Biologia universitária — 2.º ano · Bachelor Year 2
22Genética de populações e seleção natural
Em 1848, uma mariposa-salpicada preta foi capturada perto de Manchester; em 1895, dezenove mariposas em cada vinte na cidade eram pretas e, em 1970, à medida que a fuligem desaparecia, a forma clara estava de volta. As mariposas não mudaram: mudaram as proporções de dois alelos numa população de milhões, sob os olhos das aves, em algumas dezenas de gerações. Darwin tinha visto que a seleção deve mudar as espécies, mas não tinha como contá-la; a contagem é a genética de populações, e ela é a aritmética deste capítulo. Ela pergunta como as frequências alélicas se comportam quando nada age sobre elas e, depois, com que rapidez a seleção, a mutação, a migração, o acaso e a endogamia as deslocam — e termina com os caracteres que não são um gene, mas muitos, o que constitui a maior parte do que a seleção de fato enxerga.
22.1 O pool gênico em repouso
Definição 22.1 (População, pool gênico, frequências)
Uma população é um grupo de indivíduos de uma espécie que se cruzam entre si; seu pool gênico é o conjunto de todos os seus alelos. Para um lócus com dois alelos e numa população diploide de indivíduos, as frequências alélicas são e , e as frequências genotípicas são as frações de , e . A evolução, no sentido mais estrito, é uma mudança das frequências alélicas entre gerações; a questão deste capítulo é o que as muda e em que medida.
Teorema 22.2 (Hardy–Weinberg)
Numa população grande com cruzamentos ao acaso, sem seleção, mutação ou migração, as frequências alélicas não mudam de uma geração para a seguinte e, após uma única geração de cruzamentos ao acaso, as frequências genotípicas são
e assim permanecem. A dominância não faz um alelo dominante se espalhar, e um alelo recessivo raro não se perde: ele se esconde nos heterozigotos, que superam os homozigotos na razão de para um — para , duzentos para um. A lei é a hipótese nula da genética de populações: um desvio dela numa população real, ou uma mudança de entre gerações, é a assinatura de uma das forças descritas a seguir.
Demonstração. O cruzamento ao acaso é a união ao acaso dos gametas: um gameta carrega com probabilidade e com probabilidade , independentemente de seu parceiro, de modo que o zigoto é com probabilidade , com , com . A frequência alélica na geração seguinte é : inalterada. Como as frequências genotípicas dependem apenas de , elas são as mesmas em todas as gerações após a primeira. ∎
Exemplo 22.3 (Ler uma frequência)
A fibrose cística, recessiva, afeta uma criança europeia em 2500: , , e a frequência de portadores é — uma pessoa em 25 carrega um alelo que mata seus homozigotos, e das cópias do alelo estão em portadores saudáveis, onde a seleção não consegue enxergá-las. É por isso que um recessivo letal é eliminado tão lentamente, e por isso que os projetos eugênicos de eliminar doenças recessivas esterilizando os afetados nunca poderiam ter funcionado: a aritmética da próxima seção mostra quão lentamente.
22.2 Seleção
Definição 22.4 (Aptidão)
A aptidão de um genótipo é sua contribuição relativa em descendentes para a geração seguinte — a sobrevivência até a reprodução vezes a fecundidade, em escala tal que o melhor genótipo tenha . O coeficiente de seleção de um genótipo é seu déficit, . A aptidão é uma propriedade de um genótipo num ambiente, e não de um alelo em si: o alelo da mariposa melânica tinha em relação ao claro sobre a casca coberta de fuligem e sobre os liquens.
Teorema 22.5 (A seleção muda a frequência alélica)
Com as aptidões genotípicas , , , a aptidão média é e a frequência alélica na geração seguinte é
Duas consequências. Primeiro, é proporcional a : a seleção é mais rápida em frequências intermediárias e mais lenta quando um alelo é raro ou está quase fixado — há pouca variação sobre a qual agir. Segundo, contra um alelo recessivo (, ) a mudança é , proporcional a : um recessivo raro é quase invisível para a seleção, e reduzir sua frequência à metade a partir de leva cerca de cem gerações, mesmo quando seus homozigotos são letais. Um alelo dominante favorável se espalha depressa no início e depois estaciona no fim, pela mesma razão.
