地球与空间科学 · 第 3 册 · 本科一年级

Ciências da Terra e do espaço universitárias — 1.º ano

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Ciências da Terra e do espaço universitárias — 1.º ano · 本科一年级

3Planetologia comparada

Vênus e a Terra são quase gêmeas: Vênus tem 95 %95\,\% do raio da Terra e 81 %81\,\% da sua massa. No entanto a Terra tem oceanos, uma atmosfera de nitrogênio e oxigênio e placas em movimento, enquanto Vênus esconde sob as nuvens uma superfície a 737 K737\,\mathrm{K}, mais quente que qualquer forno de cozinha, esmagada por uma atmosfera de dióxido de carbono a 92 bar92\,\mathrm{bar}. Marte, com a metade do tamanho da Terra, tem uma atmosfera fina e fria, vulcões gigantes e cânions, mas não tem placas em movimento. Mais longe, Júpiter e Saturno são sobretudo hidrogênio e hélio; Urano e Netuno, sobretudo os gelos de água, metano e amônia. Comparar os planetas é a única maneira de testar o que julgamos saber sobre a Terra: por que o seu interior é estratificado, por que o seu clima é ameno, por que só ela tem tectônica de placas. Este capítulo pesa e mede os planetas, lê os seus interiores a partir das densidades e da maneira como a massa se distribui, compara suas temperaturas e atmosferas, e termina com as luas e os pequenos corpos que guardam o registro da juventude do Sistema Solar.

O que você já sabe

Os planetas giram em torno do Sol em elipses, e o quadrado do período de um satélite é proporcional ao cubo do seu semieixo maior (terceira lei de Kepler, no volume de física do primeiro ano, onde também se define o momento de inércia de um sólido; uma esfera homogênea tem I=25MR2I = \tfrac25MR^2). Um corpo negro irradia σT4\sigma T^4 por unidade de área (no segundo ano). O Sistema Solar e os seus planetas rochosos e gigantes foram descritos no Livro 1 (6º ano); o albedo e a temperatura de equilíbrio de um planeta foram vistos no Livro 2 (10º ano), e o efeito estufa, no Livro 1 (9º ano).

Os quatro planetas rochosos em escala, da esquerda para a direita Mercúrio, Vênus, a Terra e Marte (distâncias fora de escala; Vênus vista na luz visível, com a superfície escondida sob as nuvens). NASA, domínio público.
Os quatro planetas rochosos em escala, da esquerda para a direita Mercúrio, Vênus, a Terra e Marte (distâncias fora de escala; Vênus vista na luz visível, com a superfície escondida sob as nuvens). NASA, domínio público.

3.1 Pesando e medindo os planetas

O raio de um planeta é medido a partir do seu diâmetro angular e da sua distância, ou, para um planeta visitado por sondas, por altimetria de radar e de laser. Sua massa é mais difícil: ela só se manifesta pela atração gravitacional que o planeta exerce sobre outro corpo.

Método 3.1 (A massa de um planeta a partir da órbita de um satélite)

Para um satélite de massa desprezível, em uma órbita quase circular de raio (semieixo maior) aa e período sideral TT em torno de um planeta de massa MM:

  1. converta aa para metros e TT para segundos;
  2. a terceira lei de Kepler dá GM=4π2a3/T2GM = 4\pi^2a^3/T^2: esse produto é o que a órbita mede, e com precisão muito maior que a de GG em si;
  3. divida por G=6.6743×10−11 m3 kg−1 s−2G = 6.6743 \times 10^{-11}\,\mathrm{m}^{3}\,\mathrm{kg}^{-1}\,\mathrm{s}^{-2} para obter MM.

Um planeta sem lua (Mercúrio, Vênus) é pesado do mesmo modo, a partir da órbita, ou do desvio, de uma sonda que passa por ele.

Exemplo 3.2

Io, a maior lua interna de Júpiter, orbita a a=421.8×103 kma = 421.8 \times 10^{3}\,\mathrm{km} em 1.769 1381.769\,138 dias, isto é, T=152 854 sT = 152\,854\,\mathrm{s}. Então

GM=4π2×(4.218×108 m)3(152 854 s)2=1.268×1017 m3 s−2,M=1.268×10176.6743×10−11=1.900×1027 kg,GM = \frac{4\pi^2\times(4.218 \times 10^{8}\,\mathrm{m})^3}{(152\,854\,\mathrm{s})^2} = 1.268 \times 10^{17}\,\mathrm{m}^{3}\,\mathrm{s}^{-2}, \qquad M = \frac{1.268 \times 10^{17}}{6.6743 \times 10^{-11}} = 1.900 \times 10^{27}\,\mathrm{kg},

o que concorda com a massa tabelada de Júpiter, 1.898×1027 kg1.898 \times 10^{27}\,\mathrm{kg}, com 0.1 %0.1\,\%. A massa de Io, 4.7×10−54.7 \times 10^{-5} da de Júpiter, é desprezível; o pequeno excesso vem do abaulamento equatorial de Júpiter, que puxa uma lua próxima um pouco mais forte do que o faria uma esfera de mesma massa.

Com a massa e o raio vem a densidade média ρˉ=3M/(4πR3)\bar\rho = 3M/(4\pi R^3), a primeira pista do que é um planeta. As densidades dos planetas se dividem em dois grupos (veja a figura abaixo): Mercúrio, Vênus, a Terra e Marte situam-se entre cerca de 39003900 e 5500 kg m−35500\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-3}, mais densos do que qualquer rocha comum; os quatro planetas externos situam-se entre 690690 e 1640 kg m−31640\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-3}, perto da densidade da água, e Saturno até abaixo dela.

Densidade média em função do raio (escala logarítmica) dos oito planetas (cheios: rochosos, gigantes gasosos e gigantes de gelo), da Lua e de Plutão (círculos vazios). Dados da ficha planetária da NASA.
Densidade média em função do raio (escala logarítmica) dos oito planetas (cheios: rochosos, gigantes gasosos e gigantes de gelo), da Lua e de Plutão (círculos vazios). Dados da ficha planetária da NASA.

