Chemistry · Livro 4 · Bachelor Year 3

Química universitária — 3.º ano

Química universitária — 3.º ano · Bachelor Year 3

11Termodinâmica estatística aplicada

O hidrogênio líquido guardado no tanque mais bem isolado continua a evaporar e, nos primeiros dias depois da liquefação, evapora muito mais depressa do que o calor que entra pelas paredes consegue explicar. O calor vem de dentro do líquido. As moléculas de hidrogênio existem em duas formas, que diferem apenas pela orientação relativa dos spins de seus dois prótons e que se convertem uma na outra muito lentamente; a 20 K20\,\mathrm{K}, a conversão de uma forma na outra libera mais calor do que o necessário para evaporar o líquido. Este capítulo aplica as funções de partição do Capítulo 10 às capacidades caloríficas, a esses isômeros de spin nuclear e à entropia que certos cristais conservam a 0 K, e depois calcula constantes de equilíbrio e efeitos isotópicos apenas a partir de dados espectroscópicos.

O que você já sabe

O Capítulo 10 construiu a função de partição molecular e seus quatro fatores, e deduziu dela UU, SS e GG. O volume do 2.º ano relacionou a constante de equilíbrio padrão à energia de Gibbs padrão de reação, ΔrG∘=−RTln⁡K∘\Delta_rG^\circ = -RT\ln K^\circ, e estabeleceu a equação de van ’t Hoff; o Capítulo 2 afirmou que uma função de onda muda de sinal quando dois férmions idênticos são permutados; o Capítulo 6 encontrou a alternância 3:1 das intensidades das raias no espectro Raman rotacional de moléculas como HX2\ce{H2}. A parte do 9.º ano do volume escolar definiu os isótopos.

Um tanque esférico de hidrogênio líquido. A 20\, K, o calor produzido dentro do líquido pela lenta conversão de uma forma de spin nuclear do hidrogênio na outra pode superar o calor que entra do exterior.
Um tanque esférico de hidrogênio líquido. A 20 K20\,\mathrm{K}, o calor produzido dentro do líquido pela lenta conversão de uma forma de spin nuclear do hidrogênio na outra pode superar o calor que entra do exterior.

11.1 Capacidades caloríficas dos gases

A capacidade calorífica a volume constante é CV=(∂U/∂T)VC_V = (\partial U/\partial T)_V, e, pelo Teorema 10.19, cada tipo de movimento contribui separadamente. Dois limites governam tudo.

Teorema 11.1 (Teorema da equipartição)

Quando os níveis de energia de um movimento são próximos em comparação com kTkT, cada termo de sua energia quadrático em uma coordenada ou em um momento contribui com 12kT\frac12kT para a energia média de uma molécula, logo com 12R\frac12R para a capacidade calorífica molar. Esse enunciado é o teorema da equipartição.

Demonstração parcial. No limite clássico, a soma sobre os estados de um movimento torna-se uma integral, e um termo quadrático au2a u^2 contribui com o fator ∫e−βau2 ⁣du=π/βa\int\eu^{-\beta au^2}\dd u = \sqrt{\pi/\beta a}, proporcional a β−1/2\beta^{-1/2}. Pelo Teorema 10.19, sua energia média é −∂ln⁡(β−1/2)/∂β=1/2β=12kT-\partial\ln(\beta^{-1/2})/\partial\beta = 1/2\beta = \frac12kT. Que a integral clássica seja o limite da soma quântica foi mostrado para a translação e a rotação no Capítulo 10; para a vibração, decorre da proposição seguinte quando T≫θVT \gg \theta_{\mathrm V}. ∎

A translação tem três termos quadráticos (32R\frac32R); a rotação de uma molécula linear, dois (RR), a de uma não linear, três (32R\frac32R); cada vibração, dois, cinético e potencial (RR). Uma molécula linear de NN átomos tende, portanto, a CV,m=52R+(3N−5)RC_{V,\mathrm m} = \frac52R + (3N - 5)R a alta temperatura. O limite quase nunca é atingido para as vibrações à temperatura ambiente.

Proposição 11.2 (Capacidade calorífica vibracional)

Uma vibração harmônica de temperatura característica θV\theta_{\mathrm V} contribui com, sendo x=θV/Tx = \theta_{\mathrm V}/T,

CV,mVR=x2ex(ex−1)2,\frac{C_{V,\mathrm m}^{\mathrm V}}{R} = \frac{x^2\eu^x}{(\eu^x - 1)^2},

a função de Einstein, que tende a 1 quando T≫θVT \gg \theta_{\mathrm V} e cai exponencialmente, como x2e−xx^2\eu^{-x}, quando T≪θVT \ll \theta_{\mathrm V}.

Demonstração. Pela Proposição 10.16, U−U(0)=RθV/(ex−1)U - U(0) = R\theta_{\mathrm V}/(\eu^x - 1) por mol. Derivando em relação a TT, com  ⁣dx/ ⁣dT=−x/T\dd x/\dd T = -x/T, obtém-se RθVex(x/T)/(ex−1)2=Rx2ex/(ex−1)2R\theta_{\mathrm V}\eu^x(x/T)/(\eu^x - 1)^2 = Rx^2\eu^x/(\eu^x - 1)^2. Para x→0x \to 0, ex−1≈x\eu^x - 1 \approx x e a razão tende a 1; para xx grande, ela se comporta como x2e−xx^2\eu^{-x}. ∎

Método 11.3 (A capacidade calorífica de um gás a partir de seus modos)

  1. Translação: 32R\frac32R, sempre.
  2. Rotação: RR (linear) ou 32R\frac32R (não linear) se T≫θRT \gg \theta_{\mathrm R}, o que vale para todo gás, exceto o hidrogênio, acima de algumas dezenas de kelvins.
  3. Vibrações: um termo de Einstein por modo normal, com θV=hcν~/k\theta_{\mathrm V} = hc\tilde\nu/k a partir dos números de onda fundamentais; um modo degenerado conta tantas vezes quanto sua degenerescência.
  4. Some, e Cp,m=CV,m+RC_{p,\mathrm m} = C_{V,\mathrm m} + R para um gás ideal.

Diz-se que um movimento está congelado quando kTkT é pequeno diante de sua primeira excitação: ele então não armazena energia e não contribui para CVC_V. A vibração de NX2\ce{N2} (θV=3352 K\theta_{\mathrm V} = 3352\,\mathrm{K}) está congelada à temperatura ambiente e CV,m=52RC_{V,\mathrm m} = \frac52R; a de ClX2\ce{Cl2} (θV=798 K\theta_{\mathrm V} = 798\,\mathrm{K}) está meio desperta, CV,m=3.07RC_{V,\mathrm m} = 3.07R a 300 K300\,\mathrm{K}.

