Química universitária — 1.º ano · Bachelor Year 1
24Oxidação e redução em química orgânica
Uma garrafa de vinho deixada aberta vira vinagre em poucos dias: bactérias usam o oxigênio do ar para oxidar o etanol a ácido etanoico. Uma cetona e o álcool de que ela provém diferem por dois átomos de hidrogênio — e, contando direito, por dois elétrons. As oxidações e reduções orgânicas não se parecem com as trocas de elétrons entre íons metálicos do Capítulo 13, porque os elétrons viajam com prótons ou com íons hidreto, mas a contabilidade é a mesma. Este capítulo atribui níveis de oxidação ao carbono, usa-os para prever o que cada álcool dá quando oxidado e apresenta os reagentes hidretos que reduzem os compostos carbonílicos, de olho nos grupos que cada reagente deixa intactos.
O que você já sabe
Os números de oxidação, as semiequações e o balanceamento das equações de oxirredução estão no Capítulo 13; as classes de álcoois e de carbonos, no Capítulo 18; os acetais e a proteção dos grupos carbonila, no Capítulo 23; as adições de Grignard, no Capítulo 21.
24.1 Níveis de oxidação do carbono
Definição 24.1 (Nível de oxidação)
O nível de oxidação de um átomo de carbono é seu número de oxidação, obtido pelas regras da Proposição 13.3: cada ligação com um átomo mais eletronegativo (O, N, halogênio) conta , cada ligação com hidrogênio , cada ligação com outro carbono 0 (uma ligação dupla conta duas vezes).
Proposição 24.2 (Números de oxidação do carbono)
O número de oxidação de um carbono é igual a (número de ligações com O, N ou halogênios) menos (número de ligações com H). Dentro de uma mesma família de compostos de mesmo esqueleto carbônico, álcool aldeído ou cetona ácido carboxílico dióxido de carbono é uma série de oxidações de dois elétrons cada.
Demonstração. Rompendo cada ligação e dando os dois elétrons ao parceiro mais eletronegativo: do H (menos eletronegativo que C) o carbono ganha um elétron, carga por C–H; para O, N, halogênios (mais eletronegativos) ele perde um, por ligação; as ligações C–C são divididas igualmente. Passando de ( para um carbono ligado a um único outro carbono) a () e a (), o número sobe 2 a cada etapa: dois elétrons. ∎
Método 24.3 (Balancear uma semiequação orgânica)
- Escreva o oxidante e o redutor orgânicos com o mesmo esqueleto.
- Conte os elétrons pela variação dos números de oxidação dos carbonos que mudam (ou simplesmente: dois por par de H perdido, ou por O ganho).
- Balanceie o oxigênio com água, o hidrogênio com , a carga com os elétrons.
Do etanol ao ácido etanoico: . Com o dicromato acidificado (), três moléculas de etanol para dois íons dicromato: .
24.2 Oxidar os álcoois
Proposição 24.4 (O que os álcoois dão quando oxidados)
Um álcool primário é oxidado ao aldeído e depois (em água, com um oxidante forte) ao ácido carboxílico ; um álcool secundário , à cetona , que resiste a uma oxidação posterior; um álcool terciário não é oxidado sem a ruptura de uma ligação C–C.
Demonstração. A oxidação do álcool remove o hidrogênio do OH e um hidrogênio do carbono carbinólico, formando C=O. Um carbono carbinólico terciário não tem tal hidrogênio. O aldeído ainda leva um H no carbono carbonílico; em água, ele é parcialmente hidratado, , que é oxidado de novo da mesma maneira a . Uma cetona não tem H nesse carbono e para. ∎
Os oxidantes fortes em água — dicromato de potássio ou permanganato acidificados — oxidam os álcoois primários a ácidos. Para parar no aldeído, ele é destilado à medida que se forma (os aldeídos fervem a temperatura mais baixa que os álcoois de que provêm, por não terem ligações de hidrogênio O–H), ou usam-se reagentes mais brandos e anidros, descritos no volume do 2.º ano.
Segurança
24.3 Reduzir os compostos carbonílicos com hidretos
Definição 24.5 (Doador de hidreto)
Um doador de hidreto transfere um átomo de hidrogênio com seu par ligante, , a um carbono eletrofílico. O boro-hidreto de sódio e o hidreto de lítio e alumínio são hidretos metálicos complexos: o hidreto é entregue a partir do íon ou , não como íon livre.
Proposição 24.6 (Alcance dos dois hidretos)
O boro-hidreto de sódio, usado em água ou em álcoois, reduz os aldeídos a álcoois primários e as cetonas a álcoois secundários, e deixa intactos os ésteres, os ácidos carboxílicos, as amidas e as ligações duplas C=C. O hidreto de lítio e alumínio, usado em éter seco, reduz também os ésteres e os ácidos carboxílicos a álcoois primários, e reage violentamente com a água.
