Física universitária — 1.º ano · Bachelor Year 1
23A segunda lei: a entropia
Deixe cair uma colher quente numa xícara de água fria: a colher esfria, a água esquenta, e as duas terminam a uma só temperatura. A primeira lei permitiria igualmente o contrário — a água esfriando mais enquanto a colher esquentasse, com a energia conservada até o joule — e no entanto isso nunca acontece. Um filme rodado ao contrário se reconhece na hora; as moléculas obedecem a leis que não têm flecha, e o mundo tem uma. A segunda lei da termodinâmica nomeia a grandeza que distingue os dois sentidos: a entropia, que um sistema fechado só pode criar, nunca destruir. Este capítulo enuncia a lei, calcula a entropia para os sistemas deste volume, mostra como ela mede a irreversibilidade e lhe dá, no fim, o seu significado em termos de contagem.
23.1 A segunda lei
Teorema 23.1 (Segunda lei da termodinâmica)
Todo sistema fechado possui uma função de estado extensiva, a entropia (), tal que, em qualquer transformação,
onde é o calor recebido do exterior à temperatura do lugar por onde ele entra, e se e somente se a transformação for reversível. Um sistema isolado () só pode ver a sua entropia crescer, e o seu equilíbrio é o estado de entropia máxima.
Demonstração. Admitido neste nível. ∎
Observação 23.2 (Lendo a lei)
Ao contrário da energia, a entropia não se conserva: ela é trocada com o calor (e só com o calor — o trabalho não carrega entropia) e criada por todo processo irreversível: atrito, calor que atravessa uma diferença de temperatura, um gás que se lança no vácuo, mistura. O termo criado é a medida da irreversibilidade, e uma transformação só é possível se ele for não negativo. “Reversível” é uma idealização — quase-estática, sem atrito, com o calor trocado através de diferenças de temperatura que tendem a zero — de que os processos reais se aproximam sem jamais atingir.
Proposição 23.3 (Identidade fundamental; entropia do gás perfeito e das fases condensadas)
Para um sistema fechado de composição fixa, ao longo de qualquer caminho reversível, e , logo
uma relação entre funções de estado que vale para qualquer variação infinitesimal. Por consequência, para mols de gás perfeito,
e, para uma fase condensada de capacidade térmica , .
Demonstração. Reversível: e dão ; a primeira lei dá então a identidade, que já não se refere a caminho algum. Gás perfeito: ; integre; use para a outra forma. Fase condensada: , . ∎
Exemplo 23.4 (Lendo as fórmulas)
Uma transformação adiabática reversível é isentrópica: constante dá constante, isto é, constante — de novo a lei de Laplace. Dobrar o volume de um mol de gás a temperatura constante eleva a sua entropia de , seja isso feito reversivelmente (a entropia entra como calor vindo do banho), seja por uma expansão de Joule no vácuo (sem calor: os mesmos são então criados). A função de estado não se importa com o caminho percorrido; o balanço, sim.
23.2 Balanços de entropia
Proposição 23.5 (Calor trocado com um termostato)
Um sistema que recebe o calor de um termostato a (aconteça o que acontecer lá dentro) tem , e a entropia do próprio termostato varia de : um termostato troca entropia reversivelmente.
Demonstração. é constante; o estado interno do termostato muda infinitesimalmente, de modo que a criação nele é desprezível. ∎
Exemplo 23.6 (Um corpo quente num lago frio)
Um bloco de ferro (, ) a jogado num lago a : ele termina a , com e cedidos ao lago, de modo que e . A entropia do bloco caiu, a do lago subiu mais: o processo é irreversível, e o número mede o quanto.
Proposição 23.7 (Duas consequências)
- (Clausius) O calor não passa espontaneamente de um corpo frio para um mais quente: uma quantidade que passa de para cria ; o contrário destruiria entropia.
- (Kelvin) Nenhuma máquina cíclica pode produzir trabalho a partir de um único termostato: ao longo de um ciclo obriga , donde — a máquina só pode receber trabalho e rejeitar calor.
