Physics · Livro 3 · Bachelor Year 1

Física universitária — 1.º ano

Física universitária — 1.º ano · Bachelor Year 1

27Potencial elétrico; condutores e capacitores

Um campo são três números em cada ponto; um potencial é um só. Como a força eletrostática é conservativa, todo o campo de uma distribuição de cargas pode ser dobrado numa única função escalar, o potencial, do qual ele se recupera por derivação — a mesma economia que transformou forças em energia potencial na mecânica. O potencial é o que um voltímetro lê, o que uma bateria mantém, o que acelera elétrons num tubo; as suas superfícies de nível mapeiam um campo num relance. Este capítulo o constrói, usa-o no dipolo (o primeiro modelo elétrico de uma molécula) e depois se volta para os dois objetos de que todo circuito é feito: os condutores, em que a carga se arranja de modo a matar o campo interno, e os capacitores, que armazenam carga e energia num campo.

Carregada a algumas centenas de quilovolts por um gerador de Van de Graaff, uma pessoa é um condutor equipotencial cujos cabelos, todos ao mesmo potencial e todos carregados do mesmo modo, se repelem uns aos outros.
Carregada a algumas centenas de quilovolts por um gerador de Van de Graaff, uma pessoa é um condutor equipotencial cujos cabelos, todos ao mesmo potencial e todos carregados do mesmo modo, se repelem uns aos outros.

27.1 O potencial eletrostático

Teorema 27.1 (O campo eletrostático é conservativo)

Existe uma função escalar V(M)V(M), o potencial eletrostático (volt, V\mathrm{V}), tal que

E=gradV,VAVB=ABE ⁣dl\vect E = -\overrightarrow{\operatorname{grad}}\,V , \qquad V_A - V_B = \int_A^B \vect E\cdot\dd\vect l

ao longo de qualquer caminho de AA a BB (a circulação de E\vect E de AA a BB não depende do caminho e é nula ao longo de um circuito fechado). Para uma carga pontual qq em OO, V(M)=q4πε0OMV(M) = \dfrac{q}{4\pi\varepsilon_0\,OM} com a convenção V()=0V(\infty) = 0; para várias cargas os potenciais se somam. A energia potencial de uma carga qq' em MM vale Ep=qV(M)E_p = q'V(M), e o trabalho da força elétrica de AA a BB vale q(VAVB)q'(V_A - V_B).

Demonstração. A força de Coulomb de uma carga fixa qq sobre qq' tem a forma da gravitação de Newton com Gm1m2-Gm_1m_2 substituído por qq/4πε0qq'/4\pi\varepsilon_0; o mesmo cálculo que deu Ep=Gm1m2/rE_p = -Gm_1m_2/r (Proposição 13.7) dá Ep=qq/4πε0rE_p = qq'/4\pi\varepsilon_0r: dividindo por qq' obtém-se VV, e E=F/q=grad(Ep)/q\vect E = \vect F/q' = -\overrightarrow{\operatorname{grad}}(E_p)/q'. A superposição leva o resultado a qualquer distribuição; a fórmula da circulação é a definição do gradiente integrada ao longo do caminho.

Proposição 27.2 (Ler um potencial)

  1. As superfícies equipotenciais V=constV = \text{const} são perpendiculares em toda parte às linhas de campo, e o campo aponta para os potenciais decrescentes.
  2. E|\vect E| é a taxa de variação de VV ao longo da direção de maior declive: onde as equipotenciais estão próximas, o campo é forte.
  3. VV é definido a menos de uma constante aditiva; só as diferenças (as tensões) são mensuráveis. A terra ou o infinito é posto em zero por convenção.
  4. Em coordenadas esféricas com simetria em torno de OO, Er= ⁣dV/ ⁣drE_r = -\dd V/ \dd r; em coordenadas polares (r,θ)(r, \theta) num plano, Er=V/rE_r = -\partial V/\partial r e Eθ=1rV/θE_\theta = -\dfrac1r\,\partial V/\partial\theta.

Demonstração. Sobre uma equipotencial,  ⁣dV=E ⁣dl=0\dd V = -\vect E\cdot\dd\vect l = 0 para todo deslocamento na superfície, de modo que E\vect E é normal a ela; deslocando-se ao longo de E\vect E,  ⁣dV=E ⁣dl<0\dd V = -E\,\dd l < 0. As componentes polares seguem de  ⁣dV=(V/r) ⁣dr+(V/θ) ⁣dθ\dd V = (\partial V/\partial r)\dd r + (\partial V/\partial\theta)\dd\theta e  ⁣dl= ⁣drer+r ⁣dθeθ\dd\vect l = \dd r\,\vect e_r + r\,\dd\theta\,\vect e_\theta.

Equipotenciais (em laranja) e linhas de campo (em azul) de uma carga pontual e de um capacitor plano. As linhas cruzam as equipotenciais em ângulo reto e vão do potencial alto para o baixo; onde as equipotenciais se adensam, o campo é forte.
Equipotenciais (em laranja) e linhas de campo (em azul) de uma carga pontual e de um capacitor plano. As linhas cruzam as equipotenciais em ângulo reto e vão do potencial alto para o baixo; onde as equipotenciais se adensam, o campo é forte.

Método 27.3 (Calcular um potencial)

Ou some  ⁣dq/4πε0r\dd q/4\pi\varepsilon_0r sobre a distribuição (quando a soma é calculável e a distribuição é finita, de modo que V()=0V(\infty) = 0 faça sentido), ou integre  ⁣dV=E ⁣dl\dd V = -\vect E\cdot\dd\vect l ao longo de um caminho conveniente a partir de um ponto onde VV é conhecido, usando o campo achado pela lei de Gauss. Para distribuições infinitas (fio, plano) só o segundo caminho funciona, e o zero de VV tem de ser escolhido num ponto finito.

Proposição 27.4 (Potenciais das distribuições clássicas)

  1. Esfera de raio RR com QQ no seu volume: V(r)=Q4πε0rV(r) = \dfrac{Q}{4\pi\varepsilon_0r} fora; V(r)=Q4πε03R2r22R3V(r) = \dfrac{Q}{4\pi\varepsilon_0}\,\dfrac{3R^2 - r^2}{2R^3} dentro, de modo que V(0)=32Q/4πε0RV(0) = \tfrac32\,Q/4\pi\varepsilon_0R. Com QQ na superfície, VV é uniforme dentro, igual a Q/4πε0RQ/4\pi\varepsilon_0R.
  2. Fio infinito λ\lambda: V(r)=λ2πε0lnrr0V(r) = -\dfrac{\lambda}{2\pi\varepsilon_0}\ln\dfrac{r}{r_0}.
  3. Capacitor plano, com campo EE da placa 1 para a placa 2, separadas de dd: VV decresce linearmente através do espaçamento e V1V2=EdV_1 - V_2 = Ed.

Demonstração. Integre Er= ⁣dV/ ⁣drE_r = -\dd V/\dd r com os campos da Proposição 26.12, do infinito para dentro no caso da esfera (a continuidade em RR fixa a constante interna), a partir de r0r_0 no caso do fio, e através do espaçamento no caso do capacitor.