A densidade média, sozinha, não consegue dizer se um planeta é feito de um só material denso ou se tem um centro muito denso e um envelope mais leve. Um segundo número consegue: como a massa se distribui entre o centro e a superfície.

Definição 3.3 (Fator de momento de inércia)

O fator de momento de inércia de um planeta é o número

C=IMR2,C = \frac{I}{MR^2} ,

onde II é o seu momento de inércia em torno do eixo de rotação, MM a sua massa e RR o seu raio médio. Uma esfera homogênea tem C=25=0.4C = \tfrac25 = 0.4; um planeta cuja densidade cresce em direção ao centro tem C<0.4C < 0.4, tanto menor quanto mais a massa estiver concentrada.

O momento de inércia é medido a partir da lenta precessão do eixo de rotação sob a atração do Sol, junto com o achatamento do campo gravitacional do planeta. Os valores são reveladores: a Lua, com C=0.394C = 0.394, é quase homogênea; Marte, com 0.3660.366, e a Terra, com 0.33080.3308, são claramente estratificados; Júpiter, com 0.2540.254, e Saturno, com 0.2100.210, têm a maior parte da massa concentrada em direção ao centro.

3.2 Do que são feitos os planetas

Definição 3.4 (Planetas terrestres e gigantes)

Um planeta terrestre é um planeta feito sobretudo de rocha silicatada e ferro, com superfície sólida: Mercúrio, Vênus, a Terra e Marte. Um planeta gigante é um planeta muitas vezes mais massivo que a Terra, feito sobretudo de elementos leves e seus compostos, e sem superfície sólida. Um gigante gasoso é um planeta gigante feito sobretudo de hidrogênio e hélio: Júpiter e Saturno. Um gigante de gelo é um planeta gigante feito sobretudo dos compostos que os astrônomos chamam de gelos — água, metano e amônia — sob um envelope de hidrogênio e hélio: Urano e Netuno.

As atmosferas que as sondas e os telescópios medem confirmam a divisão. A de Júpiter é de 89.8 %89.8\,\% de hidrogênio e 10.2 %10.2\,\% de hélio em volume, a de Saturno, 96.3 %96.3\,\% e 3.25 %3.25\,\%; no caso de Urano, pelo menos 80 %80\,\% da massa é um fluido denso e quente de água, metano e amônia sobre um pequeno núcleo rochoso. A densidade média de um gigante gasoso permanece baixa, embora o seu centro seja fortemente comprimido, porque o hidrogênio é o elemento mais leve; um gigante de gelo é mais denso que Saturno porque os seus gelos são mais pesados que o hidrogênio.

Os planetas terrestres são estratificados como a Terra: um núcleo rico em ferro sob um manto silicatado e uma crosta fina. O modelo mais simples que usa os dois números medidos, a densidade média e o fator de momento de inércia, tem duas camadas.

Proposição 3.5 (O planeta de duas camadas)

Considere um planeta de raio RR como um núcleo de raio xRxR e densidade uniforme ρc\rho_c dentro de um manto de densidade uniforme ρm\rho_m. Sua densidade média e seu fator de momento de inércia são

ρˉ=ρm+(ρc−ρm) x3,C=25 ρm+(ρc−ρm) x5ρˉ.\bar\rho = \rho_m + (\rho_c - \rho_m)\,x^3 , \qquad C = \frac25\,\frac{\rho_m + (\rho_c - \rho_m)\,x^5}{\bar\rho} .

Dados ρˉ\bar\rho, CC e uma densidade presumida para o manto, ρm\rho_m, o raio relativo do núcleo segue:

x2=52Cρˉ−ρmρˉ−ρm,ρc=ρm+ρˉ−ρmx3.x^2 = \frac{\tfrac52C\bar\rho - \rho_m}{\bar\rho - \rho_m} , \qquad \rho_c = \rho_m + \frac{\bar\rho - \rho_m}{x^3} .

Demonstração. O planeta é uma esfera homogênea de densidade ρm\rho_m e raio RR, mais uma esfera de raio xRxR com o excesso de densidade ρc−ρm\rho_c - \rho_m. As massas se somam: M=43πR3[ρm+(ρc−ρm)x3]M = \tfrac43\pi R^3[\rho_m + (\rho_c - \rho_m)x^3], e dividindo pelo volume obtém-se ρˉ\bar\rho. Os momentos de inércia em torno do mesmo eixo também se somam; uma esfera homogênea de densidade ρ\rho e raio rr tem I=25⋅43πρr3⋅r2=8π15ρr5I = \tfrac25\cdot\tfrac43\pi\rho r^3\cdot r^2 = \tfrac{8\pi}{15}\rho r^5, logo I=8π15R5[ρm+(ρc−ρm)x5]I = \tfrac{8\pi}{15}R^5[\rho_m + (\rho_c - \rho_m)x^5]. Dividindo por MR2=43πρˉR5MR^2 = \tfrac43\pi\bar\rho R^5 obtém-se CC. Por fim, as duas equações ficam (ρc−ρm)x3=ρˉ−ρm(\rho_c - \rho_m)x^3 = \bar\rho - \rho_m e (ρc−ρm)x5=52Cρˉ−ρm(\rho_c - \rho_m)x^5 = \tfrac52C\bar\rho - \rho_m; dividindo a segunda pela primeira obtém-se x2x^2, e a primeira dá ρc\rho_c. ∎

O modelo tem três incógnitas e dois dados, de modo que uma delas, a densidade do manto, deve ser presumida a partir do que rochas de composição adequada pesam sob pressão. A resposta é sensível a essa escolha quando CC está perto de 0.40.4, porque 52Cρˉ−ρm\tfrac52C\bar\rho - \rho_m é então uma pequena diferença de números grandes (Exercício 3.10 e o problema). O modelo também ignora a compressão do manto pelo próprio peso, que, num planeta do tamanho da Terra, eleva a densidade do manto profundo bem acima da das rochas da superfície; para a Terra, a sismologia faz muito melhor (Capítulo 9). Sismômetros colocados em Marte fizeram agora o mesmo para esse planeta: onde a tabela planetária dá um raio de núcleo de 1830 km1830\,\mathrm{km}, os resultados recentes indicam apenas 1650 km1650\,\mathrm{km} a 1675 km1675\,\mathrm{km}.

