Matemática do ensino médio · Grades 10–12
26Equações diferenciais
Uma equação diferencial relaciona uma função com suas derivadas. A física, a química, a biologia e a economia exprimem suas leis nessa forma: a taxa de resfriamento de um corpo, o decaimento de um núcleo radioativo, o crescimento de uma população são todos afirmações sobre . Este capítulo resolve por completo as equações lineares de primeira ordem com coeficientes constantes.
26.1 A equação
Definição 26.1 (Equação diferencial)
Uma equação diferencial é uma equação cuja incógnita é uma função e que envolve e suas derivadas. Uma solução em um intervalo é uma função derivável que satisfaz a equação em todo ponto de .
Teorema 26.2 (Soluções de )
Seja . As soluções em da equação são exatamente as funções
Para cada par existe uma única solução com .
Demonstração. Cada satisfaz . Reciprocamente, seja uma solução qualquer e ponha . Então
de modo que é constante, digamos , e . A condição inicial obriga , de modo único. ∎
Observação 26.3
A exponencial é, assim, caracterizada pela mais simples de todas as equações diferenciais: crescimento proporcional ao tamanho. É por isso que ela aparece em toda parte na natureza.
Exemplo 26.4 (Decaimento radioativo)
Uma quantidade radioativa satisfaz com , logo ; veja o Exemplo 23.9 para a meia-vida.
26.2 A equação
Teorema 26.5 (Soluções de )
Sejam e . As soluções em de são exatamente as funções
A função constante é a solução de equilíbrio. Para cada existe uma única solução com ; se , toda solução tende ao equilíbrio quando .
Demonstração. A constante satisfaz . Agora é solução se, e somente se,
isto é, se e somente se resolve . Pelo Teorema 26.2, , donde a fórmula, a existência e a unicidade. Se , quando , de modo que . ∎
Método 26.6 (Resolver com condição inicial)
- Encontre a solução de equilíbrio (resolva ).
- Escreva a solução geral .
- Determine pela condição inicial.
- Confronte o comportamento a longo prazo com a intuição física (a solução converge para o equilíbrio?).
A mesma estratégia — solução particular mais solução geral da equação homogênea — estende-se a : veja a Proposição 26.8.
Exemplo 26.7 (Lei do resfriamento de Newton)
Uma xícara de café a C está numa sala a C. A lei de Newton afirma que a temperatura satisfaz para algum , isto é, . O equilíbrio é , e : o café esfria exponencialmente depressa até a temperatura ambiente.
26.3 A equação
Proposição 26.8 (Estrutura do conjunto de soluções)
Seja contínua em um intervalo e seja uma solução particular de
em . Então as soluções em são exatamente as funções , .
Demonstração. Como no Teorema 26.5: é solução se, e somente se, satisfaz , se e somente se . ∎
Método 26.9 (Adivinhar uma solução particular)
Procure uma solução particular da mesma forma que :
- polinomial de grau : tente um polinômio de grau ;
- com : tente ;
- (caso ressonante): tente .
Substitua na equação e identifique os coeficientes.
Exemplo 26.10
Resolva . Tente : para todo obriga e , logo e . Solução geral: .
26.4 Exercícios
Exercício 26.1 ★
Resolva em : (a) com ; (b) com ; (c) com .
Solução
Solução de Exercício 26.1.
(a) ; dá .
(b) , logo ; dá .
(c) Equilíbrio ; ; dá : .
Exercício 26.2 ★
Uma população de bactérias cresce a uma taxa proporcional ao seu tamanho, dobrando a cada horas. Escreva a equação diferencial satisfeita pela população e determine a constante de proporcionalidade.
Solução
Solução de Exercício 26.2.
, logo . Dobrar em horas significa , isto é,
Exercício 26.3 ★
Verifique que é solução de e dê todas as soluções em .
Solução
Solução de Exercício 26.3.
: é uma solução particular (este é o caso ressonante do Método 26.9). Pela Proposição 26.8, as soluções são , .
Exercício 26.4 ★★
Resolva com . (Sugestão: procure uma solução particular da forma .)
Solução
Solução de Exercício 26.4.
Tente : dá , logo . Solução geral ; a condição dá :
Exercício 26.5 ★★
O carbono-14 decai com meia-vida de anos. Uma amostra arqueológica contém do carbono-14 de um organismo vivo. Estime sua idade.
