Matemática do ensino médio · Grades 10–12
22Derivadas e convexidade
A derivada mede a taxa de variação instantânea de uma função; é o coeficiente angular da reta tangente ao seu gráfico. Este capítulo revê e estende as regras de derivação, liga o sinal de à variação de e apresenta a convexidade, governada pela segunda derivada.
22.1 A derivada
Definição 22.1 (Derivada em um ponto)
Seja definida em um intervalo e seja . A função é derivável em se o quociente de diferenças
tem limite finito quando . Esse limite chama-se derivada de em e escreve-se . Se é derivável em todo ponto de , a função é a derivada de .
Definição 22.2 (Reta tangente)
Se é derivável em , a tangente à curva de no ponto é a reta de equação
Proposição 22.3
Uma função derivável em é contínua em . A recíproca é falsa.
Demonstração. Para pequeno, . Quando , o lado direito tende a , logo . Para a recíproca, é contínua em , mas seu quociente de diferenças em vale conforme o sinal de , e não tem limite. ∎
22.1.1 Regras de derivação
Proposição 22.4 (Operações)
Sejam deriváveis em e . Então , e são deriváveis em , assim como onde , e
Demonstração da regra do produto. Escreva o quociente de diferenças de em como
Quando , por continuidade (Proposição 22.3), de modo que o lado direito tende a . As outras regras se demonstram de modo análogo. ∎
Teorema 22.5 (Regra da cadeia)
Seja derivável em com valores em , e derivável em . Então é derivável em e
Em particular, para derivável:
Esboço da demonstração. Quando para pequeno, escreva
Quando , , de modo que o primeiro fator tende a e o segundo a . (Uma demonstração completa precisa tratar o caso em que para arbitrariamente pequeno; esse ponto técnico é tratado na graduação.) ∎
Exemplo 22.6
As derivadas usuais, válidas nos domínios naturais:
A primeira demonstra-se por indução a partir da regra do produto, e as duas últimas no Capítulo 24.
22.2 Variação e extremos
Teorema 22.7 (Sinal da derivada e variação)
Seja derivável em um intervalo .
- é crescente em se, e somente se, em .
- é decrescente em se, e somente se, em .
- Se em , exceto em um número finito de pontos onde se anula, então é estritamente crescente em .
Demonstração parcial. Se é crescente, todo quociente de diferenças é , e passar ao limite dá . As implicações recíprocas apoiam-se no teorema do valor médio, demonstrado na graduação; elas são admitidas neste nível. ∎
Definição 22.8 (Extremo local)
tem um máximo local em se para todo perto de ; os mínimos locais definem-se de modo simétrico.
Proposição 22.9 (Condição de primeira ordem)
Se é derivável em um intervalo aberto e tem um extremo local em , então . A recíproca é falsa ( em ).
Demonstração. Digamos que seja um máximo local. Para pequeno, , de modo que fazer dá ; para o quociente é , o que dá . Logo . ∎
Método 22.10 (Quadro de variação)
Para estudar uma função : determine seu domínio e os limites na fronteira; calcule e fatore-a; determine o sinal de em cada subintervalo; registre tudo em um quadro de variação, marcando os extremos; deduza o número de soluções de usando o teorema da bijeção (Teorema 21.15).
22.3 Convexidade
Definição 22.11 (Função convexa)
Uma função definida em um intervalo é convexa em se toda corda do seu gráfico fica acima do gráfico: para todos e ,
Ela é côncava se vale a desigualdade contrária ( convexa).
Teorema 22.12 (Convexidade e derivadas)
Seja derivável em um intervalo . São equivalentes:
Se é duas vezes derivável, isso também equivale a em .
Demonstração de (2) (3). Fixe e ponha , a diferença entre a curva e a tangente em . Então é derivável e . Se é crescente, em e em : decresce antes de e cresce depois, de modo que atinge seu mínimo , logo . As demais implicações são admitidas neste nível; a equivalência com segue do Teorema 22.7 aplicado a . ∎
Definição 22.13 (Ponto de inflexão)
Um ponto em que a curva de atravessa a sua tangente é um ponto de inflexão. Para duas vezes derivável, os pontos de inflexão são os pontos em que muda de sinal.
