Física universitária — 1.º ano · Bachelor Year 1
17Partículas carregadas em campos E e B
Dentro do osciloscópio que traçou as curvas do Capítulo 7, um feixe de elétrons é dirigido pela tela pela tensão entre duas placas; dentro do ímã de um espectrômetro de massa, íons de dois isótopos se separam por milímetros porque um é oito por cento mais pesado que o outro; dentro do cíclotron de um hospital, prótons descrevem espirais por duzentas voltas antes de sair a um terço da velocidade da luz para queimar um tumor. Os três casos são a mesma dinâmica: uma carga num campo uniforme, elétrico ou magnético, e a lei de Newton. Este capítulo a desenvolve — a parábola num campo elétrico, o círculo e a hélice num campo magnético — e a transforma nos instrumentos que separam, aceleram e medem partículas carregadas.
17.1 A força de Lorentz
Definição 17.1 (Força de Lorentz)
Uma partícula de carga que se move com velocidade num campo elétrico e num campo magnético recebe a força
A parte elétrica é dirigida ao longo de (ou em sentido oposto, se ) e independe do movimento; a parte magnética é perpendicular a e a , proporcional à velocidade, e se anula para uma partícula em repouso. Unidades: em (ou ) e em teslas (): .
Proposição 17.2 (Trabalho da força de Lorentz)
A força magnética não realiza trabalho: a sua potência é nula, de modo que um campo magnético sozinho muda a direção da velocidade, mas nunca o seu módulo nem a energia cinética. A força elétrica tem potência e, entre dois pontos, o seu trabalho vale (Capítulo 27): uma partícula de carga que atravessa uma tensão ganha a energia cinética .
Demonstração. . O campo eletrostático deriva do potencial, , de modo que é conservativa, com . ∎
Definição 17.3 (O elétron-volt)
O elétron-volt é a energia cinética ganha por uma carga elementar ao atravessar um volt: . A química vive em alguns eV, os tubos de raios X em dezenas de keV, a física nuclear em MeV e a física de partículas em GeV e TeV.
Observação 17.4 (Por que a gravidade é ignorada)
Para um elétron num campo de — um valor modesto de laboratório — a força elétrica vale , contra um peso : vezes menor. O peso é descartado de todo cálculo deste capítulo sem hesitação. (O limite relativístico é outra história: as fórmulas abaixo valem para , isto é, abaixo de cerca de para elétrons e para prótons; veja o volume do terceiro ano.)
17.2 Campo elétrico uniforme
Proposição 17.5 (Aceleração e deflexão)
Num campo uniforme a aceleração é constante: o movimento é o de um projétil, com no lugar de .
- Solta do repouso e acelerada por uma tensão , a partícula atinge .
- Entrando com velocidade ao longo de numa região de comprimento em que , ela segue a parábola e sai desviada do ângulo , com , como se tivesse vindo em linha reta do meio das placas.
Demonstração. Energia: . Deflexão: , ; na saída, calculada em ; a tangente na saída, , cruza o eixo em . ∎
Exemplo 17.6 (O tubo do osciloscópio)
Elétrons acelerados por (, um décimo de — ainda não relativísticos) atravessam placas de separadas por sob : , , e numa tela a do centro das placas a mancha se desloca — por volt, a sensibilidade do tubo, fixada apenas pela geometria e pela tensão de aceleração.
17.3 Campo magnético uniforme
Teorema 17.7 (Movimento num campo magnético uniforme)
Uma partícula de carga e massa , com velocidade perpendicular a um uniforme, descreve um círculo com velocidade constante , de raio e frequência angular
sendo a frequência ciclotrônica independente da velocidade; o sentido de rotação depende do sinal de . Se tiver também uma componente ao longo de , essa componente não muda e a trajetória é uma hélice de raio e passo enrolada em torno das linhas de campo.
Demonstração. A força é perpendicular a e a ; o módulo da velocidade é constante (sem trabalho) e a componente ao longo de não sente força alguma. No plano perpendicular a a força tem norma constante , sempre perpendicular à velocidade: movimento circular uniforme (Teorema 11.13) com . Então ; o período vezes é o passo. ∎
Exemplo 17.8 (Ordens de grandeza)
Um elétron de () em : , , uma volta em — o mesmo período em qualquer energia, e é isso que torna o cíclotron possível. Um próton do vento solar (, ) nos da Terra: ; ele não consegue atravessar as linhas de campo, apenas descrever espirais ao longo delas rumo aos polos — a aurora.
