Physics · Livro 5 · Bachelor Year 3

Física universitária — 3.º ano

Física universitária — 3.º ano · Bachelor Year 3

3Mecânica dos meios contínuos e elasticidade

Encoste o ouvido num longo trilho de aço enquanto um operário distante o golpeia: você ouve duas batidas — uma pelo aço, outra pelo ar, separadas por um segundo ou mais. Rocha, aço, osso e borracha transmitem forças e ondas como um fluido transmite pressão, mas com algo que nenhum fluido tem: resistem a mudanças de forma, e não apenas a mudanças de volume. O volume do segundo ano construiu a mecânica dos fluidos sobre duas ideias, a partícula material e o campo de pressão; este capítulo as estende aos sólidos. O deslocamento de cada partícula torna-se um campo, sua distorção local uma deformação, as forças internas uma tensão, e entre elas está a carteira de identidade do sólido, a lei de Hooke com suas duas constantes elásticas. O proveito vai do cotidiano — por que os cabos se alongam, por que as garrafas estouram, como um trampolim se verga — ao planetário: os terremotos enviam pela Terra exatamente os dois tipos de onda elástica que este capítulo prevê, e seus tempos de chegada foram a primeira sondagem já feita do interior do nosso planeta.

3.1 Deformação: descrever a distorção

Definição 3.1 (Campo de deslocamentos e tensor de deformações)

Quando um sólido se deforma, a partícula inicialmente em r\vect r vai para r+u(r)\vect r + \vect u(\vect r): u\vect u é o campo de deslocamentos. Para pequenas deformações, a distorção local é medida pelo tensor de deformações, o arranjo simétrico

εij=12(uixj+ujxi),i,j{x,y,z}.\varepsilon_{ij} = \frac12\Big( \frac{\partial u_i}{\partial x_j} + \frac{\partial u_j}{\partial x_i} \Big) , \qquad i, j \in \{x, y, z\} .

Uma componente diagonal εxx\varepsilon_{xx} é o alongamento relativo do material ao longo de xx (adimensional; por exemplo, 10310^{-3} para um cabo de aço em serviço); uma componente fora da diagonal εxy\varepsilon_{xy} é a metade do fechamento do ângulo entre as direções materiais xx e yy — um cisalhamento. O traço é a variação relativa de volume, a dilatação:

δVV=εxx+εyy+εzz=divu.\frac{\delta V}{V} = \varepsilon_{xx} + \varepsilon_{yy} + \varepsilon_{zz} = \operatorname{div}\vect u .

Exemplo 3.2 (Três deformações elementares)

Dilatação uniforme u=αr\vect u = \alpha\vect r: εij=αδij\varepsilon_{ij} = \alpha\,\delta_{ij}, variação de volume 3α3\alpha, sem cisalhamento. Cisalhamento simples u=(γy,0,0)\vect u = (\gamma y, 0, 0): εxy=γ/2\varepsilon_{xy} = \gamma/2, todas as componentes diagonais nulas — a forma muda, o volume não. Rotação rígida u=(ωy,ωx,0)\vect u = (-\omega y, \omega x, 0): εij=0\varepsilon_{ij} = 0 identicamente — a parte antissimétrica de ui/xj\partial u_i/\partial x_j, descartada pela simetrização, é exatamente a parte que gira sem deformar. A deformação mede apenas a distorção.

O tensor de deformações vê apenas a distorção verdadeira: alongamento (componentes diagonais), cisalhamento (componentes fora da diagonal) — e uma rotação rígida, de modo algum.
O tensor de deformações vê apenas a distorção verdadeira: alongamento (componentes diagonais), cisalhamento (componentes fora da diagonal) — e uma rotação rígida, de modo algum.

3.2 Tensão: descrever as forças internas

Definição 3.3 (Tração e tensor de tensões)

Corte o sólido, em pensamento, ao longo de uma pequena superfície  ⁣dS\dd S de normal n\vect n: o material do lado +n+\vect n puxa o outro lado com uma força  ⁣dF=σ(n) ⁣dS\dd\vect F = \boldsymbol\sigma(\vect n)\,\dd S — a tração. Essa força depende linearmente de n\vect n (Cauchy) e por isso é codificada pelo tensor de tensões σij\sigma_{ij}:

 ⁣dFi=jσijnj ⁣dS,\dd F_i = \sum_j \sigma_{ij}\,n_j\,\dd S ,

em pascals. σxx\sigma_{xx} é um puxão (>0> 0: tração) ou um empurrão (<0< 0: compressão) através de uma face normal a xx; σxy\sigma_{xy} é uma força ao longo de xx suportada por uma face normal a yy — uma tensão de cisalhamento. Um fluido em repouso é o caso particular σij=pδij\sigma_{ij} = -p\,\delta_{ij}: a pressão empurra igualmente cada face e não cisalha nenhuma, e é por isso que os fluidos escoam — não conseguem suportar cisalhamento estático.

Proposição 3.4 (Equilíbrio e simetria)

Num sólido em equilíbrio sob uma força de volume f\vect f por unidade de volume (por exemplo, ρg\rho\vect g),

jσijxj+fi=0\sum_j\frac{\partial\sigma_{ij}}{\partial x_j} + f_i = 0

em todo ponto interior; e o tensor de tensões é simétrico, σij=σji\sigma_{ij} = \sigma_{ji}.

Demonstração parcial. Faça o balanço de forças num pequeno cubo de aresta aa: as trações nas duas faces normais a xx diferem de axσixa\,\partial_x\sigma_{ix} por unidade de área, e o mesmo vale para os outros pares; a força de superfície líquida por unidade de volume é jjσij\sum_j\partial_j\sigma_{ij}, que deve cancelar fif_i — a mesma contabilidade que deu p+ρg=0-\vect\nabla p + \rho\vect g = \vect 0 na estática dos fluidos do volume do primeiro ano. Simetria: o torque das tensões de cisalhamento em torno do centro do cubo vale (σxyσyx)a3(\sigma_{xy} - \sigma_{yx})a^3 em ordem dominante, ao passo que seu momento de inércia escala como a5a^5; uma tensão assimétrica faria os cubos pequenos girarem infinitamente rápido. O argumento contínuo completo é admitido.

As três componentes da tração sobre uma face de um cubo material: uma normal (tração ou compressão), duas tangenciais (cisalhamento). As nove componentes das três faces formam o tensor de tensões.
As três componentes da tração sobre uma face de um cubo material: uma normal (tração ou compressão), duas tangenciais (cisalhamento). As nove componentes das três faces formam o tensor de tensões.

