Uma gota de nitrato de prata cai na água da torneira e aparece uma nuvem branca: cloreto de prata, formado a partir dos poucos miligramas de íons cloreto contidos em cada litro. A água que se infiltra no calcário leva embora o carbonato de cálcio e o deposita de novo, uma fração de milímetro por ano, nas estalactites de uma caverna. Um cálculo renal também é um precipitado. Cada um desses casos é um equilíbrio entre um sólido e seus íons em solução, e uma única constante, o produto de solubilidade, diz se o sólido se forma, quanto dele se dissolve e como sua solubilidade varia quando se altera outro íon ou o pH. Com ela, o químico pode separar os íons uns dos outros precipitando-os um de cada vez — a base do tratamento das águas de mina que encerra este capítulo.
O que você já sabe
O volume escolar (anos 6 e 12) mediu a solubilidade em gramas por litro e identificou íons pelos precipitados que eles dão. A constante de equilíbrio, o quociente de reaçãoQ e as atividades (1 para um sólido puro ou para o solvente, c/c∘ para um soluto) foram estabelecidos no Capítulo 7: uma reação avança enquanto Q<K. O método da reação predominante e a escala de pKa vêm do Capítulo 10; c∘=1mol/L não é escrito nos quocientes.
Estalactites e estalagmites em uma caverna calcária. A água rica em dióxido de carbono dissolve o carbonato de cálcio no solo acima; na caverna, ela perde parte de seu dióxido de carbono e o carbonato precipita de novo (Exercício 11.10).
11.1 O produto de solubilidade
Um cristal de cloreto de prata colocado na água cede íons à solução, e a solução devolve alguns ao cristal. Quando as duas velocidades se igualam, a solução está saturada: sua composição não varia mais, embora os íons continuem passando nos dois sentidos (figura abaixo).
Definição 11.1(Produto de solubilidade)
O produto de solubilidadeKs de um sólido iônico MaXb é a constante de equilíbrio de sua dissolução em seus íons,
sendo 1 a atividade do sólido. Como toda constante de equilíbrio, ele só depende da temperatura.
Para o cloreto de prata, AgCl(s)AgX++ClX− e Ks=[AgX+][ClX−]=10−9.75; para o fluoreto de cálcio, CaFX2(s)CaX2++2FX− e Ks=[CaX2+][FX−]2=10−9.84; para o hidróxido de ferro(III), Ks=[FeX3+][OHX−]3=10−38.55. A tabela abaixo reúne os valores usados neste volume. Eles são calculados, como os pKa do Capítulo 10, a partir das energias de Gibbs padrão de formação tabeladas: pKs=ΔrG∘/(RTln10), relação deduzida no volume do 2.º ano.
Um cristal de cloreto de prata em sua solução saturada. Íons deixam a superfície (dissolução) e outros são capturados (precipitação) na mesma velocidade, de modo que [AgX+][ClX−] permanece igual a Ks. Os íons prata são desenhados menores que os íons cloreto, como de fato são.
sólido
pKs
sólido
pKs
AgCl
9.75
Ca(OH)X2
5.33
AgBr
12.27
Mg(OH)X2
11.25
AgI
16.07
Fe(OH)X2
16.31
AgX2CrOX4
11.95
Zn(OH)X2
16.38
BaSOX4
9.97
Fe(OH)X3
38.55
CaCOX3 (calcita)
8.30
Al(OH)X3 (gibbsita)
34.75
CaFX2
9.84
Produtos de solubilidade a 25∘C, calculados a partir das energias de Gibbs padrão de formação dos sólidos e dos íons aquosos. Constantes de formação usadas neste capítulo (Seção 11.5): logβ4=14.45 para Zn(OH)X4X2−, 33.52 para Al(OH)X4X−, e logβ1=11.82 para FeOHX2+.
Proposição 11.2(Condição de precipitação)
Considere uma solução que contém os íons de um sólido MaXb, com quociente de reaçãoQs=[Mm+]a[Xx−]b para a dissolução.
Se Qs<Ks, o sólido não pode estar presente no equilíbrio: a solução não está saturada e todo sólido adicionado se dissolve, completamente se não houver demais.
Se Qs>Ks, o sólido precipita até que Qs=Ks.
O sólido e a solução só coexistem em equilíbrio quando Qs=Ks.
