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Ciências da Terra e do espaço universitárias — 1.º ano · স্নাতক প্রথম বর্ষ
2Telescópios, detectores e fotometria
Tudo o que a astronomia sabe sobre as estrelas, à parte alguns meteoritos e as amostras trazidas da Lua e dos asteroides, ela aprendeu pela luz que elas enviam. Essa luz atravessa a atmosfera da Terra, que absorve faixas inteiras de comprimentos de onda e borra o resto; é coletada por um espelho cujo tamanho limita tanto o brilho mais fraco quanto o detalhe mais fino que se podem observar; é contada por um detector que transforma fótons em elétrons, e toda contagem traz uma incerteza estatística. Antes que um brilho se torne uma luminosidade ou uma distância, cada uma dessas etapas precisa ser compreendida e corrigida. Este capítulo acompanha a luz desde a estrela até o número: as janelas da atmosfera e a lei da extinção, o telescópio e o seeing, o detector e o seu ruído, e depois as magnitudes, as paralaxes e as cores que transformam os fluxos medidos nas propriedades das estrelas. A mesma atmosfera, vista de baixo, é o tema dos capítulos sobre o clima (Capítulo 27); a mesma fotometria, aplicada aos planetas, abre o capítulo seguinte (Capítulo 3).
O que você já sabe
Um telescópio, por sua objetiva, coleta a luz sobre a sua abertura e forma uma imagem no foco; a difração por uma abertura de diâmetro limita o menor ângulo que ele separa a cerca de , o critério de Rayleigh (no volume de física do primeiro ano). Uma rede separa a luz por comprimento de onda (no segundo ano), e uma fonte que se move ao longo da linha de visada desloca suas linhas espectrais pelo efeito Doppler (no 12º ano). Um corpo em equilíbrio térmico emite o espectro de corpo negro, cujo pico obedece à lei de Wien (no segundo ano). Na química, a absorbância de uma solução cresce em proporção ao comprimento do percurso.
2.1 As janelas da atmosfera
A atmosfera é transparente a alguns comprimentos de onda e opaca a outros. A radiação é absorvida sobretudo pelo vapor de água, pelo dióxido de carbono e pelo ozônio, e, nos menores comprimentos de onda, pelos próprios átomos e moléculas da alta atmosfera.
Definição 2.1 (Janela atmosférica)
Uma janela atmosférica é uma faixa de comprimentos de onda na qual a atmosfera transmite a maior parte da radiação que chega ao seu topo e desce até o solo. A janela óptica se estende do ultravioleta próximo ao infravermelho próximo; a janela de rádio, de comprimentos de onda de cerca de um centímetro a cerca de dez metros.
A figura abaixo esboça a opacidade da atmosfera, dos raios gama às ondas de rádio longas. Raios gama, raios X e ultravioleta abaixo de cerca de nunca chegam ao solo: são observados do espaço. A luz visível passa, com algum borrão. A maior parte do infravermelho é absorvida pelo vapor de água e pelo dióxido de carbono, exceto em faixas estreitas que os observatórios de solo, em sítios altos e secos, aproveitam; as bandas fotométricas do infravermelho próximo estão nelas, em , e . Comprimentos de onda de cerca de a um milímetro são de novo bloqueados; ondas de rádio de alguns centímetros a cerca de dez metros passam, mesmo através das nuvens; as mais longas são refletidas pela ionosfera.
Extinção
Mesmo dentro da janela óptica a atmosfera retira parte da luz, por absorção e por espalhamento nas moléculas e nos aerossóis. Uma camada fina de espessura ao longo do raio remove uma fração da intensidade proporcional a : , em que o coeficiente de extinção (por metro) depende do comprimento de onda e da composição do ar nessa altura angular. É a lei da absorbância de uma solução, aplicada a uma coluna de ar.
Proposição 2.2 (Lei de Bouguer)
Ao longo de um raio que atravessa um meio absorvedor, a intensidade diminui como
em que é a intensidade que entra no meio e , a profundidade óptica do percurso, é um número puro. Para uma atmosfera plano-paralela, uma estrela a uma distância zenital (o ângulo entre a sua direção e a vertical) é vista através da profundidade óptica , em que é a profundidade óptica no zênite.
