Física universitária — 1.º ano · Bachelor Year 1
12As leis de Newton da dinâmica
Um paraquedista sai do avião e, em uma dezena de segundos, para de acelerar: a duzentos quilômetros por hora o ar empurra de volta exatamente com a mesma força com que a Terra puxa. Um carro faz uma curva rápido demais e os pneus cedem; um caminhão numa estrada de serra sobe em marcha reduzida, segurado pelo mesmo atrito que lhe permite parar no plano. A cinemática descreveu movimentos; a dinâmica os explica, a partir de uma única lei que liga a aceleração de um corpo às forças que agem sobre ele. Este capítulo enuncia as três leis de Newton, cataloga as forças que se encontram no nível deste volume — peso, molas, fios, contatos, atrito seco e fluido — e mostra como ir de um desenho das forças até uma equação diferencial e a sua solução.
12.1 Massa, quantidade de movimento e as três leis
Definição 12.1 (Massa, quantidade de movimento, força)
Um ponto material tem uma massa inercial (quilogramas), uma medida da sua resistência às variações de velocidade, independente do referencial. A sua quantidade de movimento num referencial vale
Uma força (newtons) é a ação de outro corpo sobre o ponto material; as forças se somam como vetores, e a resultante é a sua soma .
Teorema 12.2 (Leis de Newton)
- Princípio da inércia. Existem referenciais, ditos inerciais (ou galileanos), nos quais um ponto material submetido a nenhuma força, ou a forças de resultante nula, se move em linha reta com velocidade constante. Todo referencial em translação retilínea uniforme em relação a um referencial inercial é inercial.
Lei da quantidade de movimento. Num referencial inercial,
- Ação e reação. Se o corpo exerce sobre o corpo , então exerce sobre , ao longo da reta que os une.
Demonstração. Admitido neste nível. ∎
Observação 12.3 (O que as leis dizem)
A primeira lei não é um caso particular da segunda: ela define os referenciais em que a segunda vale. Na prática um laboratório na Terra é inercial com excelente precisão para experimentos que duram minutos (o Capítulo 18 quantifica o erro); um referencial ligado ao Sol e às estrelas distantes é ainda melhor. A segunda lei é uma equação vetorial: três equações escalares, uma por eixo, e a escolha dos eixos (Capítulo 11) é a primeira decisão de todo problema. A terceira lei vale a cada instante para as forças de contato e gravitacionais deste volume.
Definição 12.4 (Sistema fechado; conservação da quantidade de movimento)
Um sistema fechado não troca matéria com o exterior. Para um sistema de pontos materiais, as forças internas se cancelam aos pares (terceira lei), e a quantidade de movimento total obedece a : ela se conserva quando as forças externas se anulam (o Capítulo 19 desenvolve isso).
12.2 As forças usuais
Proposição 12.5 (Peso e gravitação)
Perto da superfície da Terra um corpo de massa é puxado pelo seu peso , sendo o campo gravitacional local, , dirigido para baixo (rumo ao centro, com ótima aproximação). Mais geralmente, uma massa à distância atrai com (Capítulo 16); na superfície de uma esfera de raio , . Note a unidade: e são a mesma coisa, e é por isso que todos os corpos caem do mesmo jeito.
Demonstração. A lei da gravitação de Newton é admitida e explorada no Capítulo 16; . ∎
Proposição 12.6 (Mola; fio)
Uma mola ideal de constante elástica e comprimento natural , esticada até o comprimento ao longo do vetor unitário que aponta da sua extremidade fixa para o corpo, exerce sobre o corpo a força restauradora
rumo ao seu comprimento natural. Um fio ideal (sem massa, inextensível) exerce uma tensão ao longo de si mesmo, puxando, de mesmo módulo nas duas extremidades e em todo o seu comprimento (mesmo passando por uma polia sem massa e sem atrito).
Demonstração. A lei de Hooke é um modelo empírico válido para pequenas deformações. O fio: um elemento sem massa obedece a pela segunda lei de Newton, de modo que a tensão é transmitida sem alteração. ∎
Proposição 12.7 (Forças de contato: reação normal e atrito seco)
Uma superfície sólida exerce sobre um corpo que a toca uma reação normal , perpendicular à superfície e repulsiva (: uma superfície não pode puxar), e uma força de atrito tangencial . Leis de Coulomb: se o corpo não desliza, (o atrito estático se ajusta ao que for necessário, até esse limite); se ele desliza com velocidade em relação à superfície, (atrito cinético, que se opõe ao deslizamento), com coeficientes da ordem de a conforme os materiais, independentes da área de contato e da velocidade.
