O produto escalar associa um número a um par de vetores, e esse número enxerga geometria: ele se anula exatamente em direções perpendiculares e mede ângulos e comprimentos. É o motor por trás da lei dos cossenos, das equações de círculos e dos cálculos de perpendicularidade. A mesma ferramenta, no espaço, é assunto do Capítulo 31.
(projeção)u⋅v=u⋅v′, onde v′ é a projeção ortogonal de v sobre a direção de u; se u=OA e v=OB, então u⋅v=OA×OH, um produto de comprimentos com sinal, em que H é o pé da perpendicular baixada de B à reta (OA);
2. Escolha o sistema de coordenadas de modo que u aponte ao longo do semieixo x positivo: u(∥u∥,0) e v(∥v∥cosθ,∥v∥sinθ) (Capítulo 14). A fórmula 1 dá então u⋅v=∥u∥∥v∥cosθ+0. A fórmula 3 lê-se no mesmo cálculo: a projeção de v sobre o eixo x tem comprimento com sinal ∥v∥cosθ=OH. ∎
A visão por projeção: u⋅v=OA×OH, em que H é o pé da perpendicular baixada da ponta de v. O segmento laranja OH tem comprimento com sinal ∥v∥cosθ.
Exemplo 16.3
u(3,1) e v(2,−4): u⋅v=6−4=2. As normas são ∥u∥=10 e ∥v∥=20, de modo que cosθ=10202=1022=102: o ângulo é um pouco menor que 82∘.
Demonstração. Todas seguem da fórmula em coordenadas: por exemplo, u⋅(v+w)=x(x′+x′′)+y(y′+y′′)=(xx′+yy′)+(xx′′+yy′′). A última identidade expande ∥u+v∥2=(u+v)⋅(u+v) usando as três primeiras regras — o produto escalar comporta-se exatamente como um produto comum, de modo que as identidades algébricas de sempre valem para vetores. ∎
16.2 Ortogonalidade
Definição 16.5(Vetores ortogonais)
Dois vetores são ortogonais, o que se escreve u⊥v, se u⋅v=0.
Observação 16.6
Para vetores não nulos, a fórmula 2 do Teorema 16.2 mostra que u⋅v=0⟺cosθ=0⟺ as direções são perpendiculares. O vetor nulo é ortogonal a tudo.
Exemplo 16.7
u(3,2) e v(−4,6): u⋅v=−12+12=0: ortogonais. Em geral, u(a,b) é sempre ortogonal a v(−b,a) — uma rotação de um quarto de volta.
16.3 A lei dos cossenos
Teorema 16.8(Lei dos cossenos)
Em um triângulo ABC de lados a=BC, b=CA, c=AB e ângulo A no vértice A:
a2=b2+c2−2bccosA.
Demonstração. Escreva BC=BA+AC=AC−AB e expanda com a Proposição 16.4:
Quando A é reto, cosA=0 e a lei dos cossenos se reduz ao teorema de Pitágoras a2=b2+c2: é Pitágoras com um termo de correção para ângulos não retos.
A lei dos cossenos: conhecer dois lados b, c e o ângulo entre eles determina o terceiro lado a.
Exemplo 16.10
Dois lados de um triângulo medem b=5 e c=8 e formam um ângulo A=3π. Então
a2=25+64−2×5×8×21=89−40=49,
logo a=7.
16.4 Aplicações: círculos e retas perpendiculares
Proposição 16.11(Círculo de diâmetro dado)
Um ponto M está no círculo de diâmetro [AB] se, e somente se,
MA⋅MB=0.
Demonstração. Se M=A,B, a condição diz que o ângulo em M no triângulo AMB é reto, e os pontos que veem um segmento sob ângulo reto são exatamente os do círculo que tem esse segmento como diâmetro. Eis uma demonstração direta: seja O o ponto médio de [AB] e r=2AB. Então MA=MO+OA e MB=MO+OB=MO−OA, logo
MA⋅MB=MO2−OA2=MO2−r2,
que se anula exatamente quando MO=r, isto é, quando M está no círculo de centro O e raio r. ∎
Proposição 16.12(Vetor normal de uma reta)
O vetorn(a,b) é ortogonal a todo vetor diretor da reta d:ax+by+c=0; diz-se que n é um vetor normal de d. Duas retas são perpendiculares exatamente quando seus vetores normais (ou diretores) são ortogonais.
Reta por A com normal n(a,b): escreva AM⋅n=0, o que se expande em ax+by+c=0, com c determinado por A.
