Physics · Livro 5 · Bachelor Year 3

Física universitária — 3.º ano

Física universitária — 3.º ano · Bachelor Year 3

1Mecânica lagrangiana

Tente escrever a lei de Newton para um pêndulo duplo: duas forças de tração, nenhuma delas conhecida de antemão, ambas mudando de direção a cada instante, e quatro equações escalares a desembaraçar só para descobrir como evoluem dois ângulos. Faça agora o mesmo para uma conta num aro que gira, para uma cadeia de molas acopladas, para um braço robótico. As forças que mantêm um sistema coeso — hastes, trilhos, dobradiças — não realizam trabalho algum e, ainda assim, o método de Newton nos obriga a carregá-las por todo o cálculo. Este capítulo apresenta a reformulação que Lagrange publicou em 1788: descrever o sistema pelas poucas coordenadas que de fato podem variar, escrever uma única função L=EkEpL = E_k - E_p e deixar que uma só receita produza as equações de movimento em quaisquer coordenadas, com todas as hastes e trilhos já eliminados. Melhor ainda, a nova formulação torna visível o que a de Newton esconde: cada simetria de LL fornece uma grandeza conservada — o momento, da uniformidade do espaço; a energia, da uniformidade do tempo — resultado de Emmy Noether que se tornou o princípio organizador da física muito além da mecânica.

1.1 Das forças às coordenadas

Definição 1.1 (Vínculos, graus de liberdade, coordenadas generalizadas)

Um vínculo é uma condição geométrica imposta às posições de um sistema — uma conta permanece em seu arame, a haste de um pêndulo mantém comprimento fixo, duas rodas de um mesmo eixo giram juntas. Um vínculo que se exprime como uma equação f(r1,,rN,t)=0f(\vect r_1, \dots, \vect r_N, t) = 0 entre as coordenadas (e eventualmente o tempo) diz-se holônomo. O número de maneiras independentes pelas quais a configuração ainda pode variar é o número de graus de liberdade nn; qualquer conjunto de nn grandezas independentes q1,,qnq_1, \dots, q_n que fixe a configuração por completo é um conjunto de coordenadas generalizadas — ângulos, comprimentos ou qualquer mistura conveniente. Suas derivadas temporais q˙1,,q˙n\dot q_1, \dots, \dot q_n são as velocidades generalizadas.

Exemplo 1.2 (Contagem dos graus de liberdade)

Um ponto sobre uma mesa: n=2n = 2. Um pêndulo plano de comprimento fixo: um ângulo, n=1n = 1. Um pêndulo duplo: dois ângulos, n=1+1=2n = 1 + 1 = 2. Uma conta num aro rígido: um ângulo, n=1n = 1 — mesmo que o próprio aro seja forçado a girar, pois a rotação imposta não acrescenta liberdade alguma. Um corpo rígido livre no espaço: três coordenadas de seu centro mais três ângulos, n=6n = 6. Um gás de NN moléculas livres (pontuais): n=3Nn = 3N. Cada vínculo holônomo suprime um grau de liberdade: dois pontos unidos por uma haste têm 3+31=53 + 3 - 1 = 5.

Coordenadas generalizadas: cada sistema é descrito pelos ângulos que de fato podem variar, e não pelas coordenadas cartesianas de suas massas. As trações das hastes e a força normal do aro nunca aparecem.
Coordenadas generalizadas: cada sistema é descrito pelos ângulos que de fato podem variar, e não pelas coordenadas cartesianas de suas massas. As trações das hastes e a força normal do aro nunca aparecem.

1.2 O princípio da mínima ação

Definição 1.3 (Lagrangiana e ação)

A lagrangiana de um sistema mecânico cujas forças derivam de uma energia potencial EpE_p é a função das coordenadas, das velocidades e, eventualmente, do tempo

L(q,q˙,t)=EkEp,L(q, \dot q, t) = E_k - E_p ,

energia cinética menos energia potencial, ambas expressas nas coordenadas generalizadas. A ação de um movimento concebível q(t)q(t) entre extremidades fixas q(t1)q(t_1) e q(t2)q(t_2) é o número

S[q]=t1t2L(q(t),q˙(t),t) ⁣dt.S[q] = \int_{t_1}^{t_2} L\big(q(t), \dot q(t), t\big)\,\dd t .

SS é um funcional: devora um caminho inteiro e devolve um único número, em joule-segundos — a unidade da constante de Planck.

Teorema 1.4 (Princípio de Hamilton e equações de Euler–Lagrange)

Entre todos os movimentos concebíveis que unem as mesmas duas extremidades no mesmo tempo, o movimento real é aquele que torna a ação estacionária (princípio de Hamilton, ou princípio da mínima ação). De modo equivalente, o movimento obedece às equações de Euler–Lagrange

 ⁣d ⁣dtLq˙iLqi=0,i=1,,n:\frac{\dd}{\dd t}\frac{\partial L}{\partial\dot q_i} - \frac{\partial L}{\partial q_i} = 0 , \qquad i = 1, \dots, n :

uma equação de segunda ordem por grau de liberdade, quaisquer que sejam as coordenadas escolhidas.

Demonstração. Deforme o caminho: qi(t)qi(t)+δqi(t)q_i(t) \to q_i(t) + \delta q_i(t) com δqi(t1)=δqi(t2)=0\delta q_i(t_1) = \delta q_i(t_2) = 0. Em primeira ordem,

δS=t1t2i(Lqiδqi+Lq˙iδq˙i) ⁣dt=t1t2i(Lqi ⁣d ⁣dtLq˙i)δqi ⁣dt,\delta S = \int_{t_1}^{t_2}\sum_i\Big( \frac{\partial L}{\partial q_i}\,\delta q_i + \frac{\partial L}{\partial\dot q_i}\,\delta\dot q_i\Big)\dd t = \int_{t_1}^{t_2}\sum_i\Big( \frac{\partial L}{\partial q_i} - \frac{\dd}{\dd t}\frac{\partial L}{\partial\dot q_i}\Big)\delta q_i\,\dd t ,

após integrar o segundo termo por partes (δq˙i= ⁣d(δqi)/ ⁣dt\delta\dot q_i = \dd(\delta q_i)/\dd t) e descartar o termo de fronteira, que se anula nas extremidades fixas. Se δS=0\delta S = 0 para toda deformação, o colchete deve anular-se a cada instante e para cada ii — fosse ele positivo em algum ponto, uma saliência δqi\delta q_i concentrada ali daria δS0\delta S \neq 0. A recíproca lê-se na mesma linha.

O princípio de Hamilton: entre todos os caminhos com as mesmas extremidades e a mesma duração, o real torna S = ∈t L\, t estacionária — deformações q de primeira ordem alteram S apenas em segunda ordem.
O princípio de Hamilton: entre todos os caminhos com as mesmas extremidades e a mesma duração, o real torna S=L ⁣dtS = \int L\,\dd t estacionária — deformações δq\delta q de primeira ordem alteram SS apenas em segunda ordem.

Proposição 1.5 (Newton recuperado)

Para uma partícula em coordenadas cartesianas, L=12m(x˙2+y˙2+z˙2)Ep(x,y,z)L = \tfrac12 m(\dot x^2 + \dot y^2 + \dot z^2) - E_p(x,y,z), e as equações de Euler–Lagrange dão mx¨=Ep/xm\ddot x = -\partial E_p/\partial x e o análogo para yy e zz: exatamente ma=Fm\vect a = \vect F. As mecânicas lagrangiana e newtoniana concordam sempre que ambas se aplicam; a nova forma simplesmente sobrevive a uma mudança de coordenadas, o que as equações em componentes de Newton não fazem.

Demonstração. L/x˙=mx˙\partial L/\partial\dot x = m\dot x, L/x=Ep/x\partial L/\partial x = -\partial E_p/\partial x; a equação de Euler–Lagrange é  ⁣d(mx˙)/ ⁣dt+Ep/x=0\dd(m\dot x)/\dd t + \partial E_p/\partial x = 0.

Observação 1.6 (Por que as forças de vínculo desaparecem)

A tração de uma haste, a força normal de um trilho, agem perpendicularmente a todo deslocamento que o vínculo permite: elas não realizam trabalho em nenhum movimento compatível com o vínculo. Como a ação é construída a partir de energias avaliadas apenas sobre tais movimentos, essas forças jamais entram em LL — eis o milagre prático do método. A justificativa geral (o princípio dos trabalhos virtuais de d’Alembert) é aqui admitida; para todos os sistemas deste livro, a receita abaixo pode ser conferida diretamente contra Newton, como a Proposição 1.5 começou a fazer. Se a própria força de vínculo for desejada — a haste vai romper? — volta-se a Newton apenas para essa força, com o movimento já conhecido.