Demonstração. Admitido neste nível. ∎
Proposição 12.8 (Atrito fluido)
Um corpo que se move com velocidade através de um fluido em repouso sente um arrasto oposto a : em baixa velocidade (corpo pequeno, fluido viscoso) ele é linear, — para uma esfera de raio num fluido de viscosidade , (Stokes); em alta velocidade (corpos grandes e rápidos no ar ou na água) ele é quadrático,
com a densidade do fluido, a seção do corpo voltada para o escoamento e um coeficiente de arrasto adimensional ( para uma esfera, para um carro, para um disco plano). O número de Reynolds (Observação 1.10) decide: linear abaixo de , quadrático acima de cerca de .
Demonstração. Admitido neste nível. ∎
Observação 12.9 (Outras forças)
O empuxo (Arquimedes) é uma resultante de forças de pressão, deduzida no Capítulo 21; as forças elétrica e magnética sobre uma carga são assunto do Capítulo 17. Todas as forças deste capítulo são modelos de interações de contato ou de campo, válidos dentro de limites declarados — a mola de Hooke arrebenta, o atrito de Coulomb falha sob alta pressão, o arrasto de Stokes falha em alta velocidade. Parte de toda solução é verificar que o modelo usado se aplica.
12.3 Resolvendo um problema de dinâmica
Método 12.10 (Da situação à equação)
- Sistema: nomeie o corpo tratado como um ponto.
- Referencial: nomeie-o e verifique que é inercial (ou trate-o como tal com a precisão exigida).
- Forças: liste todo corpo que toca ou atrai o sistema e desenhe cada força num esquema (o diagrama de forças); nada mais entra.
- Coordenadas: escolha eixos adaptados ao movimento (Método 11.18) e exprima .
- Projete nos eixos; use os vínculos (um corpo sobre uma superfície permanece nela: ; um fio de comprimento fixo: velocidades iguais nas duas extremidades).
- Resolva e verifique: dimensões, casos-limite, sinais (, se em repouso).
Exemplo 12.11 (Bloco num plano inclinado)
Bloco de massa num plano inclinado de , com coeficientes , . Eixos: descendo a rampa, ao longo da normal. Peso , reação , atrito se ele desliza para baixo. Ao longo de : . Em repouso, ao longo de : , isto é, : o bloco se sustenta até o ângulo — uma medida de que dispensa balança. Deslizando: , logo , independente de : para , .
Exemplo 12.12 (O pêndulo simples)
Massa num fio de comprimento , com ângulo em relação à vertical descendente. Coordenadas polares no ponto de suspensão: ; forças: peso e tensão . Ao longo de : ,
que para pequenos ângulos () é a equação harmônica com : período , o que o Exemplo 1.8 não pôde fornecer. Ao longo de : — o fio puxa com mais força embaixo, onde a velocidade é maior.
Proposição 12.13 (Queda com arrasto; velocidade limite)
Um corpo de massa que cai do repouso sob o seu peso e uma força de arrasto atinge uma velocidade limite em que os dois se equilibram. Arrasto linear: , com , . Arrasto quadrático: , com
Demonstração. Linear: uma equação de primeira ordem, (Teorema 7.2). Quadrático: com , ; separando as variáveis, (a fração racional se integra em ), logo . ∎
Exemplo 12.14 (Duas velocidades limites)
Um paraquedista, , de barriga para baixo, no ar (): , alcançada (a ) em cerca de . Uma gotícula de neblina, , em regime de Stokes (): — e é por isso que a neblina fica suspensa no ar.
12.4 Movimento num círculo: forças de vínculo
Proposição 12.15 (Exigência centrípeta)
Um ponto material que se move num círculo de raio com velocidade deve receber da resultante das forças uma componente dirigida ao centro. O que quer que a forneça — a tensão de um fio, o atrito, a reação de uma pista sobrelevada, a gravidade — fixa a velocidade máxima ou a velocidade mínima com que o movimento é possível.
Demonstração. Segunda lei de Newton com a aceleração de Frenet: a componente normal de vale . ∎
Exemplo 12.16 (Três círculos)
Curva plana: o atrito deve fornecer , logo : para , . Curva sobrelevada de ângulo , sem atrito: a reação é normal à pista; na vertical , na horizontal , logo — a única velocidade com que a curva é feita sem atrito algum. Loop: no alto, com apontando para baixo, rumo ao centro, , e exige : abaixo disso, o carro deixa a pista (o Problema 11.1 de novo, agora explicado).