Capacidade calorífica molar a volume constante, calculada a partir das constantes espectroscópicas (linhas; rotor rígido, vibração harmônica), com os valores das tabelas termoquímicas para N2 e Cl2 (pontos, C_p/R - 1). A vibração desperta perto de _ V/10; acima de cerca de 1000\, K, as tabelas sobem acima do modelo harmônico, que ignora a anarmonicidade. Hidrogênio: a contribuição rotacional do hidrogênio normal (tracejada, orto e para congelados em 3:1) e do hidrogênio de equilíbrio (contínua), que ultrapassa 5/2 porque converter para em orto absorve calor.
Capacidade calorífica molar a volume constante, calculada a partir das constantes espectroscópicas (linhas; rotor rígido, vibração harmônica), com os valores das tabelas termoquímicas para NX2\ce{N2} e ClX2\ce{Cl2} (pontos, Cp/R−1C_p/R - 1). A vibração desperta perto de θV/10\theta_{\mathrm V}/10; acima de cerca de 1000 K1000\,\mathrm{K}, as tabelas sobem acima do modelo harmônico, que ignora a anarmonicidade. Hidrogênio: a contribuição rotacional do hidrogênio normal (tracejada, orto e para congelados em 3:1) e do hidrogênio de equilíbrio (contínua), que ultrapassa 52\frac52 porque converter para em orto absorve calor.

11.2 Estatística de spin nuclear

Os dois núcleos de HX2\ce{H2} são férmions idênticos. Permutá-los muda o sinal da função de onda total (Capítulo 2); permutá-los equivale a girar a molécula de ponta a ponta, o que multiplica a função de onda rotacional YJ,MY_{J,M} por (−1)J(-1)^J e a função de spin nuclear por +1+1 ou −1-1.

Teorema 11.4 (Estatística de spin nuclear)

Em uma molécula diatômica homonuclear cujos núcleos têm spin II, em um estado eletrônico fundamental 1Σg+{}^1\Sigma_g^+, há (2I+1)(I+1)(2I+1)(I+1) estados de spin nuclear simétricos e (2I+1)I(2I+1)I antissimétricos. Para os férmions (II semi-inteiro), os antissimétricos acompanham os JJ pares e os simétricos os JJ ímpares; para os bósons (II inteiro), o contrário. Para HX2\ce{H2} (I=12I = \frac12), os níveis pares e ímpares têm pesos de spin 1 e 3; para DX2\ce{D2} (I=1I = 1), 6 e 3. Quando I=0I = 0, só existe uma paridade de JJ: a molécula linear de COX2\ce{CO2}, com dois núcleos X16X2216O\ce{^{16}O} e um estado fundamental simétrico, tem apenas níveis rotacionais pares.

Demonstração parcial. O postulado de simetria (a função de onda total é antissimétrica na permutação de dois férmions idênticos e simétrica para os bósons) é admitido. Os (2I+1)2(2I+1)^2 produtos de estados de spin de um núcleo ∣m1⟩∣m2⟩|m_1\rangle|m_2\rangle dão 2I+12I+1 estados simétricos com m1=m2m_1 = m_2 e, para cada um dos (2I+1)2I/2(2I+1)2I/2 pares m1≠m2m_1 \ne m_2, uma combinação simétrica e uma antissimétrica: (2I+1)+(2I+1)I=(2I+1)(I+1)(2I+1) + (2I+1)I = (2I+1)(I+1) estados simétricos e (2I+1)I(2I+1)I antissimétricos. Em um estado 1Σg+{}^1\Sigma_g^+, as funções eletrônica e vibracional não mudam na permutação, de modo que o produto das funções rotacional e de spin deve ter o sinal global exigido: para os férmions, (−1)J×(simetria de spin)=−1(-1)^J \times(\text{simetria de spin}) = -1, o que associa os JJ pares aos estados de spin antissimétricos. Para HX2\ce{H2}: 3 simétricos, 1 antissimétrico; para DX2\ce{D2}: 6 e 3. ∎

Definição 11.5 (Orto e para-hidrogênio)

O orto-hidrogênio é a forma de HX2\ce{H2} com os spins dos dois prótons em um estado simétrico (tripleto), que ocupa apenas os níveis rotacionais ímpares; o para-hidrogênio é a forma com o estado de spin antissimétrico (singleto), que ocupa apenas os níveis pares.

Converter uma forma na outra exige inverter um spin nuclear em relação ao outro, o que as colisões com outras moléculas de hidrogênio quase não fazem: no hidrogênio puro, as duas formas se comportam durante dias como dois gases diferentes. Uma superfície paramagnética, cujo campo magnético não homogêneo age de modo diferente sobre os dois prótons, catalisa a conversão.

Proposição 11.6 (Razão orto–para de equilíbrio)

No equilíbrio, a fração de para-hidrogênio é

xpara=∑J even(2J+1)e−θRJ(J+1)/T∑J even(2J+1)e−θRJ(J+1)/T+3∑J odd(2J+1)e−θRJ(J+1)/T,x_{\mathrm{para}} = \frac{\sum_{J\,\mathrm{even}}(2J+1)\eu^{-\theta_{\mathrm R}J(J+1)/T}} {\sum_{J\,\mathrm{even}}(2J+1)\eu^{-\theta_{\mathrm R}J(J+1)/T} + 3\sum_{J\,\mathrm{odd}}(2J+1)\eu^{-\theta_{\mathrm R}J(J+1)/T}},

que tende a 1 a 0 K e a 14\frac14 a alta temperatura. Para DX2\ce{D2}, a forma orto (JJ par) tende a 1 a 0 K e a 23\frac23 a alta temperatura.

Demonstração. A distribuição de Boltzmann sobre todos os estados, com os pesos de spin do Teorema 11.4. A 0 K, só J=0J = 0, que é par, está povoado. A alta temperatura, as somas par e ímpar valem cada uma a metade de T/θRT/\theta_{\mathrm R}, e a razão é 1:31 : 3; para DX2\ce{D2}, 6:36 : 3. ∎

Para HX2\ce{H2}, θR=85.4 K\theta_{\mathrm R} = 85.4\,\mathrm{K}: a mistura de equilíbrio é metade para a 78 K78\,\mathrm{K}, 99.8 % para no ponto de ebulição, 20.37 K20.37\,\mathrm{K}, e 25.07 % à temperatura ambiente. O hidrogênio mantido à temperatura ambiente, chamado hidrogênio normal, é portanto uma mistura 3:1 de orto e para.

