Biologia do ensino médio · Grades 10–12
7O exercício e as necessidades energéticas do corpo
Uma ciclista numa bicicleta de laboratório pedala contra um freio que mede a potência dela: , depois , depois . Uma máscara sobre o rosto dela manda cada respiração para um analisador. Os números da tela sobem no mesmo passo que o freio: quanto mais trabalho mecânico ela entrega, mais oxigênio consome e mais gás carbônico expira. Os músculos dela estão fazendo a respiração do Capítulo 4 a todo vapor, e o analisador está lendo o balanço disso. Este capítulo acompanha a energia do exercício, do alimento que a fornece ao oxigênio que a libera.
7.1 Energia que entra, trabalho que sai
Definição 7.1 (Gasto energético)
O gasto energético do corpo, em joules, é a energia total que as células dele liberam de moléculas orgânicas ao longo de um dado tempo. Dividido pelo tempo, ele é uma potência metabólica, em watts. Em repouso, um adulto gasta cerca de — uns por dia — para manter o coração batendo, o cérebro funcionando, a temperatura a e as células vivas; é o metabolismo basal. Toda atividade se soma a ele.
Proposição 7.2 (Para onde vai a energia)
Um músculo em atividade converte só cerca de um quarto da energia que libera em trabalho mecânico; os outros três quartos saem como calor. Entregar uma potência mecânica custa portanto ao corpo uma potência metabólica de cerca de acima do repouso: uma ciclista a nos pedais está gastando uns nos músculos, e o corpo dela precisa se livrar de de calor — suando, principalmente.
Demonstração. Admitido neste nível. ∎
Exemplo 7.3 (Orçamentos diários)
Um estudante sentado na aula, andando até a escola e dormindo gasta cerca de por dia; uma hora de futebol acrescenta uns ; um dia na montanha com mochila, ao todo. Um ciclista numa etapa de montanha de uma corrida gasta , e não consegue comer o bastante durante o dia para cobrir isso. A energia vem do alimento (Capítulo 1): por grama de carboidrato ou de proteína, por grama de lipídio.
7.2 O consumo de oxigênio mede o gasto energético
Proposição 7.4 (O equivalente energético do oxigênio)
Como a energia do exercício é liberada pela respiração celular, que consome oxigênio, o consumo de oxigênio do corpo mede o gasto energético dele: cada litro de oxigênio consumido corresponde a cerca de liberados, seja qual for a mistura de glicose e de lipídios queimada. Em repouso uma pessoa consome cerca de de oxigênio por minuto; durante o exercício o consumo sobe em proporção à potência entregue, até um teto pessoal.
Evidências. A equação da respiração do Capítulo 4 dá para de oxigênio, ou seja por mol, e um mol de gás ocupa cerca de : por litro. Para os lipídios o número é , para os carboidratos , de modo que a mistura quase não importa. Medidas em câmaras fechadas, em que o calor liberado por um sujeito é recolhido diretamente, concordam com o número do oxigênio a menos de alguns por cento. ∎
Definição 7.5 (Consumo máximo de oxigênio)
O consumo máximo de oxigênio, escrito max, é a maior taxa com que o corpo de uma pessoa consegue captar e usar oxigênio, em litros por minuto — ou, para comparar pessoas de tamanhos diferentes, em mililitros por minuto por quilograma de massa corporal. Ele fixa a maior potência que pode ser sustentada só pela respiração. Valores típicos: por quilograma num adulto sedentário, num estudante treinado, ou mais num campeão de provas de resistência.
Exemplo 7.6 (Ler a curva)
Na figura, pedalar a custa de oxigênio: por minuto, ou seja de potência metabólica — os de trabalho mais de calor e de necessidades de repouso, de acordo com a Proposição 7.2. O teto de para um sujeito de são por quilograma.
7.3 Os combustíveis do músculo
Proposição 7.7 (Três fontes de ATP)
A contração muscular é paga em ATP, e a célula guarda apenas alguns segundos de reserva dele. Ele é renovado por três vias, cada uma com velocidade e capacidade próprias:
- uma pequena reserva de um composto fosfatado no músculo, que refaz o ATP instantaneamente mas dura cerca de dez segundos — o tiro curto;
- a fermentação láctica da glicose no citoplasma, rápida mas perdulária, que sustenta um esforço máximo por um a dois minutos e produz ácido láctico;
- a respiração celular nas mitocôndrias, mais lenta para chegar ao ritmo máximo mas de duração quase ilimitada, queimando glicose do sangue, glicogênio do músculo e ácidos graxos da gordura do corpo.
