Física universitária — 1.º ano · Bachelor Year 1
14Osciladores mecânicos: amortecimento e ressonância
Empurre o balanço de uma criança na hora errada e quase nada acontece; empurre-o uma vez por período, com suavidade, e em uma dezena de idas e vindas a criança já grita no alto do arco. Uma máquina de lavar treme violentamente a uma velocidade determinada da centrifugação e fica quieta acima dela. Uma taça de cristal canta quando um dedo molhado percorre a sua borda no ritmo certo, e se estilhaça quando um cantor sustenta a mesma nota alto o bastante. Todos esses casos são uma ressonância: um sistema com uma frequência própria, excitado perto dessa frequência, acumula energia ciclo após ciclo até que o atrito a drene tão depressa quanto ela entra. Este capítulo toma o oscilador mecânico — livre, amortecido, depois forçado — e deduz as curvas de ressonância cujas gêmeas elétricas apareceram no Capítulo 8.
14.1 O oscilador harmônico
Definição 14.1 (Oscilador harmônico)
Um sistema cujo deslocamento em relação a um equilíbrio estável obedece a
é um oscilador harmônico de frequência angular própria (período ). A solução tem amplitude e fase fixadas pelas condições iniciais e um período independente da amplitude (isocronismo).
Proposição 14.2 (De onde vêm os osciladores harmônicos)
- Massa numa mola : (lei de Hooke).
- Pêndulo simples de comprimento , ângulos pequenos: .
- Qualquer ponto material perto de um equilíbrio estável de um potencial : (Proposição 13.12).
- Circuito LC: , com , , .
A energia é constante e vai e volta entre as formas cinética e potencial duas vezes por período.
Demonstração. Segunda lei de Newton com ; a equação do pêndulo com ; a fórmula de Taylor no mínimo de ; a lei das malhas do circuito LC. Energia: derive e use a equação. ∎
Exemplo 14.3 (Um cilindro que bóia e balança)
Um cilindro vertical de seção flutua com uma profundidade imersa (, empuxo do Capítulo 21). Afundado de , ele recebe uma força adicional para cima : , logo — o mesmo que um pêndulo de comprimento . Uma boia imersa balança com período de , qualquer que seja a sua massa.
14.2 O oscilador amortecido
Proposição 14.4 (Oscilador amortecido)
Com um atrito viscoso , a equação se torna
a forma canônica de segunda ordem do Capítulo 7: para , um decaimento pseudoperiódico com , ; a energia decai como e
Demonstração. Divida por . Para a energia: perde a fração por período quando esta é pequena. ∎
Exemplo 14.5 (Tempos de extinção)
Um diapasão de ainda soa dez segundos depois de percutido: a sua amplitude caiu a cerca de em , logo e . A suspensão de um carro () para em menos de um período; um balanço de criança () perde um terço da sua energia por vaivém e precisa de um empurrão a cada vez.
14.3 Oscilações forçadas e ressonância
Teorema 14.6 (Oscilador excitado senoidalmente)
Excitado por uma força , o oscilador amortecido
se estabelece, após um transitório de duração , no regime forçado com, escrevendo e a deflexão estática,
A amplitude passa por um máximo, para , em , com ; a amplitude da velocidade é máxima exatamente em , onde , e a sua curva de ressonância
tem largura de banda . Em o deslocamento atrasa em relação à força, e a velocidade está em fase com ela.
Demonstração. Método complexo (Capítulo 8): , logo ; divida numerador e denominador por . O módulo e o argumento decorrem daí; o máximo de foi localizado na Proposição 8.10 (mesma função). Velocidade: dá ; escrever transforma o denominador em , isto é, a forma do RLC. Em , : um atraso de . ∎
Observação 14.7 (Duas ressonâncias, um circuito)
A correspondência , , , , , leva o oscilador forçado ao RLC série do Capítulo 8: a ressonância em velocidade é a ressonância em corrente (sempre em , com largura de banda ), e a ressonância em amplitude é a ressonância da carga, isto é, da tensão no capacitor (ligeiramente abaixo de , ausente para baixo). A potência absorvida, , é máxima em , com o valor , e os pontos de meia potência delimitam a largura de banda em velocidade — exatamente como no RLC.
