Chemistry · Livro 4 · Bachelor Year 3

Química universitária — 3.º ano

Química universitária — 3.º ano · Bachelor Year 3

29Química dos heterociclos

Uma xícara de café contém cafeína, construída a partir de dois anéis fundidos que contêm quatro átomos de nitrogênio, e seu aroma vem de dezenas de furanos, pirróis, pirazinas e tiofenos formados na torrefação. A maioria dos fármacos da prateleira de uma farmácia contém pelo menos um anel com um átomo de nitrogênio, oxigênio ou enxofre, assim como as bases do DNA, o heme, a clorofila e muitas vitaminas. Este capítulo explica como um heteroátomo em um anel aromático modifica seus elétrons: ele pode tornar o anel mais pobre ou mais rico que o benzeno, e isso decide onde e como ele reage. O capítulo termina com três maneiras clássicas de construir esses anéis.

O que você já sabe

O volume do 2.º ano tratou da aromaticidade e da regra de Hückel, dos arenos e da substituição eletrofílica aromática pelo intermediário de Wheland, dos grupos ativantes e orientadores, das aminas e de sua basicidade, das iminas, das enaminas, dos tautômeros e das nucleobases; o volume do 1.º ano, do pKa\mathrm pK_a, dos nucleófilos, dos eletrófilos e dos grupos de saída. O Capítulo 26 deu o rearranjo sigmatrópico [3,3].

Uma xícara de café e grãos torrados: a cafeína, uma purina, e muitas das moléculas de aroma formadas na torrefação são heterociclos.
Uma xícara de café e grãos torrados: a cafeína, uma purina, e muitas das moléculas de aroma formadas na torrefação são heterociclos.

29.1 Heterociclos aromáticos

Definição 29.1 (Heterociclos)

Um heterociclo é um composto cíclico com pelo menos um átomo diferente do carbono no anel; um composto heteroaromático é um heterociclo aromático, como a piridina, o pirrol, o furano ou o tiofeno.

Proposição 29.2 (Seis elétrons π\pi)

A piridina, o pirrol, o furano, o tiofeno e o imidazol têm, cada um, seis elétrons π\pi em um anel plano, cíclico e conjugado, e são aromáticos pela regra de Hückel.

Demonstração. Piridina: os cinco carbonos e o nitrogênio dão, cada um, um elétron p; o par isolado do nitrogênio está em um orbital sp2sp^2 no plano do anel, fora do sistema π\pi: 5+1=65 + 1 = 6. Pirrol: os quatro carbonos dão um cada, e o nitrogênio, ligado a H no plano, põe seu par isolado em seu orbital p: 4+2=64 + 2 = 6. Furano e tiofeno: como o pirrol, o heteroátomo cede um de seus dois pares isolados (o outro fica no plano). Imidazol: o nitrogênio N–H dá dois, o nitrogênio do tipo piridina um, os três carbonos, três: 6. Seis é 4n+24n + 2 com n=1n = 1. ∎

Os sistemas π da piridina e do pirrol, vistos obliquamente: um orbital p por átomo do anel, perpendicular ao anel. Na piridina, o par isolado do nitrogênio (o lobo no plano, no nitrogênio) aponta para fora no plano do anel e está livre para ligar um próton; no pirrol, o nitrogênio, que porta um hidrogênio no plano, cede seu par isolado ao sexteto aromático.
Os sistemas π\pi da piridina e do pirrol, vistos obliquamente: um orbital p por átomo do anel, perpendicular ao anel. Na piridina, o par isolado do nitrogênio (o lobo no plano, no nitrogênio) aponta para fora no plano do anel e está livre para ligar um próton; no pirrol, o nitrogênio, que porta um hidrogênio no plano, cede seu par isolado ao sexteto aromático.

Definição 29.3 (Heterociclos π\pi-excedentes e π\pi-deficientes)

Um heterociclo π\pi-excedente, como o pirrol, o furano ou o tiofeno, tem seis elétrons π\pi em cinco átomos e uma densidade eletrônica π\pi em seus carbonos maior que a do benzeno; um heterociclo π\pi-deficiente, como a piridina, tem um átomo eletronegativo no anel que retira densidade π\pi dos carbonos.