Método 1.7 (A receita lagrangiana)

(1) Conte os graus de liberdade e escolha coordenadas qiq_i — ângulos para rotações, abscissas ao longo de trilhos. (2) Exprima as posições r(qi,t)\vect r(q_i, t), derive para obter as velocidades e escreva EkE_k; escreva EpE_p. (3) L=EkEpL = E_k - E_p, descartando qualquer constante aditiva. (4) Uma equação de Euler–Lagrange por coordenada. (5) Antes de resolver, colha as grandezas conservadas: as coordenadas cíclicas (Definição 1.10) e a função energia (Proposição 1.14). (6) Verifique os limites: pequenos ângulos, rotação desligada, casos particulares conhecidos.

Exemplo 1.8 (O pêndulo, em três linhas)

Uma coordenada θ\theta; v=θ˙eθ\vect v = \ell\dot\theta\,\vect e_\theta, logo Ek=12m2θ˙2E_k = \tfrac12 m\ell^2\dot\theta^2 e Ep=mgcosθE_p = -mg\ell\cos\theta. Então L=12m2θ˙2+mgcosθL = \tfrac12 m\ell^2\dot\theta^2 + mg\ell\cos\theta e  ⁣d(m2θ˙)/ ⁣dt=mgsinθ\dd(m\ell^2\dot\theta)/\dd t = -mg\ell\sin\theta:

θ¨=gsinθ,\ddot\theta = -\frac{g}{\ell}\sin\theta ,

a equação que o volume do primeiro ano obteve a partir do torque do peso — sem que a tração fosse mencionada uma única vez.

Exemplo 1.9 (Conta num aro que gira)

Uma conta de massa mm desliza sobre um aro circular vertical de raio RR forçado a girar em torno de seu diâmetro vertical com ω\omega constante (Exemplo 1.2). Uma coordenada, o ângulo polar θ\theta medido a partir do ponto mais baixo. A velocidade da conta tem uma componente Rθ˙R\dot\theta ao longo do aro e outra ωRsinθ\omega R\sin\theta devida à rotação imposta, perpendicular a ele:

L=12mR2θ˙2+12mω2R2sin2θ+mgRcosθ,mR2θ¨=mω2R2sinθcosθmgRsinθ.L = \tfrac12 mR^2\dot\theta^2 + \tfrac12 m\omega^2R^2\sin^2\theta + mgR\cos\theta , \qquad mR^2\ddot\theta = m\omega^2R^2\sin\theta\cos\theta - mgR\sin\theta .

Equilíbrios em que θ¨=0\ddot\theta = 0: o ponto mais baixo θ=0\theta = 0 (e o mais alto, sempre instável) e, quando ω2>g/R\omega^2 > g/R, um novo par cosθeq=g/ω2R\cos\theta_{\text{eq}} = g/\omega^2R. Escrevendo a equação como mR2θ¨= ⁣dUeff/ ⁣dθmR^2\ddot\theta = -\dd U_{\text{eff}}/\dd\theta com a energia potencial efetiva

Ueff(θ)=mgRcosθ12mω2R2sin2θU_{\text{eff}}(\theta) = -mgR\cos\theta - \tfrac12 m\omega^2R^2\sin^2\theta

torna a geometria visível: abaixo da taxa crítica ωc=g/R\omega_{\text{c}} = \sqrt{g/R} o fundo é um poço; acima dela, o fundo se torna um cume e a conta se acomoda na encosta, subindo mais quanto mais rápido o aro gira — o princípio do regulador centrífugo que governava as máquinas a vapor.

A energia potencial efetiva da conta no aro que gira. Quando  ultrapassa √g/R, o poço único do fundo se desdobra em dois poços simétricos: o ângulo de equilíbrio cresce com a rotação.
A energia potencial efetiva da conta no aro que gira. Quando ω\omega ultrapassa g/R\sqrt{g/R}, o poço único do fundo se desdobra em dois poços simétricos: o ângulo de equilíbrio cresce com a rotação.

1.3 Simetrias e leis de conservação

Definição 1.10 (Momento generalizado, coordenada cíclica)

O momento generalizado conjugado à coordenada qiq_i é

pi=Lq˙i.p_i = \frac{\partial L}{\partial\dot q_i} .

Para uma coordenada cartesiana, é o momento linear ordinário mx˙m\dot x; para um ângulo, é um momento angular. Uma coordenada que não aparece em LL (embora sua velocidade apareça) diz-se cíclica.

Proposição 1.11 (Coordenadas cíclicas dão leis de conservação)

Se qiq_i é cíclica, seu momento conjugado se conserva: L/qi=0\partial L/\partial q_i = 0 implica  ⁣dpi/ ⁣dt=0\dd p_i/\dd t = 0. Escolher as coordenadas de modo que o maior número possível delas seja cíclica é o passo isolado mais eficaz na resolução de um problema de mecânica.

Demonstração. Imediato, a partir da equação de Euler–Lagrange para qiq_i.

Exemplo 1.12 (Força central, resolvida por inspeção)

Uma partícula num potencial central Ep(r)E_p(r), em coordenadas polares no seu plano de movimento:

L=12m(r˙2+r2φ˙2)Ep(r).L = \tfrac12 m(\dot r^2 + r^2\dot\varphi^2) - E_p(r) .

φ\varphi é cíclica, de modo que pφ=mr2φ˙p_\varphi = mr^2\dot\varphi — o momento angular — se conserva: a lei das áreas de Kepler, que o volume do primeiro ano deduziu da equação do torque, cai aqui antes de qualquer equação ser resolvida. A equação radial restante é mr¨=mrφ˙2Ep(r)m\ddot r = mr\dot\varphi^2 - E_p'(r), isto é, o movimento unidimensional na energia potencial efetiva Ep(r)+pφ2/2mr2E_p(r) + p_\varphi^2/2mr^2 daquele volume.

Teorema 1.13 (Teorema de Noether)

A toda simetria contínua da lagrangiana corresponde uma grandeza conservada. Precisamente: se o deslocamento qiqi+εKi(q)q_i \to q_i + \varepsilon\,K_i(q) deixa LL inalterada em primeira ordem em ε\varepsilon para todos os movimentos, então

Q=ipiKi(q)Q = \sum_i p_i\,K_i(q)

é constante ao longo de todo movimento real. A uniformidade do espaço (invariância por translação) fornece o momento linear; a isotropia do espaço (invariância por rotação) fornece o momento angular; a uniformidade do tempo fornece a energia (Proposição 1.14).

Demonstração. A invariância em primeira ordem significa 0=δL=i(qiLKi+q˙iLK˙i)ε0 = \delta L = \sum_i\big(\partial_{q_i}L\,K_i + \partial_{\dot q_i}L\,\dot K_i\big)\varepsilon. Sobre um movimento real, qiL=p˙i\partial_{q_i}L = \dot p_i por Euler–Lagrange, de modo que o colchete vale i(p˙iKi+piK˙i)= ⁣dQ/ ⁣dt\sum_i(\dot p_iK_i + p_i\dot K_i) = \dd Q/\dd t. Uma coordenada cíclica é o caso particular Ki=δijK_i = \delta_{ij}. O caso do deslocamento temporal exige o cálculo separado da Proposição 1.14; o teorema completo, para transformações que também alteram tt ou modificam LL por uma derivada total, é demonstrado nos cursos de mecânica analítica e aqui admitido nessa generalidade.

Proposição 1.14 (A função energia)

Ao longo de qualquer movimento, a função energia

h=iq˙iLq˙iLobedece a ⁣dh ⁣dt=Lt.h = \sum_i \dot q_i\,\frac{\partial L}{\partial\dot q_i} - L \qquad\text{obedece a}\qquad \frac{\dd h}{\dd t} = -\frac{\partial L}{\partial t} .

Se LL não depende explicitamente do tempo, hh se conserva. Se, além disso, as relações r(q)\vect r(q) entre posições e coordenadas não envolvem o tempo — nenhuma rotação imposta, nenhum apoio móvel — então EkE_k é uma forma quadrática nas q˙i\dot q_i e h=Ek+Eph = E_k + E_p: a energia mecânica. Com um vínculo dependente do tempo, hh ainda se conserva quando L/t=0\partial L/\partial t = 0, mas não é a energia: o motor que impõe o vínculo troca trabalho com o sistema.

