Física universitária — 3.º ano · Bachelor Year 3
3Mecânica dos meios contínuos e elasticidade
Encoste o ouvido num longo trilho de aço enquanto um operário distante o golpeia: você ouve duas batidas — uma pelo aço, outra pelo ar, separadas por um segundo ou mais. Rocha, aço, osso e borracha transmitem forças e ondas como um fluido transmite pressão, mas com algo que nenhum fluido tem: resistem a mudanças de forma, e não apenas a mudanças de volume. O volume do segundo ano construiu a mecânica dos fluidos sobre duas ideias, a partícula material e o campo de pressão; este capítulo as estende aos sólidos. O deslocamento de cada partícula torna-se um campo, sua distorção local uma deformação, as forças internas uma tensão, e entre elas está a carteira de identidade do sólido, a lei de Hooke com suas duas constantes elásticas. O proveito vai do cotidiano — por que os cabos se alongam, por que as garrafas estouram, como um trampolim se verga — ao planetário: os terremotos enviam pela Terra exatamente os dois tipos de onda elástica que este capítulo prevê, e seus tempos de chegada foram a primeira sondagem já feita do interior do nosso planeta.
3.1 Deformação: descrever a distorção
Definição 3.1 (Campo de deslocamentos e tensor de deformações)
Quando um sólido se deforma, a partícula inicialmente em vai para : é o campo de deslocamentos. Para pequenas deformações, a distorção local é medida pelo tensor de deformações, o arranjo simétrico
Uma componente diagonal é o alongamento relativo do material ao longo de (adimensional; por exemplo, para um cabo de aço em serviço); uma componente fora da diagonal é a metade do fechamento do ângulo entre as direções materiais e — um cisalhamento. O traço é a variação relativa de volume, a dilatação:
Exemplo 3.2 (Três deformações elementares)
Dilatação uniforme : , variação de volume , sem cisalhamento. Cisalhamento simples : , todas as componentes diagonais nulas — a forma muda, o volume não. Rotação rígida : identicamente — a parte antissimétrica de , descartada pela simetrização, é exatamente a parte que gira sem deformar. A deformação mede apenas a distorção.
3.2 Tensão: descrever as forças internas
Definição 3.3 (Tração e tensor de tensões)
Corte o sólido, em pensamento, ao longo de uma pequena superfície de normal : o material do lado puxa o outro lado com uma força — a tração. Essa força depende linearmente de (Cauchy) e por isso é codificada pelo tensor de tensões :
em pascals. é um puxão (: tração) ou um empurrão (: compressão) através de uma face normal a ; é uma força ao longo de suportada por uma face normal a — uma tensão de cisalhamento. Um fluido em repouso é o caso particular : a pressão empurra igualmente cada face e não cisalha nenhuma, e é por isso que os fluidos escoam — não conseguem suportar cisalhamento estático.
Proposição 3.4 (Equilíbrio e simetria)
Num sólido em equilíbrio sob uma força de volume por unidade de volume (por exemplo, ),
em todo ponto interior; e o tensor de tensões é simétrico, .
Demonstração parcial. Faça o balanço de forças num pequeno cubo de aresta : as trações nas duas faces normais a diferem de por unidade de área, e o mesmo vale para os outros pares; a força de superfície líquida por unidade de volume é , que deve cancelar — a mesma contabilidade que deu na estática dos fluidos do volume do primeiro ano. Simetria: o torque das tensões de cisalhamento em torno do centro do cubo vale em ordem dominante, ao passo que seu momento de inércia escala como ; uma tensão assimétrica faria os cubos pequenos girarem infinitamente rápido. O argumento contínuo completo é admitido. ∎
3.3 A lei de Hooke e as constantes elásticas
Teorema 3.5 (Elasticidade linear isotrópica)
Para pequenas deformações, um sólido isotrópico responde linearmente: a tensão é proporcional à deformação,
com duas constantes do material, os coeficientes de Lamé e ( também se escreve , o módulo de cisalhamento). No ensaio de tração simples — uma barra puxada ao longo de , livre nas laterais — a mesma lei toma a forma do engenheiro
definindo o módulo de Young (rigidez ao alongamento) e o coeficiente de Poisson (contração lateral), com
Este é o “tal a extensão, tal a força” de Hooke (1678), promovido a tensor. Vale até um limite elástico que depende do material.
