Matemática universitária — Graduação 3 · Bachelor Year 3
6Topologia geral
O volume do segundo ano fez análise em espaços métricos: distâncias, bolas, sequências. Mas as noções fundamentais — continuidade, compacidade, conexidade — jamais mencionam o valor numérico de uma distância, apenas a família de abertos que ela gera. Este capítulo toma essa família como objeto primitivo. O ganho não é generalidade pela generalidade: as construções por quociente (o círculo como , os espaços projetivos), os produtos e as topologias do tipo fraco da análise funcional simplesmente não são objetos que nascem métricos. Reconstruímos a continuidade, tratamos em seguida a compacidade por coberturas abertas (demonstrando que ela equivale, em espaços métricos, à definição sequencial do segundo ano) e a conexidade — encerrando com o teorema de que nenhuma bijeção contínua pode identificar com : a topologia sabe distinguir dimensões.
6.1 Topologias, abertos, continuidade
Definição 6.1
Uma topologia sobre um conjunto é uma família de subconjuntos de — chamados conjuntos abertos — tal que: ; toda reunião de abertos é aberta; toda interseção finita de abertos é aberta. O par é um espaço topológico. Os complementares dos abertos são os fechados. Uma vizinhança de é um conjunto que contém um aberto que contém .
Exemplo 6.2
(a) Um espaço métrico, com “aberto” no sentido do segundo ano (reuniões de bolas abertas): a topologia métrica; métricas diferentes podem dar a mesma topologia (métricas equivalentes). Um espaço cuja topologia provém de alguma métrica é metrizável. (b) A topologia discreta (todos os subconjuntos) e a topologia grosseira . (c) A topologia cofinita sobre um conjunto infinito: aberto vazio ou cofinito. Não é metrizável, como veremos (Exercício 6.3). (d) Em , a topologia usual; em , a topologia da ordem gerada pelas semirretas — o que faz de “” um caso de convergência comum.
Definição 6.3
Para : o interior é o maior aberto contido em (a reunião de todos eles); o fecho é o menor fechado que contém ; a fronteira é . é denso se . Tem-se se, e somente se, toda vizinhança de encontra (se alguma vizinhança não encontra , o complementar de seu núcleo aberto é um fechado menor em torno de ; e reciprocamente).
Definição 6.4
Uma base de é uma família tal que todo aberto é uma reunião de membros de (por exemplo, as bolas abertas em um espaço métrico; os intervalos abertos em ). Uma família de subconjuntos de é base de alguma topologia se, e somente se, ela cobre e, para e , existe com — e então “as reuniões de membros” formam uma topologia, a topologia gerada por .
Definição 6.5
é contínua se é aberto para todo aberto — equivalentemente, as pré-imagens de fechados são fechadas; equivalentemente, para todo e toda vizinhança de , é vizinhança de (continuidade em cada ). Basta verificar sobre uma base de . Composições de aplicações contínuas são contínuas. Um homeomorfismo é uma bijeção contínua de inversa contínua; a topologia estuda as propriedades preservadas por homeomorfismos.
Proposição 6.6 (Continuidade e fecho; colagem)
(a) é contínua se, e somente se, para todo . (b) Se com fechados e se restringe continuamente a cada , então é contínua.
Demonstração. (a) Se é contínua: é fechado e contém , logo contém . Reciprocamente, aplique o critério a , com fechado: , logo : as pré-imagens de fechados são fechadas. (b) Para fechado: , uma reunião de dois conjuntos fechados em e em , respectivamente, logo fechados em (os são fechados: fechado dentro de fechado é fechado). ∎
Definição 6.7
é de Hausdorff (ou separado) se dois pontos distintos quaisquer têm vizinhanças disjuntas. Os espaços métricos são de Hausdorff (bolas de raio ). Uma sequência converge para se toda vizinhança de contém todos os salvo um número finito; em um espaço de Hausdorff, os limites são únicos (dois limites teriam vizinhanças disjuntas contendo, cada uma, uma cauda). Em um espaço de Hausdorff, os pontos — e portanto os conjuntos finitos — são fechados.
Observação 6.8
Em espaços métricos, as sequências detectam tudo: se, e somente se, alguma sequência de converge para (tome ), e é contínua se, e somente se, é sequencialmente contínua. Em espaços gerais, ambas as equivalências falham; os substitutos corretos das sequências (filtros, redes) pertencem a um curso mais avançado. Enunciaremos os resultados baseados em sequências em espaços métricos e os baseados em coberturas em geral — e demonstraremos sua equivalência onde ela vale.
6.2 Subespaços, produtos, quocientes
Definição 6.9
Três maneiras de fabricar espaços novos a partir de antigos:
- Subespaço: em , os abertos são os , com aberto em — a topologia menos fina que torna a inclusão contínua.
- Produto: em (e nos produtos finitos), a topologia de base os blocos abertos ; em um produto infinito , a base é formada pelos blocos com para todos salvo um número finito de índices — a topologia menos fina que torna contínua toda projeção.
- Quociente: se é uma equivalência em e é a projeção, declare aberto se, e somente se, é aberto — a topologia mais fina que torna contínua.
Proposição 6.10 (Propriedades universais)
(a) é contínua se, e somente se, ambas as componentes , o são (o mesmo vale para produtos arbitrários). (b) é contínua se, e somente se, o é.
Demonstração. (a) Necessidade: composições. Suficiência: basta verificar as pré-imagens dos blocos da base: , aberto (apenas um número finito de fatores no caso infinito). (b) Necessidade: composição. Suficiência: para aberto, é aberto, o que, pela definição da topologia quociente, significa que é aberto. ∎
Exemplo 6.11
O quociente (identificando e ) é homeomorfo ao círculo : a aplicação passa a uma bijeção contínua (Proposição 6.10(b)); sua inversa é contínua pelo argumento de compacidade do Corolário 6.14 abaixo (o Exercício 6.5 detalha tudo, inclusive por que é de Hausdorff e compacto). Do mesmo modo, com as extremidades coladas é , o quadrado com os lados opostos colados é o toro, e colar é, enfim, um teorema, não um desenho.