Proposição 29.4 (Basicidade)

A piridina é uma base moderada e o pirrol quase não é básico; o pirrol, quando é protonado em ácido forte, recebe o próton no carbono, e não no nitrogênio.

Argumento. O par isolado da piridina está fora do sistema π\pi: protoná-lo não custa aromaticidade, e o piridínio tem pKa=5.2\mathrm pK_a = 5.2; ela é menos básica que a piperidina (o nitrogênio do piridínio é sp2sp^2, com mais caráter s, e retém seu par mais firmemente: piperidínio 11.1). Protonar o nitrogênio do pirrol tiraria seu par isolado do sexteto e destruiria a aromaticidade; só ácidos muito fortes protonam o pirrol, em C2, onde o cátion conserva alguma deslocalização (pKa\mathrm pK_a de cerca de −4-4). O imidazol tem os dois tipos de nitrogênio: ele é protonado no nitrogênio do tipo piridina, e seu cátion, simétrico, é estabilizado por ressonância (pKa\mathrm pK_a 7.0), a razão pela qual a histidina atua como ácido e como base nas enzimas. A 4-(dimetilamino)piridina é ainda mais básica (pKa\mathrm pK_a 9.6): o grupo amino empurra seu par isolado para o anel e até o nitrogênio do anel. ∎

Os momentos dipolares contam a mesma história: a piridina (2.19 D2.19\,\mathrm{D}) tem sua extremidade negativa no nitrogênio, enquanto no pirrol (1.84 D1.84\,\mathrm{D}) a doação do par isolado ao anel põe a extremidade negativa no anel e a positiva no nitrogênio. No furano (0.66 D0.66\,\mathrm{D}) e no tiofeno (0.55 D0.55\,\mathrm{D}), os dois efeitos, retirada σ\sigma e doação π\pi, quase se cancelam.

RMN de prótons da piridina, do pirrol e do furano em clorofórmio deuterado, sintetizada a partir de deslocamentos medidos como linhas simples (acoplamentos omitidos), com áreas iguais aos números de prótons. A piridina, π-deficiente, tem seus sinais H2/6 e H4 bem a campo baixo em relação ao do benzeno; o pirrol e o furano, π-excedentes, têm a maioria dos seus a campo alto em relação a ele; os prótons vizinhos ao heteroátomo são sempre os mais desblindados.
RMN de prótons da piridina, do pirrol e do furano em clorofórmio deuterado, sintetizada a partir de deslocamentos medidos como linhas simples (acoplamentos omitidos), com áreas iguais aos números de prótons. A piridina, π\pi-deficiente, tem seus sinais H2/6 e H4 bem a campo baixo em relação ao do benzeno; o pirrol e o furano, π\pi-excedentes, têm a maioria dos seus a campo alto em relação a ele; os prótons vizinhos ao heteroátomo são sempre os mais desblindados.

29.2 A piridina

A piridina resiste à substituição eletrofílica: o eletrófilo encontra um anel mais pobre em elétrons que o benzeno e, no ácido em geral presente, um íon piridínio cuja carga positiva o repele. A nitração exige condições muito drásticas e dá o isômero 3 com baixo rendimento.

Proposição 29.5 (Substituição eletrofílica em C3)

O ataque eletrofílico à piridina ocorre em C3: o ataque em C2 ou C4 dá um intermediário de Wheland do qual uma das estruturas de ressonância põe a carga positiva no nitrogênio, com apenas seis elétrons ao seu redor.

Demonstração. No cátion do ataque em C2 (ou C4), a carga positiva se distribui sobre C3, C5 e N1 (ou C3, C5 e N1): uma estrutura de ressonância com um nitrogênio deficiente em elétrons, de seis elétrons, muito desfavorável para um átomo eletronegativo. O ataque em C3 distribui a carga apenas sobre C2, C4 e C6. Os três cátions são todos menos estáveis que o do benzeno, mas o ataque em C3 é o menos ruim. ∎

Definição 29.6 (N-óxido de piridina)

Um N-óxido de piridina, preparado pela oxidação da piridina com um perácido, tem um grupo N+−O−\mathrm{N^+{-}O^-} cujo oxigênio devolve elétrons a C2 e C4; ele sofre substituição eletrofílica em C4, e o oxigênio é depois removido.