3.3 A lei de Hooke e as constantes elásticas

Teorema 3.5 (Elasticidade linear isotrópica)

Para pequenas deformações, um sólido isotrópico responde linearmente: a tensão é proporcional à deformação,

σij=λ(εxx+εyy+εzz)δij+2μεij,\sigma_{ij} = \lambda\,(\varepsilon_{xx} + \varepsilon_{yy} + \varepsilon_{zz})\,\delta_{ij} + 2\mu\,\varepsilon_{ij} ,

com duas constantes do material, os coeficientes de Lamé λ\lambda e μ\mu (μ\mu também se escreve GG, o módulo de cisalhamento). No ensaio de tração simples — uma barra puxada ao longo de xx, livre nas laterais — a mesma lei toma a forma do engenheiro

εxx=σxxE,εyy=εzz=νεxx,\varepsilon_{xx} = \frac{\sigma_{xx}}{E} , \qquad \varepsilon_{yy} = \varepsilon_{zz} = -\nu\,\varepsilon_{xx} ,

definindo o módulo de Young EE (rigidez ao alongamento) e o coeficiente de Poisson ν\nu (contração lateral), com

μ=E2(1+ν),λ=Eν(1+ν)(12ν).\mu = \frac{E}{2(1 + \nu)} , \qquad \lambda = \frac{E\nu}{(1 + \nu)(1 - 2\nu)} .

Este é o “tal a extensão, tal a força” de Hooke (1678), promovido a tensor. Vale até um limite elástico que depende do material.

Demonstração. Admitido neste nível.

Observação 3.6 (Ordens de grandeza)

E200GPaE \approx 200\,\mathrm{GPa} para o aço, 70GPa70\,\mathrm{GPa} para o alumínio e o vidro de janela, 50GPa50\,\mathrm{GPa} para o granito, 15GPa15\,\mathrm{GPa} para o osso e o concreto, 10GPa10\,\mathrm{GPa} para a madeira na direção das fibras e apenas alguns MPa para a borracha — cinco ordens de grandeza, o intervalo que vai de uma ponte a um elástico. ν\nu está entre 00 (a cortiça, quase) e 1/21/2 (a borracha): ν=1/2\nu = 1/2 significa deformação que preserva o volume, e ν0.3\nu \approx 0.3 é típico dos metais. Uma deformação de 10310^{-3} no aço já significa σ=200MPa\sigma = 200\,\mathrm{MPa}, próxima da tensão de escoamento das ligas comuns: a elasticidade cotidiana vive abaixo de uma parte em mil.

Exemplo 3.7 (Um cabo de elevador)

Um cabo de aço de 60m60\,\mathrm{m} e seção 2.0cm22.0\,\mathrm{cm}^{2} sustenta uma cabine de 1000kg1000\,\mathrm{kg}: σ=mg/S=49MPa\sigma = mg/S = 49\,\mathrm{MPa}, ε=σ/E=2.5×104\varepsilon = \sigma/E = 2.5 \times 10^{-4}, alongamento εL=15mm\varepsilon L = 15\,\mathrm{mm} — e o cabo se comporta como uma mola de constante k=ES/L=6.7×105N/mk = ES/L = 6.7 \times 10^{5}\,\mathrm{N}/\mathrm{m}: a fórmula k=ES/Lk = ES/L é como um meio contínuo devolve as molas do volume do primeiro ano.

Proposição 3.8 (Energia elástica)

Um sólido deformado armazena, por unidade de volume, a densidade de energia

w=12i,jσijεij(trac¸a˜o simples: w=12Eε2=σ2/2E),w = \frac12\sum_{i,j}\sigma_{ij}\,\varepsilon_{ij} \qquad\text{(tração simples: } w = \tfrac12 E\varepsilon^2 = \sigma^2/2E\text{)} ,

a versão tridimensional de 12kx2\tfrac12 kx^2.

Demonstração parcial. Em tração simples, levar a tensão de 00 a σ\sigma realiza o trabalho por unidade de volume 0εσ ⁣dε=0εEε ⁣dε=12Eε2\int_0^\varepsilon\sigma'\,\dd\varepsilon' = \int_0^\varepsilon E\varepsilon'\,\dd\varepsilon' = \tfrac12 E\varepsilon^2 — a área sob a reta tensão–deformação, exatamente como para uma mola. A forma quadrática geral segue por superposição das componentes; admitida.

À esquerda: o ensaio de tração define E (alongamento relativo) e  (afinamento lateral, exagerado). À direita: a curva tensão–deformação de um metal — elasticidade linear até o limite elástico, depois escoamento plástico irreversível, depois ruptura. Este capítulo vive na parte reta.
À esquerda: o ensaio de tração define EE (alongamento relativo) e ν\nu (afinamento lateral, exagerado). À direita: a curva tensão–deformação de um metal — elasticidade linear até o limite elástico, depois escoamento plástico irreversível, depois ruptura. Este capítulo vive na parte reta.

Método 3.9 (Resolver problemas de elasticidade linear)

(1) Identifique a geometria e o carregamento; adivinhe quais componentes de tensão são não nulas (uma barra puxada: só σxx\sigma_{xx}; um fio torcido: cisalhamento; um casco pressurizado: trações tangenciais). (2) Escreva o balanço de forças sobre uma peça bem escolhida — um semicilindro, uma fatia, um cubo. (3) Converta tensão em deformação pela lei de Hooke e deformação em deslocamento por integração. (4) Energias por w=σ2/2Ew = \sigma^2/2E (ou σ2/2G\sigma^2/2G em cisalhamento). (5) Verifique sempre que a deformação permanece pequena e a tensão abaixo do limite elástico — do contrário, a resposta descreve um sólido que já não existe.

3.4 Ondas elásticas

Proposição 3.10 (Os dois sons de um sólido)

Num sólido elástico ilimitado de densidade ρ\rho, as pequenas perturbações se propagam como dois tipos independentes de onda: as ondas longitudinais (P), em que a matéria oscila ao longo da direção de propagação por compressão e dilatação, com velocidade

cP=λ+2μρ,c_{\text{P}} = \sqrt{\frac{\lambda + 2\mu}{\rho}} ,

e as ondas transversais (S), em que a matéria cisalha de lado, com velocidade

cS=μρ<cP.c_{\text{S}} = \sqrt{\frac{\mu}{\rho}} < c_{\text{P}} .

Um fluido tem μ=0\mu = 0: não há ondas S — o cisalhamento não pode ser transmitido — e a velocidade P se reduz à velocidade do som do volume do segundo ano. Para ν=1/4\nu = 1/4 (rocha típica), λ=μ\lambda = \mu e cP=3cSc_{\text{P}} = \sqrt3\,c_{\text{S}}.