Demonstração. Admitido neste nível. ∎
Observação 3.6 (Ordens de grandeza)
para o aço, para o alumínio e o vidro de janela, para o granito, para o osso e o concreto, para a madeira na direção das fibras e apenas alguns MPa para a borracha — cinco ordens de grandeza, o intervalo que vai de uma ponte a um elástico. está entre (a cortiça, quase) e (a borracha): significa deformação que preserva o volume, e é típico dos metais. Uma deformação de no aço já significa , próxima da tensão de escoamento das ligas comuns: a elasticidade cotidiana vive abaixo de uma parte em mil.
Exemplo 3.7 (Um cabo de elevador)
Um cabo de aço de e seção sustenta uma cabine de : , , alongamento — e o cabo se comporta como uma mola de constante : a fórmula é como um meio contínuo devolve as molas do volume do primeiro ano.
Proposição 3.8 (Energia elástica)
Um sólido deformado armazena, por unidade de volume, a densidade de energia
a versão tridimensional de .
Demonstração parcial. Em tração simples, levar a tensão de a realiza o trabalho por unidade de volume — a área sob a reta tensão–deformação, exatamente como para uma mola. A forma quadrática geral segue por superposição das componentes; admitida. ∎
Método 3.9 (Resolver problemas de elasticidade linear)
(1) Identifique a geometria e o carregamento; adivinhe quais componentes de tensão são não nulas (uma barra puxada: só ; um fio torcido: cisalhamento; um casco pressurizado: trações tangenciais). (2) Escreva o balanço de forças sobre uma peça bem escolhida — um semicilindro, uma fatia, um cubo. (3) Converta tensão em deformação pela lei de Hooke e deformação em deslocamento por integração. (4) Energias por (ou em cisalhamento). (5) Verifique sempre que a deformação permanece pequena e a tensão abaixo do limite elástico — do contrário, a resposta descreve um sólido que já não existe.
3.4 Ondas elásticas
Proposição 3.10 (Os dois sons de um sólido)
Num sólido elástico ilimitado de densidade , as pequenas perturbações se propagam como dois tipos independentes de onda: as ondas longitudinais (P), em que a matéria oscila ao longo da direção de propagação por compressão e dilatação, com velocidade
e as ondas transversais (S), em que a matéria cisalha de lado, com velocidade
Um fluido tem : não há ondas S — o cisalhamento não pode ser transmitido — e a velocidade P se reduz à velocidade do som do volume do segundo ano. Para (rocha típica), e .
Demonstração parcial. Tome uma perturbação plana . A lei de Newton por unidade de volume é (a equação de equilíbrio com a inércia restituída). Para a componente longitudinal, a lei de Hooke dá (as deformações laterais se anulam numa onda plana, pois a matéria vizinha proíbe o alívio lateral), de modo que : d’Alembert com velocidade . Para a componente transversal, , de onde : velocidade . Que uma perturbação geral se separe nessas duas famílias é admitido. ∎
Exemplo 3.11 (O trilho e o terremoto)
Aço: — uma pancada num trilho a chega pelo aço em e pelo ar () em : duas batidas. Granito (, , ): , . Um terremoto, portanto, se anuncia duas vezes: um solavanco P agudo e, segundos depois, a sacudida S mais lenta e mais forte — e o atraso mede a distância (Problema 3.1). Os sistemas de alerta precoce de terremotos vivem dentro desse atraso: a onda P, e a mensagem de rádio que ela dispara, correm mais que a onda S, que é a que causa o dano.
Observação 3.12 (Cordas, hastes e som recuperados)
As ondas do volume do segundo ano são todas limites deste capítulo. Uma haste fina, livre para afinar lateralmente, transporta ondas de compressão a (mais lentas que : o alívio lateral amolece a resposta); uma corda esticada transporta ondas transversais a , com a tração no papel da rigidez; um fluido guarda apenas — seu módulo de compressibilidade — e a única velocidade do som .
3.5 Exercícios
Exercício 3.1 ★
(a) Verifique as unidades: o que é um pascal em termos de kg, m, s, e qual é a unidade da deformação? (b) Um cabo de aço trabalha a : calcule sua deformação. (c) Um elástico () é esticado ao dobro do comprimento: que “deformação” é essa, e por que o arcabouço deste capítulo não se aplica de fato? (d) Ordene pela densidade de energia elástica armazenada na tensão de trabalho: aço a , borracha a .
Solução
Solução de Exercício 3.1.