6.3 Compacidade
Definição 6.12
Uma cobertura aberta de é uma família de abertos com . é compacto se é de Hausdorff e toda cobertura aberta admite uma subcobertura finita. Equivalentemente (tomando complementares): toda família de fechados com a propriedade da interseção finita (toda subfamília finita tem interseção não vazia) tem interseção total não vazia.
Teorema 6.13 (Primeiras propriedades)
Seja compacto.
- Um subconjunto fechado de é compacto; um subconjunto compacto de um espaço de Hausdorff é fechado.
- A imagem contínua de um espaço compacto em um espaço de Hausdorff é compacta. Em particular, uma aplicação contínua é limitada e atinge seus extremos.
- Uma sequência decrescente de fechados não vazios de tem interseção não vazia.
Demonstração. (1) Sejam fechado e uma cobertura aberta de (por abertos de ): acrescentar dá uma cobertura aberta de ; uma subcobertura finita, retirado , cobre . Que o subespaço é de Hausdorff é claro. Reciprocamente, sejam compacto, de Hausdorff e : para cada escolha abertos disjuntos , ; um número finito dos cobre , e a interseção dos correspondentes é uma vizinhança de disjunta da cobertura de e, portanto, de : o complementar de é aberto.
(2) Se cobre , então cobre ; uma subcobertura finita embaixo provém da subcobertura finita em cima. A imagem é de Hausdorff por ser subespaço. Para real: é compacto em , logo fechado e limitado (cubra por para a limitação; fechado por (1)), e um conjunto fechado e limitado contém seu supremo.
(3) Se , os abertos cobrem ; um número finito basta, de modo que algum (a sequência é decrescente) — contradição. ∎
Corolário 6.14
Uma bijeção contínua de um espaço compacto em um espaço de Hausdorff é um homeomorfismo.
Demonstração. A inversa é contínua se, e somente se, as imagens diretas de fechados são fechadas; um fechado é compacto (Teorema 6.13(1)), sua imagem é compacta (2) e, portanto, fechada (1) no alvo de Hausdorff. ∎
Teorema 6.15 (Produtos finitos)
Um produto finito de espaços compactos é compacto.
Demonstração. Basta tratar . A propriedade de Hausdorff é herdada (separe em uma coordenada). Seja uma cobertura aberta de ; podemos supor que os são blocos da base (refine: cada ponto está em um bloco contido em algum ; uma subcobertura finita de blocos fornece uma dos ). Fixe : a fatia é compacta, de modo que um número finito de blocos a cobre, com para todo ; então é uma vizinhança aberta de com coberto por um número finito de blocos (o lema do tubo: para , para algum , pois os blocos cobriam no nível , e , logo ). Ora, um número finito de cobre o compacto ; as coleções finitas de blocos correspondentes cobrem . ∎
Teorema 6.16 (Compacidade em espaços métricos)
Para um espaço métrico , são equivalentes:
- é compacto (Borel–Lebesgue);
- toda sequência em tem uma subsequência convergente (compacidade sequencial — a definição do segundo ano);
- é completo e totalmente limitado: para todo , um número finito de bolas de raio cobre .
Demonstração. (1)(2): suponha que não tenha subsequência convergente. Então cada tem uma bola aberta que contém apenas para um número finito de índices (do contrário, uma subsequência convergiria para : tome os raios ). Um número finito de cobre , de modo que só existe um número finito de índices : absurdo.
(2)(3): completude: uma sequência de Cauchy com uma subsequência convergente converge (segundo ano). Total limitação: se algum não admite cobertura finita, escolha indutivamente fora de : a sequência satisfaz para , e não tem subsequência de Cauchy, nem convergente.
(3)(1): primeiro, (3) implica (2): dada , cubra por um número finito de bolas de raio : uma delas, , contém uma subsequência; cubra por bolas de raio : uma delas contém uma nova subsequência; itere e diagonalize: a subsequência diagonal é de Cauchy (dois termos posteriores à etapa estão em uma bola comum de raio , a menos do habitual ) e, portanto, converge. Seja agora uma cobertura aberta e suponha que não haja subcobertura finita. Argumento do número de Lebesgue: para cada , alguma bola não é coberta por um número finito de — com efeito, cubra por um número finito de bolas de raio ; se cada uma fosse finitamente coberta, também seria. Por (2), uma subsequência ; escolha com e com . Para grande, : coberta por um único — contradição. ∎
Corolário 6.17 (Heine–Borel; Heine)
(a) Um subconjunto de é compacto se, e somente se, é fechado e limitado. (b) Uma aplicação contínua de um espaço métrico compacto em um espaço métrico é uniformemente contínua.
Demonstração. (a) Fechado e limitado contido em um cubo , que é compacto: o é (sequencialmente, por Bolzano–Weierstrass — ou diretamente por dicotomia para as coberturas), e o Teorema 6.15 cuida do produto; depois aplique o Teorema 6.13(1). Reciprocamente, um subconjunto compacto é fechado (Teorema 6.13(1)) e limitado (cubra por bolas concêntricas).
(b) Sejam , . As bolas com cobrem ; extraia uma subcobertura finita e ponha . Se : para algum , e então ambos , de modo que . ∎
Definição 6.18
é localmente compacto se é de Hausdorff e todo ponto tem uma vizinhança compacta (; os abertos de ; os espaços discretos — mas não , veja o Exercício 6.9). Todo espaço localmente compacto mergulha em um compacto: a compactificação por um ponto , cujos abertos são os de junto com os complementares (em ) dos subconjuntos compactos de . Os axiomas se verificam diretamente; é compacto (uma cobertura tem um membro contendo , cujo complementar é compacto, coberto por um número finito dos demais) e de Hausdorff (separe de por uma vizinhança compacta de e seu complementar). Exemplo: , e por projeção estereográfica (Exercício 6.11).
6.4 Conexidade
Definição 6.19
é conexo se não é a reunião de dois abertos disjuntos não vazios — equivalentemente, seus únicos subconjuntos simultaneamente abertos e fechados são e ; equivalentemente, toda aplicação contínua (discreto) é constante. Um subconjunto é conexo se o for como subespaço.
Teorema 6.20
- Os subconjuntos conexos de são exatamente os intervalos.