Demonstração. Pelo Capítulo 7, a dissolução avança enquanto Qs<Ks e recua (precipitação) enquanto Qs>Ks. Enquanto a dissolução avança, Qs aumenta. Se o sólido se esgota antes de Qs atingir Ks, a evolução para sem que reste sólido: uma reação que envolve uma fase condensada pura pode parar antes do equilíbrio, porque a quantidade dessa fase não pode ficar negativa. Se Qs>Ks, a precipitação diminui as duas concentrações iônicas e Qs diminui até igualar Ks, o que sempre é possível, já que os íons estão presentes. ∎
O último ponto é o que distingue um sólido de uma espécie dissolvida. Uma espécie ácido–base está presente em qualquer pH, por menor que seja sua concentração; um sólido está presente ou ausente. É por isso que seu diagrama será um diagrama de existência, e não de predominância (Seção 11.4).
Exemplo 11.3(Misturar duas soluções)
Misturam-se 10.0mL de nitrato de prata a 2.0×10−4mol/L com 10.0mL de cloreto de sódio a 2.0×10−4mol/L. Logo após a mistura, antes de qualquer reação, [AgX+]=[ClX−]=1.0×10−4mol/L e Qs=10−8.0>Ks=10−9.75: o cloreto de prata precipita. Com as duas soluções a 2.0×10−6mol/L, Qs=10−12.0<Ks e a mistura fica límpida. O nitrato de prata é um teste sensível para os íons cloreto, mas não infinitamente sensível.
No laboratório— O teste do cloreto
No laboratório de ensino, algumas gotas de solução de nitrato de prata são adicionadas à amostra, previamente acidificada com ácido nítrico diluído. O ácido transforma os íons carbonato e hidróxido em dióxido de carbono e água, que de outro modo também precipitariam com os íons prata. Um precipitado branco que escurece à luz é cloreto de prata; o brometo dá um precipitado creme e o iodeto, um amarelo (fotografia abaixo). O nitrato de prata mancha a pele de preto: usam-se luvas e óculos.
Precipitados de cloreto de prata (branco), brometo de prata (creme) e iodeto de prata (amarelo-claro). Fotografia de Rrausch1974, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons.
11.2 Solubilidade
Definição 11.4(Solubilidade)
A solubilidades de um sólido em uma dada solução é a quantidade de sólido que se dissolve em um litro dessa solução até a saturação (em mol/L); multiplicada pela massa molar, é a solubilidade mássica, em g/L. Ela depende da temperatura e da composição da solução.
Proposição 11.5(Solubilidade a partir do produto de solubilidade)
Em água pura, se os íons não participam de nenhuma outra reação,
Demonstração. Quando s mol de sólido se dissolvem por litro, [Mm+]=as e [Xx−]=bs, logo, na saturação, Ks=(as)a(bs)b=aabbsa+b. Para MX, a=b=1; para MXX2, 1122=4, e o mesmo para MX2X. ∎
Exemplo 11.6(Cloreto de prata e cromato de prata)
Cloreto de prata: s=10−9.75/2=1.3×10−5mol/L, ou seja, 1.9mg/L com M=143.4g/mol. Cromato de prata AgX2CrOX4 (pKs=11.95): s=(10−11.95/4)1/3=6.6×10−5mol/L. O cromato tem o menor Ks e, no entanto, é cinco vezes mais solúvel. Os produtos de solubilidade só podem ser comparados diretamente entre sólidos de mesmo tipo de fórmula.
Observação 11.7
As fórmulas supõem que os íons estão livres. Em água pura, o íon cromato é uma base fraca e o íon prata não é complexado por nada, de modo que o resultado para o cromato de prata é quase correto; para um carbonato, um sulfeto ou um hidróxido, as propriedades básicas do ânion importam e é preciso a seção seguinte. Em força iônica elevada, as atividades também se afastam das concentrações, correção deixada para o volume do 2.º ano.
11.3 Efeitos do íon comum e do pH
Definição 11.8(Efeito do íon comum)
O efeito do íon comum é a diminuição da solubilidade de um sólido em uma solução que já contém um de seus íons.
Proposição 11.9(Solubilidade com um íon comum)
Seja MX que se dissolve em uma solução em que já se tem [X−]=c, com c≫Ks. Então s≈Ks/c, muito menor que em água pura. Para MXX2 em uma solução que contém MX2+ a c, s≈21Ks/c.
