Química universitária — 1.º ano · Bachelor Year 1
13Equilíbrios de oxirredução e a equação de Nernst
Coloque uma lâmina de zinco em uma solução de sulfato de zinco e uma lâmina de cobre em uma solução de sulfato de cobre(II), ligue as duas soluções por um tubo com solução salina e os dois metais por um fio que passa por um diodo emissor de luz: o diodo acende. A reação do zinco com os íons cobre, que em um único béquer apenas aquece a solução, agora impulsiona elétrons através de um fio. Uma pilha é esse arranjo, embalado; um pHmetro e um eletrodo de cloreto são seus primos de medida. Este capítulo torna quantitativa a troca de elétrons: os números de oxidação para contar os elétrons, os potenciais de eletrodo para ordenar os pares e a equação de Nernst para acompanhá-los em função da concentração.
O que você já sabe
O volume escolar (anos 11 e 12) definiu oxidantes e redutores, escreveu semirreações, montou pilhas com dois metais e duas soluções e leu a pilha zinco–cobre como uma bateria. O quociente de reação e a constante de equilíbrio são os do Capítulo 7; as atividades são para os solutos e para os gases, 1 para os sólidos e líquidos puros.
13.1 Números de oxidação e pares
Definição 13.1 (Oxidante, redutor, par redox, semirreação)
Um oxidante é uma espécie capaz de ganhar elétrons; um redutor, uma espécie capaz de cedê-los. Um oxidante Ox e o redutor Red em que ele se transforma formam um par redox Ox/Red, descrito por sua semirreação , balanceada em átomos com e quando necessário e em carga com os elétrons.
Uma reação de oxirredução é a troca de elétrons entre dois pares: o oxidante de um é reduzido enquanto o redutor do outro é oxidado, e os elétrons se cancelam. Para contá-los em uma espécie complicada, atribui-se a cada átomo um número de oxidação.
Definição 13.2 (Número de oxidação)
O número de oxidação de um átomo em uma espécie é a carga que ele teria se todas as ligações fossem rompidas entregando os dois elétrons de ligação ao átomo mais eletronegativo (compartilhados igualmente entre dois átomos idênticos). Ele é escrito em algarismos romanos: ferro(III), no íon permanganato.
Proposição 13.3 (Regras dos números de oxidação)
- Um átomo em uma substância simples tem número de oxidação 0; um íon monoatômico tem a sua carga.
- Os números de oxidação dos átomos de uma espécie somam a sua carga.
- O hidrogênio é I (exceto nos hidretos metálicos, I); o oxigênio é II (exceto nos peróxidos, I, e ligado ao flúor); o flúor é I.
- Em uma semirreação, o número de elétrons é igual à variação do número de oxidação do elemento que muda, vezes o número de seus átomos.
Demonstração. 1 e 2: romper todas as ligações conserva a carga, e entre átomos idênticos nada é transferido. 3: o hidrogênio é menos eletronegativo que todos os não metais aos quais se liga (Capítulo 2) e mais que os metais alcalinos; o oxigênio é mais eletronegativo que todos os elementos, exceto o flúor, e em o par compartilhado é dividido. 4: H e O mantêm seus números, de modo que os únicos átomos cuja carga fictícia muda são os do elemento considerado, e os elétrons aparecem na semirreação exatamente para compensar essa variação de carga. ∎
Método 13.4 (Números de oxidação de uma espécie)
Dê a H, O, F e aos íons seus números usuais; o número do átomo restante decorre da regra 2. Em : , . Em : , . Em , a média é ; a estrutura de Lewis mostra dois tipos de enxofre.
Método 13.5 (Balancear uma semirreação)
- Balanceie o elemento cujo número de oxidação muda.
- Acrescente os elétrons: a variação do número de oxidação vezes o número de átomos.
- Balanceie a carga com (solução ácida) ou (solução básica).
- Balanceie o hidrogênio e o oxigênio com ; verifique o oxigênio por último.
Para o íon permanganato em meio ácido: Mn passa de VII a II, logo 5 elétrons; a carga à esquerda é e à direita , logo ; depois : .
13.2 Pilhas eletroquímicas
Definição 13.6 (Pilha eletroquímica)
Uma pilha eletroquímica é formada por duas meias-pilhas, cada uma constituída por um par e um condutor eletrônico, o eletrodo, ligadas por um condutor iônico, muitas vezes uma ponte salina (um gel ou um tubo com um sal inerte concentrado, como o nitrato de potássio). O eletrodo em que ocorre a oxidação é o ânodo; aquele em que ocorre a redução, o cátodo. A tensão da pilha é a diferença de potencial elétrico entre os dois eletrodos, polo positivo menos polo negativo, medida quando nenhuma corrente circula.