Exemplo 14.8 (Velocidades de ressonância)
A suspensão de um carro tem (Problema 7.1). Numa estrada com ondulações a cada , a frequência de excitação vale : ressonância em , cerca de — a velocidade em que uma estrada ondulada sacode mais o carro, e a razão de se montar um amortecedor com : com a carroceria oscilaria com cinco vezes a amplitude da estrada. Acima da ressonância () a amplitude cai como : a carroceria “flutua” sobre as ondulações rápidas — o isolamento, a outra face da ressonância.
14.4 Excitação pela base: isolamento e o sismômetro
Proposição 14.9 (Oscilador sacudido pelo seu suporte)
Seja o suporte de um conjunto massa–mola–amortecedor deslocado de (a estrada sob um carro, o solo sob um sismômetro), e seja o deslocamento da massa em relação ao suporte e o seu deslocamento absoluto (a partir do equilíbrio). Então
e para , com :
Para : (a massa fica parada no espaço — um sismômetro lê o deslocamento do solo) e (a massa fica isolada do tremor); para : (um acelerômetro) e (a massa acompanha o suporte).
Demonstração. A mola e o amortecedor agem sobre o movimento relativo: , e . Em forma complexa, , donde ; depois . ∎
Exemplo 14.10 (Por que as máquinas ficam sobre coxins macios)
Um motor de sobre coxins de borracha sintonizados em (, ): — nove décimos da vibração não chegam ao piso. Os coxins precisam ser mais macios do que a intuição sugere: enrijecê-los eleva rumo aos Hz e destrói o isolamento. A mesma fórmula, lida ao contrário, é o carro do Exemplo 14.8 numa estrada ondulada.
14.5 Energia: como uma ressonância se constrói
Proposição 14.11 (Balanço energético no regime forçado)
No regime forçado permanente, a potência média fornecida pela força excitadora iguala a potência média dissipada pelo atrito, . Na ressonância a energia armazenada vale vezes a energia fornecida por período: o oscilador acumula o trabalho da excitação durante cerca de ciclos antes que as perdas igualem a entrada, que é também o número de ciclos () que o transitório dura.
Demonstração. Tome a média do teorema da energia sobre um período: em regime permanente, logo . Na ressonância , energia armazenada , energia fornecida por período ; razão . ∎
Exemplo 14.12 (O balanço)
Um balanço de (, ) recebe um empurrão de ao longo de por período: por ciclo. Ele cresce até que a perda por período, , iguale : ; com uma criança de , dá . Empurrando em qualquer outro ritmo, o trabalho dos empurrões alternaria de sinal e daria média nula.
14.6 Exercícios
Exercício 14.1 ★
Uma massa de numa mola de constante elástica oscila com amplitude de . Frequência angular, frequência, período, velocidade máxima, energia total.
Solução
Solução de Exercício 14.1.
, , ; ; .
Exercício 14.2 ★
Período de um pêndulo de na Terra e na Lua (). O que acontece com o período do sistema massa–mola na Lua?
Solução
Solução de Exercício 14.2.
: na Terra, na Lua. O período do sistema massa–mola, , não envolve : fica inalterado.
Exercício 14.3 ★
Um oscilador tem e . Tempo de decaimento da amplitude; tempo para a energia cair à metade; número de oscilações antes que a amplitude chegue a .
Solução
Solução de Exercício 14.3.
; a energia cai à metade em ; após , cerca de oscilações.
Exercício 14.4 ★
Uma massa numa mola (, ) é excitada por uma força de amplitude . Deflexão estática; amplitude na ressonância; amplitude em .
Solução
Solução de Exercício 14.4.
; na ressonância ; em : .
