Physics · Livro 5 · Bachelor Year 3

Física universitária — 3.º ano

Física universitária — 3.º ano · Bachelor Year 3

2Mecânica hamiltoniana

Fotografe um pêndulo mil vezes e marque, para cada foto, seu ângulo contra seu momento angular: os pontos caem sobre uma curva fechada, e todo movimento possível do pêndulo é uma curva dessas — pequenas oscilações em ovais encaixados, voltas completas em linhas onduladas acima e abaixo e, entre elas, uma única curva cruzada que separa os dois regimes. Essa imagem, o retrato de fases, é o coração da reformulação que Hamilton deu à mecânica em 1833: o estado de um sistema é um ponto no espaço das coordenadas e dos momentos, sua evolução é um escoamento nesse espaço, e o escoamento é gerado por uma única função, a energia, por meio de duas equações de primeira ordem belamente simétricas. A recompensa não são cálculos mais fáceis — nisso Lagrange costuma vencer — mas a geometria certa: o escoamento conserva o volume do espaço de fases, o que fundará a física estatística; e seu esqueleto algébrico, o colchete de Poisson, é exatamente o que a mecânica quântica promoverá a comutador. Este capítulo é a dobradiça entre a mecânica das coisas e a física do século XX.

2.1 De Lagrange a Hamilton

Definição 2.1 (Hamiltoniana e equações canônicas)

Para um sistema de lagrangiana L(q,q˙,t)L(q, \dot q, t), exprima as velocidades em função dos momentos pi=L/q˙ip_i = \partial L/\partial\dot q_i e defina a hamiltoniana como a transformada de Legendre

H(q,p,t)=ipiq˙iL,H(q, p, t) = \sum_i p_i\dot q_i - L ,

uma função das coordenadas e dos momentos. O espaço de dimensão 2n2n dos (q1,,qn,p1,,pn)(q_1, \dots, q_n, p_1, \dots, p_n) é o espaço de fases; um só ponto dele — um estado — determina todo o futuro e todo o passado do sistema pelas equações canônicas da Teorema 2.2.

Teorema 2.2 (Equações de Hamilton)

As equações de Euler–Lagrange são equivalentes às 2n2n equações de primeira ordem

q˙i=Hpi,p˙i=Hqi.\dot q_i = \frac{\partial H}{\partial p_i} , \qquad \dot p_i = -\frac{\partial H}{\partial q_i} .

Demonstração. Derive H=piq˙iLH = \sum p_i\dot q_i - L como função de (q,p,t)(q, p, t):  ⁣dH=(q˙i ⁣dpi+pi ⁣dq˙i)(qiL ⁣dqi+q˙iL ⁣dq˙i)tL ⁣dt\dd H = \sum(\dot q_i\,\dd p_i + p_i\,\dd\dot q_i) - \sum( \partial_{q_i}L\,\dd q_i + \partial_{\dot q_i}L\,\dd\dot q_i) - \partial_tL\,\dd t. Os termos em  ⁣dq˙i\dd\dot q_i se cancelam pela definição de pip_i — o objetivo mesmo da transformada de Legendre — restando  ⁣dH=(q˙i ⁣dpiqiL ⁣dqi)tL ⁣dt\dd H = \sum(\dot q_i\,\dd p_i - \partial_{q_i}L\,\dd q_i) - \partial_tL\,\dd t. Lendo as derivadas parciais: H/pi=q˙i\partial H/\partial p_i = \dot q_i e H/qi=L/qi\partial H/\partial q_i = -\partial L/\partial q_i, que por Euler–Lagrange vale p˙i-\dot p_i. (Também tH=tL\partial_tH = -\partial_tL.)

Proposição 2.3 (O que é HH)

HH coincide com a função energia hh do capítulo anterior: ao longo de um movimento,  ⁣dH/ ⁣dt=H/t\dd H/\dd t = \partial H/\partial t, de modo que HH se conserva sempre que não depende explicitamente do tempo; e quando a energia cinética é quadrática nas velocidades com vínculos independentes do tempo, H=Ek+EpH = E_k + E_p, a energia mecânica — agora escrita nas variáveis (q,p)(q, p).

Demonstração.  ⁣dH/ ⁣dt=(qiHq˙i+piHp˙i)+tH=(qiHpiHpiHqiH)+tH=tH\dd H/\dd t = \sum(\partial_{q_i}H\,\dot q_i + \partial_{p_i}H\,\dot p_i) + \partial_tH = \sum(\partial_{q_i}H\,\partial_{p_i}H - \partial_{p_i}H\,\partial_{q_i}H) + \partial_tH = \partial_tH: a simetria das equações canônicas faz a soma cancelar-se identicamente. A identificação com Ek+EpE_k + E_p é a Proposição 1.14.

Exemplo 2.4 (Duas hamiltonianas)

Massa numa mola: p=mx˙p = m\dot x, logo

H=p22m+12kx2;H = \frac{p^2}{2m} + \frac12 kx^2 ;

as equações canônicas x˙=p/m\dot x = p/m, p˙=kx\dot p = -kx são o par familiar. Pêndulo: p=m2θ˙p = m\ell^2\dot\theta e

H=p22m2mgcosθ.H = \frac{p^2}{2m\ell^2} - mg\ell\cos\theta .

Nos dois casos HH é a energia, constante em cada movimento: os movimentos são as curvas de nível de HH no plano (q,p)(q,p).

Método 2.5 (A receita hamiltoniana)

(1) A partir de LL, calcule os momentos pi=L/q˙ip_i = \partial L/\partial\dot q_i e inverta para obter os q˙i\dot q_i. (2) H=piq˙iLH = \sum p_i\dot q_i - L, expressa apenas em (q,p)(q, p) — para um sistema natural, simplesmente Ek+EpE_k + E_p com EkE_k reescrita nos momentos. (3) Escreva as equações canônicas. (4) Trace as curvas de nível de HH: para um grau de liberdade elas são as trajetórias, e todo o movimento qualitativo — oscilações, rotações, equilíbrios, separatrizes — se lê sem resolver nada.

2.2 O espaço de fases

Definição 2.6 (Retrato de fases, pontos fixos, separatriz)

O retrato de fases de um sistema é a família de suas trajetórias no espaço de fases. Um ponto fixo é um estado em que as duas equações canônicas se anulam — um equilíbrio: um mínimo do potencial aparece como um centro cercado de curvas fechadas, e um máximo como uma sela pela qual passa uma separatriz, a trajetória que divide o espaço de fases em regiões de movimento qualitativamente diferente.

Exemplo 2.7 (O retrato de fases do pêndulo)

Para H=p2/2m2mgcosθH = p^2/2m\ell^2 - mg\ell\cos\theta: ovais fechados em torno de (0,0)(0, 0) — as librações, as oscilações comuns; curvas onduladas com p|p| grande — as rotações, o pêndulo dando voltas por cima; e, pelas selas em θ=±π\theta = \pm\pi, a separatriz, de energia E=+mgE = +mg\ell, sobre a qual o pêndulo leva um tempo infinito para chegar ao topo. Um estado sobre a separatriz é a oscilação lançada exatamente com o vigor necessário para chegar à posição invertida sem nada de sobra.

