Química universitária — 1.º ano · Bachelor Year 1
25Alcenos e alcinos: adições eletrofílicas
Agite um alceno com água de bromo alaranjada e a cor desaparece em segundos: o mais antigo teste de uma ligação dupla carbono–carbono. Por trás dele há um mecanismo. Os elétrons da ligação dupla, menos presos que os elétrons e expostos acima e abaixo do plano da molécula, atacam um reagente pobre em elétrons; o cátion formado captura em seguida um nucleófilo. As mesmas duas etapas adicionam haletos de hidrogênio, água e halogênios aos alcenos, decidem qual carbono recebe qual parte do reagente e fixam a estereoquímica do produto. Este capítulo as desenvolve, com a regra que um químico do século XIX tirou da observação e o carbocátion que a explica.
O que você já sabe
Os carbocátions, sua estabilidade e as setas curvas (Capítulo 18); o postulado de Hammond (Proposição 9.6); os descritores /, (R)/(S), os compostos meso e as misturas racêmicas (Capítulo 16). O Livro 1 (ano 12) listou as adições aos alcenos sem os seus mecanismos.
25.1 A ligação como nucleófilo
Definição 25.1 (Adição eletrofílica)
Uma adição eletrofílica a uma ligação múltipla é uma adição cuja primeira etapa é o ataque dos elétrons a um eletrófilo E: forma-se um cátion, que captura em seguida um nucleófilo Nu, de modo que E e Nu terminam nos dois carbonos da antiga ligação dupla.
A ligação é a mais fraca das duas ligações de C=C (Capítulo 3), e seus elétrons ficam longe dos núcleos, acima e abaixo do plano: os alcenos são nucleófilos, e reagem com ácidos, halogênios e outros eletrófilos que deixam intactos os alcanos saturados.
25.2 Adição de haletos de hidrogênio: a regra de Markovnikov
Proposição 25.2 (Regra de Markovnikov)
Na adição de HX a um alceno assimétrico, o hidrogênio vai para o carbono da ligação dupla que já leva mais hidrogênios (regra de Markovnikov). Em forma moderna: o eletrófilo se adiciona de modo a dar o carbocátion mais estável.
Demonstração. A transferência de próton é a etapa determinante, endotérmica, e termina em um carbocátion. Pelo postulado de Hammond (Proposição 9.6), seu estado de transição se parece com o carbocátion, de modo que o caminho para o carbocátion mais estável tem a barreira mais baixa e é muito mais rápido. Pôr o próton no carbono com mais hidrogênios deixa a carga no carbono com mais grupos alquila, o cátion mais estável (Proposição 18.8). ∎
Definição 25.3 (Rearranjo de carbocátion)
Um rearranjo de carbocátion é a migração, dentro de um carbocátion, de um átomo de hidrogênio ou de um grupo alquila com seu par ligante para o carbono catiônico vizinho, dando um carbocátion mais estável (um deslocamento 1,2).
Exemplo 25.4 (Um deslocamento de metila)
O 3,3-dimetilbut-1-eno e o cloreto de hidrogênio dão um carbocátion secundário vizinho de um carbono quaternário; um grupo metila migra com seu par, formando um cátion terciário. O produto principal é o 2-cloro-2,3-dimetilbutano, cujo esqueleto difere do do alceno; o 3-cloro-2,2-dimetilbutano é minoritário.
25.3 Adição de água
Definição 25.5 (Hidratação de um alceno)
A hidratação de um alceno é a adição de água, catalisada por um ácido forte, que dá um álcool: o inverso da desidratação do Capítulo 22.
O mecanismo é o de HX com a água como nucleófilo: protonação (Markovnikov), captura do carbocátion pela água, perda de um próton do íon oxônio. O propeno dá propan-2-ol, o 2-metilpropeno dá 2-metilpropan-2-ol. Hidratação e desidratação são o mesmo equilíbrio, ; ácido aquoso diluído e temperatura baixa favorecem o álcool, ácido concentrado, calor e remoção do alceno favorecem o alceno (Capítulo 7).
25.4 Adição de halogênios: íons halônio e adição anti
Definição 25.6 (Íon halônio, adição anti e adição sin)
Na adição de ou , o par ataca um átomo de halogênio enquanto um par não ligante desse átomo se liga ao segundo carbono: forma-se um íon halônio cíclico de três átomos, e o outro halogênio sai como haleto. Uma adição em que os dois novos grupos terminam em faces opostas da antiga ligação dupla é uma adição anti; na mesma face, uma adição sin.