Potencial (traço cheio) e campo (tracejado) de uma esfera carregada uniformemente. O potencial é contínuo e com derivada contínua; ele é parabólico dentro, onde o campo é linear, e vai como 1/r fora. O seu máximo fica no centro, onde o campo se anula — um máximo de V é um ponto de campo nulo, e não o contrário.
Potencial (traço cheio) e campo (tracejado) de uma esfera carregada uniformemente. O potencial é contínuo e com derivada contínua; ele é parabólico dentro, onde o campo é linear, e vai como 1/r1/r fora. O seu máximo fica no centro, onde o campo se anula — um máximo de VV é um ponto de campo nulo, e não o contrário.

Exemplo 27.5 (O elétron-volt, de novo)

Um elétron que atravessa um espaçamento de 100V100\,\mathrm{V} ganha eU=100eV=1.6×1017JeU = 100\,\mathrm{eV} = 1.6 \times 10^{-17}\,\mathrm{J}, qualquer que seja a forma do campo entre os eletrodos: o potencial torna o caminho irrelevante (Definição 17.3). Uma carga de 1µC1\,\text{µ}\mathrm{C} a 1m1\,\mathrm{m} de outra tem V=9kVV = 9\,\mathrm{kV} e o par armazena 9mJ9\,\mathrm{mJ}; o potencial no centro de um núcleo de ouro vale 24MV24\,\mathrm{MV} (Exercício 27.6).

27.2 O dipolo elétrico

Definição 27.6 (Dipolo elétrico)

Duas cargas opostas, q-q em NN e +q+q em PP, separadas de a=NPa = NP, formam um dipolo elétrico de momento dipolar p=qNP\vect p = q\,\vect{NP} (Cm\mathrm{C}\,\mathrm{m}), apontando do - para o ++. A aproximação dipolar é o estudo do seu campo a distâncias rar \gg a. Uma molécula cujos centros de carga positiva e negativa não coincidem (a água, p=6.2×1030Cmp = 6.2 \times 10^{-30}\,\mathrm{C}\,\mathrm{m}) é um dipolo; um átomo neutro num campo se torna um (dipolo induzido).

Proposição 27.7 (Campo de um dipolo)

Em MM com OM=raOM = r \gg a (OO o meio de NPNP) e θ\theta o ângulo entre p\vect p e OM\vect{OM},

V(M)=pcosθ4πε0r2,Er=2pcosθ4πε0r3,Eθ=psinθ4πε0r3.V(M) = \frac{p\cos\theta}{4\pi\varepsilon_0 r^2}, \qquad E_r = \frac{2p\cos\theta}{4\pi\varepsilon_0r^3}, \qquad E_\theta = \frac{p\sin\theta}{4\pi\varepsilon_0r^3} .

O campo de um dipolo cai como 1/r31/r^3, mais depressa que o 1/r21/r^2 de uma carga: de longe as duas cargas quase se cancelam, e o que resta é a separação entre elas.

Demonstração. V=q4πε0(1PM1NM)V = \dfrac{q}{4\pi\varepsilon_0}\Bigl(\dfrac1{PM} - \dfrac1{NM}\Bigr) com PMra2cosθPM \approx r - \tfrac a2\cos\theta e NMr+a2cosθNM \approx r + \tfrac a2\cos\theta (projeção de ±a2\pm\tfrac a2 sobre OM\vect{OM}); em primeira ordem em a/ra/r, 1/PM1/NMacosθ/r21/PM - 1/NM \approx a\cos\theta/r^2. Depois, Er=V/rE_r = -\partial V/\partial r e Eθ=(1/r)V/θE_\theta = -(1/r)\,\partial V/\partial\theta.

À esquerda: a geometria da aproximação dipolar — M visto do centro O à distância r e sob o ângulo  em relação a p, com as componentes radial e ortorradial do campo. À direita: linhas de campo (em azul, r 2) e equipotenciais (em laranja, r √| |) de um dipolo apontando para a direita; o plano que passa por O perpendicular a p é a equipotencial V = 0.
À esquerda: a geometria da aproximação dipolar — MM visto do centro OO à distância rr e sob o ângulo θ\theta em relação a p\vect p, com as componentes radial e ortorradial do campo. À direita: linhas de campo (em azul, rsin2θr \propto \sin^2\theta) e equipotenciais (em laranja, rcosθr \propto \sqrt{|\cos\theta|}) de um dipolo apontando para a direita; o plano que passa por OO perpendicular a p\vect p é a equipotencial V=0V = 0.

Proposição 27.8 (Dipolo num campo externo)

Um dipolo p\vect p num campo uniforme E\vect E não sente força resultante, mas sim um torque Γ=pE\vect\Gamma = \vect p\wedge\vect E que tende a alinhá-lo com o campo, e tem a energia potencial Ep=pEE_p = -\vect p\cdot\vect E, mínima quando alinhado. Num campo não uniforme ele é, além disso, puxado para as regiões de campo intenso (em uma dimensão, Fx=p ⁣dE/ ⁣dxF_x = p\,\dd E/\dd x para um dipolo alinhado).

Demonstração. As forças ±qE\pm q\vect E se cancelam; o seu momento em relação a OO vale OPqE+ON(qE)=qNPE\vect{OP}\wedge q\vect E + \vect{ON}\wedge(-q\vect E) = q\vect{NP}\wedge\vect E. Energia: qV(P)qV(N)=qNPEqV(P) - qV(N) = -q\,\vect{NP}\cdot\vect E para um campo uniforme (pois V(P)V(N)=ENPV(P) - V(N) = -\vect E\cdot\vect{NP}). Não uniforme, alinhado ao longo de xx: Fx=qE(x+a)qE(x)qa ⁣dE/ ⁣dxF_x = qE(x + a) - qE(x) \approx qa\,\dd E/\dd x.

Exemplo 27.9 (Por que o pente atrai o papel)

Um pente carregado cria um campo que decresce com a distância; um pedacinho de papel, neutro, é polarizado por ele (dipolo induzido ao longo de E\vect E), e a força p ⁣dE/ ⁣dxp\,\dd E/\dd x sobre um dipolo alinhado o puxa para a região de campo intenso: o pente. O sinal da carga do pente não importa; o mesmo mecanismo segura o balão na parede e faz o filete de água entortar. Para as moléculas de água, pEpE num campo de 1MV/m1\,\mathrm{MV}/\mathrm{m} vale 6×1024J6 \times 10^{-24}\,\mathrm{J}, 600600 vezes menos que kBTk_BT à temperatura ambiente: só um leve alinhamento líquido sobrevive à agitação térmica (Exercício 27.7).

27.3 Condutores em equilíbrio eletrostático

Teorema 27.10 (Propriedades de um condutor em equilíbrio)

Num condutor em que as cargas livres estão em repouso:

  1. E=0\vect E = \vect 0 dentro, e o condutor é um volume equipotencial: VV uniforme nele e na sua superfície.
  2. Toda carga líquida fica na superfície, com uma densidade superficial σ\sigma; o interior é neutro.
  3. Logo do lado de fora, o campo é normal à superfície e vale E=σε0n\vect E = \dfrac{\sigma}{\varepsilon_0}\,\vect n (teorema de Coulomb).
  4. Uma cavidade dentro de um condutor, vazia de carga, tem E=0\vect E = \vect 0 e VV uniforme, aconteça o que acontecer fora (gaiola de Faraday).