Definição 29.7 (Substituição nucleofílica aromática)

A substituição nucleofílica aromática (SNAr\mathrm S_\mathrm NAr) substitui um grupo de saída em um anel aromático pobre em elétrons por um nucleófilo, por adição seguida de eliminação. O intermediário de adição aniônico é um complexo de Meisenheimer.

Proposição 29.8 (SNAr\mathrm S_\mathrm NAr em C2 e C4)

As halopiridinas sofrem SNAr\mathrm S_\mathrm NAr facilmente em C2 e C4 e apenas lentamente em C3, porque a adição em C2 ou C4 põe a carga negativa no nitrogênio.

Demonstração. A adição em C2 torna C2 sp3sp^3 e deixa quatro elétrons π\pi mais o par que entra distribuídos sobre N1, C3 e C5 (ou, para C4: C3, C5 e N1): uma estrutura de ressonância tem a carga negativa no nitrogênio eletronegativo. A adição em C3 a distribui apenas sobre C2, C4 e C6, todos carbonos. ∎

Substituição nucleofílica da 2-cloropiridina: o nucleófilo se adiciona a C2, dando um intermediário aniônico cuja carga negativa fica em grande parte no nitrogênio do anel (uma estrutura de ressonância mostrada); o cloreto sai então e o anel aromático é restaurado.
Substituição nucleofílica da 2-cloropiridina: o nucleófilo se adiciona a C2, dando um intermediário aniônico cuja carga negativa fica em grande parte no nitrogênio do anel (uma estrutura de ressonância mostrada); o cloreto sai então e o anel aromático é restaurado.

Proposição 29.9 (Adição–eliminação)

Para uma reação SNAr\mathrm S_\mathrm NAr cuja etapa de adição é determinante da velocidade, v=k[ArX][Nu−]v = k[\mathrm{ArX}][\mathrm{Nu^-}], e o fluoreto é o melhor grupo de saída entre os haletos.

Argumento. A velocidade é a da adição bimolecular. A ligação carbono–halogênio não é rompida nessa etapa; o que importa é quanto o halogênio abaixa a energia do estado de transição aniônico retirando elétrons, e o flúor, o mais eletronegativo, é o que mais o faz: a ordem F >> Cl ≈\approx Br >> I, oposta à da SN2\mathrm S_\mathrm N2. ∎

Definição 29.10 (Reação de Chichibabin)

A reação de Chichibabin é a aminação da piridina em C2 pela amida de sódio: o íon amideto se adiciona a C2, e um íon hidreto é perdido, como di-hidrogênio após reação com o produto.

A piridina e a DMAP servem também como bases e como catalisadores nucleofílicos: nas acilações com anidridos de ácido, a DMAP ataca primeiro o anidrido, dando um íon acilpiridínio que transfere seu grupo acila ao álcool muito mais depressa que o próprio anidrido. As piridinas, as bipiridinas e as fenantrolinas estão entre os ligantes mais comuns da química de coordenação.

29.3 Anéis de cinco membros

Proposição 29.11 (Substituição eletrofílica do pirrol em C2)

O pirrol, o furano e o tiofeno sofrem substituição eletrofílica sobretudo em C2, porque o cátion do ataque em C2 tem três estruturas de ressonância e o do ataque em C3, apenas duas.

Demonstração. Após o ataque em C2, a carga positiva pode ficar em C3, em C5 ou no nitrogênio, onde é compartilhada por meio do par isolado e todo átomo conserva um octeto (terceira estrutura). Após o ataque em C3, ela pode ficar apenas em C2 ou no nitrogênio: a carga é menos deslocalizada (ver a figura). ∎

Intermediários de Wheland do pirrol (E: o eletrófilo; : carga positiva). O ataque em C2 dá um cátion com a carga em C3, em C5 ou no nitrogênio, com todos os octetos completos; o ataque em C3, apenas em C2 ou no nitrogênio.
Intermediários de Wheland do pirrol (E: o eletrófilo; ⊕\oplus: carga positiva). O ataque em C2 dá um cátion com a carga em C3, em C5 ou no nitrogênio, com todos os octetos completos; o ataque em C3, apenas em C2 ou no nitrogênio.

