Química universitária — 1.º ano · Bachelor Year 1
22Álcoois: ativar o grupo OH
Os álcoois estão por toda parte: produzidos às toneladas a partir dos alcenos e da fermentação, fornecidos por toda adição de Grignard do capítulo anterior. No entanto, um álcool não sofre substituição como um haloalcano: o grupo OH teria de sair como íon hidróxido, uma base forte e um péssimo grupo de saída (Capítulo 19). Os químicos têm três respostas. Retirar o próton do OH, e o alcóxido se torna um nucleófilo poderoso. Adicionar um próton, e o grupo de saída passa a ser a água. Ou substituir o hidrogênio por um grupo que faz do oxigênio parte de um excelente grupo de saída, sem tocar no carbono. Este capítulo segue os três caminhos, e as escolhas de mecanismo e de estereoquímica que vêm com eles.
O que você já sabe
SN1, SN2 e sua estereoquímica (Capítulo 19); E1, E2 e a regra de Zaitsev (Capítulo 20); constantes de acidez e o método da reação predominante (Capítulo 10); o efeito dos grupos alquila sobre a acidez dos álcoois (Exercício 18.11).
22.1 Os álcoois como ácidos: os alcóxidos
Definição 22.1 (Alcóxido)
Um alcóxido é a base conjugada de um álcool : metóxido , etóxido , terc-butóxido . Os alcóxidos são bases fortes e bons nucleófilos.
Proposição 22.2 (Acidez dos álcoois)
Os álcoois são ácidos mais fracos que a água, ou quase tão fracos quanto ela: 15.5 (metanol), 15.9 (etanol), 17.1 (propan-2-ol), 19.2 (2-metilpropan-2-ol), contra 14.0 para o par /. O hidróxido, portanto, só os desprotona em parte; uma conversão completa em alcóxido exige uma base mais forte ou um metal alcalino.
Demonstração. A reação tem , entre e : desfavorável. O sódio metálico reduz o próton, , e o íon hidreto do hidreto de sódio o captura de modo irreversível, : o hidrogênio escapa, e a reação é completa qualquer que seja sua constante de equilíbrio. ∎
No laboratório — Hidreto de sódio
O hidreto de sódio é vendido como um pó cinzento disperso em óleo mineral, que o protege da umidade do ar. Ele reage violentamente com a água, liberando hidrogênio inflamável; é pesado rapidamente, adicionado em porções ao álcool seco sob gás inerte, e o borbulhamento do hidrogênio mostra o avanço da desprotonação. O excesso de hidreto é destruído no fim pela adição lenta de um álcool, nunca de água.
22.2 A síntese de Williamson de éteres
Definição 22.3 (Síntese de Williamson de éteres)
A síntese de Williamson de éteres prepara um éter por uma reação SN2 de um alcóxido com um haloalcano (ou um éster sulfonato) .
Método 22.4 (Escolher os dois parceiros)
Um éter pode ser cortado de um lado ou do outro do oxigênio.
- Escreva os dois pares possíveis: com , e com .
- Fique com o par em que o haleto é metílico ou primário: a SN2 precisa de um carbono pouco impedido.
- Rejeite um par com haleto terciário: o alcóxido, uma base forte, provocaria eliminação (E2).
- Com um haleto secundário, espere uma mistura de éter e alceno.
Exemplo 22.5 (Um éter assimétrico)
2-Metoxi-2-metilpropano (éter metil-terc-butílico): o terc-butóxido de sódio com o iodometano o forma de modo limpo; o metóxido de sódio com o brometo terciário, o 2-bromo-2-metilpropano, dá 2-metilpropeno por E2. Volumoso do lado do alcóxido, pequeno do lado do haleto.
22.3 Ativar o grupo OH
Definição 22.6 (Ésteres sulfonatos)
Um éster sulfonato forma-se a partir de um álcool e de um cloreto de sulfonila na presença de uma base (piridina). O tosilato, , vem do cloreto de 4-metilbenzenossulfonila (cloreto de tosila); o mesilato, , do cloreto de metanossulfonila. O ânion sulfonato , base conjugada de um ácido forte e estabilizado por ressonância sobre três oxigênios, é um excelente grupo de saída.
Proposição 22.7 (A configuração na tosilação e na substituição)
A tosilação de um álcool em um carbono estereogênico conserva sua configuração (retenção); uma substituição SN2 posterior do tosilato a inverte. As duas etapas juntas substituem OH por um nucleófilo com inversão.