Uma pilha é escrita em uma linha, com o ânodo à esquerda: , barras simples para as interfaces, barra dupla para a ponte salina. Com todas as concentrações a , sua tensão é de . A reação que ocorre quando a pilha fornece corrente, , é a que aconteceria em um único béquer; separar as meias-pilhas obriga os elétrons a passar pelo fio, onde podem realizar trabalho.
13.3 Potenciais de eletrodo
Uma tensão é uma diferença: só se podem medir diferenças entre duas meias-pilhas. Escolhe-se, portanto, de uma vez por todas uma meia-pilha de referência.
Definição 13.7 (Potencial de eletrodo, potencial padrão)
O eletrodo padrão de hidrogênio é um eletrodo de platina em contato com gás hidrogênio a e com uma solução ideal de de atividade 1. O potencial de eletrodo de uma meia-pilha é a tensão da pilha formada com o eletrodo padrão de hidrogênio à esquerda: . Quando todas as espécies do par têm atividade 1, ele é o potencial padrão do par, uma constante a uma dada temperatura.
O eletrodo de hidrogênio é incômodo de usar; os laboratórios medem em relação a uma meia-pilha mais prática, cujo potencial é conhecido.
Definição 13.8 (Eletrodo de referência)
Um eletrodo de referência é uma meia-pilha cujo potencial é fixo e conhecido: o eletrodo de prata–cloreto de prata (um fio de prata recoberto de cloreto de prata em uma solução de cloreto de concentração fixa) ou o eletrodo de calomelano (mercúrio em contato com e uma solução de cloreto).
A tabela abaixo dá os potenciais padrão usados neste volume; a escala vertical da próxima seção mostra os mais comuns.
| par | (V) | par | (V) |
|---|---|---|---|
| / | / | 0.34 | |
| / | / | 0.36 | |
| / | / | 0.52 | |
| / | / | 0.53 | |
| / | / | 0.69 | |
| / | / | 0.77 | |
| / | / | 0.80 | |
| / | / | 0.80 | |
| / | / | 1.08 | |
| / | 0 | / | 1.23 |
| / | 0.02 | / | 1.23 |
| / | 0.16 | / | 1.36 |
| / | 0.22 | / | 1.46 |
| / | 0.27 | / | 1.51 |
| / | 1.63 | ||
| / | 1.76 |
13.4 A equação de Nernst
Teorema 13.9 (Equação de Nernst)
Para um par , com eventualmente outras espécies (, , ) de um lado ou do outro, o potencial de eletrodo é dado pela equação de Nernst
em que cada atividade leva seu número estequiométrico e o fator a .
Demonstração. Admitido neste nível. ∎
A equação de Nernst decorre da relação entre a energia de Gibbs de uma reação e a tensão da pilha, deduzida no volume do 2.º ano.
Exemplo 13.10 (Três pares)
/: (o cobre metálico tem atividade 1). /: . /: ; com concentrações iguais de permanganato e de manganês(II), : o poder oxidante do permanganato diminui quando o pH aumenta.
Uma variação de dez vezes em uma concentração desloca o potencial de volt: algumas dezenas de milivolts. É por isso que uma tensão medida ao milivolt é uma medida precisa de uma concentração, o princípio do eletrodo de pH e do eletrodo de cloreto do problema de fim de semana.
História — Walther Nernst

Walther Nernst (1864–1941), aqui aos vinte e cinco anos, em 1889. A equação desta seção, que liga a tensão de uma pilha às concentrações de seus íons, leva o seu nome, assim como um terceiro princípio da termodinâmica, visto no volume do 2.º ano. (Fotografia: Smithsonian Libraries, domínio público, Wikimedia Commons.)
13.5 Prever reações de oxirredução
Método 13.11 (Prever uma reação de oxirredução)
- Coloque os pares em uma escala vertical de potenciais padrão, os oxidantes à esquerda, os redutores à direita.
- O oxidante mais forte presente (maior ) reage com o redutor mais forte presente (menor ): a seta que desce do oxidante até o redutor e depois sobe até os produtos desenha uma letra grega gama, .