Exercício 14.5 ★★
Um carro (, ) passa por lombadas espaçadas de . Velocidade de ressonância? A , que fração da amplitude das lombadas a carroceria sente? Comente.
Solução
Solução de Exercício 14.5.
(). A : , : — mal isolado; o isolamento exige (a , : ).
Exercício 14.6 ★★
Explique pelo balanço energético por que um balanço precisa ser empurrado no seu próprio período; para e um empurrão que acrescenta por ciclo, encontre a energia em regime permanente e a amplitude para uma criança de num balanço de .
Solução
Solução de Exercício 14.6.
O trabalho de um empurrão só é positivo quando ele age no sentido do movimento; empurrado a cada período, todos os empurrões se somam; em qualquer outro ritmo eles se alternam. Regime permanente: , ; : , .
Exercício 14.7 ★★
Máximos sucessivos de uma oscilação livre decrescem a cada período. Encontre e a largura de banda (em hertz) da sua ressonância em velocidade se .
Solução
Solução de Exercício 14.7.
, ; .
Exercício 14.8 ★★
Dê a fase do deslocamento em relação à força bem abaixo da ressonância, na ressonância e bem acima, e a fase da velocidade na ressonância. Por que a ressonância em velocidade é a que importa para a potência?
Solução
Solução de Exercício 14.8.
Deslocamento: em fase () bem abaixo, na ressonância, (oposto) bem acima. Velocidade na ressonância: em fase com a força. A potência vale : é a fase da velocidade, e não a do deslocamento, que decide quanto trabalho a excitação realiza.
Exercício 14.9 ★★
Mostre que a amplitude da velocidade é máxima exatamente em , com , e que tem a forma .
Solução
Solução de Exercício 14.9.
; divida numerador e denominador por : , e . A raiz quadrada é , e vale exatamente em .
Exercício 14.10 ★★★
Calcule a potência média absorvida na ressonância para , , e a energia armazenada se ; verifique que a razão entre elas vale com .
Solução
Solução de Exercício 14.10.
; , ; e .
Exercício 14.11 ★★★
Um diapasão de é ouvido por (amplitude reduzida a ). Estime e , a largura de banda da sua ressonância, e comente por que ele é um bom padrão de frequência.
Solução
Solução de Exercício 14.11.
: , ; . Ele responde a, e emite, essencialmente uma única frequência: um padrão bom a algumas partes em .
Exercício 14.12 ★★★
Deduza a frequência de balanço de um cilindro flutuante (Exemplo 14.3) pela lei de Newton e pela força de Arquimedes ; mostre que ; calcule o período para . Por que o resultado independe da massa e do líquido?
Solução
Solução de Exercício 14.12.
(pois ): ; . Tanto a massa quanto a densidade do líquido entram apenas através da profundidade de equilíbrio .
14.7 Problema: o sismógrafo
Problema 14.1
Problema de fim de semana — uma massa pende de uma mola dentro de uma caixa aparafusada ao solo; o solo treme: o que a pena registra, por que o mesmo instrumento mede deslocamento em alta frequência e aceleração em baixa frequência, e por que um sismômetro de longo período não pode ser simplesmente uma mola longa
Uma massa pende de uma mola de constante elástica dentro de uma armação rígida presa ao solo; um amortecedor exerce , sendo o deslocamento da massa em relação à armação, medido a partir da sua posição de equilíbrio. O solo, e portanto a armação, se move verticalmente segundo . O referencial das estrelas distantes é inercial.
Parte I — A equação.
Escreva a posição absoluta da massa como , liste as forças sobre a massa (no referencial inercial) e mostre que
- Ponha-a na forma canônica; identifique e .
- O instrumento é construído com e : calcule e .
- Uma aceleração constante do solo (a armação se inclinando, digamos) dá que permanente? Interprete.
- O que registra a pena presa à massa, escrevendo num tambor fixo à armação?
Parte II — Movimento harmônico do solo. O solo se move segundo ; escreva .