Demonstração. (1) Um campo faria as cargas livres se moverem: o equilíbrio exige E=0\vect E = \vect 0, donde  ⁣dV=0\dd V = 0 entre dois pontos internos quaisquer; a superfície é o limite. (2) Lei de Gauss sobre qualquer superfície fechada desenhada dentro do condutor: fluxo nulo, carga encerrada nula. (3) A superfície é uma equipotencial, de modo que E\vect E logo do lado de fora é normal a ela; uma caixinha cilíndrica que atravessa a superfície tem fluxo E ⁣dSE\,\dd S apenas pela face externa (dentro E=0\vect E = \vect 0) e carga σ ⁣dS\sigma\,\dd S. (4) A parede da cavidade é uma equipotencial; uma linha de campo dentro da cavidade teria de ir da parede à parede vencendo uma queda de potencial — impossível sobre uma equipotencial; logo, nenhuma linha e nenhum campo (admitido nesta forma).

Exemplo 27.11 (Poder das pontas e para-raios)

Duas esferas de raios R1>R2R_1 > R_2, bem afastadas e ligadas por um fio, têm o mesmo V=Qi/4πε0RiV = Q_i/4\pi\varepsilon_0R_i, logo σi=Qi/4πRi2=ε0V/Ri\sigma_i = Q_i/4\pi R_i^2 = \varepsilon_0V/R_i: quanto menor o raio de curvatura, maior a carga superficial e o campo σ/ε0=V/R\sigma/\varepsilon_0 = V/R. Numa ponta afiada o campo supera o valor de ruptura do ar (3MV/m3\,\mathrm{MV}/\mathrm{m}) muito antes de superá-lo em qualquer outro lugar: o ar ioniza e a carga escoa em silêncio. Um para-raios funciona por esse poder das pontas — ele não atrai tanto a descarga quanto lhe oferece um caminho, e escoa a carga sob uma nuvem antes que ela se acumule.

À esquerda: um condutor oco num campo externo — as cargas induzidas na sua superfície cancelam o campo dentro dele e na cavidade (a gaiola de Faraday). À direita: o poder das pontas — num condutor equipotencial único, a carga superficial e o campo externo são máximos onde a curvatura é mais aguda.
À esquerda: um condutor oco num campo externo — as cargas induzidas na sua superfície cancelam o campo dentro dele e na cavidade (a gaiola de Faraday). À direita: o poder das pontas — num condutor equipotencial único, a carga superficial e o campo externo são máximos onde a curvatura é mais aguda.

27.4 Capacitores

Definição 27.12 (Capacitância)

Um condutor isolado ao potencial VV leva uma carga QQ proporcional a VV: Q=CVQ = CV, sendo CC a sua capacitância (farad, F\mathrm{F}); para uma esfera C=4πε0RC = 4\pi\varepsilon_0R. Um capacitor é um par de condutores (as placas) que levam cargas opostas ±Q\pm Q e ficam frente a frente, de modo que o campo fica confinado entre eles; a sua capacitância vale C=Q/UC = Q/U, sendo U=V1V2U = V_1 - V_2 a tensão entre as placas. O símbolo e a lei de circuito i=C ⁣du/ ⁣dti = C\,\dd u/\dd t foram usados no Capítulo 7.

Proposição 27.13 (Três capacitores)

  1. Plano: placas de área SS separadas de dSd \ll \sqrt S: C=ε0SdC = \dfrac{\varepsilon_0S}{d}.
  2. Esférico: esferas concêntricas de raios R1<R2R_1 < R_2: C=4πε0R1R2R2R1C = \dfrac{4\pi\varepsilon_0R_1R_2}{R_2 - R_1}.
  3. Cilíndrico (coaxial), raios a<ba < b, comprimento LbL \gg b: C=2πε0Lln(b/a)C = \dfrac{2\pi\varepsilon_0L}{\ln(b/a)}.

Preencher o espaçamento com um isolante de permissividade relativa εr\varepsilon_r multiplica CC por εr\varepsilon_r (as moléculas do dielétrico se polarizam e enfraquecem o campo; εr=2\varepsilon_r = 2 a 1010 para os plásticos e o vidro comuns, e 8080 para a água).

Demonstração. Em cada caso o campo entre as placas é o da Proposição 26.12: E=σ/ε0=Q/ε0SE = \sigma/\varepsilon_0 = Q/\varepsilon_0S, U=EdU = Ed; E=Q/4πε0r2E = Q/4\pi\varepsilon_0r^2, U=R1R2E ⁣dr=Q4πε0(1R11R2)U = \int_{R_1}^{R_2}E\,\dd r = \dfrac{Q}{4\pi\varepsilon_0} \Bigl(\dfrac1{R_1} - \dfrac1{R_2}\Bigr); E=Q/2πε0LrE = Q/2\pi\varepsilon_0Lr, U=Q2πε0LlnbaU = \dfrac{Q}{2\pi\varepsilon_0L}\ln\dfrac ba. Divida QQ por UU. O fator do dielétrico fica admitido.

Teorema 27.14 (Energia de um capacitor)

Um capacitor carregado com QQ sob UU armazena

W=12CU2=12QU=Q22C,W = \tfrac12 CU^2 = \tfrac12 QU = \frac{Q^2}{2C} ,

o trabalho necessário para levar a carga de uma placa à outra contra a tensão que cresce. Num capacitor plano W=12ε0E2×SdW = \tfrac12\varepsilon_0E^2 \times Sd: a energia está no campo, com densidade 12ε0E2\tfrac12\varepsilon_0E^2 por unidade de volume — afirmação que vale para todo campo eletrostático.

Demonstração. Levar  ⁣dq\dd q da placa negativa à positiva quando a carga vale qq custa  ⁣dW=(q/C) ⁣dq\dd W = (q/C)\,\dd q; integre de 00 a QQ. Depois substitua C=ε0S/dC = \varepsilon_0S/d e U=EdU = Ed; a densidade geral fica admitida.

Exemplo 27.15 (Três capacitores e as suas energias)

Um metro quadrado de par de folhas metálicas a 1mm1\,\mathrm{mm}: C=8.85×1012/103=8.9nFC = 8.85 \times 10^{-12}/ 10^{-3} = 8.9\,\mathrm{nF} — o farad é uma unidade enorme. Os 150µF150\,\text{µ}\mathrm{F} de um desfibrilador a 2kV2\,\mathrm{kV}: 300J300\,\mathrm{J}, entregues em milissegundos. Um supercapacitor de 3000F3000\,\mathrm{F} a 2.7V2.7\,\mathrm{V}: 11kJ11\,\mathrm{kJ} numa lata do tamanho de uma garrafa de refrigerante — a sua capacitância vem de um espaçamento molecular dd e de um SS poroso enorme. A densidade de energia de um campo na ruptura do ar, 12ε0(3×106)2=40J/m3\tfrac12\varepsilon_0(3 \times 10^6)^2 = 40\,\mathrm{J}/\mathrm{m}^{3}, é a razão de os capacitores armazenarem tão pouco em comparação com as baterias.