Demonstração. Os dois são o balanço aplicado ao sistema “os dois termostatos” ou “a máquina ao longo de um ciclo”, com função de estado, de modo que num ciclo. ∎
Definição 23.8 (Diagrama entrópico)
No plano uma transformação reversível é uma curva, e o calor recebido é a área sob ela: . Uma isoterma reversível é horizontal, uma isentrópica (adiabática reversível) é vertical; um ciclo reversível encerra uma área igual ao calor recebido e, portanto, pela primeira lei, ao trabalho fornecido (Capítulo 24).
Método 23.9 (Fazer um balanço de entropia)
- Calcule o do sistema a partir das funções de estado (Proposição 23.3): apenas os estados inicial e final.
- Calcule a partir do calor realmente recebido e da temperatura da fonte: para termostatos, no resto.
- Deduza ; ele tem de ser — se não for, a transformação é impossível (ou houve um erro); para uma transformação reversível.
Exemplo 23.10 (Misturar quente e frio)
Duas massas iguais de água a e misturadas numa garrafa térmica terminam a (primeira lei); (a média aritmética é maior que a geométrica), sem troca alguma: tudo criado. Para a e : . O problema de fim de semana mostra que, misturando-as reversivelmente — por meio de uma máquina ideal — recuperar-se-ia trabalho e se terminaria a .
23.3 O que a entropia conta
Proposição 23.11 (Fórmula de Boltzmann)
Um estado macroscópico (dados , , ) pode ser realizado por um número de configurações microscópicas (os microestados). A sua entropia vale
Um sistema isolado evolui rumo ao estado macroscópico que tem, de longe, mais microestados: o crescimento da entropia é a marcha rumo ao esmagadoramente provável.
Demonstração. Admitido neste nível. ∎
Exemplo 23.12 (Por que o gás nunca volta)
moléculas livres para estar em qualquer das duas metades de uma caixa: arranjos, todos igualmente prováveis; só um tem todas à esquerda. Deixar um gás confinado numa metade se expandir multiplica por , logo — exatamente o resultado da expansão de Joule acima, agora com um significado: as moléculas têm vezes mais maneiras de estar. A chance do seu retorno espontâneo é : uma em mil para dez moléculas, uma em para cem e, para um mol, um número com zeros. A segunda lei não é uma proibição; é uma probabilidade tão desequilibrada que jamais uma única vez foi flagrada falhando.
23.4 Exercícios
Exercício 23.1 ★
Variação de entropia de de gelo que derrete a () e de de água que ferve a (). Por que a segunda é tanto maior?
Solução
Solução de Exercício 23.1.
: fusão ; ebulição . A vaporização liberta completamente as moléculas umas das outras — muito mais desordem microscópica e muito mais calor por kelvin.
Exercício 23.2 ★
Variação de entropia de de água aquecida de a . Ela depende de como o aquecimento é feito?
Solução
Solução de Exercício 23.2.
— uma função de estado: independente do método (a entropia criada não é).
Exercício 23.3 ★
Um mol de gás perfeito dobra o seu volume a temperatura constante. ; entropia trocada e criada se a expansão for reversível; e se for uma expansão de Joule no vácuo.
Solução
Solução de Exercício 23.3.
. Isotérmica reversível: vindo do banho a , , criada . Joule: , , criada .
Exercício 23.4 ★
Mostre, a partir de , que uma transformação adiabática reversível de um gás perfeito obedece a const. Qual é a variação de entropia numa compressão adiabática súbita (Exercício 22.11)? Calcule-a com os números daquele exercício.
Solução
Solução de Exercício 23.4.
constante: constante, isto é, constante. Compressão súbita: , logo e ; com : K, : L: criados.
Exercício 23.5 ★★
Um bloco de ferro de () a é jogado num lago a . Variação de entropia do bloco, do lago e do universo.
Solução
Solução de Exercício 23.5.
Bloco: ; lago: ; universo: .
Exercício 23.6 ★★
Duas massas de de água a e são misturadas adiabaticamente. Temperatura final, entropia criada. Mostre em geral que a entropia criada é não negativa.
Solução
Solução de Exercício 23.6.
; , tudo criado. , de modo que o argumento do logaritmo é .
Exercício 23.7 ★★
Uma fuga de calor de atravessa uma parede de uma sala a para o exterior a . Entropia criada. O mesmo calor indo de uma fornalha a para a sala: compare e comente onde a “perda” é maior.
Solução
Solução de Exercício 23.7.