Demonstração. A ligação Al–H é mais polarizada que a ligação B–H (o alumínio é menos eletronegativo que o boro), de modo que é um doador de hidreto muito mais forte, capaz de atacar a carbonila menos eletrofílica dos ésteres e dos carboxilatos; a mesma reatividade o faz reagir com qualquer hidrogênio ácido, inclusive o da água. reage só lentamente com a água e os álcoois, e ataca apenas as carbonilas mais eletrofílicas. Uma ligação C=C isolada não é eletrofílica e não é reduzida por nenhum dos dois. ∎
24.4 Seletividade
Definição 24.7 (Reação quimiosseletiva)
Uma reação quimiosseletiva age sobre um grupo funcional de uma molécula na presença de outros que poderiam, com outro reagente, reagir também.
| grupo | (solvente álcool) | (éter seco) |
|---|---|---|
| aldeído | álcool primário | álcool primário |
| cetona | álcool secundário | álcool secundário |
| éster | sem reação | dois álcoois |
| ácido carboxílico | sem reação (sal) | álcool primário |
| alceno | sem reação | sem reação |
| acetal | sem reação | sem reação |
Exemplo 24.8 (Um cetoéster)
O 4-oxopentanoato de etila, , com o boro-hidreto de sódio dá o 4-hidroxipentanoato de etila: só a cetona é reduzida. Com o hidreto de lítio e alumínio, os dois grupos são reduzidos: pentano-1,4-diol (e etanol). Para reduzir só o éster, a cetona precisa antes ser protegida como acetal (Capítulo 23).
No laboratório — Reduzir uma cetona
O boro-hidreto de sódio é adicionado em pequenas porções a uma solução fria da cetona em etanol: a reação é exotérmica, e o hidrogênio borbulha devido à lenta reação do reagente com o solvente. Após a agitação, um ácido diluído destrói o excesso de reagente (mais hidrogênio: nenhuma chama por perto) e o álcool é extraído. O hidreto de lítio e alumínio, ao contrário, só é usado em éter seco sob gás inerte, e seu excesso é destruído com muito cuidado.
24.5 Exercícios
Exercício 24.1 ★
Dê o número de oxidação de cada carbono no etanol, no etanal, no ácido etanoico, na propanona e no ácido metanoico.
Solução
Solução de Exercício 24.1.
Etanol: , . Etanal: , CHO . Ácido etanoico: , COOH . Propanona: (duas vezes), C=O . Ácido metanoico: .
Exercício 24.2 ★
O que o dicromato acidificado dá com o propan-1-ol, o propan-2-ol e o 2-metilpropan-2-ol?
Solução
Solução de Exercício 24.2.
Propan-1-ol: propanal, depois ácido propanoico. Propan-2-ol: propanona. 2-Metilpropan-2-ol: nenhuma reação (a cor alaranjada permanece).
Exercício 24.3 ★
Escreva as semiequações dos pares propanona/propan-2-ol e etanal/etanol em meio ácido.
Solução
Solução de Exercício 24.3.
; .
Exercício 24.4 ★
O que o boro-hidreto de sódio e o hidreto de lítio e alumínio dão com o butanal, a butanona, o butanoato de etila e o ácido butanoico?
Solução
Solução de Exercício 24.4.
: butan-1-ol, butan-2-ol, nenhuma reação, nenhuma reação (o ácido é apenas desprotonado). : butan-1-ol, butan-2-ol, butan-1-ol e etanol, butan-1-ol.
Exercício 24.5 ★★
Balanceie a oxidação do propan-2-ol pelo permanganato em meio ácido (/) e calcule o volume de permanganato a necessário para de álcool ().
Solução
Solução de Exercício 24.5.
. ; permanganato , da solução a .
Exercício 24.6 ★★
Como obter propanal a partir do propan-1-ol sem que ele seja oxidado além disso? Use as temperaturas de ebulição: propan-1-ol , propanal .
Solução
Solução de Exercício 24.6.
Aqueça o álcool com o oxidante em um balão montado para destilação, a uma temperatura entre as duas temperaturas de ebulição: o propanal () destila à medida que se forma e escapa à oxidação posterior; o propan-1-ol () fica no balão.
Exercício 24.7 ★★
Escreva o mecanismo da redução do etanal por em etanol. Que átomo do produto vem do reagente?
Solução
Solução de Exercício 24.7.
Um par B–H de ataca o carbono carbonílico, com o par da C=O indo para o oxigênio; o alcóxido capta um próton do etanol. O hidrogênio no carbono do produto (, um dos dois em C1) vem do reagente; o do oxigênio, do solvente.
Exercício 24.8 ★★
A redução da butan-2-ona com dá um álcool quiral. Ele é opticamente ativo? Por quê?
Solução
Solução de Exercício 24.8.
O butan-2-ol é quiral, mas a cetona plana é atacada igualmente pelas duas faces: uma mistura racêmica, opticamente inativa.
Exercício 24.9 ★★
No teste do bafômetro usado antigamente pela polícia, o dicromato alaranjado ficava verde. Escreva a reação com o etanol e explique a mudança de cor.