- As imagens contínuas de conexos são conexas (donde o teorema do valor intermediário: uma aplicação real contínua em um espaço conexo tem por imagem um intervalo).
- Se os são conexos com um ponto em comum, é conexo. Se é conexo e , então é conexo.
- Produtos finitos de conexos são conexos.
Demonstração. Ao longo de toda a demonstração usamos o critério de : toda contínua tem de ser constante.
(1) Um que não é intervalo deixa de conter algum entre : o desconecta. Reciprocamente, sejam um intervalo e contínua com , , . Seja ; a continuidade em força (limite de valores : toda vizinhança de encontra ; é fechado) e, então, com em , de modo que pelo mesmo argumento de fecho sobre : contradição.
(2) Uma aplicação contínua dá constante, de modo que é constante na imagem.
(3) Uma aplicação contínua é constante em cada , com o mesmo valor no ponto comum. Quanto ao fecho: é constante em ; todo está no fecho de , e é uma vizinhança de (pré-imagem de um aberto), que tem de encontrar : .
(4) Para e : dois pontos quaisquer são ligados pelo “cotovelo” , reunião de dois conexos (homeomorfos a e a ) que se encontram em : por (3) e (2), coincide nos dois pontos. ∎
Definição 6.21
é conexo por caminhos se dois pontos quaisquer são ligados por um caminho (uma aplicação contínua ). Conexo por caminhos implica conexo: dois valores de uma contínua em são valores da aplicação constante (Teorema 6.20(1)–(2)). Os subconjuntos convexos de espaços normados são conexos por caminhos (segmentos); também o são para (contorne a origem) e para (projete caminhos a partir de ).
Exemplo 6.22 (A curva seno do topólogo)
Sejam e (todo ponto , com , é limite de pontos de : resolva perto de ). Então é conexo — fecho do conexo , imagem contínua de (Teorema 6.20(3)) — mas não é conexo por caminhos: um caminho de até teria de percorrer abscissas enquanto a ordenada oscila entre ; o Exercício 6.9 torna isso rigoroso. Conexidade e conexidade por caminhos diferem de verdade.
Definição 6.23
A componente conexa de é a reunião de todos os conexos que contêm — o maior deles (Teorema 6.20(3)). As componentes formam uma partição de e são fechadas (fechos de conexos são conexos). é totalmente desconexo se todas as componentes são unitárias (; o conjunto de Cantor do problema de fim de semana).
Teorema 6.24
não é homeomorfo a nenhum com .
Demonstração. Suponha que seja um homeomorfismo. Retirando um ponto: é homeomorfo a . Mas é desconexo, ao passo que é conexo por caminhos para (Definição 6.21; translade o ponto para ): a conexidade é um invariante por homeomorfismo (Teorema 6.20(2)) — contradição. (Que exige invariantes mais finos — topologia algébrica; o problema de fim de semana mostra o perigo: sobrejeções contínuas existem de fato.) ∎
Método 6.25
Para demonstrar que um conjunto é conexo: exiba-o como imagem contínua, como reunião de conexos que se sobrepõem, como fecho ou como produto (Teorema 6.20); para subconjuntos de espaços normados, demonstre a conexidade por caminhos com caminhos explícitos (segmentos, arcos, cotovelos). Para demonstrar que dois espaços não são homeomorfos: encontre um invariante topológico que difira — compacidade, conexidade, número de componentes, ou as componentes depois de retirado um conjunto finito bem escolhido (o truque do Teorema 6.24: ele também demonstra e ).
6.5 Exercícios
Exercício 6.1 ★
(a) Liste todas as topologias sobre , classifique-as a menos de homeomorfismo e determine quais são conexas e quais são de Hausdorff. (b) Em (topologia usual), calcule interior, fecho e fronteira de , de e de .
Solução
Solução de Exercício 6.1.
(a) Quatro topologias sobre : a indiscreta ; a discreta; as duas topologias de Sierpiński e . As duas últimas são homeomorfas (troque ): três classes. Conexas: todas, exceto a discreta (só a topologia discreta contém um aberto-fechado próprio não vazio). Hausdorff: só a discreta (nas outras, a única vizinhança de é , ou a de ).
(b) : interior (todo intervalo contém irracionais), fecho (densidade), fronteira . : interior , fecho , fronteira . : interior , fecho , fronteira o próprio fecho.
Exercício 6.2 ★
(a) Mostre que é contínua se, e somente se, é aberto para todo em uma base fixada de . (b) Mostre que não é contínua, mas é contínua à direita. Verifique que os intervalos semiabertos formam a base de uma topologia na fonte (a reta de Sorgenfrey), que essa topologia é estritamente mais fina do que a usual, e que uma função (com alvo usual) é contínua a partir da reta de Sorgenfrey se, e somente se, é contínua à direita em todo ponto.
Solução
Solução de Exercício 6.2.
(a) Todo aberto é uma união de conjuntos da base, e : se estes últimos são abertos, o primeiro também é; a recíproca é trivial.
(b) não é aberto: não é contínua; a continuidade à direita em cada ponto é clara ( é localmente constante à direita de cada ponto). Os conjuntos satisfazem o critério de base (Definição 6.4): . A topologia de Sorgenfrey é mais fina que a usual, pois ; estritamente: é aberto de Sorgenfrey, mas não é aberto usual. Continuidade a partir da reta de Sorgenfrey em : uma vizinhança de Sorgenfrey de contém um conjunto da base , logo contém — de modo que a condição de continuidade se lê: para todo existe com sempre que . Isso é exatamente a continuidade à direita em .
Exercício 6.3 ★
Em um conjunto infinito com a topologia cofinita, mostre: dois abertos não vazios quaisquer se encontram (de modo que o espaço não é de Hausdorff e, portanto, não é metrizável); toda sequência injetora converge para todo ponto. Onde a demonstração da unicidade dos limites usa Hausdorff?
Solução
Solução de Exercício 6.3.
Dois abertos não vazios têm complementares finitos, de modo que sua interseção tem complementar finito: não vazia (o conjunto é infinito) — dois pontos nunca têm vizinhanças disjuntas: não é Hausdorff, logo não é metrizável (Definição 6.7). Seja injetiva e arbitrário: uma vizinhança de contém um aberto cofinito ; os finitos pontos de são atingidos por, no máximo, finitos índices (injetividade), de modo que uma cauda da sequência está em : , para todo . A demonstração da unicidade precisa de duas vizinhanças disjuntas para separar dois supostos limites — precisamente o que falha aqui.