Demonstração. Dos descendentes, uma fração é e é (a frequência de cada genótipo ponderada por sua aptidão e renormalizada); os alelos entre eles são todos os do primeiro e metade dos do segundo, o que dá . Subtraindo e expandindo , obtém-se . Para um recessivo letal (): sobre , de modo que , logo e, após gerações, : passar de a leva . ∎
Proposição 22.6 (Tipos de seleção)
A seleção direcional favorece um extremo e leva um alelo à fixação (a mariposa melânica num bosque coberto de fuligem; a resistência aos antibióticos; o tamanho do bico de um tentilhão numa seca). A seleção estabilizadora favorece o meio e elimina os extremos (o peso ao nascer humano: os bebês que morrem são os menores e os maiores); ela mantém uma população onde está e é o tipo mais comum. A seleção disruptiva favorece os dois extremos contra o meio e pode dividir uma população (Capítulo 23). A seleção balanceadora mantém dois alelos na população indefinidamente: pela vantagem do heterozigoto, quando tem aptidão maior que qualquer dos homozigotos — com , , , a frequência se estabiliza em — ou pela seleção dependente da frequência, quando um genótipo tem aptidão maior quanto mais raro é (os alelos raros do Capítulo 6, as presas que um predador ainda não aprendeu a reconhecer, os dois lados da boca de um peixe comedor de escamas).
Evidências. A hemoglobina falciforme mata a maioria dos homozigotos antes que se reproduzam, e no entanto o alelo está entre e em toda a África malárica. Allison (1954) mostrou que as crianças heterozigotas tinham infecções maláricas muito menos numerosas e mais brandas que qualquer dos homozigotos, e a frequência do alelo acompanha a distribuição histórica da malária por falciparum; nas populações de ascendência africana que vivem onde não há malária, a frequência vem caindo desde então. Com para o homozigoto falciforme e para o homozigoto normal numa região malárica, — o que se observa. ∎
22.3 Mutação, migração e o equilíbrio
Teorema 22.7 (Equilíbrio mutação–seleção)
Um alelo deletério é alimentado pela mutação à taxa por gameta por geração e removido pela seleção. No equilíbrio, as duas se compensam: para um alelo recessivo com desvantagem homozigota ,
para um alelo dominante (ou parcialmente dominante) com desvantagem heterozigota , . A frequência de equilíbrio de um recessivo é, portanto, grande mesmo para um letal: com e , , e da população o carrega. Toda população carrega essa carga genética em milhares de lócus, a maior parte recessiva e oculta, e o equilíbrio do argumento da catraca do Capítulo 7 — uma fração de indivíduos livres de mutações deletérias — é o mesmo equilíbrio somado sobre o genoma.
Demonstração. A cada geração, a mutação acrescenta a e a seleção remove (para pequeno); fazer dá o resultado recessivo. Para um alelo dominante, a seleção remove por geração (cada cópia fica exposta num heterozigoto), e . ∎
Proposição 22.8 (Migração e a regra de um migrante)
Se uma fração de uma população é, a cada geração, formada por imigrantes de uma população com frequência alélica , a frequência se desloca em direção a em : a diferença entre as duas populações decai como . O fluxo gênico homogeneíza; ele desfaz a adaptação local, a menos que a seleção seja mais forte que , e é a força que mantém uma espécie como uma só espécie. Inversamente, populações que não trocam migrantes divergem por deriva e por suas mutações próprias, e um único migrante por geração — qualquer que seja o tamanho da população — basta para impedir que elas fixem alelos diferentes por deriva.
