Mathematics · Livro 2 · Grades 10–12

Matemática do ensino médio

Matemática do ensino médio · Grades 10–12

15Vetores e retas no plano

Os vetores codificam deslocamentos; as retas são suas trajetórias. A principal ferramenta nova deste capítulo é o determinante, um único número que decide se dois vetores são colineares — e, a partir daí, produz equações de retas e resolve por puro cálculo as questões de colinearidade e paralelismo. As mesmas ideias se estendem ao espaço no Capítulo 31.

15.1 Vetores: uma retomada

Definição 15.1 (Vetor, coordenadas)

Um vetor u\vec u representa um deslocamento: todas as setas de mesma direção, mesmo sentido e mesmo comprimento representam o mesmo vetor. Em um sistema de coordenadas, u(x,y)\vec u\,(x, y) registra o deslocamento (xx na horizontal, yy na vertical); para pontos A(xA,yA)A(x_A, y_A) e B(xB,yB)B(x_B, y_B),

AB(xBxA, yByA).\vect{AB}\,\bigl(x_B - x_A,\ y_B - y_A\bigr).

Os vetores somam-se coordenada a coordenada, e λu\lambda\vec u tem coordenadas (λx,λy)(\lambda x, \lambda y).

Proposição 15.2 (Ponto médio)

O ponto médio MM do segmento [AB][AB] tem coordenadas (xA+xB2, yA+yB2)\left(\frac{x_A + x_B}{2},\ \frac{y_A + y_B}{2}\right).

Demonstração. MM é caracterizado por AM=12AB\vect{AM} = \frac12\vect{AB}: coordenada a coordenada, xMxA=12(xBxA)x_M - x_A = \frac12(x_B - x_A), logo xM=xA+xB2x_M = \frac{x_A + x_B}{2}, e analogamente para yMy_M.

15.2 Colinearidade e o determinante

Definição 15.3 (Vetores colineares)

Dois vetores são colineares se um é múltiplo escalar do outro: v=λu\vec v = \lambda \vec u para algum λR\lambda \in \R (ou u=0\vec u = \vec 0). Geometricamente: eles têm a mesma direção, ou um deles é nulo.

Definição 15.4 (Determinante)

O determinante de u(x,y)\vec u\,(x, y) e v(x,y)\vec v\,(x', y') é

det(u,v)=xxyy=xyxy.\det(\vec u, \vec v) = \begin{vmatrix} x & x' \\ y & y' \end{vmatrix} = x y' - x' y .

Teorema 15.5 (Critério de colinearidade)

Dois vetores u\vec u e v\vec v são colineares se, e somente se, det(u,v)=0\det(\vec u, \vec v) = 0.

Demonstração. (\Rightarrow) Se v=λu\vec v = \lambda\vec u, então x=λxx' = \lambda x e y=λyy' = \lambda y, logo det(u,v)=x(λy)(λx)y=0\det(\vec u, \vec v) = x(\lambda y) - (\lambda x)y = 0; se u=0\vec u = \vec 0, o determinante é trivialmente 00.

(\Leftarrow) Suponha xyxy=0xy' - x'y = 0 com u0\vec u \neq \vec 0, digamos x0x \neq 0 (o caso y0y \neq 0 é simétrico). Ponha λ=xx\lambda = \frac{x'}{x}. Então x=λxx' = \lambda x por construção, e a relação xy=xy=λxyxy' = x'y = \lambda x y dá, após dividir por x0x \neq 0, y=λyy' = \lambda y. Logo v=λu\vec v = \lambda \vec u.

Exemplo 15.6

u(3,2)\vec u\,(3, -2) e v(6,4)\vec v\,(-6, 4): det=3×4(6)×(2)=1212=0\det = 3 \times 4 - (-6) \times (-2) = 12 - 12 = 0, colineares (de fato, v=2u\vec v = -2\vec u). u(3,2)\vec u\,(3, -2) e w(2,1)\vec w\,(2, 1): det=3+4=70\det = 3 + 4 = 7 \neq 0, não são colineares.

Método 15.7 (Colinearidade de três pontos)

AA, BB, CC são colineares se, e somente se, AB\vect{AB} e AC\vect{AC} são vetores colineares: calcule os dois vetores e verifique se det(AB,AC)=0\det\bigl(\vect{AB}, \vect{AC}\bigr) = 0.