Demonstração. Na saturação, [M+]=s e [X−]=c+s, logo s(c+s)=Ks. Se s≪c, s=Ks/c; a suposição se verifica, pois Ks/c≪c quando c2≫Ks. Para MXX2, [XX−]=2s e [M2+]=c+s≈c, logo c(2s)2=Ks. ∎
Cloreto de prata em cloreto de sódio a 0.10mol/L: s=10−9.75/0.10=1.8×10−9mol/L, sete mil vezes menos que em água. É por isso que um precipitado é lavado com uma solução diluída de um íon comum, e não com água pura: ele perde menos de si mesmo.
Quando o ânion do sólido é uma base, o ácido o retira do equilíbrio de dissolução e a solubilidade aumenta. Para o carbonato de cálcio em meio ácido,
uma reação favorecida: o vinagre ou o ácido clorídrico dissolvem o calcário, e o dióxido de carbono formado pela reação seguinte do HCOX3X− produz a efervescência conhecida.
Proposição 11.10(Solubilidade de um hidróxido em função do pH)
Em uma solução tamponada em um dado pH, a concentração de MXn+ em equilíbrio com o hidróxido M(OH)Xn obedece a
log[Mn+]=−pKs+n(pKe−pH),
uma reta de inclinação −n em função do pH. Se o íon não forma nenhum complexo, essa é a solubilidade do hidróxido.
Demonstração.Ks=[Mn+][OHX−]n e [OHX−]=Ke/[HX3OX+], logo log[Mn+]=logKs−nlog[OHX−]=−pKs−n(pH−pKe). ∎
Cada unidade de pH divide a solubilidade do hidróxido de ferro(III) por mil e a do hidróxido de zinco por cem. Os hidróxidos são precipitados, e dissolvidos de novo, variando-se o pH.
Exemplo 11.11(Dissolver o carbonato de cálcio com dióxido de carbono)
A água que contém dióxido de carbono dissolvido dissolve a calcita:
sendo a constante obtida somando a dissolução do carbonato, a primeira acidez do dióxido de carbono e o inverso da segunda. Quanto mais dióxido de carbono, mais carbonato de cálcio se dissolve. O ar do solo costuma ser muito mais rico em dióxido de carbono que o ar de uma caverna; a água que atravessou o solo e chega ao teto da caverna perde dióxido de carbono, e a calcita se deposita (Exercício 11.10).
11.4 Domínios de existência e precipitação seletiva
Definição 11.12(Domínio de existência)
Para um sólido e uma dada concentração total c de um de seus íons, o domínio de existência do sólido é o intervalo da variável (pX, pM ou pH) no qual o sólido está presente no equilíbrio. Sua fronteira é o valor em que aparece o primeiro grão de sólido, quando Qs=Ks com o íon ainda na concentração c.
Método 11.13(Traçar um diagrama de existência)
Fixe a concentração total c do íon que não está no eixo (por exemplo, [AgX+]tot=c em um eixo de pCl).
Escreva Ks no início da precipitação, com esse íon ainda em c, e resolva em relação à variável do eixo.
O sólido existe do lado em que o outro íon está concentrado: pCl pequeno (muito cloreto), pAg pequeno ou pH alto, para um hidróxido.
Não marque um domínio para o próprio íon: ele está presente em toda parte, em c fora do domínio do sólido e abaixo de c dentro dele.
Para o cloreto de prata com c=[AgX+]tot=10−2: a precipitação começa quando [ClX−]=Ks/c=10−7.75, de modo que o sólido existe para pCl<7.75. Para o iodeto de prata, a fronteira fica em pI=16.07−2=14.07, como mostra a figura abaixo.
Domínios de existência do cloreto de prata (em um eixo de pCl, em cima) e do iodeto de prata (em um eixo de pI, embaixo) para uma concentração total de prata de 1.0×10−2mol/L. O iodeto precipita a prata em concentrações um milhão de vezes menores que o cloreto.
Método 11.14(Precipitação seletiva)
Para separar dois íons que precipitam com o mesmo reagente:
calcule, para cada íon em sua concentração, a concentração de reagente (ou o pH) em que seu sólido começa a se formar; o menor valor precipita primeiro;
calcule a concentração do primeiro íon que resta em solução quando o segundo começa a precipitar;
a separação é aceitável se essa concentração for uma fração suficientemente pequena da inicial — tipicamente 0.1% — e o reagente é então interrompido entre os dois limiares.