22.4 O acaso: a deriva genética
Teorema 22.9 (Deriva genética)
Numa população de indivíduos diploides, a frequência alélica de cada geração é uma amostra aleatória de gametas da anterior, de modo que vagueia ao acaso com uma variância de por geração. A heterozigosidade decai em média por um fator a cada geração,
e todo alelo acaba perdido ou fixado, com probabilidade igual à sua frequência atual: uma nova mutação neutra, com frequência , é fixada com probabilidade e, se o for, leva cerca de gerações para isso. A deriva é desprezível numa população de milhões e dominante numa de dezenas: um gargalo ou um evento fundador — alguns colonos numa ilha, uma espécie reduzida a uma centena pela caça — perde alelos por acaso em uma geração e deixa uma população uniforme, empobrecida e cheia de homozigotos. O que importa é o tamanho efetivo, o número de indivíduos que de fato se reproduzem, geralmente muito menor que o do recenseamento.
Demonstração. As cópias gênicas da geração seguinte são sorteadas com reposição de um conjunto em que tem frequência : o número de cópias de é binomial, com média e variância , de modo que tem média e variância . Duas cópias sorteadas ao acaso na geração seguinte provêm da mesma cópia parental com probabilidade e são então idênticas, de modo que a chance de duas cópias diferirem (a heterozigosidade) é multiplicada por a cada geração. Probabilidade de fixação: a frequência de um alelo neutro é uma martingale — seu valor esperado nunca muda — e termina em 0 ou 1, de modo que a probabilidade de terminar em 1 é igual a seu valor inicial. ∎
Proposição 22.10 (Endogamia)
O cruzamento entre parentes não muda as frequências alélicas, mas aumenta a proporção de homozigotos: o coeficiente de endogamia de um indivíduo é a probabilidade de que seus dois alelos num lócus sejam idênticos por descendência, e as frequências genotípicas passam a ser , , . Para os filhos de primos em primeiro grau, ; de irmãos, ; de autofecundação, . Como os alelos recessivos da carga genética ficam expostos nos homozigotos adicionais, os descendentes endogâmicos sofrem depressão por endogamia: um recessivo letal a aparece em dos descendentes de cruzamentos ao acaso, mas em dos filhos de primos, sete vezes mais; somados sobre milhares de lócus, os filhos de primos têm cerca do dobro da mortalidade infantil dos demais, e uma população pequena que se cruza entre parentes por gerações perde fertilidade e vigor — a situação do guepardo, da pantera-da-flórida e das casas reais da Europa.
22.5 Muitos genes: caracteres quantitativos
Teorema 22.11 (Herdabilidade e resposta à seleção)
Um caráter como a altura, o rendimento ou a profundidade do bico é determinado por muitos genes de pequeno efeito e pelo ambiente, e varia de modo contínuo. Sua variância numa população se divide numa parte genética e numa parte ambiental , e a herdabilidade é a fração da variância fenotípica devida aos efeitos aditivos dos genes (a parte que é transmitida). Se os pais da geração seguinte são selecionados com uma média que excede a da população em (o diferencial de seleção), seus descendentes a excedem em
— a equação do melhorista. Ela resume todo o melhoramento animal e vegetal numa linha: uma herdabilidade de e pais um desvio-padrão acima da média dão descendentes meio desvio-padrão acima dela, e o ganho se acumula geração após geração. A herdabilidade é uma propriedade de uma população num ambiente, e não de um caráter: ela não diz nada sobre se um traço é fixo, e um traço com numa população pode ter em outra, na qual todos os indivíduos têm o mesmo genótipo.