Capacitores plano, esférico e com dielétrico. O campo (em laranja) fica confinado entre as placas, a não ser pelo efeito de borda nas extremidades, desprezado quando d é pequeno; a energia 1/2 _0E2 por unidade de volume mora nesse campo.
Capacitores plano, esférico e com dielétrico. O campo (em laranja) fica confinado entre as placas, a não ser pelo efeito de borda nas extremidades, desprezado quando dd é pequeno; a energia 12ε0E2\tfrac12\varepsilon_0E^2 por unidade de volume mora nesse campo.

Observação 27.16 (Associação de capacitores)

Em paralelo (mesmo UU) as cargas se somam: C=C1+C2C = C_1 + C_2; em série (mesma QQ) as tensões se somam: 1/C=1/C1+1/C21/C = 1/C_1 + 1/C_2 — o contrário dos resistores, porque CC mede uma facilidade (carga por volt) onde RR mede uma dificuldade. Essas regras seguem de Q=CUQ = CU e das leis de circuito do Capítulo 6.

27.5 Exercícios

Exercício 27.1

Potencial a 1.0m1.0\,\mathrm{m} de uma carga de 1.0µC1.0\,\text{µ}\mathrm{C}; energia necessária para trazer uma segunda carga de 1.0µC1.0\,\text{µ}\mathrm{C} do infinito até esse ponto; velocidade com que ela sairia se fosse solta, sendo a sua massa 1g1\,\mathrm{g}.

Solução

Solução de Exercício 27.1.

V=8.99×109×106/1=9.0kVV = 8.99 \times 10^9 \times 10^{-6}/1 = 9.0\,\mathrm{kV}; W=qV=9.0mJW = qV = 9.0\,\mathrm{mJ}; se solta, 12mv2=9mJ\tfrac12mv^2 = 9\,\mathrm{mJ}: v=18=4.2m/sv = \sqrt{18} = 4.2\,\mathrm{m}/\mathrm{s}.

Exercício 27.2

Placas a 1.0mm1.0\,\mathrm{mm} uma da outra sob 100V100\,\mathrm{V}: campo; energia cinética e velocidade ganhas por um elétron que atravessa o espaçamento a partir do repouso; tempo de voo.

Solução

Solução de Exercício 27.2.

E=100/103=1×105V/mE = 100/10^{-3} = 1 \times 10^{5}\,\mathrm{V}/\mathrm{m}; Ek=eU=100eV=1.6×1017JE_k = eU = 100\,\mathrm{eV} = 1.6 \times 10^{-17}\,\mathrm{J}, logo v=2Ek/me=5.9×106m/sv = \sqrt{2E_k/m_e} = 5.9 \times 10^{6}\,\mathrm{m}/\mathrm{s}; com aceleração uniforme, t=2d/v=3.4×1010st = 2d/v = 3.4 \times 10^{-10}\,\mathrm{s}.

Exercício 27.3

Num mapa de equipotenciais desenhadas a cada 10V10\,\mathrm{V}, as linhas estão a 2mm2\,\mathrm{mm} umas das outras perto de AA e a 8mm8\,\mathrm{mm} perto de BB. Campo em AA e em BB; para que lado o campo aponta em relação aos potenciais crescentes; para que lado um elétron acelera?

Solução

Solução de Exercício 27.3.

EA=10/0.002=5kV/mE_A = 10/0.002 = 5\,\mathrm{kV}/\mathrm{m}, EB=10/0.008=1.25kV/mE_B = 10/0.008 = 1.25\,\mathrm{kV}/\mathrm{m}. O campo aponta para os potenciais decrescentes; um elétron (q<0q < 0) acelera para o outro lado, rumo aos VV crescentes.

Exercício 27.4

Uma esfera de Van de Graaff de raio 15cm15\,\mathrm{cm} é carregada a 200kV200\,\mathrm{kV}. Capacitância, carga e campo na sua superfície. Potencial máximo antes que o ar em volta rompa (3MV/m3\,\mathrm{MV}/\mathrm{m}).

Solução

Solução de Exercício 27.4.

C=4πε0R=1.11×1010×0.15=17pFC = 4\pi\varepsilon_0R = 1.11 \times 10^{-10} \times 0.15 = 17\,\mathrm{pF}; Q=CV=3.3µCQ = CV = 3.3\,\text{µ}\mathrm{C}; E=V/R=2×105/0.15=1.3MV/mE = V/R = 2 \times 10^5/0.15 = 1.3\,\mathrm{MV}/\mathrm{m}. Ruptura em V=EmaxR=3×106×0.15=450kVV = E_{\max}R = 3 \times 10^6 \times 0.15 = 450\,\mathrm{kV} — as máquinas grandes usam esferas grandes.

Exercício 27.5 ★★

Potencial no eixo de um anel de raio RR e carga QQ; recupere o campo axial por derivação. O mesmo para o disco carregado uniformemente (use o Exercício 26.5): V(z)=σ2ε0(z2+R2z)V(z) = \dfrac{\sigma}{2\varepsilon_0} \bigl(\sqrt{z^2 + R^2} - z\bigr).

Solução

Solução de Exercício 27.5.

Todo elemento do anel está à distância R2+z2\sqrt{R^2 + z^2}: V=Q/4πε0R2+z2V = Q/4\pi\varepsilon_0\sqrt{R^2 + z^2}; Ez= ⁣dV/ ⁣dz=Qz/4πε0(R2+z2)3/2E_z = -\dd V/\dd z = Qz/4\pi\varepsilon_0(R^2 + z^2)^{3/2}. Disco:  ⁣dq=2πσa ⁣da\dd q = 2\pi\sigma a\,\dd a a a2+z2\sqrt{a^2 + z^2}: V=σ2ε00Ra ⁣daa2+z2=σ2ε0(z2+R2z)V = \dfrac{\sigma}{2\varepsilon_0}\displaystyle\int_0^R\dfrac{a\,\dd a}{\sqrt{a^2 + z^2}} = \dfrac{\sigma}{2\varepsilon_0}\bigl(\sqrt{z^2 + R^2} - z\bigr), e  ⁣dV/ ⁣dz=σ2ε0(1zz2+R2)-\dd V/\dd z = \dfrac{\sigma}{2\varepsilon_0}\Bigl(1 - \dfrac{z}{\sqrt{z^2 + R^2}}\Bigr).

Exercício 27.6 ★★

Deduza o potencial dentro de uma esfera carregada uniformemente a partir do seu campo. Potencial no centro de um núcleo de ouro (Z=79Z = 79, R=7.0fmR = 7.0\,\mathrm{fm}); energia de que um próton precisaria para chegar ao centro vindo de longe, em MeV\mathrm{MeV}; comente as partículas alfa de 5MeV5\,\mathrm{MeV} de Rutherford.

Solução

Solução de Exercício 27.6.