15.3 Equações cartesianas de retas

Definição 15.8 (Vetor diretor)

Um vetor diretor de uma reta dd é qualquer vetor não nulo u\vec u tal que AB\vect{AB} seja colinear com u\vec u para todos os pontos A,BA, B de dd.

Teorema 15.9 (Equação cartesiana)

Uma reta de vetor diretor u(b,a)\vec u\,(-b, a) admite uma equação da forma

ax+by+c=0(a,b)(0,0).ax + by + c = 0 \qquad (a, b) \neq (0, 0).

Reciprocamente, toda equação desse tipo descreve uma reta de vetor diretor u(b,a)\vec u\,(-b, a).

Demonstração. Seja dd passando por A(xA,yA)A(x_A, y_A) com direção u(b,a)\vec u\,(-b, a). Um ponto M(x,y)M(x, y) está em dd exatamente quando AM\vect{AM} é colinear com u\vec u, isto é (Teorema 15.5),

0=det(AM,u)=(xxA)a(b)(yyA)=ax+by(axA+byA),0 = \det\bigl(\vect{AM}, \vec u\bigr) = (x - x_A)\,a - (-b)(y - y_A) = ax + by - (a x_A + b y_A),

uma equação da forma anunciada com c=(axA+byA)c = -(a x_A + b y_A). Reciprocamente, as soluções de ax+by+c=0ax + by + c = 0 com, digamos, b0b \neq 0 são os pontos (x,ax+cb)\left(x, -\frac{a x + c}{b}\right): subtrair duas delas mostra que toda corda é colinear com (b,a)(-b, a), e sempre existe uma solução — trata-se da reta que passa por ela e é dirigida por (b,a)(-b, a).

Método 15.10 (Reta por dois pontos)

Para achar uma equação da reta (AB)(AB): calcule o vetor diretor AB(xBxA,yByA)\vect{AB}\,(x_B - x_A, y_B - y_A); identifique-o com (b,a)(-b, a), isto é, tome a=yByAa = y_B - y_A e b=(xBxA)b = -(x_B - x_A); determine cc substituindo as coordenadas de AA.

Exemplo 15.11

Reta por A(1,2)A(1, 2) e B(4,3)B(4, 3): AB(3,1)\vect{AB}\,(3, 1), logo a=1a = 1, b=3b = -3, e a equação é x3y+c=0x - 3y + c = 0. Substituindo AA: 16+c=01 - 6 + c = 0, logo c=5c = 5. Equação: x3y+5=0x - 3y + 5 = 0. Confira com BB: 49+5=04 - 9 + 5 = 0.

Observação 15.12

Quando b0b \neq 0, a equação pode ser resolvida em yy: y=mx+py = mx + p, com coeficiente angular m=abm = -\frac ab. A forma cartesiana ax+by+c=0ax + by + c = 0 é mais geral: ela cobre também as retas verticais (b=0b = 0), que não têm coeficiente angular.

A reta x - 3y + 5 = 0 do , seu vetor diretor u = AB (em vermelho, aqui reduzido pela metade) e os dois pontos usados para montar a equação.
A reta x3y+5=0x - 3y + 5 = 0 do Exemplo 15.11, seu vetor diretor u=AB\vec u = \vect{AB} (em vermelho, aqui reduzido pela metade) e os dois pontos usados para montar a equação.

15.4 Representação paramétrica

Definição 15.13 (Representação paramétrica)

A reta que passa por A(xA,yA)A(x_A, y_A) com direção u(α,β)\vec u\,(\alpha, \beta) é o conjunto dos pontos

M(xA+tα, yA+tβ),tR.M\bigl(x_A + t\alpha,\ y_A + t\beta\bigr), \qquad t \in \R .

O número tt é o parâmetro: cada valor de tt produz um ponto da reta, como se a percorrêssemos com velocidade constante u\vec u.

Exemplo 15.14

A reta do Exemplo 15.11 também é {(1+3t, 2+t):tR}\{(1 + 3t,\ 2 + t) : t \in \R\}: t=0t = 0AA e t=1t = 1BB. Eliminar tt (t=y2t = y - 2, logo x=1+3(y2)x = 1 + 3(y-2)) recupera x3y+5=0x - 3y + 5 = 0.