(a) ; a deformação é um número puro. (b) . (c) Dobrar o comprimento é : mil vezes além do “pequeno”, e a resposta da borracha ali é fortemente não linear (e de origem diferente, entrópica) — a lei de Hooke apenas abre a curva. (d) : aço, ; borracha, — o material macio armazena mais por unidade de volume à tensão de trabalho, e é por isso que os estilingues são de borracha, não de aço.
Exercício 3.2 ★
Calcule o tensor de deformações de cada campo de deslocamentos e descreva a deformação: (a) ; (b) ; (c) ; (d) — que experimento o realiza?
Exercício 3.3 ★
A base de uma coluna de granito de altura suporta a tensão . (a) Deduza isso da equação de equilíbrio com a gravidade. (b) O granito se esmaga por volta de : qual é a coluna mais alta possível? (c) O Everest tem de altura: comente. (d) Por que uma montanha pode ser um pouco mais alta que uma coluna da sua própria rocha (pense na forma)?
Solução
Solução de Exercício 3.3.
(a) Com apenas e o peso: (tomando a compressão positiva para baixo), na base. (b) . (c) O Everest está no limite de esmagamento da sua própria base — as montanhas da Terra são tão altas quanto a resistência da rocha permite, e não mais. (d) Um cone de altura carrega sua base com apenas (um terço da coluna: a massa cresce com a seção), de modo que uma pilha em forma de montanha pode ficar cerca de três vezes mais alta que uma coluna.
Exercício 3.4 ★
Uma haste de aço (, ) é alongada de . (a) Deformação lateral? (b) Variação relativa de volume? (c) Para que o volume não mudaria em nada, e qual material comum se aproxima disso? (d) Por que é impossível (considere a compressão hidrostática)?
Solução
Solução de Exercício 3.4.
(a) . (b) . (c) : deformação incompressível — a borracha. (d) Para o módulo de compressibilidade seria negativo: comprimir por todos os lados aumentaria o volume, e o material liberaria energia ao colapsar — nenhum sólido estável pode fazer isso.
Exercício 3.5 ★★
Tensão circunferencial. Um cilindro de parede fina (raio , espessura da parede ) contém uma pressão . (a) Fazendo o balanço de forças sobre um semicilindro de comprimento unitário, mostre que a parede suporta a tensão tangencial . (b) Mostre que a tensão longitudinal (balanço sobre uma seção transversal) é : um cilindro é solicitado duas vezes mais ao redor do que ao longo — de que modo racham as salsichas? (c) Um cilindro de mergulho: , , : calcule e compare com uma tensão de escoamento do aço de . (d) Por que os tanques de alta pressão têm extremidades hemisféricas?
Solução
Solução de Exercício 3.5.
(a) Num semicilindro de comprimento unitário, a pressão empurra com (área projetada) e as duas paredes cortadas puxam de volta com : . (b) Numa seção transversal, : — a metade. Uma salsicha racha no comprimento: a tensão circunferencial, maior, rasga a pele ao longo do eixo. (c) : um fator abaixo do escoamento — e é por isso que os cilindros são ensaiados e inspecionados. (d) Uma esfera suporta em todas as direções: extremidades hemisféricas reduzem a tensão à metade e evitam os cantos onde extremidades planas a concentrariam.
Exercício 3.6 ★★
Um bloco de borracha (, ), de base e altura , é colado entre duas placas; a placa de cima é empurrada lateralmente com . (a) Calcule . (b) A tensão e o ângulo de cisalhamento ; o deslocamento lateral da placa de cima. (c) Por que para a borracha (o que é difícil e o que é fácil para um emaranhado de cadeias poliméricas)? (d) Blocos de borracha assim sustentam edifícios inteiros em zonas sísmicas: qual propriedade desse apoio protege o edifício, a rigidez à compressão ou a maciez ao cisalhamento?
Solução
Solução de Exercício 3.6.
(a) . (b) ; ; deslocamento . (c) Uma rede de borracha muda de forma pela mera reorientação de suas cadeias (fácil), mas mudar de volume significa empacotar as cadeias mais perto, tão difícil quanto comprimir um líquido: , e daí . (d) A maciez ao cisalhamento: o apoio deixa o solo tremer horizontalmente por baixo transmitindo pouca força, mas permanece rígido o bastante à compressão para sustentar o peso do edifício.