V(r)=V(R)+rRQr ⁣dr4πε0R3=Q4πε0R+Q(R2r2)8πε0R3=Q4πε03R2r22R3V(r) = V(R) + \displaystyle\int_r^R\dfrac{Qr'\,\dd r'}{4\pi\varepsilon_0R^3} = \dfrac{Q}{4\pi\varepsilon_0R} + \dfrac{Q(R^2 - r^2)}{8\pi\varepsilon_0R^3} = \dfrac{Q}{4\pi\varepsilon_0} \dfrac{3R^2 - r^2}{2R^3}. Ouro: V(0)=1.5×8.99×109×1.26×1017/7×1015=24MVV(0) = 1.5 \times 8.99 \times 10^9 \times 1.26 \times 10^{-17}/7 \times 10^{-15} = 24\,\mathrm{MV}: um próton precisa de 24MeV24\,\mathrm{MeV}, e uma alfa (2e2e), de 48MeV48\,\mathrm{MeV} para chegar ao centro e de 32MeV32\,\mathrm{MeV} para tocar a superfície. As alfas de 5MeV5\,\mathrm{MeV} de Rutherford voltam em rr tal que 2eV=5MeV2eV = 5\,\mathrm{MeV}: V=2.5MVV = 2.5\,\mathrm{MV}, r=45fmr = 45\,\mathrm{fm} — bem fora do núcleo, e é por isso que a sua análise de carga pontual funcionou.

Exercício 27.7 ★★

Molécula de água, p=6.2×1030Cmp = 6.2 \times 10^{-30}\,\mathrm{C}\,\mathrm{m}. Campo que ela cria a 1.0nm1.0\,\mathrm{nm} ao longo do seu eixo e perpendicularmente a ele; torque e diferença de energia entre as posições alinhada e antialinhada em E=1.0MV/mE = 1.0\,\mathrm{MV}/\mathrm{m}; compare com kBTk_BT a 300K300\,\mathrm{K}. Campo de um íon de sódio a 0.3nm0.3\,\mathrm{nm} e energia do dipolo de água alinhado nele (hidratação).

Solução

Solução de Exercício 27.7.

Eixo: 2p/4πε0r3=2×8.99×109×6.2×1030/1027=1.1×108V/m2p/4\pi\varepsilon_0r^3 = 2 \times 8.99 \times 10^9 \times 6.2 \times 10^{-30}/10^{-27} = 1.1 \times 10^{8}\,\mathrm{V}/\mathrm{m}; na perpendicular, a metade: 5.6×107V/m5.6 \times 10^{7}\,\mathrm{V}/\mathrm{m}. Torque pE=6.2×1024NmpE = 6.2 \times 10^{-24}\,\mathrm{N}\,\mathrm{m}; diferença de energia 2pE=1.2×1023J2pE = 1.2 \times 10^{-23}\,\mathrm{J} contra kBT=4.1×1021Jk_BT = 4.1 \times 10^{-21}\,\mathrm{J}: 330330 vezes menor — só um alinhamento líquido de 0.1%0.1\%. Íon de sódio a 0.3nm0.3\,\mathrm{nm}: E=e/4πε0r2=1.6×1010V/mE = e/4\pi\varepsilon_0r^2 = 1.6 \times 10^{10}\,\mathrm{V}/\mathrm{m}, pE=1.0×1019J=0.6eV-pE = -1.0 \times 10^{-19}\,\mathrm{J} = -0.6\,\mathrm{eV}, 24kBT24\,k_BT: as moléculas de água se travam no íon — é a hidratação.

Exercício 27.8 ★★

Uma esfera condutora de raio 1.0cm1.0\,\mathrm{cm} no ar: carga e potencial máximos antes da ruptura. Duas esferas condutoras, R1=10cmR_1 = 10\,\mathrm{cm} e R2=1.0mmR_2 = 1.0\,\mathrm{mm}, ligadas por um fio fino e levadas a 20kV20\,\mathrm{kV}: campo na superfície de cada uma; qual delas descarrega no ar?

Solução

Solução de Exercício 27.8.

Q=4πε0R2E=104×3×106/8.99×109=33nCQ = 4\pi\varepsilon_0R^2E = 10^{-4} \times 3 \times 10^6/8.99 \times 10^9 = 33\,\mathrm{nC}, V=ER=30kVV = ER = 30\,\mathrm{kV}. Esferas ligadas: E1=V/R1=0.2MV/mE_1 = V/R_1 = 0.2\,\mathrm{MV}/\mathrm{m}, E2=V/R2=20MV/m>3MV/mE_2 = V/R_2 = 20\,\mathrm{MV}/\mathrm{m} > 3\,\mathrm{MV}/\mathrm{m}: a esfera pequena ioniza o ar e escoa a carga — é o poder das pontas.

Exercício 27.9 ★★

Capacitâncias: duas folhas de 1.0m21.0\,\mathrm{m}^{2} a 10µm10\,\text{µ}\mathrm{m} uma da outra com um filme polimérico εr=2.2\varepsilon_r = 2.2 (um capacitor de filme); as mesmas folhas enroladas — enrolar muda CC? Energia a 400V400\,\mathrm{V}. Um capacitor de 150µF150\,\text{µ}\mathrm{F} a 2.0kV2.0\,\mathrm{kV} (desfibrilador): carga, energia e potência média se ele for descarregado em 5ms5\,\mathrm{ms}.

Solução

Solução de Exercício 27.9.

C=εrε0S/d=2.2×8.85×1012/105=2.0µFC = \varepsilon_r\varepsilon_0S/d = 2.2 \times 8.85 \times 10^{-12}/10^{-5} = 2.0\,\text{µ}\mathrm{F}; enrolar muda a forma, não a área que fica frente a frente: mesmo CC (com um segundo filme, de modo que cada folha fique frente à outra dos dois lados, ele dobra). W=12×2×106×4002=0.16JW = \tfrac12 \times 2 \times 10^{-6} \times 400^2 = 0.16\,\mathrm{J}. Desfibrilador: Q=150×106×2000=0.30CQ = 150 \times 10^{-6} \times 2000 = 0.30\,\mathrm{C}, W=12CU2=300JW = \tfrac12CU^2 = 300\,\mathrm{J}, P=300/0.005=60kWP = 300/0.005 = 60\,\mathrm{kW}.

Exercício 27.10 ★★★

Capacitores esférico e cilíndrico. (a) Deduza CC para esferas concêntricas e verifique que, para R2R1=dR1R_2 - R_1 = d \ll R_1, ele se reduz à fórmula do plano, e que, para R2R_2 \to \infty, dá a esfera isolada. (b) Cabo coaxial, a=0.5mma = 0.5\,\mathrm{mm}, b=2.5mmb = 2.5\,\mathrm{mm}, polietileno εr=2.3\varepsilon_r = 2.3: capacitância por metro (compare com os 100pF/m100\,\mathrm{pF}/\mathrm{m} dos cabos usuais). (c) Campo no condutor interno sob 1kV1\,\mathrm{kV}; é seguro?

Solução

Solução de Exercício 27.10.