Demonstração parcial. Tome uma perturbação plana u=u(x,t)\vect u = \vect u(x, t). A lei de Newton por unidade de volume é ρt2ui=jjσij\rho\,\partial_t^2u_i = \sum_j\partial_j\sigma_{ij} (a equação de equilíbrio com a inércia restituída). Para a componente longitudinal, a lei de Hookeσxx=(λ+2μ)xux\sigma_{xx} = (\lambda + 2\mu)\,\partial_xu_x (as deformações laterais se anulam numa onda plana, pois a matéria vizinha proíbe o alívio lateral), de modo que ρt2ux=(λ+2μ)x2ux\rho\,\partial_t^2u_x = (\lambda + 2\mu)\,\partial_x^2u_x: d’Alembert com velocidade cPc_{\text{P}}. Para a componente transversal, σyx=2μεyx=μxuy\sigma_{yx} = 2\mu\varepsilon_{yx} = \mu\,\partial_xu_y, de onde ρt2uy=μx2uy\rho\,\partial_t^2u_y = \mu\,\partial_x^2u_y: velocidade cSc_{\text{S}}. Que uma perturbação geral se separe nessas duas famílias é admitido.

As duas ondas elásticas. P: os planos de matéria se juntam e se afastam ao longo da direção de percurso (onda de compressão — existe em sólidos, líquidos e gases). S: a matéria cisalha de lado (existe apenas onde o cisalhamento encontra resistência: nos sólidos).
As duas ondas elásticas. P: os planos de matéria se juntam e se afastam ao longo da direção de percurso (onda de compressão — existe em sólidos, líquidos e gases). S: a matéria cisalha de lado (existe apenas onde o cisalhamento encontra resistência: nos sólidos).

Exemplo 3.11 (O trilho e o terremoto)

Aço: cP5.9km/sc_{\text{P}} \approx 5.9\,\mathrm{km}/\mathrm{s} — uma pancada num trilho a 2km2\,\mathrm{km} chega pelo aço em 0.34s0.34\,\mathrm{s} e pelo ar (340m/s340\,\mathrm{m}/\mathrm{s}) em 5.9s5.9\,\mathrm{s}: duas batidas. Granito (E=75GPaE = 75\,\mathrm{GPa}, ν=1/4\nu = 1/4, ρ=2.7×103kg/m3\rho = 2.7 \times 10^{3}\,\mathrm{kg}/\mathrm{m}^{3}): cP5.8km/sc_{\text{P}} \approx 5.8\,\mathrm{km}/\mathrm{s}, cS3.3km/sc_{\text{S}} \approx 3.3\,\mathrm{km}/\mathrm{s}. Um terremoto, portanto, se anuncia duas vezes: um solavanco P agudo e, segundos depois, a sacudida S mais lenta e mais forte — e o atraso mede a distância (Problema 3.1). Os sistemas de alerta precoce de terremotos vivem dentro desse atraso: a onda P, e a mensagem de rádio que ela dispara, correm mais que a onda S, que é a que causa o dano.

Observação 3.12 (Cordas, hastes e som recuperados)

As ondas do volume do segundo ano são todas limites deste capítulo. Uma haste fina, livre para afinar lateralmente, transporta ondas de compressão a E/ρ\sqrt{E/\rho} (mais lentas que cPc_{\text{P}}: o alívio lateral amolece a resposta); uma corda esticada transporta ondas transversais a T/ρ\sqrt{T/\rho_\ell}, com a tração no papel da rigidez; um fluido guarda apenas λ\lambda — seu módulo de compressibilidade — e a única velocidade do som λ/ρ\sqrt{\lambda/\rho}.

Um trampolim carregado: tensão e deformação distribuídas por um meio contínuo, curvado no perfil cúbico de deflexão da viga em balanço — e uma mola prestes a devolver a sua energia elástica.
Um trampolim carregado: tensão e deformação distribuídas por um meio contínuo, curvado no perfil cúbico de deflexão da viga em balanço — e uma mola prestes a devolver a sua energia elástica.

3.5 Exercícios

Exercício 3.1

(a) Verifique as unidades: o que é um pascal em termos de kg, m, s, e qual é a unidade da deformação? (b) Um cabo de aço trabalha a σ=200MPa\sigma = 200\,\mathrm{MPa}: calcule sua deformação. (c) Um elástico (E2MPaE \approx 2\,\mathrm{MPa}) é esticado ao dobro do comprimento: que “deformação” é essa, e por que o arcabouço deste capítulo não se aplica de fato? (d) Ordene pela densidade de energia elástica armazenada na tensão de trabalho: aço a 200MPa200\,\mathrm{MPa}, borracha a 1MPa1\,\mathrm{MPa}.

Solução

Solução de Exercício 3.1.

(a) Pa=N/m2=kgm1s2\mathrm{Pa} = \mathrm{N}/\mathrm{m}^{2} = \mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{-1}\,\mathrm{s}^{-2}; a deformação é um número puro. (b) ε=σ/E=103\varepsilon = \sigma/E = 10^{-3}. (c) Dobrar o comprimento é ε=1\varepsilon = 1: mil vezes além do “pequeno”, e a resposta da borracha ali é fortemente não linear (e de origem diferente, entrópica) — a lei de Hooke apenas abre a curva. (d) w=σ2/2Ew = \sigma^2/2E: aço, (2×108)2/2(2×1011)=1×105J/m3(2 \times 10^{8})^2/2(2 \times 10^{11}) = 1 \times 10^{5}\,\mathrm{J}/\mathrm{m}^{3}; borracha, (106)2/2(2×106)=2.5×105J/m3(10^{6})^2/2(2 \times 10^{6}) = 2.5 \times 10^{5}\,\mathrm{J}/\mathrm{m}^{3} — o material macio armazena mais por unidade de volume à tensão de trabalho, e é por isso que os estilingues são de borracha, não de aço.

Exercício 3.2

Calcule o tensor de deformações de cada campo de deslocamentos e descreva a deformação: (a) u=α(x,y,z)\vect u = \alpha(x, y, z); (b) u=(γy,0,0)\vect u = (\gamma y, 0, 0); (c) u=(ωy,ωx,0)\vect u = (-\omega y, \omega x, 0); (d) u=(εx,νεy,νεz)\vect u = (\varepsilon x, -\nu\varepsilon y, -\nu\varepsilon z) — que experimento o realiza?

Solução

Solução de Exercício 3.2.