Demonstração. A equação separa-se: integrando desde o topo da atmosfera (, ) até o observador, obtém-se . Em uma atmosfera plano-paralela depende apenas da altura angular , e um raio inclinado de em relação à vertical percorre para subir . Logo . ∎
Definição 2.3 (Massa de ar, coeficiente de extinção atmosférica)
A massa de ar de uma observação é a profundidade óptica da linha de visada dividida pela profundidade óptica no zênite: . Ela vale 1 no zênite e, para uma atmosfera plano-paralela, . O coeficiente de extinção atmosférica em uma dada banda é o escurecimento, em magnitudes, produzido por uma massa de ar, de modo que uma estrela de magnitude acima da atmosfera é observada em
As magnitudes são definidas em Seção 2.4; aqui basta saber que uma redução pelo fator acrescenta magnitudes, de modo que . A massa de ar plano-paralela é excelente até uma altura angular de cerca de () e falha perto do horizonte, onde cresce sem limite, enquanto o percurso verdadeiro por uma atmosfera curva permanece finito; por isso os observadores evitam as alturas angulares baixas, e também pelo borrão, que cresce com o percurso.
Método 2.4 (A reta de extinção)
Para encontrar a magnitude que uma estrela teria acima da atmosfera:
- meça a magnitude da estrela, ou de uma estrela padrão, em várias massas de ar ao longo da noite, enquanto ela nasce ou se põe;
- calcule cada massa de ar a partir da distância zenital, ;
- marque contra e ajuste uma reta pelo método dos mínimos quadrados;
- a inclinação é o coeficiente de extinção da noite naquela banda; a interseção em é .
A mesma corrige então todas as outras estrelas observadas naquela noite na mesma banda: .
Exemplo 2.5
Numa noite, uma estrela foi medida seis vezes na banda V:
| 1.05 | 1.18 | 1.36 | 1.62 | 1.95 | 2.31 | |
| 8.024 | 8.031 | 8.072 | 8.104 | 8.171 | 8.216 |
A reta dos mínimos quadrados, traçada na figura abaixo, tem inclinação por massa de ar e interseção . Os pontos se dispersam em torno dela por magnitude, a precisão de uma boa fotometria de noite. No zênite a estrela é atenuada em magnitude, uma perda de de sua luz.
Turbulência atmosférica (seeing)
O ar acima de um telescópio nunca está parado. Células de ar de temperaturas ligeiramente diferentes, e portanto de índices de refração ligeiramente diferentes, derivam através do feixe e o desviam por pequenos ângulos aleatórios, mudando muitas vezes por segundo. O olho vê a estrela cintilar; uma longa exposição registra uma mancha borrada, muito maior que a figura de difração do telescópio.
Definição 2.6 (Turbulência atmosférica (seeing))
O seeing de um sítio é o diâmetro angular da imagem de uma fonte pontual borrada pela turbulência atmosférica numa longa exposição, medido como a largura total da imagem à meia altura, em segundos de arco.
O seeing muda de uma noite para outra e de uma hora para outra. Os sítios são escolhidos por causa dele: no topo do Maunakea, a de altitude, o seeing mediano da atmosfera livre é de cerca de , de cerca de no inverno a no verão, com a melhor décima parte das noites abaixo de cerca de ; o mesmo sítio tem uma mediana de apenas de água precipitável acima dele, o que abre as suas janelas no infravermelho.
2.2 Telescópios e resolução
Um telescópio faz duas coisas: coleta a luz sobre a área de sua objetiva e forma uma imagem em que os detalhes ficam separados. A área coletora cresce com : um espelho duas vezes mais largo capta quatro vezes mais fótons no mesmo tempo e alcança estrelas quatro vezes mais fracas. A resolução é limitada pela difração a cerca de , e pelo seeing.
Exemplo 2.7
O Telescópio Canadá–França–Havaí, no Maunakea, tem uma abertura de . Em seu limite de difração é
dez vezes mais fino que o seeing mediano de no mesmo sítio. Os dois limites são iguais para um espelho de diâmetro : qualquer telescópio de solo com mais de cerca de é limitado pelo seeing, e não pela própria óptica, nos comprimentos de onda visíveis.