Exercício 26.6 ★★
Um tanque contém L de água pura. Uma salmoura com kg de sal por litro entra a L/min, e a mistura (mantida uniforme) sai à mesma vazão. Seja a massa de sal no tanque no instante (em minutos).
- Justifique que .
- Resolva e determine o limite de quando . Interprete.
Solução
Solução de Exercício 26.6.
1. O sal entra a kg/min. A saída leva concentração kg/L a L/min, isto é, kg/min. Logo .
2. Equilíbrio ; , e dá :
A longo prazo, a concentração do tanque iguala a da salmoura que entra: kg/L L kg.
Exercício 26.7 ★★
Uma paraquedista de kg cai sujeita à gravidade () e a uma resistência do ar proporcional à velocidade, de modo que sua velocidade satisfaz com kg/s.
- Resolva a equação com .
- Calcule a velocidade terminal e o tempo necessário para atingir dela.
Solução
Solução de Exercício 26.7.
1. com . Equilíbrio m/s; , e dá
2. Velocidade terminal m/s ( km/h). Queremos , isto é, :
Exercício 26.8 ★★★
(Equação logística.) Uma população (como fração da população máxima) satisfaz
- Seja . Mostre que satisfaz a equação linear .
- Resolva em e depois em , com .
- Mostre que quando e esboce a forma da curva solução.
Exercício 26.9 ★★★
Seja uma solução de e seja para . Mostre que satisfaz uma recorrência aritmético-geométrica e exprima e em função de e . A que corresponde a condição para a equação diferencial?
Solução
Solução de Exercício 26.9.
Pelo Teorema 26.5, . Logo
com e . A condição significa , isto é, : exatamente a condição sob a qual as soluções da equação diferencial convergem para o equilíbrio — e, de fato, o ponto fixo da recorrência é .
26.5 Problema: O relógio dentro das coisas
Problema 26.1
Problema de fim de semana — o carbono-14 data as cavernas, a lei do resfriamento de Newton cronometra um crime, e uma equaçãozinha veste quatro trajes
Uma equação diferencial é uma lei de mudança; resolvê-la transforma a lei em um relógio. A mesma equaçãozinha (Teorema 26.5) faz tique-taque dentro de carvão pré-histórico, de café esfriando, de gotas de chuva caindo e de soros hospitalares — e ler esses relógios é o ofício deste problema: ele data as pinturas de Lascaux, fixa uma hora da morte e audita as próprias hipóteses, como faz um bom cientista.
Parte I — Fluência.
- Resolva , ; e depois , (Método 26.6).
- Rededuza o truque de unicidade por trás do Teorema 26.2: se , calcule a derivada de e conclua que toda solução é .
- Para : encontre a solução de equilíbrio e descreva o destino de todas as demais soluções quando . (Os pontos fixos das recorrências do Problema 13.1, agora contínuos.)
- Para a lei de decaimento : mostre que a meia-vida é .
- Esboce (ou descreva) a família de soluções de : o que fazem as soluções que começam acima de ? E abaixo de ? E em ?
Parte II — Carbono-14. O tecido vivo mantém uma proporção constante de carbono-14 radioativo; na morte a entrada cessa e o estoque decai: , com meia-vida de anos.
- Calcule (por ano).
- Um osso retém da proporção do vivo: qual é a idade dele?
- Carvão das cavernas pintadas de Lascaux retém cerca de : date as pinturas.
- O homem do gelo, Ötzi, encontrado em uma geleira alpina, media cerca de : date-o (os arqueólogos falam em cerca de anos — como foi o seu resultado?).
- Por que o carbono-14 não pode datar dinossauros? Calcule a fração restante após dez meias-vidas, enuncie a fração após milhões de anos como potência de e conclua.
- Barras de erro: se os de Ötzi só são conhecidos com precisão de , calcule a faixa de idade. Que precisão de laboratório compra que precisão de datação?
Parte III — O resfriamento de Newton e um crime. Um corpo à temperatura em um ambiente à temperatura constante esfria segundo .
Resolva a equação (substitua ):
- Um café servido a C em uma sala a C marca C após minutos. Determine e, em seguida, o tempo de espera até os C em que se pode beber.
- A questão do leite: para tomar o café mais quente possível daqui a dez minutos, o leite frio deve ser acrescentado agora ou no último momento? Responda com a equação (o que acrescentar leite faz com a diferença , e como essa diferença comanda a perda?).