Perpendicularidade de d:ax+by+c=0 e d′:a′x+b′y+c′=0: verifique aa′+bb′=0.
Exemplo 16.14
A reta por P(2,−1) perpendicular a d:3x−y+4=0: um vetor diretor de d é (1,3), que serve como vetornormal da perpendicular. Equação: x+3y+c=0 com 2−3+c=0, logo c=1: a reta é x+3y+1=0.
Exemplo 16.15(Equação de um círculo)
O círculo de centro Ω(1,2) e raio 3 é o conjunto dos pontos M(x,y) com ΩM2=9:
(x−1)2+(y−2)2=9.
Reciprocamente, x2+y2−2x−4y−4=0 reescreve-se, completando os quadrados (Capítulo 10), como (x−1)2+(y−2)2=9: o mesmo círculo.
ABC é um triângulo equilátero de lado 6. Calcule AB⋅AC e AB⋅BC.
Solução
Solução de Exercício 16.2.
AB⋅AC=6×6×cos60∘=18.
Os vetoresAB e BC formam um ângulo de 180∘−60∘=120∘ (coloque-os com a mesma origem em B), logo AB⋅BC=36cos120∘=−18.
Exercício 16.3★
Para que valor de t os vetoresu(3,t) e v(t−8,1) são ortogonais? E para que valor (ou valores) de t o vetoru(t,2) é ortogonal a ele mesmo menos v(4,2), isto é, u⊥(u−v)?
Solução
Solução de Exercício 16.3.
u⋅v=3(t−8)+t=4t−24=0 dá t=6.
u−v=(t−4,0), logo u⋅(u−v)=t(t−4)+0=t2−4t, que se anula para t=0 ou t=4.
Exercício 16.4★
Calcule o ângulo θ entre u(1,2) e v(3,1) (dê cosθ exatamente e depois θ com precisão de um grau).
Solução
Solução de Exercício 16.4.
u⋅v=3+2=5, ∥u∥=5, ∥v∥=10, logo
cosθ=5105=525=22,
e portanto θ=45∘ exatamente.
Exercício 16.5★★
Um triângulo tem lados b=4 e c=6 formando um ângulo A=32π. Calcule o terceiro lado a. Em seguida, em um triângulo de lados a=7, b=5, c=4, calcule cosA e decida se A é agudo ou obtuso.
Solução
Solução de Exercício 16.5.
a2=16+36−2×4×6×cos32π=52−48×(−21)=76, logo a=76=219≈8.7.
Para o segundo triângulo, a lei dos cossenos resolvida em relação ao ângulo dá
cosA=2bcb2+c2−a2=2×5×425+16−49=−408=−51,
negativo: A é obtuso.
Exercício 16.6★★
Sejam A(1,1), B(5,−1) e C(3,5). Calcule AB⋅AC; o ângulo A é reto? Calcule os comprimentos dos três lados e confira sua resposta com a lei dos cossenos.
Solução
Solução de Exercício 16.6.
AB(4,−2) e AC(2,4): AB⋅AC=8−8=0, de modo que o ângulo em A é reto. Lados: AB=16+4=20, AC=4+16=20, e BC(−2,6) dá BC=40. Coerência: BC2=40=20+20=AB2+AC2, a lei dos cossenos com cosA=0 (Pitágoras).
Exercício 16.7★★
Dê uma equação do círculo de centro Ω(−2,3) e raio 5. Determine em seguida o centro e o raio do círculo
Sejam A(−3,0) e B(0,2). Usando a Proposição 16.11, encontre uma equação do círculo de diâmetro [AB] e verifique que a origem O(0,0) está nele.
Solução
Solução de Exercício 16.8.
M(x,y) está no círculo quando MA⋅MB=0, com MA(−3−x,−y) e MB(−x,2−y):
(−3−x)(−x)+(−y)(2−y)=x2+3x+y2−2y=0.
Para a origem: 0+0+0−0=0, logo O está no círculo — geometricamente, OA(−3,0) e OB(0,2) são ortogonais, de modo que O vê [AB] sob ângulo reto. (Completando os quadrados: centro (−23,1), raio 213.)
Exercício 16.9★★
Encontre uma equação da reta por P(1,3) perpendicular a d:2x+y−7=0 e as coordenadas do pé H da perpendicular (a interseção das duas retas). Deduza a distância de P a d.
Solução
Solução de Exercício 16.9.
A perpendicular por P tem como vetor normal o vetor diretor de d, a saber (−1,2): equação−x+2y+c=0; passando por P(1,3): −1+6+c=0, c=−5, logo x−2y+5=0.
