Matemática do ensino médio · Grades 10–12
15Vetores e retas no plano
Os vetores codificam deslocamentos; as retas são suas trajetórias. A principal ferramenta nova deste capítulo é o determinante, um único número que decide se dois vetores são colineares — e, a partir daí, produz equações de retas e resolve por puro cálculo as questões de colinearidade e paralelismo. As mesmas ideias se estendem ao espaço no Capítulo 31.
15.1 Vetores: uma retomada
Definição 15.1 (Vetor, coordenadas)
Um vetor representa um deslocamento: todas as setas de mesma direção, mesmo sentido e mesmo comprimento representam o mesmo vetor. Em um sistema de coordenadas, registra o deslocamento ( na horizontal, na vertical); para pontos e ,
Os vetores somam-se coordenada a coordenada, e tem coordenadas .
Proposição 15.2 (Ponto médio)
O ponto médio do segmento tem coordenadas .
Demonstração. é caracterizado por : coordenada a coordenada, , logo , e analogamente para . ∎
15.2 Colinearidade e o determinante
Definição 15.3 (Vetores colineares)
Dois vetores são colineares se um é múltiplo escalar do outro: para algum (ou ). Geometricamente: eles têm a mesma direção, ou um deles é nulo.
Definição 15.4 (Determinante)
O determinante de e é
Teorema 15.5 (Critério de colinearidade)
Dois vetores e são colineares se, e somente se, .
Demonstração. () Se , então e , logo ; se , o determinante é trivialmente .
() Suponha com , digamos (o caso é simétrico). Ponha . Então por construção, e a relação dá, após dividir por , . Logo . ∎
Exemplo 15.6
e : , colineares (de fato, ). e : , não são colineares.
Método 15.7 (Colinearidade de três pontos)
, , são colineares se, e somente se, e são vetores colineares: calcule os dois vetores e verifique se .
15.3 Equações cartesianas de retas
Definição 15.8 (Vetor diretor)
Um vetor diretor de uma reta é qualquer vetor não nulo tal que seja colinear com para todos os pontos de .
Teorema 15.9 (Equação cartesiana)
Uma reta de vetor diretor admite uma equação da forma
Reciprocamente, toda equação desse tipo descreve uma reta de vetor diretor .
Demonstração. Seja passando por com direção . Um ponto está em exatamente quando é colinear com , isto é (Teorema 15.5),
uma equação da forma anunciada com . Reciprocamente, as soluções de com, digamos, são os pontos : subtrair duas delas mostra que toda corda é colinear com , e sempre existe uma solução — trata-se da reta que passa por ela e é dirigida por . ∎
Método 15.10 (Reta por dois pontos)
Para achar uma equação da reta : calcule o vetor diretor ; identifique-o com , isto é, tome e ; determine substituindo as coordenadas de .
Exemplo 15.11
Reta por e : , logo , , e a equação é . Substituindo : , logo . Equação: . Confira com : .
Observação 15.12
Quando , a equação pode ser resolvida em : , com coeficiente angular . A forma cartesiana é mais geral: ela cobre também as retas verticais (), que não têm coeficiente angular.
15.4 Representação paramétrica
Definição 15.13 (Representação paramétrica)
A reta que passa por com direção é o conjunto dos pontos
O número é o parâmetro: cada valor de produz um ponto da reta, como se a percorrêssemos com velocidade constante .
Exemplo 15.14
A reta do Exemplo 15.11 também é : dá e dá . Eliminar (, logo ) recupera .
15.5 Posições relativas de duas retas
Proposição 15.15 (Paralelas ou concorrentes)
Duas retas de vetores diretores e são paralelas se, e somente se, . Em forma de equação: e são paralelas se, e somente se, . Retas não paralelas se encontram em exatamente um ponto.
Demonstração. Paralelismo significa direções colineares, o que é a Teorema 15.5; com e , o determinante é . Se as retas não são paralelas, resolver as duas equações simultaneamente (por substituição ou combinação) leva a uma única solução: o sistema se comporta como um sistema de determinante não nulo. ∎
Método 15.16 (Interseção de duas retas)
Resolva o sistema das duas equações: isole uma incógnita em uma delas e substitua na outra, ou combine as equações para eliminar uma incógnita. Confira sempre o ponto obtido nas duas equações.
Exemplo 15.17
Intersecte e . De : . Substituindo em :
e então . As retas se encontram em . Verificação em : .
15.6 Exercícios
Exercício 15.1 ★
Dados , e , calcule as coordenadas de , , e , e o ponto médio de .
Exercício 15.2 ★
Os vetores são colineares?
Solução
Solução de Exercício 15.2.
: colineares (de fato, ).
: não são colineares.
: colineares (ambos verticais).
