Mathematics · Livro 2 · Grades 10–12

Matemática do ensino médio

Matemática do ensino médio · Grades 10–12

22Derivadas e convexidade

A derivada mede a taxa de variação instantânea de uma função; é o coeficiente angular da reta tangente ao seu gráfico. Este capítulo revê e estende as regras de derivação, liga o sinal de ff' à variação de ff e apresenta a convexidade, governada pela segunda derivada.

22.1 A derivada

Definição 22.1 (Derivada em um ponto)

Seja ff definida em um intervalo II e seja aIa \in I. A função ff é derivável em aa se o quociente de diferenças

f(a+h)f(a)h\frac{f(a+h) - f(a)}{h}

tem limite finito quando h0h \to 0. Esse limite chama-se derivada de ff em aa e escreve-se f(a)f'(a). Se ff é derivável em todo ponto de II, a função f ⁣:xf(x)f' \colon x \mapsto f'(x) é a derivada de ff.

Definição 22.2 (Reta tangente)

Se ff é derivável em aa, a tangente à curva de ff no ponto (a,f(a))(a, f(a)) é a reta de equação

y=f(a)+f(a)(xa).y = f(a) + f'(a)(x - a).
À medida que h diminui, a secante por A = (a, f(a)) e (a+h, f(a+h)) (laranja) gira rumo à tangente em A (vermelha): seu coeficiente angular f(a+h)-f(a)/h tende a f'(a).
À medida que hh diminui, a secante por A=(a,f(a))A = (a, f(a)) e (a+h,f(a+h))(a+h, f(a+h)) (laranja) gira rumo à tangente em AA (vermelha): seu coeficiente angular f(a+h)f(a)h\frac{f(a+h)-f(a)}{h} tende a f(a)f'(a).

Proposição 22.3

Uma função derivável em aa é contínua em aa. A recíproca é falsa.

Demonstração. Para h0h \neq 0 pequeno, f(a+h)f(a)=hf(a+h)f(a)hf(a+h) - f(a) = h \cdot \frac{f(a+h)-f(a)}{h}. Quando h0h \to 0, o lado direito tende a 0×f(a)=00 \times f'(a) = 0, logo f(a+h)f(a)f(a+h) \to f(a). Para a recíproca, xxx \mapsto \abs{x} é contínua em 00, mas seu quociente de diferenças em 00 vale hh=±1\frac{\abs h}{h} = \pm 1 conforme o sinal de hh, e não tem limite.

22.1.1 Regras de derivação

Proposição 22.4 (Operações)

Sejam u,vu, v deriváveis em II e λR\lambda \in \R. Então u+vu + v, λu\lambda u e uvuv são deriváveis em II, assim como uv\frac{u}{v} onde v0v \neq 0, e

(u+v)=u+v,(λu)=λu,(uv)=uv+uv,(uv)=uvuvv2.(u+v)' = u' + v', \quad (\lambda u)' = \lambda u', \quad (uv)' = u'v + uv', \quad \left(\frac{u}{v}\right)' = \frac{u'v - uv'}{v^2}.

Demonstração da regra do produto. Escreva o quociente de diferenças de uvuv em aa como

u(a+h)v(a+h)u(a)v(a)h=u(a+h)u(a)hv(a+h)+u(a)v(a+h)v(a)h.\frac{u(a+h)v(a+h) - u(a)v(a)}{h} = \frac{u(a+h) - u(a)}{h}\,v(a+h) + u(a)\,\frac{v(a+h) - v(a)}{h}.

Quando h0h \to 0, v(a+h)v(a)v(a+h) \to v(a) por continuidade (Proposição 22.3), de modo que o lado direito tende a u(a)v(a)+u(a)v(a)u'(a)v(a) + u(a)v'(a). As outras regras se demonstram de modo análogo.

Teorema 22.5 (Regra da cadeia)

Seja uu derivável em II com valores em JJ, e gg derivável em JJ. Então gug \circ u é derivável em II e

(gu)=(gu)u.(g \circ u)' = (g' \circ u) \cdot u' .