17.4 Instrumentos
Proposição 17.9 (Seletor de velocidades e espectrômetro de massa)
Em campos uniformes cruzados , uma partícula que se move perpendicularmente aos dois passa sem desvio se e só se , quaisquer que sejam a sua carga e a sua massa (seletor de velocidades). Num campo magnético sozinho, uma partícula de velocidade conhecida descreve um semicírculo de diâmetro : medi-lo dá (espectrômetro de massa). Íons acelerados por uma tensão e depois curvados em chegam a
dois isótopos de massas e se separam por .
Demonstração. exige com a orientação correta. com ; derive . ∎
Exemplo 17.10 (Isótopos do carbono)
Íons C e C de carga unitária acelerados por em : e , a um do outro — duas manchas separadas no detector, e a razão das suas intensidades é a abundância isotópica, matéria-prima da datação por radiocarbono e de toda análise de isótopos.
Proposição 17.11 (Cíclotron)
Dois semicilindros ocos (“dês”) num uniforme, com uma tensão alternada entre eles na frequência ciclotrônica: a partícula descreve círculos dentro de cada dê (onde não há campo), é acelerada por em cada uma das duas travessias do intervalo por volta, e descreve uma espiral para fora com ; no raio de extração a sua energia cinética vale
independente da tensão, que apenas fixa o número de voltas.
Demonstração. Como não depende da velocidade, uma tensão de frequência fixa permanece em passo com a partícula volta após volta; no raio . ∎
Exemplo 17.12 (Um cíclotron hospitalar)
Prótons, , : , com . Com nos dês, por volta: voltas em . Acima de algumas dezenas de MeV o aumento relativístico da massa (volume do terceiro ano) tira os prótons de sincronia; as máquinas de terapia a modulam a frequência ou o campo para compensar — o assunto do problema de fim de semana.
Proposição 17.13 (Efeito Hall)
Uma fita de espessura que conduz uma corrente de portadores de carga e densidade , num campo perpendicular à fita, desenvolve ao longo da sua largura a tensão Hall
proporcional a (um magnetômetro) e inversamente proporcional a (uma sonda da densidade e do sinal dos portadores).
Demonstração. A força magnética sobre os portadores (velocidade de deriva ) os empurra para uma das bordas até que o campo elétrico transversal a equilibre: , e ao longo da largura ; com , . ∎
17.5 Exercícios
Exercício 17.1 ★
Converta , e em joules. Velocidade de um elétron e de um próton acelerados do repouso por .
Solução
Solução de Exercício 17.1.
, , . : elétron ; próton ( vezes mais lento).
Exercício 17.2 ★
Um elétron de entra perpendicularmente num campo de . Raio, frequência angular ciclotrônica, período.
Solução
Solução de Exercício 17.2.
; ; ; .
Exercício 17.3 ★
Um próton a no campo da Terra (): raio do seu círculo. O que acontece se a sua velocidade fizer com o campo?
Solução
Solução de Exercício 17.3.
. A : uma hélice de raio e passo , que avança ao longo da linha de campo.
Exercício 17.4 ★
Um seletor de velocidades tem e . Que velocidade passa? O que acontece com íons mais rápidos, e com a mesma velocidade e carga oposta?
Solução
Solução de Exercício 17.4.
. Íons mais rápidos: a força magnética vence e eles se curvam para o lado magnético; carga oposta com a mesma velocidade: as duas forças se invertem e continuam equilibradas — o seletor é cego ao sinal e à massa.
Exercício 17.5 ★★
Osciloscópio: elétrons a , placas de de comprimento, separadas por , com entre elas, e tela a do centro das placas. Deflexão na tela e sensibilidade em mm/V. Por que uma tensão de aceleração maior reduz a sensibilidade?
Solução
Solução de Exercício 17.5.
; deflexão ; sensibilidade . Elétrons mais rápidos passam menos tempo entre as placas: .
Exercício 17.6 ★★
Íons C e C de carga unitária, acelerados por , entram num campo de (). Raios e separação das duas manchas após meia volta.