Demonstração.  ⁣dh/ ⁣dt=i(q¨ipi+q˙ip˙i)i(qiLq˙i+q˙iLq¨i)tL\dd h/\dd t = \sum_i(\ddot q_ip_i + \dot q_i\dot p_i) - \sum_i(\partial_{q_i}L\,\dot q_i + \partial_{\dot q_i}L\,\ddot q_i) - \partial_tL. Os termos em q¨i\ddot q_i se cancelam; as equações de Euler–Lagrange transformam p˙i\dot p_i em qiL\partial_{q_i}L, cancelando o par seguinte; resta tL-\partial_tL. Se Ek=12ajk(q)q˙jq˙kE_k = \tfrac12\sum a_{jk}(q)\dot q_j\dot q_k, a identidade de Euler para formas quadráticas dá q˙iEk/q˙i=2Ek\sum\dot q_i\,\partial E_k/\partial\dot q_i = 2E_k, logo h=2Ek(EkEp)=Ek+Eph = 2E_k - (E_k - E_p) = E_k + E_p.

Exemplo 1.15 (O aro girante conserva hh, não EE)

Para a conta da Exemplo 1.9, LL não tem tt explícito, logo h=12mR2θ˙2+Ueff(θ)h = \tfrac12 mR^2\dot\theta^2 + U_{\text{eff}} (\theta) se conserva — mas a energia mecânica E=12mR2θ˙2+12mω2R2sin2θmgRcosθE = \tfrac12 mR^2\dot\theta^2 + \tfrac12 m\omega^2R^2\sin^2\theta - mgR\cos\theta não se conserva: E=h+mω2R2sin2θE = h + m\omega^2R^2\sin^2\theta varia enquanto a conta desliza. A diferença é o trabalho do motor que mantém ω\omega constante enquanto a distância da conta ao eixo muda.

1.4 Partículas carregadas e pequenas oscilações

Proposição 1.16 (Lagrangiana de uma partícula carregada)

Num campo eletromagnético descrito pelos potenciais VV e A\vect A (com E=VtA\vect E = -\vect\nabla V - \partial_t\vect A e B=curlA\vect B = \operatorname{\vect{curl}}\vect A, como no volume do segundo ano), a lagrangiana

L=12mv2qV+qvAL = \tfrac12 m\vect v^{\,2} - qV + q\,\vect v\cdot\vect A

fornece, pelas equações de Euler–Lagrange, exatamente a força de Lorentz mv˙=q(E+vB)m\dot{\vect v} = q(\vect E + \vect v\wedge\vect B). A força magnética, que não realiza trabalho e não deriva de nenhuma energia potencial ordinária, entra por um termo linear na velocidade; o momento conjugado passa a ser p=mv+qA\vect p = m\vect v + q\vect A, e não mais mvm\vect v sozinho.

Demonstração. Para a componente xx: px=mx˙+qAxp_x = m\dot x + qA_x e xL=qxV+qvxA\partial_xL = -q\,\partial_xV + q\,\vect v\cdot\partial_x\vect A. A equação de Euler–Lagrange dá mx¨=qxVq ⁣dAx/ ⁣dt+qvxAm\ddot x = -q\,\partial_xV - q\,\dd A_x/\dd t + q\,\vect v\cdot\partial_x\vect A. Ao longo do movimento,  ⁣dAx/ ⁣dt=tAx+(v)Ax\dd A_x/\dd t = \partial_tA_x + (\vect v\cdot\vect\nabla)A_x, logo mx¨=qEx+q[vxA(v)Ax]m\ddot x = qE_x + q\big[\vect v\cdot\partial_x\vect A - (\vect v\cdot \vect\nabla)A_x\big], e o colchete é a componente xx de v(A)=vB\vect v\wedge(\vect\nabla\wedge\vect A) = \vect v\wedge\vect B — basta expandir ambos para verificar.

Proposição 1.17 (Pequenas oscilações e modos normais)

Perto de um equilíbrio estável qeqq^{\text{eq}}, expanda LL até segunda ordem nos deslocamentos ui=qiqiequ_i = q_i - q_i^{\text{eq}}: L12miju˙iu˙j12kijuiujL \approx \tfrac12\sum m_{ij}\dot u_i\dot u_j - \tfrac12\sum k_{ij}u_iu_j, com matrizes simétricas constantes. As equações de movimento são lineares e todo movimento é uma superposição de modos normais: oscilações coletivas ui(t)=aicos(Ωt+ϕ)u_i(t) = a_i\cos(\Omega t + \phi) em que todas as coordenadas vibram numa mesma frequência comum, com amplitudes e frequências que resolvem j(kijΩ2mij)aj=0\sum_j(k_{ij} - \Omega^2m_{ij})\,a_j = 0 — um problema matricial de autovalores, com nn modos para nn graus de liberdade.

Demonstração. Os termos lineares se anulam num equilíbrio; as equações de Euler–Lagrange da LL quadrática dão jmiju¨j=jkijuj\sum_jm_{ij}\ddot u_j = -\sum_jk_{ij}u_j. Inserir a oscilação de prova fornece o sistema linear enunciado, que só tem vetor de amplitudes não nulo quando det(kijΩ2mij)=0\det(k_{ij} - \Omega^2m_{ij}) = 0: nn valores de Ω2\Omega^2, todos positivos num equilíbrio estável. Que o movimento geral seja uma superposição dos modos é a diagonalização simultânea de duas formas quadráticas, resultado da álgebra linear do volume de matemática do segundo ano; a completude é admitida.

Exemplo 1.18 (Dois pêndulos acoplados por uma mola)

Dois pêndulos iguais (massa mm, comprimento \ell), com as massas unidas por uma mola de constante elástica kk, relaxada quando ambos pendem na vertical. Para pequenos ângulos,

L=12m2(θ˙12+θ˙22)12mg(θ12+θ22)12k2(θ2θ1)2.L = \tfrac12 m\ell^2(\dot\theta_1^2 + \dot\theta_2^2) - \tfrac12 mg\ell(\theta_1^2 + \theta_2^2) - \tfrac12 k\ell^2(\theta_2 - \theta_1)^2 .

A simetria sugere as combinações s=θ1+θ2s = \theta_1 + \theta_2 e d=θ1θ2d = \theta_1 - \theta_2, que desacoplam as equações: o modo em fase (θ1=θ2\theta_1 = \theta_2, mola inerte), com Ω1=g/\Omega_1 = \sqrt{g/\ell}, e o modo em oposição (θ1=θ2\theta_1 = -\theta_2, mola distendida em dobro), com Ω2=g/+2k/m\Omega_2 = \sqrt{g/\ell + 2k/m}. Solte um só pêndulo — mistura em partes iguais dos dois modos — e a energia migra por inteiro de um pêndulo para o outro e de volta, na frequência de batimento (Ω2Ω1)/2π(\Omega_2 - \Omega_1)/2\pi: a demonstração dos pêndulos acoplados e o mecanismo por trás de toda transferência ressonante de energia, dos circuitos sintonizados às vibrações moleculares.

Os dois modos normais dos pêndulos acoplados. Em fase, a mola nunca se distende e a frequência é a do pêndulo livre; em oposição, cada massa sente a mola dobrada.
Os dois modos normais dos pêndulos acoplados. Em fase, a mola nunca se distende e a frequência é a do pêndulo livre; em oposição, cada massa sente a mola dobrada.
Um pêndulo duplo registrado por uma longa exposição: duas coordenadas, uma lagrangiana e um movimento que nenhuma fórmula prevê por muito tempo — a maquinaria da mínima ação deste capítulo escreve as equações; o caos mantém humildes as suas soluções.
Um pêndulo duplo registrado por uma longa exposição: duas coordenadas, uma lagrangiana e um movimento que nenhuma fórmula prevê por muito tempo — a maquinaria da mínima ação deste capítulo escreve as equações; o caos mantém humildes as suas soluções.

1.5 Exercícios

Exercício 1.1

Conte os graus de liberdade e proponha coordenadas generalizadas: (a) uma partícula no interior de uma tigela fixa; (b) um cilindro que rola sem deslizar por um plano inclinado fixo; (c) um pêndulo duplo cujo pivô superior desliza sobre um trilho horizontal; (d) um haltere (duas massas, haste rígida) no espaço; (e) duas contas no mesmo arame circular fixo. Qual vínculo desta lista relaciona velocidades em vez de posições, e por que ele é, ainda assim, integrável a um vínculo holônomo?

Solução

Solução de Exercício 1.1.

(a) 2 (dois ângulos sobre a superfície da tigela). (b) 1: a abscissa xx ao longo da encosta, com o ângulo de rotação preso a ela pelo rolamento, x=Rϕx = R\phi. (c) 3: XX, θ1\theta_1, θ2\theta_2. (d) 5: três para o centro, dois para a direção da haste. (e) 2: um ângulo cada. A condição de rolamento é uma relação entre velocidades, x˙=Rϕ˙\dot x = R\dot\phi; neste problema plano ela se integra de imediato em x=Rϕ+constx = R\phi + \text{const}, portanto é holônoma. (Para uma bola que rola sobre um plano ela não se integra, e a mecânica lagrangiana precisa de uma extensão.)