- Usando amplitudes complexas, mostre que .
- Deduza em função de e de .
- Limite : mostre que e explique fisicamente o que a massa faz (o que o instrumento está medindo?).
- Limite : mostre que , sendo a amplitude da aceleração do solo: o que é o instrumento agora?
- Valor em ; por que é uma escolha sensata?
- Esboce contra (escalas logarítmicas) para e .
- Fase de em relação a em alta frequência; interprete.
Parte III — Projetando para terremotos. Terremotos distantes produzem ondas de superfície de a com amplitudes milimétricas; tremores locais chegam a ou .
- Para registrar ondas de como deslocamentos quer-se , digamos . Que alongamento estático a mola teria sob o peso da massa? Comente.
- Um pêndulo simples de mesma frequência: que comprimento?
- Os instrumentos reais de longo período usam um pêndulo quase horizontal do tipo “porteira de jardim”, ou uma realimentação eletrônica de força. Explique em uma frase o que cada solução consegue.
- Para o instrumento de , calcule o alongamento estático: é viável?
- Com ele, uma onda de e amplitude dá que ? Em que regime está o instrumento?
- Um tremor local de e amplitude : qual ? Qual regime?
Parte IV — O acelerômetro de um celular. Uma massa micro-usinada sobre molas de silício tem e .
- Um tremor de com amplitude de aceleração : calcule . Como se lê um deslocamento desses?
- Até que frequência a leitura fica a menos de de ?
- Que constante de tempo governa a sua resposta a um solavanco, e por que isso importa para detectar uma queda?
- O do sismômetro: valor e consequência após um degrau súbito do solo.
- Por que se escolhe o amortecimento crítico (ou quase crítico) para os dois instrumentos, em vez de um alto?
- O celular é sacudido exatamente a : por qual fator a leitura se afasta do valor correto?
- Resuma: um único dispositivo, dois regimes, decididos por qual única comparação.
Solução
Solução de Problema 14.1.
1. Forças: peso (equilibrado pelo alongamento estático), mola , amortecedor ; com .
2. , , .
3. ; .
4. : a massa se desloca de um valor fixo — o instrumento é um acelerômetro em frequência nula (e um inclinômetro).
5. O deslocamento relativo .
6. ; divida por .
7. .
8. : a massa não se move no referencial inercial (a sua inércia a mantém parada, enquanto a mola é macia demais para arrastá-la); a armação se move em torno dela, e a pena registra o deslocamento do solo — é um sismômetro.
9. : um acelerômetro.
10. : sem pico; os dois regimes se juntam suavemente e o instrumento não ressoa.
11. Para : uma reta de inclinação subindo até perto de , depois plana em ; para : o mesmo, com um pico de altura em .
12. : , a massa parada enquanto a armação se move.
13. : absurdo.
14. .
15. Porteira de jardim: o pêndulo oscila em torno de um eixo quase vertical, de modo que só uma fração minúscula de o restaura e um braço curto dá um período longo. Realimentação de força: uma bobina mantém a massa fixa, e a corrente necessária é proporcional à aceleração do solo — a rigidez passa a ser eletrônica e ajustável.
16. : viável.
17. : : — regime de acelerômetro, exige amplificação (alavanca óptica ou eletrônica).
18. : : , registro fiel do deslocamento.
19. : — lido como a variação da folga de um capacitor.
20. ; com ela decresce monotonicamente e permanece acima de até : cerca de .
21. : ele acompanha uma queda (dezenas de milissegundos) sem atraso.
22. : após um degrau do solo o registro se acomoda em meio segundo, sem oscilar.
23. Um alto faria o instrumento ressoar em após cada solavanco (registrando a si mesmo em vez do solo) e produziria um pico perto de ; é plano e rápido.
24. contra o ideal (ou ): abaixo.
25. Compare a frequência do sinal com : bem acima, a massa é uma referência fixa e é o deslocamento; bem abaixo, é a aceleração dividida por .