Exemplo 22.14
tem : é côncava em , convexa em , com ponto de inflexão na origem, onde a curva atravessa sua tangente (o eixo ).
Exemplo 22.15 (Desigualdades de convexidade)
A exponencial é convexa em (sua segunda derivada é ela mesma, positiva). Sua tangente em é , de modo que
Essas desigualdades da reta tangente são um produto padrão da convexidade.
Método 22.16 (Usar a convexidade)
- Para demonstrar uma desigualdade : identifique a reta como tangente de uma convexa e invoque o Teorema 22.12(3).
- Para localizar pontos de inflexão: resolva e verifique que muda de sinal ali.
- Em um quadro de variação, a convexidade refina o esboço da curva (para que lado ela se curva).
22.4 Exercícios
Exercício 22.1 ★
Derive as funções seguintes em seus domínios:
Solução
Solução de Exercício 22.1.
.
Regra do quociente: .
Regra da cadeia com : .
Regra da cadeia com : .
Exercício 22.2 ★
Dê a equação da tangente à curva de no ponto de abscissa e determine a posição da curva em relação a essa tangente.
Exercício 22.3 ★
Usando a definição de derivada, calcule
Solução
Solução de Exercício 22.3.
Os dois são quocientes de diferenças. Com em : , de modo que o limite é . Com em : , de modo que o limite é .
Exercício 22.4 ★★
Estude a função em seu domínio: limites, derivada, quadro de variação, extremos locais.
Solução
Solução de Exercício 22.4.
Domínio . Limites: em , ; em , o numerador e o denominador , de modo que ; a reta é assíntota vertical.
Logo em e , e em e . A função cresce até um máximo local , decresce até , salta para depois da assíntota, decresce até um mínimo local e depois cresce.
Exercício 22.5 ★★
Uma caixa sem tampa é feita a partir de uma folha quadrada de papelão de lado cm, recortando-se quadrados iguais de lado nos cantos e dobrando as laterais. Determine o que maximiza o volume da caixa.
Solução
Solução de Exercício 22.5.
Para , a caixa tem base quadrada de lado e altura , de modo que
. Em , , de modo que tem o sinal de : positiva antes de e negativa depois. O volume é máximo para cm, dando .
Exercício 22.6 ★★
Seja .
- Calcule e determine os intervalos de convexidade e os pontos de inflexão de .
- Mostre que a tangente no ponto de inflexão de abscissa atravessa a curva ali.
Solução
Solução de Exercício 22.6.
1. e . Assim, em e em (convexa), e em (côncava). muda de sinal em e em : os dois são pontos de inflexão.
2. Em : , , tangente . A diferença é
Como , divide ; a divisão dá . Perto de , , de modo que tem o sinal de : negativo antes de e positivo depois. A curva atravessa a tangente: é de fato um ponto de inflexão.
Exercício 22.7 ★★
Usando uma desigualdade da reta tangente, mostre que, para todo ,
e identifique quando vale a igualdade. (Sugestão: a raiz quadrada é côncava.)
Exercício 22.8 ★★★
Seja convexa e derivável em , e suponha que se anule em algum ponto . Mostre que é o mínimo global de em .
Exercício 22.9 ★★★
Mostre que, entre todos os retângulos de perímetro fixo , o quadrado tem a maior área. Mostre em seguida que, entre todos os retângulos de área fixa , o quadrado tem o menor perímetro, e explique como as duas afirmações se relacionam.
Solução
Solução de Exercício 22.9.
Perímetro fixo. Um retângulo de lados e () tem área . Então anula-se em , sendo positiva antes e negativa depois: o máximo está em , onde os dois lados valem — um quadrado.
Área fixa. Lados e dão perímetro , com , negativa para e positiva depois: mínimo em , de novo um quadrado.