Um grande telescópio de solo, portanto, ganha área coletora, não nitidez, a menos que corrija a turbulência. A óptica adaptativa faz isso: um sensor mede, muitas vezes por segundo, como a frente de onda de uma estrela brilhante (ou de uma estrela artificial feita por um laser na alta atmosfera) é distorcida, e um espelho fino, curvado por muitos pequenos atuadores, cancela a distorção. A correção funciona melhor no infravermelho, onde a turbulência é mais lenta e mais fraca, e num campo pequeno em torno da estrela-guia. No espaço não há seeing algum.
2.3 Detectores
O olho integra a luz durante uma fração de segundo e responde a uma pequena fração dos fótons que nele entram. As placas fotográficas integravam durante horas, mas registravam apenas uma pequena fração da luz. A astronomia moderna usa detectores de fótons feitos de semicondutores, nos quais cada fóton absorvido com energia suficiente libera um elétron.
Definição 2.8 (Eficiência quântica, razão sinal-ruído)
A eficiência quântica de um detector em um dado comprimento de onda é a fração dos fótons incidentes que ele registra, como fotoelétrons: . A razão sinal-ruído de uma medida é o sinal medido dividido pelo seu desvio padrão, isto é, pelo tamanho típico do seu erro aleatório.
O dispositivo de carga acoplada (CCD) é o detector padrão da janela óptica. É uma lâmina fina de silício dividida em uma grade de pixels, cada um deles um poço de potencial que armazena os elétrons liberados pelos fótons absorvidos nele durante a exposição. Ao fim da exposição, tensões aplicadas em sequência aos eletrodos deslocam as cargas de pixel em pixel, linha por linha, até um único amplificador que as mede uma a uma; a imagem é a tabela das contagens. Um CCD registra uma grande fração dos fótons incidentes na maior parte do visível; sua resposta é proporcional à luz recebida até uma carga máxima por pixel (o seu poço cheio), e ele pode integrar durante horas. Matrizes infravermelhas funcionam pelo mesmo princípio, com outros semicondutores, lidas pixel a pixel.
Os fótons chegam ao acaso. Se uma fonte envia em média fotoelétrons durante uma exposição, a contagem efetivamente registrada flutua de uma exposição para outra, com desvio padrão (estatística de Poisson, que decorre da teoria das probabilidades para contagens de eventos independentes e raros).
Proposição 2.9 (Ruído de fótons)
Quando o ruído de fótons da própria fonte domina, uma fonte que dá fotoelétrons por segundo é medida em um tempo com a razão sinal-ruído
ela cresce com a raiz quadrada do tempo de exposição e com o diâmetro do telescópio (pois ). O erro na magnitude é então .
Demonstração. O sinal é e seu desvio padrão . Para a magnitude, , logo um pequeno erro dá . ∎
Para medir uma magnitude com é preciso uma SNR de cerca de 109, isto é, cerca de fotoelétrons. Para fontes fracas entram dois outros termos. O próprio céu brilha, e cada pixel da imagem da estrela também capta fótons do céu, à taxa ; e o amplificador acrescenta um ruído de leitura a cada pixel lido. A expressão completa,
sobre os pixels da imagem, reduz-se a para uma estrela brilhante e a para uma fonte mais fraca que o céu. Como cresce com a área do disco de seeing, um bom seeing compensa duas vezes: uma imagem mais nítida separa mais e capta menos céu (Exercício 2.11).
No campo — Uma noite no telescópio
A fotometria se faz com calibrações tanto quanto com estrelas. Antes da noite, um observador de um observatório profissional faz imagens de bias (exposições de duração nula, que registram o deslocamento eletrônico de cada pixel) e de campos planos (imagens do interior iluminado de modo uniforme da cúpula, ou do céu do crepúsculo, que mapeiam como a sensibilidade varia de pixel a pixel e ao longo do campo); as imagens científicas são corrigidas subtraindo-se o bias e dividindo-se pelo campo plano. Durante a noite, estrelas padrão de magnitudes conhecidas são observadas em várias massas de ar, para fixar a reta de extinção e o ponto zero que converte contagens em magnitudes. Uma noite é chamada fotométrica quando a extinção se mantém estável o bastante para que essa correção valha; no topo do Maunakea, das noites são fotométricas.