Interseção com d: de 2x+y=7 vem y=7−2x; substituindo, x−2(7−2x)+5=5x−9=0, logo x=59, y=517: H(59,517). Então PH(54,52) e
PH=2516+254=520=525≈0.89.
Exercício 16.10★★
Usando ∥u+v∥2=∥u∥2+2u⋅v+∥v∥2 e seu análogo para u−v, demonstre a identidade do paralelogramo:
∥u+v∥2+∥u−v∥2=2∥u∥2+2∥v∥2,
e interprete-a em um paralelogramo (diagonais contra lados).
Solução
Solução de Exercício 16.10.
Somando
∥u+v∥2=∥u∥2+2u⋅v+∥v∥2e∥u−v∥2=∥u∥2−2u⋅v+∥v∥2,
os termos cruzados se cancelam e ∥u+v∥2+∥u−v∥2=2∥u∥2+2∥v∥2. Em um paralelogramo de lados u e v, as diagonais são u+v e u−v: a soma dos quadrados das duas diagonais é igual à soma dos quadrados dos quatro lados.
Exercício 16.11★★★
Sejam A e B dois pontos com AB=4, e I o ponto médio de [AB].
Mostre que, para todo ponto M, MA⋅MB=MI2−4. (Insira I: MA=MI+IA.)
2. A condição MA⋅MB=12 vira MI2=16, isto é, MI=4: o conjunto é o círculo de centro I e raio 4.
16.6 Problema: Dois presentes do produto escalar
Problema 16.1
Problema de fim de semana — as fórmulas de adição caem de um produto escalar, a distância a uma reta de outro, e as três alturas se encontram de brinde
O produto escalar parece contabilidade — multiplique, some — e, no entanto, entrega quase de graça dois tesouros que resistiram a séculos de caça a ângulos: as fórmulas de adição da trigonometria (calcule cos15∘ exatamente!) e a distância de um ponto a uma reta em uma fração limpa. De presente de despedida, ele demonstra que as três alturas de todo triângulo passam por um mesmo ponto. As quatro faces do Teorema 16.2 vão se apresentar ao serviço.
Parte I — Fluência.
Para u(3,4) e v(−1,2): calcule u⋅v, as duas normas e o ângulo entre os vetores (com precisão de um décimo de grau).
Face física: um trenó é puxado por 10 m por uma força de 50 N a 60∘ do solo. Calcule o trabalho W=F⋅d.
Lei dos cossenos (Teorema 16.8): dois lados de 5 e 7 formam um ângulo de 60∘; encontre o terceiro lado exatamente.
Ao contrário: um triângulo tem lados 4, 6, 8. Calcule o cosseno do ângulo oposto ao lado 8, classifique o ângulo e dê-o com precisão de um décimo de grau.
Parte II — Primeiro presente: as fórmulas de adição. Sejam u=(cosa,sina) e v=(cosb,sinb): dois vetores unitários nos ângulos a e b.
Calcule u⋅v duas vezes — uma com coordenadas, outra com normas e o ângulo entre os vetores — e conclua a fórmula-mãe:
cos(a−b)=cosacosb+sinasinb.
Troque b por −b (paridades do seno e do cosseno!) para obter cos(a+b).
Obtenha sin(a+b) pela identidade complementar sinx=cos(2π−x) aplicada a x=a+b.
Valores exatos, enfim: calcule cos15∘ (como cos(45∘−30∘)) e sin75∘. Confira os dois numericamente.
Faça b=a para deduzir as fórmulas do arco duplo: cos2a (nas suas três formas) e sin2a.
De cos2a=1−2sin2a, calcule sin215∘ e depois sin15∘ como um radical encaixado — e verifique que seu quadrado coincide com o valor 46−2 que o método da questão 9 fornece.
Parte III — Segundo presente: a distância a uma reta.
Seja d a reta ax+by+c=0, com vetor normal n(a,b) (Proposição 16.12), e seja P(x0,y0) um ponto. Tomando um ponto A qualquer de d, explique por que a distância de P a d é ∥n∥AP⋅n e deduza a fórmula
dist(P,d)=a2+b2∣ax0+by0+c∣.
Calcule a distância de P(5,6) a 3x+4y−12=0.
Escreva a equação do círculo de centro (5,6)tangente a essa reta.
Contraprova da fórmula: calcule a distância da origem a 3x+4y−12=0 e verifique-a calculando explicitamente o pé da perpendicular baixada da origem.