Exercício 6.4 ★★
(a) Mostre que as projeções de um produto são contínuas e abertas (as imagens de abertos são abertas), mas não fechadas em geral ( em ). (b) Mostre que uma sequência em um produto enumerável de espaços métricos converge se, e somente se, cada coordenada converge, e que metriza a topologia produto. (c) Em , mostre que a “topologia das caixas” (todos os produtos de abertos são abertos) é estritamente mais fina: a sequência converge para na topologia produto, mas não na topologia das caixas.
Solução
Solução de Exercício 6.4.
(a) A continuidade é por construção (Definição 6.9). Abertura: um aberto é uma união de blocos , e (blocos não vazios se projetam sobre seus fatores), aberto. Não fechada: é fechado em (pré-imagem de pelo produto, contínuo), mas não é fechado.
(b) () As projeções são contínuas. () Seja componente a componente e uma vizinhança básica de , com salvo para finito. Para cada , para ; para , . A fórmula define uma métrica (cada parcela é uma, a menos da verificação usual de que o é); suas bolas: contém o bloco básico para adequado (a cauda é pequena) e, reciprocamente, todo bloco básico contém uma -bola: as duas topologias têm as mesmas vizinhanças de cada ponto.
(c) Na topologia produto, por (b). O conjunto , aberto na topologia das caixas, contém , mas para todo (a -ésima coordenada quando ): nenhuma cauda entra em . A topologia das caixas é estritamente mais fina e não é, para fins de convergência, uma topologia do tipo produto.
Exercício 6.5 ★★
O círculo, de três maneiras. Mostre que os seguintes espaços são dois a dois homeomorfos, com aplicações explícitas: (i) ; (ii) (topologia quociente); (iii) . (Para (ii): mostre que é de Hausdorff — levante duas classes a representantes a distância — e que é o espaço todo, de modo que o quociente é compacto; use então o Corolário 6.14.)
Solução
Solução de Exercício 6.5.
, , é contínua, sobrejetora e constante nas classes módulo : ela induz uma bijeção contínua (Proposição 6.10(b)). A projeção é aberta: para aberto, é aberto, de modo que é aberto. Hausdorff: sejam ; escolha representantes com ; as imagens dos intervalos de raio em torno de e são abertas (abertura de ), contêm e são disjuntas (dois pontos das pré-imagens distariam módulo ). Compacto: , imagem contínua de um espaço compacto (Teorema 6.13(2)). Agora é uma bijeção contínua de um espaço compacto no espaço de Hausdorff : um homeomorfismo (Corolário 6.14).
Para (iii): a composta é contínua, sobrejetora e identifica exatamente : ela induz uma bijeção contínua de um espaço compacto (imagem contínua de pela projeção quociente) em um espaço de Hausdorff: um homeomorfismo. Compondo: os três espaços são homeomorfos.
Exercício 6.6 ★★
Seja um espaço métrico. (a) Mostre que uma reunião finita de compactos é compacta, e que uma interseção arbitrária também é. (b) Se é compacto, é fechado e , mostre que ; dê um contraexemplo com dois fechados disjuntos. (c) Mostre que é compacto se, e somente se, toda aplicação contínua é limitada. (Se alguma sequência não tem subsequência convergente, construa uma função contínua ilimitada com suporte perto de seus termos; ou use funções do tipo — um caminho limpo: se não tem ponto de acumulação, o conjunto é fechado e discreto, e se estende continuamente sem recorrer a Tietze: para suficientemente pequenos.)
Solução
Solução de Exercício 6.6.
(a) Uma cobertura de se restringe a uma cobertura de cada : finitos abertos por peça bastam. Uma interseção é fechada no compacto (compactos são fechados no espaço métrico ambiente), logo compacta.
(b) é contínua (-lipschitziana) e estritamente positiva em ( significa ); no compacto ela atinge um mínimo : . Contraexemplo sem compacidade: e são fechados, disjuntos, à distância .
(c) Se é compacto, toda contínua é limitada (Teorema 6.13(2)). Reciprocamente, se não é compacto, tome sem subsequência convergente (Teorema 6.16); passando a uma subsequência, podemos supor os dois a dois distintos, e nenhum ponto de é valor de aderência da sequência, de modo que
e as bolas são duas a duas disjuntas (um ponto comum à -ésima e à -ésima daria ). Defina
em cada há no máximo uma parcela não nula, e . Continuidade em : seja ; cada valor é ou um único valor de pico . Se algum índice ocorre uma infinidade de vezes, ao longo dessa subsequência , que é igual a (se , toda a cauda está nessa bola aberta e nenhum outro índice ocorre; se , então , pois , aderente à -ésima bola, não está em nenhuma outra bola aberta). Se : , de modo que , tornando valor de aderência de — excluído; assim esse caso diz respeito apenas a finitos . Em todos os casos : é contínua e ilimitada.
Exercício 6.7 ★★
(Número de Lebesgue) Seja uma cobertura aberta de um espaço métrico compacto . Mostre que existe tal que todo subconjunto de diâmetro está contido em um único . (Do contrário, tome de diâmetro em nenhum , e um ponto de acumulação de escolhidos.) Deduza de novo o teorema de Heine (Corolário 6.17(b)).
Solução
Solução de Exercício 6.7.
Suponha que nenhum funcione: para cada existe de diâmetro que não está contido em nenhum ; tome . Por compacidade (Teorema 6.16), uma subsequência ; escolha e com . Para grande: e , de modo que — contradição. Heine: dado , cubra por bolas ; as pré-imagens formam uma cobertura aberta de ; seja um número de Lebesgue: se , o par tem diâmetro , está contido em uma pré-imagem, e .
Exercício 6.8 ★★
(a) Mostre que é um subconjunto aberto e denso de , e que é desconexo: o sinal do determinante o separa em (ao menos) duas peças. Mostre, por outro lado, que é conexo por caminhos. (Para : é um polinômio não identicamente nulo, de modo que tem um número finito de raízes em : escolha um caminho de em de a que as evite.) (b) Demonstre a densidade: é inversível para pequeno.