Exemplo 11.15(Iodeto e cloreto)
Uma solução contém íons iodeto e cloreto, ambos a 1.0×10−2mol/L; adiciona-se nitrato de prata gota a gota, sem diluição. O iodeto de prata começa a se formar em [AgX+]=10−16.07+2=10−14.07, o cloreto de prata em 10−9.75+2=10−7.75: o iodeto precipita primeiro. Quando o cloreto de prata aparece, [IX−]=10−16.07/10−7.75=10−8.32=4.8×10−9mol/L, uma fração 5×10−7 do iodeto: a separação é completa.
Os hidróxidos são separados da mesma maneira, com o pH como variável. O gráfico abaixo mostra, para seis íons a 0.010mol/L, o pH em que o hidróxido aparece e o pH em que 99.9% do íon precipitou. O ferro(III) e o alumínio são removidos em água ácida, o zinco e o ferro(II) perto da neutralidade, o magnésio em torno de pH 10 e o cálcio só em água muito básica.
Precipitação dos hidróxidos a partir de soluções a 0.010mol/L de cada íon. A barra escura vai do primeiro grão de hidróxido até o pH em que 99.9% do íon está precipitado (uma unidade de pH de largura para um íon trivalente, uma e meia para um divalente); a barra clara é o resto do domínio de existência do hidróxido. A redissolução anfótera dos hidróxidos de zinco e de alumínio em pH alto (Seção 11.5) não está representada.
11.5 Hidróxidos anfóteros
Adicione hidróxido de sódio gota a gota a uma solução de sulfato de zinco: forma-se um precipitado branco de hidróxido de zinco e depois, com excesso de hidróxido, ele se dissolve de novo. O hidróxido de alumínio faz o mesmo; os hidróxidos de ferro(III) e de magnésio, não.
Definição 11.16(Hidróxido anfótero)
Um hidróxido é um hidróxido anfótero se ele se dissolve tanto em ácido, na forma do cátion, quanto em excesso de base, na forma de um ânion complexo hidroxo:
O ânion complexo Zn(OH)X4X2− (tetra-hidroxozincato) é caracterizado por sua constante de formação β4=[Zn(OH)X4X2−]/([ZnX2+][OHX−]4)=1014.45; os complexos e suas constantes são o assunto do Capítulo 12.
Proposição 11.17(Solubilidade de um hidróxido anfótero)
Se o zinco está em solução apenas como ZnX2+ e Zn(OH)X4X2−, a solubilidade do hidróxido de zinco é
Em logs em função do pH, ela segue uma reta de inclinação −2 em pH baixo e uma reta de inclinação +2 em pH alto. Ela é mínima quando [OHX−]4=Ks/K=1/β4, isto é, em pH=pKe−41logβ4, onde smin=2KsK.
Demonstração. Com a solução saturada, [ZnX2+]=Ks/[OHX−]2 e [Zn(OH)X4X2−]=β4[ZnX2+][OHX−]4=β4Ks[OHX−]2. Com w=[OHX−]2, s(w)=Ks/w+Kw tem derivada −Ks/w2+K, nula em w=Ks/K, onde s=2KsK. Em pH baixo, o primeiro termo predomina e logs=logKs−2log[OHX−] (inclinação −2 em pH); em pH alto, o segundo, logs=logK+2log[OHX−] (inclinação +2). ∎
Com os valores acima, o mínimo fica em pH=14.00−14.45/4=10.39 e smin=2×10−(16.38+1.93)/2=1.4×10−9mol/L (figura abaixo). O mínimo real é muito mais alto: o zinco também forma ZnOHX+, Zn(OH)X3X− e, sobretudo, um Zn(OH)X2(aq) dissolvido e sem carga, cuja concentração em equilíbrio com o sólido não depende do pH. O cálculo completo, com as mesmas tabelas, põe o patamar perto de 10−5.6 mol/L. Um modelo de duas espécies dá as inclinações e a ordem dos limiares; perto do mínimo, todas as espécies contam.