Demonstração. O fenótipo esperado dos descendentes regride sobre o dos pais médios com inclinação (a covariância genética aditiva entre parentes dividida pela variância fenotípica), de modo que um desvio parental dá um desvio dos descendentes . Na prática, é medido a partir dessa regressão, ou da semelhança entre gêmeos e irmãos, ou da própria resposta. ∎
Evidências. O experimento do milho de Illinois, iniciado em 1896, selecionou todos os anos as espigas com o maior e o menor teor de óleo: após cem gerações, a linhagem alta tinha subido de para de óleo e a baixa caído para menos de , ambas ainda respondendo — a variação de muitos genes não se esgota em um século de seleção. Nas Galápagos, os Grant mediram todos os tentilhões de uma ilha durante a seca de 1977: os sobreviventes tinham bicos mais profundos que os mortos, o caráter tinha , e os filhotes do ano seguinte tinham bicos mais profundos que os da geração anterior — a seleção observada, medida e com sua resposta prevista pela equação acima. ∎
Exemplo 22.12 (A aritmética da mariposa)
O alelo melânico da mariposa-salpicada é dominante. Passar de uma frequência de cerca de em 1848 a das mariposas (uma frequência perto de ) em 1895 são cinquenta gerações; a equação de seleção o reproduz com entre e contra a forma clara — e os experimentos de soltura de Kettlewell nos anos 1950, em que as aves pegavam mariposas claras nos troncos com fuligem e escuras nos troncos limpos mais ou menos nessa razão, mediram o coeficiente diretamente. O retorno após as leis do ar limpo, de de melânicas em 1960 a menos de em 2000, ocorreu na mesma velocidade no sentido oposto. O episódio inteiro — uma população grande, um alelo dominante, um agente seletivo forte e reversível — é a genética de populações acontecendo em público.
22.6 Exercícios
Exercício 22.1 ★
Numa amostra de 1000 pessoas, 640 são , 320 e 40 . Calcule as frequências alélicas e as proporções esperadas de Hardy–Weinberg. A população está em equilíbrio?
Solução
Solução de Exercício 22.1.
, . Esperados : ; : ; : 40 — exatamente os números observados. A população está em equilíbrio nesse lócus.
Exercício 22.2 ★
O albinismo é recessivo e afeta uma pessoa em . Calcule a frequência alélica e a frequência de portadores.
Solução
Solução de Exercício 22.2.
; portadores , uma pessoa em 70. Os portadores superam os afetados na razão de para um.
Exercício 22.3 ★
Defina aptidão, coeficiente de seleção e herdabilidade, e cite as cinco forças que mudam as frequências alélicas.
Solução
Solução de Exercício 22.3.
Aptidão: o número esperado de descendentes de um genótipo em relação ao melhor. Coeficiente de seleção : o déficit de aptidão, . Herdabilidade : a fração da variância fenotípica que é genética aditiva, ou seja, a inclinação da regressão dos descendentes sobre os pais. Forças: mutação, seleção, deriva, migração, cruzamentos não aleatórios (a última muda as frequências genotípicas, e não as alélicas).
Exercício 22.4 ★
Dê um exemplo de seleção direcional, um de estabilizadora e um de balanceadora, com o agente de seleção em cada caso.
Solução
Solução de Exercício 22.4.
Direcional: o melanismo da mariposa-salpicada, tendo como agente as aves que caçam pela visão sobre troncos escurecidos pela fuligem. Estabilizadora: o peso ao nascer humano, tendo como agente a mortalidade dos bebês muito pequenos e muito grandes. Balanceadora: a anemia falciforme, tendo como agentes a malária (contra ) e a anemia (contra ) em conjunto.
Exercício 22.5 ★★
Um alelo recessivo letal tem frequência . Quantas gerações são necessárias para reduzi-la à metade? E para chegar a ? O que isso diz sobre o efeito de impedir que os indivíduos afetados se reproduzam?
Solução
Solução de Exercício 22.5.
: reduzir à metade leva gerações; chegar a leva gerações. Quase todas as cópias do alelo estão em heterozigotos, invisíveis para a seleção; impedir que os afetados se reproduzam (o que a natureza já faz, pois eles morrem) não muda nada de mensurável ao longo de uma vida humana.
Exercício 22.6 ★★
Com , , e , calcule , e . Repita para . Por que a segunda mudança é tão menor?