- A reação é favorecida () quando o par do oxidante está acima do par do redutor; na prática, ela é quantitativa quando a diferença ultrapassa cerca de para um elétron trocado.
Proposição 13.12 (Constante de equilíbrio a partir dos potenciais padrão)
Para a reação com troca de elétrons,
Demonstração. No equilíbrio, nenhuma corrente circula em uma pilha construída com os dois pares: os dois eletrodos têm o mesmo potencial, . Escreva a equação de Nernst de cada um com o mesmo : , logo , sendo as atividades as do equilíbrio. ∎
Para a reação de Daniell, : o zinco reduz completamente os íons cobre. Para , . Daí vem o critério do método: com , uma diferença de dá .
Proposição 13.13 (Combinação de potenciais)
Se os pares ( elétrons) e () se combinam em (), então . Os potenciais não se somam; os potenciais ponderados pelos elétrons, sim.
Demonstração. Em uma solução que contém A, B e C em equilíbrio com um único eletrodo, os três pares têm o mesmo potencial . Multiplique a equação de Nernst do primeiro por e a do segundo por e some: a atividade de B se cancela e , que é vezes a equação de Nernst de A/C, com como enunciado. ∎
Cobre: , logo V, como na tabela. Como , o íon cobre(I) se oxida e se reduz a si mesmo, : ele não sobrevive em água (Capítulo 14).
Proposição 13.14 (Eletrodo de segunda espécie)
Um fio de prata recoberto de cloreto de prata em uma solução de cloreto tem o potencial
Demonstração. O fio está em equilíbrio com o da solução: , e o cloreto de prata fixa . Substituindo, . ∎
Numericamente, V, o valor da tabela obtido de maneira independente a partir das energias de Gibbs. Um eletrodo assim mede o cloreto ou, com cloreto fixo, serve de referência.
13.6 Exercícios
Exercício 13.1 ★
Dê o número de oxidação do átomo sublinhado: , , , , , , (média), .
Solução
Solução de Exercício 13.1.
N em : III; em : V. S em : VI. O em : I. Cr em : VI. Cl em : I. Fe em : em média (um ferro(II) e dois ferro(III)). C em : , II.
Exercício 13.2 ★
Balanceie em meio ácido as semirreações de /, /, / e /.
Solução
Solução de Exercício 13.2.
; ; ; .
Exercício 13.3 ★
Escreva a equação de Nernst de /, /, / e /. Calcule o potencial de uma lâmina de zinco em sulfato de zinco a .
Solução
Solução de Exercício 13.3.
; ; ; (pressões em bar). Em sulfato de zinco a : V.
Exercício 13.4 ★
Uma pilha de Daniell contém a e a . Calcule o potencial de cada eletrodo, a tensão da pilha, e diga qual eletrodo é o ânodo.
Solução
Solução de Exercício 13.4.
V, V. Tensão V. O zinco, de potencial mais baixo, é o polo negativo, onde ocorre a oxidação: o ânodo.
Exercício 13.5 ★★
Balanceie em meio ácido, calcule sua constante de equilíbrio e diga se ela pode servir para uma titulação.
Solução
Solução de Exercício 13.5.
, , : quantitativa e rápida, uma titulação clássica (o permanganato é o seu próprio indicador).
Exercício 13.6 ★★
Quais destes metais se dissolvem em um ácido a que não seja ele mesmo oxidante (ácido clorídrico), liberando hidrogênio: Mg, Zn, Fe, Ni, Pb, Cu, Ag? Escreva as reações e calcule para o magnésio e para o ferro.
Solução
Solução de Exercício 13.6.
Reagem os metais cujo fica abaixo de 0: Mg, Zn, Fe, Ni, Pb (o chumbo só lentamente: a diferença é pequena); Cu e Ag não reagem. , ; , .
Exercício 13.7 ★★
As iodometrias usam . Calcule sua constante a partir da tabela. Ela é quantitativa?
Exercício 13.8 ★★
A partir de V e V, calcule . Mostre que os íons ferro(III) reagem com o ferro metálico e calcule a constante.
Exercício 13.9 ★★
Mostre que o potencial do par / sob de oxigênio é , e que o de / sob de hidrogênio é . Qual é a tensão de uma célula a combustível hidrogênio–oxigênio? Ela depende do pH?
Solução
Solução de Exercício 13.9.
: . : . A diferença é de V em qualquer pH: a tensão da célula a combustível não depende do pH.