Solubilidade do hidróxido de zinco (à esquerda) e do hidróxido de alumínio, a gibbsita (à direita), em função do pH, no modelo de duas espécies (linhas cheias): inclinações −2 e +2 para o zinco, −3 e +1 para o alumínio. Para o zinco, a curva tracejada inclui todas as espécies hidroxo, e o Zn(OH)X2(aq) sem carga impõe um patamar.
Para o alumínio, o hidróxido é Al(OH)X3 e o complexo, Al(OH)X4X−, de modo que Al(OH)X3(s)+OHX−Al(OH)X4X− com K=β4Ks=1033.52−34.75=10−1.23 e inclinações −3 e +1. A diferença entre o alumínio e o ferro(III) — um anfótero, o outro não — é usada na indústria para separá-los: o hidróxido de sódio quente dissolve o alumínio da bauxita e deixa para trás os óxidos de ferro (Exercício 11.12).
11.6 Exercícios
Exercício 11.1★
Escreva a equação de dissolução e a expressão de Ks para BaSOX4, CaFX2, AgX2CrOX4 e Fe(OH)X3. Dê Ks em potências de dez a partir da tabela da Seção 11.1, e o pKs de um sólido de Ks=2.0×10−13.
Calcule a solubilidade do brometo de prata em água pura, em mol/L e em mg/L (M=187.8g/mol).
Solução
Solução de Exercício 11.2.
s=Ks=10−12.27/2=7.3×10−7mol/L, ou seja, 7.3×10−7×187.8=1.4×10−4g/L=0.14mg/L.
Exercício 11.3★
Misturam-se 50mL de cloreto de bário a 2.0×10−3mol/L com 50mL de sulfato de sódio a 2.0×10−4mol/L. O sulfato de bário precipita? Mesma pergunta com o sulfato de sódio a 2.0×10−7mol/L.
Solução
Solução de Exercício 11.3.
Após a mistura (volume dobrado), [BaX2+]=1.0×10−3mol/L e [SOX4X2−]=1.0×10−4mol/L: Qs=1.0×10−7>Ks=1.1×10−10, o sulfato de bário precipita. No segundo caso, [SOX4X2−]=1.0×10−7 e Qs=1.0×10−10<Ks: não há precipitado, mas por pouco.
Exercício 11.4★
Calcule a solubilidade do sulfato de bário em água pura e, depois, em uma solução de sulfato de sódio a 0.010mol/L. Por que fator ela variou?
Solução
Solução de Exercício 11.4.
Em água, s=10−9.97/2=1.0×10−5mol/L. Em sulfato a 0.010mol/L (Proposição 11.9), s=10−9.97/0.010=1.1×10−8mol/L, cerca de mil vezes menos (fator 970).
Exercício 11.5★★
Calcule a solubilidade do fluoreto de cálcio em água pura (mol/L e mg/L, M=78.1g/mol) e, depois, em uma solução de cloreto de cálcio a 0.10mol/L. Verifique a aproximação feita.
Solução
Solução de Exercício 11.5.
Em água, s=(10−9.84/4)1/3=3.3×10−4mol/L, ou 26mg/L. Em cloreto de cálcio a 0.10mol/L, [CaX2+]≈0.10 e [FX−]=2s, logo s=2110−9.84/0.10=1.9×10−5mol/L. A aproximação s≪0.10 vale com folga de quatro ordens de grandeza.
Exercício 11.6★★
Uma solução contém íons magnésio a 0.050mol/L. Em que pH o hidróxido de magnésio começa a precipitar? Em que pH 99% do magnésio está precipitado? Desenhe o domínio de existência de Mg(OH)X2 em um eixo de pH.
Solução
Solução de Exercício 11.6.
Início: pH=14.00−21(11.25+log0.050)=14.00−4.97=9.03. A 99%, [MgX2+]=5.0×10−4 e pH=14.00−21(11.25−3.30)=10.03. Em um eixo de pH, Mg(OH)X2 existe acima de 9.03; abaixo disso, o magnésio está todo como MgX2+ a 0.050mol/L.
Exercício 11.7★★
Uma solução contém íons brometo e cloreto, ambos a 1.0×10−2mol/L. Adiciona-se nitrato de prata sem diluição. Que precipitado aparece primeiro? Que fração do primeiro íon ainda está em solução quando o segundo sólido aparece? A separação é aceitável?
Solução
Solução de Exercício 11.7.