Exercício 15.3 ★
Encontre uma equação cartesiana da reta que passa por com vetor diretor e, em seguida, da reta que passa por e .
Solução
Solução de Exercício 15.3.
Por , direção : identificar dá , , logo ; substituindo : , . Multiplicando por : .
Por e : , logo , : ; substituindo : , . Simplificando por : . Confira com : .
Exercício 15.4 ★
Para a reta , dê um vetor diretor, as interseções com os dois eixos coordenados e decida se os pontos e pertencem a .
Solução
Solução de Exercício 15.4.
Um vetor diretor é . Interseções: dá , ponto ; dá , ponto . Para : , logo . Para : , logo .
Exercício 15.5 ★★
Os pontos , , são colineares? Mesma pergunta para , , .
Exercício 15.6 ★★
Determine o ponto de interseção, se houver:
Solução
Solução de Exercício 15.6.
Primeiro par: somando as duas equações, , logo e então : elas se encontram em (verificação: ).
Segundo par: , logo as retas são paralelas; multiplicar por dá , que difere de (): estritamente paralelas, sem interseção.
Exercício 15.7 ★★
Dê uma representação paramétrica da reta e uma equação cartesiana da reta .
Solução
Solução de Exercício 15.7.
Para : direção , e o ponto está em , logo .
Para a reta paramétrica que passa por com direção : , , logo ; substituindo : , . Equação: (confira com , ponto : ).
Exercício 15.8 ★★
Encontre a equação da reta que passa por e é paralela a , e o valor de para o qual a reta é paralela a .
Solução
Solução de Exercício 15.8.
Uma reta paralela tem o mesmo par : ; passando por : , logo e a reta é .
O paralelismo de com exige , logo .
Exercício 15.9 ★★
Sejam , e . Encontre uma equação cartesiana da mediana do triângulo que parte de (a reta que liga ao ponto médio de ).
Solução
Solução de Exercício 15.9.
O ponto médio de é . A mediana é a reta com : os dois pontos têm abscissa , de modo que a mediana é a reta vertical
Exercício 15.10 ★★
Para que valor (ou valores) do parâmetro os vetores e são colineares?
Solução
Solução de Exercício 15.10.
. Ele se anula quando : , raízes , isto é, ou .
Exercício 15.11 ★★★
Seja um paralelogramo, o ponto médio de e o ponto definido por . Trabalhando no sistema de coordenadas em que , , (de modo que ):
- Calcule as coordenadas de e .
- Mostre que , e são colineares. (Um fato bonito: a reta corta a diagonal a um terço do caminho.)
Solução
Solução de Exercício 15.11.
1. . Então e , logo
2. e : , logo , , são colineares — na verdade, : a reta corta a diagonal exatamente a um terço do seu comprimento a partir de .
15.7 Problema: Rotas de colisão e coordenadas espertas
Problema 15.1
Problema de fim de semana — cruzar trajetórias não é colidir: a aproximação mínima no mar e teoremas demonstrados escolhendo o referencial certo
As rotas retas de dois navios se cruzam — os navios têm de colidir? Só se chegarem ao cruzamento ao mesmo tempo: trajetórias são conjuntos de pontos, movimentos são paramétricos, e confundir as duas coisas já afundou navios de verdade. Este problema opera um pequeno serviço de controle de tráfego marítimo com retas paramétricas (Definição 15.13) e depois volta-se para a geometria pura com o outro superpoder das coordenadas: escolhê-las com esperteza, como no Exercício 15.11, para que os teoremas clássicos se demonstrem sozinhos.
Parte I — Retas, de três maneiras.
- Dê uma representação paramétrica da reta que passa por com vetor diretor e depois elimine o parâmetro para obter uma equação cartesiana.
- Para a reta : leia um vetor diretor (Teorema 15.9), encontre um ponto e escreva uma representação paramétrica.
- Calcule o ponto de interseção das duas retas das questões 1 e 2 (Método 15.16).
- Confirme com o determinante (Teorema 15.5) que essas duas retas tinham mesmo de se cruzar; mostre em seguida que e são estritamente paralelas.
- , , são colineares (Método 15.7)?
Parte II — O controle de tráfego marítimo. No instante (em horas), o navio está em e o navio em (distâncias em milhas náuticas).
- Encontre as equações cartesianas das duas trajetórias e calcule onde elas se cruzam.
- Em que instante cada navio passa pelo ponto de cruzamento? Os navios colidem? Enuncie o aviso geral em uma frase: trajetórias que se cruzam contra movimentos que se encontram.
- Calcule o quadrado da distância entre os navios no instante e reduza-o a um trinômio do segundo grau em . Em que instante os navios ficam mais próximos, e a que distância chegam a estar (a tecnologia do vértice do Problema 10.1)?
- O regulamento exige uma separação de pelo menos milha. Ela é violada? Se for, resolva e dê a duração da violação.