O pirrol é quase tão reativo quanto o fenol ou a anilina: ele é bromado, nitrado e acilado em condições brandas, polimeriza em ácido forte e é formilado em C2 pelo reagente de Vilsmeier, obtido da dimetilformamida e do oxicloreto de fósforo. As reatividades diminuem na ordem pirrol >> furano >> tiofeno >> benzeno, acompanhando a disposição do heteroátomo em compartilhar seu par isolado. O furano, o menos aromático, reage também como dieno em reações de Diels–Alder. Bases fortes como o butil-lítio desprotonam o furano e o tiofeno em C2, ao lado do heteroátomo, dando reagentes organolítio.

Método 29.12 (Prever o sítio de ataque em um heterociclo)

  1. Classifique o anel: π\pi-excedente (heteroátomo do tipo pirrol) ou π\pi-deficiente (nitrogênio do tipo piridina).
  2. Eletrófilos: em um anel π\pi-excedente, em C2 (C3 para o indol, em que o ataque em C2 perturbaria o anel benzênico); na piridina, em C3, ou em C4 por meio do N-óxido.
  3. Nucleófilos: em um anel π\pi-deficiente, em C2 ou C4, sobretudo com um grupo de saída nessa posição.
  4. Bases fortes: no C–H vizinho ao heteroátomo.

29.4 Heterociclos fundidos e biológicos

O indol, um benzeno fundido a um pirrol, reage com os eletrófilos em C3: ali, o intermediário conserva intacto o anel benzênico, com a carga no nitrogênio. A quinolina, um benzeno fundido a uma piridina, é substituída pelos eletrófilos em seu anel benzênico e pelos nucleófilos em C2 e C4. As nucleobases são pirimidinas (citosina, timina, uracila) e purinas (adenina, guanina), uma pirimidina fundida a um imidazol. Suas formas oxo e amino (tautômeros lactama e amina) predominam sobre as formas hidróxi e imino, o que fixa o padrão de doadores e aceptores de ligações de hidrogênio de cada base e, assim, o pareamento das bases.

Um par de bases guanina–citosina, esquemático: três ligações de hidrogênio (verde) entre o oxigênio carbonílico da guanina e um N–H amino da citosina, o N1–H da guanina e o N3 do anel da citosina, e um N–H amino da guanina e o oxigênio carbonílico da citosina. A adenina e a timina formam duas.
Um par de bases guanina–citosina, esquemático: três ligações de hidrogênio (verde) entre o oxigênio carbonílico da guanina e um N–H amino da citosina, o N1–H da guanina e o N3 do anel da citosina, e um N–H amino da guanina e o oxigênio carbonílico da citosina. A adenina e a timina formam duas.

29.5 Construir anéis

Definição 29.13 (Síntese de Paal–Knorr)

A síntese de Paal–Knorr produz um furano (com ácido), um pirrol (com uma amina primária ou amônia) ou um tiofeno (com um reagente de enxofre) a partir de um composto 1,4-dicarbonílico.

Definição 29.14 (Síntese de piridinas de Hantzsch)

A síntese de piridinas de Hantzsch condensa um aldeído, dois equivalentes de um β\beta-cetoéster e amônia em uma 1,4-di-hidropiridina, que pode ser oxidada à piridina.

Definição 29.15 (Síntese de indóis de Fischer)

A síntese de indóis de Fischer aquece a fenil-hidrazona de um aldeído ou de uma cetona com um catalisador ácido: a hidrazona se tautomeriza em uma eno-hidrazina, que sofre um rearranjo sigmatrópico [3,3]; a ciclização e a perda de amônia dão o indol.