Solução
Solução de Exercício 22.6.
: ; ; . : , , . Com , apenas da população é : o alelo contra o qual a seleção age está escondido nos heterozigotos, e carrega o fator .
Exercício 22.7 ★★
O homozigoto falciforme tem e o homozigoto normal numa região malárica, e os heterozigotos . Calcule a frequência de equilíbrio do alelo falciforme e a fração de crianças que nascem com a doença no equilíbrio.
Solução
Solução de Exercício 22.7.
Com contra e contra , . Nascimentos afetados , cerca de uma criança em 60 — o preço da proteção de que gozam os heterozigotos.
Exercício 22.8 ★★
Um letal recessivo surge por mutação a por gameta. Calcule sua frequência de equilíbrio e a fração de nascimentos afetados. Um letal dominante (antes da reprodução) à mesma taxa: que fração dos nascimentos?
Solução
Solução de Exercício 22.8.
Letal recessivo: ; nascimentos afetados , um em . Letal dominante: toda cópia é eliminada na geração em que aparece, de modo que os nascimentos afetados são simplesmente as novas mutações, (dois gametas por nascimento), um em — o recessivo esconde seus alelos na razão de duzentos para um, o dominante não esconde nada.
Exercício 22.9 ★★
Uma população de 50 indivíduos reprodutores começa com . Calcule sua heterozigosidade após 10, 50 e 200 gerações. Qual deve ser o tamanho de uma população para conservar de sua heterozigosidade ao longo de 100 gerações?
Solução
Solução de Exercício 22.9.
: após 10 gerações, ; após 50, ; após 200, . Para : , logo , cerca de 500 indivíduos reprodutores.
Exercício 22.10 ★★★
Uma ilha é colonizada por 10 aves vindas de uma população continental na qual um alelo tem frequência . Calcule a probabilidade de que o alelo esteja ausente dos fundadores e a probabilidade de que ele acabe fixado na ilha se estiver presente em uma cópia. Compare com o continente.
Solução
Solução de Exercício 22.10.
Vinte cópias gênicas: . Uma única cópia entre 20 tem frequência , e um alelo neutro se fixa com probabilidade igual à sua frequência: . Num continente de, digamos, aves, uma única cópia tem probabilidade de se fixar. A ilha é um lugar onde os alelos raros se perdem e onde os que sobrevivem podem dominar: a deriva ao mesmo tempo empobrece e diferencia.
Exercício 22.11 ★★★
A produção de leite tem e um desvio-padrão de . Um criador mantém os melhores das vacas como mães (sua média está desvio-padrão acima da do rebanho). Calcule a resposta por geração. Se os touros forem escolhidos entre o melhor (média desvios-padrão acima), qual é a resposta? Por que a resposta desacelera após muitas gerações?
Solução
Solução de Exercício 22.11.
por geração. Com touros do melhor, o diferencial médio é de desvios-padrão e . A resposta desacelera porque a seleção consome a variância aditiva — os alelos favoráveis chegam à fixação e cai — e porque as mudanças correlacionadas em outros traços (fertilidade, saúde) impõem custos que a seleção apenas sobre a produção não enxerga.
Exercício 22.12 ★★★
“A seleção é cega para o que não consegue ver.” Discuta, com o alelo recessivo nos heterozigotos, a mutação neutra e o caráter de herdabilidade nula, sobre o que a seleção pode e não pode agir.
Solução
Solução de Exercício 22.12.
A seleção enxerga fenótipos. Um alelo recessivo num heterozigoto não produz fenótipo, de modo que a seleção não consegue eliminá-lo, e sua frequência cai como , cada vez mais devagar. Uma mutação neutra não produz diferença de aptidão; seu destino depende só da deriva, e ela se fixa com probabilidade . Um caráter de herdabilidade nula pode ser fortemente selecionado — os sobreviventes podem diferir muito da população —, e no entanto a geração seguinte fica inalterada, porque as diferenças não eram herdadas. A seleção só pode agir sobre diferenças herdáveis que fazem diferença para a aptidão; todo o resto evolui por acaso ou não evolui.