Exercício 1.2

Para o pêndulo plano (Exemplo 1.8): (a) verifique as dimensões de LL e de pθ=L/θ˙p_\theta = \partial L/\partial\dot\theta; (b) identifique pθp_\theta fisicamente; (c) deduza o período para pequenos ângulos; (d) calcule a ação SS de uma oscilação pequena completa de amplitude θ0\theta_0 — e explique a resposta antes de calcular (qual é a média temporal de EkEpE_k - E_p numa oscilação harmônica?).

Solução

Solução de Exercício 1.2.

(a) [L]=J[L] = \mathrm{J}; [pθ]=kgm2/s[p_\theta] = \mathrm{kg}\,\mathrm{m}^{2}/\mathrm{s} — um momento angular, pois θ\theta é adimensional. (b) pθ=m2θ˙p_\theta = m\ell^2\dot\theta é o momento angular da massa em torno do pivô. (c) θ¨=(g/)θ\ddot\theta = -(g/\ell)\thetaT=2π/gT = 2\pi\sqrt{\ell/g}. (d) Com EpE_p medida a partir do equilíbrio, uma oscilação harmônica tem médias temporais iguais de energia cinética e potencial, de modo que L=0\langle L\rangle = 0 e S=0S = 0 ao longo de um período inteiro — o cálculo confirma: S=0T12m2θ02[ω2sin2ωt(g/)cos2ωt] ⁣dt=0S = \int_0^T\tfrac12 m\ell^2\theta_0^2[\omega^2\sin^2 \omega t - (g/\ell)\cos^2\omega t]\,\dd t = 0, já que ω2=g/\omega^2 = g/\ell.

Exercício 1.3

Uma máquina de Atwood: as massas m1m_1 e m2m_2 pendem de um fio ideal que passa por uma polia sem massa. (a) Escolha uma coordenada e escreva LL. (b) Encontre a aceleração. (c) O tratamento de Newton precisava da tração — para onde ela foi? (d) Como você recuperaria a tração uma vez conhecido o movimento?

Solução

Solução de Exercício 1.3.

(a) Seja xx a descida de m1m_1 (de modo que m2m_2 sobe de xx): L=12(m1+m2)x˙2+(m1m2)gxL = \tfrac12(m_1 + m_2)\dot x^2 + (m_1 - m_2)gx. (b) (m1+m2)x¨=(m1m2)g(m_1 + m_2)\ddot x = (m_1 - m_2)g: a=(m1m2)g/(m1+m2)a = (m_1 - m_2)g/(m_1 + m_2). (c) A tração age nas duas extremidades de um fio inextensível: em qualquer deslocamento permitido os seus trabalhos se cancelam, e por isso ela nunca entra em LL. (d) Newton aplicado só a m1m_1: T=m1(ga)=2m1m2g/(m1+m2)T = m_1(g - a) = 2m_1m_2g/(m_1 + m_2).

Exercício 1.4

Uma partícula livre em coordenadas cilíndricas: L=12m(r˙2+r2φ˙2+z˙2)L = \tfrac12 m(\dot r^2 + r^2\dot\varphi^2 + \dot z^2). (a) Quais coordenadas são cíclicas e quais são os momentos conservados? (b) Por que prp_r não se conserva, embora nenhuma força atue? (c) Escreva a equação de Euler–Lagrange para rr e interprete o termo mrφ˙2mr\dot\varphi^2. (d) Verifique que uma reta percorrida com velocidade constante a resolve.

Solução

Solução de Exercício 1.4.

(a) φ\varphi e zz: pφ=mr2φ˙p_\varphi = mr^2\dot\varphi (o momento angular em torno do eixo) e pz=mz˙p_z = m\dot z se conservam. (b) rr aparece em LL através de r2φ˙2r^2\dot\varphi^2, logo não é cíclica: p˙r=mrφ˙20\dot p_r = mr\dot\varphi^2 \neq 0. Nada está errado — pr=mr˙p_r = m\dot r é a componente radial de um vetor constante p\vect p, e uma componente ao longo de uma direção que gira não precisa ser constante. (c) mr¨=mrφ˙2m\ddot r = mr\dot\varphi^2: o termo centrífugo, o preço de usar coordenadas presas a direções que giram. (d) Para uma reta à distância bb percorrida com velocidade vv: r=b2+v2t2r = \sqrt{b^2 + v^2t^2}, r2φ˙=bvr^2\dot\varphi = bv; então r¨=b2v2/r3=r(bv/r2)2=rφ˙2\ddot r = b^2v^2/r^3 = r(bv/r^2)^2 = r\dot\varphi^2.

Exercício 1.5 ★★

Um bloco de massa mm desliza sobre a face sem atrito (ângulo α\alpha) de uma cunha de massa MM, ela própria livre para deslizar sobre um piso sem atrito. (a) Escolha duas coordenadas: a abscissa XX da cunha e a distância ss percorrida pelo bloco ao longo da face; escreva LL. (b) Qual coordenada é cíclica e que lei de conservação ela exprime? (c) Encontre as duas acelerações. (d) Verifique os limites MM \to \infty e α90\alpha \to 90^\circ.

Solução

Solução de Exercício 1.5.

(a) Posição do bloco (X+scosα, ssinα)(X + s\cos\alpha,\ -s\sin\alpha), logo

L=12MX˙2+12m(X˙2+2X˙s˙cosα+s˙2)+mgssinα.L = \tfrac12 M\dot X^2 + \tfrac12 m\big(\dot X^2 + 2\dot X\dot s\cos\alpha + \dot s^2\big) + mgs\sin\alpha .

(b) XX é cíclica: P=(M+m)X˙+ms˙cosαP = (M + m)\dot X + m\dot s\cos\alpha se conserva — o momento horizontal total, pois nenhuma força horizontal externa atua. (c) A equação de ss é s¨+X¨cosα=gsinα\ddot s + \ddot X\cos\alpha = g\sin\alpha; com X¨=ms¨cosα/(M+m)\ddot X = -m\ddot s\cos\alpha/(M + m) vindo de (b),

s¨=(M+m)gsinαM+msin2α,X¨=mgsinαcosαM+msin2α.\ddot s = \frac{(M + m)g\sin\alpha}{M + m\sin^2\alpha} , \qquad \ddot X = -\frac{mg\sin\alpha\cos\alpha}{M + m\sin^2\alpha} .

(d) MM \to \infty: s¨gsinα\ddot s \to g\sin\alpha, o plano inclinado fixo; α90\alpha \to 90^\circ: s¨g\ddot s \to g, X¨0\ddot X \to 0 — queda livre ao longo de uma face vertical, sem empurrar a cunha.

Exercício 1.6 ★★

O pêndulo esférico: uma massa na ponta de uma haste de comprimento \ell, livre nos dois ângulos (θ\theta a partir da vertical descendente, φ\varphi em torno dela). (a) Escreva LL. (b) Identifique a coordenada cíclica e o momento conservado pφp_\varphi. (c) Reduza o movimento de θ\theta a um potencial efetivo e esboce-o. (d) Para o movimento cônico θ=θ0\theta = \theta_0, recupere a relação do pêndulo cônico cosθ0=g/ω2\cos\theta_0 = g/\ell\omega^2 do volume do primeiro ano.

Solução

Solução de Exercício 1.6.

(a) L=12m2(θ˙2+sin2θφ˙2)+mgcosθL = \tfrac12 m\ell^2(\dot\theta^2 + \sin^2\theta\,\dot\varphi^2) + mg\ell\cos\theta. (b) φ\varphi é cíclica: pφ=m2sin2θφ˙p_\varphi = m\ell^2\sin^2\theta\,\dot\varphi, o momento angular vertical. (c) Eliminando φ˙\dot\varphi, 12m2θ˙2+Ueff(θ)\tfrac12 m\ell^2\dot\theta^2 + U_{\text{eff}}(\theta) se conserva, com

Ueff(θ)=pφ22m2sin2θmgcosθ:U_{\text{eff}}(\theta) = \frac{p_\varphi^2}{2m\ell^2\sin^2\theta} - mg\ell\cos\theta :

uma barreira em θ=0\theta = 0 e θ=π\theta = \pi (para pφ0p_\varphi \neq 0) com um mínimo entre elas — a massa nuta entre dois círculos. (d) No mínimo, θ˙=0\dot\theta = 0 com θ=θ0\theta = \theta_0 constante: pφ2cosθ0/m2sin3θ0=mgsinθ0p_\varphi^2\cos\theta_0/m\ell^2\sin^3\theta_0 = mg\ell\sin\theta_0; inserindo pφ=m2sin2θ0ωp_\varphi = m\ell^2\sin^2\theta_0\,\omega obtém-se ω2cosθ0=g\ell\omega^2\cos\theta_0 = g.