(a) εij=αδij\varepsilon_{ij} = \alpha\delta_{ij}: dilatação isotrópica, δV/V=3α\delta V/V = 3\alpha. (b) εxy=εyx=γ/2\varepsilon_{xy} = \varepsilon_{yx} = \gamma/2, as demais nulas: cisalhamento puro, volume inalterado. (c) εij=0\varepsilon_{ij} = 0: rotação rígida, sem deformação. (d) diag(ε,νε,νε)\operatorname{diag}(\varepsilon, -\nu\varepsilon, -\nu\varepsilon): o ensaio de tração — alongamento ao longo de xx, contração de Poisson transversalmente.

Exercício 3.3

A base de uma coluna de granito de altura hh suporta a tensão σ=ρgh\sigma = \rho gh. (a) Deduza isso da equação de equilíbrio com a gravidade. (b) O granito se esmaga por volta de 200MPa200\,\mathrm{MPa}: qual é a coluna mais alta possível? (c) O Everest tem 8.8km8.8\,\mathrm{km} de altura: comente. (d) Por que uma montanha pode ser um pouco mais alta que uma coluna da sua própria rocha (pense na forma)?

Solução

Solução de Exercício 3.3.

(a) Com apenas σzz(z)\sigma_{zz}(z) e o peso: zσzz=ρg\partial_z\sigma_{zz} = \rho g (tomando a compressão positiva para baixo), σzz=ρgh\sigma_{zz} = \rho gh na base. (b) hmax=σc/ρg=2×108/(2700×9.81)7.6kmh_{\max} = \sigma_{\text{c}}/\rho g = 2 \times 10^{8}/(2700 \times 9.81) \approx 7.6\,\mathrm{km}. (c) O Everest está no limite de esmagamento da sua própria base — as montanhas da Terra são tão altas quanto a resistência da rocha permite, e não mais. (d) Um cone de altura hh carrega sua base com apenas ρgh/3\rho gh/3 (um terço da coluna: a massa cresce com a seção), de modo que uma pilha em forma de montanha pode ficar cerca de três vezes mais alta que uma coluna.

Exercício 3.4

Uma haste de aço (E=200GPaE = 200\,\mathrm{GPa}, ν=0.30\nu = 0.30) é alongada de ε=103\varepsilon = 10^{-3}. (a) Deformação lateral? (b) Variação relativa de volume? (c) Para que ν\nu o volume não mudaria em nada, e qual material comum se aproxima disso? (d) Por que ν>1/2\nu > 1/2 é impossível (considere a compressão hidrostática)?

Solução

Solução de Exercício 3.4.

(a) νε=3×104-\nu\varepsilon = -3 \times 10^{-4}. (b) δV/V=(12ν)ε=4×104\delta V/V = (1 - 2\nu)\varepsilon = 4 \times 10^{-4}. (c) ν=1/2\nu = 1/2: deformação incompressível — a borracha. (d) Para ν>1/2\nu > 1/2 o módulo de compressibilidade K=E/3(12ν)K = E/3(1 - 2\nu) seria negativo: comprimir por todos os lados aumentaria o volume, e o material liberaria energia ao colapsar — nenhum sólido estável pode fazer isso.

Exercício 3.5 ★★

Tensão circunferencial. Um cilindro de parede fina (raio RR, espessura da parede tRt \ll R) contém uma pressão pp. (a) Fazendo o balanço de forças sobre um semicilindro de comprimento unitário, mostre que a parede suporta a tensão tangencial σθ=pR/t\sigma_\theta = pR/t. (b) Mostre que a tensão longitudinal (balanço sobre uma seção transversal) é pR/2tpR/2t: um cilindro é solicitado duas vezes mais ao redor do que ao longo — de que modo racham as salsichas? (c) Um cilindro de mergulho: p=200barp = 200\,\mathrm{bar}, R=9cmR = 9\,\mathrm{cm}, t=5mmt = 5\,\mathrm{mm}: calcule σθ\sigma_\theta e compare com uma tensão de escoamento do aço de 700MPa700\,\mathrm{MPa}. (d) Por que os tanques de alta pressão têm extremidades hemisféricas?

Solução

Solução de Exercício 3.5.

(a) Num semicilindro de comprimento unitário, a pressão empurra com p×2Rp \times 2R (área projetada) e as duas paredes cortadas puxam de volta com 2σθt2\sigma_\theta t: σθ=pR/t\sigma_\theta = pR/t. (b) Numa seção transversal, pπR2=σz2πRtp\pi R^2 = \sigma_z\,2\pi Rt: σz=pR/2t\sigma_z = pR/2t — a metade. Uma salsicha racha no comprimento: a tensão circunferencial, maior, rasga a pele ao longo do eixo. (c) σθ=2×107×0.09/0.005=360MPa\sigma_\theta = 2 \times 10^{7} \times 0.09/0.005 = 360\,\mathrm{MPa}: um fator 22 abaixo do escoamento — e é por isso que os cilindros são ensaiados e inspecionados. (d) Uma esfera suporta pR/2tpR/2t em todas as direções: extremidades hemisféricas reduzem a tensão à metade e evitam os cantos onde extremidades planas a concentrariam.

Exercício 3.6 ★★

Um bloco de borracha (E=3.0MPaE = 3.0\,\mathrm{MPa}, ν0.5\nu \approx 0.5), de base 10×10cm10 \times 10\,\mathrm{cm} e altura 2cm2\,\mathrm{cm}, é colado entre duas placas; a placa de cima é empurrada lateralmente com 150N150\,\mathrm{N}. (a) Calcule GG. (b) A tensão e o ângulo de cisalhamento γ=σxy/G\gamma = \sigma_{xy}/G; o deslocamento lateral da placa de cima. (c) Por que ν1/2\nu \approx 1/2 para a borracha (o que é difícil e o que é fácil para um emaranhado de cadeias poliméricas)? (d) Blocos de borracha assim sustentam edifícios inteiros em zonas sísmicas: qual propriedade desse apoio protege o edifício, a rigidez à compressão ou a maciez ao cisalhamento?

Solução

Solução de Exercício 3.6.

(a) G=E/2(1+ν)=1.0MPaG = E/2(1 + \nu) = 1.0\,\mathrm{MPa}. (b) σxy=F/S=150/102=15kPa\sigma_{xy} = F/S = 150/10^{-2} = 15\,\mathrm{kPa}; γ=σxy/G=0.015\gamma = \sigma_{xy}/G = 0.015; deslocamento γh=0.3mm\gamma h = 0.3\,\mathrm{mm}. (c) Uma rede de borracha muda de forma pela mera reorientação de suas cadeias (fácil), mas mudar de volume significa empacotar as cadeias mais perto, tão difícil quanto comprimir um líquido: GKG \ll K, e daí ν1/2\nu \to 1/2. (d) A maciez ao cisalhamento: o apoio deixa o solo tremer horizontalmente por baixo transmitindo pouca força, mas permanece rígido o bastante à compressão para sustentar o peso do edifício.