15.5 Posições relativas de duas retas

Proposição 15.15 (Paralelas ou concorrentes)

Duas retas de vetores diretores u\vec u e v\vec v são paralelas se, e somente se, det(u,v)=0\det(\vec u, \vec v) = 0. Em forma de equação: d:ax+by+c=0d : ax + by + c = 0 e d:ax+by+c=0d' : a'x + b'y + c' = 0 são paralelas se, e somente se, abab=0ab' - a'b = 0. Retas não paralelas se encontram em exatamente um ponto.

Demonstração. Paralelismo significa direções colineares, o que é a Teorema 15.5; com u(b,a)\vec u\,(-b, a) e v(b,a)\vec v\,(-b', a'), o determinante é (b)a(b)a=abab(-b)a' - (-b')a = ab' - a'b. Se as retas não são paralelas, resolver as duas equações simultaneamente (por substituição ou combinação) leva a uma única solução: o sistema se comporta como um sistema 2×22 \times 2 de determinante não nulo.

Método 15.16 (Interseção de duas retas)

Resolva o sistema das duas equações: isole uma incógnita em uma delas e substitua na outra, ou combine as equações para eliminar uma incógnita. Confira sempre o ponto obtido nas duas equações.

Exemplo 15.17

Intersecte d:x3y+5=0d: x - 3y + 5 = 0 e d:2x+y4=0d': 2x + y - 4 = 0. De dd': y=42xy = 4 - 2x. Substituindo em dd:

x3(42x)+5=0    x12+6x+5=0    7x=7    x=1,x - 3(4 - 2x) + 5 = 0 \iff x - 12 + 6x + 5 = 0 \iff 7x = 7 \iff x = 1,

e então y=2y = 2. As retas se encontram em (1,2)(1, 2). Verificação em dd: 16+5=01 - 6 + 5 = 0.

15.6 Exercícios

Exercício 15.1

Dados A(2,1)A(2, -1), B(5,3)B(5, 3) e C(1,1)C(-1, 1), calcule as coordenadas de AB\vect{AB}, AC\vect{AC}, AB+AC\vect{AB} + \vect{AC} e 2AB3AC2\vect{AB} - 3\vect{AC}, e o ponto médio de [BC][BC].

Solução

Solução de Exercício 15.1.

AB(3,4)\vect{AB}\,(3, 4), AC(3,2)\vect{AC}\,(-3, 2), AB+AC(0,6)\vect{AB} + \vect{AC}\,(0, 6), 2AB3AC(6+9, 86)=(15,2)2\vect{AB} - 3\vect{AC}\,(6 + 9,\ 8 - 6) = (15, 2). O ponto médio de [BC][BC] é (5+(1)2,3+12)=(2,2)\left(\frac{5 + (-1)}{2}, \frac{3+1}{2}\right) = (2, 2).

Exercício 15.2

Os vetores são colineares?

u(4,6) e v(2,3);u(2,5) e v(3,7);u(0,3) e v(0,8).\vec u\,(4, -6) \text{ e } \vec v\,(-2, 3); \qquad \vec u\,(2, 5) \text{ e } \vec v\,(3, 7); \qquad \vec u\,(0, 3) \text{ e } \vec v\,(0, -8).
Solução

Solução de Exercício 15.2.

det=4×3(2)×(6)=1212=0\det = 4 \times 3 - (-2) \times (-6) = 12 - 12 = 0: colineares (de fato, v=12u\vec v = -\frac12 \vec u).

det=2×73×5=10\det = 2 \times 7 - 3 \times 5 = -1 \neq 0: não são colineares.

det=0×(8)0×3=0\det = 0 \times (-8) - 0 \times 3 = 0: colineares (ambos verticais).

Exercício 15.3

Encontre uma equação cartesiana da reta que passa por A(2,1)A(2, 1) com vetor diretor u(3,1)\vec u\,(3, -1) e, em seguida, da reta que passa por B(0,4)B(0, 4) e C(2,0)C(2, 0).

Solução

Solução de Exercício 15.3.