O brometo de prata aparece primeiro, em [AgX+]=10−12.27+2=10−10.27, o cloreto de prata em 10−7.75. Quando o cloreto de prata aparece, [BrX−]=10−12.27/10−7.75=10−4.52=3.0×10−5mol/L, 0.30% do brometo. Com o critério usual de 0.1%, a separação não é aceitável: os dois pKs diferem de apenas 2.5.
Exercício 11.8★★
A titulação de Mohr do cloreto pelos íons prata usa íons cromato como indicador: o cromato de prata, vermelho, só deve aparecer quando quase todo o cloreto tiver precipitado. O cloreto está a 0.050mol/L e o cromato a 5.0×10−3mol/L; despreza-se a diluição. Calcule [AgX+] quando o cromato de prata começa a se formar e a fração de cloreto ainda em solução nesse momento.
Solução
Solução de Exercício 11.8.
O cromato de prata se forma quando [AgX+]2×5.0×10−3=10−11.95, [AgX+]=1.5×10−5mol/L. Então [ClX−]=10−9.75/1.5×10−5=1.2×10−5mol/L, uma fração 2.4×10−4 (0.024%) do cloreto: a cor vermelha aparece quando o cloreto está praticamente todo precipitado.
Exercício 11.9★★
Agita-se carbonato de cálcio com uma solução mantida em pH 8.30 por um tampão, em que o hidrogenocarbonato é de longe a principal espécie carbonatada. Mostre que [CaX2+][HCOX3X−]=Ks10pKa2−pH e calcule a solubilidade, supondo que todo o carbonato dissolvido permaneça como HCOX3X− (pKa2=10.33).
Solução
Solução de Exercício 11.9.
[COX3X2−]=[HCOX3X−]Ka2/[HX3OX+]=[HCOX3X−]10pH−pKa2, logo Ks=[CaX2+][HCOX3X−]10pH−pKa2, que é a relação pedida. Com [CaX2+]=[HCOX3X−]=s: s2=10−8.30+10.33−8.30=10−6.27, s=7.3×10−4mol/L (73mg/L de CaCOX3), contra 10−4.15=7.1×10−5mol/L se o íon carbonato não fosse uma base.
Exercício 11.10★★★
Cavernas calcárias. A solubilidade do dióxido de carbono segue COX2(g)COX2(aq) com logKH=−1.47 (KH=[COX2(aq)]/p(COX2), pressão em bar).
Combine KH com a constante do Exemplo 11.11 para obter a constante de CaCOX3(s)+COX2(g)+HX2OCaX2++2HCOX3X−.
Mostre que a solubilidade da calcita é s=(K′p/4)1/3 e calcule-a em uma água que entrou em equilíbrio com o ar do solo, a p(COX2)=0.010bar, e depois com o ar exterior, 4.26×10−4bar. Dê as duas em mg/L de CaCOX3 (M=100.1g/mol).
Explique o crescimento de uma estalactite.
Solução
Solução de Exercício 11.10.
1. Somando COX2(g)COX2(aq): K′=KKH=10−4.34−1.47=10−5.81. 2. [CaX2+]=s e [HCOX3X−]=2s, logo 4s3=K′p. A 0.010bar: s=(10−5.81×0.010/4)1/3=1.6×10−3mol/L, 157mg/L. Com o ar exterior: s=5.5×10−4mol/L, 55mg/L. (Verificação: com o ar do solo, [COX2(aq)]=10−3.47 e pH=6.37+log(3.14×10−3/3.39×10−4)=7.34: o hidrogenocarbonato de fato predomina.) 3. A água saturada em calcita sob a alta pressão de dióxido de carbono do solo chega ao teto da caverna, onde a pressão é menor: ela perde dióxido de carbono, Q>K′, e a calcita precipita onde a gota fica pendurada, anel após anel.
Exercício 11.11★★★
Uma solução de zinco a 1.0×10−2mol/L é levada a pH crescente, estando o zinco presente apenas como ZnX2+ e Zn(OH)X4X2−.
Entre que valores de pH o hidróxido de zinco está presente?
Esboce logs em função do pH e indique as inclinações.
Solução
Solução de Exercício 11.11.