Solução
Solução de Exercício 6.8.
(a) é aberto ( é polinomial, logo contínuo). Desconexo: o leva sobre , e um espaço conexo tem imagens contínuas conexas (Teorema 6.20(2)); não é um intervalo. : para inversíveis, é um polinômio em com , logo não identicamente nulo: tem finitas raízes em . O plano menos finitos pontos é conexo por caminhos (contorne os pontos), de modo que existe um caminho de a com : é um caminho em .
(b) se anula para no máximo valores de : matrizes inversíveis quando : densidade.
Exercício 6.9 ★★
(a) Mostre que as componentes conexas de são os conjuntos unitários, e que não é localmente compacto (uma vizinhança compacta de em conteria , cujo fecho em não é compacto: corte em um irracional). (b) Complete o Exemplo 6.22: nenhum caminho liga a . (Se é um tal caminho, seja ; para o ponto se move sobre o gráfico; escolha com atingindo abscissas em que vale alternadamente — o teorema do valor intermediário as fornece —, contradizendo a continuidade de em .)
Solução
Solução de Exercício 6.9.
(a) Seja contendo e tome um irracional : reparte em duas peças não vazias, relativamente abertas: é desconexo. As componentes são os pontos. A compacidade local falha: uma vizinhança compacta de em contém para algum , que é fechado em , logo compacto; mas uma sequência de racionais em que converge (em ) a um irracional não tem subsequência convergente em : contradição com o Teorema 6.16.
(b) Seja um caminho com e . O conjunto é fechado e não contém ; seja seu supremo, de modo que e em . Pela continuidade de em , escolha com para . Fixe (podemos supor ): , e assume todos os valores de em (teorema do valor intermediário, Teorema 6.20). Escolha grande com e : existem com , ; como os pontos estão no gráfico, e . Ambos não podem estar a menos de de : contradição. é conexo, mas não é conexo por caminhos.
Exercício 6.10 ★★★
O conjunto de Cantor dos terços médios , em que e remove o terço médio aberto de cada intervalo de . (a) Mostre que , e que é compacto, de interior vazio, e não tem ponto isolado (é perfeito). (b) Mostre que é totalmente desconexo. (c) Mostre que é um homeomorfismo (topologia produto sobre o espaço discreto de dois pontos); deduza que é não enumerável e que .
Solução
Solução de Exercício 6.10.
(a) consiste exatamente nos que admitem uma expansão ternária com dígitos em até a ordem (indução: retirar os terços médios elimina o primeiro dígito , etc.; os extremos têm duas expansões, uma delas evitando os ), de modo que é o conjunto das somas , . Compacto: cada é uma união finita de intervalos fechados; é fechado em . Interior vazio: , união de intervalos de comprimento ; um intervalo interior de comprimento caberia em um deles para todo . Perfeito: dados e , troque o dígito : o novo ponto está em , é distinto e dista menos de de .
(b) Se , suas expansões diferem pela primeira vez em alguma ordem ; entre eles está um terço médio retirado (a lacuna de ordem que separa o dígito do dígito ), fornecendo um ponto , (digamos): reparte qualquer subconjunto que contenha ambos os pontos. As componentes são os pontos.
(c) A aplicação dos dígitos é uma bijeção sobre (existência e unicidade das expansões em : sequências de dígitos distintas dão pontos à distância na ordem em que diferem pela primeira vez, como no Problema 6.1, questão 1). Ela é contínua: força a coincidência dos primeiros dígitos (mesmo cálculo), de modo que leva bolas pequenas em blocos da base. Uma bijeção contínua do compacto no produto de Hausdorff é um homeomorfismo (Corolário 6.14; o produto é de Hausdorff: separe numa coordenada em que difiram). Não enumerabilidade: diagonal de Cantor em . Por fim, intercalando dígitos (um homeomorfismo: continuidade componente a componente nos dois sentidos), de modo que .
Exercício 6.11 ★★★
Projeção estereográfica: a partir do polo norte de , a aplicação é um homeomorfismo (dê a inversa explicitamente). Deduza que é homeomorfo à compactificação por um ponto , e que retirar qualquer ponto de deixa um espaço homeomorfo a .
Solução
Solução de Exercício 6.11.
Para , ponha
Verifica-se que , , e , : e são mutuamente inversas, ambas contínuas (fórmulas racionais com denominadores que não se anulam): . Estenda a por : uma bijeção, contínua em todo ponto de , e em : uma vizinhança básica de é , compacto, ; como quando , o conjunto é levado para fora de para pequeno: continuidade. Uma bijeção contínua do compacto no espaço de Hausdorff é um homeomorfismo. Retirando outro ponto : uma rotação de leva a (rotações são homeomorfismos), reduzindo ao caso calculado: .
Exercício 6.12 ★★★
(A curva seno do topólogo) Seja
(a) Mostre que é compacto e que é o fecho da parte do gráfico. (b) Mostre que é conexo (o gráfico é conexo por ser imagem contínua; seu fecho permanece conexo). (c) Mostre que não é conexo por caminhos: nenhum caminho contínuo liga a . (Se é um tal caminho, seja ; logo após , assume todos os valores positivos pequenos (teorema do valor intermediário), de modo que oscila entre em todo intervalo — contradiga a continuidade em .) (d) Conclua que a conexidade por caminhos é estritamente mais forte do que a conexidade, e mostre que nenhum exemplo desse tipo pode ser aberto em : um subconjunto aberto conexo de é conexo por caminhos (o conjunto dos pontos que se podem ligar a um ponto-base por um caminho é aberto e fechado no domínio).
Solução
Solução de Exercício 6.12.
(a) é limitado e fechado: um limite de pontos de com abscissas permanece no gráfico (localmente fechado) pela continuidade de em ; um limite com abscissas tem ordenada em , logo está no segmento. Compacto por Heine–Borel (Corolário 6.17). Fecho do gráfico : todo ponto , , é limite de pontos do gráfico — resolva perto de (a função varre em cada intervalo ): .
(b) é a imagem contínua do conexo por : conexo; e o fecho de um conjunto conexo é conexo (Teorema 6.20): é conexo.