Exercício 3.7 ★★
Uma corda de escalada, comprimento , seção , módulo efetivo . (a) Sua constante elástica . (b) Um escalador de cai livremente antes que a corda atue: igualando energias, encontre o alongamento máximo da corda (resolva a equação do segundo grau; despreze, numa primeira passagem, a queda que continua durante a frenagem). (c) Deduza a força máxima e a desaceleração máxima em . (d) Por que uma corda que segurou uma queda severa deve ser aposentada (para onde foi a energia, e o que diz a curva tensão–deformação)?
Solução
Solução de Exercício 3.7.
(a) . (b) : , . (c) ; desaceleração — a razão de as cordas serem feitas deliberadamente elásticas. (d) Parte da energia absorvida foi para a ruptura de fibras e rearranjos plásticos: a corda passa a viver sobre uma curva tensão–deformação degradada, mais rígida e mais fraca, e a próxima queda seria pior nos dois sentidos.
Exercício 3.8 ★★
Torção. Um fio de raio , comprimento e módulo de cisalhamento é torcido de um ângulo . (a) Mostre que um tubo de raio em seu interior sofre o ângulo de cisalhamento . (b) Sua tensão de cisalhamento vale : integre tensão sobre a seção para obter o torque restaurador . (c) O : reduza o raio à metade e, por que fator cai a rigidez torcional? (d) Essa maciez extrema é a razão por que Cavendish (1798) pendurou sua balança de um fio fino: para , , , calcule e o período com uma haste de momento de inércia .
Solução
Solução de Exercício 3.8.
(a) O topo de um tubo de raio gira pelo arco ao longo do comprimento : . (b) . (c) Por . (d) ; — um quarto de hora por oscilação: sensibilidade bastante para sentir a gravidade de esferas de chumbo.
Exercício 3.9 ★★
(a) A partir da dedução por ondas planas da Proposição 3.10, calcule e para o aço (, , ). (b) Compare com a velocidade da haste fina e explique a diferença numa frase. (c) Para a água (, módulo de compressibilidade ): a velocidade S e a velocidade P. (d) Em que ângulo o movimento da matéria numa onda P difere do de uma onda S, e como um sismômetro de três componentes as distingue?
Solução
Solução de Exercício 3.9.
(a) , : , . (b) A haste fina dá : na haste as laterais incham livremente (alívio de Poisson), o que amolece a resposta; no interior maciço a matéria ao redor o proíbe. (c) ; — a velocidade do som na água. (d) A P move o solo ao longo do raio (quase vertical para uma fonte profunda), a S transversalmente a ele: as três componentes de um sismômetro separam as polarizações, e o atraso P/S dá então a distância.
Exercício 3.10 ★★★
Flexão. Uma viga é curvada até um raio de curvatura ; suas fibras internas encurtam, as externas alongam, e uma superfície neutra intermediária conserva o comprimento. (a) Mostre que a fibra à distância da superfície neutra tem deformação e, portanto, tensão . (b) Somando os momentos sobre a seção transversal, mostre que o momento fletor é com (o momento de segunda ordem); calcule para um retângulo de largura e altura . (c) O : por que uma tábua flexionada de chapa cede visivelmente, enquanto a mesma tábua de canto parece rígida? Calcule a razão para . (d) Para uma viga em balanço de comprimento carregada por na ponta, a flecha na ponta vale (admitido): estime para um trampolim (, , , madeira ) sob um saltador de , e comente.
Solução
Solução de Exercício 3.10.
(a) Um arco no raio tem comprimento contra na superfície neutra: , . (b) ; para o retângulo, . (c) De chapa: ; de canto: — razão para : a mesma madeira, vinte e cinco vezes mais rígida, só pela geometria. (d) , ; : exatamente a cedência agradável de um trampolim.
Exercício 3.11 ★★★
Flambagem. Uma coluna esbelta (comprimento , rigidez à flexão ), articulada nas duas extremidades, suporta uma carga axial . Suponha que ela se curve lateralmente segundo . (a) Mostre que a carga exerce então o momento fletor em torno do eixo deslocado, de modo que . (b) Com , mostre que uma curvatura não nula só se torna possível a partir da carga crítica de Euler . (c) Calcule para uma régua de um metro (, , ) e compare com o empurrão da sua mão. (d) Explique, a partir de , por que ossos, bambus e quadros de bicicleta são tubos.
Solução
Solução de Exercício 3.11.