(a) E=Q/4πε0r2E = Q/4\pi\varepsilon_0r^2, U=Q4πε0(1R11R2)U = \dfrac{Q}{4\pi\varepsilon_0}\Bigl(\dfrac1{R_1} - \dfrac1{R_2}\Bigr), C=4πε0R1R2/(R2R1)C = 4\pi\varepsilon_0R_1R_2/(R_2 - R_1); com R2R1=dR1R_2 - R_1 = d \ll R_1, R1R2R2R_1R_2 \approx R^2 e C4πR2ε0/d=ε0S/dC \approx 4\pi R^2\varepsilon_0/d = \varepsilon_0S/d; com R2R_2 \to \infty, C4πε0R1C \to 4\pi\varepsilon_0R_1. (b) C/L=2πεrε0/ln(b/a)=2π×2.3×8.85×1012/ln5=79pF/mC/L = 2\pi\varepsilon_r\varepsilon_0/\ln(b/a) = 2\pi \times 2.3 \times 8.85 \times 10^{-12}/\ln5 = 79\,\mathrm{pF}/\mathrm{m}, a ordem certa. (c) E(a)=U/[aln(b/a)]=1000/(5×104×1.61)=1.2MV/mE(a) = U/[a\ln(b/a)] = 1000/(5 \times 10^{-4} \times 1.61) = 1.2\,\mathrm{MV}/\mathrm{m}: abaixo dos 20MV/m20\,\mathrm{MV}/\mathrm{m} do polietileno, seguro; no ar seria marginal.

Exercício 27.11 ★★★

A energia no campo. (a) Energia de uma esfera condutora carregada (QQ, RR) a partir de Q2/2CQ^2/2C. (b) Iguale-a à energia de repouso do elétron, mec2=0.511MeVm_ec^2 = 0.511\,\mathrm{MeV}, e resolva para RR: é o “raio clássico do elétron” (a menos de um fator). (c) Um capacitor plano isolado carregado com QQ tem as suas placas afastadas de dd a 2d2d: variação da energia armazenada e força entre as placas deduzida dela; confira com o Exercício 26.8. (d) O mesmo com o capacitor mantido a UU fixo por uma bateria: variação da energia, e para onde vai a diferença.

Solução

Solução de Exercício 27.11.

(a) W=Q2/2C=Q2/8πε0RW = Q^2/2C = Q^2/8\pi\varepsilon_0R. (b) R=e2/8πε0mec2=2.31×1028/(2×8.19×1014)=1.4×1015mR = e^2/8\pi\varepsilon_0m_ec^2 = 2.31 \times 10^{-28}/(2 \times 8.19 \times 10^{-14}) = 1.4 \times 10^{-15}\,\mathrm{m} (o “raio clássico” usual e2/4πε0mec2=2.8fme^2/4\pi\varepsilon_0m_ec^2 = 2.8\,\mathrm{fm} omite o 12\tfrac12). (c) W=Q2/2C=Q2d/2ε0SW = Q^2/2C = Q^2d/2\varepsilon_0S dobra: ΔW=Q2d/2ε0S=Fd\Delta W = Q^2d/2\varepsilon_0S = F\,d com F=Q2/2ε0S=σ2S/2ε0F = Q^2/2\varepsilon_0S = \sigma^2S/2\varepsilon_0, como se achou diretamente. (d) A UU fixo, W=ε0SU2/2dW = \varepsilon_0SU^2/2d cai pela metade: ΔW=W/2\Delta W = -W/2; quem puxa ainda realiza W/2W/2 (integrando F=ε0SU2/2x2F = \varepsilon_0SU^2/2x^2 de dd a 2d2d); as duas metades, WW ao todo, voltam para a bateria, à medida que a carga CU/2CU/2 retorna a ela sob tensão UU.

Exercício 27.12 ★★★

Energia coulombiana de um núcleo. (a) Construa uma esfera carregada uniformemente (QQ, RR) casca por casca e mostre que a sua energia eletrostática vale W=3Q220πε0RW = \dfrac{3Q^2}{20\pi\varepsilon_0R}. (b) Urânio-238: Z=92Z = 92, R=7.4fmR = 7.4\,\mathrm{fm}: WW em MeV\mathrm{MeV}. (c) Divida-o em dois fragmentos iguais (Z/2Z/2, A/2A/2, raio R/21/3R/2^{1/3}) bem afastados: energia coulombiana liberada. (d) A energia medida da fissão vale cerca de 200MeV200\,\mathrm{MeV}: o que se opõe ao ganho coulombiano?

Solução

Solução de Exercício 27.12.

(a) A esfera de raio rr leva q=Qr3/R3q = Qr^3/R^3 ao potencial de superfície q/4πε0rq/4\pi\varepsilon_0r; acrescentar a casca  ⁣dq=3Qr2 ⁣dr/R3\dd q = 3Qr^2\,\dd r/R^3 custa  ⁣dW=q ⁣dq/4πε0r=3Q2r4 ⁣dr/4πε0R6\dd W = q\,\dd q/4\pi\varepsilon_0r = 3Q^2r^4\,\dd r/4\pi\varepsilon_0R^6; integrando: W=3Q2/20πε0RW = 3Q^2/20\pi\varepsilon_0R. (b) Q=92e=1.47×1017CQ = 92e = 1.47 \times 10^{-17}\,\mathrm{C}: W=3×2.17×1034/(20π×8.85×1012×7.4×1015)=1.6×1010J=990MeVW = 3 \times 2.17 \times 10^{-34}/(20\pi \times 8.85 \times 10^{-12} \times 7.4 \times 10^{-15}) = 1.6 \times 10^{-10}\,\mathrm{J} = 990\,\mathrm{MeV}. (c) Cada fragmento: carga Q/2Q/2, raio R/21/3R/2^{1/3}, energia 1421/3W\tfrac14 2^{1/3}W; os dois juntos: 21/3W/2=0.63W2^{1/3}W/2 = 0.63W: liberados 0.37×990=370MeV0.37 \times 990 = 370\,\mathrm{MeV}. (d) A “tensão superficial” nuclear: dois fragmentos têm mais superfície do que um núcleo, o que custa cerca de 170MeV170\,\mathrm{MeV}; o saldo, perto de 200MeV200\,\mathrm{MeV}, aparece sobretudo como energia cinética dos dois fragmentos que se afastam sob a repulsão mútua.

O aparelho da gota de óleo de Millikan, por volta de 1916 (Museum of Science and Industry, Chicago): a câmara de latão contém as duas placas horizontais entre as quais as gotas eram observadas.
O aparelho da gota de óleo de Millikan, por volta de 1916 (Museum of Science and Industry, Chicago): a câmara de latão contém as duas placas horizontais entre as quais as gotas eram observadas.

27.6 Problema: a gota de óleo de Millikan

Problema 27.1

Problema de fim de semana — pesar a carga do elétron com uma gota de óleo: Stokes, o capacitor plano e uma tabela de números que se recusam a ser outra coisa senão múltiplos de um só

Gotas de óleo são pulverizadas entre duas placas horizontais separadas de d=16mmd = 16\,\mathrm{mm}, com 20cm20\,\mathrm{cm} de diâmetro, e observadas ao microscópio. Dados: densidade do óleo ρ=900kg/m3\rho = 900\,\mathrm{kg}/\mathrm{m}^{3}, densidade do ar 1.2kg/m31.2\,\mathrm{kg}/\mathrm{m}^{3}, viscosidade do ar η=1.8×105Pas\eta = 1.8 \times 10^{-5}\,\mathrm{Pa}\,\mathrm{s}, g=9.8m/s2g = 9.8\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2}, ε0=8.85×1012F/m\varepsilon_0 = 8.85 \times 10^{-12}\,\mathrm{F}/\mathrm{m}. Uma pequena esfera de raio rr que se move com velocidade vv no ar sente o arrasto de Stokes 6πηrv6\pi\eta rv.