Proposição 25.7 (A adição de halogênio é anti)
A adição de bromo a um alceno é uma adição anti: o (E)-but-2-eno dá o meso-2,3-dibromobutano, e o (Z)-but-2-eno dá a mistura racêmica de (2R,3R)- e (2S,3S)-2,3-dibromobutano.
Demonstração. O íon bromônio faz uma ponte sobre uma face da antiga ligação dupla; o brometo só pode atacar um carbono pela outra face, abrindo o anel como uma SN2 com inversão nesse carbono. Os dois bromos terminam em faces opostas. Para o (E)-but-2-eno, o ataque a qualquer um dos carbonos dá o mesmo produto, em que os dois estereocentros são imagens especulares um do outro: (2R,3S), meso. Para o (Z)-but-2-eno, o ataque a um carbono dá (2R,3R), ao outro (2S,3S), com igual probabilidade: uma mistura racêmica. A prova pelo desenho é o Exercício 25.10. ∎
No laboratório — Água de bromo
O bromo é um líquido denso, volátil, muito tóxico e corrosivo. O teste de insaturação usa água de bromo diluída (ou uma solução comercial de um complexo de bromo) em capela, algumas gotas de cada vez; o desaparecimento da cor alaranjada sinaliza uma adição. Em água, o íon bromônio também é capturado pela água, e uma bromo-hidrina se forma ao lado do dibrometo.
25.5 Alcinos: adições e acetiletos
Os alcinos adicionam HX e duas vezes, cada etapa como para os alcenos (Markovnikov para HX). Sua hidratação, catalisada por ácido e um sal de mercúrio(II), não dá o álcool insaturado esperado, mas uma cetona: um enol se rearranja de imediato no composto carbonílico, um processo estudado no volume do 2.º ano.
Definição 25.8 (Alcino terminal, acetileto)
Um alcino terminal tem sua ligação tripla na extremidade da cadeia. Uma base forte (amideto de sódio) remove seu hidrogênio, dando o íon acetileto , um bom nucleófilo de carbono.
Proposição 25.9 (Acidez dos alcinos terminais)
A ligação C–H de um alcino terminal é muito mais ácida que as dos alcenos e dos alcanos, embora ainda muito menos ácida que a água: os acetiletos são formados com íons amideto, não com hidróxido, e são destruídos pela água.
Demonstração. No íon acetileto, o par não ligante ocupa um orbital com metade de caráter s (carbono sp), mantido mais perto do núcleo que os orbitais dos carbânions sp ou sp: ele é mais estável, e seu ácido conjugado, mais forte. Ele continua sendo uma base muito mais forte que o hidróxido, de modo que a água o protona. ∎
Um acetileto ataca um haloalcano primário por SN2 (uma nova ligação C–C, + ) ou se adiciona a uma carbonila como um reagente de Grignard: outra maneira de construir esqueletos carbônicos.
Método 25.10 (Prever uma adição)
- Identifique o eletrófilo (, ) e o nucleófilo que virá em seguida (, água, o haleto).
- Para : adicione-o ao carbono que dá o carbocátion mais estável (Markovnikov); verifique um possível deslocamento 1,2.
- Para : forme a ponte do íon halônio e abra-o pela face oposta (anti); desenhe os dois ataques possíveis e compare os produtos (meso ou racêmico).
- Com água presente, espere também o álcool (ou a halo-hidrina).
História — Vladimir Markovnikov

Vladimir Markovnikov enunciou sua regra no século XIX, a partir dos produtos que ele e outros observavam, muito antes de existirem carbocátions ou setas curvas: uma regularidade da natureza, registrada antes que pudesse ser explicada. Seu enunciado moderno pela estabilidade dos carbocátions mostra o que um mecanismo acrescenta a uma regra empírica: ele diz quando a regra deve falhar. (Retrato de um obituário publicado em 1905, domínio público, Wikimedia Commons.)
25.6 Exercícios
Exercício 25.1 ★
Dê o produto principal de: propeno + HCl; 2-metilpropeno + HBr; 1-metilciclo-hexeno + HBr; but-2-ino + um equivalente de HCl.
Solução
Solução de Exercício 25.1.
2-Cloropropano; 2-bromo-2-metilpropano; 1-bromo-1-metilciclo-hexano; 2-clorobut-2-eno.
Exercício 25.2 ★
Escreva os produtos do bromo com o eteno, o ciclo-hexeno e o propeno. Dê seus nomes.
Solução
Solução de Exercício 25.2.