A Terra e Marte em escala, com os seus núcleos. Para Marte, a borda cheia é o raio do núcleo da tabela planetária, e o círculo tracejado é o raio menor indicado pelos resultados sísmicos recentes. Os dois núcleos são ricos em ferro; o da Terra tem uma parte interna sólida, que não está desenhada.
A Terra e Marte em escala, com os seus núcleos. Para Marte, a borda cheia é o raio do núcleo da tabela planetária, e o círculo tracejado é o raio menor indicado pelos resultados sísmicos recentes. Os dois núcleos são ricos em ferro; o da Terra tem uma parte interna sólida, que não está desenhada.

3.3 Atmosferas e superfícies

A temperatura de um planeta é fixada, em primeiro lugar, pela luz solar que ele absorve. A irradiância SS a uma distância dd do Sol cai como 1/d21/d^2 (Proposição 2.11): 1361 W m−21361\,\mathrm{W}\,\mathrm{m}^{-2} na Terra, 2601 W m−22601\,\mathrm{W}\,\mathrm{m}^{-2} em Vênus, 586 W m−2586\,\mathrm{W}\,\mathrm{m}^{-2} em Marte, 50 W m−250\,\mathrm{W}\,\mathrm{m}^{-2} em Júpiter. Parte dela é refletida de volta, diretamente.

Definição 3.6 (Albedo de Bond)

O albedo de Bond AA de um planeta é a fração da potência total da luz solar que incide sobre ele e que ele reflete e espalha de volta ao espaço, em todos os comprimentos de onda e em todas as direções.

Neve fresca e nuvens brilhantes refletem muito; rocha escura e mar aberto, pouco. Vênus, envolto em nuvens brilhantes, tem A=0.77A = 0.77; a Terra, 0.2940.294; Marte, 0.2500.250; a Lua, rocha cinzenta escura, 0.110.11.

Definição 3.7 (Temperatura de equilíbrio)

A temperatura de equilíbrio TeqT_\mathrm{eq} de um planeta é a temperatura uniforme à qual um corpo negro do tamanho do planeta irradiaria para o espaço exatamente a potência que o planeta absorve do Sol.

Proposição 3.8 (Temperatura de equilíbrio)

Um planeta de albedo de Bond AA que recebe a irradiância SS tem

Teq=(S(1−A)4σ)1/4,σ=5.6704×10−8 W m−2 K−4.T_\mathrm{eq} = \left(\frac{S(1 - A)}{4\sigma}\right)^{1/4}, \qquad \sigma = 5.6704 \times 10^{-8}\,\mathrm{W}\,\mathrm{m}^{-2}\,\mathrm{K}^{-4} .

Demonstração. O planeta intercepta a luz solar que incide sobre a sua seção transversal, um disco de área πR2\pi R^2, e absorve a fração 1−A1 - A: absorve S(1−A)πR2S(1 - A)\pi R^2. Um corpo negro (lei de Stefan–Boltzmann, recordada do volume de física do segundo ano) à temperatura uniforme TT irradia σT4\sigma T^4 de cada metro quadrado de toda a sua superfície, 4πR24\pi R^2. Igualando as duas potências, 4πR2σT4=S(1−A)πR24\pi R^2\sigma T^4 = S(1 - A)\pi R^2, e o fator 4 é a razão entre a área da esfera e a sua seção transversal. ∎

Com os valores acima, TeqT_\mathrm{eq} é 255 K255\,\mathrm{K} para a Terra, 227 K227\,\mathrm{K} para Vênus, 210 K210\,\mathrm{K} para Marte e 270 K270\,\mathrm{K} para a Lua. Vênus, embora mais próxima do Sol, sai mais fria que a Terra: suas nuvens refletem três quartos da luz solar. A figura abaixo põe esses valores ao lado das temperaturas médias da superfície medidas. As diferenças são o efeito estufa, que os parágrafos seguintes e os capítulos sobre o clima (Capítulo 27) tornam quantitativo: cerca de 33 K33\,\mathrm{K} para a Terra, cerca de 510 K510\,\mathrm{K} para Vênus, apenas cerca de 4 K4\,\mathrm{K} para Marte.

Temperatura de equilíbrio (calculada a partir da irradiância e do albedo de Bond) e temperatura média medida na superfície de quatro corpos. A atmosfera aquece a Terra e, sobretudo, Vênus; a atmosfera fina de Marte pouco faz; a Lua, sem ar, é em média mais fria que a sua temperatura de equilíbrio.
Temperatura de equilíbrio (calculada a partir da irradiância e do albedo de Bond) e temperatura média medida na superfície de quatro corpos. A atmosfera aquece a Terra e, sobretudo, Vênus; a atmosfera fina de Marte pouco faz; a Lua, sem ar, é em média mais fria que a sua temperatura de equilíbrio.

A temperatura média da Lua, de cerca de 253 K253\,\mathrm{K}, fica abaixo da sua temperatura de equilíbrio. Isso não é um paradoxo: sem atmosfera nem oceano para transportar calor, o lado iluminado é muito quente e o lado noturno muito frio, e, como a emissão cresce com T4T^4, um corpo de temperaturas desiguais irradia a potência absorvida com uma temperatura média menor do que um corpo uniforme (Exercício 3.11).

Uma atmosfera faz duas coisas: deixa passar a maior parte da luz solar e absorve parte do infravermelho que o solo emite, reirradiando uma parte dele para baixo. Quanto ela aquece a superfície depende de quanto gás absorvente há acima de cada metro quadrado. A pressão na superfície mede exatamente isso: p=mgp = mg para uma coluna de massa mm por metro quadrado. A atmosfera de Vênus, a 92 bar92\,\mathrm{bar}, é 96.5 %96.5\,\% de dióxido de carbono; a de Marte, com apenas 6.36 mbar6.36\,\mathrm{mbar} em média, é também 95.1 %95.1\,\% de dióxido de carbono, mas tem cerca de sessenta vezes menos gás acima de cada metro quadrado do que a da Terra, e muito pouco vapor de água. Os dois planetas têm atmosferas de dióxido de carbono; só um deles tem uma atmosfera espessa.