Relação. As duas afirmações são duais. Suponha que um retângulo não quadrado minimizasse o perímetro com área fixa ; o quadrado de mesmo perímetro teria área pela primeira afirmação, e reduzi-lo por homotetia até a área diminuiria estritamente seu perímetro — contradizendo a minimalidade. Cada afirmação, portanto, implica a outra.
22.5 Problema: O cálculo do salva-vidas
Problema 22.1
Problema de fim de semana — o caminho de resgate mais rápido obedece à lei de Snell da luz, a convexidade certifica todo ótimo, e a lata de refrigerante ideal é exatamente tão alta quanto larga
Uma salva-vidas avista um banhista em apuros — na diagonal ao longo da praia, dentro d’água. Correr é mais rápido que nadar: a linha reta não é o caminho mais rápido. O trajeto que minimiza o tempo se dobra na beira d’água, e sua lei de refração é precisamente a lei pela qual a luz se refrata ao entrar na água: a natureza também deriva. Este problema treina a regra da cadeia (Teorema 22.5), executa o resgate, colhe as desigualdades da convexidade (Teorema 22.12) e projeta uma lata.
Parte I — Fluência com a regra da cadeia.
- Derive: ; ; .
- Dê a tangente a em .
- Monte o quadro de variação de em (extremos incluídos).
- Para : quadro de variação e quadro de convexidade (), com o ponto de inflexão (Definição 22.13).
- Calcule a tangente a em seu ponto de inflexão e mostre que : o que a mudança de sinal diz sobre o modo como a tangente encontra a curva em uma inflexão?
Parte II — O resgate. Beira d’água ao longo do eixo ; a salva-vidas está na areia, em , e o banhista espera em (em metros). Ela corre a m/s na areia, nada a m/s e entra na água em um ponto à sua escolha.
- Modelagem: exprima o tempo total de resgate e diga por que só merece consideração.
- Derive (a regra da cadeia em ação — duas vezes).
Seja o ângulo do trecho de corrida com a perpendicular à beira d’água, e o do trecho de natação. Mostre que e que a condição se lê
— a lei de Snell, com as duas velocidades no lugar das velocidades da luz no ar e na água.
- O segmento reto cruza a beira d’água em . Calcule , (correr pela praia e depois nadar em linha reta) e : a reta geométrica é a mais rápida? Alguma das estratégias extremas é?
- Localize o ponto ótimo de entrada por dicotomia em (ele é m): dê com precisão de metros e o tempo recorde com precisão de décimos de segundo. Quanto a curvatura ótima economiza em relação à linha reta?
- Por que o ponto crítico é um mínimo global? (Cada parcela de é convexa — admita que uma soma de funções convexas é convexa — e aplique o Exercício 22.8.)
- O princípio de Fermat afirma que a luz percorre sempre o caminho de menor tempo. Deduza por que um raio de luz se dobra exatamente na superfície ao entrar na água (onde a luz é mais lenta) e nomeie a observação cotidiana que isso explica sobre um lápis dentro de um copo com água.
Parte III — A colheita da convexidade.
- Mostre que é convexa e demonstre duas vezes a desigualdade do ponto médio : uma vez pela convexidade, outra expandindo .
- Deduza que a média quadrática domina a média aritmética e monte a cadeia completa da série — harmônica geométrica aritmética quadrática —, verificando as quatro em , .
- Tangente por baixo da curva: é convexa em ; escreva sua tangente em e deduza a desigualdade para todo . Onde ela é igualdade?
- Inflexão em campo: durante uma epidemia, o número acumulado de casos segue uma curva em S. O que acontece no seu ponto de inflexão, e por que essa data é a que os epidemiologistas aguardam? Relacione com o sinal da segunda derivada de cada lado.
Parte IV — A lata ideal. Uma lata cilíndrica deve conter cm com o mínimo de metal: superfície , com a restrição .
- Exprima , derive e calcule o raio e a altura ótimos para (com precisão de milímetros).