: ; da fornalha para a sala: , dez vezes mais: quanto maior a diferença de temperatura que um fluxo de calor atravessa, mais irreversível — é na queda da fornalha à sala que a energia nobre se desperdiça.
Exercício 23.8 ★★
Demonstre o enunciado de Kelvin a partir do balanço de entropia de uma máquina que percorre um ciclo em contato com um único termostato. Por que o motor de um navio não extrai simplesmente calor do mar?
Solução
Solução de Exercício 23.8.
Ciclo: com , logo e : a máquina não pode fornecer trabalho. O mar é um único termostato: o seu calor não pode virar trabalho sem um corpo mais frio onde despejar entropia.
Exercício 23.9 ★★
Um mol de nitrogênio e um mol de oxigênio, à mesma e à mesma , separados por uma parede numa caixa de volume total , podem se misturar. Variação de entropia (trate cada gás como se expandindo em toda a caixa). Ela é criada ou trocada? E se os dois lados contivessem nitrogênio?
Solução
Solução de Exercício 23.9.
Cada gás se expande de a à mesma : , criados (sem troca de calor, pois a caixa é isolada). Duas metades de nitrogênio: retirar a parede não muda nada macroscópico — (paradoxo de Gibbs: moléculas idênticas não se “misturam”).
Exercício 23.10 ★★★
Uma lâmpada de fica acesa uma hora; toda a sua energia acaba como calor numa sala a . Entropia criada. Onde, fisicamente, ela foi criada?
Solução
Solução de Exercício 23.10.
para a sala a : criados — no filamento (trabalho elétrico virado calor) e no escoamento desse calor do filamento quente para a sala fria; o próprio trabalho elétrico não carregava entropia.
Exercício 23.11 ★★★
Um corpo de capacidade térmica a é resfriado até (a) por contato direto com um termostato a , (b) em duas etapas, através de um termostato intermediário a , (c) através de um contínuo de termostatos. Entropia criada em cada caso; conclua sobre o que exigiria um “resfriamento reversível”.
Solução
Solução de Exercício 23.11.
em todos os casos. (a) trocada : criada . (b) duas etapas com razão cada: criada , menor (para : contra ). (c) infinitas etapas: cada uma cria , cuja soma tende a zero quando : um resfriamento reversível exige um termostato a cada temperatura intermediária — o calor nunca pode atravessar uma diferença finita.
Exercício 23.12 ★★★
Probabilidade de que moléculas estejam todas na metade esquerda de uma caixa, para , , (exprima a última como uma potência de dez). Mostre que é igual a e comente as palavras “irreversível” e “impossível”.
Solução
Solução de Exercício 23.12.
; ; . . “Impossível” significa, a rigor, probabilidade nula; aqui ela vale — não é zero, mas é um número tão pequeno que nenhuma diferença poderá jamais ser observada: a irreversibilidade é estatística na escala de .
23.5 Problema: a xícara de café e a flecha do tempo
Problema 23.1
Problema de fim de semana — uma xícara que esfria, um banho misturado, uma geladeira e uma caixa de moléculas: quatro balanços de entropia e o que a entropia criada teria valido em trabalho
Água: ; sala (um termostato): ; , .
Parte I — A xícara que esfria. Uma xícara com de café a esfria até a temperatura ambiente.
- Calor cedido à sala e variação de entropia da sala.
- Variação de entropia do café.
- Entropia criada; verifique o seu sinal.
- A xícara é bebida quando chega a : entropia criada até esse momento.
- Mostre que, para qualquer , (estude ).
- O café esfria mais depressa se for mexido ou soprado: isso muda a entropia criada? Por que sim ou por que não?
Parte II — Misturar mal e misturar bem. Duas massas de de água a e , numa garrafa térmica.
- Mistura direta: temperatura final e entropia criada.
- Em vez disso, uma máquina ideal tira calor da água quente, rejeita calor para a fria e fornece trabalho, até que as duas cheguem à mesma temperatura ; todo o processo é reversível. Escreva o balanço de entropia e mostre que .
- Calcule e o trabalho fornecido (primeira lei sobre as duas águas).
- Verifique numericamente o balanço de entropia do esquema reversível: a entropia perdida pela água quente é igual à ganha pela fria.
- Compare o trabalho com da questão 6 (tome a sala como temperatura de referência aqui, ): o que mede a entropia criada da mistura desleixada?