Exercício 3.7 ★★

Uma corda de escalada, comprimento L=20mL = 20\,\mathrm{m}, seção S=80mm2S = 80\,\mathrm{mm}^{2}, módulo efetivo E=1.2GPaE = 1.2\,\mathrm{GPa}. (a) Sua constante elástica k=ES/Lk = ES/L. (b) Um escalador de 80kg80\,\mathrm{kg} cai livremente 4m4\,\mathrm{m} antes que a corda atue: igualando energias, encontre o alongamento máximo da corda (resolva a equação do segundo grau; despreze, numa primeira passagem, a queda que continua durante a frenagem). (c) Deduza a força máxima e a desaceleração máxima em gg. (d) Por que uma corda que segurou uma queda severa deve ser aposentada (para onde foi a energia, e o que diz a curva tensão–deformação)?

Solução

Solução de Exercício 3.7.

(a) k=ES/L=1.2×109×8×105/20=4.8kN/mk = ES/L = 1.2 \times 10^{9} \times 8 \times 10^{-5}/20 = 4.8\,\mathrm{kN}/\mathrm{m}. (b) mg(h+x)=12kx2mg(h + x) = \tfrac12 kx^2: 2400x2785x3140=02400x^2 - 785x - 3140 = 0, x=1.3mx = 1.3\,\mathrm{m}. (c) F=kx6.3kNF = kx \approx 6.3\,\mathrm{kN}; desaceleração F/m79m/s28gF/m \approx 79\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2} \approx 8g — a razão de as cordas serem feitas deliberadamente elásticas. (d) Parte da energia absorvida foi para a ruptura de fibras e rearranjos plásticos: a corda passa a viver sobre uma curva tensão–deformação degradada, mais rígida e mais fraca, e a próxima queda seria pior nos dois sentidos.

Exercício 3.8 ★★

Torção. Um fio de raio aa, comprimento LL e módulo de cisalhamento GG é torcido de um ângulo θ\theta. (a) Mostre que um tubo de raio rr em seu interior sofre o ângulo de cisalhamento γ(r)=rθ/L\gamma(r) = r\theta/L. (b) Sua tensão de cisalhamento vale GγG\gamma: integre r×r \times tensão sobre a seção para obter o torque restaurador Γ=(πGa4/2L)θ\Gamma = (\pi Ga^4/2L)\,\theta. (c) O a4a^4: reduza o raio à metade e, por que fator cai a rigidez torcional? (d) Essa maciez extrema é a razão por que Cavendish (1798) pendurou sua balança de um fio fino: para a=25µma = 25\,\text{µ}\mathrm{m}, L=1mL = 1\,\mathrm{m}, G=40GPaG = 40\,\mathrm{GPa}, calcule C=πGa4/2LC = \pi Ga^4/2L e o período com uma haste de momento de inércia I=5×104kgm2I = 5 \times 10^{-4}\,\mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{2}.

Solução

Solução de Exercício 3.8.

(a) O topo de um tubo de raio rr gira pelo arco rθr\theta ao longo do comprimento LL: γ=rθ/L\gamma = r\theta/L. (b) Γ=0ar(Grθ/L)2πr ⁣dr=(πGa4/2L)θ\Gamma = \int_0^a r\,(G r\theta/L)\, 2\pi r\,\dd r = (\pi Ga^4/2L)\,\theta. (c) Por 24=162^4 = 16. (d) C=π×4×1010×(2.5×105)4/2=2.5×108Nm/radC = \pi \times 4 \times 10^{10} \times (2.5 \times 10^{-5})^4/2 = 2.5 \times 10^{-8}\,\mathrm{N}\,\mathrm{m}/\mathrm{rad}; T=2πI/C=2π5×104/2.5×108900sT = 2\pi\sqrt{I/C} = 2\pi\sqrt{5 \times 10^{-4}/ 2.5 \times 10^{-8}} \approx 900\,\mathrm{s} — um quarto de hora por oscilação: sensibilidade bastante para sentir a gravidade de esferas de chumbo.

Exercício 3.9 ★★

(a) A partir da dedução por ondas planas da Proposição 3.10, calcule cPc_{\text{P}} e cSc_{\text{S}} para o aço (E=200GPaE = 200\,\mathrm{GPa}, ν=0.29\nu = 0.29, ρ=7.85×103kg/m3\rho = 7.85 \times 10^{3}\,\mathrm{kg}/\mathrm{m}^{3}). (b) Compare cPc_{\text{P}} com a velocidade E/ρ\sqrt{E/\rho} da haste fina e explique a diferença numa frase. (c) Para a água (μ=0\mu = 0, módulo de compressibilidade 2.2GPa2.2\,\mathrm{GPa}): a velocidade S e a velocidade P. (d) Em que ângulo o movimento da matéria numa onda P difere do de uma onda S, e como um sismômetro de três componentes as distingue?

Solução

Solução de Exercício 3.9.

(a) μ=E/2(1+ν)=78GPa\mu = E/2(1+\nu) = 78\,\mathrm{GPa}, λ=Eν/(1+ν)(12ν)=107GPa\lambda = E\nu/(1+\nu)(1-2\nu) = 107\,\mathrm{GPa}: cP=262×109/7850=5.8km/sc_{\text{P}} = \sqrt{262\times10^9/7850} = 5.8\,\mathrm{km}/\mathrm{s}, cS=3.1km/sc_{\text{S}} = 3.1\,\mathrm{km}/\mathrm{s}. (b) A haste fina dá E/ρ=5.0km/s\sqrt{E/\rho} = 5.0\,\mathrm{km}/\mathrm{s}: na haste as laterais incham livremente (alívio de Poisson), o que amolece a resposta; no interior maciço a matéria ao redor o proíbe. (c) cS=0c_{\text{S}} = 0; cP=2.2×109/1000=1.5km/sc_{\text{P}} = \sqrt{2.2 \times 10^{9}/1000} = 1.5\,\mathrm{km}/\mathrm{s} — a velocidade do som na água. (d) A P move o solo ao longo do raio (quase vertical para uma fonte profunda), a S transversalmente a ele: as três componentes de um sismômetro separam as polarizações, e o atraso P/S dá então a distância.