Por A(2,1)A(2,1), direção (3,1)(3, -1): identificar (b,a)=(3,1)(-b, a) = (3, -1)a=1a = -1, b=3b = -3, logo x3y+c=0-x - 3y + c = 0; substituindo AA: 23+c=0-2 - 3 + c = 0, c=5c = 5. Multiplicando por 1-1: x+3y5=0x + 3y - 5 = 0.

Por B(0,4)B(0,4) e C(2,0)C(2,0): BC(2,4)\vect{BC}\,(2, -4), logo a=4a = -4, b=2b = -2: 4x2y+c=0-4x - 2y + c = 0; substituindo BB: 8+c=0-8 + c = 0, c=8c = 8. Simplificando por 2-2: 2x+y4=02x + y - 4 = 0. Confira com CC: 4+04=04 + 0 - 4 = 0.

Exercício 15.4

Para a reta d:3x2y+6=0d: 3x - 2y + 6 = 0, dê um vetor diretor, as interseções com os dois eixos coordenados e decida se os pontos P(2,6)P(2, 6) e Q(1,4)Q(1, 4) pertencem a dd.

Solução

Solução de Exercício 15.4.

Um vetor diretor é (b,a)=(2,3)(-b, a) = (2, 3). Interseções: x=0x = 0y=3y = 3, ponto (0,3)(0, 3); y=0y = 0x=2x = -2, ponto (2,0)(-2, 0). Para P(2,6)P(2,6): 3×22×6+6=03 \times 2 - 2 \times 6 + 6 = 0, logo PdP \in d. Para Q(1,4)Q(1,4): 38+6=103 - 8 + 6 = 1 \neq 0, logo QdQ \notin d.

Exercício 15.5 ★★

Os pontos A(1,2)A(1, 2), B(4,8)B(4, 8), C(2,4)C(-2, -4) são colineares? Mesma pergunta para D(0,1)D(0, 1), E(2,4)E(2, 4), F(5,9)F(5, 9).

Solução

Solução de Exercício 15.5.

AB(3,6)\vect{AB}\,(3, 6) e AC(3,6)\vect{AC}\,(-3, -6): det=3×(6)(3)×6=0\det = 3 \times (-6) - (-3) \times 6 = 0, logo AA, BB, CC são colineares.

DE(2,3)\vect{DE}\,(2, 3) e DF(5,8)\vect{DF}\,(5, 8): det=2×85×3=10\det = 2 \times 8 - 5 \times 3 = 1 \neq 0: DD, EE, FF não são colineares.

Exercício 15.6 ★★

Determine o ponto de interseção, se houver:

d:2x+y7=0  e  d:xy+1=0;e:x2y+3=0  e  e:2x+4y+1=0.d: 2x + y - 7 = 0 \ \text{ e }\ d': x - y + 1 = 0; \qquad e: x - 2y + 3 = 0 \ \text{ e }\ e': -2x + 4y + 1 = 0 .
Solução

Solução de Exercício 15.6.

Primeiro par: somando as duas equações, (2x+y7)+(xy+1)=3x6=0(2x + y - 7) + (x - y + 1) = 3x - 6 = 0, logo x=2x = 2 e então y=x+1=3y = x + 1 = 3: elas se encontram em (2,3)(2, 3) (verificação: 4+37=04 + 3 - 7 = 0).

Segundo par: abab=1×4(2)×(2)=0ab' - a'b = 1 \times 4 - (-2) \times (-2) = 0, logo as retas são paralelas; multiplicar ee por 2-22x+4y6=0-2x + 4y - 6 = 0, que difere de ee' (61-6 \neq 1): estritamente paralelas, sem interseção.

Exercício 15.7 ★★

Dê uma representação paramétrica da reta d:2xy+3=0d: 2x - y + 3 = 0 e uma equação cartesiana da reta {(1+2t, 3+t):tR}\bigl\{(1 + 2t,\ -3 + t) : t \in \R\bigr\}.

Solução

Solução de Exercício 15.7.

Para d:2xy+3=0d: 2x - y + 3 = 0: direção (b,a)=(1,2)(-b, a) = (1, 2), e o ponto (0,3)(0, 3) está em dd, logo d={(t, 3+2t):tR}d = \{(t,\ 3 + 2t) : t \in \R\}.