Composição de equilíbrio dos isômeros de spin nuclear em função da temperatura, a partir dos níveis rotacionais e dos pesos de spin (H2: 1 e 3; D2: 6 e 3). As duas formas com J par predominam a baixa temperatura.
Composição de equilíbrio dos isômeros de spin nuclear em função da temperatura, a partir dos níveis rotacionais e dos pesos de spin (HX2\ce{H2}: 1 e 3; DX2\ce{D2}: 6 e 3). As duas formas com JJ par predominam a baixa temperatura.

A capacidade calorífica do hidrogênio mostra as consequências. No hidrogênio normal, as moléculas orto e para são dois gases misturados em proporções fixas; cada um tem sua própria escada de níveis, começando em J=1J = 1 e em J=0J = 0, e sua rotação congela separadamente. No hidrogênio de equilíbrio, o aquecimento também converte para em orto, o que absorve energia e dá o pico da figura acima. As primeiras medidas, feitas sem catalisador, seguiram a curva do hidrogênio normal, e foi a interpretação dessa curva como uma mistura 3:1 congelada que revelou pela primeira vez as duas formas.

Observação 11.7

O número de simetria da Proposição 10.15 fica agora justificado. A alta temperatura, cada estado de spin encontra permitida cerca da metade dos níveis rotacionais, de modo que ∑(peso de spin)(2J+1)e…≈(2I+1)2 T/2θR\sum(\text{peso de spin})(2J+1)\eu^{\dots} \approx (2I+1)^2\,T/2\theta_{\mathrm R}: o fator de spin total (2I+1)2(2I+1)^2 é deixado de fora por convenção, e resta σ=2\sigma = 2.

Definição 11.8 (Entropia residual)

A entropia residual de um cristal é a entropia que ele conserva quando T→0T \to 0 porque suas moléculas permanecem congeladas em um de muitos arranjos de energia igual ou quase igual.

Proposição 11.9 (Entropias residuais do monóxido de carbono e do gelo)

Um cristal de NN moléculas congelado em W0W_0 arranjos igualmente prováveis tem S0=kln⁡W0S_0 = k\ln W_0. O CO\ce{CO} sólido, com cada molécula apontando para um lado ou para o outro, tem S0,m=Rln⁡2=5.76 J K−1 mol−1S_{0,\mathrm m} = R\ln2 = 5.76\,\mathrm{J}\,\mathrm{K}^{-1}\,\mathrm{mol}^{-1}. O gelo, com cada oxigênio ligado a dois átomos de hidrogênio e ligado por ligações de hidrogênio a outros dois, tem W0=(3/2)NW_0 = (3/2)^N e S0,m=Rln⁡32=3.37 J K−1 mol−1S_{0,\mathrm m} = R\ln\frac32 = 3.37\,\mathrm{J}\,\mathrm{K}^{-1}\,\mathrm{mol}^{-1}.

Demonstração. A Definição 10.22 aplicada para T→0T \to 0. CO\ce{CO}: o dipolo da molécula é tão pequeno que as orientações CO e OC têm quase a mesma energia, e cada uma das NN moléculas tem duas: W0=2NW_0 = 2^N, S0=Nkln⁡2S_0 = Nk\ln2. Gelo (contagem de Pauling): cada um dos 2N2N átomos de hidrogênio fica sobre uma reta O⋯\cdotsO, perto de uma extremidade ou da outra: 22N2^{2N} arranjos. Das 16 maneiras de dispor os quatro hidrogênios em torno de um oxigênio, 6 lhe dão exatamente dois hidrogênios próximos (uma molécula de água); tratando os oxigênios como independentes, uma fração 6/166/16 dos arranjos satisfaz cada um deles: W0=22N(6/16)N=(3/2)NW_0 = 2^{2N}(6/16)^N = (3/2)^N. ∎

As tabelas citam, para o CO\ce{CO}, a entropia estatística (Capítulo 10); o valor calorimétrico é mais baixo, com uma diferença da ordem de Rln⁡2R\ln2, um pouco menor porque as orientações não são totalmente aleatórias. Para o gelo, a diferença entre a entropia calorimétrica do vapor de água e seu valor estatístico concordou com a contagem de Pauling quando ele a fez, em 1935, confirmando que os prótons do gelo são desordenados. O terceiro princípio, na forma “a entropia de um cristal perfeito é nula a 0 K”, aplica-se aos cristais que chegam de fato a um único arranjo.

A desordem dos prótons no gelo, desenhada como uma rede quadrada plana (a rede real é tetraédrica): cada oxigênio (vermelho) tem quatro vizinhos OO, um hidrogênio (branco) em cada reta, e exatamente dois hidrogênios próximos dele (as regras do gelo). Este é um dos (3/2)N arranjos da contagem de Pauling; todos eles têm quase a mesma energia, e o congelamento escolhe um ao acaso.
A desordem dos prótons no gelo, desenhada como uma rede quadrada plana (a rede real é tetraédrica): cada oxigênio (vermelho) tem quatro vizinhos O⋯\cdotsO, um hidrogênio (branco) em cada reta, e exatamente dois hidrogênios próximos dele (as regras do gelo). Este é um dos (3/2)N(3/2)^N arranjos da contagem de Pauling; todos eles têm quase a mesma energia, e o congelamento escolhe um ao acaso.

11.3 Constantes de equilíbrio a partir das funções de partição

Teorema 11.10 (Constante de equilíbrio a partir das funções de partição)

Para uma reação 0=∑JνJJ0 = \sum_J\nu_J\mathrm J entre gases ideais,

K∘=∏J(qJ,m∘NA)νJe−ΔrE0/RT,K^\circ = \prod_J\Bigl(\frac{q^\circ_{J,\mathrm m}}{N_A}\Bigr)^{\nu_J}\eu^{-\Delta_rE_0/RT},

onde qJ,m∘q^\circ_{J,\mathrm m} é a função de partição de J\mathrm J no volume molar padrão Vm∘=RT/p∘V^\circ_{\mathrm m} = RT/p^\circ, cada uma contada a partir de seu próprio estado fundamental, e ΔrE0=∑νJE0,J\Delta_rE_0 = \sum\nu_JE_{0,J} é a energia molar de reação a 0 K, do estado fundamental dos reagentes ao dos produtos.