(a) Na configuração curvada, a carga axial age com braço de alavanca em torno da seção em : , e dá . (b) com : um não nulo só aparece a partir de , isto é, ; abaixo dela a coluna reta é a única solução, acima dela curvar-se não custa força alguma. (c) : — o peso de uma maçã: uma régua de um metro flamba sob um dedo. (d) cresce à medida que o material se afasta do eixo: um tubo põe toda a sua seção em grande, maximizando (e portanto ) para um dado peso de material — o projeto dos ossos, do bambu e dos quadros de bicicleta.
Exercício 3.12 ★★★
A velocidade do som num sólido, a partir dos átomos. Modele um sólido como cadeias de átomos, com espaçamento , ligados por “molas” de constante ; a massa atômica é . (a) Mostre que esticar a cadeia corresponde à tração contínua com (conte as molas por unidade de área e o alongamento por mola). (b) Mostre que e conclua que . (c) Estime a partir da profundidade de uma ligação interatômica ( ao longo de ): ; com e , estime . (d) Compare com as velocidades do som medidas em metais e conclua de que é feita a elasticidade cotidiana.
Solução
Solução de Exercício 3.12.
(a) Uma cadeia por área ; alongar de uma deformação estica cada mola de , com força por cadeia e tensão : . (b) , logo e . (c) . (d) Bem em cima dos poucos km/s medidos nos metais: a rigidez de tudo o que é sólido — e a velocidade de toda onda sísmica — é a rigidez da ligação química.
3.6 Problema: Ouvir a Terra
Problema 3.1
Problema de fim de semana — como os terremotos revelaram o núcleo líquido
Um único terremoto faz o planeta inteiro ressoar, e as duas ondas elásticas deste capítulo, ao atravessá-lo, radiografam-no. Este problema segue a física da lei de Hooke no granito até a descoberta, feita por Oldham em 1906, de que a Terra tem um núcleo — com a estimativa do seu tamanho por raios retos. Tome, para a rocha da crosta e do manto, , , ; o raio da Terra é .
Parte I — A rocha como sólido elástico.
- Calcule os coeficientes de Lamé e desta rocha e observe que os torna iguais.
- Calcule e e verifique que .
- Um terremoto desliza duas faces de rocha por metros em segundos: estime a deformação liberada se um deslizamento de relaxa a rocha numa escala de , e a tensão que se havia acumulado.
- A partir da densidade de energia , estime a energia elástica por metro cúbico e depois a energia num volume de ; compare com um megaton ().
- Por que a onda S costuma sacudir os edifícios mais forte que a onda P (pense na direção do movimento do solo para uma onda que chega de baixo)?
- Em qual das duas ondas o solo muda de volume?
Parte II — As duas chegadas no sismômetro.
Uma estação registra a chegada P e, mais tarde, a chegada S. Para uma fonte à distância (curta o bastante para raios retos), mostre que
- Avalie o coeficiente: quantos quilômetros por segundo de atraso S–P?
- Uma estação mede : a que distância está o terremoto?
- Uma estação dá uma distância, não um lugar: quantas estações determinam o epicentro, e como, geometricamente?
- As sirenes de alerta precoce do Japão soam segundos antes da sacudida forte: para um tremor abaixo de uma cidade, quanto aviso o próprio atraso P–S fornece?
- Os alertas modernos acrescentam a velocidade da luz: a onda P detectada perto da fonte é transmitida por rádio à frente das duas ondas. Para uma cidade a do epicentro, quanto tempo após a ruptura chega a onda S, e que aviso pode dar uma mensagem de rádio enviada na primeira chegada P a da fonte?
Parte III — Ondas que atravessam o planeta.
- Às pressões do manto profundo os módulos crescem: as velocidades P chegam a na base do manto. Tomando uma média grosseira , quanto tempo uma onda P leva para atravessar a Terra diametralmente?
- As estações registram tremores do outro lado do globo: o que a simples existência dessas chegadas diz sobre a Terra profunda (ela é elástica? é fundida por inteiro?)?
- Defina o ângulo epicentral (ângulo, no centro da Terra, entre a fonte e a estação). Para raios retos, mostre que o comprimento da corda é .
- Avalie a corda e seu tempo de percurso em raio reto para à velocidade média .
- Por volta de 1900, Oldham notou que as ondas S são registradas até e depois desaparecem: não há S direta além disso. Que propriedade de uma região profunda dentro da Terra mata as ondas S, e que estado da matéria tem essa propriedade?