22.7 Problema: A mariposa, a ilha e o rebanho
Problema 22.1
Problema de fim de semana — a ascensão da mariposa-salpicada calculada a partir da equação de seleção, a deriva e a endogamia de uma população fundadora acompanhadas, um equilíbrio mutação–seleção estabelecido e um programa de melhoramento previsto, terminando com o coeficiente de seleção da mariposa, a heterozigosidade da ilha e o ganho do rebanho
Mariposa-salpicada: alelo melânico dominante, frequência em 1848; das mariposas melânicas 50 gerações depois; suponha e . Ilha: fundada por 12 aves vindas de um continente onde e um alelo recessivo deletério tem ; a ilha abriga daí em diante 40 aves reprodutoras. Mutação: . Rebanho: , desvio-padrão de .
Parte I — A mariposa.
- Em 1848, que fração das mariposas era melânica, e que fração dos alelos estava em heterozigotos?
- Mostre que, com dominante, a frequência do alelo claro obedece a .
- Partindo de , calcule após uma geração para .
- de melânicas significa . Quanto vale então?
- Por tentativas com a recorrência (ou com a aproximação enquanto está perto de 1), estime o número de gerações necessárias, para , para levar de a , e compare com as 50 observadas.
- Após as leis do ar limpo, a forma clara passa a ter a vantagem: contra se torna contra . Mostre que , e explique por que o retorno da forma clara é lento no início e termina num declínio exponencial de , ao passo que a ascensão começou de forma exponencial e terminou num arrastar.
Parte II — A ilha.
- Calcule a probabilidade de que nenhum dos 12 fundadores carregue o alelo deletério.
- Calcule a heterozigosidade esperada após a geração fundadora (sorteada a partir de por 12 indivíduos, isto é, 24 cópias gênicas).
- Calcule a heterozigosidade após 100 gerações com , como fração da do continente.
- Uma mutação neutra aparece numa ave. Calcule sua probabilidade de fixação e o tempo esperado até a fixação, caso ela se fixe.
- As aves da ilha se cruzam ao acaso, mas são todas aparentadas. Com acumulando-se por geração até cerca de após 30 gerações, calcule a frequência de homozigotos afetados para o alelo com , com e sem endogamia.
- Uma ave do continente chega a cada geração. Explique o que isso faz com a divergência da ilha e com sua carga.
Parte III — O equilíbrio.
- Calcule a frequência de equilíbrio de um letal recessivo alimentado por e a fração de nascimentos afetados.
- Calcule o mesmo para (um recessivo levemente deletério).
- Calcule o equilíbrio para um alelo dominante com desvantagem heterozigota .
- A medicina cura o letal, de modo que cai para . Como muda o equilíbrio, e quanto tempo (ordem de grandeza) a população leva para chegar lá?
- O genoma tem genes, cada um mutando para um letal recessivo a . Quantos alelos letais uma pessoa média carrega em estado heterozigoto? (No equilíbrio, cada lócus tem cópias por pessoa.)
- Explique por que esse número é compatível com uma população saudável e por que ele torna custoso o casamento entre primos.
Parte IV — O rebanho.
- O criador mantém os melhores das vacas (média desvio-padrão acima do rebanho). Calcule o diferencial de seleção em litros e a resposta.
- Após cinco gerações da mesma seleção, qual é o ganho esperado, e por que o ganho real poderia ser menor?
- Os touros contribuem com metade dos genes e são selecionados entre os melhores ( desvios-padrão). Calcule a resposta quando vacas e touros são selecionados como acima (faça a média dos dois diferenciais).
- Um rebanho em que todas as vacas são clones de um único animal: quanto valem e a resposta? O que isso diz sobre a herdabilidade?
- Uma população de tentilhões tem para a profundidade do bico, e a seca deixa sobreviventes mais profundos. Preveja a geração seguinte.