Exercício 1.7 ★★

Um pêndulo (massa mm, comprimento \ell) pende de um carrinho de massa MM livre para rolar sobre um trilho horizontal. (a) Com as coordenadas XX (carrinho) e θ\theta, escreva LL. (b) O que se conserva, e por quê fisicamente? (c) Linearize para θ\theta pequeno e mostre que a frequência de oscilação é Ω=(1+m/M)g/\Omega = \sqrt{(1 + m/M)\,g/\ell}. (d) Explique os limites MM \to \infty e M0M \to 0 — por que um carrinho leve aumenta a frequência?

Solução

Solução de Exercício 1.7.

(a) Massa em (X+sinθ, cosθ)(X + \ell\sin\theta,\ -\ell\cos\theta):

L=12(M+m)X˙2+mcosθX˙θ˙+12m2θ˙2+mgcosθ.L = \tfrac12(M + m)\dot X^2 + m\ell\cos\theta\,\dot X\dot\theta + \tfrac12 m\ell^2\dot\theta^2 + mg\ell\cos\theta .

(b) XX é cíclica: (M+m)X˙+mcosθθ˙(M + m)\dot X + m\ell\cos\theta\,\dot\theta se conserva — o momento horizontal do sistema inteiro (o trilho só empurra verticalmente). (c) Pequenos ângulos: (M+m)X¨+mθ¨=0(M + m)\ddot X + m\ell\ddot\theta = 0 e θ¨+X¨+gθ=0\ell\ddot\theta + \ddot X + g\theta = 0; eliminando X¨\ddot X, θ¨[1m/(M+m)]=gθ\ell\ddot\theta\,[1 - m/(M + m)] = -g\theta, logo Ω2=(M+m)g/M=(1+m/M)g/\Omega^2 = (M + m)g/M\ell = (1 + m/M)\,g/\ell. (d) MM \to \infty: o pivô fixo, Ω2=g/\Omega^2 = g/\ell. Para MM pequeno, o carrinho recua em sentido oposto ao da massa e a oscilação se dá em torno de um ponto entre os dois (o centro de massa fixo), o que encurta o pêndulo efetivo — daí a frequência mais alta, que diverge quando M0M \to 0.

Exercício 1.8 ★★

Uma partícula de carga qq num campo uniforme B=Bez\vect B = B\vect e_z, descrito por A=12Br\vect A = \tfrac12\vect B\wedge\vect r. (a) Escreva LL em coordenadas cartesianas. (b) Deduza as equações de movimento e verifique que descrevem o círculo do cíclotron com ωc=qB/m\omega_{\text{c}} = qB/m. (c) Calcule os momentos conjugados pxp_x e pyp_y: valem mx˙m\dot x e my˙m\dot y? Conservam-se? (d) Mostre que LL escrita em coordenadas cilíndricas tem φ\varphi cíclica e identifique o pφp_\varphi conservado para um círculo centrado no eixo.

Solução

Solução de Exercício 1.8.

(a) A=12B(y,x,0)\vect A = \tfrac12 B(-y, x, 0): L=12m(x˙2+y˙2+z˙2)+12qB(xy˙yx˙)L = \tfrac12 m(\dot x^2 + \dot y^2 + \dot z^2) + \tfrac12 qB(x\dot y - y\dot x). (b) A equação de xx:  ⁣d(mx˙12qBy)/ ⁣dt=12qBy˙\dd(m\dot x - \tfrac12 qBy)/\dd t = \tfrac12 qB\dot y, isto é, mx¨=qBy˙m\ddot x = qB\dot y; do mesmo modo my¨=qBx˙m\ddot y = -qB\dot x: movimento circular com ωc=qB/m\omega_{\text{c}} = qB/m e z˙\dot z constante. (c) px=mx˙12qBymx˙p_x = m\dot x - \tfrac12 qBy \neq m\dot x; nem xx nem yy é cíclica (L/x=12qBy˙\partial L/\partial x = \tfrac12 qB\dot y), de modo que nenhum dos momentos se conserva — só combinações como mx˙qBym\dot x - qBy (verifique: sua derivada se anula). (d) Em coordenadas cilíndricas, Aφ=12BrA_\varphi = \tfrac12 Br: L=12m(r˙2+r2φ˙2+z˙2)+12qBr2φ˙L = \tfrac12 m(\dot r^2 + r^2\dot\varphi^2 + \dot z^2) + \tfrac12 qBr^2\dot\varphi; φ\varphi é cíclica e pφ=mr2φ˙+12qBr2p_\varphi = mr^2\dot\varphi + \tfrac12 qBr^2. Num círculo de raio RR centrado no eixo, φ˙=ωc\dot\varphi = -\omega_{\text{c}}, logo pφ=qBR2+12qBR2=12qBR2p_\varphi = -qBR^2 + \tfrac12 qBR^2 = -\tfrac12 qBR^2.

Exercício 1.9 ★★

Para a conta no aro que gira (Exemplo 1.9): (a) calcule a função energia hh e verifique que a equação de movimento a conserva; (b) calcule a energia mecânica EE e mostre que Eh=mω2R2sin2θE - h = m\omega^2R^2\sin^2\theta; (c) obtenha a potência fornecida pelo motor em função de θ\theta e θ˙\dot\theta; (d) obtenha a frequência das pequenas oscilações em torno do equilíbrio inclinado quando ω2>g/R\omega^2 > g/R e mostre que ela se anula quando ω2g/R\omega^2 \to g/R — a lentidão que anuncia o desdobramento do poço.

Solução

Solução de Exercício 1.9.

(a) h=θ˙L/θ˙L=12mR2θ˙212mω2R2sin2θmgRcosθ=12mR2θ˙2+Ueffh = \dot\theta\,\partial L/\partial\dot\theta - L = \tfrac12 mR^2\dot\theta^2 - \tfrac12 m\omega^2R^2\sin^2\theta - mgR\cos\theta = \tfrac12 mR^2\dot\theta^2 + U_{\text{eff}};  ⁣dh/ ⁣dt=θ˙[mR2θ¨+Ueff(θ)]=0\dd h/\dd t = \dot\theta\,[mR^2\ddot\theta + U_{\text{eff}}'(\theta)] = 0 pela equação de movimento. (b) E=12mR2θ˙2+12mω2R2sin2θmgRcosθ=h+mω2R2sin2θE = \tfrac12 mR^2\dot\theta^2 + \tfrac12 m\omega^2R^2\sin^2\theta - mgR\cos\theta = h + m\omega^2R^2\sin^2\theta. (c) P= ⁣dE/ ⁣dt=mω2R2sin2θθ˙P = \dd E/\dd t = m\omega^2R^2\sin2\theta\,\dot\theta: positiva enquanto a conta se afasta do eixo (o motor trabalha contra a inércia da conta), negativa na volta. (d) Ueff=mgRcosθmω2R2cos2θU_{\text{eff}}'' = mgR\cos\theta - m\omega^2R^2\cos2\theta; em cosθeq=g/ω2R\cos\theta_{\text{eq}} = g/\omega^2R isso vale mω2R2sin2θeqm\omega^2R^2\sin^2\theta_{\text{eq}}, logo ωosc=ωsinθeq=ω1(g/ω2R)20\omega_{\text{osc}} = \omega\sin\theta_{\text{eq}} = \omega\sqrt{1 - (g/\omega^2R)^2} \to 0 quando ω2g/R\omega^2 \to g/R: a força restauradora se achata exatamente quando os poços se fundem.

Exercício 1.10 ★★★

O pêndulo duplo igual (m1=m2=mm_1 = m_2 = m, 1=2=\ell_1 = \ell_2 = \ell). (a) Mostre que, para pequenos ângulos, L=12m2(2θ˙12+2θ˙1θ˙2+θ˙22)12mg(2θ12+θ22)L = \tfrac12 m\ell^2(2\dot\theta_1^2 + 2\dot\theta_1\dot\theta_2 + \dot\theta_2^2) - \tfrac12 mg\ell(2 \theta_1^2 + \theta_2^2). (b) Escreva as duas equações de movimento. (c) Obtenha as frequências normais Ω±2=(22)g/\Omega_\pm^2 = (2 \mp \sqrt2)\,g/\ell e a forma de cada modo (θ2=±2θ1\theta_2 = \pm\sqrt2\,\theta_1). (d) Em grande amplitude, este sistema é um exemplo clássico de caos: explique em poucas linhas o que quebra a análise de pequenos ângulos e por que nenhuma lei de conservação se perde.