Solução
Solução de Exercício 17.6.
: , ; ; separação entre os pontos de chegada (os raios diferem de , e os diâmetros do dobro disso).
Exercício 17.7 ★★
Um cíclotron de prótons tem e . Frequência da tensão dos dês, energia cinética máxima, número de voltas para nos dês, e tempo passado dentro. Em que fração a massa do próton aumentou na saída (, )?
Solução
Solução de Exercício 17.7.
; ; por volta: voltas; tempo ; .
Exercício 17.8 ★★
Um elétron a entra num campo de a das linhas de campo. Raio e passo da sua hélice; número de voltas por metro ao longo do campo.
Solução
Solução de Exercício 17.8.
, : ; período , passo : cerca de voltas por metro.
Exercício 17.9 ★★
Uma lâmina de cobre de de espessura conduz em (). Tensão Hall. Por que os sensores Hall são feitos de semicondutores ()?
Solução
Solução de Exercício 17.9.
: menos de um microvolt. Com dez milhões de vezes menor, um semicondutor dá milivolts — um sensor utilizável.
Exercício 17.10 ★★★
Demonstre pela lei de Newton que uma carga em qualquer campo magnético (uniforme ou não), sem campo elétrico, mantém constante o módulo da sua velocidade. Um elétron de entra numa região de campo intenso e não uniforme: o que pode e o que não pode mudar?
Solução
Solução de Exercício 17.10.
; multiplique escalarmente por : qualquer que seja , desde que não haja . A direção da velocidade, o raio de curvatura e o passo podem todos mudar; o módulo da velocidade e a energia cinética () não.
Exercício 17.11 ★★★
Uma carga parte do repouso na origem, com e . Escreva as equações do movimento, mostre que a partícula deriva em média com a velocidade ao longo de (sugestão: procure uma solução da forma com constante) e descreva a trajetória (uma cicloide). Números para um elétron com , .
Solução
Solução de Exercício 17.11.
, , . Com : , — uma rotação ciclotrônica pura de em . Partindo do repouso, : gira com norma constante , de modo que a velocidade é a deriva mais um vetor girante de mesma norma — uma cicloide, com cúspides onde . Elétron: deriva , , altura do arco .
Exercício 17.12 ★★★
No osciloscópio do Exercício 17.5, substitua as placas por uma bobina de deflexão magnética que produza nos mesmos . Ângulo de deflexão (para ângulos pequenos: o arco de raio ao longo de um comprimento ) e deflexão na tela. Por que os tubos de televisão, com os seus grandes ângulos, usam deflexão magnética e não elétrica?
Solução
Solução de Exercício 17.12.
; (cerca de ): deflexão para um modesto militesla. Ângulos grandes com placas exigiriam quilovolts e placas longas; uma bobina curva o feixe em dezenas de graus sem tensão alguma.
17.6 Problema: prótons contra um tumor
Problema 17.1
Problema de fim de semana — o cíclotron atrás da parede de um hospital: como os prótons são levados a um terço da velocidade da luz, por que a máquina simples deixa de funcionar antes da energia de que um terapeuta precisa, e quantos prótons são necessários para tratar um tumor
Prótons: , , ; . Cíclotron: , raio de extração , amplitude da tensão dos dês .
Parte I — Uma volta.
- Escreva a força de Lorentz sobre um próton que se move com perpendicular a , e mostre que o módulo da sua velocidade não pode mudar dentro de um dê.
- Deduza o raio do seu círculo e o seu período; mostre que o período não depende da velocidade.
- Calcule a frequência ciclotrônica para esses prótons.
- Energia ganha em cada travessia do intervalo; e por volta.
- Por que a tensão dos dês deve alternar exatamente em ? O que acontece se ela estiver ligeiramente fora?
- Os prótons são injetados no centro com velocidade desprezível: qual o raio após a primeira volta? E após voltas?
Parte II — Até a borda.
- Energia cinética na extração (em J e em MeV), e a velocidade, como fração de .
- Número de voltas necessárias e tempo passado na máquina.
- Comprimento total do trajeto em espiral (soma das circunferências — aproxime a soma por uma integral).
- O resultado da questão 7 depende de ? Sobre o que age?