A síntese de indóis de Fischer a partir da fenil-hidrazona da acetona. O ácido transforma a hidrazona em seu tautômero eno-hidrazina; o rearranjo [3,3] rompe a ligação N–N e forma uma ligação C–C entre o carbono do anel em orto ao nitrogênio e o CH2 terminal; a nova amina ataca a imina, e a perda de amônia dá o 2-metilindol. A síntese de indóis de Fischer a partir da fenil-hidrazona da acetona. O ácido transforma a hidrazona em seu tautômero eno-hidrazina; o rearranjo [3,3] rompe a ligação N–N e forma uma ligação C–C entre o carbono do anel em orto ao nitrogênio e o CH2 terminal; a nova amina ataca a imina, e a perda de amônia dá o 2-metilindol.
A síntese de indóis de Fischer a partir da fenil-hidrazona da acetona. O ácido transforma a hidrazona em seu tautômero eno-hidrazina; o rearranjo [3,3] rompe a ligação N–N e forma uma ligação C–C entre o carbono do anel em orto ao nitrogênio e o CHX2\ce{CH2} terminal; a nova amina ataca a imina, e a perda de amônia dá o 2-metilindol.

Método 29.16 (Desconectar um heterociclo)

  1. Um pirrol, furano ou tiofeno 2,5-dissubstituído: desconecte as duas ligações com o heteroátomo, voltando a uma 1,4-dicetona (Paal–Knorr).
  2. Uma 1,4-di-hidropiridina simétrica com ésteres em C3 e C5: volte a um aldeído, dois β\beta-cetoésteres e amônia (Hantzsch).
  3. Um indol 2,3-dissubstituído: volte à fenil-hidrazina e à cetona R2CH2COR3\mathrm{R^2CH_2COR^3} (Fischer).
  4. Verifique a disponibilidade das peças e depois a regioquímica quando a cetona é assimétrica.

Definição 29.17 (Bioisóstero)

Um bioisóstero é um grupo que substitui outro em uma molécula de fármaco conservando sua atividade biológica, porque tem tamanho, forma e padrão de ligações de hidrogênio e de carga semelhantes, como um tetrazol no lugar de um ácido carboxílico, ou uma piridina no lugar de um anel benzênico.

No laboratório — Um pirrol de Paal–Knorr

A hexano-2,5-diona, a anilina e uma quantidade catalítica de ácido 4-toluenossulfônico são aquecidas a refluxo em tolueno em um balão provido de um coletor de Dean–Stark: a água formada é arrastada como azeótropo e se acumula no braço lateral, o que leva a condensação até o fim. Quando não se separa mais água, a solução é lavada com hidrogenocarbonato de sódio aquoso, seca e evaporada, e o 2,5-dimetil-1-fenilpirrol é recristalizado.

Segurança

Piridina: altamente inflamável, nociva por todas as vias, de odor forte; usada em capela. Fenil-hidrazina: tóxica por todas as vias, pode provocar câncer e defeitos genéticos, lesa o sangue por exposição repetida, sensibilizante, muito tóxica para os organismos aquáticos; é pesada em capela, com luvas, e seus resíduos são recolhidos separadamente.

História — Duas sínteses clássicas de anéis

Emil Fischer descreveu sua síntese de indóis em 1883, nos mesmos anos de seus trabalhos sobre os açúcares e as purinas; Arthur Hantzsch publicou sua síntese de piridinas em 1881. Ambas continuam em uso: a síntese de Fischer para os triptanos contra a enxaqueca, a síntese de Hantzsch para as di-hidropiridinas bloqueadoras dos canais de cálcio que tratam a hipertensão arterial.

29.6 Exercícios

Exercício 29.1 ★

Conte os elétrons π\pi do oxazol, do tiazol, da pirimidina e da purina, e diga quais pares isolados pertencem ao sistema π\pi.

Solução

Solução de Exercício 29.1.

Oxazol: O dá dois (um par isolado no sistema π\pi, um no plano), N um, os três carbonos três: 6. Tiazol: o mesmo com S: 6. Pirimidina: um de cada um dos seis átomos, os dois pares isolados dos nitrogênios no plano: 6. Purina: nove átomos, o nitrogênio N–H dando dois e os outros um cada: 10, um número de Hückel (4n+24n + 2, n=2n = 2).