Demonstração. Pelo Teorema 10.23, um mol de gás ideal J\mathrm J a p∘p^\circ tem Gm∘−Gm(0)=−RTln⁡(qJ,m∘/NA)G^\circ_{\mathrm m} - G_{\mathrm m}(0) = -RT\ln(q^\circ_{J,\mathrm m}/N_A), e Gm(0)G_{\mathrm m}(0) é a energia E0,JE_{0,J} de seu estado fundamental em uma escala comum a todas as espécies. Logo ΔrG∘=ΔrE0−RT∑JνJln⁡(qJ,m∘/NA)\Delta_rG^\circ = \Delta_rE_0 - RT\sum_J\nu_J\ln(q^\circ_{J,\mathrm m}/N_A), e ΔrG∘=−RTln⁡K∘\Delta_rG^\circ = -RT\ln K^\circ dá o resultado. ∎

Método 11.11 (Calcular uma constante de equilíbrio a partir de dados espectroscópicos)

  1. Para cada espécie: qm∘/NA=(kT/p∘)Λ−3×qRqVqEq^\circ_{\mathrm m}/N_A = (kT/p^\circ)\Lambda^{-3}\times q^{\mathrm R}q^{\mathrm V}q^{\mathrm E}, com os números de simetria e as degenerescências eletrônicas.
  2. ΔrE0\Delta_rE_0 a partir das energias de dissociação D0D_0 (medidas a partir do nível vibracional fundamental, de modo que as energias do ponto zero estão incluídas) ou das entalpias de formação a 0 K.
  3. Multiplique e verifique as unidades: K∘K^\circ é um número puro, e a pressão padrão entra por meio de kT/p∘kT/p^\circ.

Exemplo 11.12 (A dissociação do iodo)

Para IX2(g)⇌2 I(g)\ce{I2(g) <=> 2 I(g)}, ΔrE0=D0(IX2)=2×107.164−65.504=148.824 kJ/mol\Delta_rE_0 = D_0(\ce{I2}) = 2 \times 107.164 - 65.504 = 148.824\,\mathrm{kJ}/\mathrm{mol} a partir das entalpias de formação a 0 K das tabelas termoquímicas. A 1000 K1000\,\mathrm{K}: para I, Λ=4.90 pm\Lambda = 4.90\,\mathrm{pm}, kT/p∘=1.381×10−25 m3kT/p^\circ = 1.381 \times 10^{-25}\,\mathrm{m}^{3}, qE=4+2e−10.94=4.0000q^{\mathrm E} = 4 + 2\eu^{-10.94} = 4.0000 (o nível 2P1/2{}^2P_{1/2} fica 7603 cm−17603\,\mathrm{cm}^{-1} acima), logo qm∘/NA=4.69×109q^\circ_{\mathrm m}/N_A = 4.69 \times 10^{9}; para IX2\ce{I2}, Λ=3.47 pm\Lambda = 3.47\,\mathrm{pm}, qR=1000/(2×0.05369)=9313q^{\mathrm R} = 1000/(2 \times 0.05369) = 9313 e qV=3.784q^{\mathrm V} = 3.784, logo qm∘/NA=1.17×1014q^\circ_{\mathrm m}/N_A = 1.17 \times 10^{14}. Então K∘=(4.69×109)2/(1.17×1014)×e−17.90=3.17×10−3K^\circ = (4.69\times10^9)^2/(1.17\times10^{14}) \times \eu^{-17.90} = 3.17 \times 10^{-3}, log⁡K∘=−2.50\log K^\circ = -2.50; as tabelas dão −2.51-2.51.

Constantes de equilíbrio calculadas a partir das funções de partição. À esquerda: a dissociação do iodo, uma reta de van ’t Hoff de inclinação - _rH /(R 10), com os valores das tabelas termoquímicas (pontos). À direita: a troca H2 + D2 <=> 2 HD, que tende à razão dos números de simetria, 4, a alta temperatura e fica abaixo dela a baixa temperatura por causa das energias do ponto zero e das restrições de spin nuclear.
Constantes de equilíbrio calculadas a partir das funções de partição. À esquerda: a dissociação do iodo, uma reta de van ’t Hoff de inclinação −ΔrH∘/(Rln⁡10)-\Delta_rH^\circ/(R\ln10), com os valores das tabelas termoquímicas (pontos). À direita: a troca HX2+DX2⇌2 HD\ce{H2 + D2 <=> 2 HD}, que tende à razão dos números de simetria, 4, a alta temperatura e fica abaixo dela a baixa temperatura por causa das energias do ponto zero e das restrições de spin nuclear.

Proposição 11.13 (A troca H2_2 + D2_2)

Para HX2+DX2⇌2 HD\ce{H2 + D2 <=> 2 HD}, K∘→4K^\circ \to 4 a alta temperatura.

Demonstração. A alta temperatura, os fatores translacional, rotacional e vibracional são m3/2m^{3/2}, T/σθR∝μ/σT/\sigma\theta_{\mathrm R} \propto \mu/\sigma e T/θV∝μT/\theta_{\mathrm V} \propto \sqrt\mu (a constante de força, propriedade eletrônica, é a mesma para as três moléculas), e ΔrE0/RT→0\Delta_rE_0/RT \to 0. Com mHX2=2m_{\ce{H2}} = 2, mDX2=4m_{\ce{D2}} = 4, mHD=3m_{\ce{HD}} = 3 e μ=1/2\mu = 1/2, 1, 2/32/3 (em unidades da massa do próton, ignorando a pequena diferença entre D e 2H):

K∘→(98)3/2×(2/3)2/12(1/2)(1)/(2×2)×2/31/21=27162×329×223=4.K^\circ \to \Bigl(\frac{9}{8}\Bigr)^{3/2} \times \frac{(2/3)^2/1^2}{(1/2)(1)/(2 \times 2)} \times \frac{2/3}{\sqrt{1/2}\sqrt1} = \frac{27}{16\sqrt2} \times \frac{32}{9} \times \frac{2\sqrt2}{3} = 4 .

Todos os fatores de massa se cancelam exatamente: só restam os números de simetria, σHX2σDX2/σHD2=4\sigma_{\ce{H2}} \sigma_{\ce{D2}}/\sigma_{\ce{HD}}^2 = 4. ∎

A 298.15 K298.15\,\mathrm{K}, a constante estatística vale 3.26: as energias do ponto zero de HX2\ce{H2}, DX2\ce{D2} e HD (2170.3 cm−12170.3\,\mathrm{cm}^{-1}, 1542.3 cm−11542.3\,\mathrm{cm}^{-1} e 1883.7 cm−11883.7\,\mathrm{cm}^{-1}) dão ΔrE0=54.8 cm−1\Delta_rE_0 = 54.8\,\mathrm{cm}^{-1}, um fator e−54.8/207.2=0.77\eu^{-54.8/207.2} = 0.77; a rotação, ainda parcialmente quantizada para essas moléculas leves, também importa.

Proposição 11.14 (A equação de van ’t Hoff reencontrada)

A constante de equilíbrio estatística obedece a  ⁣dln⁡K∘ ⁣dT=ΔrH∘RT2\dfrac{\dd\ln K^\circ}{\dd T} = \dfrac{\Delta_rH^\circ}{RT^2}.