2.4 Fluxos e magnitudes
Definição 2.10 (Fluxo, luminosidade)
O fluxo recebido de uma fonte é a potência de sua radiação que atravessa uma área unitária mantida perpendicular à sua direção, em watts por metro quadrado; restrito a uma faixa de comprimentos de onda, é o fluxo nessa faixa. A luminosidade da fonte é a potência total que ela irradia, em watts.
Proposição 2.11 (Lei do inverso do quadrado)
Uma fonte de luminosidade que irradia igualmente em todas as direções, vista à distância através do espaço vazio, dá o fluxo
Demonstração. Em regime estacionário, sem absorção, a potência que atravessa qualquer esfera centrada na fonte é a mesma, , pela conservação da energia. Por simetria, ela se distribui uniformemente pela área da esfera, . ∎
Exemplo 2.12
A luminosidade do Sol é . A uma unidade astronômica, , seu fluxo é : a irradiância solar que a Terra recebe no topo de sua atmosfera.
Os fluxos abrangem uma faixa enorme, e os astrônomos os comparam em uma escala logarítmica herdada das classes em que se separavam as estrelas visíveis a olho nu: as mais brilhantes de primeira magnitude, as mais fracas de sexta.
Definição 2.13 (Magnitude aparente, banda fotométrica)
Uma banda fotométrica é uma faixa de comprimentos de onda selecionada por um filtro padrão, designada por uma letra: U (ultravioleta), B (azul), V (visual), R (vermelho), I (infravermelho próximo), e J, H, K nas janelas do infravermelho. A magnitude aparente de uma fonte em uma banda é definida a partir de seu fluxo nessa banda por
com o ponto zero fixado por estrelas padrão, próximo da magnitude da estrela Vega em cada banda. Uma diferença de 5 magnitudes corresponde a um fator exatamente igual a 100 no fluxo; uma magnitude corresponde a um fator . Fontes mais brilhantes têm magnitudes menores, possivelmente negativas.
Os comprimentos de onda centrais dos filtros padrão U, B, V, R e I são , , , e .
Na banda V, o Sol tem magnitude aparente , Sirius, a estrela mais brilhante do céu noturno, , e Vega . O Sol é, portanto, vezes mais brilhante que Sirius em nosso céu; isso ainda não diz qual das duas brilha mais, para o que são necessárias as distâncias.
Paralaxe e o parsec
Enquanto a Terra gira em torno do Sol, uma estrela próxima parece deslocar-se contra o fundo de estrelas muito mais distantes, descrevendo em um ano uma pequena elipse. Esse movimento aparente é a medida mais direta das distâncias estelares: ele usa a órbita da Terra como base, como faz um agrimensor com a sua linha de base.
Definição 2.14 (Paralaxe anual, parsec)
A paralaxe anual de uma estrela é o ângulo subentendido na estrela pelo raio da órbita da Terra, uma unidade astronômica, visto perpendicularmente à linha de visada; é o semieixo maior da elipse anual que a estrela parece descrever. O parsec () é a distância à qual uma unidade astronômica subtende um segundo de arco:
Como é minúsculo, em radianos, e a distância segue imediatamente:
Sirius tem paralaxe de , logo está a , . Mesmo as estrelas mais próximas têm paralaxes inferiores a um segundo de arco, menores que o seeing: a paralaxe é obtida pelo deslocamento do centro da imagem da estrela, que muitos fótons localizam com precisão muito maior que a largura da imagem. Uma missão espacial descrita no fim deste capítulo mediu dessa forma as posições de quase dois bilhões de objetos.
Definição 2.15 (Magnitude absoluta, módulo de distância)
A magnitude absoluta de uma estrela em uma banda é a magnitude aparente que ela teria à distância de , vista através do espaço vazio. A diferença é o seu módulo de distância.
Proposição 2.16 (O módulo de distância)
Para uma estrela à distância vista através do espaço vazio,
Se a luz é enfraquecida no caminho por magnitudes de extinção, . Em uma banda, a razão entre as luminosidades de duas estrelas é .