Solução

Solução de Exercício 1.10.

(a) Posições x2=(sinθ1+sinθ2)x_2 = \ell(\sin\theta_1 + \sin\theta_2), etc.; guardando os termos quadráticos, o termo cruzado de velocidade é m2θ˙1θ˙2m\ell^2\dot\theta_1\dot\theta_2, o que dá a LL enunciada. (b) 2θ¨1+θ¨2=2ω02θ12\ddot\theta_1 + \ddot\theta_2 = -2\omega_0^2\theta_1 e θ¨1+θ¨2=ω02θ2\ddot\theta_1 + \ddot\theta_2 = -\omega_0^2\theta_2, com ω02=g/\omega_0^2 = g/\ell. (c) Inserindo θi=aicosΩt\theta_i = a_i\cos\Omega t: det(2ω022Ω2Ω2Ω2ω02Ω2)=Ω44ω02Ω2+2ω04=0\det\begin{pmatrix} 2\omega_0^2 - 2\Omega^2 & -\Omega^2\\ -\Omega^2 & \omega_0^2 - \Omega^2\end{pmatrix} = \Omega^4 - 4\omega_0^2\Omega^2 + 2\omega_0^4 = 0, logo Ω±2=(22)ω02\Omega_\pm^2 = (2 \mp \sqrt2)\omega_0^2; a segunda linha dá a2/a1=Ω2/(ω02Ω2)=±2a_2/a_1 = \Omega^2/(\omega_0^2 - \Omega^2) = \pm\sqrt2: massas juntas (modo lento), massas opostas (modo rápido). (d) Em grande amplitude, os acoplamentos em sin\sin e cos\cos tornam as equações não lineares; as soluções deixam de se superpor e condições iniciais vizinhas se afastam exponencialmente (caos). A energia continua exatamente conservada — LL não tem tempo explícito — o caos diz respeito à previsibilidade, não à conservação.

Exercício 1.11 ★★★

A braquistócrona. Uma conta desliza sem atrito, partindo do repouso na origem, por uma curva y(x)y(x) (yy para baixo) até um ponto (a,b)(a, b). (a) Usando a conservação da energia, mostre que o tempo de descida é T=0a(1+y2)/2gy ⁣dxT = \int_0^a\sqrt{(1 + y'^2)/2gy}\,\dd x — um funcional, com xx no papel do tempo. (b) O integrando F(y,y)F(y, y') não tem xx explícito: mostre que h=yF/yFh = y'\,\partial F/\partial y' - F é constante ao longo da curva ótima (o mesmo cálculo da Proposição 1.14). (c) Deduza y(1+y2)=2ry(1 + y'^2) = 2r para uma constante rr e verifique que a cicloide x=r(ϕsinϕ)x = r(\phi - \sin\phi), y=r(1cosϕ)y = r(1 - \cos\phi) a satisfaz. (d) Mostre que a descida da conta até o fundo de um arco leva πr/g\pi\sqrt{r/g} e compare com a rampa reta até o mesmo ponto.

Solução

Solução de Exercício 1.11.

(a) v=2gyv = \sqrt{2gy} e  ⁣ds=1+y2 ⁣dx\dd s = \sqrt{1 + y'^2}\,\dd x dão o funcional. (b) O cálculo da Proposição 1.14 com xx no lugar do tempo:  ⁣dh/ ⁣dx=F/x=0\dd h/\dd x = -\partial F/\partial x = 0. (c) h=1/2gy(1+y2)h = -1/\sqrt{2gy(1 + y'^2)}, logo y(1+y2)=2ry(1 + y'^2) = 2r. Para a cicloide, y=sinϕ/(1cosϕ)y' = \sin\phi/(1 - \cos\phi) e 1+y2=2/(1cosϕ)1 + y'^2 = 2/(1 - \cos\phi), de onde y(1+y2)=2ry(1 + y'^2) = 2r. (d)  ⁣dt= ⁣ds/v=r/g ⁣dϕ\dd t = \dd s/v = \sqrt{r/g}\,\dd\phi (toda a dependência em ϕ\phi se cancela), de modo que o fundo (ϕ=π\phi = \pi) é alcançado em πr/g\pi\sqrt{r/g} — qualquer que seja o ponto de partida: a cicloide é também a tautócrona. A rampa reta até (πr,2r)(\pi r, 2r) leva π2+4r/g3.72r/g\sqrt{\pi^2 + 4}\,\sqrt{r/g} \approx 3.72\sqrt{r/g}, cerca de 18%18\% a mais que πr/g\pi\sqrt{r/g}.

Exercício 1.12 ★★★

Fermat como mínima ação. A luz num meio de índice n(y)n(y) viaja entre dois pontos no menor tempo (volume do segundo ano). (a) Mostre que o tempo de percurso ao longo de y(x)y(x) é T=1cn(y)1+y2 ⁣dxT = \tfrac1c\int n(y)\sqrt{1 + y'^2}\,\dd x. (b) Como o integrando não tem xx explícito, use o hh conservado do exercício anterior para mostrar que n(y)/1+y2=constn(y)\big/\sqrt{1 + y'^2} = \text{const}, e verifique que isso é a lei de Snell nsini=constn\sin i = \text{const} para um raio medido a partir da vertical. (c) Sobre uma estrada quente, o índice cresce com a altura como n(y)n0(1+βy)n(y) \approx n_0(1 + \beta y); mostre que um raio quase horizontal se encurva com raio de curvatura R1/βR \approx 1/\beta. (d) Com β=1.2×105m1\beta = 1.2 \times 10^{-5}\,\mathrm{m}^{-1}, de que distância um motorista cujos olhos estão a 1.2m1.2\,\mathrm{m} acima da estrada vê nela a miragem de “água”?

Solução

Solução de Exercício 1.12.

(a)  ⁣dt= ⁣ds/(c/n)\dd t = \dd s/(c/n). (b) h=n(y)/1+y2h = -n(y)/\sqrt{1 + y'^2} se conserva; 1/1+y2=cosθ1/\sqrt{1 + y'^2} = \cos\theta (θ\theta é o ângulo de inclinação) =sini= \sin i com ii medido da vertical: nsini=constn\sin i = \text{const} — a lei de Snell, aplicada de modo contínuo. (c) Para um raio quase horizontal, ncosθconstn\cos\theta \approx \text{const} com θ\theta pequeno dá θ ⁣dθ= ⁣dn/nβ ⁣dy\theta\,\dd\theta = \dd n/n \approx \beta\,\dd y; como  ⁣dy=θ ⁣dx\dd y = \theta\,\dd x, a curvatura é  ⁣dθ/ ⁣dx=β\dd\theta/\dd x = \beta, isto é, R=1/β83kmR = 1/\beta \approx 83\,\mathrm{km}, encurvando-se para cima (rumo aos nn maiores). (d) Um raio que parte do olho e tangencia a estrada após encurvar-se com raio RR toca-a em d=2hR=2×1.2×8.3e4450md = \sqrt{2hR} = \sqrt{2 \times 1.2 \times 8.3e4} \approx 450\,\mathrm{m}: além dessa distância a própria estrada não é vista — vê-se o céu refratado para cima, a “água” cintilante.

O pêndulo de Foucault no Panteão, em Paris. Coordenadas generalizadas, um vínculo e um referencial que gira lentamente: a rotação da sala aparece nas equações de movimento — e a deriva do plano de oscilação permite que um porão meça a rotação da Terra. Fotografia: Olga Khomitsevich, CC BY 2.0.
O pêndulo de Foucault no Panteão, em Paris. Coordenadas generalizadas, um vínculo e um referencial que gira lentamente: a rotação da sala aparece nas equações de movimento — e a deriva do plano de oscilação permite que um porão meça a rotação da Terra. Fotografia: Olga Khomitsevich, CC BY 2.0.

1.6 Problema: A vassoura que fica de cabeça para baixo

Problema 1.1

Problema de fim de semana — O pêndulo invertido de Kapitza

Um pêndulo rígido pode permanecer estável acima de seu pivô se este for sacudido para cima e para baixo com rapidez suficiente — descoberta analisada por Kapitza em 1951, surpreendente a ponto de parecer um truque de mágica, e o princípio pelo qual campos elétricos oscilantes aprisionam íons isolados. Modelamos o pêndulo como uma massa pontual mm na extremidade de uma haste rígida sem massa de comprimento =40cm\ell = 40\,\mathrm{cm}; θ\theta é o ângulo a partir da vertical descendente; g=9.81m/s2g = 9.81\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2}.