Para a reta paramétrica que passa por (1,3)(1, -3) com direção (2,1)(2, 1): a=1a = 1, b=2b = -2, logo x2y+c=0x - 2y + c = 0; substituindo (1,3)(1, -3): 1+6+c=01 + 6 + c = 0, c=7c = -7. Equação: x2y7=0x - 2y - 7 = 0 (confira com t=1t = 1, ponto (3,2)(3, -2): 3+47=03 + 4 - 7 = 0).

Exercício 15.8 ★★

Encontre a equação da reta que passa por P(1,2)P(1, -2) e é paralela a d:4x3y+2=0d: 4x - 3y + 2 = 0, e o valor de mm para o qual a reta mx+2y5=0mx + 2y - 5 = 0 é paralela a dd.

Solução

Solução de Exercício 15.8.

Uma reta paralela tem o mesmo par (a,b)(a, b): 4x3y+c=04x - 3y + c = 0; passando por P(1,2)P(1, -2): 4+6+c=04 + 6 + c = 0, logo c=10c = -10 e a reta é 4x3y10=04x - 3y - 10 = 0.

O paralelismo de mx+2y5=0mx + 2y - 5 = 0 com dd exige abab=4×2m×(3)=8+3m=0ab' - a'b = 4 \times 2 - m \times (-3) = 8 + 3m = 0, logo m=83m = -\frac83.

Exercício 15.9 ★★

Sejam A(1,0)A(-1, 0), B(3,2)B(3, 2) e C(1,4)C(1, -4). Encontre uma equação cartesiana da mediana do triângulo ABCABC que parte de CC (a reta que liga CC ao ponto médio de [AB][AB]).

Solução

Solução de Exercício 15.9.

O ponto médio de [AB][AB] é M ⁣(1+32,0+22)=(1,1)M\!\left(\frac{-1+3}{2}, \frac{0+2}{2}\right) = (1, 1). A mediana é a reta (CM)(CM) com C(1,4)C(1, -4): os dois pontos têm abscissa 11, de modo que a mediana é a reta vertical

x1=0.x - 1 = 0 .

Exercício 15.10 ★★

Para que valor (ou valores) do parâmetro mm os vetores u(m,2)\vec u\,(m, 2) e v(3,m1)\vec v\,(3, m - 1) são colineares?

Solução

Solução de Exercício 15.10.

det(u,v)=m(m1)3×2=m2m6\det(\vec u, \vec v) = m(m - 1) - 3 \times 2 = m^2 - m - 6. Ele se anula quando m2m6=0m^2 - m - 6 = 0: Δ=1+24=25\Delta = 1 + 24 = 25, raízes m=1±52m = \frac{1 \pm 5}{2}, isto é, m=3m = 3 ou m=2m = -2.

Exercício 15.11 ★★★

Seja ABCDABCD um paralelogramo, II o ponto médio de [AB][AB] e JJ o ponto definido por DJ=23DI\vect{DJ} = \frac23 \vect{DI}. Trabalhando no sistema de coordenadas em que A(0,0)A(0,0), B(1,0)B(1,0), D(0,1)D(0,1) (de modo que C(1,1)C(1,1)):

  1. Calcule as coordenadas de II e JJ.
  2. Mostre que AA, JJ e CC são colineares. (Um fato bonito: a reta (DI)(DI) corta a diagonal (AC)(AC) a um terço do caminho.)
Solução

Solução de Exercício 15.11.

1. I=(12,0)I = \left(\frac12, 0\right). Então DI=(120, 01)=(12,1)\vect{DI} = \left(\frac12 - 0,\ 0 - 1\right) = \left(\frac12, -1\right) e DJ=23DI=(13,23)\vect{DJ} = \frac23\vect{DI} = \left(\frac13, -\frac23\right), logo

J=D+DJ=(13, 13).J = D + \vect{DJ} = \left(\frac13,\ \frac13\right).

2. AJ(13,13)\vect{AJ}\left(\frac13, \frac13\right) e AC(1,1)\vect{AC}\,(1, 1): det=13×11×13=0\det = \frac13 \times 1 - 1 \times \frac13 = 0, logo AA, JJ, CC são colineares — na verdade, AJ=13AC\vect{AJ} = \frac13\vect{AC}: a reta (DI)(DI) corta a diagonal (AC)(AC) exatamente a um terço do seu comprimento a partir de AA.