Demonstração. Pela lei do inverso do quadrado, o fluxo em e o fluxo a estão na razão . A definição de magnitudes dá . A extinção multiplica o fluxo por , o que soma a . À distância comum de , os fluxos estão na razão das luminosidades, e . ∎
O Sol tem magnitude absoluta e luminosidade . Comparando a magnitude absoluta de uma estrela na banda V com a do Sol, obtém-se a sua luminosidade em V em unidades solares, — uma luminosidade na banda V, já que uma estrela muito mais quente ou mais fria que o Sol coloca uma parte diferente de sua potência fora da banda V.
Cor
Definição 2.17 (Índice de cor)
O índice de cor de uma estrela é a diferença de suas magnitudes em duas bandas, a mais azul primeiro; o mais usado é . Um pequeno ou negativo marca uma estrela azul; um grande, uma estrela vermelha.
O índice de cor não depende da distância, pois a lei do inverso do quadrado reduz as duas bandas do mesmo modo; ele mede a forma do espectro e, portanto, a temperatura da superfície da estrela. Uma estrela irradia aproximadamente como um corpo negro cujo espectro tem pico em (lei de Wien, com , recordada do volume de física do segundo ano). A figura abaixo desenha três espectros de corpo negro: um corpo frio a tem pico no infravermelho próximo e dá mais fluxo em V que em B; a temperatura efetiva do Sol, , põe seu pico em , entre B e V; um corpo a tem pico no ultravioleta e é mais brilhante em B que em V. A razão das radiâncias em B e V cresce de modo constante com a temperatura, de a e para as três curvas, por isso diminui à medida que aumenta.
Quatro estrelas brilhantes mostram a faixa de cores:
| estrela | paralaxe () | |||
|---|---|---|---|---|
| Rigel | 0.13 | 0.10 | 3.78 | |
| Altair | 0.76 | 0.98 | 0.22 | 194.95 |
| Polaris | 2.02 | 2.62 | 0.60 | 7.54 |
| Betelgeuse | 0.42 | 2.27 | 1.85 | 6.55 |
Rigel é branco-azulada, e Betelgeuse, na mesma constelação, é laranja-avermelhada: uma diferença de cor visível a olho nu. Seus tipos espectrais, B8 e M1–M2, dizem o mesmo na linguagem dos espectros, assunto do Livro 5.
2.5 Espectrógrafos
A fotometria mede a luz em poucas bandas largas; um espectrógrafo a espalha em um espectro. A luz do foco do telescópio atravessa uma fenda estreita, é tornada paralela por um colimador, é dispersada por uma rede (ou por um prisma) e é focalizada por uma câmara sobre um detector, em que cada comprimento de onda cai em uma coluna diferente de pixels (veja a figura abaixo). Uma rede com linhas iluminadas, usada na ordem , separa dois comprimentos de onda distantes de quando ; esse é o seu poder de resolução (recordado do volume de física do segundo ano).
Um espectro traz três tipos de informação. Suas linhas, escuras onde átomos e íons da atmosfera da estrela absorvem, e brilhantes onde um gás quente e rarefeito emite, identificam os elementos químicos presentes. A forma do contínuo e as intensidades relativas de linhas formadas em temperaturas diferentes dão a temperatura do gás. E o desvio Doppler das linhas dá a velocidade ao longo da linha de visada: uma linha de comprimento de onda de repouso é deslocada de para uma velocidade radial muito menor que . Medir com exige um poder de resolução da ordem de , ou um poder de resolução moderado e muitas linhas medidas em conjunto. Como os espectros revelam a estrutura, a composição e os movimentos de estrelas e galáxias é o assunto do Livro 5.
2.6 Observação a partir do espaço
Acima da atmosfera não há bandas opacas, nem extinção, nem seeing, e no infravermelho nenhum brilho do ar aquecido. Os telescópios espaciais pagam por isso com custo, com a massa e o tamanho limitados que um foguete pode lançar e, na maioria deles, com a impossibilidade de reparo. São usados onde o solo não pode competir: para raios gama, raios X e ultravioleta, que nunca chegam ao solo; para o infravermelho além das janelas estreitas; para imagens no limite de difração sobre um campo amplo; e para medidas, como as paralaxes de um número muito grande de estrelas, que exigem um instrumento estável fora do ar turbulento.