- Explique por que, para quaisquer dois navios em rotas retas com velocidades constantes, é sempre uma função do segundo grau em — de modo que o “ponto de aproximação mínima” é sempre um cálculo de vértice.
- Interceptação: uma lancha de patrulha parte da origem em com velocidade constante e deve encontrar o navio exatamente em . Calcule o necessário e a velocidade da lancha.
Parte III — Coordenadas espertas. Trabalhe no referencial do Exercício 15.11: o paralelogramo vira , , , ; seja o ponto médio de e o ponto médio de .
- Calcule uma equação cartesiana da reta .
- Intersecte com a diagonal : recupere o fato do Exercício 15.11 — o corte fica exatamente a um terço do caminho ao longo da diagonal.
- Agora a reta : encontre sua equação, intersecte-a com e conclua o teorema clássico completo: as cevianas e dividem a diagonal em três partes iguais.
- Por que foi legítimo demonstrar o teorema nesse referencial particular? (O que a escolha de coordenadas preserva e do que o enunciado trata?) Responda em duas ou três frases.
- Mais uma trissecção para praticar: seja o ponto médio de . Onde a reta corta a outra diagonal, ?
Parte IV — Enigmas de posição.
- As três retas , , são concorrentes? (Intersecte duas e teste a terceira.)
- Para cada real , seja a reta . Mostre que toda passa por um mesmo ponto fixo. (Agrupe os termos em .)
- Na família : qual membro é paralelo a ? Qual passa pela origem?
- Final — os três trajes de uma reta: cartesiano (teste de pertinência em uma substituição), reduzido (coeficiente angular e gráfico à vista), paramétrico (movimento, horários, interceptação); o determinante como oráculo do paralelismo; e o referencial bem escolhido como fábrica de teoremas. Uma frase para cada.
Solução
Solução de Problema 15.1.
1. , . Da segunda, ; substituindo: : equação cartesiana .
2. Para , um vetor diretor é : aqui . Um ponto: dá : . Paramétrica: , .
3. De em : , logo e : o ponto .
4. Direções e : : concorrentes, como se encontrou. Para o segundo par: as direções e têm (paralelas), e dobrar dá : estritamente paralelas.
5. , : : colineares.
6. : de e vem . : de vem , logo . Cruzamento: dá , : as trajetórias se cruzam em .
7. passa ali quando : h. , quando : h. Vinte e quatro minutos de diferença: nenhuma colisão. Aviso: uma carta mostra trajetórias; só os relógios paramétricos dizem se dois movimentos ocupam o mesmo ponto no mesmo instante.
8. : vértice em h, onde : aproximação mínima milha em .
9. Violada: . lê-se : , raízes : os navios ficam próximos demais de a — cerca de minutos de infração. Um deles precisa mudar de rota.
10. Cada coordenada de cada navio é uma função afim de , de modo que cada diferença de coordenadas é afim, e — uma soma de dois quadrados de funções afins — é do segundo grau (com coeficiente dominante não negativo). A aproximação mínima, portanto, é sempre lida em um vértice.
11. Encontrar em , isto é, em : dá , velocidade nós.
12. , : direção , isto é, : equação .
13. : . Então : : o ponto , a um terço do caminho de até .
14. , : direção , equação . Com : : o ponto . As duas cevianas cortam em seus dois pontos de trissecção: teorema demonstrado, duas vezes três linhas de aritmética.
15. Todo paralelogramo é levado ao quadrado unitário escolhendo-se como origem e , como unidades dos dois eixos. Essa escolha preserva tudo aquilo de que o teorema fala — pontos médios, colinearidade e razões ao longo de uma mesma reta (tudo exprimível com vetores e escalares) —, de modo que demonstrar o enunciado no quadrado o demonstra para todo paralelogramo. (Ela não transportaria comprimentos nem ângulos: esses o referencial distorce.)
16. : reta : . Diagonal : de a : . Interseção: : : o ponto — de novo um ponto de trissecção, agora da outra diagonal. As cevianas dos pontos médios adoram terços.
17. As duas primeiras: e dão : . A terceira: : satisfeita. Concorrentes em .
18. : para a equação valer para todo , tome , — e, de fato, toda contém . Um feixe de retas por um único ponto, uma reta para cada coeficiente angular .
19. Paralela a : coeficiente angular , a reta . Passando pela origem: : .
20. Cartesiana: substitua um ponto e a pertinência está respondida. Reduzida: coeficiente angular e coeficiente linear à vista, gráfico imediato. Paramétrica: o relógio já embutido — colisões, aproximação mínima, interceptação. O determinante: uma multiplicação em cruz e o paralelismo está decidido. O referencial escolhido: um paralelogramo vira um quadrado unitário, e um teorema clássico de trissecção vira três interseções de retas.