15.7 Problema: Rotas de colisão e coordenadas espertas

Problema 15.1

Problema de fim de semana — cruzar trajetórias não é colidir: a aproximação mínima no mar e teoremas demonstrados escolhendo o referencial certo

As rotas retas de dois navios se cruzam — os navios têm de colidir? Só se chegarem ao cruzamento ao mesmo tempo: trajetórias são conjuntos de pontos, movimentos são paramétricos, e confundir as duas coisas já afundou navios de verdade. Este problema opera um pequeno serviço de controle de tráfego marítimo com retas paramétricas (Definição 15.13) e depois volta-se para a geometria pura com o outro superpoder das coordenadas: escolhê-las com esperteza, como no Exercício 15.11, para que os teoremas clássicos se demonstrem sozinhos.

Parte I — Retas, de três maneiras.

  1. Dê uma representação paramétrica da reta que passa por A(1,2)A(1, 2) com vetor diretor u(3,1)\vec u(3, -1) e depois elimine o parâmetro para obter uma equação cartesiana.
  2. Para a reta 2x5y+3=02x - 5y + 3 = 0: leia um vetor diretor (Teorema 15.9), encontre um ponto e escreva uma representação paramétrica.
  3. Calcule o ponto de interseção das duas retas das questões 1 e 2 (Método 15.16).
  4. Confirme com o determinante (Teorema 15.5) que essas duas retas tinham mesmo de se cruzar; mostre em seguida que 2x5y+3=02x - 5y + 3 = 0 e 4x+10y+1=0-4x + 10y + 1 = 0 são estritamente paralelas.
  5. A(2,1)A(2, 1), B(5,3)B(5, 3), C(11,7)C(11, 7) são colineares (Método 15.7)?

Parte II — O controle de tráfego marítimo. No instante tt (em horas), o navio PP está em (2t, 3+t)(2t,\ 3 + t) e o navio QQ em (10t, 2t1)(10 - t,\ 2t - 1) (distâncias em milhas náuticas).

  1. Encontre as equações cartesianas das duas trajetórias e calcule onde elas se cruzam.
  2. Em que instante cada navio passa pelo ponto de cruzamento? Os navios colidem? Enuncie o aviso geral em uma frase: trajetórias que se cruzam contra movimentos que se encontram.
  3. Calcule o quadrado da distância D2(t)D^2(t) entre os navios no instante tt e reduza-o a um trinômio do segundo grau em tt. Em que instante os navios ficam mais próximos, e a que distância chegam a estar (a tecnologia do vértice do Problema 10.1)?
  4. O regulamento exige uma separação de pelo menos 11 milha. Ela é violada? Se for, resolva D2(t)<1D^2(t) < 1 e dê a duração da violação.
  5. Explique por que, para quaisquer dois navios em rotas retas com velocidades constantes, D2(t)D^2(t) é sempre uma função do segundo grau em tt — de modo que o “ponto de aproximação mínima” é sempre um cálculo de vértice.
  6. Interceptação: uma lancha de patrulha parte da origem em t=0t = 0 com velocidade constante (a,b)(a, b) e deve encontrar o navio PP exatamente em t=3t = 3. Calcule o (a,b)(a, b) necessário e a velocidade da lancha.

Parte III — Coordenadas espertas. Trabalhe no referencial do Exercício 15.11: o paralelogramo ABCDABCD vira A(0,0)A(0,0), B(1,0)B(1,0), C(1,1)C(1,1), D(0,1)D(0,1); seja II o ponto médio de [AB][AB] e KK o ponto médio de [CD][CD].

  1. Calcule uma equação cartesiana da reta (DI)(DI).
  2. Intersecte (DI)(DI) com a diagonal (AC)(AC): recupere o fato do Exercício 15.11 — o corte fica exatamente a um terço do caminho ao longo da diagonal.
  3. Agora a reta (BK)(BK): encontre sua equação, intersecte-a com (AC)(AC) e conclua o teorema clássico completo: as cevianas (DI)(DI) e (BK)(BK) dividem a diagonal (AC)(AC) em três partes iguais.
  4. Por que foi legítimo demonstrar o teorema nesse referencial particular? (O que a escolha de coordenadas preserva e do que o enunciado trata?) Responda em duas ou três frases.
  5. Mais uma trissecção para praticar: seja EE o ponto médio de [BC][BC]. Onde a reta (AE)(AE) corta a outra diagonal, (DB)(DB)?

