπn.\binom{2n}n = \frac{(2n)!}{(n!)^2} = \frac{4^n\,\Gamma(n+\frac12)}{\sqrt\pi\;n!} = \frac{4^n}{\sqrt\pi}\cdot \frac{\Gamma(n+\frac12)}{n\,\Gamma(n)} \sim \frac{4^n}{\sqrt\pi}\cdot\frac{\sqrt n}{n} = \frac{4^n}{\sqrt{\pi n}} .

Numericamente, 410/10π=1048576/5.6050≈187078.64^{10}/\sqrt{10\pi} = 1048576/5.6050 \approx 187078.6, contra (2010)=184756\binom{20}{10} = 184756: razão 0.98760.9876 — o erro é O(1/n)O(1/n), visível em n=10n = 10.

22. Equivalências: Γ(12)=π⇔G=π\Gamma(\frac12) = \sqrt\pi \Leftrightarrow G = \sqrt\pi (a substituição x=u2x = u^2 da questão 3) ⇔B(12,12)=π\Leftrightarrow B(\frac12, \frac12) = \pi (fórmula de Euler); a duplicação em z=nz = n é a forma fechada de Γ(n+12)\Gamma(n + \frac12), que é a estimativa do binomial central a menos do lema das inclinações. A técnica do parâmetro (Partes I–II) calcula limites de quantidades móveis e é indispensável quando há uma deformação genuína (a integral de Dirichlet não tem demonstração por convexidade); a técnica da convexidade nada calcula, mas tudo proíbe — ela brilha em unicidade e equações funcionais (Gauss, Euler, Legendre em três golpes), em que a derivação se afogaria em contas. Um analista completo carrega as duas.

23. Com t=sin⁡2θt = \sin^2\theta,  ⁣dt=2sin⁡θcos⁡θ  ⁣dθ=2 t1/2(1−t)1/2  ⁣dθ\dd t = 2\sin\theta\cos\theta\,\dd\theta = 2\,t^{1/2}(1-t)^{1/2}\,\dd\theta, de modo que

Wp=∫01tp/2  ⁣dt2 t1/2(1−t)1/2=12∫01tp+12−1(1−t)12−1 ⁣dt=12 B(p+12,12).W_p = \int_0^1 t^{p/2}\, \frac{\dd t}{2\,t^{1/2}(1-t)^{1/2}} = \frac12\int_0^1 t^{\frac{p+1}2 - 1}(1-t)^{\frac12 - 1}\dd t = \frac12\,B\Bigl(\frac{p+1}2, \frac12\Bigr).

A recorrência da Beta com x=n+12x = \frac{n+1}2, y=12y = \frac12 dá

Wn+2=12 (n+1)/2(n+2)/2 B(n+12,12)=n+1n+2 Wn.W_{n+2} = \frac12\, \frac{(n+1)/2}{(n+2)/2}\,B\Bigl(\frac{n+1}2, \frac12\Bigr) = \frac{n+1}{n+2}\,W_n .

Partindo de W0=π2W_0 = \frac\pi2, W1=1W_1 = 1:

W2n=π2∏k=1n2k−12k,W2n+1=∏k=1n2k2k+1.W_{2n} = \frac\pi2\prod_{k=1}^n\frac{2k-1}{2k}, \qquad W_{2n+1} = \prod_{k=1}^n\frac{2k}{2k+1} .

Como sin⁡n+1≤sin⁡n\sin^{n+1} \leq \sin^n em [0, π/2]\intcc0{\pi/2}, a sequência (Wn)(W_n) é não crescente, de modo que

1≥W2n+1W2n≥W2n+1W2n−1=2n2n+1⟶1.1 \geq \frac{W_{2n+1}}{W_{2n}} \geq \frac{W_{2n+1}}{W_{2n-1}} = \frac{2n}{2n+1} \longrightarrow 1 .