Demonstração. Na tosilação, as ligações que mudam são O–H e S–Cl: o oxigênio do álcool ataca o enxofre e seu hidrogênio vai para a base. Nenhuma ligação do carbono estereogênico é rompida, de modo que o arranjo em torno dele permanece o mesmo. Na etapa SN2, a ligação C–O se rompe enquanto o nucleófilo se liga pelo lado oposto (Proposição 19.4). ∎
O mesmo objetivo pode ser atingido em meio ácido: o grupo OH, protonado, sai como água, (SN1, E1) ou sob ataque (SN2). O ácido, porém, limita o nucleófilo aos que sobrevivem a ele — íons haleto, água, álcoois — e abre a porta aos carbocátions e às suas reações secundárias.
22.4 Conversão em haloalcanos
Proposição 22.8 (Álcoois e haletos de hidrogênio)
Os álcoois terciários dão o haloalcano com ácido clorídrico concentrado à temperatura ambiente (SN1); os álcoois primários precisam de ácido bromídrico ou iodídrico e de aquecimento (SN2 sobre o álcool protonado); os álcoois secundários reagem com velocidades intermediárias, muitas vezes pelos dois mecanismos.
Demonstração. A protonação transforma OH em . Para um álcool terciário, a água sai facilmente, dando um carbocátion estável capturado pelo haleto (SN1): até o modesto nucleófilo basta. Um carbocátion primário é instável demais; o haleto precisa empurrar a água para fora por trás (SN2), o que exige um bom nucleófilo (, , melhores que em meio prótico, Proposição 18.12) e calor. ∎
Exemplo 22.9 (Um teste de classificação)
Uma mistura de ácido clorídrico concentrado e cloreto de zinco (um ácido de Lewis que ajuda o OH a sair) turva um álcool terciário de imediato — o cloreto insolúvel se separa —, um álcool secundário em alguns minutos, e um álcool primário quase nada à temperatura ambiente: a ordem de estabilidade dos carbocátions tornada visível em um tubo de ensaio.
22.5 Desidratação e formação de éteres em meio ácido
Definição 22.10 (Desidratação de um álcool)
A desidratação de um álcool é a eliminação de água, catalisada por um ácido forte (ácido sulfúrico ou fosfórico) e pelo calor, que dá um alceno: .
Proposição 22.11 (Éter ou alceno)
Um álcool primário aquecido com ácido sulfúrico dá principalmente um éter simétrico a temperatura moderada (uma molécula substituindo outra por SN2) e principalmente um alceno a temperatura mais alta; os álcoois secundários e terciários dão alcenos.
Demonstração. Para um álcool primário, o álcool protonado pode ser atacado no carbono por uma segunda molécula de álcool (SN2, dando após a perda de um próton) ou em um hidrogênio (E2). A eliminação produz mais moléculas do que consome e é favorecida à medida que a temperatura sobe (Proposição 20.10); a substituição domina quando ela é mais baixa. Os álcoois secundários e terciários se ionizam em carbocátions, que perdem um próton mais facilmente do que são capturados por um nucleófilo fraco, tanto mais quanto mais se aquece; a água formada também é removida pela destilação do alceno volátil. ∎
22.6 Exercícios
Exercício 22.1 ★
Escreva as reações do etanol com o sódio, com o hidreto de sódio e com o hidróxido de sódio; calcule a constante da última ( do etanol 15.9).
Solução
Solução de Exercício 22.1.
; ; , : parcial.
Exercício 22.2 ★
Dê os produtos de: metóxido de sódio com 1-bromopropano; etóxido de sódio com iodometano; fenóxido de sódio com bromoetano.
Solução
Solução de Exercício 22.2.
1-Metoxipropano; metoxietano; etoxibenzeno (o fenóxido, base mais fraca que um alcóxido, continua sendo um bom nucleófilo).
Exercício 22.3 ★
Escreva a tosilação do propan-1-ol e a reação do tosilato com o iodeto de sódio. Qual é a vantagem sobre a reação direta do álcool com o iodeto de sódio?
Solução
Solução de Exercício 22.3.
A tosilação em piridina dá ; depois
Diretamente, o iodeto teria de expulsar : nenhuma reação. O tosilato tem um excelente grupo de saída, e as condições não são nem ácidas nem fortemente básicas.
Exercício 22.4 ★
Dê os alcenos formados pela desidratação ácida do butan-2-ol e do 2-metilpentan-2-ol, e o majoritário.