A parcela de cada uma depende da intensidade e da duração do exercício.
Demonstração. Admitido neste nível. ∎
Definição 7.8 (Glicogênio)
O glicogênio é a forma animal de carboidrato armazenado: uma cadeia ramificada de unidades de glicose, mantida como grânulos nas células musculares (cerca de num adulto) e no fígado (cerca de ). O glicogênio muscular abastece o músculo que o armazena; o glicogênio do fígado é degradado em glicose liberada no sangue, mantendo a glicose sanguínea perto de para o cérebro e os demais tecidos. A gordura, armazenada nas células adiposas, é a reserva bem maior (Capítulo 1), mas só pode ser queimada devagar e só com oxigênio.
Exemplo 7.9 (O muro da maratona)
Correr consome cerca de por quilograma de massa corporal por quilômetro; um corredor de gasta , e uma maratona custa . As reservas de glicogênio guardam cerca de . Se o corredor queimar glicogênio depressa demais, as reservas acabam por volta do trigésimo quilômetro; os músculos precisam então contar com a gordura, que fornece energia a pouco mais da metade da taxa, e o ritmo desaba — é “bater no muro”. Corredores treinados queimam uma parcela maior de gordura desde o início, e comem carboidrato durante a prova.
7.4 Medir e raciocinar
Método 7.10 (Um cálculo energético para o exercício)
- A partir do oxigênio: energia () oxigênio consumido () . Subtraia o consumo de repouso se a questão pedir o custo do exercício sozinho.
- A partir da potência mecânica: potência metabólica ; energia potência tempo ( durante é ; ).
- A partir do combustível: massa queimada energia valor energético ( para o carboidrato, para o lipídio); o glicogênio é armazenado com três vezes a massa dele em água.
- Confira as ordens de grandeza: um dia inteiro são cerca de ; uma hora puxada, ; uma maratona, .
Exemplo 7.11 (Uma hora de bicicleta)
Uma hora a nos pedais: potência metabólica de cerca de , energia ; oxigênio , ou seja — coerente com a curva. Se metade vier do carboidrato: de glicose ou de glicogênio, e de gordura.
Observação 7.12 (Por que o oxigênio precisa chegar)
Tudo o que vem acima supõe que o oxigênio chegue às mitocôndrias tão depressa quanto elas conseguem usá-lo. Esse é o trabalho dos pulmões, do coração e do sangue, cuja resposta ao exercício — respiração mais rápida, batimento mais rápido e mais forte, sangue redirecionado aos músculos — é assunto do Capítulo 8. O max é sobretudo um limite de entrega, e não do apetite dos músculos.
7.5 Exercícios
Exercício 7.1 ★
Defina metabolismo basal e dê a ordem de grandeza dele em watts e em quilojoules por dia.
Solução
Solução de Exercício 7.1.
A energia gasta em repouso completo para manter o corpo vivo — coração, cérebro, temperatura, manutenção das células: cerca de , uns por dia.
Exercício 7.2 ★
Uma pessoa consome de oxigênio por minuto. Qual é o gasto energético dela em quilojoules por minuto, e em watts?
Solução
Solução de Exercício 7.2.
por minuto, ou seja .
Exercício 7.3 ★
Cite as três vias pelas quais um músculo renova o ATP dele e dê a duração típica que cada uma consegue sustentar sozinha.
Solução
Solução de Exercício 7.3.
A reserva de fosfato do músculo (cerca de dez segundos); a fermentação láctica (um a dois minutos de esforço máximo); a respiração celular (horas).
Exercício 7.4 ★
O que é o max? Converta para um sujeito de em mililitros por minuto por quilograma.
Solução
Solução de Exercício 7.4.
A maior taxa com que o corpo consegue captar e usar oxigênio. por quilograma.
Exercício 7.5 ★
Onde o glicogênio é armazenado, em que quantidades, e para que serve cada reserva?
Solução
Solução de Exercício 7.5.
Nos músculos, cerca de , abastecendo o músculo que o armazena; no fígado, cerca de , liberado como glicose no sangue para o cérebro e os demais tecidos.
Exercício 7.6 ★★
Na figura do oxigênio em função da potência, leia o consumo de oxigênio a e calcule a potência metabólica. Deduza o calor produzido por segundo.
Solução
Solução de Exercício 7.6.
: por minuto, ou seja . Calor: .
Exercício 7.7 ★★
Uma caminhante de sobe em duas horas. Calcule o trabalho mecânico contra a gravidade (), a energia que os músculos dela gastaram se o rendimento é de 25%, e a potência metabólica média acima do repouso.