Dados de 2026
Três observatórios espaciais mostram a faixa. O Telescópio Espacial Hubble, lançado em 1990, tem um espelho primário de de diâmetro. O Telescópio Espacial James Webb, lançado em 25 de dezembro de 2021, tem um espelho primário de de diâmetro, formado por 18 segmentos hexagonais, com uma área coletora de ; ele opera de a e orbita o Sol perto do segundo ponto de Lagrange, L2, a milhão de quilômetros da Terra, do lado oposto ao Sol. O Gaia, lançado em 19 de dezembro de 2013 para a mesma região, usou dois telescópios com um plano focal comum de CCDs para mapear as posições e os movimentos de quase dois bilhões de objetos em três dimensões; suas observações estão concluídas, e seus catálogos estão sendo divulgados.
2.7 Exercícios
Exercício 2.1 ★
Calcule a razão entre os fluxos de duas estrelas de magnitudes 1.0 e 6.0, e a razão entre os de Rigel () e Polaris (). Qual delas é mais brilhante no céu?
Solução
Solução de Exercício 2.1.
Uma diferença de 5 magnitudes corresponde a um fator de 100: a estrela de magnitude 1.0 envia 100 vezes mais fluxo. Rigel e Polaris: ; Rigel, de magnitude menor, é mais brilhante.
Exercício 2.2 ★
A paralaxe de Altair é . Dê a sua distância em parsecs, em unidades astronômicas e em anos-luz.
Solução
Solução de Exercício 2.2.
, isto é, e .
Exercício 2.3 ★
Calcule o limite de difração de um telescópio espacial de em , em segundos de arco, e compare-o com um seeing de . Faça o mesmo para um telescópio de em .
Solução
Solução de Exercício 2.3.
, cerca de sete vezes mais fino que um seeing de : no espaço o telescópio atinge seu limite de difração. Para em : .
Exercício 2.4 ★
A partir da tabela das quatro estrelas brilhantes, ordene Rigel, Altair, Polaris e Betelgeuse da superfície mais quente para a mais fria. Por que o índice de cor pode ser comparado entre estrelas a distâncias muito diferentes?
Solução
Solução de Exercício 2.4.
cresce de Rigel () para Altair (0.22), Polaris (0.60) e Betelgeuse (1.85): a mais quente é Rigel, depois Altair, Polaris e Betelgeuse. A distância reduz as duas bandas pelo mesmo fator, de modo que não é alterado por ela (desde que nenhuma poeira avermelhe a luz no caminho).
Exercício 2.5 ★★
Uma estrela é medida, na mesma noite, com magnitude 6.412 à distância zenital de e com 6.590 a . Admitindo uma atmosfera plano-paralela, calcule as duas massas de ar, o coeficiente de extinção e a magnitude da estrela acima da atmosfera.
Exercício 2.6 ★★
Uma estrela dá 400 fotoelétrons numa exposição de , e o ruído de fótons da própria estrela domina. Calcule a razão sinal-ruído. Por quanto tempo é preciso expor para atingir uma SNR de 100? E para medir a magnitude com ?
Solução
Solução de Exercício 2.6.
. A SNR cresce como : para 100, . Um erro de magnitude exige , logo .
Exercício 2.7 ★★
Rigel tem e paralaxe de . Desprezando a extinção entre ela e nós, calcule sua distância, sua magnitude absoluta e sua luminosidade na banda V em unidades solares ().
Exercício 2.8 ★★
Compare as áreas coletoras de um espelho circular de (ignore a sua obstrução central) e do telescópio Webb (). Quantas vezes mais curta é a exposição em que o Webb coleta o mesmo número de fótons? Que fração de um disco cheio, de de diâmetro, representa a sua área coletora, e por que essa fração é menor que um?
Solução
Solução de Exercício 2.8.
, e : o telescópio Webb coleta o mesmo número de fótons em uma exposição 5.5 vezes mais curta. Um disco cheio de de diâmetro teria ; o espelho real tem dele, porque 18 hexágonos deixam descoberta a borda desse disco, e as frestas entre os segmentos e a abertura central não coletam nada.