12.5 Exercícios
Exercício 12.1 ★
Uma pessoa de massa está sobre uma balança num elevador. O que a balança indica (em newtons e em “quilogramas”) quando o elevador acelera para cima a , para baixo a , move-se com velocidade constante e cai livremente?
Solução
Solução de Exercício 12.1.
Leitura da balança , com a aceleração para cima: subindo, (“”); descendo, (“”); velocidade constante, (); queda livre, .
Exercício 12.2 ★
Um bloco sobre uma mesa sem atrito é ligado por um fio que passa por uma polia sem atrito a uma massa pendurada . Encontre a aceleração e a tensão.
Solução
Solução de Exercício 12.2.
Mesma aceleração para os dois (fio inextensível): , , logo , .
Exercício 12.3 ★
Um bloco desliza por um plano inclinado de com . Calcule a sua aceleração e a sua velocidade após a partir do repouso. A resposta depende da sua massa?
Exercício 12.4 ★
Uma massa de pende de uma mola de constante elástica . Encontre o alongamento estático; depois a frequência angular e o período das suas oscilações verticais em torno do equilíbrio (mostre que a equação do movimento é harmônica).
Solução
Solução de Exercício 12.4.
: . Com o deslocamento em relação ao equilíbrio, (o peso e o alongamento estático se cancelam): , .
Exercício 12.5 ★★
Uma caixa está sobre uma plataforma inclinável; ela começa a deslizar a . Encontre . Um carro numa pista plana com : velocidade máxima numa curva de raio , e numa pista molhada com .
Solução
Solução de Exercício 12.5.
. Curva: : (); molhada, ().
Exercício 12.6 ★★
Velocidades limites: um paraquedista (, , ); uma gotícula de neblina de raio no ar (), usando a lei de Stokes. Verifique com um número de Reynolds que cada regime é o correto.
Solução
Solução de Exercício 12.6.
Paraquedista: ; : quadrático. Gotícula: , ; : linear.
Exercício 12.7 ★★
Um pêndulo de comprimento é solto do repouso em . Dado que a sua velocidade embaixo vale (energia, próximo capítulo), encontre a tensão do fio embaixo, em unidades de , e no ponto de soltura.
Solução
Solução de Exercício 12.7.
Embaixo: ; . Ponto de soltura: , .
Exercício 12.8 ★★
Uma curva de raio é sobrelevada de . Com que velocidade ela pode ser feita sem atrito algum? O que o atrito deve fazer em velocidades menores e maiores?
Solução
Solução de Exercício 12.8.
(). Mais devagar: o carro tende a escorregar rampa abaixo, e o atrito deve apontar rampa acima; mais depressa: o atrito aponta rampa abaixo para acrescentar força centrípeta.
Exercício 12.9 ★★
Um pêndulo cônico: uma massa num fio de comprimento descreve um círculo horizontal, com o fio formando com a vertical. Encontre a velocidade angular, o período e a tensão (em unidades de ).
Solução
Solução de Exercício 12.9.
, : , período ; .
Exercício 12.10 ★★★
Um carro de atinge a partir do repouso em com aceleração constante. Encontre a força resultante e o coeficiente de atrito mínimo entre os pneus de tração e a pista, supondo que as rodas de tração suportem todo o peso. O que limita um carro esportivo numa pista molhada?
Solução
Solução de Exercício 12.10.
, ; de vem . Numa pista molhada limita a aceleração perto de , qualquer que seja o motor: é aderência, não potência.
Exercício 12.11 ★★★
Um corpo cai do repouso com arrasto linear, . Escreva e deduza a distância percorrida ; calcule e após ; compare com a queda livre.
Solução
Solução de Exercício 12.11.
, ; . Em : , contra no vácuo.
Exercício 12.12 ★★★
Um carro de massa percorre o interior de um loop circular vertical de raio (Problema 11.1). Exprima a reação normal da pista em função do ângulo medido a partir do ponto mais baixo e da velocidade ; deduza a velocidade mínima no alto; usando , encontre a velocidade mínima de entrada e a reação embaixo nesse caso.
Solução
Solução de Exercício 12.12.
Projeção radial (rumo ao centro): , logo . No alto (): se e só se . Com a lei da velocidade, : ; então, embaixo, .