- As ondas P além de não estão ausentes, mas enfraquecidas, atrasadas e deslocadas (uma “zona de sombra” até ): por que uma região líquida atrasa e refrata as ondas P, mas não as detém?
- Conclua numa frase o que existe no centro da Terra.
Parte IV — Pesar o núcleo com uma régua.
- Um raio S reto que sai da fonte tangencia o núcleo se sua maior aproximação ao centro for igual ao raio do núcleo . Mostre que esse raio rasante atinge a superfície no ângulo epicentral .
- A partir de , calcule .
- O valor moderno é : calcule seu erro e explique o sinal dele: os raios reais se recurvam de volta para a superfície à medida que a velocidade cresce com a profundidade — argumente se os raios retos superestimam ou subestimam o núcleo.
- Em 1936, Inge Lehmann encontrou chegadas P fracas dentro da zona de sombra: o que ela concluiu que existe dentro do núcleo líquido?
- O raio do núcleo interno é e ele é sólido: proponha a observação de ondas que poderia confirmar a solidez (que onda existe ali e que o núcleo externo proíbe?).
- Resuma o resultado central: duas velocidades de onda elástica na rocha ( e ), uma onda ausente além de e uma régua dão um núcleo líquido de raio — a do valor moderno de , medido através de de rocha sólida.
Solução
Solução de Problema 3.1.
1. ; : para , . 2. ; ; razão . 3. ; — a “queda de tensão” medida nos terremotos reais é de fato de alguns MPa. 4. ; em : , cerca de três quartos de megaton — um grande terremoto. 5. Vindo de baixo, a P move o solo verticalmente — e os edifícios são construídos para suportar cargas verticais; a S o move horizontalmente, a direção em que os edifícios são mais fracos. 6. Apenas na onda P: ela é uma onda de compressão; a onda S é cisalhamento puro, a volume constante. 7. , : , invertido como no enunciado. 8. por segundo de atraso — os “oito quilômetros por segundo” do sismólogo de campo. 9. . 10. Três, em geral: cada estação conhece um círculo de epicentros possíveis; dois círculos se cruzam em dois pontos, e o terceiro decide. 11. , : cerca de de aviso entre o solavanco e a sacudida destrutiva. 12. A S chega em . A P alcança em ; uma mensagem de rádio é praticamente instantânea, de modo que a cidade pode ter quase um minuto de aviso — os sistemas atuais conseguem dezenas de segundos. 13. , uns vinte minutos. 14. Que as ondas elásticas simplesmente a atravessem: a Terra profunda não é fundida por inteiro — ela transmite e, pelas ondas S que cruzam o manto, até cisalha, como um sólido. 15. Dois raios e o ângulo entre eles: a corda vale . 16. ; . 17. Além de , todo raio precisa atravessar uma região central profunda; se essa região for fluida (), ela não transporta onda de cisalhamento: as ondas S morrem ali. Os fluidos são o estado da matéria que não resiste ao cisalhamento. 18. Um fluido ainda transporta compressão: as ondas P atravessam o núcleo, mas mais devagar — por isso se refratam bruscamente em sua fronteira, e os raios desviados deixam uma sombra anular em vez de um corte limpo. 19. Um núcleo líquido ocupa o centro da Terra. 20. A maior aproximação da corda ao centro é ; tangenciar significa , isto é, . 21. . 22. grande demais. A velocidade cresce com a profundidade, e por isso os raios reais se recurvam de volta para a superfície: um raio cujo ponto mais profundo apenas toca o núcleo emerge num ângulo menor que o da corda reta pela mesma profundidade — de modo que, a partir dos observados, a inversão por raios retos coloca o ponto de tangência raso demais, isto é, superestima o núcleo. 23. Energia P fraca dentro da sombra significa que algo dentro do núcleo líquido devolve raios para fora: um núcleo interno distinto (Lehmann, 1936). 24. As ondas de cisalhamento só existem em sólidos: uma onda P que se convertesse em onda de cisalhamento dentro do núcleo interno e voltasse (a fase chamada PKJKP) provaria que ele é sólido — sua detecção, longamente buscada, é a evidência aceita. 25. Duas velocidades na rocha ( e ), uma onda ausente além de e a geometria da corda dão um núcleo líquido de — a do valor moderno de : a lei de Hooke, lida em escala planetária.