Demonstração. Cada qJ,m∘q^\circ_{J,\mathrm m} depende de TT por seus níveis e por Vm∘=RT/p∘V^\circ_{\mathrm m} = RT/p^\circ:  ⁣dln⁡qJ,m∘/ ⁣dT=(UJ−UJ(0))/RT2+1/T\dd\ln q^\circ_{J,\mathrm m}/\dd T = (U_J - U_J(0))/RT^2 + 1/T por mol, pelo Teorema 10.19. Logo  ⁣dln⁡K∘/ ⁣dT=[ΔrE0+∑νJ(UJ−UJ(0))+∑νJRT]/RT2=(ΔrU+ΔνgRT)/RT2=ΔrH∘/RT2\dd\ln K^\circ/\dd T = [\Delta_rE_0 + \sum\nu_J(U_J - U_J(0)) + \sum\nu_JRT]/RT^2 = (\Delta_rU + \Delta\nu_{\mathrm g}RT)/RT^2 = \Delta_rH^\circ/RT^2 para gases ideais. ∎

Da inclinação do painel esquerdo da figura, a entalpia de dissociação do iodo perto de 1000 K1000\,\mathrm{K} é 154 kJ/mol154\,\mathrm{kJ}/\mathrm{mol}: D0D_0 mais a energia translacional extra de dois átomos em relação a uma molécula, menos a energia rotacional e vibracional desta.

11.4 Efeitos isotópicos

Os isotopólogos têm a mesma estrutura eletrônica, logo a mesma curva de energia potencial e as mesmas constantes de força, mas massas diferentes: seus números de onda vibracionais, suas energias do ponto zero e suas funções de partição diferem, assim como suas constantes de equilíbrio.

Definição 11.15 (Efeito isotópico de equilíbrio, fator de fracionamento, valor δ\delta)

O efeito isotópico de equilíbrio de uma reação é a razão Klight/KheavyK_{\mathrm{light}}/K_{\mathrm{heavy}} de suas constantes de equilíbrio com o isótopo leve e com o pesado. O fator de fracionamento entre duas fases ou compostos A e B é αA/B=RA/RB\alpha_{\mathrm{A/B}} = R_{\mathrm A}/R_{\mathrm B}, onde RR é a razão entre o isótopo pesado e o leve (por exemplo, X18X2218O/X16X2216O\ce{^{18}O}/\ce{^{16}O}). O valor δ\delta de uma amostra é δ=(Rsample/Rstandard−1)×1000\delta = (R_{\mathrm{sample}}/R_{\mathrm{standard}} - 1) \times 1000, em por mil (‰).

Proposição 11.16 (Efeitos isotópicos a partir das energias do ponto zero)

Para uma troca XH+YD⇌XD+YH\ce{XH + YD <=> XD + YH} a temperaturas em que as vibrações de estiramento estão congeladas, o fator dominante da constante de equilíbrio é

K≈exp⁡(−ΔZPEkT),ΔZPE=12hc[ν~XD+ν~YH−ν~XH−ν~YD],K \approx \exp\Bigl(-\frac{\Delta\mathrm{ZPE}}{kT}\Bigr), \qquad \Delta\mathrm{ZPE} = \tfrac12hc\bigl[\tilde\nu_{\mathrm{XD}} + \tilde\nu_{\mathrm{YH}} - \tilde\nu_{\mathrm{XH}} - \tilde\nu_{\mathrm{YD}}\bigr],

e ν~D≈ν~H/2\tilde\nu_{\mathrm D} \approx \tilde\nu_{\mathrm H}/\sqrt2 para um hidrogênio ligado a um átomo pesado. O isótopo pesado se concentra na ligação mais rígida.

Demonstração. O Teorema 11.10 com as energias medidas a partir do fundo das curvas de potencial comuns: ΔrE0\Delta_rE_0 é a variação da energia do ponto zero. Os fatores translacional e rotacional quase se cancelam entre duas trocas dos mesmos isótopos em parceiros pesados, e as funções de partição vibracionais valem 1 quando congeladas. Com ν~∝μ−1/2\tilde\nu \propto \mu^{-1/2} e μXD≈2μXH\mu_{\mathrm{XD}} \approx 2\mu_{\mathrm{XH}} para X pesado, ν~XD=ν~XH/2\tilde\nu_{\mathrm{XD}} = \tilde\nu_{\mathrm{XH}}/\sqrt2, e ΔZPE=12hc(1−1/2)(ν~YH−ν~XH)\Delta\mathrm{ZPE} = \frac12hc(1 - 1/\sqrt2)(\tilde\nu_{\mathrm{YH}} - \tilde\nu_{\mathrm{XH}}): negativa, logo K>1K > 1, quando X–H é a ligação mais rígida. ∎

O mesmo raciocínio explica o fracionamento dos isótopos do oxigênio entre a água e seu vapor, entre a água e o carbonato de uma concha, ou entre dois minerais: o fator de fracionamento tende a 1 a alta temperatura (assim como KHDK_{\mathrm{HD}} tende a seu limite de simetria) e se afasta de 1 quando a temperatura cai. Medido como valores δ\delta, ele é um termômetro: o δ18\delta^{18}O do carbonato das conchas fósseis registra a temperatura da água em que elas cresceram, e o do gelo dos testemunhos polares, a temperatura das nuvens que formaram sua neve.

No laboratório — Um conversor orto–para

Um liquefator de hidrogênio resfria o gás em etapas e, entre as etapas, o faz passar por leitos de um catalisador paramagnético, tipicamente óxido de ferro(III) hidratado. O calor de conversão é então removido em cada temperatura pelo refrigerador, e o líquido que chega ao tanque está próximo de sua composição de equilíbrio, quase inteiramente para. Sem o catalisador, o calor de conversão seria liberado no tanque.

Segurança

Hidrogênio: gás extremamente inflamável, armazenado sob pressão ou como líquido criogênico. Forma misturas explosivas com o ar em uma faixa muito ampla e queima com uma chama quase invisível; o líquido causa queimaduras pelo frio e seu vapor desloca o ar.

História — Os dois hidrogênios, 1927–1929

Werner Heisenberg e Friedrich Hund previram em 1927 que as moléculas de hidrogênio deveriam existir em duas formas que diferem por seus spins nucleares, e David Dennison mostrou no mesmo ano que a intrigante capacidade calorífica do hidrogênio medida abaixo da temperatura ambiente era a de uma mistura 3:1 das duas, congelada em sua composição da temperatura ambiente. Em 1929, Karl Friedrich Bonhoeffer e Paul Harteck adsorveram hidrogênio em carvão à temperatura do ar líquido, dessorveram para-hidrogênio quase puro, reconhecido por sua condutividade térmica diferente, e constataram que ele só voltava à mistura normal muito lentamente.

11.5 Exercícios

Exercício 11.1 ★

Dê o limite de alta temperatura de CV,mC_{V,\mathrm m} do COX2\ce{CO2} (linear, 3 átomos) e diga quais contribuições ainda estão congeladas à temperatura ambiente.