(c) Suponha contínua com , , e seja : por continuidade, e em . Para todo , o intervalo tem assumindo todos os valores de algum (teorema do valor intermediário, ); em particular, ele contém abscissas da forma e para arbitrariamente grandes, nas quais . Logo, em toda vizinhança à direita de , assume ambos os valores e : não tem limite em , contradizendo a continuidade. Não existe caminho.
(d) é conexo, mas não é conexo por caminhos: as duas noções diferem. Para aberto conexo e , seja o conjunto dos pontos de ligáveis a por um caminho em . é aberto: em torno de , uma bola é estrelada, e concatenar o caminho até com um segmento alcança todo ponto da bola. é fechado em : se , o mesmo argumento da bola mostra que (um ponto de na bola ligaria a ). Não vazio (), aberto e fechado no conexo : . A curva do seno escapa disso por ser fechada de interior vazio: seu ponto “ruim” não tem bola alguma dentro de para transpor as oscilações.
6.6 Problema: o conjunto de Cantor e uma curva que preenche o quadrado
Problema 6.1
Problema de fim de semana — as curvas de Peano existem, e por que não são homeomorfismos
Em 1890, Peano espantou a análise com uma sobrejeção contínua : uma curva que preenche um quadrado. Construímos uma delas com as próprias mãos a partir do conjunto de Cantor do Exercício 6.10 (cujos resultados podem ser usados livremente) e, em seguida, demonstramos que nenhuma tal aplicação pode ser injetora: quadrados não são curvas. Ao longo de todo o problema, os elementos de são escritos com dígitos .
Parte I — Ler dígitos de maneira contínua.
- Mostre que, se satisfazem , então para todo . (Se o primeiro dígito diferente é , então .)
- Deduza que cada função dígito é contínua e redemonstre o homeomorfismo do Exercício 6.10(c).
Parte II — Uma sobrejeção contínua .
- Defina por (leia os dígitos de Cantor como binários). Mostre que é contínua (use a questão 1) e sobrejetora. Ela é injetora?
Defina por
(os dígitos ímpares dão a abscissa; os pares, a ordenada). Mostre que é contínua e sobrejetora.
Parte III — Preenchendo as lacunas: a curva de Peano.
O complementar é uma reunião enumerável de intervalos abertos disjuntos (os terços médios removidos) cujas extremidades estão em . Defina por em , estendida afinamente em cada lacuna:
Mostre que está bem definida e é sobrejetora sobre .
- Mostre que é contínua em todo ponto de (localmente afim) e em todo ponto de : dado , tome com e use a questão 1 para controlar em perto de ; verifique então que a interpolação afim não pode escapar: em uma lacuna , os valores estão sobre o segmento , com ambas as extremidades próximas de . Conclua: é uma sobrejeção contínua .
- Deduza sobrejeções contínuas para todo , e .
Parte IV — Mas nunca injetora.
- Mostre que uma injeção contínua seria um homeomorfismo sobre sua imagem (Corolário 6.14).
- Mostre que e não são homeomorfos: retire um ponto bem escolhido e compare a conexidade (Método 6.25).
- Conclua: uma sobrejeção contínua nunca pode ser injetora — uma injetora tornaria homeomorfo a pela questão 8, contradizendo a questão 9. Onde exatamente entrou no argumento a compacidade de ?
- (Culminância) Junte a moral: existe uma sobrejeção contínua, mas nenhuma bijeção contínua . O que isso diz sobre a “dimensão” como noção topológica? Formule com precisão um teorema demonstrado neste problema e um enunciado plausível que permanece fora do alcance de nossas ferramentas (invariância do domínio).
Parte V — A aritmética do conjunto de Cantor.
- Demonstre que : dado , escreva com dígitos e reparta cada dígito como com ; conclua que (que subconjunto de é , em termos de dígitos ternários?) e reescale. Nunca é preciso “vai um” — diga por que esse é o ponto crucial.
- Interprete geometricamente: a “poeira de Cantor” , de interior vazio, projeta uma sombra cheia sobre a diagonal: a projeção a leva sobre . Registre também a autossemelhança , a equação por trás de toda figura de .
- Mostre que o entrelaçamento de dígitos define um homeomorfismo e deduza para todo — o conjunto de Cantor é seu próprio quadrado, cubo, … Que espaços familiares compartilham essa propriedade?
- Mostre que (calcule sua expansão ternária: ), embora não seja extremidade de nenhum intervalo removido; deduza — contando as extremidades — que as extremidades formam um subconjunto enumerável e próprio de .
- Mostre que a aplicação de leitura binária da questão 3 é no máximo para e descreva exatamente quais pontos de têm duas pré-imagens. ( colapsa sobre colando enumeráveis pares: a sombra combinatória da escada de Cantor, que reencontraremos no Capítulo 9.)
Parte VI — Compactos perfeitos: Cantor em toda parte. Um espaço métrico compacto não vazio é perfeito se não tem ponto isolado.
- Sejam perfeito compacto, e . Mostre que a bola contém dois pontos de e, portanto, duas bolas fechadas disjuntas , dentro de , centradas em pontos de , de raio tão pequeno quanto se queira. Explique por que a perfeição (ausência de pontos isolados) é exatamente o que permite repetir essa cisão dentro de cada uma das duas novas bolas.
- Itere: construa fechados indexados por palavras binárias finitas , com disjuntos e . Mostre que, para toda palavra infinita , a interseção é um único ponto (propriedade da interseção finita do compacto ).
- Mostre que é injetora e contínua, e conclua: todo espaço métrico compacto perfeito é não enumerável — na verdade, de cardinalidade ao menos a de . Recupere: e são não enumeráveis.
- Mostre que é um homeomorfismo sobre sua imagem (injeção contínua a partir de um compacto, Corolário 6.14): todo espaço métrico compacto perfeito contém uma cópia homeomorfa do conjunto de Cantor. O conjunto de Cantor não é uma esquisitice, mas o germe universal da perfeição compacta.
- Deduza que todo espaço métrico compacto enumerável tem um ponto isolado, e exiba um em que os pontos isolados são densos mas não são tudo: .