À esquerda: a superfície de Vênus vista através das nuvens pelo radar da sonda Magellan, mapeada sobre um globo simulado por computador (as cores são simuladas). À direita: Marte vista pela sonda Viking 1, um mosaico centrado no sistema de cânions de Valles Marineris. NASA/JPL e NASA/USGS, domínio público.
À esquerda: a superfície de Vênus vista através das nuvens pelo radar da sonda Magellan, mapeada sobre um globo simulado por computador (as cores são simuladas). À direita: Marte vista pela sonda Viking 1, um mosaico centrado no sistema de cânions de Valles Marineris. NASA/JPL e NASA/USGS, domínio público.
À esquerda: a superfície de Vênus vista através das nuvens pelo radar da sonda Magellan, mapeada sobre um globo simulado por computador (as cores são simuladas). À direita: Marte vista pela sonda Viking 1, um mosaico centrado no sistema de cânions de Valles Marineris. NASA/JPL e NASA/USGS, domínio público.

As superfícies guardam o registro do que as moldou. Crateras de impacto se acumulam em qualquer superfície exposta ao espaço; uma superfície muito craterada, como a maior parte da Lua ou de Mercúrio, é antiga, e uma superfície com poucas crateras foi renovada: por fluxos de lava, pela erosão ou pelas placas que levam o assoalho oceânico da Terra de volta ao manto. Planícies vulcânicas e vulcões são encontrados em todos os planetas terrestres. Falhas, riftes e cinturões dobrados mostram que as litosferas de Vênus e de Marte foram deformadas; mas, de todos os planetas, só a Terra mostra hoje uma litosfera partida em placas que se movem como blocos rígidos, com dorsais onde se formam e fossas onde afundam. Por que só a Terra tem tectônica de placas ainda é discutido; a presença de água, que enfraquece as rochas, é uma das razões propostas.

3.4 Luas e pequenos corpos

A Lua, com um quarto do diâmetro da Terra, é grande para um satélite. Sua densidade, 3340 kg m−33340\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-3}, próxima à das rochas do manto terrestre, e seu fator de momento de inércia, próximo de 0.40.4, mostram que ela tem no máximo um pequeno núcleo de ferro. Os planetas gigantes têm sistemas de luas que são mundos em si mesmos (veja as fotografias abaixo). Io, a mais interna das quatro grandes luas de Júpiter, é o mundo mais ativo vulcanicamente do Sistema Solar, com centenas de vulcões, aquecida pelas marés que Júpiter nela provoca; o vulcanismo a renova mais depressa do que os impactos conseguem marcá-la com grandes crateras. Europa, de densidade 3010 kg m−33010\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-3}, é rocha sob uma crosta de gelo, e há forte indício de um oceano salgado sob essa crosta. Ganimedes e Calisto, de densidades 19401940 e 1830 kg m−31830\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-3}, são feitas de rocha e gelo em quantidades comparáveis. Titã, a maior lua de Saturno, é a única lua com uma atmosfera densa, sobretudo de nitrogênio com um pouco de metano, e o único mundo, além da Terra, com rios, lagos e mares na superfície — de metano e etano líquidos; ele também provavelmente esconde um oceano de água.

Duas das grandes luas de Júpiter vistas pela sonda Galileo. À esquerda, Io, com a superfície pontilhada de centros vulcânicos e colorida por compostos de enxofre e lavas. À direita, Europa em cor natural aproximada; as longas linhas escuras são fraturas em sua crosta de gelo. NASA/JPL/University of Arizona e NASA/JPL/DLR, domínio público.
Duas das grandes luas de Júpiter vistas pela sonda Galileo. À esquerda, Io, com a superfície pontilhada de centros vulcânicos e colorida por compostos de enxofre e lavas. À direita, Europa em cor natural aproximada; as longas linhas escuras são fraturas em sua crosta de gelo. NASA/JPL/University of Arizona e NASA/JPL/DLR, domínio público.
Duas das grandes luas de Júpiter vistas pela sonda Galileo. À esquerda, Io, com a superfície pontilhada de centros vulcânicos e colorida por compostos de enxofre e lavas. À direita, Europa em cor natural aproximada; as longas linhas escuras são fraturas em sua crosta de gelo. NASA/JPL/University of Arizona e NASA/JPL/DLR, domínio público.

Definição 3.9 (Asteroide, cometa, objeto transnetuniano)

Um asteroide é um pequeno corpo rochoso ou metálico que orbita o Sol, pequeno demais para ser um planeta e sem o envelope de gás e poeira de um cometa; a maioria orbita entre Marte e Júpiter. Um cometa é um pequeno corpo de gelo e poeira que, quando sua órbita o aproxima do Sol, libera gás e poeira que formam um envoltório luminoso em torno dele e caudas apontando para longe do Sol. Um objeto transnetuniano é um corpo do Sistema Solar cuja órbita fica, em média, além da de Netuno.

Os objetos transnetunianos do Cinturão de Kuiper, uma zona em forma de disco além de Netuno, são corpos de gelo e rocha restos da formação dos planetas; Plutão, classificado como planeta anão desde 2006, é um deles. Os asteroides são os destroços de uma região onde nenhum planeta se formou. Fragmentos de asteroides, e alguns da Lua e de Marte, caem sobre a Terra como meteoritos. São as únicas amostras de outros mundos em nossas mãos, além das trazidas por sondas, e alguns deles mudaram pouco desde a formação do Sistema Solar; suas classes, e o que dizem sobre a composição da Terra e a idade do Sistema Solar, são o assunto do Livro 4.

3.5 Exercícios

Exercício 3.1 ★

Júpiter tem massa de 1898.13×1024 kg1898.13 \times 10^{24}\,\mathrm{kg} e raio médio de 69 911 km69\,911\,\mathrm{km}. Calcule sua densidade média e compare-a com a da água, 1000 kg m−31000\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-3}.

Solução

Solução de Exercício 3.1.