Parte I — O pêndulo rígido. De início, o pivô é mantido fixo.

  1. Escreva a lagrangiana e a equação de movimento.
  2. Dê a frequência f0f_0 das pequenas oscilações em torno de θ=0\theta = 0, e seu valor.
  3. Mostre que aqui h=Eh = E e use sua conservação para achar a velocidade mínima de lançamento da massa, no ponto mais baixo, que a leva até o topo.
  4. Linearize a equação perto de θ=π\theta = \pi (ponha θ=π+ϵ\theta = \pi + \epsilon) e mostre que ϵ¨=+(g/)ϵ\ddot\epsilon = +(g/\ell)\epsilon: com que rapidez cresce uma inclinação inicial de um milésimo de grau? Dê o tempo para que ela cresça por um fator ee.
  5. Uma vassoura equilibrada na ponta do dedo cai em cerca de um segundo e nunca se sustenta sozinha: diga numa frase o que a equação linearizada afirma sobre o equilíbrio θ=π\theta = \pi.

Parte II — Sacudindo o pivô. O pivô agora oscila verticalmente, com altura ys(t)=acosΩty_{\text{s}}(t) = a\cos\Omega t, sendo a=2.0cma = 2.0\,\mathrm{cm} e Ω\Omega ajustável.

  1. Escreva as coordenadas da massa e mostre que v2=2θ˙22aΩsin(Ωt)sinθθ˙+a2Ω2sin2Ωt\vect v^{\,2} = \ell^2\dot\theta^2 - 2a\Omega\ell\sin(\Omega t)\sin\theta\,\dot\theta + a^2\Omega^2\sin^2\Omega t.
  2. Mostre que duas lagrangianas que diferem por uma derivada temporal total  ⁣dF(q,t)/ ⁣dt\dd F(q,t)/\dd t dão as mesmas equações de Euler–Lagrange.
  3. Usando essa liberdade, reduza a lagrangiana a L=12m2θ˙2maΩ2cos(Ωt)cosθ+mgcosθL = \tfrac12 m \ell^2\dot\theta^2 - ma\Omega^2\ell\cos(\Omega t)\cos\theta + mg\ell\cos\theta. (Sugestão: sin(Ωt)sinθθ˙\sin(\Omega t)\sin\theta\,\dot\theta combina-se com um termo cos(Ωt)cosθ\cos(\Omega t)\cos\theta numa derivada total; termos que dependem só de tt podem ser descartados.)
  4. Deduza a equação de movimento

    θ¨=gsinθ+aΩ2cos(Ωt)sinθ.\ddot\theta = -\frac{g}{\ell}\sin\theta + \frac{a\Omega^2}{\ell}\cos(\Omega t)\sin\theta .

    Interprete o segundo termo como a substituição do peso por g+y¨sg + \ddot y_{\text{s}}: o pêndulo vive num elevador.

  5. A função energia hh ainda se conserva? E a energia? O que bombeia energia para dentro e para fora?
  6. No regime de Kapitza, aa \ll \ell e Ωω0=g/\Omega \gg \omega_0 = \sqrt{g/\ell}: verifique-os para a=2cma = 2\,\mathrm{cm}, =40cm\ell = 40\,\mathrm{cm}, Ω/2π=40Hz\Omega/2\pi = 40\,\mathrm{Hz}, e explique fisicamente por que a massa não consegue acompanhar a excitação.

Parte III — Separando o rápido do lento. Procure o movimento na forma θ(t)=Θ(t)+ξ(t)\theta(t) = \Theta(t) + \xi(t): uma deriva lenta Θ\Theta mais uma pequena ondulação ξ\xi na frequência de excitação.

  1. Mantendo apenas o maior termo de cada lado, mostre que a ondulação obedece a ξ¨+(aΩ2/)cos(Ωt)sinΘ\ddot\xi \approx +(a\Omega^2/\ell)\cos(\Omega t) \sin\Theta, com Θ\Theta congelado na escala de tempo da excitação.
  2. Deduza ξ(t)=(a/)cos(Ωt)sinΘ\xi(t) = -(a/\ell)\cos(\Omega t)\sin\Theta e verifique que sua amplitude é pequena, da ordem de a/a/\ell.
  3. Expanda sinθ=sin(Θ+ξ)\sin\theta = \sin(\Theta + \xi) em primeira ordem em ξ\xi e insira o resultado na equação de movimento.
  4. Faça a média sobre um período de excitação, com Θ\Theta fixo: usando cosΩt=0\langle\cos\Omega t\rangle = 0 e cos2Ωt=12\langle\cos^2\Omega t\rangle = \tfrac12, mostre que

    Θ¨=gsinΘa2Ω222sinΘcosΘ.\ddot\Theta = -\frac{g}{\ell}\sin\Theta - \frac{a^2\Omega^2}{2\ell^2}\sin\Theta\cos\Theta .
  5. Mostre que isso é um movimento na energia potencial efetiva

    Ueff(Θ)=mg(cosΘ+a2Ω24gsin2Θ).U_{\text{eff}}(\Theta) = mg\ell\Big({-\cos\Theta} + \frac{a^2\Omega^2}{4g\ell}\sin^2\Theta\Big) .
  6. Compare com a conta no aro que gira (Exemplo 1.9): a mesma matemática, com sinal oposto no termo novo — o que a sacudida faz ao equilíbrio de baixo que a rotação não fazia?
  7. Esboce UeffU_{\text{eff}} para excitação lenta e para excitação rápida e descreva cada equilíbrio e sua estabilidade em cada caso.

Parte IV — A vassoura se levanta.

  1. Expandindo UeffU_{\text{eff}} perto de Θ=π\Theta = \pi, mostre que a posição invertida é estável exatamente quando

    a2Ω2>2g.a^2\Omega^2 > 2g\ell .
  2. Calcule a frequência crítica de excitação fc=Ωc/2πf_{\text{c}} = \Omega_{\text{c}}/2\pi para o nosso pêndulo, bem como a velocidade máxima do pivô aΩca\Omega_{\text{c}} e a aceleração aΩc2a\Omega_{\text{c}}^2 (em unidades de gg) que ela exige.
  3. Em Ω=2Ωc\Omega = 2\Omega_{\text{c}}, obtenha a frequência da oscilação lenta do pêndulo em pé em torno de Θ=π\Theta = \pi e seu valor; verifique que ela é de fato lenta em comparação com a excitação.
  4. Ainda em Ω=2Ωc\Omega = 2\Omega_{\text{c}}, qual é a amplitude da ondulação ξ\xi com Θ\Theta pouco afastado de π\pi, em graus, para a/=0.05a/\ell = 0.05? Uma fotografia denunciaria o truque?
  5. Quanto a vassoura pode inclinar-se em relação à vertical e ainda voltar? Mostre que o poço da posição em pé se estende por Θπ<arccos(2g/a2Ω2)|\Theta - \pi| < \arccos(2g\ell/a^2\Omega^2), e avalie-o em Ω=2Ωc\Omega = 2\Omega_{\text{c}}.
  6. Um malabarista que equilibra uma vassoura na ponta de um dedo imóvel também a mantém em pé — por qual mecanismo inteiramente diferente? Nomeie a característica do pêndulo de Kapitza que dispensa realimentação.
  7. Resuma o resultado central: um pivô sacudido com amplitude 2cm2\,\mathrm{cm} a 45Hz45\,\mathrm{Hz} — o dobro da frequência crítica — mantém de cabeça para baixo um pêndulo de 40cm40\,\mathrm{cm}, num poço que alcança cerca de 7575^\circ a partir da vertical, balançando suavemente a cerca de 1.4Hz1.4\,\mathrm{Hz}. Onde na física se usa esse mesmo aprisionamento em média para segurar uma única partícula carregada?
Solução

Solução de Problema 1.1.