1. Início em pH=14.00−21(16.38−2.00)=6.81. Redissolução completa quando [Zn(OH)X4X2−]=10−2=10−1.93[OHX−]2, [OHX−]=10−0.035, pH=13.97. O hidróxido existe entre pH 6.81 e 13.97. 2. pH=14.00−14.45/4=10.39, smin=2×10−(16.38+1.93)/2=1.4×10−9mol/L (nesse modelo de duas espécies). 3. Reta de inclinação −2 de (6.81,−2) até o mínimo perto de (10.39,−8.9), depois inclinação +2 até (13.97,−2); a curva real é arredondada pelas outras espécies hidroxo (figura da Seção 11.5).
Exercício 11.12★★★
Uma solução contém íons alumínio e ferro(III), cada um a 1.0×10−3mol/L. Adiciona-se hidróxido de sódio em excesso.
Acima de que pH todo o alumínio está dissolvido como Al(OH)X4X−?
Qual é então a concentração de FeX3+? Conclua sobre a separação.
Explique por que a separação falharia com magnésio no lugar do alumínio.
Solução
Solução de Exercício 11.12.
1. Al(OH)X3(s)+OHX−Al(OH)X4X−, K=10−1.23; todo o alumínio está dissolvido quando 10−3⩽K[OHX−], isto é, [OHX−]⩾10−1.77, pH⩾12.23. 2. [FeX3+]=10−38.55/10−3×1.77=10−33.2: o ferro permanece inteiramente como Fe(OH)X3; a filtração separa o ferro (sólido) do alumínio (filtrado). 3. O hidróxido de magnésio não é anfótero: em excesso de hidróxido, ele permanece sólido, junto com o hidróxido de ferro(III), e nada se separa.
11.7 Problema: Tratar o efluente de uma mina
Problema 11.1
Problema de fim de semana — limiares de precipitação de três hidróxidos, o complexo hidroxo do ferro(III), a recuperação do zinco e sua redissolução anfótera, e a janela de pH para remover o ferro(III) sem perder o zinco(II)
A água que escorre de uma antiga mina de metais é ácida (pH 2.0) e contém ferro(III) a 1.0×10−3mol/L, zinco(II) a 5.0×10−3mol/L e magnésio a 2.0×10−2mol/L. A estação de tratamento eleva o pH por etapas para remover o ferro na forma de um lodo de rejeito e depois recuperar o zinco na forma de seu hidróxido, deixando na água o magnésio, inofensivo. Dados a 25∘C: pKs de Fe(OH)X3 38.55, Zn(OH)X2 16.38, Mg(OH)X2 11.25; logβ4(Zn(OH)X4X2−)=14.45; logβ1(FeOHX2+)=11.82; pKe=14.00; massas molares Fe(OH)X3106.8g/mol, Zn(OH)X299.4g/mol.
Parte I — Qual hidróxido primeiro?
Escreva os equilíbrios de dissolução dos três hidróxidos e seus Ks.
Explique por que os três pKs sozinhos não dizem qual hidróxido precipita primeiro.
Mostre que M(OH)Xn começa a precipitar a partir de uma solução de MXn+ a c em pH=pKe−n1(pKs+logc).
Calcule esse pH para o ferro(III).
Calcule-o para o zinco.
Calcule-o para o magnésio.
Dê a ordem de precipitação à medida que o pH sobe. Há algo precipitado no efluente quando ele sai da mina?
Parte II — Remover o ferro: primeira estimativa.
A estação quer retirar da água 99.9% do ferro. Que concentração de ferro dissolvido isso permite?
Desprezando qualquer complexo, em que pH isso é atingido?
Mostre que, no domínio de existência de Fe(OH)X3, log[FeX3+] diminui de 3 por unidade de pH.
Até que pH o zinco permanece inteiramente em solução?
Dê a primeira estimativa da janela de pH em que o ferro é removido enquanto o zinco permanece.
Parte III — O complexo hidroxo do ferro(III).
Escreva a formação de FeOHX2+ a partir de FeX3+ e OHX−, e sua constante.
No pH encontrado na questão 9, calcule [FeOHX2+]/[FeX3+]. A primeira estimativa era segura?
Expresse o ferro dissolvido total [FeX3+]+[FeOHX2+] em equilíbrio com Fe(OH)X3 em função do pH.
Mostre que, onde FeOHX2+ predomina, seu logaritmo diminui de 2 por unidade de pH.
Encontre o pH em que o ferro dissolvido total cai ao valor da questão 8.