Exercício 3.10 ★★★

Flexão. Uma viga é curvada até um raio de curvatura RR; suas fibras internas encurtam, as externas alongam, e uma superfície neutra intermediária conserva o comprimento. (a) Mostre que a fibra à distância yy da superfície neutra tem deformação ε=y/R\varepsilon = y/R e, portanto, tensão Ey/REy/R. (b) Somando os momentos sobre a seção transversal, mostre que o momento fletor é M=EI/RM = EI/R com I=y2 ⁣dSI = \int y^2\,\dd S (o momento de segunda ordem); calcule II para um retângulo de largura bb e altura hh. (c) O h3h^3: por que uma tábua flexionada de chapa cede visivelmente, enquanto a mesma tábua de canto parece rígida? Calcule a razão para b/h=5b/h = 5. (d) Para uma viga em balanço de comprimento LL carregada por FF na ponta, a flecha na ponta vale δ=FL3/3EI\delta = FL^3/3EI (admitido): estime δ\delta para um trampolim (L=1.8mL = 1.8\,\mathrm{m}, b=50cmb = 50\,\mathrm{cm}, h=3.5cmh = 3.5\,\mathrm{cm}, madeira E=12GPaE = 12\,\mathrm{GPa}) sob um saltador de 75kg75\,\mathrm{kg}, e comente.

Solução

Solução de Exercício 3.10.

(a) Um arco no raio R+yR + y tem comprimento (R+y)α(R + y)\alpha contra RαR\alpha na superfície neutra: ε=y/R\varepsilon = y/R, σ=Ey/R\sigma = Ey/R. (b) M=yσ ⁣dS=(E/R)y2 ⁣dS=EI/RM = \int y\sigma\,\dd S = (E/R)\int y^2\,\dd S = EI/R; para o retângulo, I=bh3/12I = bh^3/12. (c) De chapa: I=bh3/12I = bh^3/12; de canto: hb3/12hb^3/12 — razão (b/h)2=25(b/h)^2 = 25 para b/h=5b/h = 5: a mesma madeira, vinte e cinco vezes mais rígida, só pela geometria. (d) I=0.50×0.0353/12=1.8×106m4I = 0.50 \times 0.035^3/12 = 1.8 \times 10^{-6}\,\mathrm{m}^{4}, EI=2.1×104Nm2EI = 2.1 \times 10^{4}\,\mathrm{N}\,\mathrm{m}^{2}; δ=FL3/3EI=736×1.83/(3×2.1×104)7cm\delta = FL^3/3EI = 736 \times 1.8^3/(3 \times 2.1 \times 10^{4}) \approx 7\,\mathrm{cm}: exatamente a cedência agradável de um trampolim.

Exercício 3.11 ★★★

Flambagem. Uma coluna esbelta (comprimento LL, rigidez à flexão EIEI), articulada nas duas extremidades, suporta uma carga axial PP. Suponha que ela se curve lateralmente segundo y(x)y(x). (a) Mostre que a carga exerce então o momento fletor M(x)=Py(x)M(x) = -Py(x) em torno do eixo deslocado, de modo que EIy=PyEI\,y'' = -Py. (b) Com y(0)=y(L)=0y(0) = y(L) = 0, mostre que uma curvatura não nula só se torna possível a partir da carga crítica de Euler Pc=π2EI/L2P_{\text{c}} = \pi^2EI/L^2. (c) Calcule PcP_{\text{c}} para uma régua de um metro (b=3cmb = 3\,\mathrm{cm}, h=1.5mmh = 1.5\,\mathrm{mm}, E=12GPaE = 12\,\mathrm{GPa}) e compare com o empurrão da sua mão. (d) Explique, a partir de II, por que ossos, bambus e quadros de bicicleta são tubos.

Solução

Solução de Exercício 3.11.

(a) Na configuração curvada, a carga axial PP age com braço de alavanca y(x)y(x) em torno da seção em xx: M=PyM = -Py, e M=EIyM = EIy''EIy=PyEIy'' = -Py. (b) y=Asin(xP/EI)y = A\sin(x\sqrt{P/EI}) com y(L)=0y(L) = 0: um AA não nulo só aparece a partir de P/EIL=π\sqrt{P/EI}\,L = \pi, isto é, Pc=π2EI/L2P_{\text{c}} = \pi^2EI/L^2; abaixo dela a coluna reta é a única solução, acima dela curvar-se não custa força alguma. (c) I=0.03×0.00153/12=8.4×1012m4I = 0.03 \times 0.0015^3/12 = 8.4 \times 10^{-12}\,\mathrm{m}^{4}: Pc=π2×12×109×8.4×1012/121NP_{\text{c}} = \pi^2 \times 12\times10^9 \times 8.4 \times 10^{-12}/1^2 \approx 1\,\mathrm{N} — o peso de uma maçã: uma régua de um metro flamba sob um dedo. (d) II cresce à medida que o material se afasta do eixo: um tubo põe toda a sua seção em yy grande, maximizando II (e portanto PcP_{\text{c}}) para um dado peso de material — o projeto dos ossos, do bambu e dos quadros de bicicleta.

Exercício 3.12 ★★★

A velocidade do som num sólido, a partir dos átomos. Modele um sólido como cadeias de átomos, com espaçamento aa, ligados por “molas” de constante κ\kappa; a massa atômica é mm. (a) Mostre que esticar a cadeia corresponde à tração contínua com E=κ/aE = \kappa/a (conte as molas por unidade de área e o alongamento por mola). (b) Mostre que ρ=m/a3\rho = m/a^3 e conclua que c=E/ρ=aκ/mc = \sqrt{E/\rho} = a\sqrt{\kappa/m}. (c) Estime κ\kappa a partir da profundidade de uma ligação interatômica (3eV\sim3\,\mathrm{eV} ao longo de 0.1nm\sim 0.1\,\mathrm{nm}): κ50N/m\kappa \sim 50\,\mathrm{N}/\mathrm{m}; com a=2.5×1010ma = 2.5 \times 10^{-10}\,\mathrm{m} e m=1×1025kgm = 1 \times 10^{-25}\,\mathrm{kg}, estime cc. (d) Compare com as velocidades do som medidas em metais e conclua de que é feita a elasticidade cotidiana.

Solução

Solução de Exercício 3.12.

(a) Uma cadeia por área a2a^2; alongar de uma deformação ε\varepsilon estica cada mola de δ=εa\delta = \varepsilon a, com força κεa\kappa \varepsilon a por cadeia e tensão κε/a\kappa\varepsilon/a: E=κ/aE = \kappa/a. (b) ρ=m/a3\rho = m/a^3, logo E/ρ=κa2/mE/\rho = \kappa a^2/m e c=aκ/mc = a\sqrt{\kappa/m}. (c) c=2.5×101050/10255.6km/sc = 2.5 \times 10^{-10}\sqrt{50/10^{-25}} \approx 5.6\,\mathrm{km}/\mathrm{s}. (d) Bem em cima dos poucos km/s medidos nos metais: a rigidez de tudo o que é sólido — e a velocidade de toda onda sísmica — é a rigidez da ligação química.