Exercício 13.10 ★★★
O íon cobre(I). Usando a tabela, mostre que sofre desproporcionamento em água, calcule a constante de e a concentração de que resta em equilíbrio com o cobre metálico e a .
Exercício 13.11 ★★★
Uma pilha () () tem o mesmo par dos dois lados. Calcule sua tensão, identifique seus polos e descreva como as concentrações evoluem enquanto ela fornece corrente. Quando ela para?
Solução
Solução de Exercício 13.11.
V. O polo positivo é a prata na solução concentrada, onde é reduzido; na solução diluída, a prata é oxidada. A solução concentrada se dilui e a diluída se concentra; a tensão cai e chega a zero quando as duas concentrações se igualam.
Exercício 13.12 ★★★
A água oxigenada. Calcule, a partir da tabela, a constante de e explique por que um frasco de água oxigenada é, no entanto, estável por meses. Que par da tabela faz dela um oxidante, e qual faz dela um redutor?
Solução
Solução de Exercício 13.12.
é o oxidante de / (1.76 V) e o redutor de / (0.69 V): ele reage consigo mesmo, , . A reação é favorecida, mas muito lenta sem catalisador (Capítulo 9); frascos limpos e conservação no frio e no escuro a mantêm lenta.
13.7 Problema: O eletrodo que mede o cloreto
Problema 13.1
Problema de fim de semana — números de oxidação do par do cloreto de prata, uma pilha contra o eletrodo de hidrogênio, a medida do cloreto de uma amostra de água e o potencial padrão do eletrodo de prata–cloreto de prata
Um laboratório de análise de água mede o cloreto com um fio de prata recoberto de cloreto de prata, mergulhado na amostra e ligado a um eletrodo de referência. Dados a : V, V, V, , V, .
Parte I — O par.
- Dê o número de oxidação da prata em Ag, e , e o do cloro em e .
- Escreva a semirreação do par /.
- Escreva sua equação de Nernst.
- Explique por que o potencial só depende da concentração de cloreto.
- Qual é o potencial do eletrodo em cloreto a ?
- Calcule-o em cloreto a .
Parte II — Uma pilha contra o eletrodo de hidrogênio.
- Escreva a pilha formada pelo eletrodo padrão de hidrogênio e pelo eletrodo de cloreto de prata em cloreto a .
- Qual eletrodo é o polo positivo?
- Calcule a tensão da pilha.
- Escreva a reação que ocorre quando a pilha fornece corrente.
- Calcule sua constante de equilíbrio.
- Em que sentido os elétrons se movem no fio?
Parte III — Medir o cloreto. A referência é um eletrodo de calomelano em cloreto de potássio a .
- Qual é o potencial da referência?
- Para uma amostra a de cloreto, qual eletrodo é o polo positivo, e qual é a tensão?
- Expresse a tensão (eletrodo de prata menos referência) em função de .
- Uma amostra dá . Calcule sua concentração de cloreto em e em .
- Um erro de em dá que erro relativo na concentração?
- Abaixo de que concentração de cloreto o eletrodo deixa de seguir a equação de Nernst, com seu cloreto de prata se dissolvendo?
Parte IV — De onde vem 0.22 V?
- Escreva a equação de Nernst de /.
- Na presença de cloreto de prata sólido, expresse em função de .
- Deduza o potencial do fio de prata em função de .
- Identifique nessa expressão.
- Calcule-o a partir de e de , e compare com o valor da tabela.
- Dê o potencial padrão do eletrodo de prata–cloreto de prata com duas casas decimais.
Solução
Solução de Problema 13.1.
1. Ag: 0, I, I; Cl: I nos dois. 2. . 3. . 4. Os dois sólidos têm atividade 1; só o íon cloreto está em solução. 5. V. 6. V. 7. () (atividade 1) () . 8. O eletrodo de prata: V . 9. V. 10. . 11. . 12. Da platina (polo negativo, onde é oxidado) para a prata. 13. V. 14. V : o eletrodo de prata é o positivo, V. 15. (volts). 16. , , ou seja, . 17. : cerca de por milivolt. 18. Quando o cloreto da amostra se torna comparável ao que o próprio cloreto de prata libera, ; o eletrodo é usado bem acima disso, a partir de cerca de . 19. . 20. . 21. . 22. (Proposição 13.14). 23. V, de acordo com a tabela (0.22 V), calculada de maneira independente a partir das energias de Gibbs. 24. 0.22 V.