O retrato de fases do pêndulo: as curvas de nível de H. Os ovais fechados (oscilações) circulam no sentido horário em torno do centro; acima e abaixo da separatriz, o pêndulo gira. As selas em ± 180 são o equilíbrio invertido.
O retrato de fases do pêndulo: as curvas de nível de HH. Os ovais fechados (oscilações) circulam no sentido horário em torno do centro; acima e abaixo da separatriz, o pêndulo gira. As selas em ±180\pm 180^\circ são o equilíbrio invertido.

Teorema 2.8 (Teorema de Liouville)

O escoamento hamiltoniano preserva o volume do espaço de fases: se uma região de estados iniciais é arrastada pelas equações canônicas, seu volume (sua área, para um grau de liberdade) nunca muda — por mais que sua forma se deforme.

Demonstração. O escoamento no espaço de fases tem campo de velocidades (q˙i,p˙i)=(piH,qiH)(\dot q_i, \dot p_i) = (\partial_{p_i}H, -\partial_{q_i}H). Sua divergência é

i(q˙iqi+p˙ipi)=i(2Hqipi2Hpiqi)=0:\sum_i\Big(\frac{\partial\dot q_i}{\partial q_i} + \frac{\partial\dot p_i}{\partial p_i}\Big) = \sum_i\Big(\frac{\partial^2H}{\partial q_i\partial p_i} - \frac{\partial^2H}{\partial p_i\partial q_i}\Big) = 0 :

o escoamento é incompressível, e um escoamento incompressível transporta volumes sem alterá-los, como para os fluidos do volume do segundo ano. (A passagem formal da divergência nula ao volume conservado é o teorema de transporte demonstrado lá.)

Observação 2.9 (Por que Liouville importa)

Nada na formulação de Newton sugere que algo seja incompressível. Na imagem hamiltoniana isso é automático — e é a licença para a física estatística: quando descrevemos um gás de 102310^{23} moléculas por uma nuvem de pontos no espaço de fases, o teorema de Liouville diz que a nuvem escoa como um fluido incompressível, de modo que o “número de estados num volume do espaço de fases” é uma grandeza que a própria dinâmica não pode criar nem destruir. O postulado microcanônico da física estatística, mais adiante neste volume, apoia-se exatamente nisso.

O teorema de Liouville: o escoamento deforma uma região de estados iniciais — cisalhando-a, girando-a — mas sua área se conserva exatamente.
O teorema de Liouville: o escoamento deforma uma região de estados iniciais — cisalhando-a, girando-a — mas sua área se conserva exatamente.

2.3 Colchetes de Poisson

Definição 2.10 (Colchete de Poisson)

O colchete de Poisson de duas funções f(q,p,t)f(q, p, t) e g(q,p,t)g(q, p, t) no espaço de fases é

{f,g}=i(fqigpifpigqi).\{f, g\} = \sum_i\Big( \frac{\partial f}{\partial q_i}\frac{\partial g}{\partial p_i} - \frac{\partial f}{\partial p_i}\frac{\partial g}{\partial q_i}\Big) .

Ele é antissimétrico, linear em cada argumento, obedece à regra do produto {f,gh}={f,g}h+g{f,h}\{f, gh\} = \{f, g\}h + g\{f, h\} e satisfaz, para as próprias coordenadas, as relações canônicas

{qi,pj}=δij,{qi,qj}={pi,pj}=0.\{q_i, p_j\} = \delta_{ij} , \qquad \{q_i, q_j\} = \{p_i, p_j\} = 0 .

Teorema 2.11 (A evolução como colchete)

Ao longo de qualquer movimento,

 ⁣df ⁣dt={f,H}+ft.\frac{\dd f}{\dd t} = \{f, H\} + \frac{\partial f}{\partial t} .

Em particular, uma grandeza sem dependência explícita do tempo se conserva se e somente se seu colchete com a hamiltoniana se anula; e as próprias equações canônicas são q˙i={qi,H}\dot q_i = \{q_i, H\}, p˙i={pi,H}\dot p_i = \{p_i, H\}: a hamiltoniana gera a evolução temporal.

Demonstração. Regra da cadeia mais as equações canônicas:  ⁣df/ ⁣dt=(qifq˙i+pifp˙i)+tf=(qifpiHpifqiH)+tf\dd f/\dd t = \sum( \partial_{q_i}f\,\dot q_i + \partial_{p_i}f\,\dot p_i) + \partial_tf = \sum(\partial_{q_i}f\,\partial_{p_i}H - \partial_{p_i}f\, \partial_{q_i}H) + \partial_tf.

Exemplo 2.12 (Colchetes do momento angular)

Para uma partícula, Lz=xpyypxL_z = xp_y - yp_x e suas companheiras cíclicas. Um cálculo direto a partir das relações canônicas dá

{Lx,Ly}=Lz,{Ly,Lz}=Lx,{Lz,Lx}=Ly,\{L_x, L_y\} = L_z , \qquad \{L_y, L_z\} = L_x , \qquad \{L_z, L_x\} = L_y ,

e {L2,Lz}=0\{L^2, L_z\} = 0: as componentes do momento angular não “comutam” entre si, mas cada uma comuta com o quadrado total. Guarde a forma dessas relações — elas voltarão, literalmente, como comutadores na mecânica quântica, onde ditam tudo a respeito da estrutura atômica.

Observação 2.13 (A porta de entrada da mecânica quântica)

Dirac observou em 1925 que toda a mecânica quântica se obtém mantendo a álgebra da mecânica hamiltoniana e substituindo o colchete de Poisson pelo comutador de operadores dividido por i\iu\hbar: {q,p}=1\{q, p\} = 1 torna-se [x^,p^]=i[\hat x, \hat p] = \iu\hbar, a conservação continua a ser “o colchete com HH se anula” e a evolução temporal continua a ser gerada pela hamiltoniana. A teoria clássica carrega, em seus ossos, o esqueleto da quântica; os capítulos sobre mecânica quântica tornarão essa correspondência explícita.

2.4 Ação e invariantes adiabáticos

Definição 2.14 (Variável de ação)

Para um sistema de um grau de liberdade que oscila sobre uma trajetória de fase fechada, a variável de ação é a área delimitada dividida por 2π2\pi:

I=12πp ⁣dq.I = \frac{1}{2\pi}\oint p\,\dd q .

Proposição 2.15 (Ação do oscilador harmônico)

Para H=p2/2m+12mω2q2H = p^2/2m + \tfrac12 m\omega^2q^2 à energia EE, a trajetória é uma elipse de semieixos 2E/mω2\sqrt{2E/m\omega^2} e 2mE\sqrt{2mE}, que delimita a área 2πE/ω2\pi E/\omega: portanto

I=Eω,E=ωI,I = \frac{E}{\omega} , \qquad E = \omega I ,

e a frequência de oscilação é E/I=ω\partial E/\partial I = \omega, como deve ser.