Triângulo A(0,0), B(6,0), C(2,5): calcule sua área usando a base [AB]; depois calcule a distância de B à reta (AC) e verifique que ela reproduz a mesma área.
O círculo de centro (2,1) e raio 2, contra a reta x+y−6=0: calcule a distância do centro à reta e classifique a posição relativa (secante, tangente, exterior).
Deduza a Proposição 16.11 em uma linha: o conjunto dos pontos M com MA⋅MB=0 é o círculo de diâmetro [AB].
As alturas: seja H a interseção das alturas relativas a A e a B em um triângulo ABC (de modo que HA⋅BC=0 e HB⋅CA=0). Demonstre a identidade
HA⋅BC+HB⋅CA+HC⋅AB=0
— expanda tudo a partir de H com Chasles — e conclua que H também está na altura relativa a C: as três alturas são concorrentes (no ortocentro).
Final: quatro faces, três troféus. Qual face do Teorema 16.2 carregou as fórmulas de adição, qual a fórmula da distância, qual o ortocentro — e por que “calcular a mesma quantidade duas vezes” é o lema do capítulo inteiro?
3.W=50×10×cos60∘=250 joules: só a componente ao longo do movimento realiza trabalho.
4.c2=25+49−2×35×21=39: c=39.
5.cosγ=2×4×616+36−64=−41: negativo, o ângulo é obtuso: γ≈104.5∘.
6. Em coordenadas: u⋅v=cosacosb+sinasinb. Em geometria: dois vetores unitários, u⋅v=1×1×cos(a−b). Igualando os dois cálculos do mesmo número: cos(a−b)=cosacosb+sinasinb.
9.cos15∘=cos45∘cos30∘+sin45∘sin30∘=22⋅23+22⋅21=46+2≈0.966. E sin75∘=cos15∘: mesmo valor.
10. Com b=a nas questões 7 e 8: cos2a=cos2a−sin2a=2cos2a−1=1−2sin2a (usando cos2+sin2=1), e sin2a=2sinacosa.
11.sin215∘=21−cos30∘=42−3, logo sin15∘=22−3. Elevando 46−2 ao quadrado: 166−212+2=168−43=42−3: o mesmo número em dois trajes.
12.AP decompõe-se em uma parte ao longo de d (invisível para n) e uma parte perpendicular a d, cujo comprimento é a distância procurada; fazer o produto escalar com o normal unitário ∥n∥n mata a primeira parte e mede a segunda. Com A em d: AP⋅n=ax0+by0−(axA+byA)=ax0+by0+c, donde a fórmula. Exemplo: 5∣15+24−12∣=527=5.4.
13. Raio =5.4: (x−5)2+(y−6)2=29.16.
14. Distância =5∣−12∣=2.4. Pé da perpendicular: a perpendicular pela origem é (3t,4t); sobre a reta: 9t+16t=12, t=2512: pé (2536,2548), a distância 5t=2560=2.4. A fórmula e a conta honesta concordam.
15. Base AB=6, altura = distância de C a (AB) (o eixo y=0): 5; área 15. Reta (AC): 5x−2y=0, e dist(B,(AC))=29∣30∣; então 21×AC×2930=21×29×2930=15: mesma área, por qualquer das alturas.
16.dist=2∣2+1−6∣=23≈2.12>2: a reta passa longe do círculo — exterior.
17. Insira I: MA⋅MB=(MI+IA)⋅(MI+IB)=MI2+MI⋅(IA+IB)+IA⋅IB. O termo do meio morre (IA+IB=0), e IA⋅IB=−IA2=−4AB2 (vetores opostos de comprimento 2AB).
18.MA⋅MB=0⟺MI2=4AB2⟺MI=2AB: o círculo de centro I e raio 2AB — o círculo de diâmetro [AB].
19. Expandindo cada par a partir de H (BC=HC−HB etc.):
HA⋅HC−HA⋅HB+HB⋅HA−HB⋅HC+HC⋅HB−HC⋅HA=0:
tudo se cancela aos pares — a identidade vale para quaisquer quatro pontos. Para o nosso H, os dois primeiros produtos escalares se anulam por hipótese, logo HC⋅AB=0: H está na altura relativa a C. Três alturas, um só ponto.
20. As fórmulas de adição vieram de calcular um mesmo produto escalar pela face das coordenadas e pela face das normas e do ângulo; a fórmula da distância, da face da projeção; o ortocentro, da face da bilinearidade (Chasles e expandir). Calcule a mesma quantidade duas vezes, iguale, e um teorema cai — é esse todo o ofício do produto escalar.