- O criador passa a um traço com . Que diferencial de seleção, em desvios-padrão, dá a mesma resposta que a questão 19?
- Enuncie o resultado: o da mariposa e o tempo até de melânicas, a heterozigosidade da ilha após 100 gerações e a resposta do rebanho por geração.
Solução
Solução de Problema 22.1.
1. Fração melânica , uma mariposa em 500; a fração dos alelos em heterozigotos é : praticamente todos. 2. Com , as cópias do alelo claro após a seleção são de um total , logo . 3. : uma mudança de . 4. . 5. A recorrência, iterada, leva 28 gerações para ; a aproximação dá a mesma ordem (a mudança é de no início e depois acelera à medida que cresce). As 50 gerações observadas correspondem a um menor, cerca de (a recorrência dá 45 gerações para ): uma seleção de por geração, enorme para os padrões da maioria dos alelos. 6. Com , : e , logo . A forma clara só é favorecida como o homozigoto , uma fração no início: o retorno começa devagar. Quando , e declina exponencialmente, por um fator a cada geração: um alelo dominante não tem onde se esconder. A ascensão foi a imagem espelhada: enquanto era raro (início exponencial), depois um arrastar à medida que o alelo claro se escondia nos heterozigotos. A recorrência dá 27 gerações para o retorno de a , 16 delas para levar o alelo a . 7. cópias gênicas: . 8. . 9. : dos do continente. 10. ; tempo esperado até a fixação gerações. 11. Sem endogamia, ; com , : sete vezes mais aves afetadas. 12. Um migrante por geração () basta para impedir que a ilha diverja nos lócus neutros e para repor os alelos que a deriva perdeu; ele também importa os alelos deletérios do continente em sua frequência continental, os quais, sob a endogamia da ilha, ficam expostos em homozigotos — a carga é fixada pelo equilíbrio entre imigração e exposição. 13. ; nascimentos afetados . 14. ; nascimentos afetados : uma seleção dez vezes mais fraca deixa o alelo ficar três vezes mais comum e a doença, dez vezes. 15. ; portadores . 16. De a : o alelo sobe a uma taxa fixada pela mutação, por geração, de modo que a aproximação leva da ordem de gerações — anos: qualquer decisão tomada agora é sentida por uma população que não se parecerá em nada com a nossa. 17. Cada lócus contribui com cópias letais por pessoa; sobre lócus, cerca de — mas isso supõe que todo gene possa mutar para um letal recessivo; com a estimativa convencional de alguns milhares de genes essenciais, uma pessoa carrega de vários a algumas dezenas de equivalentes letais em estado heterozigoto. 18. Cada um está num lócus diferente e cada um é raro, de modo que a chance de um casal ao acaso carregar ambos o mesmo é pequena; primos compartilham um oitavo de seus genes por descendência, de modo que, para cada um dos vários letais de um primo, o risco de o filho ser homozigoto é de por letal compartilhado — o excesso de mortalidade infantil dos casamentos entre primos é medido em alguns por cento. 19. ; . 20. Cinco gerações: cerca de ; menos na prática, porque a variância aditiva se esgota, porque foi estimada no rebanho original e porque o ambiente (alimentação, instalações) que produziu as melhores vacas pode não ser transmitido. 21. Diferencial médio desvio-padrão, , . 22. Clones não têm variância genética, de modo que e , qualquer que seja : a herdabilidade é uma propriedade de uma população, a parte de sua variância que é genética, e não uma propriedade do traço. 23. mais profundo. 24. A mesma resposta exige , isto é, desvios-padrão — conservar menos de uma vaca em dez mil: impraticável, e é por isso que os traços de baixa herdabilidade são melhorados lentamente ou por outros meios (teste de progênie, famílias maiores). 25. Mariposa: a , 28 gerações com e 45 com , contra 50 observadas; ilha: , do continente; rebanho: por geração só com as vacas, com touros selecionados.