- O vácuo interno precisa ser bom: estime a distância que um próton percorre entre colisões com moléculas de gás residual, se o livre caminho médio deve exceder o comprimento da espiral; o livre caminho médio varia como e vale cerca de à pressão atmosférica. Que pressão é necessária?
- Calcule na extração e a variação relativa do período que dela resulta. Ao longo do número de voltas encontrado acima, de que fração de período o próton escorregou em relação à tensão? Comente.
Parte III — 230 MeV. A protonterapia precisa de cerca de para alcançar tumores a de profundidade.
- Com a fórmula não relativística, que produto daria ? Com , que raio?
- Nessa energia : o que acontece com o período ciclotrônico à medida que o próton ganha energia, e por que um cíclotron de frequência fixa falha?
- Existem dois remédios: variar a frequência da tensão durante a aceleração (sincrocíclotron) ou fazer crescer com o raio de modo que permaneça constante (cíclotron isócrono). Explique cada um em uma frase e aponte um inconveniente do primeiro.
- A quantidade de movimento relativística vale e o raio continua valendo: com e , calcule para e compare com a questão 13.
- O feixe extraído passa entre duas placas de de comprimento com para ser desviado de um pequeno ângulo: estime o ângulo de deflexão (de modo não relativístico, usando o da questão anterior no lugar de ). O desvio elétrico é prático aqui?
- O mesmo desvio com um ímã de ao longo de : qual o ângulo? Conclua por que as linhas de feixe usam ímãs.
Parte IV — A dose.
- Um próton de deposita a maior parte da sua energia perto do fim do seu alcance (o pico de Bragg). Se toda ela for absorvida num tumor de massa , quantos prótons entregam uma dose de ()?
- A corrente do feixe vale : prótons por segundo e duração da sessão.
- Potência transportada pelo feixe; compare com uma lâmpada.
- Os prótons são freados até parar dentro do paciente: qual é a energia depositada por próton no último centímetro, grosso modo, se um quarto da energia se perde ali? Em elétron-volts por micrômetro?
- Cada ionização no tecido custa cerca de : quantas ionizações um próton provoca ao longo de todo o seu trajeto?
- Por que um feixe de prótons é preferível a raios X para um tumor profundo, em uma frase sobre para onde vai a energia?
- Resuma a cadeia, da força de Lorentz à dose: que equações fixaram a energia, o raio, o número de voltas e o tempo de tratamento.
Solução
Solução de Problema 17.1.
1. : sem potência, módulo da velocidade constante.
2. : ; , livre de .
3. .
4. por travessia, por volta.
5. O intervalo deve estar na polaridade aceleradora cada vez que o próton chega, a meio período de distância; fora da frequência, a fase escorrega e os impulsos acabam por desacelerar.
6. Após uma volta, , , ; após voltas, e .
7. ; .
8. voltas; .
9. .
10. Não: depende apenas de e de ; fixa o número de voltas e o tempo.
11. Trajeto de : é preciso , isto é, — um alto-vácuo.
12. ; o período cresce . Ao longo de voltas o escorregamento acumula vários períodos — as últimas voltas ficariam fora de fase; na prática ajustam-se e a fase de injeção, e os estão perto do limite da máquina simples.
13. : ; a .
14. cresce do centro à borda: uma frequência fixa fica irremediavelmente fora de passo.
15. Sincrocíclotron: baixar a frequência à medida que o pacote ganha energia — um único pacote por vez, corrente média baixa. Isócrono: moldar para que o período fique constante — feixe contínuo, a escolha moderna.
16. ; , um pouco mais que os não relativísticos.
17. Impulso transversal ; ângulo : inútil para desviar o feixe.
18. Magnético: , ângulo : mil vezes mais — ímãs, portanto.
19. Energia por próton ; dose : prótons.
20. prótons por segundo: cerca de .
21. : uma luz de vigília, entregue exatamente onde se quer.
22. em : cerca de — ionização densa ao longo do último trecho.
23. ionizações por próton — o dano molecular que mata a célula.
24. Os raios X depositam energia ao longo de todo o seu caminho, sobretudo perto da entrada; os prótons depositam a maior parte da sua no fim do alcance, poupando o tecido à frente e não deixando nada atrás.
25. e (o círculo), (a energia), (as voltas), dose (prótons energia)/massa e corrente taxa (o tempo).