Solução
Solução de Exercício 7.7.
Trabalho . Com 25% de rendimento, os músculos gastaram cerca de . Ao longo de : cerca de acima do repouso.
Exercício 7.8 ★★
Usando a figura das barras empilhadas, explique por que um corredor de 400 metros chega ofegante e dolorido enquanto um velocista de 100 metros mal está com a respiração acelerada.
Solução
Solução de Exercício 7.8.
Um tiro de 100 metros funciona quase inteiramente com a reserva de fosfato: nenhuma dívida de oxigênio, pouco ácido láctico. Uma prova de 400 metros dura cerca de um minuto e tira metade da energia da fermentação láctica: o ácido láctico se acumula (a dor) e a respiração que precisa eliminá-lo mantém o corredor ofegante por minutos depois.
Exercício 7.9 ★★
Uma atleta gasta numa sessão de treino, 60% vindos de carboidratos. Que massa de glicogênio ela usou, e que massa de água foi liberada junto?
Exercício 7.10 ★★
Uma barra de chocolate de fornece . Por quanto tempo ela alimentaria um ciclista pedalando a ?
Solução
Solução de Exercício 7.10.
Potência metabólica de cerca de : , cerca de 30 minutos.
Exercício 7.11 ★★
Por que a temperatura do corpo de uma pessoa sobe durante o exercício, e por que mecanismo ela é impedida de subir mais?
Solução
Solução de Exercício 7.11.
Três quartos da energia liberada nos músculos são calor, várias centenas de watts durante um exercício puxado. A transpiração o elimina: evaporar água consome cerca de por grama, e o fluxo de sangue para a pele leva o calor até lá. Sem transpiração, a temperatura do corpo subiria um grau a cada poucos minutos.
Exercício 7.12 ★★★
Dois sujeitos de e de têm ambos um max de . Qual dos dois consegue correr mais rápido subindo um morro, e qual consegue pedalar mais forte numa bicicleta de laboratório em terreno plano? Explique.
Solução
Solução de Exercício 7.12.
Na subida, a potência necessária é proporcional à massa corporal: o sujeito de tem por quilograma contra , e sobe mais rápido. Na bicicleta de laboratório a potência não depende da massa, os dois têm os mesmos , e os dois conseguem sustentar os mesmos watts.
Exercício 7.13 ★★★
O consumo de oxigênio de um corredor durante uma prova é de num ritmo que, pela curva, exigiria . De onde vem a diferença, e o que o corredor vai sentir depois de alguns minutos?
Solução
Solução de Exercício 7.13.
Os de equivalente em oxigênio que faltam são fornecidos pela fermentação láctica nos músculos. O ácido láctico se acumula; em poucos minutos os músculos ardem e o corredor é obrigado a baixar para um ritmo que a respiração sozinha consiga cobrir.
Exercício 7.14 ★★★
Explique por que uma pessoa não consegue perder gordura fazendo exercício de intensidade máxima em tiros curtos com a mesma eficácia com que a perde fazendo exercício moderado por muito tempo, usando as três vias do ATP.
Solução
Solução de Exercício 7.14.
Os tiros curtos e máximos funcionam com a reserva de fosfato e a fermentação, que não usam gordura nenhuma; a gordura só é queimada pela respiração, que leva minutos para chegar ao ritmo máximo e só domina no exercício moderado e prolongado. A energia total de alguns tiros também é pequena comparada com a de uma hora de esforço constante.
Exercício 7.15 ★★★
Uma ciclista numa etapa de montanha gasta num dia. O glicogênio dela guarda e ela come durante a etapa. Estime a massa de gordura corporal que ela queima, e explique por que os ciclistas comem sem parar numa etapa dessas.
Solução
Solução de Exercício 7.15.
Déficit , ou seja cerca de de gordura. Comer durante a etapa mantém a glicose sanguínea alta para o cérebro e poupa o glicogênio para as subidas, onde a potência necessária está muito acima do que a gordura sozinha consegue fornecer; a gordura cobre a parte constante do dia.
7.6 Problema: onde fica o muro
Problema 7.1
Problema de fim de semana — o orçamento energético de uma maratona: o oxigênio que a corredora respira, o glicogênio que ela carrega, o quilômetro em que ele acaba, e o que o treino muda
Nádia, de , corre uma maratona () em . Correr custa por quilograma por quilômetro. Os músculos dela guardam de glicogênio e o fígado dela ; o glicogênio e a glicose dão , a gordura ; um litro de oxigênio libera . O max dela é de por quilograma.
Parte I — O custo da prova.
- Calcule o custo energético da maratona para Nádia.