- Perícia: um corpo é encontrado à meia-noite a C em uma sala a C; uma hora depois ele marca C. Supondo C no momento da morte, recupere com as duas medições e calcule a hora da morte.
- Audite o relógio do perito: cite três violações reais das hipóteses do modelo e o sentido em que cada uma enviesaria a hora da morte estimada.
Parte IV — Quatro trajes e uma curva em S.
- A equação logística do Exercício 26.8, com : usando a substituição do exercício, deduza e encontre o instante do ponto de inflexão — a data do epidemiologista do Problema 22.1, agora calculável.
- Uma gota de chuva obedece a (gravidade menos arrasto), com . Encontre a velocidade terminal, resolva em e calcule quando a gota atinge da velocidade terminal.
- Um soro hospitalar libera um medicamento a taxa constante enquanto o organismo o elimina proporcionalmente: , com . Encontre a concentração de regime e o tempo para alcançar metade dela. Enuncie em uma frase o paralelo com as recorrências de empréstimo do Exercício 26.9.
- Final — uma equação, quatro trajes: decaimento, resfriamento, queda, dosagem, todos com sinais e nomes diferentes. Recite o ciclo de modelagem que este problema percorreu quatro vezes (lei equação solução calibração previsão auditoria) e nomeie o fenômeno que exige — e que problema já o encontrou.
Solução
Solução de Problema 26.1.
1. . Para a segunda: equilíbrio , logo com : : .
2. : o produto é uma constante , logo — nenhuma solução escapa.
3. Equilíbrio: . Toda outra solução é com : a exponencial morre e a solução desliza até — um ponto fixo estável, o gêmeo contínuo dos pontos fixos das recorrências do Problema 13.1.
4. cai à metade quando : .
5. Todas as soluções são translações verticais do decaimento rumo a : as que começam acima caem até , as que começam abaixo sobem até , e a solução constante fica parada — um funil em torno do equilíbrio.
6. por ano.
7. : anos.
8. anos: os touros de Lascaux são do fim da era glacial.
9. anos: dentro de uma vida humana do valor dos arqueólogos — o relógio funciona.
10. Dez meias-vidas deixam : no limite da medição. Após milhões de anos a fração é : nenhum átomo do estoque original resta em qualquer fóssil — os dinossauros são datados por relógios mais lentos (potássio-argônio e parentes).
11. dá anos e dá : o da química vira cerca de anos de história — precisão no laboratório é precisão na etiqueta do museu.
12. satisfaz : , e .
13. A diferença inicial é ; após cinco minutos ela é , logo : por minuto. Para beber: : minutos.
14. A taxa de perda é proporcional à diferença : café fervendo sangra calor mais depressa. Acrescentar o leite agora corta a diferença imediatamente, de modo que se perde menos calor ao longo dos dez minutos; deixar para o fim permite que o café esfrie a toda velocidade antes. Para a xícara mais quente: leite primeiro. (Anfitriões impacientes têm a termodinâmica ao contrário.)
15. Diferenças em relação ao ambiente: à meia-noite , uma hora depois : : por hora. Na morte a diferença era ; ela decaiu até à meia-noite: horas. Hora da morte: por volta das .
16. Uma sala aquecida ou com corrente de ar ( não constante) entorta o relógio para qualquer lado; roupas ou a massa corporal mudam (as tabelas do perito corrigem isso) — um errado reescala todo o intervalo; e um corpo movido de outro lugar reinicia no meio do decaimento, forjando uma morte mais cedo ou mais tarde. A equação é honesta; o risco está nas hipóteses.
17. obedece a : (de ), logo . Inflexão em : : — a data de virada da epidemia, direto da fórmula.
18. Velocidade terminal: em m/s. Solução: . Então : : s — as gotas de chuva alcançam sua velocidade de cruzeiro em segundos, e é por isso que a chuva não mata.
19. Regime permanente: . Metade disso: : : hora. O soro é o gêmeo contínuo do empréstimo: entrada constante, saída proporcional — o Exercício 26.9 torna o dicionário exato.
20. Decaimento (, ), resfriamento (), queda (, : aproximação do equilíbrio por baixo), dosagem (a mesma coisa, numa veia): uma equação, quatro mundos. O ciclo: enunciar a lei da mudança; escrever a equação; resolver (Método 26.6); calibrar as constantes com medições; prever; e então auditar as hipóteses (questão 16). A oscilação exige — encontrada, resolvida e posta a balançar no Problema 24.1.