- Por que nenhuma cozinha recupera esse trabalho?
Parte III — A geladeira. Uma geladeira mantém o seu interior a numa sala a ; o calor entra nela a , e a máquina o bombeia de volta para fora.
- Ao longo de um segundo, escreva o balanço de entropia da máquina (um dispositivo cíclico): entropia recebida do interior frio, cedida à sala, criada lá dentro.
- Deduza o trabalho mínimo por segundo (a potência elétrica) necessário e o coeficiente de desempenho máximo correspondente, .
- Exprima esse limite apenas em função de e e avalie-o para um congelador a .
- Uma geladeira real desse tamanho consome cerca de : entropia criada por segundo.
- Deixada aberta, a porta da geladeira deixa entrar calor a : potência mínima agora, e por que uma geladeira aberta aquece a sala.
- O que a segunda lei diria de uma geladeira que não precisasse de eletricidade alguma?
Parte IV — Contar. Uma caixa é dividida em duas metades iguais por uma parede; moléculas de um gás perfeito estão à esquerda. A parede é retirada.
- Número de microestados antes e depois (cada molécula pode estar em qualquer das metades) e pela fórmula de Boltzmann.
- Confira com , vindo da fórmula termodinâmica para uma expansão de Joule.
- Para , probabilidade de encontrar todas as moléculas de volta à esquerda num instante ao acaso; para um mol, a ordem de grandeza dessa probabilidade como potência de dez.
- Quantas perguntas de sim ou não (bits) especificam em que metade está cada uma das moléculas? Compare com .
- Entropia trocada e criada na expansão de Joule; por que ela é o exemplo clássico de irreversibilidade?
- O mesmo gás é comprimido de volta, reversível e isotermicamente, para a metade esquerda: trabalho recebido, calor cedido à sala, entropia trocada; o que é preciso fornecer para desfazer a expansão livre?
- Resuma em três linhas: o que a segunda lei conserva (nada), o que ela proíbe e o que custa a entropia criada.
Solução
Solução de Problema 23.1.
1. para o café: a sala ganha , .
2. .
3. .
4. ; , : criados até aqui — a maior parte da irreversibilidade acontece enquanto o café está mais quente.
5. com ; se anula em , onde , e : mínimo .
6. Não: os estados inicial e final são os mesmos, o calor é o mesmo, a sala é o mesmo termostato — a entropia criada está fixada pelos estados, e não pela velocidade.
7. ; criados .
8. Reversível: entropia total conservada: , logo .
9. ; as águas perdem , fornecidos como trabalho.
10. Quente: ; fria: : soma nula, como a reversibilidade exige.
11. , perto dos recuperáveis: a entropia criada, vezes a temperatura de referência, é o trabalho que o caminho irreversível jogou fora.
12. Seria preciso uma máquina funcionando entre duas águas mornas cujas temperaturas mudam sem parar — algumas dezenas de quilojoules para uma máquina grande: não compensa, mas a segunda lei diz que o trabalho estava ali.
13. Recebida do interior ; cedida à sala ; balanço ao longo de um ciclo: .
14. : , ; COP ().
15. : para um congelador — quanto mais frio o compartimento, mais caro cada joule retirado.
16. Com : criados a cada segundo.
17. ; a máquina despeja mais o seu próprio trabalho na sala enquanto o interior fica frio: o ganho líquido da sala é — uma geladeira aberta é um aquecedor.
18. daria : proibido — é o enunciado de Clausius.
19. Antes: (todas à esquerda); depois: ; .
20. : , o resultado da expansão de Joule.
21. Um bit por molécula: bits; e — a entropia conta a informação de que se precisaria para fixar a posição das moléculas.
22. ; for a mole .
23. Nenhum calor (): trocada , criada — o caso mais puro: sem trabalho, sem calor, só o espalhamento do gás.
24. recebidos, cedidos à sala, (a entropia do gás volta ao seu valor inicial, reversivelmente): desfazer a expansão livre custa o trabalho e despeja de entropia na sala — o universo fica com os criados de uma vez por todas.
25. A entropia não se conserva em nada de real — só no limite reversível idealizado; a lei proíbe todo processo que a destruiria (calor subindo, trabalho a partir de um só termostato, separação gratuita de uma mistura); e cada porção criada é trabalho perdido, dele.