3.6 Problema: Ouvir a Terra

Problema 3.1

Problema de fim de semana — como os terremotos revelaram o núcleo líquido

Um único terremoto faz o planeta inteiro ressoar, e as duas ondas elásticas deste capítulo, ao atravessá-lo, radiografam-no. Este problema segue a física da lei de Hooke no granito até a descoberta, feita por Oldham em 1906, de que a Terra tem um núcleo — com a estimativa do seu tamanho por raios retos. Tome, para a rocha da crosta e do manto, E=75GPaE = 75\,\mathrm{GPa}, ν=1/4\nu = 1/4, ρ=2.7×103kg/m3\rho = 2.7 \times 10^{3}\,\mathrm{kg}/\mathrm{m}^{3}; o raio da Terra é RE=6371kmR_{\text{E}} = 6371\,\mathrm{km}.

Parte I — A rocha como sólido elástico.

  1. Calcule os coeficientes de Lamé μ\mu e λ\lambda desta rocha e observe que ν=1/4\nu = 1/4 os torna iguais.
  2. Calcule cPc_{\text{P}} e cSc_{\text{S}} e verifique que cP=3cSc_{\text{P}} = \sqrt3\,c_{\text{S}}.
  3. Um terremoto desliza duas faces de rocha por metros em segundos: estime a deformação liberada se um deslizamento de 2m2\,\mathrm{m} relaxa a rocha numa escala de 50km50\,\mathrm{km}, e a tensão que se havia acumulado.
  4. A partir da densidade de energia w=12Eε2w = \tfrac12 E\varepsilon^2, estime a energia elástica por metro cúbico e depois a energia num volume de 50×50×20km350 \times 50 \times 20\,\mathrm{km}^{3}; compare com um megaton (4.2×1015J4.2 \times 10^{15}\,\mathrm{J}).
  5. Por que a onda S costuma sacudir os edifícios mais forte que a onda P (pense na direção do movimento do solo para uma onda que chega de baixo)?
  6. Em qual das duas ondas o solo muda de volume?

Parte II — As duas chegadas no sismômetro.

  1. Uma estação registra a chegada P e, Δt\Delta t mais tarde, a chegada S. Para uma fonte à distância dd (curta o bastante para raios retos), mostre que

    d=Δt1cS1cP.d = \frac{\Delta t}{\dfrac{1}{c_{\text{S}}} - \dfrac{1}{c_{\text{P}}}} .
  2. Avalie o coeficiente: quantos quilômetros por segundo de atraso S–P?
  3. Uma estação mede Δt=28s\Delta t = 28\,\mathrm{s}: a que distância está o terremoto?
  4. Uma estação dá uma distância, não um lugar: quantas estações determinam o epicentro, e como, geometricamente?
  5. As sirenes de alerta precoce do Japão soam segundos antes da sacudida forte: para um tremor 80km80\,\mathrm{km} abaixo de uma cidade, quanto aviso o próprio atraso P–S fornece?
  6. Os alertas modernos acrescentam a velocidade da luz: a onda P detectada perto da fonte é transmitida por rádio à frente das duas ondas. Para uma cidade a 200km200\,\mathrm{km} do epicentro, quanto tempo após a ruptura chega a onda S, e que aviso pode dar uma mensagem de rádio enviada na primeira chegada P a 20km20\,\mathrm{km} da fonte?

Parte III — Ondas que atravessam o planeta.

  1. Às pressões do manto profundo os módulos crescem: as velocidades P chegam a 13.7km/s13.7\,\mathrm{km}/\mathrm{s} na base do manto. Tomando uma média grosseira cP10km/sc_{\text{P}} \approx 10\,\mathrm{km}/\mathrm{s}, quanto tempo uma onda P leva para atravessar a Terra diametralmente?
  2. As estações registram tremores do outro lado do globo: o que a simples existência dessas chegadas diz sobre a Terra profunda (ela é elástica? é fundida por inteiro?)?
  3. Defina o ângulo epicentral Δ\Delta (ângulo, no centro da Terra, entre a fonte e a estação). Para raios retos, mostre que o comprimento da corda é 2REsin(Δ/2)2R_{\text{E}}\sin(\Delta/2).
  4. Avalie a corda e seu tempo de percurso em raio reto para Δ=60\Delta = 60^\circ à velocidade média cP10km/sc_{\text{P}} \approx 10\,\mathrm{km}/\mathrm{s}.
  5. Por volta de 1900, Oldham notou que as ondas S são registradas até Δ103\Delta \approx 103^\circ e depois desaparecem: não há S direta além disso. Que propriedade de uma região profunda dentro da Terra mata as ondas S, e que estado da matéria tem essa propriedade?
  6. As ondas P além de 103103^\circ não estão ausentes, mas enfraquecidas, atrasadas e deslocadas (uma “zona de sombra” até 142\approx 142^\circ): por que uma região líquida atrasa e refrata as ondas P, mas não as detém?
  7. Conclua numa frase o que existe no centro da Terra.

Parte IV — Pesar o núcleo com uma régua.

  1. Um raio S reto que sai da fonte tangencia o núcleo se sua maior aproximação ao centro for igual ao raio do núcleo RcR_{\text{c}}. Mostre que esse raio rasante atinge a superfície no ângulo epicentral Δ=2arccos(Rc/RE)\Delta^* = 2\arccos(R_{\text{c}}/R_{\text{E}}).
  2. A partir de Δ=103\Delta^* = 103^\circ, calcule RcR_{\text{c}}.
  3. O valor moderno é 3480km3480\,\mathrm{km}: calcule seu erro e explique o sinal dele: os raios reais se recurvam de volta para a superfície à medida que a velocidade cresce com a profundidade — argumente se os raios retos superestimam ou subestimam o núcleo.
  4. Em 1936, Inge Lehmann encontrou chegadas P fracas dentro da zona de sombra: o que ela concluiu que existe dentro do núcleo líquido?
  5. O raio do núcleo interno é 1220km1220\,\mathrm{km} e ele é sólido: proponha a observação de ondas que poderia confirmar a solidez (que onda existe ali e que o núcleo externo proíbe?).
  6. Resuma o resultado central: duas velocidades de onda elástica na rocha (5.85.8 e 3.3km/s3.3\,\mathrm{km}/\mathrm{s}), uma onda ausente além de 103103^\circ e uma régua dão um núcleo líquido de raio 4000km\approx 4000\,\mathrm{km} — a 15%15\% do valor moderno de 3480km3480\,\mathrm{km}, medido através de 6000km6000\,\mathrm{km} de rocha sólida.
Solução

Solução de Problema 3.1.