Exercício 29.2 ★

Ordene a piridina, o pirrol, o imidazol, a piperidina e a DMAP por basicidade, com seus valores de pKa\mathrm pK_a.

Solução

Solução de Exercício 29.2.

Piperidina (11.1) >> DMAP (9.6) >> imidazol (7.0) >> piridina (5.2) ≫\gg pirrol (cerca de −4-4, protonado no carbono).

Exercício 29.3 ★

Dê o produto principal da monobromação do pirrol, do furano e do indol.

Solução

Solução de Exercício 29.3.

2-Bromopirrol (o pirrol é tão reativo que se polibroma facilmente); 2-bromofurano; 3-bromoindol.

Exercício 29.4 ★

Dê os produtos da reação de Paal–Knorr da hexano-2,5-diona com ácido apenas, com metilamina e com pentassulfeto de fósforo.

Solução

Solução de Exercício 29.4.

2,5-Dimetilfurano; 1,2,5-trimetilpirrol; 2,5-dimetiltiofeno.

Exercício 29.5 ★★

A 2-cloropiridina reage com metóxido de sódio em metanol a 65 ∘C65\,{}^{\circ}\mathrm{C}; a 3-cloropiridina quase não reage. Explique e dê o produto.

Solução

Solução de Exercício 29.5.

2-Metoxipiridina. A adição do metóxido em C2 põe a carga negativa do complexo de Meisenheimer no nitrogênio; em C3, ela só pode se distribuir sobre carbonos, de modo que o intermediário, e o estado de transição que o precede, têm energia muito mais alta.

Exercício 29.6 ★★

Dê o produto da reação de Chichibabin da piridina e desenhe o intermediário de adição.

Solução

Solução de Exercício 29.6.

2-Aminopiridina (como seu sal de sódio, depois protonada no isolamento). O íon amideto se adiciona em C2, dando um aduto σ\sigma aniônico com H e NHX2\ce{NH2} em C2 e a carga negativa no nitrogênio do anel; ele perde um hidreto, que toma um próton do grupo amino e sai como HX2\ce{H2}.

Exercício 29.7 ★★

O N-óxido de piridina é nitrado em C4. Explique com estruturas de ressonância e diga como se obtém a 4-nitropiridina.

Solução

Solução de Exercício 29.7.

O oxigênio do N-óxido devolve um par isolado ao anel: as estruturas de ressonância têm carga negativa em C2, C4 e C6. Os eletrófilos atacam C4 (C2 fica perto do nitrogênio carregado positivamente). O oxigênio é depois removido com tricloreto de fósforo, dando a 4-nitropiridina.

Exercício 29.8 ★★

A 2-hidroxipiridina existe sobretudo como 2-piridona em água. Desenhe os dois tautômeros e explique por que a piridona continua aromática.

Solução

Solução de Exercício 29.8.

2-Hidroxipiridina (um OH em C2) e 2-piridona (N–H e C=O). A piridona conserva seis elétrons π\pi no anel: sua estrutura de ressonância zwitteriônica, com O−\mathrm{O^-} e um N+\mathrm{N^+} que compartilha seu par isolado, é um piridínio-olato; ela é uma amida cujo par isolado do nitrogênio completa o sexteto, e as fortes ligações de hidrogênio de C=O e de N–H a favorecem em água.

Exercício 29.9 ★★

Dê os componentes de uma síntese de Hantzsch da 1,4-di-hidropiridina com ésteres metílicos em C3 e C5, grupos metila em C2 e C6 e um grupo 2-nitrofenila em C4.

Solução

Solução de Exercício 29.9.

2-Nitrobenzaldeído, dois equivalentes de acetoacetato de metila e amônia: o bloqueador dos canais de cálcio nifedipino.

Exercício 29.10 ★★★

A butanona dá dois indóis diferentes na síntese de Fischer com fenil-hidrazina. Dê os dois e diga como a força do ácido altera sua razão.

Solução

Solução de Exercício 29.10.