Solução

Solução de Exercício 11.1.

32R+R+(3×3−5)R=6.5R=54.0 J K−1 mol−1\frac32R + R + (3 \times 3 - 5)R = 6.5R = 54.0\,\mathrm{J}\,\mathrm{K}^{-1}\,\mathrm{mol}^{-1}. À temperatura ambiente, a translação e a rotação são clássicas, os dois estiramentos estão congelados e a deformação angular duplamente degenerada, a vibração mais baixa, está parcialmente excitada.

Exercício 11.2 ★

Avalie a função de Einstein em T=θVT = \theta_{\mathrm V} e em T=θV/10T = \theta_{\mathrm V}/10.

Solução

Solução de Exercício 11.2.

x=1x = 1: e/(e−1)2=0.921\eu/(\eu - 1)^2 = 0.921. x=10x = 10: 100e10/(e10−1)2≈100e−10=4.5×10−3100\eu^{10}/(\eu^{10} - 1)^2 \approx 100\eu^{-10} = 4.5 \times 10^{-3}.

Exercício 11.3 ★

Com θR=85.35 K\theta_{\mathrm R} = 85.35\,\mathrm{K} para HX2\ce{H2}, calcule a fração para de equilíbrio a 20 K20\,\mathrm{K} (só importam J=0J = 0 e J=1J = 1) e a 77 K77\,\mathrm{K} (J≤3J \le 3).

Solução

Solução de Exercício 11.3.

20 K20\,\mathrm{K}: xpara=1/(1+3×3e−2×85.35/20)=1/(1+9×1.96×10−4)=0.998x_{\mathrm{para}} = 1/(1 + 3 \times 3\eu^{-2 \times 85.35/20}) = 1/(1 + 9 \times 1.96 \times 10^{-4}) = 0.998. 77 K77\,\mathrm{K}: soma par 1+5e−6.651=1.00651 + 5\eu^{-6.651} = 1.0065; soma ímpar 3(3e−2.217+7e−13.30)=0.98063(3\eu^{-2.217} + 7\eu^{-13.30}) = 0.9806; xpara=1.0065/1.9871=0.51x_{\mathrm{para}} = 1.0065/1.9871 = 0.51.

Exercício 11.4 ★

Explique por que o deutério (spin nuclear 1) dá os pesos orto:para 6:36 : 3, que forma é estável a 0 K e qual é a razão à temperatura ambiente.

Solução

Solução de Exercício 11.4.

Para I=1I = 1, há 3×2=63 \times 2 = 6 estados de spin simétricos e 3×1=33 \times 1 = 3 antissimétricos; os dêuterons são bósons, logo a função de onda total é simétrica: estados de spin simétricos com JJ par (orto, peso 6), antissimétricos com JJ ímpar (para, peso 3). O orto-deutério, que contém J=0J = 0, é estável a 0 K; à temperatura ambiente, orto:para = 2:1.

Exercício 11.5 ★★

As energias do ponto zero de HX2\ce{H2}, DX2\ce{D2} e HD são 2170.3, 1542.3 e 1883.7 cm−11883.7\,\mathrm{cm}^{-1}. Calcule ΔrE0\Delta_rE_0 para HX2+DX2⇌2 HD\ce{H2 + D2 <=> 2 HD} e o fator e−ΔrE0/RT\eu^{-\Delta_rE_0/RT} a 298.15 K298.15\,\mathrm{K}. Compare 4e−ΔrE0/RT4\eu^{-\Delta_rE_0/RT} com o valor estatístico completo, 3.26.

Solução

Solução de Exercício 11.5.

ΔrE0=2×1883.7−2170.3−1542.3=54.8 cm−1\Delta_rE_0 = 2 \times 1883.7 - 2170.3 - 1542.3 = 54.8\,\mathrm{cm}^{-1}; e−54.8/207.2=0.768\eu^{-54.8/207.2} = 0.768, e 4×0.768=3.074 \times 0.768 = 3.07. O valor completo, 3.26, é 6 % maior: os fatores translacional, rotacional e vibracional só se cancelam exatamente no limite clássico, e a rotação dessas moléculas leves ainda é parcialmente quantizada a 298 K298\,\mathrm{K}.

Exercício 11.6 ★★

Estime a entropia residual de um cristal de NX2O\ce{N2O} (NNO linear, que pode apontar para um lado ou para o outro) e de CHX3D\ce{CH3D} (que pode pôr seu D em qualquer uma de quatro posições).

Solução

Solução de Exercício 11.6.

NX2O\ce{N2O}: duas orientações, Rln⁡2=5.76 J K−1 mol−1R\ln2 = 5.76\,\mathrm{J}\,\mathrm{K}^{-1}\,\mathrm{mol}^{-1}. CHX3D\ce{CH3D}: quatro, Rln⁡4=11.53 J K−1 mol−1R\ln4 = 11.53\,\mathrm{J}\,\mathrm{K}^{-1}\,\mathrm{mol}^{-1} (limites superiores, atingidos se os arranjos forem aleatórios).

Exercício 11.7 ★★

Calcule a Cp,mC_{p,\mathrm m} do ClX2\ce{Cl2} a 300 K300\,\mathrm{K} a partir de θV=797.6 K\theta_{\mathrm V} = 797.6\,\mathrm{K} e compare com o valor tabelado 33.981 J K−1 mol−133.981\,\mathrm{J}\,\mathrm{K}^{-1}\,\mathrm{mol}^{-1}.

Solução

Solução de Exercício 11.7.

x=797.6/300=2.659x = 797.6/300 = 2.659: função de Einstein x2e−x/(1−e−x)2=0.572x^2\eu^{-x}/(1 - \eu^{-x})^2 = 0.572; CV/R=3.072C_V/R = 3.072, Cp=4.072R=33.86 J K−1 mol−1C_p = 4.072R = 33.86\,\mathrm{J}\,\mathrm{K}^{-1}\,\mathrm{mol}^{-1}, 0.4 % abaixo da tabela (anarmonicidade).

Exercício 11.8 ★★

Calcule a capacidade calorífica vibracional do IX2\ce{I2} (θV=306.9 K\theta_{\mathrm V} = 306.9\,\mathrm{K}) a 298.15 K298.15\,\mathrm{K}, como fração de seu valor de equipartição.

Solução

Solução de Exercício 11.8.

x=1.029x = 1.029: x2e−x/(1−e−x)2=0.916x^2\eu^{-x}/(1 - \eu^{-x})^2 = 0.916, isto é, 7.62 J K−1 mol−17.62\,\mathrm{J}\,\mathrm{K}^{-1}\,\mathrm{mol}^{-1}, 92 % de RR: a vibração do iodo é quase clássica à temperatura ambiente.