Parte I — A gota que cai.

  1. Forças sobre uma gota que cai sem tensão aplicada; mostre que ela atinge uma velocidade limite v1=2ρgr2/9ηv_1 = 2\rho gr^2/9\eta (despreze o empuxo do ar — justifique).
  2. Uma gota cai 1.0mm1.0\,\mathrm{mm} em 10s10\,\mathrm{s}: o seu raio e a sua massa.
  3. Constante de tempo da aproximação de v1v_1; distância percorrida nesse intervalo. Alguma vez se vê a gota acelerando?
  4. Número de Reynolds ρarv1r/η\rho_{\text{ar}}v_1r/\eta do movimento: a lei de Stokes é legítima?
  5. Por que as gotas têm de ser tão pequenas? (Compare o peso com a força elétrica sobre uma carga elementar num campo de 3×105V/m3 \times 10^{5}\,\mathrm{V}/\mathrm{m}.)
  6. Vê-se a gota tremular ligeiramente em torno da sua queda média: o que é isso, e por que limita a precisão?

Parte II — O campo. Aplica-se uma tensão UU, com a placa de cima positiva.

  1. Campo entre as placas para U=5.0kVU = 5.0\,\mathrm{kV}; por que ele é uniforme, e quais são as equipotenciais?
  2. Capacitância das placas, carga nelas a 5.0kV5.0\,\mathrm{kV} e energia armazenada.
  3. A gota da questão 2 fica parada com U0=1080VU_0 = 1080\,\mathrm{V}: sinal e valor da sua carga, em coulombs e em unidades de ee.
  4. Com U=5.0kVU = 5.0\,\mathrm{kV} a mesma gota sobe com v2v_2: mostre que q=6πηr(v1+v2)d/Uq = 6\pi\eta r(v_1 + v_2)d/U e calcule v2v_2.
  5. Por que cronometrar uma subida e uma queda é melhor do que caçar a tensão de equilíbrio?
  6. Energia potencial da carga da gota entre as placas a 5kV5\,\mathrm{kV}, e energia dissipada pelo arrasto numa subida de 1cm1\,\mathrm{cm}.

Parte III — A tabela de cargas. Exposta a uma fonte fraca de raios X entre as medidas, a mesma gota muda de carga; medidas sucessivas dão (em 101910^{-19} C): 4.804.80, 8.018.01, 6.426.42, 3.193.19, 9.639.63.

  1. Mostre que os cinco valores estão perto de múltiplos inteiros de uma mesma quantidade, e dê os inteiros.
  2. Melhor estimativa da carga elementar a partir dos cinco valores; incerteza padrão da média (Capítulo 1).
  3. Por que a carga muda por números inteiros de ee entre as medidas?
  4. Mostre que, neste método, qη3/2q \propto \eta^{3/2}: de quanto um erro de 1%1\% na viscosidade desloca ee? (O valor original de Millikan era 0.6%0.6\% baixo, exatamente por isso.)
  5. Os quarks têm carga ±e/3\pm e/3 e ±2e/3\pm 2e/3: por que nenhuma gota de óleo jamais mostrou um terço de ee?
  6. A constante de Faraday, a carga de um mol de elétrons, vale F=96485C/molF = 96\,485\,\mathrm{C}/\mathrm{mol}: deduza o número de Avogadro.
  7. Thomson havia medido e/me=1.76×1011C/kge/m_e = 1.76 \times 10^{11}\,\mathrm{C}/\mathrm{kg} para o elétron: deduza a sua massa e compare com um átomo de hidrogênio (1.67×1027kg1.67 \times 10^{-27}\,\mathrm{kg}).

Parte IV — O aparelho, pelo potencial.

  1. Esboce as equipotenciais e as linhas de campo entre as placas, incluindo o efeito de borda perto das extremidades; justifique desprezá-lo.
  2. Uma gota carregada positivamente à altura zz acima da placa de baixo (a 0V0\,\mathrm{V}): energia potencial em função de zz; energia potencial total incluindo a gravidade; condição sobre UU para o ponto de equilíbrio.
  3. Compare a energia da carga da gota (questão 12) com a energia armazenada no capacitor: a gota perturba o campo?
  4. A tensão é invertida (placa de baixo positiva) com U=5.0kVU = 5.0\,\mathrm{kV}: o que faz a gota da questão 9, e com que velocidade?
  5. Um grão de poeira de 1µg1\,\text{µ}\mathrm{g} que leva 104e10^4e no mesmo campo: razão entre a força elétrica e o peso; por que tais grãos não podem ser levitados e por que Millikan escolheu uma névoa de óleo.
  6. Resuma: o que foi medido (três vezes), o que foi deduzido, com que incerteza, e que duas constantes daí resultaram.
Solução

Solução de Problema 27.1.

1. Peso 43πr3ρg\tfrac43\pi r^3\rho g para baixo, arrasto 6πηrv6\pi\eta rv para cima, empuxo 43πr3ρarg\tfrac43\pi r^3\rho_{\text{ar}}g para cima — 1.2/900=0.13%1.2/900 = 0.13\% do peso, desprezível. Regime limite: 43πr3ρg=6πηrv1\tfrac43\pi r^3\rho g = 6\pi\eta rv_1, v1=2ρgr2/9ηv_1 = 2\rho gr^2/9\eta.

2. v1=1.0×104m/sv_1 = 1.0 \times 10^{-4}\,\mathrm{m}/\mathrm{s}: r=9ηv1/2ρg=9×1.8×105×104/(2×900×9.8)=9.6×107mr = \sqrt{9\eta v_1/2\rho g} = \sqrt{9 \times 1.8 \times 10^{-5} \times 10^{-4}/(2 \times 900 \times 9.8)} = 9.6 \times 10^{-7}\,\mathrm{m}, um micrômetro; m=43πr3ρ=3.3×1015kgm = \tfrac43\pi r^3\rho = 3.3 \times 10^{-15}\,\mathrm{kg}.

3. τ=m/6πηr=3.3×1015/3.3×1010=1×105s\tau = m/6\pi\eta r = 3.3 \times 10^{-15}/3.3 \times 10^{-10} = 1 \times 10^{-5}\,\mathrm{s}; distância v1τ=1nm\sim v_1\tau = 1\,\mathrm{nm}. Nunca.

4. Re=1.2×104×9.6×107/1.8×105=6×1061\mathrm{Re} = 1.2 \times 10^{-4} \times 9.6 \times 10^{-7}/1.8 \times 10^{-5} = 6 \times 10^{-6} \ll 1: Stokes vale.