A eno-hidrazina voltada para o grupo CHX2\ce{CH2} (interna, mais substituída) dá o 2,3-dimetilindol; a voltada para o grupo metila (terminal) dá o 2-etilindol. Os ácidos fracos dão sobretudo o primeiro, pela eno-hidrazina mais estável; ácidos mais fortes aumentam a proporção de 2-etilindol.

Exercício 29.11 ★★★

Explique por que o 4-fluoronitrobenzeno e a 2-fluoropiridina reagem mais depressa com os nucleófilos que os cloretos correspondentes, ao contrário dos substratos de SN2\mathrm S_\mathrm N2.

Solução

Solução de Exercício 29.11.

Na SNAr\mathrm S_\mathrm NAr, a etapa determinante da velocidade é a adição, que não rompe a ligação C–X; o flúor, mais eletronegativo, estabiliza mais o estado de transição aniônico e o complexo de Meisenheimer. Na SN2\mathrm S_\mathrm N2, a ligação C–X se rompe no estado de transição, e a fraca ligação C–I é a que sai mais depressa.

Exercício 29.12 ★★★

Usando os espectros sintéticos do capítulo, explique como você distinguiria a piridina, o pirrol e o furano por sua RMN de prótons, e preveja o espectro do tiofeno (deslocamentos 7.33 ppm7.33\,\mathrm{ppm} e 7.12 ppm7.12\,\mathrm{ppm}).

Solução

Solução de Exercício 29.12.

Piridina: três sinais na razão 2 : 1 : 2, o primeiro perto de 8.6 ppm8.6\,\mathrm{ppm}. Pirrol: dois sinais iguais em 6.7 e 6.2 ppm6.2\,\mathrm{ppm} e um N–H largo perto de 8.1 ppm8.1\,\mathrm{ppm}. Furano: dois sinais iguais em 7.4 e 6.4 ppm6.4\,\mathrm{ppm}, sem N–H. Tiofeno: dois sinais iguais em 7.33 e 7.12 ppm7.12\,\mathrm{ppm}, próximos um do outro, entre os do furano.

29.7 Problema: Construir um indol

Problema 29.1

Problema de fim de semana — construir um indol: a fenil-hidrazona da acetona, a eno-hidrazina e seu rearranjo [3,3], a perda de amônia e a escolha entre dois indóis com a butanona

Dados do problema: 10.0 g de fenil-hidrazina reagem com excesso de acetona, e a hidrazona é aquecida com cloreto de zinco.

Parte I — A hidrazona.

  1. Escreva a formação da fenil-hidrazona da acetona.
  2. Por que é uma condensação do tipo imina, e por que um traço de ácido é útil?
  3. Que nitrogênio da fenil-hidrazina ataca o grupo carbonila, e por quê?
  4. Calcule a massa molar da fenil-hidrazina e a quantidade usada.
  5. Calcule a massa teórica de hidrazona.

Parte II — A eno-hidrazina e a etapa [3,3].

  1. Desenhe o tautômero eno-hidrazina.
  2. Que seis átomos formam o estado de transição cíclico do rearranjo [3,3]?
  3. Que ligação se rompe e qual se forma?
  4. Quantos elétrons participam, e a etapa é termicamente permitida?
  5. O que faz o cloreto de zinco?
  6. Por que a aromaticidade do anel benzênico precisa ser restaurada em seguida?

Parte III — O fechamento do anel.

  1. Que amina ataca que carbono para fechar o anel de cinco membros?
  2. Que molécula pequena sai, e o que impulsiona a última etapa?
  3. Escreva a equação global, da hidrazona ao 2-metilindol.
  4. Calcule a massa molar do 2-metilindol.
  5. Calcule a massa teórica de 2-metilindol.
  6. Onde o 2-metilindol seria substituído por um eletrófilo, e por quê?

Parte IV — A butanona.

  1. Desenhe as duas eno-hidrazinas da fenil-hidrazona da butanona.
  2. Dê os dois indóis aos quais elas levam.
  3. Que eno-hidrazina é mais substituída, e qual se forma em ácido forte?
  4. Que indol predomina com um ácido fraco, e por quê?
  5. Por que a fenil-hidrazona do acetaldeído não consegue dar bem o próprio indol?
  6. O que o problema de regioquímica significa para a síntese de um fármaco?
  7. Enuncie o resultado: a massa teórica de 2-metilindol a partir de 10.0 g de fenil-hidrazina.
Solução

Solução de Problema 29.1.