Demonstração. Área de uma elipse, πab=π2E/mω22mE=2πE/ω\pi ab = \pi\sqrt{2E/m\omega^2}\sqrt{2mE} = 2\pi E/\omega.

Proposição 2.16 (Invariância adiabática)

Se um parâmetro do sistema (um comprimento, uma constante elástica, um campo) varia lentamente — ao longo de muitos períodos de oscilação — a energia muda, a frequência muda, mas a ação II permanece constante com excelente aproximação: II é um invariante adiabático. Para o oscilador lentamente modificado, E/ωE/\omega se conserva: enrijeça a mola devagar até dobrar ω\omega e a energia dobra junto.

Demonstração parcial. Para o oscilador com ω(t)\omega(t) lentamente variável: ao longo de um período, o trabalho realizado pelo parâmetro em mudança pode ser calculado por média; o cálculo (guiado no Exercício 2.11) dá E˙/E=ω˙/ω\dot E/E = \dot\omega/\omega, isto é,  ⁣d(E/ω)/ ⁣dt=0\dd(E/\omega)/\dd t = 0 em ordem dominante. O enunciado geral, para qualquer sistema oscilante lentamente deformado, é admitido — é a razão pela qual as órbitas planetárias sobrevivem a perturbações lentas, e o ponto de partida da “velha teoria quântica” adiante.

Invariância adiabática. À esquerda: quando  é lentamente dobrada, a elipse de fase muda de forma a área constante, e por isso E = I dobra. À direita: içar o fio de um pêndulo que oscila injeta energia na oscilação exatamente na proporção que mantém I = E/ fixo.
Invariância adiabática. À esquerda: quando ω\omega é lentamente dobrada, a elipse de fase muda de forma a área constante, e por isso E=ωIE = \omega I dobra. À direita: içar o fio de um pêndulo que oscila injeta energia na oscilação exatamente na proporção que mantém I=E/ωI = E/\omega fixo.

Observação 2.17 (A velha teoria quântica)

Por que os átomos têm energias discretas? A primeira resposta quantitativa (Bohr, 1913; Sommerfeld, 1915) foi escrita na linguagem deste capítulo: entre todos os movimentos clássicos, a natureza guarda aqueles cuja integral de ação vale um número inteiro de constantes de Planck,

p ⁣dq=nh.\oint p\,\dd q = nh .

Aplicada ao oscilador harmônico, ela dá En=nωE_n = n\hbar\omega (faltando apenas a metade do verdadeiro (n+12)ω\big(n + \tfrac12\big)\hbar \omega); aplicada a uma partícula numa caixa, dá exatamente os níveis do volume do segundo ano; aplicada ao átomo de hidrogênio (Problema 2.1), dá o espectro medido com quatro algarismos. A regra era quantitativamente certa e conceitualmente provisória — e, como a ação é um invariante adiabático, o número quântico nn não muda sob perturbações lentas, e é por isso que uma regra assim podia funcionar. A verdadeira teoria começa cinco capítulos adiante.

Um pêndulo fotografado com luz estroboscópica: as posições se aglomeram perto dos pontos de retorno, onde a massa se demora, e se espalham no fundo, onde ela se apressa — uma fotografia do retrato no espaço de fases que este capítulo desenha com equações.
Um pêndulo fotografado com luz estroboscópica: as posições se aglomeram perto dos pontos de retorno, onde a massa se demora, e se espalham no fundo, onde ela se apressa — uma fotografia do retrato no espaço de fases que este capítulo desenha com equações.

2.5 Exercícios

Exercício 2.1

Para a massa na mola: (a) construa HH a partir de LL e verifique H=Ek+EpH = E_k + E_p; (b) escreva as equações canônicas e verifique que reproduzem x¨=ω2x\ddot x = -\omega^2x; (c) mostre que as trajetórias são elipses no plano (x,p)(x, p) e dê seus semieixos à energia EE; (d) em que sentido o ponto representativo se move no sentido horário?

Solução

Solução de Exercício 2.1.

(a) p=mx˙p = m\dot x, H=px˙L=p2/2m+12kx2=Ek+EpH = p\dot x - L = p^2/2m + \tfrac12 kx^2 = E_k + E_p. (b) x˙=p/m\dot x = p/m, p˙=kx\dot p = -kx, logo x¨=(k/m)x\ddot x = -(k/m)x. (c) H=EH = E é a elipse x2/(2E/k)+p2/(2mE)=1x^2/(2E/k) + p^2/(2mE) = 1: semieixos 2E/k\sqrt{2E/k} e 2mE\sqrt{2mE}. (d) No ponto mais à direita (x>0x > 0, p=0p = 0), p˙=kx<0\dot p = -kx < 0: o ponto desce — no sentido horário, sempre.

Exercício 2.2

A conta no aro que gira do capítulo anterior tem L=12mR2θ˙2+12mω2R2sin2θ+mgRcosθL = \tfrac12 mR^2\dot\theta^2 + \tfrac12 m\omega^2R^2\sin^2\theta + mgR\cos\theta. (a) Calcule pp e HH. (b) HH se conserva? É a energia mecânica? (c) Esboce as curvas de nível de HH para ω2<g/R\omega^2 < g/R e ω2>g/R\omega^2 > g/R, usando a energia potencial efetiva daquele capítulo. (d) Identifique os centros, as selas e as separatrizes no caso rápido.

Solução

Solução de Exercício 2.2.

(a) p=mR2θ˙p = mR^2\dot\theta; H=p2/2mR212mω2R2sin2θmgRcosθ=p2/2mR2+Ueff(θ)H = p^2/2mR^2 - \tfrac12 m\omega^2R^2 \sin^2\theta - mgR\cos\theta = p^2/2mR^2 + U_{\text{eff}}(\theta). (b) Conserva-se (HH não tem tt explícito), mas é hh, e não a energia mecânica: falta-lhe o trabalho do motor. (c) As curvas de nível são p=±2mR2(HUeff)p = \pm\sqrt{2mR^2(H - U_{\text{eff}})}: para rotação lenta, ovais em torno de (0,0)(0, 0) e uma separatriz pela sela em θ=π\theta = \pi; para rotação rápida, duas famílias de ovais em torno de (±θeq,0)(\pm\theta_{\text{eq}}, 0). (d) Caso rápido: centros em ±θeq\pm\theta_{\text{eq}}; selas em θ=0\theta = 0 e θ=π\theta = \pi; por θ=0\theta = 0 passa uma separatriz em forma de oito que envolve os dois centros (as pequenas oscilações saltam o fundo), e por π\pi passa a separatriz externa, além da qual a conta circula por cima.

Exercício 2.3

Uma bola quica elasticamente no chão, H=p2/2m+mgzH = p^2/2m + mgz (z>0z > 0). (a) Desenhe a trajetória de fase de um voo e a do movimento completo de quiques. (b) O que o quique elástico faz ao ponto representativo? (c) Calcule a área delimitada para uma altura máxima zmaxz_{\max} e a ação II. (d) A regra de Bohr–Sommerfeld p ⁣dz=nh\oint p\,\dd z = nh aplicada a um nêutron que quica (m=1.67×1027kgm = 1.67 \times 10^{-27}\,\mathrm{kg}) dá alturas de quique quantizadas: estime a mais baixa e compare com os 15µm15\,\text{µ}\mathrm{m} medidos no experimento de estados quânticos gravitacionais de 2002.