Solução
Solução de Exercício 22.4.
Butan-2-ol: but-1-eno, (Z)- e (E)-but-2-eno; majoritário: (E)-but-2-eno. 2-Metilpentan-2-ol: 2-metilpent-2-eno (majoritário, trissubstituído) e 2-metilpent-1-eno.
Exercício 22.5 ★★
Proponha uma síntese de Williamson do 1-etoxi-2-metilpropano e explique sua escolha de parceiros. Por que a outra escolha daria um alceno?
Solução
Solução de Exercício 22.5.
: 2-metilpropan-1-olato de sódio com bromoetano, ou etóxido de sódio com 1-bromo-2-metilpropano. Os dois haletos são primários, mas o 1-bromo-2-metilpropano é ramificado ao lado do carbono que reage, o que torna a SN2 mais lenta e deixa a base forte eliminar (2-metilpropeno). A primeira escolha é melhor.
Exercício 22.6 ★★
O (R)-octan-2-ol é convertido em seu tosilato e depois tratado com etóxido de sódio em etanol. Dê a configuração do éter. O que se obteria aquecendo o mesmo álcool com ácido sulfúrico?
Solução
Solução de Exercício 22.6.
O tosilato conserva a configuração (R); a SN2 com o etóxido a inverte: (S)-2-etoxioctano (OEt é o primeiro na ordem, como era OTs). Com ácido sulfúrico e calor: eliminação em octenos (principalmente o (E)-oct-2-eno), via um carbocátion secundário, com perda da estereoquímica.
Exercício 22.7 ★★
Escreva o mecanismo da reação do 2-metilpropan-2-ol com ácido clorídrico concentrado e explique por que a reação é rápida à temperatura ambiente.
Solução
Solução de Exercício 22.7.
Protonação do OH; perda de água até o carbocátion terciário (lenta); captura por : 2-cloro-2-metilpropano. Rápida porque o carbocátion terciário é estável e o cloreto, insolúvel no ácido, se separa.
Exercício 22.8 ★★
Escreva o mecanismo da formação do etoxietano a partir do etanol em ácido sulfúrico, e o da eliminação concorrente.
Solução
Solução de Exercício 22.8.
; um segundo etanol ataca o carbono por trás enquanto a água sai (SN2): , que perde um próton: etoxietano. Concorrente: uma base (etanol, ) retira um próton de enquanto a água sai (E2): eteno.
Exercício 22.9 ★★
No teste de classificação deste capítulo, qual álcool, entre o butan-1-ol, o butan-2-ol e o 2-metilpropan-2-ol, turva primeiro? Escreva o produto.
Solução
Solução de Exercício 22.9.
2-Metilpropan-2-ol (terciário), dando 2-cloro-2-metilpropano, insolúvel.
Exercício 22.10 ★★★
O 3,3-dimetilbutan-2-ol, aquecido em meio ácido, dá principalmente o 2,3-dimetilbut-2-eno, cujo esqueleto carbônico difere do do álcool. Proponha um mecanismo com um deslocamento 1,2 de um grupo metila no carbocátion, e justifique esse deslocamento.
Solução
Solução de Exercício 22.10.
A protonação e a perda de água dão um carbocátion secundário vizinho de um carbono quaternário. Um grupo metila desse carbono migra com seu par ligante para o carbono catiônico: a carga positiva fica agora em um carbono terciário, mais estável. A perda de um próton de um carbono vizinho dá o 2,3-dimetilbut-2-eno tetrassubstituído, o alceno mais estável.
Exercício 22.11 ★★★
Planeje uma síntese do (S)-2-metoxibutano a partir do (R)-butan-2-ol, e outra a partir do (S)-butan-2-ol, mantendo em cada uma a configuração sob controle.
Solução
Solução de Exercício 22.11.
A partir do (R)-butan-2-ol: tosilato ((R)), depois metóxido de sódio (SN2, inversão): (S)-2-metoxibutano. A partir do (S)-butan-2-ol: prepare o alcóxido (NaH) e adicione iodometano: a ligação C–O estereogênica não é tocada, e de novo se obtém o (S)-2-metoxibutano.
Exercício 22.12 ★★★
Mostre que o equilíbrio pode ser deslocado para o éter removendo a água continuamente, usando o quociente de reação (Capítulo 7).
Solução
Solução de Exercício 22.12.
. Remover a água à medida que ela se forma mantém e pequenos: e a reação continua formando éter até o álcool ser consumido.