1. CX6HX5NHNHX2+(CHX3)X2CO→CX6HX5NHN=C(CHX3)X2+HX2O\ce{C6H5NHNH2 + (CH3)2CO -> C6H5NHN=C(CH3)2 + H2O}.

2. O nitrogênio amínico se adiciona ao carbono carbonílico, depois se perde água, como na formação de uma imina; o ácido ativa o grupo carbonila e transforma o OH do aduto em grupo de saída.

3. O NHX2\ce{NH2} terminal: o par isolado do outro nitrogênio está conjugado com o anel fenila e é mais impedido.

4. 108.0 g/mol108.0\,\mathrm{g}/\mathrm{mol}; 10.0 g/108.0 g/mol=0.0926 mol10.0\,\mathrm{g}/108.0\,\mathrm{g}/\mathrm{mol} = 0.0926\,\mathrm{mol}.

5. A hidrazona CX9HX12NX2\ce{C9H12N2}, 148.0 g/mol148.0\,\mathrm{g}/\mathrm{mol}: 0.0926 mol×148.0 g/mol=13.7 g0.0926\,\mathrm{mol} \times 148.0\,\mathrm{g}/\mathrm{mol} = 13.7\,\mathrm{g}.

6. CX6HX5−NH−NH−C(CHX3)=CHX2\ce{C6H5-NH-NH-C(CH3)=CH2}.

7. O carbono orto do anel, o carbono ipso, os dois nitrogênios, o carbono da hidrazona e o CHX2\ce{CH2} terminal.

8. A ligação N–N se rompe; forma-se uma ligação C–C entre o carbono orto e o CHX2\ce{CH2}.

9. Seis elétrons, todos os componentes suprafaciais: termicamente permitida.

10. Como ácido de Lewis, ele catalisa a tautomerização, liga um nitrogênio e enfraquece a ligação N–N, e ajuda a saída da amônia.

11. O carbono orto tornou-se sp3sp^3, com um hidrogênio: a perda desse próton restaura o anel benzênico, uma forte força motriz.

12. O NHX2\ce{NH2} anilínico formado ataca o carbono da imina, fechando o anel de cinco membros (uma 2-aminoindolina).

13. A amônia; a formação do anel pirrólico aromático do indol a impulsiona.

14. CX9HX12NX2→CX9HX9N+NHX3\ce{C9H12N2 -> C9H9N + NH3}.

15. 131.0 g/mol131.0\,\mathrm{g}/\mathrm{mol}.

16. 0.0926 mol×131.0 g/mol=12.1 g0.0926\,\mathrm{mol} \times 131.0\,\mathrm{g}/\mathrm{mol} = 12.1\,\mathrm{g}.

17. Em C3, a posição mais nucleofílica do indol, aqui livre; o ataque nessa posição mantém intacto o anel benzênico no intermediário.

18. CX6HX5NHNH−C(=CHX2)−CHX2CHX3\ce{C6H5NHNH-C(=CH2)-CH2CH3} (terminal) e CX6HX5NHNH−C(CHX3)=CH−CHX3\ce{C6H5NHNH-C(CH3)=CH-CH3} (interna).

19. 2-Etilindol e 2,3-dimetilindol.

20. A interna é mais substituída; os ácidos fortes aumentam a parcela da terminal.

21. O 2,3-dimetilindol, pela eno-hidrazina mais estável e mais substituída.

22. O acetaldeído se condensa consigo mesmo e a rota da eno-hidrazina dá baixos rendimentos; o indol é preparado, em vez disso, a partir da hidrazona do ácido pirúvico, que dá o ácido indol-2-carboxílico, depois descarboxilado.

23. É preciso separar uma mistura de regioisômeros, o que custa rendimento; prefere-se uma cetona simétrica ou uma rota que fixe a regioquímica.

24. 10.0 g de fenil-hidrazina podem dar no máximo 12.1 g12.1\,\mathrm{g} de 2-metilindol.

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