Solução

Solução de Exercício 2.3.

(a) Um voo é o arco p=±2m2g(zmaxz)p = \pm\sqrt{2m^2g(z_{\max} - z)} — uma parábola deitada, percorrida de (0,+p0)(0, +p_0) até (zmax,0)(z_{\max}, 0) e de volta a (0,p0)(0, -p_0). (b) O quique leva (0,p0)(0, -p_0) a (0,+p0)(0, +p_0): um segmento vertical que fecha o laço. (c) p ⁣dz=20zmaxm2g(zmaxz) ⁣dz=43m2gzmax3/2\oint p\,\dd z = 2\int_0^{z_{\max}}m\sqrt{2g(z_{\max} - z)}\,\dd z = \tfrac43 m\sqrt{2g}\,z_{\max}^{3/2}, e II é isso dividido por 2π2\pi. (d) zn=[3nh/(4m2g)]2/3z_n = \big[3nh/(4m\sqrt{2g})\big]^{2/3}: para um nêutron, z1=(6.7×108)2/3=17µmz_1 = (6.7 \times 10^{-8})^{2/3} = 17\,\text{µ}\mathrm{m} — a ordem certa: o experimento de Grenoble encontrou o estado quântico gravitacional mais baixo perto de 15µm15\,\text{µ}\mathrm{m} (o tratamento exato, com as verdadeiras funções de onda, dá 14µm14\,\text{µ}\mathrm{m}).

Exercício 2.4

Só a partir das relações canônicas, calcule (a) {x2,p}\{x^2, p\}; (b) {xp,H}\{xp, H\} para H=p2/2m+Ep(x)H = p^2/2m + E_p(x), e interprete os dois termos (esse colchete conduz ao teorema do virial); (c) {Lz,x}\{L_z, x\} e {Lz,px}\{L_z, p_x\}; (d) mostre que, se {f,H}=0\{f, H\} = 0 e {g,H}=0\{g, H\} = 0, então {f,g}\{f, g\} também se conserva (use a identidade de Jacobi, admitida: {f,{g,h}}+{g,{h,f}}+{h,{f,g}}=0\{f,\{g,h\}\} + \{g,\{h,f\}\} + \{h,\{f,g\}\} = 0).

Solução

Solução de Exercício 2.4.

(a) {x2,p}=2x\{x^2, p\} = 2x. (b) {xp,H}=p2/mxEp(x)=2EkxEp\{xp, H\} = p^2/m - x\,E_p'(x) = 2E_k - x\,E_p': num movimento ligado, a média temporal de  ⁣d(xp)/ ⁣dt\dd(xp)/\dd t se anula, de modo que 2Ek=xEp\langle 2E_k\rangle = \langle x\,E_p'\rangle — o teorema do virial (para Epx2E_p \propto x^2: Ek=Ep\langle E_k\rangle = \langle E_p\rangle; para 1/r\propto -1/r: 2Ek=Ep2\langle E_k\rangle = -\langle E_p\rangle). (c) {Lz,x}=y\{L_z, x\} = y, {Lz,px}=py\{L_z, p_x\} = p_y: LzL_z gera rotações tanto das posições quanto dos momentos. (d) Jacobi com h=Hh = H: {{f,g},H}={{g,H},f}{{H,f},g}=0\{\{f, g\}, H\} = -\{\{g, H\}, f\} - \{\{H, f\}, g\} = 0.

Exercício 2.5 ★★

O pêndulo perto de sua separatriz. (a) Dê a energia da separatriz e o p|p| máximo sobre ela. (b) Mostre que sobre a separatriz p=±2m2ω0cos(θ/2)p = \pm 2m\ell^2\omega_0\cos(\theta/2) com ω0=g/\omega_0 = \sqrt{g/\ell}. (c) Usando θ˙=p/m2\dot\theta = p/m\ell^2, mostre que o tempo para ir de θ\theta até o topo diverge logaritmicamente. (d) Um pêndulo real solto logo abaixo da separatriz fica um longo instante perto da posição invertida antes de voltar — relacione isso a (c) e à lentidão observada perto de toda sela.

Solução

Solução de Exercício 2.5.

(a) Esep=mgE_{\text{sep}} = mg\ell (a energia da posição de repouso invertida); p=2m2ω0|p| = 2m\ell^2\omega_0 máximo no fundo. (b) De p2/2m2=mg(1+cosθ)=2mgcos2(θ/2)p^2/2m\ell^2 = mg\ell(1 + \cos\theta) = 2mg\ell\cos^2(\theta/2). (c) θ˙=2ω0cos(θ/2)\dot\theta = 2\omega_0\cos(\theta/2) se separa: ω0t=lntan(θ/4+π/4)\omega_0t = \ln\tan(\theta/4 + \pi/4), que diverge quando θπ\theta \to \pi: o topo é aproximado, mas nunca alcançado. (d) Logo abaixo da separatriz o movimento a acompanha de perto: o pêndulo rasteja até a vizinhança da sela, demora-se ali — o logaritmo — e por fim cai de volta; toda sela retarda logaritmicamente as trajetórias, e é por isso que uma haste equilibrada quase perfeitamente parece hesitar antes de cair.

Exercício 2.6 ★★

Uma partícula carregada num campo magnético tem H=(pqA)2/2mH = (\vect p - q\vect A)^2/2m, com p\vect p o momento canônico do capítulo anterior. (a) Escreva as equações canônicas para A=12B(y,x,0)\vect A = \tfrac12 B(-y, x, 0) e verifique que dão o movimento ciclotrônico. (b) Mostre que H=12mv2H = \tfrac12 m\vect v^{\,2}: o campo magnético não realiza trabalho. (c) Calcule o colchete das duas grandezas conservadas πx=px12qBy\pi_x = p_x - \tfrac12 qBy e πy=py+12qBx\pi_y = p_y + \tfrac12 qBx (verifique antes que cada uma se conserva) e mostre que {πx,πy}=qB\{\pi_x, \pi_y\} = -qB: duas grandezas conservadas cujo colchete é uma constante. (d) Use o Exercício 2.4(d) para explicar por que não se devia esperar delas uma terceira grandeza conservada independente.

Solução

Solução de Exercício 2.6.