12.6 Problema: o paraquedista
Problema 12.1
Problema de fim de semana — da porta do avião até o solo: queda livre, o ar que empurra de volta, um velame que se abre depressa demais e a aterrissagem — uma lei do movimento, duas leis de arrasto
Um paraquedista com equipamento tem massa . Ar: , . Caindo de barriga para baixo, ; sob o velame aberto, . ; é contado para baixo a partir do ponto de salto.
Parte I — Sem ar.
- Escreva a segunda lei de Newton e dê e ; calcule ambos em .
- Calcule o peso.
- O paraquedista se sente “sem peso” durante essa fase, embora a gravidade aja plenamente. Explique pelas forças (o que falta em comparação com estar de pé no solo).
- O referencial da Terra é suficientemente inercial para este problema? Nomeie o que está sendo desprezado.
Parte II — Caindo através do ar.
- Escreva a força de arrasto na queda de barriga para baixo em função de .
- Escreva a equação de movimento para .
- Encontre a velocidade limite (em e em ).
- Com e , mostre que ; calcule .
- Resolva por separação de variáveis e mostre que .
- Após quanto tempo ? E ?
- Mostre que e calcule a distância percorrida em ; compare com a Parte I.
- Estime o número de Reynolds em com e justifique a lei quadrática.
Parte III — O velame se abre.
- Calcule a nova velocidade limite sob o velame aberto.
- Se o velame abrisse instantaneamente a , qual seria a desaceleração, em e em ? Por que isso é inaceitável?
- Os velames reais se abrem em cerca de . Estime a desaceleração média e a força média do arnês sobre o paraquedista.
- Uma vez plenamente aberto o velame, a velocidade decai rumo à nova : qual é a nova constante de tempo , e o que ela significa para a aproximação à descida estacionária?
- Na descida estacionária, qual é a força do arnês? Justifique com a segunda lei.
- Explique por que a velocidade limite varia como : por qual fator um velame de metade da área a aumentaria?
- Um saltador mais pesado () sob o mesmo velame: qual a velocidade limite?
Parte IV — A aterrissagem.
- A velocidade de aterrissagem é a do velame. De que altura seria preciso saltar, sem ar, para chegar ao solo com essa velocidade?
- Uma aterrissagem de pernas rígidas para o corpo em ; um rolamento, em . Estime a desaceleração média (em ) e a força média sobre as pernas em cada caso, e conclua.
- Pouco antes de tocar o solo o paraquedista puxa os dois comandos, o que aumenta brevemente o arrasto do velame. Explique qualitativamente o efeito sobre a velocidade.
Parte V — Coisas pequenas caem de outro jeito.
- Uma gota de chuva de raio (): calcule a sua velocidade limite pela lei quadrática e verifique o número de Reynolds.
- Uma gotícula de neblina de raio : use a lei de Stokes para e verifique que o número de Reynolds é de fato pequeno.
- Resuma: uma equação de movimento, dois regimes de arrasto e os três números () que decidem se algo cai como uma pedra, como uma folha ou não cai.
Solução
Solução de Problema 12.1.
1. : , ; em : , .
2. .
3. No solo o piso empurra para cima com — é esse empurrão que se sente como peso. Em queda livre não há força de contato: a gravidade age igualmente sobre cada parte e nada pressiona.
4. Sim, com erro de uma fração de por cento ao longo de um minuto; despreza-se: a rotação da Terra (termos centrífugo e de Coriolis, Capítulo 18) e o vento.
5. (SI).
6. .
7. .
8. Divida por : ; .
9. , logo .
10. ; para : .
11. ; em : , contra .
12. : muito acima de , quadrático.
13. .
14. Arrasto ; : o arnês arrebentaria, ou o saltador.
15. Média ; força do arnês .
16. : em poucos segundos após a abertura completa a descida já é estacionária.
17. : força do arnês .
18. O equilíbrio dá : metade da área, vezes a velocidade ().
19. : .
20. : um salto de um primeiro andar.
21. : () em , força ; () em , . Role.
22. Um arrasto maior (e alguma sustentação) supera momentaneamente o peso: o saltador desacelera e toca o solo abaixo de .
23. , : ; : quadrático (grosso modo).
24. (Exercício 12.6); : Stokes se aplica, coerentemente.
25. ; o arrasto é linear em para coisas pequenas e lentas, e quadrático para coisas grandes e rápidas. Os números: para um corpo em queda, sob um velame (ou para uma gota de chuva), para a neblina — a mesma lei ao longo de quatro ordens de grandeza.