V=43π(6.9911×107 m)3=1.4313×1024 m3V = \tfrac43\pi(6.9911 \times 10^{7}\,\mathrm{m})^3 = 1.4313 \times 10^{24}\,\mathrm{m}^{3} e ρˉ=1898.13×1024/1.4313×1024=1326 kg m−3\bar\rho = 1898.13 \times 10^{24}/1.4313 \times 10^{24} = 1326\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-3}, apenas 1.33 vezes a densidade da água, embora Júpiter tenha massa 318 vezes maior que a da Terra: ela é feita sobretudo dos elementos mais leves.

Exercício 3.2 ★

Usando a figura das densidades e dos raios, classifique Mercúrio, Saturno, Urano e Vênus como planetas terrestres, gigantes gasosos ou gigantes de gelo, e justifique cada escolha pelo seu raio e pela sua densidade.

Solução

Solução de Exercício 3.2.

Mercúrio (raio 2440 km2440\,\mathrm{km}, 5429 kg m−35429\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-3}) e Vênus (6052 km6052\,\mathrm{km}, 5243 kg m−35243\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-3}) são pequenos e mais densos que a rocha: planetas terrestres, de rocha e ferro. Saturno (60 268 km60\,268\,\mathrm{km}, 687 kg m−3687\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-3}) é enorme e mais leve que a água: um gigante gasoso, sobretudo de hidrogênio e hélio. Urano (25 559 km25\,559\,\mathrm{km}, 1270 kg m−31270\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-3}) é um gigante, mas muito menor que Saturno e quase duas vezes mais denso: um gigante de gelo, cujos gelos de água, metano e amônia são mais pesados que o hidrogênio.

Exercício 3.3 ★

Vênus recebe 2601.3 W m−22601.3\,\mathrm{W}\,\mathrm{m}^{-2} e tem albedo de Bond de 0.77. Calcule sua temperatura de equilíbrio. Por que ela é mais baixa que a da Terra, embora Vênus esteja mais perto do Sol?

Solução

Solução de Exercício 3.3.

Teq=(2601.3×0.23/(4×5.6704×10−8))1/4=(2.638×109)1/4=226.6 KT_\mathrm{eq} = (2601.3\times0.23/(4\times5.6704 \times 10^{-8}))^{1/4} = (2.638 \times 10^{9})^{1/4} = 226.6\,\mathrm{K}. Vênus recebe 1.9 vezes mais luz solar que a Terra, mas as suas nuvens refletem 77 %77\,\% dela: absorve apenas 2601.3×0.23=598 W m−22601.3\times0.23 = 598\,\mathrm{W}\,\mathrm{m}^{-2} contra 1361×0.706=961 W m−21361\times0.706 = 961\,\mathrm{W}\,\mathrm{m}^{-2} da Terra.

Exercício 3.4 ★

Ordene a Lua (C=0.394C = 0.394), Marte (0.366), a Terra (0.3308), Júpiter (0.254) e Saturno (0.210) do mais homogêneo ao mais concentrado no centro. Qual seria CC para um planeta cuja massa inteira estivesse concentrada em um ponto no seu centro?

Solução

Solução de Exercício 3.4.

Do mais homogêneo ao mais concentrado: a Lua, Marte, a Terra, Júpiter, Saturno. Uma massa pontual no centro tem I=0I = 0, logo C=0C = 0.

Exercício 3.5 ★★

Titã orbita Saturno a a=1221.87×103 kma = 1221.87 \times 10^{3}\,\mathrm{km} em 15.945 42115.945\,421 dias. Calcule a massa de Saturno e compare-a com o valor tabelado de 568.32×1024 kg568.32 \times 10^{24}\,\mathrm{kg}.

Solução

Solução de Exercício 3.5.

T=15.945421×86400=1 377 684 sT = 15.945421\times86400 = 1\,377\,684\,\mathrm{s}; GM=4π2(1.221 87×109)3/1 377 6842=3.794×1016 m3 s−2GM = 4\pi^2(1.221\,87 \times 10^{9})^3/1\,377\,684^2 = 3.794 \times 10^{16}\,\mathrm{m}^{3}\,\mathrm{s}^{-2}; M=3.794×1016/6.6743×10−11=5.685×1026 kgM = 3.794 \times 10^{16}/6.6743 \times 10^{-11} = 5.685 \times 10^{26}\,\mathrm{kg}, dentro de 0.03 %0.03\,\% de 568.32×1024 kg568.32 \times 10^{24}\,\mathrm{kg}.

Exercício 3.6 ★★

A Terra recebe 1361 W m−21361\,\mathrm{W}\,\mathrm{m}^{-2} a 149.6×106 km149.6 \times 10^{6}\,\mathrm{km} do Sol. Calcule a irradiância em Marte (228.0×106 km228.0 \times 10^{6}\,\mathrm{km}) e em Júpiter (778.5×106 km778.5 \times 10^{6}\,\mathrm{km}), e compare-as com os valores tabelados de 586.2 W m−2586.2\,\mathrm{W}\,\mathrm{m}^{-2} e 50.26 W m−250.26\,\mathrm{W}\,\mathrm{m}^{-2}.

Solução

Solução de Exercício 3.6.

S=1361×(149.6/228.0)2=585.9 W m−2S = 1361\times(149.6/228.0)^2 = 585.9\,\mathrm{W}\,\mathrm{m}^{-2} em Marte e 1361×(149.6/778.5)2=50.26 W m−21361\times(149.6/778.5)^2 = 50.26\,\mathrm{W}\,\mathrm{m}^{-2} em Júpiter, de acordo com as tabelas (a pequena diferença em Marte vem do arredondamento das distâncias médias).

Exercício 3.7 ★★

Mostre que, para um dado albedo, TeqT_\mathrm{eq} varia como d−1/2d^{-1/2}. Calcule TeqT_\mathrm{eq} para Júpiter (S=50.26 W m−2S = 50.26\,\mathrm{W}\,\mathrm{m}^{-2}, A=0.343A = 0.343). Se fosse constatado que Júpiter irradia mais potência do que absorve do Sol, o que isso implicaria sobre o seu interior?

Solução

Solução de Exercício 3.7.