(a) r˙=(pqA)/m\dot{\vect r} = (\vect p - q\vect A)/m e p˙x=H/x=(q/m)(pqA)xA\dot p_x = -\partial H/\partial x = (q/m)(\vect p - q\vect A)\cdot\partial_x\vect A, etc.; eliminando p\vect p, recupera-se mx¨=qBy˙m\ddot x = qB\dot y, my¨=qBx˙m\ddot y = -qB\dot x. (b) H=(pqA)2/2m=12mv2H = (\vect p - q\vect A)^2/2m = \tfrac12 m\vect v^{\,2}: só energia cinética — constante, pois a força magnética é perpendicular a v\vect v. (c) Com mx˙=px+12qBym\dot x = p_x + \tfrac12 qBy: πx=px12qBy=mx˙qBy\pi_x = p_x - \tfrac12 qBy = m\dot x - qBy, cuja conservação é a primeira equação de movimento (idem para πy\pi_y); no colchete só dois termos sobrevivem: {px,12qBx}=12qB\{p_x, \tfrac12 qBx\} = -\tfrac12 qB e {12qBy,py}=12qB\{-\tfrac12 qBy, p_y\} = -\tfrac12 qB, total qB-qB. (πx/qB\pi_x/qB e πy/qB\pi_y/qB são, a menos de sinais, as coordenadas do centro-guia do círculo.) (d) Pelo Exercício 2.4(d), o colchete de duas grandezas conservadas se conserva — aqui é a constante qB-qB, conservada trivialmente e sem nada de novo a ensinar: nenhuma terceira grandeza aparece.

Exercício 2.7 ★★

Liouville, na mão. (a) Para a partícula livre, o escoamento é qq+pt/mq \to q + pt/m, ppp \to p: mostre que um retângulo se torna um paralelogramo de mesma área. (b) Para o oscilador harmônico, mostre que o escoamento é uma rotação (em unidades adequadas) e conclua. (c) Para o oscilador amortecido x¨=ω2xγx˙\ddot x = -\omega^2x - \gamma\dot x, escreva a divergência do escoamento no plano (x,v)(x, v) e mostre que as áreas encolhem como eγt\eu^{-\gamma t}: o amortecimento não é hamiltoniano. (d) Para onde “vai” fisicamente a área perdida?

Solução

Solução de Exercício 2.7.

(a) A aplicação (q,p)(q+pt/m,p)(q, p) \mapsto (q + pt/m, p) é um cisalhamento: a base e a altura do retângulo não mudam, e a área tampouco (determinante 11). (b) Nas variáveis (xmω,p/mω)(x\sqrt{m\omega}, p/\sqrt{m\omega}) o escoamento é uma rotação rígida à taxa ω\omega; rotações preservam a área, e a mudança de variáveis tem determinante 11. (c) O campo de velocidades (v,ω2xγv)(v, -\omega^2x - \gamma v) tem divergência γ-\gamma: qualquer área se contrai como eγt\eu^{-\gamma t}, espiralando até a origem — impossível para um escoamento hamiltoniano. (d) Para os graus de liberdade ignorados: as moléculas do ar e os fônons do fio, cujo volume no espaço de fases cresce ao menos outro tanto — a semente da segunda lei.

Exercício 2.8 ★★

Movimento plano num potencial central, H=(pr2+pφ2/r2)/2m+Ep(r)H = (p_r^2 + p_\varphi^2/r^2)/2m + E_p(r). (a) Escreva as quatro equações canônicas. (b) Mostre que {pφ,H}=0\{ p_\varphi, H\} = 0 e identifique a lei de conservação. (c) Reduza a uma hamiltoniana radial unidimensional com um potencial efetivo. (d) Para Ep=k/rE_p = -k/r, localize a órbita circular a pφp_\varphi dado e dê sua energia — a ser quantizada no Problema 2.1.

Solução

Solução de Exercício 2.8.

(a) r˙=pr/m\dot r = p_r/m, φ˙=pφ/mr2\dot\varphi = p_\varphi/mr^2, p˙r=pφ2/mr3Ep(r)\dot p_r = p_\varphi^2/mr^3 - E_p'(r), p˙φ=0\dot p_\varphi = 0. (b) HH não contém φ\varphi: {pφ,H}=H/φ=0\{p_\varphi, H\} = -\partial H/\partial\varphi = 0; é a conservação do momento angular. (c) Hrad=pr2/2m+Ueff(r)H_{\text{rad}} = p_r^2/2m + U_{\text{eff}}(r) com Ueff=pφ2/2mr2+Ep(r)U_{\text{eff}} = p_\varphi^2/2mr^2 + E_p(r). (d) Ueff=0U_{\text{eff}}' = 0: rc=pφ2/mkr_{\text{c}} = p_\varphi^2/mk, e E=Ueff(rc)=mk2/2pφ2E = U_{\text{eff}}(r_{\text{c}}) = -mk^2/2p_\varphi^2.

Exercício 2.9 ★★

(a) Verifique {Lx,Ly}=Lz\{L_x, L_y\} = L_z a partir das relações canônicas. (b) Deduza os outros dois colchetes por permutação cíclica. (c) Mostre que {L2,Lz}=0\{L^2, L_z\} = 0. (d) Um corpo rígido gira livremente: tomando H=L2/2JH = L^2/2J (inércia de simetria esférica), mostre que os três LiL_i se conservam; e para um corpo com momentos de inércia desiguais (responda qualitativamente a partir dos colchetes)?

Solução

Solução de Exercício 2.9.

(a) {Lx,Ly}={ypzzpy, zpxxpz}\{L_x, L_y\} = \{yp_z - zp_y,\ zp_x - xp_z\}: os únicos colchetes canônicos não nulos dão ypx{pz,z}+xpy{z,pz}=ypx+xpy=Lzyp_x\{p_z, z\} + xp_y\{z, p_z\} = -yp_x + xp_y = L_z. (b) A renomeação cíclica xyzxx \to y \to z \to x dá os outros dois. (c) {L2,Lz}=2Lx{Lx,Lz}+2Ly{Ly,Lz}=2LxLy+2LyLx=0\{L^2, L_z\} = 2L_x\{L_x, L_z\} + 2L_y\{L_y, L_z\} = -2L_xL_y + 2L_yL_x = 0. (d) Para H=L2/2JH = L^2/2J, cada {Li,H}=0\{L_i, H\} = 0: L\vect L fixo. Com H=Li2/2JiH = \sum L_i^2/2J_i e JiJ_i desiguais: {Lx,H}=LyLz(1/Jy1/Jz)0\{L_x, H\} = L_yL_z(1/J_y - 1/J_z) \neq 0 — só L2L^2 e HH sobrevivem, e o corpo cambaleia (o teorema da raquete de tênis do capítulo de corpo rígido do volume do segundo ano vive aqui).

Exercício 2.10 ★★★

Níveis da velha teoria quântica. (a) Mostre que p ⁣dq=nh\oint p\,\dd q = nh aplicada ao oscilador harmônico dá En=nωE_n = n\hbar\omega, usando a Proposição 2.15. (b) Aplique-a à partícula numa caixa de comprimento aa e recupere exatamente En=n2h2/8ma2E_n = n^2h^2/8ma^2. (c) Para uma molécula diatômica modelada como oscilador de constante elástica k=1.9×103N/mk = 1.9 \times 10^{3}\,\mathrm{N}/\mathrm{m} e massa reduzida 1.14×1026kg1.14 \times 10^{-26}\,\mathrm{kg} (monóxido de carbono), calcule ω\hbar\omega em eV e o comprimento de onda da emissão n=10n = 1 \to 0; em que faixa espectral ela cai? (d) Os níveis verdadeiros são (n+12)ω(n + \tfrac12)\hbar\omega: a metade que falta muda os comprimentos de onda emitidos? Que experimento detecta essa metade de ponto zero?