22.7 Problema: dois caminhos para um éter
Problema 22.1
Problema de fim de semana — as duas rotas de Williamson para o éter metil-terc-butílico, um éter de estereoquímica controlada a partir de um álcool opticamente ativo, a desidratação de um álcool terciário e a massa de éter obtida
O 2-metoxi-2-metilpropano (éter metil-terc-butílico, MTBE) foi produzido em grande escala como aditivo de combustível. Massas molares (): 74.0, 88.0, 141.9.
Parte I — O MTBE pela síntese de Williamson.
- Escreva os dois pares de parceiros (alcóxido e haleto) que poderiam dar o MTBE.
- Qual par fracassa? Escreva a reação que ocorre em seu lugar.
- Escreva a reação bem-sucedida e seu mecanismo.
- Como se prepara o terc-butóxido de sódio a partir do 2-metilpropan-2-ol? Por que não com hidróxido de sódio?
- Por que a reação é feita no álcool seco ou em um solvente aprótico?
- O produto é quiral?
Parte II — Um éter opticamente ativo.
- O (R)-butan-2-ol é convertido em seu tosilato. Escreva a reação e dê a configuração do tosilato.
- O tosilato reage com o metóxido de sódio. Escreva o produto e sua configuração.
- Qual configuração do álcool dá o (R)-2-metoxibutano pelo mesmo caminho?
- Outro caminho: o alcóxido do (R)-butan-2-ol com o iodometano. Configuração do produto? Por quê?
- Que reação secundária concorre na questão 8, e por que ela é limitada aqui?
- Por que aquecer o (R)-butan-2-ol com metanol em ácido sulfúrico daria um éter quase racêmico, se é que daria algum?
Parte III — Desidratação de um álcool terciário.
- Escreva o mecanismo da desidratação ácida do 2-metilbutan-2-ol.
- Dê os dois alcenos e preveja o majoritário.
- Por que nenhum éter se forma a partir deste álcool?
- Por que o 2-metilbut-2-eno é destilado à medida que se forma?
- Desenhe o perfil de energia da etapa E1 e indique a etapa determinante da velocidade.
- Um álcool primário poderia ser desidratado pelo mesmo mecanismo?
Parte IV — Massas.
- de 2-metilpropan-2-ol são convertidos no alcóxido. Calcule a quantidade de matéria.
- Que massa de iodometano é necessária para um excesso de ?
- Calcule a massa teórica de MTBE.
- Calcule a massa obtida para um rendimento de .
Solução
Solução de Problema 22.1.
1. Terc-butóxido de sódio com um haleto de metila; metóxido de sódio com um haleto de terc-butila. 2. O segundo: o metóxido, uma base forte, provoca eliminação no haleto terciário, . 3. : o oxigênio do alcóxido ataca o carbono do metila por trás enquanto o iodeto sai (SN2). 4. Com sódio (ou hidreto de sódio): . O hidróxido é uma base fraca demais: . 5. A água protonaria o alcóxido e atacaria o haleto. 6. Não: nenhum centro estereogênico. 7. (R)-butan-2-ol + TsCl (piridina) tosilato de (R)-butan-2-ila: retenção. 8. (S)-2-metoxibutano, por inversão SN2. 9. (S)-butan-2-ol. 10. (R)-2-metoxibutano: a ligação C–O do carbono estereogênico é conservada; só a ligação O–C(metila) se forma. 11. A E2 (o metóxido é uma base forte e o carbono é secundário), que dá butenos; limitada pela base pequena, por um excelente grupo de saída e por uma temperatura moderada. 12. O álcool protonado se ioniza em um carbocátion secundário plano, capturado pelas duas faces pelo metanol: éter racêmico, acompanhado de butenos. 13. Protonação do OH, perda de água (lenta) até o carbocátion terciário, perda de um próton . 14. 2-Metilbut-2-eno (majoritário, trissubstituído) e 2-metilbut-1-eno. 15. Um carbocátion terciário é impedido e perde um próton muito mais facilmente do que outra molécula de álcool consegue atacá-lo. 16. Para remover um produto: com mantido pequeno a reação continua, e o alceno não fica em contato com o ácido. 17. Uma primeira barreira alta (perda de água, determinante) até o carbocátion, depois uma barreira pequena até o alceno. 18. Não: um carbocátion primário é instável demais; os álcoois primários eliminam por E2 sobre o álcool protonado, a temperatura mais alta. 19. . 20. . 21. . 22. de MTBE.