Solução
Solução de Exercício 24.9.
: o dicromato alaranjado (cromo VI) se torna cromo(III) verde.
Exercício 24.10 ★★★
Proponha sínteses de: 2-metilbutan-2-ol a partir do etanal e de um reagente de Grignard, seguido de uma oxidação e de uma segunda etapa de Grignard; pentan-3-ol a partir do propanal. Conte as oxidações e as reduções.
Solução
Solução de Exercício 24.10.
2-Metilbutan-2-ol: etanal + dá butan-2-ol (uma adição, sem oxirredução); oxidação a butanona; sobre a butanona, e depois o tratamento. Uma oxidação. Pentan-3-ol: propanal + em uma etapa, sem oxirredução.
Exercício 24.11 ★★★
Reduza apenas o grupo éster do 4-oxopentanoato de metila, . Planeje as três etapas com uma proteção e dê o produto.
Exercício 24.12 ★★★
Mostre que, na oxidação de um álcool primário a ácido, quatro elétrons são trocados, pelos números de oxidação e pela semiequação. Generalize para a oxidação do metano a dióxido de carbono.
Solução
Solução de Exercício 24.12.
: carbono carbinólico em ; : ; quatro elétrons, como em . Do metano () ao dióxido de carbono (): oito elétrons, .
24.6 Problema: do ciclo-hexanol ao ácido adípico
Problema 24.1
Problema de fim de semana — os níveis de oxidação no ciclo-hexanol, na ciclo-hexanona e no ácido adípico, a oxidação nítrica e seus elétrons, uma rota com peróxido de hidrogênio, e a massa de óxido de dinitrogênio liberada por tonelada de ácido adípico
O ácido adípico, ácido hexanodioico , é produzido em grande escala para os náilons, sobretudo pela oxidação do ciclo-hexanol (com a ciclo-hexanona) pelo ácido nítrico, que libera óxido de dinitrogênio , um potente gás de efeito estufa. Massas molares (): 100.0, 98.0, 146.0, 44.0, 63.0, 34.0.
Parte I — Níveis de oxidação.
- Dê o número de oxidação de cada carbono do ciclo-hexanol.
- O mesmo para a ciclo-hexanona.
- O mesmo para o ácido adípico.
- Quais carbonos são oxidados na passagem do ciclo-hexanol ao ácido adípico, e que ligação é rompida?
- Quantos elétrons uma molécula de ciclo-hexanol perde?
- Por que a ciclo-hexanona, uma cetona, é ainda assim oxidada aqui?
Parte II — A rota do ácido nítrico.
- Escreva a semiequação do ciclo-hexanol ao ácido adípico em meio ácido.
- Dê o número de oxidação de N em e em .
- Escreva a semiequação /.
- Combine-as; verifique que se obtém .
- Quantos mols de elétrons são trocados por mol de ácido adípico?
- Calcule a massa de ácido nítrico consumida por tonelada de ácido adípico.
Parte III — Uma rota com peróxido de hidrogênio.
- Escreva a semiequação /.
- Escreva e balanceie a oxidação do ciclo-hexanol pelo peróxido de hidrogênio a ácido adípico.
- Calcule a massa de por tonelada de ácido adípico.
- Qual é o único subproduto? Por que essa rota é chamada de mais verde?
- O peróxido de hidrogênio precisa ser ativado por um catalisador. Usando o Exercício 13.12, explique por que uma oxidação termodinamicamente favorecida ainda pode precisar de um.
- O que o boro-hidreto de sódio faria com a ciclo-hexanona? Escreva a reação.
Parte IV — Massas e o gás de efeito estufa.
- Calcule a quantidade de matéria de ácido adípico em uma tonelada.
- Calcule a quantidade de formada com ela pela rota nítrica.
- Calcule a massa de ciclo-hexanol necessária por tonelada, com de rendimento.
- Indique a massa de liberada por tonelada de ácido adípico pela rota nítrica, em toneladas.
Solução
Solução de Problema 24.1.
1. C1 (que leva o OH): 0; os cinco : . 2. C1 (C=O): ; os cinco : . 3. Os dois carbonos COOH: ; os quatro : . 4. C1 () e seu vizinho C6 (), que se torna o segundo carbono carboxílico; a ligação C1–C6 é rompida. 5. elétrons. 6. O ácido nítrico é forte o bastante para romper a ligação C–C vizinha à carbonila, o que oxidantes mais brandos não fazem. 7. . 8. V e I. 9. . 10. Somando, oito elétrons, e três moléculas de água se cancelam: . 11. 8. 12. de ácido; , de ácido nítrico. 13. . 14. . 15. , . 16. A água: nenhum óxido de nitrogênio. 17. Uma constante de equilíbrio grande nada diz sobre a velocidade; reage lentamente sem catalisador, como na sua própria decomposição. 18. Ele reduz a ciclo-hexanona de volta a ciclo-hexanol: , depois . 19. . 20. de (um por ácido). 21. , . 22. : de por tonelada de ácido adípico.