1. L=12m2θ˙2+mgcosθL = \tfrac12 m\ell^2\dot\theta^2 + mg\ell\cos\theta; θ¨=(g/)sinθ\ddot\theta = -(g/\ell)\sin\theta. 2. f0=g//2π=0.79Hzf_0 = \sqrt{g/\ell}/2\pi = 0.79\,\mathrm{Hz}. 3. A suspensão é fixa, logo h=E=12m2θ˙2mgcosθh = E = \tfrac12 m\ell^2\dot\theta^2 - mg\ell\cos\theta; do fundo ao topo, 12mv2=2mg\tfrac12 mv^2 = 2mg\ell: v=2g=4.0m/sv = 2\sqrt{g\ell} = 4.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}. 4. ϵ¨=+(g/)ϵ\ddot\epsilon = +(g/\ell)\epsilon: ϵet/τ\epsilon \propto \eu^{t/\tau} com τ=/g=0.20s\tau = \sqrt{\ell/g} = 0.20\,\mathrm{s}. 5. O equilíbrio invertido existe, mas é exponencialmente instável: qualquer inclinação, por menor que seja, multiplica-se por ee a cada 0.2s0.2\,\mathrm{s}. 6. Massa em (sinθ, acosΩtcosθ)(\ell\sin\theta,\ a\cos\Omega t - \ell\cos\theta); derive e eleve ao quadrado: o v2\vect v^{\,2} enunciado, com o termo cruzado 2aΩsin(Ωt)sinθθ˙-2a\Omega\ell\sin(\Omega t)\sin\theta\,\dot\theta. 7. Se L=L+ ⁣dF(q,t)/ ⁣dtL' = L + \dd F(q,t)/\dd t, a ação muda de F(q2,t2)F(q1,t1)F(q_2, t_2) - F(q_1, t_1), constante sob variações com extremidades fixas: os mesmos caminhos estacionários, as mesmas equações. 8. O termo cruzado vale maΩsin(Ωt)sinθθ˙= ⁣d[maΩsin(Ωt)cosθ]/ ⁣dtmaΩ2cos(Ωt)cosθ-ma\Omega\ell\sin(\Omega t)\sin\theta\, \dot\theta = \dd[ma\Omega\ell\sin(\Omega t)\cos\theta]/\dd t - ma\Omega^2\ell\cos(\Omega t)\cos\theta; descartando a derivada total e os termos que só dependem de tt (12ma2Ω2sin2Ωt\tfrac12 ma^2\Omega^2\sin^2\Omega t e mgacosΩt-mga\cos\Omega t), resta a LL enunciada. 9. m2θ¨=mgsinθ+maΩ2cos(Ωt)sinθm\ell^2\ddot\theta = -mg\ell\sin\theta + ma\Omega^2\ell\cos(\Omega t)\sin\theta. Como y¨s=aΩ2cosΩt\ddot y_{\text{s}} = -a\Omega^2\cos\Omega t, isso é θ¨=[(g+y¨s)/]sinθ\ddot\theta = -[(g + \ddot y_{\text{s}})/\ell]\sin\theta: no referencial do pivô, a gravidade aparente oscila. 10. LL passa a depender explicitamente de tt: hh não se conserva, nem EE — o agitador injeta e retira energia pelo pivô. 11. a/=0.05a/\ell = 0.05; Ω=251rad/s\Omega = 251\,\mathrm{rad}/\mathrm{s} contra ω0=4.9rad/s\omega_0 = 4.9\,\mathrm{rad}/\mathrm{s}: razão 5151. Num período de excitação (25ms25\,\mathrm{ms}) a gravidade mal altera θ˙\dot\theta: a massa é lenta demais para acompanhar e apenas estremece. 12. ξ¨\ddot\xi é a maior derivada (Ω2\propto\Omega^2) e a excitação é o maior termo de força: ξ¨=(aΩ2/)cos(Ωt)sinΘ\ddot\xi = (a\Omega^2/\ell)\cos(\Omega t)\sin\Theta. 13. Integrando duas vezes com Θ\Theta fixo: ξ=(a/)cos(Ωt)sinΘ\xi = -(a/\ell)\cos(\Omega t)\sin\Theta, de amplitude no máximo a/=0.05a/\ell = 0.05: um tremor de dois graus. 14. sinθsinΘ+ξcosΘ\sin\theta \approx \sin\Theta + \xi\cos\Theta, logo

Θ¨+ξ¨=g(sinΘ+ξcosΘ)+aΩ2cosΩt(sinΘ+ξcosΘ).\ddot\Theta + \ddot\xi = -\frac{g}{\ell}(\sin\Theta + \xi\cos\Theta) + \frac{a\Omega^2}{\ell}\cos\Omega t\,(\sin\Theta + \xi\cos\Theta) .

15. A média elimina ξ¨\ddot\xi, cosΩt\langle\cos\Omega t\rangle e ξ\langle\xi\rangle; o termo cruzado que sobrevive é (aΩ2/)cosΘξcosΩt=(a2Ω2/22)sinΘcosΘ(a\Omega^2/\ell)\cos\Theta\,\langle\xi\cos\Omega t\rangle = -(a^2\Omega^2/2\ell^2)\sin\Theta\cos\Theta, o que dá a equação enunciada para Θ\Theta. 16. Θ¨=(1/m2)Ueff(Θ)\ddot\Theta = -(1/m\ell^2)\,U_{\text{eff}}'(\Theta) com Ueff=mg[cosΘ+(a2Ω2/4g)sin2Θ]U_{\text{eff}} = mg\ell[-\cos\Theta + (a^2\Omega^2/4g\ell) \sin^2\Theta] — derive para verificar. 17. O mesmo termo em sin2\sin^2 do aro, mas com o sinal oposto: a rotação cavava poços nos flancos e só podia achatar o fundo; a sacudida vertical enrijece o poço do fundo e cava um novo poço no topo. 18. Excitação lenta (a2Ω2<2ga^2\Omega^2 < 2g\ell): mínimo em Θ=0\Theta = 0, máximo em π\pi — nada de novo. Excitação rápida: mínimos em 00 e em π\pi, separados por máximos em cosΘ=2g/a2Ω2\cos\Theta^* = -2g\ell/a^2\Omega^2; tanto o pêndulo pendente quanto o pêndulo em pé oscilam de modo estável. 19. Perto de π\pi, com Θ=π+ϵ\Theta = \pi + \epsilon: ϵ¨=[g/a2Ω2/22]ϵ\ddot\epsilon = [g/\ell - a^2\Omega^2/2\ell^2]\,\epsilon; a estabilidade exige o colchete negativo: a2Ω2>2ga^2\Omega^2 > 2g\ell. 20. Ωc=2g/a=140rad/s\Omega_{\text{c}} = \sqrt{2g\ell}/a = 140\,\mathrm{rad}/\mathrm{s}: fc=22Hzf_{\text{c}} = 22\,\mathrm{Hz}; velocidade máxima aΩc=2.8m/sa\Omega_{\text{c}} = 2.8\,\mathrm{m}/\mathrm{s}, aceleração máxima aΩc2=392m/s240ga\Omega_{\text{c}}^2 = 392\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2} \approx 40g. 21. ωlento=a2Ω2/22g/\omega_{\text{lento}} = \sqrt{a^2\Omega^2/2\ell^2 - g/\ell}; em Ω=2Ωc\Omega = 2\Omega_{\text{c}}, a2Ω2=8ga^2\Omega^2 = 8g\ell, logo ωlento=3g/=8.6rad/s\omega_{\text{lento}} = \sqrt{3g/\ell} = 8.6\,\mathrm{rad}/\mathrm{s}: 1.4Hz1.4\,\mathrm{Hz}, trinta vezes mais lento que a excitação de 45Hz45\,\mathrm{Hz}. 22. ξmax=(a/)sinΘ\xi_{\max} = (a/\ell)\sin\Theta: inclinado 1010^\circ em relação à vertical, ξmax=0.05sin170=8.7mrad0.5\xi_{\max} = 0.05\sin170^\circ = 8.7\,\mathrm{mrad} \approx 0.5^\circ — uma fotografia comum mostra uma vassoura parada em pé. 23. O poço da posição em pé alcança os máximos que o ladeiam: Θπ<arccos(2g/a2Ω2)|\Theta - \pi| < \arccos(2g\ell/a^2\Omega^2); em Ω=2Ωc\Omega = 2\Omega_{\text{c}}, arccos14=75\arccos\tfrac14 = 75^\circ — um poço notavelmente tolerante. 24. O malabarista usa realimentação: os olhos medem a inclinação e a mão acelera lateralmente para anulá-la. A estabilização de Kapitza é em malha aberta — a excitação nunca sabe onde está o pêndulo. 25. Sacudido a 45Hz45\,\mathrm{Hz} com amplitude de 2cm2\,\mathrm{cm}, o pêndulo de 40cm40\,\mathrm{cm} fica invertido num poço de 7575^\circ, balançando a 1.4Hz1.4\,\mathrm{Hz}. O mesmo potencial efetivo médio, obtido com um campo elétrico quadrupolar oscilante em vez de um pivô sacudido, confina íons isolados na armadilha de Paul — o instrumento de trabalho dos relógios atômicos e da computação quântica com íons aprisionados.

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