Parte IV — Enigmas de posição.

  1. As três retas x+y=4x + y = 4, 2xy=22x - y = 2, x2y=2x - 2y = -2 são concorrentes? (Intersecte duas e teste a terceira.)
  2. Para cada real mm, seja dmd_m a reta mxy+23m=0mx - y + 2 - 3m = 0. Mostre que toda dmd_m passa por um mesmo ponto fixo. (Agrupe os termos em mm.)
  3. Na família (dm)(d_m): qual membro é paralelo a y=2x+7y = 2x + 7? Qual passa pela origem?
  4. Final — os três trajes de uma reta: cartesiano (teste de pertinência em uma substituição), reduzido (coeficiente angular e gráfico à vista), paramétrico (movimento, horários, interceptação); o determinante como oráculo do paralelismo; e o referencial bem escolhido como fábrica de teoremas. Uma frase para cada.
Solução

Solução de Problema 15.1.

1. x=1+3tx = 1 + 3t, y=2ty = 2 - t. Da segunda, t=2yt = 2 - y; substituindo: x=1+3(2y)=73yx = 1 + 3(2 - y) = 7 - 3y: equação cartesiana x+3y7=0x + 3y - 7 = 0.

2. Para ax+by+c=0ax + by + c = 0, um vetor diretor é (b,a)(-b, a): aqui (5,2)(5, 2). Um ponto: y=1y = 1x=1x = 1: (1,1)(1, 1). Paramétrica: x=1+5tx = 1 + 5t, y=1+2ty = 1 + 2t.

3. De x=73yx = 7 - 3y em 2x5y+3=02x - 5y + 3 = 0: 146y5y+3=014 - 6y - 5y + 3 = 0, logo y=1711y = \frac{17}{11} e x=75111=2611x = 7 - \frac{51}{11} = \frac{26}{11}: o ponto (2611,1711)\left(\frac{26}{11}, \frac{17}{11}\right).

4. Direções (5,2)(5, 2) e (3,1)(3, -1): det=5×(1)2×3=110\det = 5 \times (-1) - 2 \times 3 = -11 \neq 0: concorrentes, como se encontrou. Para o segundo par: as direções (5,2)(5, 2) e (10,4)(10, 4) têm det=0\det = 0 (paralelas), e dobrar 2x5y+3=02x - 5y + 3 = 04x+10y6=04x+10y+1=0-4x + 10y - 6 = 0 \neq -4x + 10y + 1 = 0: estritamente paralelas.

5. AB(3,2)\vect{AB}(3, 2), AC(9,6)\vect{AC}(9, 6): det=1818=0\det = 18 - 18 = 0: colineares.

6. PP: de x=2tx = 2t e y=3+ty = 3 + t vem y=3+x2y = 3 + \frac x2. QQ: de x=10tx = 10 - t vem t=10xt = 10 - x, logo y=2(10x)1=192xy = 2(10 - x) - 1 = 19 - 2x. Cruzamento: 3+x2=192x3 + \frac x2 = 19 - 2xx=6.4x = 6.4, y=6.2y = 6.2: as trajetórias se cruzam em (6.4, 6.2)(6.4,\ 6.2).

7. PP passa ali quando 2t=6.42t = 6.4: t=3.2t = 3.2 h. QQ, quando 10t=6.410 - t = 6.4: t=3.6t = 3.6 h. Vinte e quatro minutos de diferença: nenhuma colisão. Aviso: uma carta mostra trajetórias; só os relógios paramétricos dizem se dois movimentos ocupam o mesmo ponto no mesmo instante.

8. D2(t)=(3t10)2+(4t)2=10t268t+116D^2(t) = (3t - 10)^2 + (4 - t)^2 = 10t^2 - 68t + 116: vértice em t=6820=3.4t = \frac{68}{20} = 3.4 h, onde D2=0.4D^2 = 0.4: aproximação mínima D=0.40.63D = \sqrt{0.4} \approx 0.63 milha em t=3.4t = 3.4.