S∝d−2S \propto d^{-2} e Teq∝S1/4T_\mathrm{eq} \propto S^{1/4}, logo Teq∝d−1/2T_\mathrm{eq} \propto d^{-1/2}. Para Júpiter, Teq=(50.26×0.657/(4×5.6704×10−8))1/4=109.8 KT_\mathrm{eq} = (50.26\times0.657/(4\times 5.6704 \times 10^{-8}))^{1/4} = 109.8\,\mathrm{K}. Um planeta que irradia mais do que absorve deve ter uma fonte interna de calor: Júpiter estaria liberando calor armazenado desde a sua formação, ou produzido à medida que se contrai lentamente.

Exercício 3.8 ★★

Calcule o aquecimento por efeito estufa, Tsurf−TeqT_\mathrm{surf} - T_\mathrm{eq}, de Vênus (737 K737\,\mathrm{K}), da Terra (288 K288\,\mathrm{K}, A=0.294A = 0.294) e de Marte (214 K214\,\mathrm{K}). Exprima cada um como fração de TeqT_\mathrm{eq}.

Solução

Solução de Exercício 3.8.

Vênus: 737−226.6=510 K737 - 226.6 = 510\,\mathrm{K}, 225 %225\,\% de TeqT_\mathrm{eq}. A Terra: Teq=(1361×0.706/(4σ))1/4=255.1 KT_\mathrm{eq} = (1361\times0.706/(4\sigma))^{1/4} = 255.1\,\mathrm{K}, 288−255.1=33 K288 - 255.1 = 33\,\mathrm{K}, 13 %13\,\%. Marte: 214−209.8=4 K214 - 209.8 = 4\,\mathrm{K}, 2 %2\,\%.

Exercício 3.9 ★★

Para uma esfera homogênea, mostre que C=0.4C = 0.4 integrando os momentos de inércia de cascas esféricas finas (uma casca de raio rr e massa dm\mathrm dm tem dI=23r2 dm\mathrm dI = \tfrac23 r^2\,\mathrm dm). Que valor tem uma casca oca de raio RR?

Solução

Solução de Exercício 3.9.

Com dm=4πρr2 dr\mathrm dm = 4\pi\rho r^2\,\mathrm dr: I=∫0R23r2 4πρr2 dr=8π15ρR5I = \int_0^R\tfrac23r^2\,4\pi \rho r^2\,\mathrm dr = \tfrac{8\pi}{15}\rho R^5, e MR2=43πρR5MR^2 = \tfrac43\pi\rho R^5, logo C=815⋅34=25C = \tfrac{8}{15}\cdot\tfrac34 = \tfrac25. Uma casca oca tem toda a sua massa em r=Rr = R: I=23MR2I = \tfrac23MR^2, C=23C = \tfrac23.

Exercício 3.10 ★★★

Mercúrio tem ρˉ=5429 kg m−3\bar\rho = 5429\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-3}, C=0.35C = 0.35 e raio de 2439.7 km2439.7\,\mathrm{km}. Com uma densidade de manto de 3300 kg m−33300\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-3}, use o modelo de duas camadas para encontrar o raio do seu núcleo, a densidade do núcleo e a fração de sua massa no núcleo. O que há de notável em Mercúrio?

Solução

Solução de Exercício 3.10.

52Cρˉ=2.5×0.35×5429=4750.4\tfrac52C\bar\rho = 2.5\times0.35\times5429 = 4750.4; x2=(4750.4−3300)/(5429−3300)=1450.4/2129=0.6812x^2 = (4750.4 - 3300)/(5429 - 3300) = 1450.4/2129 = 0.6812, x=0.8254x = 0.8254, raio do núcleo 0.8254×2439.7=2014 km0.8254\times2439.7 = 2014\,\mathrm{km}. x3=0.5623x^3 = 0.5623 e ρc=3300+2129/0.5623=7086 kg m−3\rho_c = 3300 + 2129/0.5623 = 7086\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-3}. O núcleo contém 0.5623×7086/5429=73 %0.5623\times7086/5429 = 73\,\% da massa. O núcleo de Mercúrio atinge 83 %83\,\% do seu raio, contra 3485/6371=55 %3485/6371 = 55\,\% na Terra: Mercúrio é sobretudo núcleo, com um manto rochoso fino.

Exercício 3.11 ★★★

Modele um corpo sem ar cujo hemisfério diurno está à temperatura uniforme T1T_1 e o noturno a T2T_2, irradiando juntos a potência absorvida. (a) Mostre que, se T14+T24=2Teq4T_1^4 + T_2^4 = 2T_\mathrm{eq}^4, a temperatura média (T1+T2)/2(T_1 + T_2)/2 é no máximo TeqT_\mathrm{eq}, com igualdade apenas quando T1=T2T_1 = T_2. (b) Para a Lua, Teq=270 KT_\mathrm{eq} = 270\,\mathrm{K}; tome T2=100 KT_2 = 100\,\mathrm{K}. Calcule T1T_1 e a temperatura média.

Solução

Solução de Exercício 3.11.

(a) A função t↦t4t\mapsto t^4 é convexa, logo (T1+T22)4≤T14+T242=Teq4\bigl(\tfrac{T_1 + T_2}{2}\bigr)^4 \le \tfrac{T_1^4 + T_2^4}{2} = T_\mathrm{eq}^4, com igualdade apenas se T1=T2T_1 = T_2. (b) T14=2×2704−1004=1.0529×1010T_1^4 = 2\times270^4 - 100^4 = 1.0529 \times 10^{10}, T1=320 KT_1 = 320\,\mathrm{K}, e a temperatura média é (320+100)/2=210 K(320 + 100)/2 = 210\,\mathrm{K}, 60 K60\,\mathrm{K} abaixo de TeqT_\mathrm{eq}.

Exercício 3.12 ★★★

Vênus tem raio de 6051.8 km6051.8\,\mathrm{km}, gravidade na superfície de 8.9 m s−28.9\,\mathrm{m}\,\mathrm{s}^{-2} e pressão superficial de 92 bar92\,\mathrm{bar}. Calcule a massa de sua atmosfera, compare-a com a da atmosfera terrestre, 5.1×1018 kg5.1 \times 10^{18}\,\mathrm{kg}, e com a massa de Vênus, 4.8673×1024 kg4.8673 \times 10^{24}\,\mathrm{kg}. O que a comparação sugere sobre onde está guardado o dióxido de carbono da Terra?