- Demonstre a elegante lei geral: no ótimo, — a lata ideal é exatamente tão alta quanto larga.
- Verifique que e conclua (de novo pelo Exercício 22.8) que o ótimo é global. As latas de refrigerante reais são visivelmente mais altas que largas: aponte uma razão não matemática.
- Final — a linha de montagem da otimização: modelar, perguntar à derivada, resolver os pontos críticos, certificar com convexidade ou com um quadro, interpretar. Percorra a lista para a salva-vidas, para a lata e para a viga mais forte do ano 11 (Problema 12.1) — e diga o que o princípio de Fermat afirma sobre quem mais percorre essa mesma linha de montagem.
Solução
Solução de Problema 22.1.
1. ; ; .
2. , coeficiente angular : tangente , isto é, .
3. : negativa, positiva, negativa ao atravessar e : mínimo , máximo , com assíntota horizontal dos dois lados.
4. : crescente, decrescente, crescente ao atravessar e ; máximo local , mínimo local . : côncava antes de e convexa depois: inflexão em .
5. Tangente em : coeficiente angular : . Diferença: , que muda de sinal em : a tangente atravessa a curva — o comportamento característico de um ponto de inflexão, em que a curva troca de lado.
6. . Entrar antes de ou depois de alonga os dois trechos: não faz sentido.
7. .
8. No triângulo da corrida, o lado ao longo da praia mede e a hipotenusa : o seno do ângulo com a perpendicular é exatamente o quociente deles (cateto oposto sobre hipotenusa); do mesmo modo, . Então lê-se — a lei de Snell com velocidades e .
9. s; s; s. A linha reta perde até para “correr o caminho todo e depois nadar em linha reta” — e as duas perdem para o trajeto refratado.
10. A dicotomia em (negativa em , positiva em ) converge para m, com s: cerca de um segundo mais rápido que a linha reta — a diferença entre um resgate e uma tragédia.
11. O tempo de cada trecho é função convexa de (um ramo de ), de modo que é convexa, e um ponto crítico de uma função convexa e derivável é seu mínimo global (Exercício 22.8): não é apenas estacionário, é imbatível.
12. A luz é mais lenta na água; pelo princípio de Fermat, o caminho ar-água mais rápido se dobra na superfície exatamente segundo a lei de Snell — assim, os raios de um lápis submerso chegam ao olho dobrados e o cérebro, que extrapola em linha reta, vê o lápis quebrado na linha d’água.
13. : convexa. Convexidade no ponto médio: , que é a afirmação. Na mão: .
14. Extraindo raízes quadradas (função crescente) na questão 13: . Cadeia completa em : harmônica ; geométrica ; aritmética ; quadrática : cada média se curva diante da seguinte.
15. Tangente a em : valor , coeficiente angular : . Curvas convexas ficam acima de suas tangentes (Teorema 22.12): para todo , com igualdade exatamente no ponto de contato .
16. Na inflexão, o número diário de casos (a derivada) atinge o pico: o crescimento deixa de acelerar e começa a desacelerar — o primeiro sinal matemático de que a onda está virando, muito antes de os próprios números caírem. Antes dela, (cada dia pior que o anterior); depois dela, (ainda crescendo, mas mais devagar).
17. dá : cm, e cm.
18. no ótimo: a altura é igual ao diâmetro, qualquer que seja o volume.
19. : convexa, de modo que o raio crítico é o mínimo global. As latas reais são mais altas para a pegada, o empilhamento, a presença na prateleira e o metal mais grosso do topo e do fundo — a otimização sempre minimiza exatamente o que se escreveu, e não o que se quis dizer.
20. Salva-vidas: modelar , derivar, Snell, convexidade, um segundo economizado. Lata: modelar , derivar, , convexidade, metal economizado. Viga (Problema 12.1): modelar , derivar, , quadro, rigidez conquistada. E, pelo princípio de Fermat, a própria luz percorre essa linha de montagem em cada superfície que encontra — a natureza foi a primeira otimizadora.