Exercício 11.9 ★★

Uma amostra de água A tem δ18O=−10.0\delta^{18}\mathrm O = -10.0 ‰ e uma amostra B, +2.0+2.0 ‰ na mesma escala. Qual é mais rica em X18X2218O\ce{^{18}O}? Calcule o fator de fracionamento αA/B\alpha_{\mathrm{A/B}}.

Solução

Solução de Exercício 11.9.

B é mais rica em X18X2218O\ce{^{18}O}. αA/B=(1−0.0100)/(1+0.0020)=0.98802\alpha_{\mathrm{A/B}} = (1 - 0.0100)/(1 + 0.0020) = 0.98802.

Exercício 11.10 ★★★

Na troca XH+YD⇌XD+YH\ce{XH + YD <=> XD + YH} (dados do exercício), ν~XH=3000 cm−1\tilde\nu_{\mathrm{XH}} = 3000\,\mathrm{cm}^{-1} e ν~YH=2000 cm−1\tilde\nu_{\mathrm{YH}} = 2000\,\mathrm{cm}^{-1}, com X e Y pesados. Estime KK a 298.15 K298.15\,\mathrm{K} e diga para onde vai o deutério.

Solução

Solução de Exercício 11.10.

ΔZPE=12(1−1/2)(2000−3000)=−146 cm−1\Delta\mathrm{ZPE} = \frac12(1 - 1/\sqrt2)(2000 - 3000) = -146\,\mathrm{cm}^{-1}; K=e146.4/207.2=2.0K = \eu^{146.4/207.2} = 2.0. O deutério vai preferencialmente para X, a ligação mais rígida, onde a economia de energia do ponto zero é maior.

Exercício 11.11 ★★★

As constantes estatísticas de IX2⇌2 I\ce{I2 <=> 2 I} são log⁡K∘=−3.392\log K^\circ = -3.392 a 900 K900\,\mathrm{K} e −1.766-1.766 a 1100 K1100\,\mathrm{K}. Deduza o ΔrH∘\Delta_rH^\circ médio no intervalo e explique por que ele excede D0=148.8 kJ/molD_0 = 148.8\,\mathrm{kJ}/\mathrm{mol}.

Solução

Solução de Exercício 11.11.

ΔrH∘=Rln⁡10 (−1.766+3.392)/(1/900−1/1100)=19.145×1.626/2.020×10−4=154 kJ/mol\Delta_rH^\circ = R\ln10\,(-1.766 + 3.392)/(1/900 - 1/1100) = 19.145 \times 1.626/2.020 \times 10^{-4} = 154\,\mathrm{kJ}/\mathrm{mol}. Os dois átomos carregam 2×52RT2 \times \frac52RT de entalpia; a molécula, 52RT+RT\frac52RT + RT (rotação) mais sua energia vibracional RθV/(eθV/T−1)R\theta_{\mathrm V}/(\eu^{\theta_{\mathrm V}/T} - 1), um pouco menos que RTRT: a diferença, cerca de 5 kJ/mol5\,\mathrm{kJ}/\mathrm{mol} a 1000 K1000\,\mathrm{K}, soma-se a D0D_0.

Exercício 11.12 ★★★

Para o para-hidrogênio a baixa temperatura, só importam J=0J = 0 e J=2J = 2. Mostre que sua capacidade calorífica rotacional é C/R=5x2e−x/(1+5e−x)2C/R = 5x^2\eu^{-x}/(1 + 5\eu^{-x})^2 com x=6θR/Tx = 6\theta_{\mathrm R}/T, e avalie-a a 100 K100\,\mathrm{K} (θR=85.35 K\theta_{\mathrm R} = 85.35\,\mathrm{K}).

Solução

Solução de Exercício 11.12.

Níveis 0 (g=1g = 1) e 6hcB6hcB (g=5g = 5): q=1+5e−xq = 1 + 5\eu^{-x}, ⟨ε⟩/kT=5xe−x/q\langle\varepsilon\rangle/kT = 5x\eu^{-x}/q, ⟨ε2⟩/(kT)2=5x2e−x/q\langle\varepsilon^2\rangle/(kT)^2 = 5x^2\eu^{-x}/q, e C/R=⟨ε2⟩/(kT)2−(⟨ε⟩/kT)2=5x2e−x/(1+5e−x)2C/R = \langle\varepsilon^2\rangle/(kT)^2 - (\langle\varepsilon\rangle/kT)^2 = 5x^2\eu^{-x}/(1 + 5\eu^{-x})^2. A 100 K100\,\mathrm{K}, x=5.121x = 5.121: C/R=0.783/1.061=0.738C/R = 0.783/1.061 = 0.738.

11.6 Problema: Armazenar hidrogênio líquido

Problema 11.1

Problema de fim de semana — armazenar hidrogênio líquido: as duas formas de spin nuclear, o calor de sua conversão, a evaporação que ele provoca e o catalisador que a impede

O hidrogênio é liquefeito em seu ponto de ebulição, 20.37 K20.37\,\mathrm{K} sob 1.013 25 bar1.013\,25\,\mathrm{bar}, onde sua entalpia de vaporização é 0.905 kJ/mol0.905\,\mathrm{kJ}/\mathrm{mol}. Níveis rotacionais: F(J)=B0J(J+1)−DJ2(J+1)2F(J) = B_0J(J+1) - D J^2(J+1)^2 com B0=59.322 cm−1B_0 = 59.322\,\mathrm{cm}^{-1} e D=0.0471 cm−1D = 0.0471\,\mathrm{cm}^{-1} (θR=85.35 K\theta_{\mathrm R} = 85.35\,\mathrm{K}). Massa molar 2.016 g/mol2.016\,\mathrm{g}/\mathrm{mol}. A conversão orto →\to para não catalisada no líquido é tomada como de primeira ordem, k=0.0114 h−1k = 0.0114\,\mathrm{h}^{-1} (dados do problema).

Parte I — As duas formas.

  1. Quantos estados de spin nuclear tem um par de prótons? Quantos são simétricos na permutação, quantos antissimétricos?
  2. Quais estados de spin acompanham os JJ pares, quais os JJ ímpares, e por quê?
  3. Dê os pesos de spin dos níveis pares e ímpares.
  4. Mostre que a razão orto:para do hidrogênio à temperatura ambiente é 3:1.
  5. Calcule a energia de J=1J = 1 acima de J=0J = 0, em cm−1\mathrm{cm}^{-1} e em kJ/mol\mathrm{kJ}/\mathrm{mol}.
  6. Calcule a fração para de equilíbrio a 20.37 K20.37\,\mathrm{K}.
  7. A mistura de equilíbrio é metade para a cerca de 78 K78\,\mathrm{K}. Por que essa temperatura é próxima de θR\theta_{\mathrm R}?