Solução

Solução de Exercício 3.12.

m=4πR2p/g=4π×(6.0518×106)2×9.2×106/8.9=4.602×1014×1.034×106=4.76×1020 kgm = 4\pi R^2p/g = 4\pi\times(6.0518 \times 10^{6})^2\times9.2 \times 10^{6}/8.9 = 4.602 \times 10^{14}\times1.034 \times 10^{6} = 4.76 \times 10^{20}\,\mathrm{kg}: 93 vezes a massa da atmosfera terrestre, e 9.8×10−59.8 \times 10^{-5} da massa de Vênus. A Terra guarda uma quantidade comparável de carbono, não no ar, mas em rochas carbonatadas (calcários) e no oceano, onde a água líquida permitiu armazená-lo.

3.6 Problema: pesando e sondando Marte

Problema 3.1

Problema de fim de semana — a massa de Marte a partir da sua lua, da sua densidade e temperatura, e o tamanho do seu núcleo

Fobos, a maior lua de Marte, orbita a uma distância média de 9378 km9378\,\mathrm{km} do centro de Marte em 0.318 910.318\,91 dias. Marte tem raio médio de 3389.5 km3389.5\,\mathrm{km}, período de rotação de 24.6 h24.6\,\mathrm{h}, fator de momento de inércia C=0.366C = 0.366, albedo de Bond de 0.250 e pressão superficial média de 6.36 mbar6.36\,\mathrm{mbar}; recebe 586.2 W m−2586.2\,\mathrm{W}\,\mathrm{m}^{-2} do Sol, e sua temperatura média na superfície é de cerca de 214 K214\,\mathrm{K}. Fobos tem massa de 1.06×1016 kg1.06 \times 10^{16}\,\mathrm{kg}. Tome G=6.6743×10−11 m3 kg−1 s−2G = 6.6743 \times 10^{-11}\,\mathrm{m}^{3}\,\mathrm{kg}^{-1}\,\mathrm{s}^{-2} e σ=5.6704×10−8 W m−2 K−4\sigma = 5.6704 \times 10^{-8}\,\mathrm{W}\,\mathrm{m}^{-2}\,\mathrm{K}^{-4}.

Parte I — Pesando Marte.

  1. Converta o período de Fobos para segundos.
  2. Calcule GMGM para Marte.
  3. Deduza a massa de Marte.
  4. É correto desprezar a massa de Fobos?
  5. Calcule a velocidade orbital de Fobos.
  6. Compare o período de Fobos com a rotação de Marte. Em que sentido Fobos cruza o céu de Marte?

Parte II — Densidade e gravidade.

  1. Calcule o volume de Marte.
  2. Calcule a sua densidade média, arredondada a 10 kg m−310\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-3}.
  3. Compare-a com a da Terra, 5514 kg m−35514\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-3}. Dê duas razões pelas quais a Terra é mais densa.
  4. Calcule a gravidade na superfície de Marte.
  5. Calcule a velocidade de escape a partir da superfície de Marte.

Parte III — Temperatura e atmosfera.

  1. Calcule a temperatura de equilíbrio de Marte.
  2. Compare-a com a temperatura média da superfície. Qual é a magnitude do aquecimento por efeito estufa?
  3. Calcule a massa da atmosfera acima de cada metro quadrado de Marte e compare-a com a da Terra (p=1014 hPap = 1014\,\mathrm{hPa}, g=9.82 m s−2g = 9.82\,\mathrm{m}\,\mathrm{s}^{-2}).
  4. Calcule a massa total da atmosfera de Marte.
  5. A atmosfera de Marte é de 95 %95\,\% de dióxido de carbono, e no entanto seu aquecimento por efeito estufa é pequeno. Sugira por quê.

Parte IV — O núcleo de Marte.

  1. Qual seria CC se Marte fosse homogêneo? O que o valor medido nos diz?
  2. Escreva a densidade média de um Marte de duas camadas em função do raio relativo do núcleo xx, da densidade do manto ρm\rho_m e da densidade do núcleo ρc\rho_c.
  3. Escreva o seu fator de momento de inércia nos mesmos termos.
  4. Mostre que x2=(52Cρˉ−ρm)/(ρˉ−ρm)x^2 = (\tfrac52C\bar\rho - \rho_m)/(\bar\rho - \rho_m).
  5. Com a densidade média da questão 8 e ρm=3500 kg m−3\rho_m = 3500\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-3}, calcule xx e a densidade do núcleo.
  6. Qual fração da massa de Marte está no núcleo?
  7. Repita a questão 21 com ρm=3450\rho_m = 3450 e 3550 kg m−33550\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-3}. O que você conclui sobre a precisão do modelo?
  8. Dê o raio do núcleo de Marte pelo modelo com ρm=3500 kg m−3\rho_m = 3500\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-3}, e compare-o com o valor da tabela planetária, 1830 km1830\,\mathrm{km}, e com o resultado sísmico recente, 1650 km1650\,\mathrm{km} a 1675 km1675\,\mathrm{km}.
Solução

Solução de Problema 3.1.

1. T=0.31891×86400=27 553.8 sT = 0.31891\times86400 = 27\,553.8\,\mathrm{s}.

2. GM=4π2×(9.378×106)3/27 553.82=4.289×1013 m3 s−2GM = 4\pi^2\times(9.378 \times 10^{6})^3/27\,553.8^2 = 4.289 \times 10^{13}\,\mathrm{m}^{3}\,\mathrm{s}^{-2}.

3. M=4.289×1013/6.6743×10−11=6.426×1023 kgM = 4.289 \times 10^{13}/6.6743 \times 10^{-11} = 6.426 \times 10^{23}\,\mathrm{kg}, dentro de 0.14 %0.14\,\% do valor tabelado 6.4169×1023 kg6.4169 \times 10^{23}\,\mathrm{kg}.