Parte IV — Recuperar o zinco.
Depois que o lodo de ferro é filtrado, o pH é elevado de novo. Em que pH 99% do zinco está precipitado? O hidróxido de magnésio se forma nesse pH?
Escreva a reação do hidróxido de zinco com excesso de íons hidróxido e calcule sua constante.
Acima de que pH todo o zinco voltaria à solução? O que isso significa para o operador?
Calcule a massa de lodo de hidróxido de ferro(III) removida por metro cúbico de efluente.
Calcule a massa de hidróxido de zinco recuperada por metro cúbico no pH da questão 19.
Por que o ferro deve ser removido antes do zinco, e não os dois juntos?
Indique a janela de pH, com duas casas decimais, na qual o ferro(III) é removido a 99.9% enquanto o zinco(II) permanece inteiramente em solução.
Solução
Solução de Problema 11.1.
1.Fe(OH)X3(s)FeX3++3OHX−, Ks=[FeX3+][OHX−]3; Zn(OH)X2(s)ZnX2++2OHX−, Ks=[ZnX2+][OHX−]2; Mg(OH)X2(s)MgX2++2OHX−, idem. 2. As constantes não têm a mesma forma (potência 3 ou 2 de [OHX−]) e os três íons estão em concentrações diferentes; só o pH de início de precipitação pode ser comparado. 3. No início, c[OHX−]n=Ks, logo nlog[OHX−]=−pKs−logc e pH=pKe+log[OHX−]=pKe−n1(pKs+logc). 4.14.00−31(38.55−3.00)=2.15. 5.14.00−21(16.38−2.30)=6.96. 6.14.00−21(11.25−1.70)=9.22. 7. Ferro(III) (2.15), depois zinco (6.96), depois magnésio (9.22). Em pH 2.0, Qs=10−3×10−36=10−39<10−38.55 para o ferro, e os outros estão ainda mais longe de precipitar: nada está sólido. 8.1.0×10−6mol/L. 9.14.00−31(38.55−6.00)=3.15. 10.log[FeX3+]=−38.55+3(14.00−pH)=3.45−3pH: inclinação −3. 11. Até o início da precipitação do hidróxido de zinco, pH 6.96. 12. De 3.15 a 6.96. 13.FeX3++OHX−FeOHX2+, β1=[FeOHX2+]/([FeX3+][OHX−])=1011.82. 14. As duas são iguais quando [OHX−]=10−11.82, em pH 2.18: FeX3+ predomina abaixo, FeOHX2+ acima. 15.1011.82+3.15−14.00=100.97=9.3: em pH 3.15, o ferro dissolvido vale 10.3 vezes o FeX3+ livre, 1.0×10−5mol/L: só 99.0% é removido. A primeira estimativa não era segura. 16.[Fe]dissolvido=103.45−3pH(1+10pH−2.18). 17.log[FeOHX2+]=11.82+log[FeX3+]+pH−14.00=1.27−2pH: inclinação −2. 18.1.27−2pH≈−6.00 dá 3.64; incluindo o termo de FeX3+, 103.45−10.92(1+101.46)=1.0×10−6 em pH=3.64. 19.[ZnX2+]=5.0×10−5: 14.00−21(16.38−4.30)=7.96. O hidróxido de magnésio começa em 9.22: não. 20.Zn(OH)X2(s)+2OHX−Zn(OH)X4X2−, K=β4Ks=1014.45−16.38=10−1.93. 21.[OHX−]2=5.0×10−3/10−1.93, pH=13.81. O operador não deve exagerar na base: acima de pH 9.2, o magnésio precipita com o zinco e, bem acima, o zinco volta à solução. 22.1.0×10−3×1000×0.999×106.8=107g por metro cúbico. 23.5.0×10−3×1000×0.99×99.4=492g por metro cúbico. 24. Elevando o pH de uma vez acima de 6.96, os dois hidróxidos precipitam em um único lodo: o zinco se perde no rejeito de ferro, e o rejeito fica contaminado com zinco. Parar entre os limiares remove só o ferro. 25.De pH 3.64 a pH 6.96: abaixo de 3.64, mais de 0.1% do ferro ainda está dissolvido, sobretudo como FeOHX2+; acima de 6.96, forma-se hidróxido de zinco. Desprezar FeOHX2+ teria colocado o limite inferior em 3.15.