1,2-Dibromoetano; trans-1,2-dibromociclo-hexano; 1,2-dibromopropano.
Exercício 25.3 ★
Que álcool a hidratação catalisada por ácido de cada alceno dá: propeno, 2-metilpropeno, metilenociclo-hexano?
Solução
Solução de Exercício 25.3.
Propan-2-ol; 2-metilpropan-2-ol; 1-metilciclo-hexan-1-ol (Markovnikov em cada caso).
Exercício 25.4 ★
Quais destes compostos reagem com o amideto de sódio: propino, but-2-ino, propeno, etanol? Escreva as reações.
Solução
Solução de Exercício 25.4.
Propino (alcino terminal): . Etanol: . O but-2-ino e o propeno não têm hidrogênio ácido o bastante.
Exercício 25.5 ★★
Escreva o mecanismo completo da hidratação do 2-metilpropeno com setas curvas, e explique por que a reação inversa é favorecida em ácido concentrado quente.
Solução
Solução de Exercício 25.5.
O par capta no carbono : cátion terciário ; um par não ligante da água se liga a ele: ; uma molécula de água retira um próton: . Em ácido concentrado quente, a água é escassa e o alceno volátil escapa: a reação inversa, a desidratação, avança.
Exercício 25.6 ★★
Explique com o postulado de Hammond por que o 2-metilpropeno reage com HCl muito mais depressa que o propeno.
Solução
Solução de Exercício 25.6.
A protonação do 2-metilpropeno dá um cátion terciário, a do propeno um secundário. A protonação determinante tem um estado de transição parecido com o cátion (Hammond): o cátion terciário, mais estável, é alcançado por uma barreira mais baixa.
Exercício 25.7 ★★
O bromo reage com o ciclo-hexeno. Mostre que o produto é o trans-1,2-dibromociclo-hexano, e diga se ele é quiral e se o produto é opticamente ativo.
Solução
Solução de Exercício 25.7.
O íon bromônio faz uma ponte sobre uma face do anel; o brometo o abre pela outra face: os dois bromos terminam em trans. O dibrometo trans é quiral (sem plano de simetria), mas o brometo ataca os dois carbonos igualmente: os dois enantiômeros se formam em quantidades iguais, e o produto é racêmico, opticamente inativo.
Exercício 25.8 ★★
Proponha um mecanismo para a adição de HCl ao 3-metilbut-1-eno que dá principalmente o 2-cloro-2-metilbutano.
Solução
Solução de Exercício 25.8.
A protonação de C1 dá o cátion secundário em C2, vizinho do C3 terciário que leva um hidrogênio; esse hidrogênio migra com seu par para C2 (um deslocamento 1,2 de hidreto), deixando um cátion terciário em C3, capturado por : 2-cloro-2-metilbutano.
Exercício 25.9 ★★
Proponha uma síntese do hex-2-ino a partir do propino e de um haloalcano, e do 1-fenilbut-2-in-1-ol a partir do propino e do benzaldeído.
Solução
Solução de Exercício 25.9.
Propino + amideto de sódio: o íon propineto; com o 1-bromopropano (SN2): , hex-2-ino. O propineto com o benzaldeído, depois ácido diluído: , 1-fenilbut-2-in-1-ol.
Exercício 25.10 ★★★
Prove pelo desenho a estereoquímica da adição de bromo aos dois but-2-enos: íon bromônio, ataque anti a cada carbono, representação de Cram dos produtos, descritores. Conte os estereoisômeros formados em cada caso.
Solução
Solução de Exercício 25.10.
(E)-but-2-eno: bromônio em uma face, brometo pela outra em C2 ou em C3; os dois ataques dão o mesmo composto, de descritores (2R,3S): o composto meso, um único estereoisômero. (Z)-but-2-eno: o ataque em C2 dá (2S,3S) (ou sua imagem especular a partir da outra face), o ataque em C3 (2R,3R); quantidades iguais: dois estereoisômeros, uma mistura racêmica.
Exercício 25.11 ★★★
A água de bromo com o propeno dá o 1-bromopropan-2-ol como produto principal. Explique a regioquímica: por que a água ataca o carbono mais substituído do íon bromônio?
Solução
Solução de Exercício 25.11.
No íon bromônio assimétrico, o carbono mais substituído leva mais da carga positiva (sua ligação C–Br é mais longa e mais fraca, como em um cátion quase terciário ou secundário). A água, em grande excesso, ataca esse carbono pela face oposta à ponte: 1-bromopropan-2-ol.