1. μ=E/2(1+ν)=30GPa\mu = E/2(1+\nu) = 30\,\mathrm{GPa}; λ=Eν/(1+ν)(12ν)=30GPa\lambda = E\nu/(1+\nu)(1-2\nu) = 30\,\mathrm{GPa}: para ν=1/4\nu = 1/4, λ=μ\lambda = \mu. 2. cP=3μ/ρ=9×1010/2700=5.8km/sc_{\text{P}} = \sqrt{3\mu/\rho} = \sqrt{9 \times 10^{10}/2700} = 5.8\,\mathrm{km}/\mathrm{s}; cS=μ/ρ=3.3km/sc_{\text{S}} = \sqrt{\mu/\rho} = 3.3\,\mathrm{km}/\mathrm{s}; razão 3\sqrt3. 3. ε2/5×104=4×105\varepsilon \sim 2/5 \times 10^{4} = 4 \times 10^{-5}; σ=Eε3MPa\sigma = E\varepsilon \approx 3\,\mathrm{MPa} — a “queda de tensão” medida nos terremotos reais é de fato de alguns MPa. 4. w=12Eε260J/m3w = \tfrac12 E\varepsilon^2 \approx 60\,\mathrm{J}/\mathrm{m}^{3}; em 5×1013m35 \times 10^{13}{}\,\mathrm{m}^{3}: 3×1015J\sim3 \times 10^{15}\,\mathrm{J}, cerca de três quartos de megaton — um grande terremoto. 5. Vindo de baixo, a P move o solo verticalmente — e os edifícios são construídos para suportar cargas verticais; a S o move horizontalmente, a direção em que os edifícios são mais fracos. 6. Apenas na onda P: ela é uma onda de compressão; a onda S é cisalhamento puro, a volume constante. 7. tP=d/cPt_{\text{P}} = d/c_{\text{P}}, tS=d/cSt_{\text{S}} = d/c_{\text{S}}: Δt=d(1/cS1/cP)\Delta t = d(1/c_{\text{S}} - 1/c_{\text{P}}), invertido como no enunciado. 8. 1/(1/3.331/5.77)km/s7.9km1/(1/3.33 - 1/5.77)\,\mathrm{km}/\mathrm{s} \approx 7.9\,\mathrm{km} por segundo de atraso — os “oito quilômetros por segundo” do sismólogo de campo. 9. d7.9×28220kmd \approx 7.9 \times 28 \approx 220\,\mathrm{km}. 10. Três, em geral: cada estação conhece um círculo de epicentros possíveis; dois círculos se cruzam em dois pontos, e o terceiro decide. 11. tP=80/5.8=14st_{\text{P}} = 80/5.8 = 14\,\mathrm{s}, tS=80/3.3=24st_{\text{S}} = 80/3.3 = 24\,\mathrm{s}: cerca de 10s10\,\mathrm{s} de aviso entre o solavanco e a sacudida destrutiva. 12. A S chega em 200/3.3=60s200/3.3 = 60\,\mathrm{s}. A P alcança 20km20\,\mathrm{km} em 3.5s3.5\,\mathrm{s}; uma mensagem de rádio é praticamente instantânea, de modo que a cidade pode ter quase um minuto de aviso — os sistemas atuais conseguem dezenas de segundos. 13. 2RE/c12742/101270s2R_{\text{E}}/c \approx 12742/10 \approx 1270\,\mathrm{s}, uns vinte minutos. 14. Que as ondas elásticas simplesmente a atravessem: a Terra profunda não é fundida por inteiro — ela transmite e, pelas ondas S que cruzam o manto, até cisalha, como um sólido. 15. Dois raios e o ângulo Δ\Delta entre eles: a corda vale 2REsin(Δ/2)2R_{\text{E}}\sin(\Delta/2). 16. 2×6371×sin30=6371km2 \times 6371 \times \sin30^\circ = 6371\,\mathrm{km}; t640s11mint \approx 640\,\mathrm{s} \approx 11\,\mathrm{min}. 17. Além de 103103^\circ, todo raio precisa atravessar uma região central profunda; se essa região for fluida (μ=0\mu = 0), ela não transporta onda de cisalhamento: as ondas S morrem ali. Os fluidos são o estado da matéria que não resiste ao cisalhamento. 18. Um fluido ainda transporta compressão: as ondas P atravessam o núcleo, mas mais devagar — por isso se refratam bruscamente em sua fronteira, e os raios desviados deixam uma sombra anular em vez de um corte limpo. 19. Um núcleo líquido ocupa o centro da Terra. 20. A maior aproximação da corda ao centro é REcos(Δ/2)R_{\text{E}}\cos(\Delta/2); tangenciar significa REcos(Δ/2)=RcR_{\text{E}}\cos(\Delta^*/2) = R_{\text{c}}, isto é, Δ=2arccos(Rc/RE)\Delta^* = 2\arccos(R_{\text{c}}/R_{\text{E}}). 21. Rc=6371cos(51.5)3970kmR_{\text{c}} = 6371\cos(51.5^\circ) \approx 3970\,\mathrm{km}. 22. +14%+14\% grande demais. A velocidade cresce com a profundidade, e por isso os raios reais se recurvam de volta para a superfície: um raio cujo ponto mais profundo apenas toca o núcleo emerge num ângulo menor que o da corda reta pela mesma profundidade — de modo que, a partir dos 103103^\circ observados, a inversão por raios retos coloca o ponto de tangência raso demais, isto é, superestima o núcleo. 23. Energia P fraca dentro da sombra significa que algo dentro do núcleo líquido devolve raios para fora: um núcleo interno distinto (Lehmann, 1936). 24. As ondas de cisalhamento só existem em sólidos: uma onda P que se convertesse em onda de cisalhamento dentro do núcleo interno e voltasse (a fase chamada PKJKP) provaria que ele é sólido — sua detecção, longamente buscada, é a evidência aceita. 25. Duas velocidades na rocha (5.85.8 e 3.3km/s3.3\,\mathrm{km}/\mathrm{s}), uma onda ausente além de 103103^\circ e a geometria da corda dão um núcleo líquido de 4000km\approx4000\,\mathrm{km} — a 15%15\% do valor moderno de 3480km3480\,\mathrm{km}: a lei de Hooke, lida em escala planetária.

Termos definidos neste capítulo

Ver todos os 431 termos do glossário