Solução

Solução de Exercício 2.10.

(a) p ⁣dq=2πI=2πE/ω=nh\oint p\,\dd q = 2\pi I = 2\pi E/\omega = nhEn=nωE_n = n\hbar\omega. (b) Ida e volta a p|p| constante: 2pa=nh2pa = nh, p=nh/2ap = nh/2a, E=p2/2m=n2h2/8ma2E = p^2/2m = n^2h^2/8ma^2 — exatamente o poço infinito do volume do segundo ano. (c) ω=k/μ=4.1×1014rad/s\omega = \sqrt{k/\mu} = 4.1 \times 10^{14}\,\mathrm{rad}/\mathrm{s}, ω=4.3×1020J=0.27eV\hbar\omega = 4.3 \times 10^{-20}\,\mathrm{J} = 0.27\,\mathrm{eV}, λ=hc/ω=4.6µm\lambda = hc/ \hbar\omega = 4.6\,\text{µ}\mathrm{m}: infravermelho médio (a banda fundamental do CO, usada para rastrear o gás no espaço). (d) Não: as diferenças entre níveis não mudam com a metade comum. A energia de ponto zero aparece em comparações que dependem do nível absoluto — deslocamentos isotópicos das energias de dissociação (H2_2 contra D2_2) ou vibrações que persistem no zero absoluto em cristais.

Exercício 2.11 ★★★

Invariância adiabática de E/ωE/\omega, deduzida. Uma massa numa mola cuja constante elástica k(t)k(t) cresce lentamente. (a) Mostre que E˙=12k˙x2\dot E = \tfrac12\dot k\, x^2 ao longo do movimento exato. (b) Faça a média sobre um período a kk fixo: usando 12kx2=E/2\langle\tfrac12 kx^2\rangle = E/2, mostre que E˙=k˙E/2k\langle\dot E\rangle = \dot k\,E/2k. (c) Conclua que  ⁣dlnE=12 ⁣dlnk= ⁣dlnω\dd\ln E = \tfrac12\dd\ln k = \dd\ln \omega, e portanto que E/ωE/\omega é constante. (d) Um pêndulo que oscila com amplitude θ0=5\theta_0 = 5^\circ tem o fio lentamente encurtado de 1.0m1.0\,\mathrm{m} a 0.5m0.5\,\mathrm{m}: encontre a nova amplitude e o fator pelo qual sua energia cresceu, e diga de onde veio essa energia.

Solução

Solução de Exercício 2.11.

(a) E=p2/2m+12k(t)x2E = p^2/2m + \tfrac12 k(t)x^2, logo ao longo de um movimento E˙=E/t=12k˙x2\dot E = \partial E/\partial t = \tfrac12\dot kx^2. (b) Ao longo de um período com kk essencialmente fixo, 12kx2=E/2\langle\tfrac12 kx^2\rangle = E/2, logo E˙=k˙E/2k\langle\dot E\rangle = \dot k\,E/2k. (c)  ⁣dlnE=12 ⁣dlnk\dd\ln E = \tfrac12\dd\ln k; como ω=k/m\omega = \sqrt{k/m}, também  ⁣dlnω=12 ⁣dlnk\dd\ln\omega = \tfrac12\dd\ln k: E/ωE/\omega é invariante. (d) ω1/2\omega \propto \ell^{-1/2} cresce por 2\sqrt2, de modo que EE cresce por 21.41\sqrt2 \approx 1.41. Com E=12mgθ02E = \tfrac12 mg\ell\theta_0^2, θ03/4\theta_0 \propto \ell^{-3/4}: θ0=5×23/4=8.4\theta_0' = 5^\circ \times 2^{3/4} = 8.4^\circ. A energia é fornecida por quem puxa o fio: a tração supera mgcosθmg\cos\theta em média (termo centrífugo), e por isso içar realiza trabalho líquido positivo sobre a oscilação.

Exercício 2.12 ★★★

A área dentro da separatriz do pêndulo é um número de estados quânticos. (a) Mostre que p ⁣dθ\oint p\,\dd\theta em torno da separatriz vale 16m2ω016m\ell^2\omega_0. (b) Pela regra de Bohr–Sommerfeld, o número de estados quânticos com energia abaixo da separatriz é N16m2ω0/hN \approx 16m\ell^2\omega_0/h: avalie-o para uma massa de um grama num fio de 10cm10\,\mathrm{cm}. (c) Avalie-o para um oscilador molecular do tipo amônia: m1×1026kgm \sim 1 \times 10^{-26}\,\mathrm{kg}, 1×1010m\ell \sim 1 \times 10^{-10}\,\mathrm{m}, ω01×1014rad/s\omega_0 \sim 1 \times 10^{14}\,\mathrm{rad}/\mathrm{s}. (d) Conclua: onde está a fronteira entre a mecânica que precisa de \hbar e a que não precisa?

Solução

Solução de Exercício 2.12.

(a) p ⁣dθ=2ππ2m2ω0cos(θ/2) ⁣dθ=4m2ω0[2sin(θ/2)]ππ=16m2ω0\oint p\,\dd\theta = 2\int_{-\pi}^{\pi}2m\ell^2\omega_0 \cos(\theta/2)\,\dd\theta = 4m\ell^2\omega_0\big[2\sin(\theta/2) \big]_{-\pi}^{\pi} = 16m\ell^2\omega_0. (b) ω0=9.9rad/s\omega_0 = 9.9\,\mathrm{rad}/\mathrm{s}: 16×103×102×9.9=1.6×103Js16 \times 10^{-3} \times 10^{-2} \times 9.9 = 1.6 \times 10^{-3}\,\mathrm{J}\,\mathrm{s}, isto é, N2.4×1030N \approx 2.4 \times 10^{30} estados: a granulosidade quântica de um pêndulo de laboratório está trinta ordens de grandeza abaixo de qualquer coisa observável. (c) 16×1026×1020×1014=1.6×1031Js16 \times 10^{-26} \times 10^{-20} \times 10^{14} = 1.6 \times 10^{-31}\,\mathrm{J}\,\mathrm{s}, isto é, N240N \approx 240: uma libração molecular abriga apenas algumas centenas de estados quânticos, e seus níveis baixos são resolvidos um a um por espectroscopia. (d) A fronteira está onde as áreas do movimento no espaço de fases valem um múltiplo modesto de hh: as moléculas e abaixo são quânticas; tudo o que é visível é clássico.