5. eE=1.6×1019×3×105=4.8×1014NeE = 1.6 \times 10^{-19} \times 3 \times 10^5 = 4.8 \times 10^{-14}\,\mathrm{N} contra mg=3.2×1014Nmg = 3.2 \times 10^{-14}\,\mathrm{N}: comparáveis só para gotas de um mícron. Uma gota de 10µm10\,\text{µ}\mathrm{m} pesa mil vezes mais; uma carga elementar mudaria a sua velocidade em 0.1%0.1\%, invisível.

6. O movimento browniano: o bombardeio pelas moléculas do ar sacode a gota ao acaso; os tempos se dispersam, limitando a precisão e fixando um limite inferior para o tamanho útil das gotas.

7. E=U/d=5000/0.016=3.1×105V/mE = U/d = 5000/0.016 = 3.1 \times 10^{5}\,\mathrm{V}/\mathrm{m}; as placas são muito mais largas que dd, de modo que a superposição dos dois planos dá um campo uniforme; as equipotenciais são planos horizontais, V=Uz/dV = Uz/d.

8. C=ε0π(0.1)2/0.016=17pFC = \varepsilon_0\pi(0.1)^2/0.016 = 17\,\mathrm{pF}; Q=CU=87nCQ = CU = 87\,\mathrm{nC}; W=12CU2=0.22mJW = \tfrac12CU^2 = 0.22\,\mathrm{mJ}.

9. Placa de cima positiva: E\vect E aponta para baixo; a força tem de apontar para cima, logo q<0q < 0. q=mgd/U0=3.3×1015×9.8×0.016/1080=4.8×1019C=3e|q| = mgd/U_0 = 3.3 \times 10^{-15} \times 9.8 \times 0.016/ 1080 = 4.8 \times 10^{-19}\,\mathrm{C} = 3e: q=3eq = -3e.

10. Subindo com velocidade constante: qE=mg+6πηrv2|q|E = mg + 6\pi\eta rv_2 e mg=6πηrv1mg = 6\pi\eta rv_1, logo qE=6πηr(v1+v2)|q|E = 6\pi\eta r(v_1 + v_2) e q=6πηr(v1+v2)d/U|q| = 6\pi\eta r(v_1 + v_2)d/U. v2=(qEmg)/6πηr=(1.5×10133.2×1014)/3.3×1010=3.6×104m/sv_2 = (|q|E - mg)/6\pi\eta r = (1.5 \times 10^{-13} - 3.2 \times 10^{-14})/ 3.3 \times 10^{-10} = 3.6 \times 10^{-4}\,\mathrm{m}/\mathrm{s}: 1mm1\,\mathrm{mm} em 2.8s2.8\,\mathrm{s}.

11. O equilíbrio é um julgamento de nulo sobre um pontinho que deriva e tremula e cuja carga pode mudar nesse meio-tempo; medidas de tempo sobre uma distância fixa podem ser repetidas à vontade, rr fica fixado de uma vez por v1v_1, e uma só gota fornece então toda uma série de cargas.

12. qU=3×1.6×1019×5000=2.4×1015J|q|U = 3 \times 1.6 \times 10^{-19} \times 5000 = 2.4 \times 10^{-15}\,\mathrm{J} (15keV15\,\mathrm{keV}) através do espaçamento; arrasto ao longo de 1cm1\,\mathrm{cm}: (qEmg)×0.01=1.2×1015J(|q|E - mg) \times 0.01 = 1.2 \times 10^{-15}\,\mathrm{J}, transformados em calor no ar.

13. Dividindo por 1.601.60: 3.003.00, 5.015.01, 4.014.01, 1.991.99, 6.026.02 — inteiros 3,5,4,2,63, 5, 4, 2, 6.

14. q/nq/n: 1.600,1.602,1.605,1.595,1.6051.600, 1.602, 1.605, 1.595, 1.605; média 1.6011.601, desvio padrão 0.0040.004, incerteza da média 0.004/5=0.0020.004/\sqrt5 = 0.002: e=(1.601±0.002)×1019e = (1.601 \pm 0.002) \times 10^{-19} C.

15. Os raios X ionizam o ar; a gota captura íons um a um, cada um levando um número inteiro de ee.

16. rη1/2r \propto \eta^{1/2} por v1v_1, mr3η3/2m \propto r^3 \propto \eta^{3/2}, e q=mgd/U0η3/2|q| = mgd/U_0 \propto \eta^{3/2}: 1%1\% em η\eta1.5%1.5\% em ee. O η\eta de Millikan era 0.4%0.4\% baixo, e daí o seu ee 0.6%0.6\% baixo.

17. Os quarks nunca vêm sozinhos: eles ficam confinados dentro dos hádrons, e todo objeto livre leva uma carga inteira.

18. NA=F/e=96485/1.602×1019=6.02×1023mol1N_A = F/e = 96485/1.602 \times 10^{-19} = 6.02 \times 10^{23}\,\mathrm{mol}^{-1}.

19. me=1.602×1019/1.76×1011=9.1×1031kgm_e = 1.602 \times 10^{-19}/1.76 \times 10^{11} = 9.1 \times 10^{-31}\,\mathrm{kg}: 18401840 vezes mais leve que o átomo de hidrogênio.

20. Planos horizontais entre as placas, abaulados junto às bordas; linhas de campo verticais que se abrem em leque nas extremidades, numa largura da ordem de d=1.6cmd = 1.6\,\mathrm{cm} — pequena diante dos 20cm20\,\mathrm{cm} de diâmetro, e a gota é observada no centro.

21. Ep=qUz/d+mgzE_p = qUz/d + mgz, linear em zz: sem mínimo; uma gota parada exige que a inclinação se anule, q=mgd/Uq = -mgd/U, e o equilíbrio é então indiferente — qualquer deriva residual persiste, e é por isso que o equilíbrio é difícil de julgar.

22. 2.4×10152.4 \times 10^{-15} contra 2.2×1042.2 \times 10^{-4} J: 101110^{-11}. A gota não perturba o campo.

23. Campo para cima, força sobre a gota negativa para baixo: ela cai a (mg+qE)/6πηr=(3.2×1014+1.5×1013)/3.3×1010=5.6×104m/s(mg + |q|E)/6\pi\eta r = (3.2 \times 10^{-14} + 1.5 \times 10^{-13})/3.3 \times 10^{-10} = 5.6 \times 10^{-4}\,\mathrm{m}/\mathrm{s}.

24. F=104×1.6×1019×3.1×105=5×1010NF = 10^4 \times 1.6 \times 10^{-19} \times 3.1 \times 10^5 = 5 \times 10^{-10}\,\mathrm{N} contra 9.8×109N9.8 \times 10^{-9}\,\mathrm{N}: 5%5\% do peso — não dá para levantá-lo, e com 10410^4 cargas a mudança de um ee é invisível. A névoa de óleo dá gotas pequenas, que não evaporam e são esféricas.

25. Medidos: v1v_1, v2v_2 e UU (com dd, η\eta, ρ\rho conhecidos); deduzidos rr, mm e depois qq, sempre um múltiplo inteiro de e=(1.601±0.002)×1019e = (1.601 \pm 0.002) \times 10^{-19} C (0.1%0.1\%); daí NA=F/eN_A = F/e e me=e/(e/me)m_e = e/(e/m_e).

Termos definidos neste capítulo

Ver todos os 393 termos do glossário