4. 1.06×1016/6.426×1023=1.6×10−81.06 \times 10^{16}/6.426 \times 10^{23} = 1.6 \times 10^{-8}: Fobos é desprezível.

5. v=2πa/T=2π×9.378×106/27553.8=2138 m s−1v = 2\pi a/T = 2\pi\times9.378 \times 10^{6}/27553.8 = 2138\,\mathrm{m}\,\mathrm{s}^{-1}, cerca de 2.1 km s−12.1\,\mathrm{km}\,\mathrm{s}^{-1}.

6. T=7.65 hT = 7.65\,\mathrm{h}, 3.2 vezes menor que a rotação de Marte: Fobos dá a volta mais depressa do que o solo gira sob ele, de modo que ultrapassa a rotação. Visto de Marte, ele nasce a oeste e se põe a leste.

7. V=43π(3.3895×106)3=1.6312×1020 m3V = \tfrac43\pi(3.3895 \times 10^{6})^3 = 1.6312 \times 10^{20}\,\mathrm{m}^{3}.

8. ρˉ=6.426×1023/1.6312×1020=3939\bar\rho = 6.426 \times 10^{23}/1.6312 \times 10^{20} = 3939, isto é, 3940 kg m−33940\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-3}.

9. 3940/5514=0.7153940/5514 = 0.715. A Terra, maior e mais massiva, comprime mais fortemente o seu próprio interior; e o seu núcleo de ferro é uma parcela maior do planeta.

10. g=GM/R2=4.289×1013/(3.3895×106)2=3.73 m s−2g = GM/R^2 = 4.289 \times 10^{13}/(3.3895 \times 10^{6})^2 = 3.73\,\mathrm{m}\,\mathrm{s}^{-2}, 38 %38\,\% da gravidade terrestre.

11. vesc=2GM/R=2×4.289×1013/3.3895×106=5.03 km s−1v_\mathrm{esc} = \sqrt{2GM/R} = \sqrt{2\times4.289 \times 10^{13}/ 3.3895 \times 10^{6}} = 5.03\,\mathrm{km}\,\mathrm{s}^{-1}.

12. Teq=(586.2×0.75/(4×5.6704×10−8))1/4=209.8 KT_\mathrm{eq} = (586.2\times0.75/(4\times5.6704 \times 10^{-8}))^{1/4} = 209.8\,\mathrm{K}.

13. 214−209.8=4 K214 - 209.8 = 4\,\mathrm{K}: um aquecimento por efeito estufa fraco.

14. m=p/g=636/3.733=170 kg m−2m = p/g = 636/3.733 = 170\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-2}; para a Terra, 101400/9.82=10 326 kg m−2101400/9.82 = 10\,326\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-2}, 61 vezes mais.

15. 4πR2×170.4=1.444×1014×170.4=2.46×1016 kg4\pi R^2\times170.4 = 1.444 \times 10^{14}\times170.4 = 2.46 \times 10^{16}\,\mathrm{kg}.

16. Sobre cada metro quadrado há sessenta vezes menos gás do que na Terra, de modo que a absorção no infravermelho, embora feita pelo dióxido de carbono, é fraca; e o ar de Marte contém muito pouco vapor de água, o outro grande absorvedor.

17. Um Marte homogêneo teria C=0.4C = 0.4; o valor medido, 0.366, mostra que a sua densidade cresce em direção ao centro: Marte tem um núcleo denso.

18. ρˉ=ρm+(ρc−ρm)x3\bar\rho = \rho_m + (\rho_c - \rho_m)x^3.

19. C=25[ρm+(ρc−ρm)x5]/ρˉC = \tfrac25[\rho_m + (\rho_c - \rho_m)x^5]/\bar\rho.

20. De 18 e 19, (ρc−ρm)x3=ρˉ−ρm(\rho_c - \rho_m)x^3 = \bar\rho - \rho_m e (ρc−ρm)x5=52Cρˉ−ρm(\rho_c - \rho_m)x^5 = \tfrac52C\bar\rho - \rho_m; dividindo, obtém-se x2x^2.

21. 52Cρˉ=2.5×0.366×3940=3605.1\tfrac52C\bar\rho = 2.5\times0.366\times3940 = 3605.1; x2=(3605.1−3500)/(3940−3500)=105.1/440=0.2389x^2 = (3605.1 - 3500)/(3940 - 3500) = 105.1/440 = 0.2389, x=0.4887x = 0.4887. x3=0.1167x^3 = 0.1167 e ρc=3500+440/0.1167=7269 kg m−3\rho_c = 3500 + 440/0.1167 = 7269\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-3}.

22. x3ρc/ρˉ=0.1167×7269/3940=0.215x^3\rho_c/\bar\rho = 0.1167\times7269/3940 = 0.215, isto é, 21.5 %21.5\,\% da massa.

23. Com ρm=3450\rho_m = 3450: x2=155.1/490=0.3165x^2 = 155.1/490 = 0.3165, x=0.5626x = 0.5626, raio do núcleo 1907 km1907\,\mathrm{km}, ρc=6202 kg m−3\rho_c = 6202\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-3}. Com ρm=3550\rho_m = 3550: x2=55.1/390=0.1413x^2 = 55.1/390 = 0.1413, x=0.3759x = 0.3759, 1274 km1274\,\mathrm{km}, ρc=10 894 kg m−3\rho_c = 10\,894\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-3}. Uma variação de 1.4 %1.4\,\% na densidade presumida do manto desloca o raio do núcleo em várias centenas de quilômetros: a densidade média e CC sozinhos não bastam para fixar com precisão o núcleo de Marte, e por isso sismômetros foram enviados para lá.

24. 0.4887×3389.5=1657 km0.4887\times3389.5 = 1657\,\mathrm{km}: o raio do núcleo de Marte, segundo o modelo, é cerca de 1660 km1660\,\mathrm{km}, dentro da faixa obtida pela sismologia recente, de 1650 km1650\,\mathrm{km} a 1675 km1675\,\mathrm{km}, e bem abaixo dos 1830 km1830\,\mathrm{km} da tabela planetária — um acordo que a questão 23 mostra ser em parte fruto da sorte na escolha de ρm\rho_m.

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