2.6 Problema: A velha teoria quântica e o átomo de hidrogênio

Problema 2.1

Problema de fim de semana — quantizar o espaço de fases, pesar a constante de Rydberg

Em 1913 Bohr calculou o espectro do hidrogênio a partir da mecânica planetária mais uma regra quântica; Sommerfeld reconheceu na regra um enunciado sobre a área no espaço de fases. Este problema refaz o cálculo deles com as ferramentas deste capítulo. Dados: me=9.11×1031kgm_{\text{e}} = 9.11 \times 10^{-31}\,\mathrm{kg}, e=1.60×1019Ce = 1.60 \times 10^{-19}\,\mathrm{C}, 1/4πε0=8.99×109Nm2/C21/4\pi\varepsilon_0 = 8.99 \times 10^{9}\,\mathrm{N}\,\mathrm{m}^{2}/\mathrm{C}^{2}, h=6.63×1034Jsh = 6.63 \times 10^{-34}\,\mathrm{J}\,\mathrm{s}, c=3.00×108m/sc = 3.00 \times 10^{8}\,\mathrm{m}/\mathrm{s}. Escreva k=e2/4πε0k = e^2/4\pi\varepsilon_0.

Parte I — A hamiltoniana de Kepler. Um elétron se move no plano em torno de um próton fixo.

  1. Justifique tratar o próton como fixo (razão das massas) e escreva a hamiltoniana H=pr22me+pφ22mer2krH = \dfrac{p_r^2}{2m_{\text{e}}} + \dfrac{p_\varphi^2}{2m_{\text{e}}r^2} - \dfrac{k}{r}.
  2. Escreva as quatro equações canônicas.
  3. Mostre que pφp_\varphi se conserva e dê-lhe um nome.
  4. Reduza o movimento radial ao potencial efetivo Ueff(r)=pφ2/2mer2k/rU_{\text{eff}}(r) = p_\varphi^2/2m_{\text{e}}r^2 - k/r e esboce-o.
  5. Localize a órbita circular: rc=pφ2/mekr_{\text{c}} = p_\varphi^2/m_{\text{e}}k.
  6. Mostre que sua energia vale E=k/2rc=mek2/2pφ2E = -k/2r_{\text{c}} = -m_{\text{e}}k^2/2p_\varphi^2 e verifique que é metade da energia potencial (a razão do virial das órbitas gravitacionais do volume do primeiro ano).

Parte II — A órbita clássica.

  1. Para uma órbita circular de raio rr, encontre a velocidade vv e a frequência orbital forbf_{\text{orb}} em função de rr.
  2. Uma órbita de tamanho atômico, r=0.05nmr = 0.05\,\mathrm{nm}: calcule vv (e v/cv/c), forbf_{\text{orb}} e a energia em eV.
  3. Calcule o momento angular pφp_\varphi dessa órbita e compare-o com =h/2π\hbar = h/2\pi: o que essa proximidade sugere?
  4. Classicamente, um elétron em órbita é um dipolo oscilante e irradia (volume do segundo ano) em forbf_{\text{orb}}; sua energia decai em cerca de 1×1011s1 \times 10^{-11}\,\mathrm{s}. Enuncie as duas previsões fatais que isso acarreta para os átomos, e o que se observa em lugar delas.
  5. Que característica dos espectros observados (linhas discretas, regra de combinação 1/λ=RH(1/n21/n2)1/\lambda = R_H(1/n^2 - 1/n'^2)) sugeriu níveis de energia discretos?
  6. Explique por que um invariante adiabático é o candidato natural a grandeza que assume valores universais fixos (lembre-se da Proposição 2.16).

Parte III — A quantização. Imponha a regra de Sommerfeld ao movimento angular da órbita circular: pφ ⁣dφ=nh\oint p_\varphi\,\dd\varphi = nh, n=1,2,3,n = 1, 2, 3, \dots

  1. Mostre que a regra se lê pφ=np_\varphi = n\hbar.
  2. Deduza os raios permitidos rn=n2a0r_n = n^2a_0 com a0=2/meka_0 = \hbar^2/m_{\text{e}}k, e calcule a0a_0.
  3. Deduza as energias permitidas En=EI/n2E_n = -E_{\text{I}}/n^2 com EI=mek2/22E_{\text{I}} = m_{\text{e}}k^2/2\hbar^2, e calcule EIE_{\text{I}} em joules e em eV.
  4. Calcule a velocidade na primeira órbita e verifique que v1/c=k/c1/137v_1/c = k/\hbar c \approx 1/137 (a constante de estrutura fina).
  5. Um fóton carrega a energia de uma transição: deduza a fórmula de Rydberg e o valor de RH=EI/hcR_H = E_{\text{I}}/hc; compare com o valor medido 1.097×107m11.097 \times 10^{7}\,\mathrm{m}^{-1}.
  6. Calcule os comprimentos de onda das transições 212 \to 1, 323 \to 2 e 2\infty \to 2; qual delas é visível, e de que cor?
  7. O íon de hélio ionizado He+^+ é um hidrogênio de carga nuclear 2e2e: como se escalam a0a_0 e EIE_{\text{I}}, e onde cai a sua linha 212 \to 1?

Parte IV — O confronto.

  1. Calcule a frequência orbital forb(n)f_{\text{orb}}(n) e a frequência de transição νnn1\nu_{n \to n-1} para n=2n = 2, 1010, 100100, e mostre que a razão entre elas tende a 11 quando nn cresce.
  2. Este é o princípio da correspondência de Bohr: enuncie-o numa frase.
  3. A regra pφ=np_\varphi = n\hbar começa em n=1n = 1: que absurdo significaria n=0n = 0 para uma órbita circular?
  4. A mecânica quântica manterá En=EI/n2E_n = -E_{\text{I}}/n^2 exatamente, mas descartará as órbitas: nomeie dois fatos mensuráveis que a imagem orbital erra (o valor do momento angular do estado fundamental; a existência de estados com o mesmo nn e formas diferentes).
  5. O múon é um elétron 207207 vezes mais pesado: para o hidrogênio muônico, calcule a0μa_0^\mu e EIμE_{\text{I}}^\mu e explique por que os átomos muônicos sondam o núcleo.
  6. Resuma o resultado central: um invariante adiabático, igualado a números inteiros de hh, fornece a0=52.9pma_0 = 52.9\,\mathrm{pm}, EI=13.6eVE_{\text{I}} = 13.6\,\mathrm{eV} e o espectro do hidrogênio com quatro algarismos — e entrega à teoria verdadeira suas duas constantes centrais.
Solução

Solução de Problema 2.1.