Exercício 25.12 ★★★
Um hidrocarboneto descora a água de bromo e adiciona HBr dando o 2-bromo-2-metilbutano; sua hidratação dá o 2-metilbutan-2-ol. Encontre duas estruturas possíveis e proponha uma maneira de distingui-las.
Solução
Solução de Exercício 25.12.
: um alceno. O 2-metilbut-1-eno e o 2-metilbut-2-eno dão ambos o cátion terciário, logo o 2-bromo-2-metilbutano e o 2-metilbutan-2-ol. Seus espectros de RMN de próton diferem: dois prótons vinílicos (, singletos) para o primeiro, um (, um quarteto) para o segundo.
25.7 Problema: dois butenos e o bromo
Problema 25.1
Problema de fim de semana — os dois but-2-enos, o mecanismo do íon bromônio, os dibrometos meso e racêmico, sua rotação óptica e a massa obtida
Um laboratório tem dois frascos de but-2-eno, um (Z) puro, outro (E) puro, e trata de cada um com bromo em diclorometano. Massas molares (): 56.0, 159.8, 215.8.
Parte I — Os dois alcenos.
- Desenhe o (Z)- e o (E)-but-2-eno e justifique os descritores.
- Eles são estereoisômeros? Enantiômeros ou diastereoisômeros?
- Por que eles não se interconvertem à temperatura ambiente?
- Qual é o mais estável, e por quê?
- Escreva a equação global da adição de bromo.
- Quantos estereocentros tem o 2,3-dibromobutano? Quantos estereoisômeros no máximo, e quantos de fato?
Parte II — O mecanismo.
- Escreva a formação do íon bromônio com setas curvas.
- Por que se forma um íon bromônio em ponte e não um carbocátion aberto?
- Escreva a abertura do íon pelo brometo.
- Por que o brometo ataca pela face oposta à ponte?
- Que tipo de adição resulta?
- Por que o solvente é o diclorometano e não a água?
Parte III — Os produtos.
- A partir do (E)-but-2-eno: desenhe o produto do ataque em C2 e dê os descritores de C2 e C3.
- O mesmo para o ataque em C3. Compare.
- Mostre que o produto é meso.
- A partir do (Z)-but-2-eno: desenhe os dois produtos e seus descritores.
- Em que proporções eles se formam? Dê o nome da mistura.
- A reação é estereoespecífica? Justifique.
Parte IV — Rotação e massa.
- Que rotação óptica o produto do alceno (Z) apresenta?
- Calcule a quantidade de matéria de cada alceno.
- Calcule a massa de dibrometo esperada a partir de cada um com de rendimento.
- Indique o poder rotatório específico do dibrometo obtido a partir do (E)-but-2-eno, e a massa obtida dele.
Solução
Solução de Problema 25.1.
1. Em cada carbono, tem prioridade sobre H: o (Z) tem os dois metilas do mesmo lado, o (E) em lados opostos. 2. Estereoisômeros que não são imagens especulares: diastereoisômeros. 3. A rotação em torno de C=C romperia a ligação , o que custa muito mais energia do que as colisões fornecem à temperatura ambiente. 4. O (E): seus grupos metila não se congestionam. 5. . 6. Dois estereocentros equivalentes: no máximo quatro, de fato três ((2R,3R), (2S,3S) e o meso (2R,3S)). 7. O par ataca um átomo de Br de , o par Br–Br sai como , e um par não ligante do bromo atacado se liga ao segundo carbono: um íon bromônio de três átomos. 8. No íon em ponte, todo átomo tem um octeto; um carbocátion secundário aberto teria um carbono com seis elétrons. 9. Um par não ligante de se liga a um carbono do anel; a ligação C–Br da ponte se rompe, e seu par vai para o bromo da ponte. 10. A ponte ocupa uma face; como na SN2, o nucleófilo entra do lado oposto à ligação que se rompe. 11. Uma adição anti. 12. A água competiria com o brometo pelo íon bromônio e daria uma bromo-hidrina. 13. (2R,3S) (ou (2S,3R), o mesmo composto). 14. O mesmo composto. 15. Em uma conformação com os dois bromos eclipsados, um plano de simetria passa entre C2 e C3; os descritores são opostos. 16. (2R,3R) e (2S,3S). 17. Quantidades iguais: uma mistura racêmica. 18. Sim: os dois alcenos diastereoisoméricos dão produtos diferentes (meso contra racêmico). 19. Nenhuma: os dois enantiômeros se compensam. 20. de cada. 21. de cada. 22. (composto meso), .