Exercício 2.9 ★★
(a) A partir da luminosidade do Sol, , calcule o seu fluxo a . (b) As magnitudes aparentes e absoluta do Sol são e . Use o módulo de distância para recuperar a distância Sol–Terra, em unidades astronômicas.
Solução
Solução de Exercício 2.9.
(a) , e , vezes menos do que na Terra. (b) , logo , isto é, .
Exercício 2.10 ★★★
Mostre, a partir de Proposição 2.2, que . Para a noite da reta de extinção (), calcule a profundidade óptica no zênite e a fração da luz que chega ao telescópio no zênite e em . O que uma atmosfera plano-paralela preveria para a massa de ar a uma distância zenital de , e por que esse valor não deve ser confiável?
Solução
Solução de Exercício 2.10.
Acima da atmosfera o fluxo é ; abaixo, . Então , que é com . Para : . No zênite chega da luz, ; em , , . Em , ; mas o modelo plano-paralelo torna o percurso infinito no horizonte, ao passo que o percurso por uma atmosfera curva permanece finito, e a refração também desvia o raio: perto do horizonte a fórmula superestima a massa de ar, e seus erros crescem depressa.
Exercício 2.11 ★★★
Uma galáxia fraca dá fotoelétrons por segundo num telescópio, e o céu na área de sua imagem dá por segundo quando o seeing é . O ruído de leitura é desprezível. (a) Por quanto tempo é preciso expor para uma SNR de 10? (b) O céu na imagem cresce com a área do disco de seeing. Repita para um seeing de . (c) Mostre que, para uma fonte muito mais fraca que o céu, o tempo de exposição necessário para uma dada SNR varia como , em que é o seeing e o diâmetro do telescópio.
Solução
Solução de Exercício 2.11.
(a) , logo . (b) Reduzir o seeing à metade divide a área da imagem, e portanto , por 4: e . (c) Para , . A taxa da fonte cresce como ; a taxa do céu cresce como a área coletora, , vezes a área do céu na imagem, . Logo : reduzir o seeing à metade vale tanto quanto dobrar o diâmetro.
Exercício 2.12 ★★★
Uma rede com 1200 linhas por milímetro é iluminada em e usada na primeira ordem. (a) Qual é o seu poder de resolução, e qual é a menor diferença de comprimento de onda separável em ? (b) A que velocidade radial corresponde essa diferença? (c) A Terra se move em torno do Sol a . Quanto esse movimento pode deslocar uma linha em , e quantos elementos de resolução isso representa? O que deve fazer, portanto, um observador que mede a velocidade de uma estrela?
Solução
Solução de Exercício 2.12.
(a) linhas; na primeira ordem o poder de resolução é , e . (b) . (c) , cerca de 12 elementos de resolução. O observador deve calcular, para a data e a hora da observação, a componente da velocidade orbital da Terra na direção da estrela, e subtraí-la, para obter a velocidade da estrela em relação ao Sol.
2.8 Problema: pesando a luz de Sirius
Problema 2.1
Problema de fim de semana — quão longe está Sirius, quão brilhante ela parece, quantos fótons envia e quantos sóis ela ofusca
Sirius, a estrela mais brilhante do céu noturno, tem uma companheira fraca, a anã branca Sirius B. Use os dados:
| objeto | paralaxe | |
|---|---|---|
| Sirius | ||
| Sirius B | — | |
| Vega | ||
| o Sol | — |
com na banda V, , e um coeficiente de extinção por massa de ar no observatório.
Parte I — Quão longe está Sirius?
- Calcule a distância de Sirius em parsecs.
- Exprima-a em unidades astronômicas e em metros.
- Exprima-a em anos-luz. Há quanto tempo a luz que vemos esta noite deixou Sirius?
- Ao longo de um ano, de que ângulo total a direção de Sirius oscila de um lado para o outro? Compare-o com um seeing de . Por que a oscilação ainda pode ser medida até uma pequena fração do seeing?
- Se a paralaxe estivesse errada em , de que fração a distância estaria errada, e de quantos anos-luz?
Parte II — Quão brilhante ela parece?
- Calcule a razão entre os fluxos de Sirius e de Vega na banda V.