- (Cantor–Bendixson para ) Seja fechado. Diga que é um ponto de condensação de se toda vizinhança de encontra de maneira não enumerável. Mostre que os pontos de condensação de um fechado não enumerável formam um fechado perfeito não vazio , e que é enumerável (cubra os pontos que não são de condensação por enumeráveis intervalos racionais que encontram de maneira enumerável). Conclua: todo subconjunto fechado de é enumerável ou tem a cardinalidade do contínuo — a hipótese do contínuo vale para os fechados.
Parte VII — Codas: quão regular, e quão longe da perfeição.
(Regularidade de Hölder da curva) Ponha e note a identidade . Usando a questão 1, mostre que
e propague a estimativa através das lacunas afins: mostre que a curva de Peano da questão 6 satisfaz em todo (trate um par na mesma lacuna por interpolação, e depois um par geral passando pelos pontos extremos de ).
- (O expoente é uma barreira) Mostre que nenhuma sobrejeção pode ser -hölderiana com : corte em intervalos, limite os diâmetros de suas imagens e conte os pontos da grade , , que um conjunto de diâmetro pode conter; escolha da ordem de e faça . Localize nossa curva () em relação à barreira e registre, sem demonstração, que a curva de Hilbert atinge o expoente crítico .
(Conjuntos derivados: medindo a imperfeição) Para fechado em , seja o conjunto dos pontos de acumulação de (um fechado), e itere: , . Verifique que
é um compacto enumerável com , , (verifique que o -ésimo aglomerado vive no intervalo , de modo que os aglomerados não se entrelaçam), e que seus pontos isolados são densos em , como prevê a questão 21. Descreva a indução que produz, para todo , um compacto enumerável com e , e contraste com os conjuntos perfeitos da questão 22, para os quais a derivação nunca se move: ter posto finito é o exato oposto da perfeição.
Solução
Solução de Problema 6.1.
1. Suponha que as expansões de difiram pela primeira vez na ordem , digamos , . Então
contrapositiva: força a coincidência até a ordem .
2. Pela questão 1, é constante em : localmente constante, logo contínua. A aplicação é contínua (componente a componente, Proposição 6.10(a)) e bijetora (unicidade das expansões em dígitos ); do compacto em um espaço de Hausdorff, é um homeomorfismo (Corolário 6.14).
3. Continuidade: se , os primeiros dígitos coincidem, de modo que . Sobrejetividade: todo tem uma expansão binária , e . Não injetiva: identifica os dois pontos de Cantor de dígitos e — ambos vão para (a ambiguidade diádica ).
4. Cada componente de é contínua pela mesma estimativa (seus dígitos são uma subsequência dos ). Sobrejetividade: dado , escolha dígitos binários de e de , e intercale: o ponto com , satisfaz .
5. As lacunas são duas a duas disjuntas, com extremos em , de modo que a fórmula define sem ambiguidade em ; nos extremos de uma lacuna, a fórmula afim devolve , : coerente com em . Sobrejetividade: já .
6. Em : está numa lacuna aberta em que é afim: contínua. Em : registremos primeiro duas estimativas.
(i) Em : se , , então os dígitos coincidem até , de modo que cada componente de é no máximo .
(ii) Através de uma lacuna: uma lacuna retirada na etapa tem comprimento , e seus extremos têm dígitos que coincidem até a ordem (eles diferem a partir da ordem ), de modo que .
Agora sejam com numa lacuna da etapa , e digamos que seja o extremo do lado de , de modo que e . Então
Para , o último termo é ; para , como ,
(a quantidade do meio cresce com ). Em todos os casos com uma constante absoluta : fazendo , obtém-se a continuidade em (os pontos estão cobertos por (i)). Logo é uma sobrejeção contínua — de fato, as estimativas mostram que ela é hölderiana de expoente do tipo , mas continuidade é tudo o que afirmamos.
7. Para : reparta os dígitos de em subsequências intercaladas e repita as questões 4–6 literalmente. Para : seja uma sobrejeção contínua (reescale ). Defina em () como uma cópia de reescalada para preencher para (e simetricamente para ), e em como o segmento afim que liga os valores nos extremos: é contínua (colagem em peças fechadas, Proposição 6.6(b)) e sua imagem contém .
8. é compacto e é de Hausdorff: uma injeção contínua é um homeomorfismo sobre sua imagem (Corolário 6.14 aplicado à correstrição).
9. Retire : é desconexo. Se fosse um homeomorfismo, também seria desconexo (imagens homeomorfas de espaços desconexos são desconexas); mas o quadrado menos um ponto é conexo por caminhos: ligue dois pontos por um caminho de dois segmentos que evite o furo. Contradição: .
10. Pela questão 8, uma sobrejeção contínua injetora seria um homeomorfismo, contradizendo a questão 9. A compacidade entrou exatamente no Corolário 6.14: é ela que torna contínua a inversa da bijeção contínua (imagens de fechados são compactas, logo fechadas). Sem compacidade, a conclusão realmente falha: é uma bijeção contínua que não é um homeomorfismo.
11. Demonstrado aqui: existe uma sobrejeção contínua, mas nenhuma bijeção contínua, de sobre ; em particular . Assim, a “dimensão” não é preservada por sobrejeções contínuas — a cardinalidade e mesmo a continuidade não a enxergam —, mas ela é um invariante topológico no nível dos homeomorfismos, ao menos entre as dimensões e , em que a conexidade após a remoção de um ponto basta. O enunciado geral — a invariância do domínio: implica , e uma injeção contínua é aberta — é verdadeiro, mas exige topologia algébrica (homologia), fora do alcance deste curso.
12. Em base três, (dividir por dois os dígitos dá os dígitos ). Para , tome uma expansão ternária qualquer , , e reparta cada dígito como com (, , ): então . O ponto crucial é que cada dígito se reparte dentro de , de modo que nenhum transporte se propaga e os dígitos podem ser tratados independentemente. A inclusão recíproca é clara (as somas de dígitos permanecem ). Reescalando por : .
13. A aplicação leva sobre : a poeira, que não contém nenhum quadrado (interior vazio: Exercício 6.10), se projeta ao longo da antidiagonal sobre um segmento inteiro. Autossemelhança: o primeiro dígito ternário de um ponto de Cantor é ou , e retirá-lo dá — a equação de ponto fixo que gera toda figura de .