- Calcule a potência metabólica média dela durante a prova, em watts.
- Calcule o volume de oxigênio que ela consome ao longo da prova, depois o consumo médio de oxigênio dela em litros por minuto.
- Expresse esse consumo em mililitros por minuto por quilograma, e como porcentagem do max dela.
- O consumo de repouso dela é de . Que fração do consumo dela no dia da prova a corrida em si responde?
Parte II — As reservas.
- Calcule a energia guardada nas reservas de glicogênio dela.
- Se ela queimasse apenas glicogênio, em que quilômetro as reservas acabariam?
- Na realidade ela queima uma mistura: 80% de carboidrato, 20% de gordura no ritmo de prova dela. Em que quilômetro o glicogênio acaba agora?
- Que massa de gordura ela queima na prova? Compare com os de gordura que uma mulher de tipicamente carrega.
- Explique, a partir da Proposição 7.7, por que ela não pode simplesmente queimar só gordura assim que o glicogênio acabar e manter o mesmo ritmo.
Parte III — Vencer o muro.
- Durante a prova ela bebe uma solução açucarada que fornece de carboidrato por hora. Quanta energia isso acrescenta ao longo da prova, e quantos quilômetros de consumo de carboidrato isso cobre?
- Refaça a questão 8 com a bebida. Ela agora termina antes de o glicogênio acabar?
- Três dias antes da prova ela faz uma “carga” de carboidrato, elevando o glicogênio muscular dela a . Cada grama é armazenado com de água. Quanto a massa dela sobe, e qual é o custo disso em energia por quilômetro?
- O treino desloca a mistura no ritmo de prova dela para 55% de carboidrato e 45% de gordura. Com a carga e a bebida, em que quilômetro o glicogênio acabaria? Comente.
- Por que o cérebro, que usa apenas glicose, faz com que o esgotamento do glicogênio pareça exaustão mesmo quando os músculos ainda têm gordura para queimar?
Parte IV — Os números de um campeão. Um corredor de elite de corre a maratona em , com um custo de corrida de por quilograma por quilômetro e um max de por quilograma.
- Calcule o custo energético da prova para o campeão e o consumo médio de oxigênio dele em litros por minuto.
- Que porcentagem do max dele ele sustenta? Compare com o número de Nádia.
- Duas coisas distinguem o campeão: um teto mais alto e um custo por quilômetro mais baixo. Qual das duas é a “economia”? Calcule em quanto a diferença de custo, sozinha, muda a energia da prova para um corredor de .
- Os músculos dele guardam de glicogênio depois da carga. Com 70% de uso de carboidrato, ele chega à linha de chegada só com isso, sem beber?
- Enuncie o resultado: para Nádia, o quilômetro em que fica o muro sem preparação, e as três medidas que o empurram para além da linha de chegada.
Solução
Solução de Problema 7.1.
1. .
2. : .
3. ; em , cerca de .
4. por quilograma, ou seja do máximo dela.
5. .
6. .
7. A prova custa por quilômetro: .
8. Uso de carboidrato : — o muro.
9. Energia da gordura , ou seja : cerca de 0.6% dos dela.
10. A gordura só é queimada pela respiração e a uma taxa limitada: ela consegue fornecer aproximadamente metade da potência que o ritmo dela exige. Sem glicogênio os músculos não conseguem fabricar ATP depressa o bastante, e o ritmo cai.
11. , ou seja , cobrindo de uso de carboidrato.
12. Carboidrato disponível : , além da chegada. Sim.
13. de glicogênio de água: , custando a mais por quilômetro — desprezível diante de 240.
14. Glicogênio mais a bebida: cerca de ; uso de carboidrato : mais de . O muro se deslocou para bem além da chegada, com boa margem.
15. O cérebro só queima glicose, fornecida pelo glicogênio do fígado. Quando essa reserva se esvazia, a glicose sanguínea cai, e o cérebro sinaliza a emergência como tontura e cansaço avassalador, seja o que for que os músculos ainda guardem.
16. ; em : cerca de .
17. por quilograma, ou seja — a mesma fração de Nádia. O teto é que difere, não a fração dele que é usada.
18. A economia é o custo por quilograma por quilômetro. Para um corredor de , economizados na prova, cerca de 9%.
19. Glicogênio ; carboidrato necessário : sim, as reservas bastam sem beber.
20. Sem preparação, o glicogênio de Nádia acaba por volta do quilômetro 34; a carga de carboidrato antes da prova, beber carboidrato durante ela e um treino que eleve a parcela de gordura queimada empurram, cada um, o muro para além da linha de chegada.