Mas as formas fechadas dão

W2n+1W2n=2π∏k=1n(2k)2(2k−1)(2k+1)=2π∏k=1n4k24k2−1,\frac{W_{2n+1}}{W_{2n}} = \frac2\pi \prod_{k=1}^n\frac{(2k)^2}{(2k-1)(2k+1)} = \frac2\pi\prod_{k=1}^n\frac{4k^2}{4k^2-1},

e fazer n→∞n \to \infty fornece o produto de Wallis. (Via a fórmula de Euler, Wp=π2 Γ(p+12)/Γ(p2+1)W_p = \frac{\sqrt\pi}2\, \Gamma(\frac{p+1}2)/\Gamma(\frac p2 + 1): Wallis é a integral gaussiana em mais uma fantasia.)

24. A derivada em bb do integrando é −2x e−x2sin⁡(2bx)-2x\,\eu^{-x^2}\sin(2bx), dominada por 2∣x∣ e−x2∈L1(R)2\abs x\,\eu^{-x^2} \in L^1(\R) uniformemente em bb: Φ\Phi é C1\mathcal C^1 com

Φ′(b)=−∫−∞+∞2x e−x2sin⁡(2bx)  ⁣dx.\Phi'(b) = -\int_{-\infty}^{+\infty} 2x\,\eu^{-x^2}\sin(2bx)\,\dd x .

Integrando por partes com u=sin⁡(2bx)u = \sin(2bx),  ⁣dv=−2x e−x2 ⁣dx\dd v = -2x\,\eu^{-x^2}\dd x (de modo que v=e−x2v = \eu^{-x^2}), os termos de bordo se anulam e

Φ′(b)=−2b∫−∞+∞e−x2cos⁡(2bx)  ⁣dx=−2b Φ(b).\Phi'(b) = -2b\int_{-\infty}^{+\infty} \eu^{-x^2}\cos(2bx)\,\dd x = -2b\,\Phi(b).

Logo (Φ(b) eb2)′=0\bigl(\Phi(b)\,\eu^{b^2}\bigr)' = 0 e Φ(b)=Φ(0) e−b2=π e−b2\Phi(b) = \Phi(0)\,\eu^{-b^2} = \sqrt\pi\,\eu^{-b^2} pela Parte I. A menos de normalização, isso diz que a transformada de Fourier de e−x2\eu^{-x^2} é de novo uma gaussiana — o ponto fixo em torno do qual gira a teoria da inversão do Capítulo 14.

25. Para 0<a<b0 < a < b e x>0x > 0,

0≤e−ax−e−bxx=∫abe−sx  ⁣ds≤(b−a) e−ax,0 \leq \frac{\eu^{-ax} - \eu^{-bx}}{x} = \int_a^b \eu^{-sx}\,\dd s \leq (b - a)\,\eu^{-ax},

de modo que a integral I(a)I(a) converge (Lebesgue); a cota pontual mostra também que o integrando se estende continuamente por b−ab - a em x=0x = 0. Fixe bb; em [a0, +∞)\intco{a_0}{+\infty}, a derivada em aa do integrando é −e−ax-\eu^{-ax}, dominada por e−a0x∈L1((0, +∞))\eu^{-a_0x} \in L^1(\intoo0{+\infty}), de modo que II é C1\mathcal C^1 em (0, b)\intoo0b com

I′(a)=−∫0+∞e−ax ⁣dx=−1a,logoI(a)=−log⁡a+c.I'(a) = -\int_0^{+\infty}\eu^{-ax}\dd x = -\frac1a, \qquad\text{logo}\qquad I(a) = -\log a + c .

A cota bilateral dá 0≤I(a)≤(b−a)/a→00 \leq I(a) \leq (b-a)/a \to 0 quando a→b−a \to b^-, de modo que c=log⁡bc = \log b e I(a)=log⁡baI(a) = \log\frac ba. A singularidade removível é necessária em 00: cada termo e−ax/x\eu^{-ax}/x, separadamente, tem integral divergente (logarítmica) perto de 00, e só o cancelamento de primeira ordem e−ax−e−bx=O(x)\eu^{-ax} - \eu^{-bx} = O(x) torna a diferença integrável ali; no infinito, cada termo é inofensivo por si só.

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