14. Através de (questão 2), a intercalação é uma bijeção , contínua nos dois sentidos (cada coordenada de saída depende de uma única coordenada de entrada; topologia produto). Logo e, indutivamente, . Espaços familiares não compartilham isso: e (questão 11); produtos infinitos, sim: pela mesma intercalação.
15. : a expansão ternária de é , com dígitos em , de modo que ; não sendo nem uma expansão finita nem uma de cauda a partir de certa ordem, ele não é extremo de nenhum terço médio retirado. Os extremos formam um conjunto enumerável (dois por intervalo retirado, uma infinidade enumerável de intervalos), ao passo que não é enumerável (argumento diagonal, ou questão 19): quase todo ponto de Cantor é, como , invisível na figura habitual dos extremos.
16. significa que as sequências binárias , representam o mesmo real. Sequências binárias distintas que representam o mesmo número ocorrem exatamente na ambiguidade diádica : no máximo duas pré-imagens, e exatamente duas precisamente nos racionais diádicos de . Assim colapsa sobre colando uma infinidade enumerável de pares — o esqueleto combinatório da escada de Cantor do Capítulo 9.
17. não é isolado em , de modo que contém algum ; tampouco é isolado, de modo que contém um segundo ponto . Qualquer torna e disjuntas e contidas em . Ambas estão centradas em pontos de , onde a mesma extração de dois pontos pode ser repetida: a perfeição é o suprimento inesgotável de pontos próximos que mantém a recursão viva para sempre.
18. Construa por indução sobre o comprimento da palavra: , e, dentro de cada bola , a questão 17 fornece duas bolas fechadas disjuntas de raio centradas em pontos de ; ponha : não vazia (seu centro) e compacta. Para infinita, os compactos não vazios encaixados têm interseção não vazia (propriedade da interseção finita no compacto ), de diâmetro : um único ponto .
19. Palavras que diferem pela primeira vez na ordem mandam suas imagens para os dois conjuntos disjuntos (prefixo comum ): é injetiva. Se duas palavras coincidem até a ordem , ambas as imagens estão num conjunto de diâmetro : é contínua. Logo o não enumerável se injeta em : todo espaço métrico compacto perfeito é não enumerável — e entre eles.
20. é uma injeção contínua do compacto no espaço de Hausdorff (métrico) : o Corolário 6.14 a promove a um homeomorfismo sobre sua imagem; e (questão 2). Todo espaço métrico compacto perfeito contém uma cópia do conjunto de Cantor: a perfeição tem um germe universal, e ele é o de Cantor.
21. Um espaço métrico compacto enumerável não pode ser perfeito (questão 19), de modo que ele tem um ponto isolado. Em , todo ponto é isolado e não é: pontos isolados podem até ser densos sem que o espaço seja discreto — a compacidade mantém seu limite dentro.
22. Seja o conjunto dos pontos de condensação de e a família enumerável dos intervalos abertos de extremos racionais. Todo ponto de que não é de condensação está em algum com enumerável, de modo que está contido na união desses traços enumeráveis, em quantidade enumerável: enumerável. Como é não enumerável, ; é fechado (se , o intervalo testemunha não contém ponto de condensação algum: enumerável) e ( fechado: um ponto de condensação é, em particular, aderente). é perfeito: se para algum intervalo , então seria enumerável, contradizendo . Agora a construção em árvore das questões 17–19 vale literalmente dentro de : as peças são compactas (subconjuntos fechados e limitados de ), todo centro é não isolado em , e o argumento nunca usou mais do que isso. Logo , e trivialmente: um fechado não enumerável tem cardinalidade exatamente . Conjuntos fechados não podem testemunhar uma falha da hipótese do contínuo.
23. Sejam em e escolha com . Pela questão 1, os dígitos coincidem para ; a primeira coordenada de usa , a segunda , de modo que, em cada coordenada, os dois pontos partilham ao menos dígitos binários iniciais:
usando (tome logaritmos); e : a cota em . Mesma lacuna : é afim ali, de modo que, para ,
pois quando . Caso geral : se encontra , sejam e o menor e o maior ponto do compacto ; então está numa lacuna (ou num ponto de ) cujo extremo direito é , numa cujo extremo esquerdo é , e
se não encontra , aplica-se o caso da mesma lacuna. Logo é -hölderiana com .
24. Suponha com sobrejetora e . Corte em intervalos de comprimento : cada imagem tem diâmetro . Dois pontos distintos da grade estão à distância , de modo que um conjunto de diâmetro contém no máximo um deles. Escolha (com grande): então , e a sobrejetividade coloca cada um dos pontos da grade em algum , donde
e falha para grande quando : contradição. Nossa curva, com , fica abaixo do muro, como deve ser; a curva de Hilbert (admitida) é -hölderiana, de modo que o expoente crítico é atingido — a regularidade hölderiana, ao contrário da injetividade, é uma questão de grau, e é exatamente a fronteira que a dimensão impõe a uma aplicação vinda da dimensão .
25. O -ésimo aglomerado está em para , pois (e o primeiro aglomerado está em ): os aglomerados ocupam intervalos disjuntos. Pontos limites de : dentro do -ésimo intervalo, apenas (o aglomerado converge para ele e é discreto em si mesmo); globalmente, (toda vizinhança de contém aglomerados inteiros). Assim , depois (cada é isolado em ), ; contém seus pontos limites, logo é fechado, limitado, enumerável, compacto, e seus pontos isolados — os pontos dos aglomerados — são densos em : todo elemento de é limite deles, como o mecanismo da questão 21 prevê. Indução: tem ; dado um compacto enumerável com e , ponha
com pequeno o bastante para que a -ésima cópia esteja em . A derivação age cópia a cópia (as cópias vivem em intervalos abertos disjuntos), de modo que para ; em isso se lê , e então e . Toda ordem finita ocorre. Um conjunto perfeito é o outro extremo: , a derivação nunca se move — e Cantor–Bendixson (questão 22) diz precisamente que todo fechado se reparte em um núcleo perfeito, invisível à derivação, e um resto enumerável que a derivação vai comendo.