- Calcule a razão entre os fluxos do Sol e de Sirius.
- Calcule a razão entre os fluxos de Sirius e de Sirius B.
- Do Observatório do Paranal, Sirius cruza o meridiano a uma altura angular de (Capítulo 1). Calcule a massa de ar, a extinção e a magnitude medida naquele momento.
- Repita para uma altura angular de . Que fração da luz se perde no caminho?
- Por que a fórmula induziria um observador em erro ao medir Sirius logo depois que ela nasce?
Parte III — Contando fótons. Uma câmera num telescópio de registra fotoelétrons por segundo de uma estrela de magnitude , uma vez corrigida a extinção. Cada pixel contém no máximo elétrons (o seu poço cheio).
- Quantos fotoelétrons por segundo a câmera registra de Sirius B?
- Qual é o tempo de exposição que dá a Sirius B uma SNR de 1000, com o ruído de fótons da própria estrela? Qual é então o erro em sua magnitude?
- Quantos fotoelétrons por segundo a câmera registra de Sirius?
- Se da luz de Sirius cai no seu pixel mais brilhante, quanto tempo esse pixel leva para se encher?
- Na imagem, as asas fracas da imagem de Sirius depositam, no lugar de Sirius B, da luz de Sirius por pixel, e o pixel mais brilhante de Sirius B capta da sua própria luz. Compare as duas taxas nesse pixel.
- Qual é a exposição mais longa que não satura esse pixel? Calcule a SNR de Sirius B nesse pixel numa exposição de , contando o ruído de fótons das duas fontes. Sirius B é detectável, e o que a torna difícil?
Parte IV — Quantos sóis?
- Calcule o módulo de distância de Sirius.
- Deduza a magnitude absoluta de Sirius na banda V, com duas casas decimais.
- Calcule a distância e a magnitude absoluta de Vega.
- Qual entre Sirius e Vega é intrinsecamente mais luminosa na banda V, e por que fator?
- Qual seria a magnitude aparente do Sol vista à distância de Sirius? Tomando 6.0 como a magnitude mais fraca visível a olho nu numa noite escura, ela seria visível?
- Até que distância Sirius permaneceria visível a olho nu?
- Calcule a luminosidade de Sirius na banda V em unidades solares: quantos sóis Sirius ofusca?
Solução
Solução de Problema 2.1.
1. .
2. ; .
3. : a luz que vemos saiu de Sirius há 8.6 anos.
4. A direção oscila de , cerca do dobro do seeing. A oscilação é medida a partir da posição do centro da imagem, e não da sua borda: em média sobre muitos fótons, o centro é encontrado com uma pequena fração da largura da imagem, tanto mais precisamente quanto mais fótons forem contados.
5. , isto é, .
6. .
7. .
8. .
9. , ; extinção magnitude; medida, .
10. , ; extinção de 0.30 magnitude, . A fração transmitida é : da luz se perde.
11. Ao nascer e é infinito, enquanto o percurso real pela atmosfera curva é longo mas finito; a refração também desvia o raio. Perto do horizonte a extinção é grande e muda depressa, e a correção plano-paralela está errada.
12. fotoelétrons por segundo.
13. Uma SNR de 1000 exige fotoelétrons: . O erro na magnitude é .
14. fotoelétrons por segundo.
15. por segundo no pixel mais brilhante, que se enche em , menos de meio milissegundo.
16. As asas de Sirius dão por segundo; Sirius B dá por segundo. O ofuscamento de Sirius é 4.6 vezes mais brilhante que o pico de Sirius B.
17. O pixel recebe por segundo e se enche em . Em : sinal , total , ruído , logo . Sirius B é detectável do ponto de vista do ruído de fótons; o que a torna difícil é que o ofuscamento precisa ser conhecido e subtraído com precisão muito melhor que um quinto do seu valor, enquanto o núcleo de Sirius satura em menos de um milissegundo.
18. .
19. .
20. ; , logo .
21. Vega, de magnitude absoluta menor, por um fator de . Sirius parece mais brilhante apenas porque está mais perto.
22. : o Sol seria uma estrela bem brilhante a olho nu.
23. , logo , cerca de .
24. : na banda V, Sirius ofusca cerca de 23 sóis.