Parte II — O calor de conversão.

  1. Qual é a fração orto do hidrogênio recém-liquefeito sem catalisador? Por que ela não muda durante a liquefação?
  2. Calcule o calor liberado quando um mol dele atinge o equilíbrio a 20.37 K20.37\,\mathrm{K}.
  3. Exprima-o por quilograma.
  4. Exprima a entalpia de vaporização por quilograma.
  5. Compare os dois.
  6. Por que um isolamento melhor do tanque não pode eliminar esse calor?

Parte III — A evaporação.

  1. Dê a fração orto depois de um tempo tt no tanque.
  2. Calcule-a depois de 24 h24\,\mathrm{h}.
  3. Calcule o calor liberado por mol de líquido nas primeiras 24 h24\,\mathrm{h}.
  4. Que fração do líquido esse calor evaporaria?
  5. Repita para uma semana. Por que essa estimativa simples exagera a perda?
  6. Calcule o tempo de meia-vida da conversão.

Parte IV — O catalisador e a capacidade calorífica.

  1. Onde, em um liquefator, a conversão deve ocorrer, e por quê?
  2. O hidrogênio normal a 300 K300\,\mathrm{K} está em equilíbrio orto–para?
  3. Por que os hidrogênios normal e de equilíbrio têm capacidades caloríficas diferentes entre cerca de 30 e 200 K200\,\mathrm{K}?
  4. Leia na figura da capacidade calorífica o máximo de CV,m/RC_{V,\mathrm m}/R do hidrogênio de equilíbrio e explique por que ele excede 52\frac52.
  5. Quanto vale a CV,m/RC_{V,\mathrm m}/R do hidrogênio normal a 50 K50\,\mathrm{K}?
  6. Enuncie o resultado: a razão entre o calor de conversão do hidrogênio normal e sua entalpia de vaporização, e seu significado para o tanque.
Solução

Solução de Problema 11.1.

1. 2×2=42 \times 2 = 4: três simétricos (o tripleto), um antissimétrico (o singleto). 2. Os prótons são férmions, logo a função de onda total muda de sinal na permutação; a função rotacional dá (−1)J(-1)^J: os JJ pares acompanham o singleto antissimétrico (para), os JJ ímpares o tripleto simétrico (orto). 3. Níveis pares 1, níveis ímpares 3. 4. A 300 K300\,\mathrm{K} (T=3.5 θRT = 3.5\,\theta_{\mathrm R}), as somas rotacionais par e ímpar são quase iguais; ponderadas por 1 e 3, dão 1:3 (fração para 0.2507). 5. F(1)=2×59.322−4×0.0471=118.46 cm−1=1.417 kJ/molF(1) = 2 \times 59.322 - 4 \times 0.0471 = 118.46\,\mathrm{cm}^{-1} = 1.417\,\mathrm{kJ}/\mathrm{mol}. 6. 1/(1+9e−170.4/20.37)=1/(1+9×2.3×10−4)=0.9981/(1 + 9\eu^{-170.4/20.37}) = 1/(1 + 9 \times 2.3 \times 10^{-4}) = 0.998. 7. Com apenas J=0J = 0 e 1, metade para significa 9e−2θR/T=19\eu^{-2\theta_{\mathrm R}/T} = 1, T=2θR/ln⁡9=0.91 θR=78 KT = 2\theta_{\mathrm R}/\ln9 = 0.91\,\theta_{\mathrm R} = 78\,\mathrm{K}: a competição se dá entre o peso 9 de J=1J = 1 e seu fator de Boltzmann. 8. 0.75. Sem catalisador, a conversão leva dias; a liquefação, horas. 9. (0.75−0.002)×1.417=1.060 kJ/mol(0.75 - 0.002) \times 1.417 = 1.060\,\mathrm{kJ}/\mathrm{mol}. 10. 1.060/2.016×10−3=526 kJ/kg1.060/2.016 \times 10^{-3} = 526\,\mathrm{kJ}/\mathrm{kg}. 11. 0.905/2.016×10−3=449 kJ/kg0.905/2.016 \times 10^{-3} = 449\,\mathrm{kJ}/\mathrm{kg}. 12. O calor de conversão vale 1.17 vez a entalpia de vaporização. 13. Ele é produzido dentro do líquido, e não trazido pelas paredes. 14. xo(t)=xeq+(0.75−xeq)e−ktx_{\mathrm o}(t) = x_{\mathrm{eq}} + (0.75 - x_{\mathrm{eq}})\eu^{-kt}, com xeq=0.002x_{\mathrm{eq}} = 0.002. 15. 0.002+0.748e−0.274=0.5710.002 + 0.748\eu^{-0.274} = 0.571. 16. (0.75−0.571)×1.417=0.254 kJ/mol(0.75 - 0.571) \times 1.417 = 0.254\,\mathrm{kJ}/\mathrm{mol}. 17. 0.254/0.905=0.280.254/0.905 = 0.28: 28 % do tanque em um dia. 18. Depois de 168 h168\,\mathrm{h}, xo=0.112x_{\mathrm o} = 0.112, calor de 0.904 kJ/mol0.904\,\mathrm{kJ}/\mathrm{mol}, igual à entalpia de vaporização: nesse modelo, o tanque fica vazio. A estimativa exagera a perda porque as moléculas evaporadas levam consigo seu orto-hidrogênio não convertido; a perda real é menor, mas ainda grande. 19. t1/2=ln⁡2/0.0114=61 ht_{1/2} = \ln2/0.0114 = 61\,\mathrm{h}. 20. No liquefator, sobre leitos de catalisador em temperaturas sucessivas, para que o refrigerador remova o calor de conversão antes de o líquido ser armazenado. 21. Sim: a fração para de equilíbrio a 300 K300\,\mathrm{K} é 0.2507. 22. No hidrogênio normal, as duas formas não podem se interconverter, de modo que a rotação de cada uma congela em sua própria escada de níveis; no hidrogênio de equilíbrio, parte do calor fornecido converte para em orto. 23. Cerca de 3.57, perto de 50 K50\,\mathrm{K}: além de excitar a rotação, o calor converte moléculas de J=0J = 0 em J=1J = 1, 118 cm−1118\,\mathrm{cm}^{-1} acima, uma reação de entalpia positiva. 24. 1.50: a rotação está congelada nas duas formas (para em J=0J = 0, orto em J=1J = 1). 25. Calor de conversão / entalpia de vaporização ≈1.2\approx 1.2 para o hidrogênio normal: só sua conversão poderia evaporar todo o tanque, e é por isso que o hidrogênio é convertido em para antes do armazenamento.

Termos definidos neste capítulo

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