9. Violada: 0.63<10.63 < 1. D2(t)<1D^2(t) < 1 lê-se 10t268t+115<010t^2 - 68t + 115 < 0: Δ=46244600=24\Delta = 4624 - 4600 = 24, raízes 68±2420=3.4±0.245\frac{68 \pm \sqrt{24}}{20} = 3.4 \pm 0.245: os navios ficam próximos demais de t3.16t \approx 3.16 a t3.64t \approx 3.64 — cerca de 2929 minutos de infração. Um deles precisa mudar de rota.

10. Cada coordenada de cada navio é uma função afim de tt, de modo que cada diferença de coordenadas é afim, e D2D^2 — uma soma de dois quadrados de funções afins — é do segundo grau (com coeficiente dominante não negativo). A aproximação mínima, portanto, é sempre lida em um vértice.

11. Encontrar PP em t=3t = 3, isto é, em (6,6)(6, 6): (3a,3b)=(6,6)(3a, 3b) = (6, 6)(a,b)=(2,2)(a, b) = (2, 2), velocidade 82.8\sqrt{8} \approx 2.8 nós.

12. D(0,1)D(0, 1), I(12,0)I\left(\frac12, 0\right): direção (12,1)\left(\frac12, -1\right), isto é, (1,2)(1, -2): equação 2x+y=12x + y = 1.

13. (AC)(AC): y=xy = x. Então 2x+x=12x + x = 1: x=13x = \frac13: o ponto (13,13)\left(\frac13, \frac13\right), a um terço do caminho de AA até CC.

14. B(1,0)B(1, 0), K(12,1)K\left(\frac12, 1\right): direção (12,1)\left(-\frac12, 1\right), equação 2x+y=22x + y = 2. Com y=xy = x: x=23x = \frac23: o ponto (23,23)\left(\frac23, \frac23\right). As duas cevianas cortam (AC)(AC) em seus dois pontos de trissecção: teorema demonstrado, duas vezes três linhas de aritmética.

15. Todo paralelogramo é levado ao quadrado unitário escolhendo-se AA como origem e AB\vect{AB}, AD\vect{AD} como unidades dos dois eixos. Essa escolha preserva tudo aquilo de que o teorema fala — pontos médios, colinearidade e razões ao longo de uma mesma reta (tudo exprimível com vetores e escalares) —, de modo que demonstrar o enunciado no quadrado o demonstra para todo paralelogramo. (Ela não transportaria comprimentos nem ângulos: esses o referencial distorce.)

16. E(1,12)E\left(1, \frac12\right): reta (AE)(AE): y=x2y = \frac x2. Diagonal (DB)(DB): de (0,1)(0,1) a (1,0)(1,0): y=1xy = 1 - x. Interseção: x2=1x\frac x2 = 1 - x: x=23x = \frac23: o ponto (23,13)\left(\frac23, \frac13\right) — de novo um ponto de trissecção, agora da outra diagonal. As cevianas dos pontos médios adoram terços.

17. As duas primeiras: x+y=4x + y = 4 e 2xy=22x - y = 2 dão 3x=63x = 6: (2,2)(2, 2). A terceira: 24=22 - 4 = -2: satisfeita. Concorrentes em (2,2)(2, 2).

18. mxy+23m=m(x3)+(2y)=0mx - y + 2 - 3m = m(x - 3) + (2 - y) = 0: para a equação valer para todo mm, tome x=3x = 3, y=2y = 2 — e, de fato, toda dmd_m contém (3,2)(3, 2). Um feixe de retas por um único ponto, uma reta para cada coeficiente angular mm.

19. Paralela a y=2x+7y = 2x + 7: coeficiente angular m=2m = 2, a reta 2xy4=02x - y - 4 = 0. Passando pela origem: 23m=02 - 3m = 0: m=23m = \frac23.

20. Cartesiana: substitua um ponto e a pertinência está respondida. Reduzida: coeficiente angular e coeficiente linear à vista, gráfico imediato. Paramétrica: o relógio já embutido — colisões, aproximação mínima, interceptação. O determinante: uma multiplicação em cruz e o paralelismo está decidido. O referencial escolhido: um paralelogramo vira um quadrado unitário, e um teorema clássico de trissecção vira três interseções de retas.