1. mp/me=1836m_{\text{p}}/m_{\text{e}} = 1836: o próton se move 1836 vezes menos; HH como enunciada, no plano da órbita. 2. r˙=pr/me\dot r = p_r/m_{\text{e}}, φ˙=pφ/mer2\dot\varphi = p_\varphi/m_{\text{e}}r^2, p˙r=pφ2/mer3k/r2\dot p_r = p_\varphi^2/m_{\text{e}}r^3 - k/r^2, p˙φ=0\dot p_\varphi = 0. 3. φ\varphi está ausente de HH: pφp_\varphi, o momento angular, se conserva. 4. Ueff=pφ2/2mer2k/rU_{\text{eff}} = p_\varphi^2/2m_{\text{e}}r^2 - k/r: barreira repulsiva a rr pequeno, cauda coulombiana a rr grande, um único mínimo entre elas. 5. Ueff=0U_{\text{eff}}' = 0 em rc=pφ2/mekr_{\text{c}} = p_\varphi^2/m_{\text{e}}k. 6. E=k/2rck/rc=k/2rc=mek2/2pφ2E = k/2r_{\text{c}} - k/r_{\text{c}} = -k/2r_{\text{c}} = -m_{\text{e}}k^2/2p_\varphi^2; Ep=k/rc=2EE_p = -k/r_{\text{c}} = 2E: a razão do virial de qualquer órbita circular em 1/r1/r. 7. mev2/r=k/r2m_{\text{e}}v^2/r = k/r^2: v=k/merv = \sqrt{k/m_{\text{e}}r}, forb=v/2πr=(1/2π)k/mer3f_{\text{orb}} = v/2\pi r = (1/2\pi)\sqrt{k/m_{\text{e}}r^3}. 8. k=2.30×1028Jmk = 2.30 \times 10^{-28}\,\mathrm{J}\,\mathrm{m}: v=2.2×106m/sv = 2.2 \times 10^{6}\,\mathrm{m}/\mathrm{s} (v/c=0.0075v/c = 0.0075), forb=7.2×1015Hzf_{\text{orb}} = 7.2 \times 10^{15}\,\mathrm{Hz}, E=k/2r=2.3×1018J=14eVE = -k/2r = -2.3 \times 10^{-18}\,\mathrm{J} = -14\,\mathrm{eV}. 9. pφ=mevr=1.0×1034Jsp_\varphi = m_{\text{e}}vr = 1.0 \times 10^{-34}\,\mathrm{J}\,\mathrm{s} \approx \hbar: uma órbita atômica carrega um momento angular da ordem de \hbar — a constante de Planck está embutida nos tamanhos atômicos. 10. Todo átomo deveria colapsar em 1011s\sim10^{-11}\,\mathrm{s}, com sua luz varrendo continuamente rumo a comprimentos de onda menores. O observado: os átomos são eternos e emitem linhas nítidas e fixas. 11. 1/λ=RH(1/n21/n2)1/\lambda = R_H(1/n^2 - 1/n'^2) escreve toda frequência observada como diferença de termos: a energia é trocada entre níveis fixos hcRH/n2-hcR_H/n^2. 12. Uma grandeza travada em valores universais não pode derivar quando o átomo é suavemente perturbado (campos, colisões, mudanças lentas); um invariante adiabático é precisamente o que permanece fixo sob perturbação lenta — então quantize a ação. 13. pφp_\varphi é constante na órbita: pφ ⁣dφ=2πpφ=nh\oint p_\varphi\,\dd\varphi = 2\pi p_\varphi = nh, isto é, pφ=np_\varphi = n\hbar. 14. rn=(n)2/mek=n2a0r_n = (n\hbar)^2/m_{\text{e}}k = n^2a_0, a0=2/mek=5.29×1011m=52.9pma_0 = \hbar^2/m_{\text{e}}k = 5.29 \times 10^{-11}\,\mathrm{m} = 52.9\,\mathrm{pm}. 15. En=mek2/2n22=EI/n2E_n = -m_{\text{e}}k^2/2n^2\hbar^2 = -E_{\text{I}}/n^2, EI=mek2/22=2.18×1018J=13.6eVE_{\text{I}} = m_{\text{e}}k^2/2\hbar^2 = 2.18 \times 10^{-18}\,\mathrm{J} = 13.6\,\mathrm{eV}. 16. v1=k/=2.19×106m/sv_1 = k/\hbar = 2.19 \times 10^{6}\,\mathrm{m}/\mathrm{s}; v1/c=k/c=1/137v_1/c = k/\hbar c = 1/137: a constante de estrutura fina α\alpha, que mede quão pouco relativístico é o átomo. 17. hν=EnEnh\nu = E_{n'} - E_n1/λ=(EI/hc)(1/n21/n2)1/\lambda = (E_{\text{I}}/hc)(1/n^2 - 1/n'^2): RH=EI/hc=1.10×107m1R_H = E_{\text{I}}/hc = 1.10 \times 10^{7}\,\mathrm{m}^{-1}, que reproduz o valor medido 1.097×107m11.097 \times 10^{7}\,\mathrm{m}^{-1} dentro da precisão de nossas constantes. 18. 212 \to 1: 122nm122\,\mathrm{nm} (ultravioleta distante, Lyman α\alpha); 323 \to 2: 656nm656\,\mathrm{nm}, a linha vermelha visível que colore as nebulosas de emissão; 2\infty \to 2: 365nm365\,\mathrm{nm}, a borda no ultravioleta próximo da série de Balmer. 19. k2kk \to 2k: os raios encolhem por 22 e EI4×13.6eV=54.4eVE_{\text{I}} \to 4 \times 13.6\,\mathrm{eV} = 54.4\,\mathrm{eV}; a linha 212 \to 1 cai em 122nm/430nm122\,\mathrm{nm}/4 \approx 30\,\mathrm{nm}, no ultravioleta extremo. 20. forb(n)=2EI/hn3f_{\text{orb}}(n) = 2E_{\text{I}}/hn^3; νnn1=(EI/h)(2n1)/n2(n1)2\nu_{n \to n-1} = (E_{\text{I}}/h)(2n - 1)/n^2(n-1)^2. A razão ν/forb=n3(2n1)/2n2(n1)2\nu/f_{\text{orb}} = n^3(2n-1)/2n^2(n-1)^2 vale 33 em n=2n = 2, 1.171.17 em n=10n = 10 e 1.0151.015 em n=100n = 100. 21. No limite de grandes números quânticos, as previsões quânticas devem fundir-se com as clássicas — aqui, a frequência irradiada com a frequência orbital. 22. n=0n = 0 significa pφ=0p_\varphi = 0: uma “órbita circular” de raio nulo, o elétron sobre o próton — movimento que não existe. 23. O hidrogênio medido tem um estado fundamental de momento angular nulo (e não \hbar) e vários estados distintos com o mesmo nn (as formas ss, pp, dd da química) — ambos impossíveis para uma única órbita circular. 24. a01/ma_0 \propto 1/m: a0μ=256fma_0^\mu = 256\,\mathrm{fm}; EIμ=207×13.6eV=2.8keVE_{\text{I}}^\mu = 207 \times 13.6\,\mathrm{eV} = 2.8\,\mathrm{keV} (raios X). O múon orbita duzentas vezes mais perto — em parte dentro da carga nuclear, para elementos pesados — e por isso seus níveis medem raios nucleares (e agudizaram o enigma moderno do tamanho do próton). 25. Um invariante adiabático igualado a nhnh entrega a0=52.9pma_0 = 52.9\,\mathrm{pm}, EI=13.6eVE_{\text{I}} = 13.6\,\mathrm{eV}, RH=1.10×107m1R_H = 1.10 \times 10^{7}\,\mathrm{m}^{-1} — números que a teoria quântica completa do Capítulo 11 manterá inalterados, substituindo apenas as órbitas que os produziram.

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