Em particular, para uu derivável:

(un)=nuun1 (nZ),(u)=u2u (u>0),(eu)=ueu.(u^n)' = n\,u'\,u^{n-1} \ (n \in \Z), \qquad \left(\sqrt{u}\right)' = \frac{u'}{2\sqrt{u}} \ (u > 0), \qquad \left(\eu^{u}\right)' = u'\,\eu^{u}.

Esboço da demonstração. Quando u(a+h)u(a)u(a+h) \neq u(a) para hh pequeno, escreva

g(u(a+h))g(u(a))h=g(u(a+h))g(u(a))u(a+h)u(a)u(a+h)u(a)h.\frac{g(u(a+h)) - g(u(a))}{h} = \frac{g(u(a+h)) - g(u(a))}{u(a+h) - u(a)} \cdot \frac{u(a+h) - u(a)}{h}.

Quando h0h \to 0, u(a+h)u(a)u(a+h) \to u(a), de modo que o primeiro fator tende a g(u(a))g'(u(a)) e o segundo a u(a)u'(a). (Uma demonstração completa precisa tratar o caso em que u(a+h)=u(a)u(a+h) = u(a) para hh arbitrariamente pequeno; esse ponto técnico é tratado na graduação.)

Exemplo 22.6

As derivadas usuais, válidas nos domínios naturais:

(xn)=nxn1,(1x)=1x2,(x)=12x,(cosx)=sinx,(sinx)=cosx.(x^n)' = nx^{n-1}, \quad \left(\frac{1}{x}\right)' = -\frac{1}{x^2}, \quad (\sqrt{x})' = \frac{1}{2\sqrt{x}}, \quad (\cos x)' = -\sin x, \quad (\sin x)' = \cos x .

A primeira demonstra-se por indução a partir da regra do produto, e as duas últimas no Capítulo 24.

22.2 Variação e extremos

Teorema 22.7 (Sinal da derivada e variação)

Seja ff derivável em um intervalo II.

  1. ff é crescente em II se, e somente se, f0f' \geq 0 em II.
  2. ff é decrescente em II se, e somente se, f0f' \leq 0 em II.
  3. Se f>0f' > 0 em II, exceto em um número finito de pontos onde se anula, então ff é estritamente crescente em II.

Demonstração parcial. Se ff é crescente, todo quociente de diferenças f(a+h)f(a)h\frac{f(a+h)-f(a)}{h} é 0\geq 0, e passar ao limite dá f(a)0f'(a) \geq 0. As implicações recíprocas apoiam-se no teorema do valor médio, demonstrado na graduação; elas são admitidas neste nível.

Definição 22.8 (Extremo local)

ff tem um máximo local em aa se f(x)f(a)f(x) \leq f(a) para todo xx perto de aa; os mínimos locais definem-se de modo simétrico.

Proposição 22.9 (Condição de primeira ordem)

Se ff é derivável em um intervalo aberto II e tem um extremo local em aIa \in I, então f(a)=0f'(a) = 0. A recíproca é falsa (f(x)=x3f(x) = x^3 em a=0a = 0).

Demonstração. Digamos que aa seja um máximo local. Para h>0h > 0 pequeno, f(a+h)f(a)h0\frac{f(a+h)-f(a)}{h} \leq 0, de modo que fazer h0+h \to 0^+f(a)0f'(a) \leq 0; para h<0h < 0 o quociente é 0\geq 0, o que dá f(a)0f'(a) \geq 0. Logo f(a)=0f'(a) = 0.

Em um extremo local no interior de um intervalo aberto, a tangente (laranja) é horizontal: f'(a) = 0. Aqui f(x) = x3 - 3x, com máximo local em -1 e mínimo local em 1.
Em um extremo local no interior de um intervalo aberto, a tangente (laranja) é horizontal: f(a)=0f'(a) = 0. Aqui f(x)=x33xf(x) = x^3 - 3x, com máximo local em 1-1 e mínimo local em 11.

Método 22.10 (Quadro de variação)

Para estudar uma função ff: determine seu domínio e os limites na fronteira; calcule ff' e fatore-a; determine o sinal de ff' em cada subintervalo; registre tudo em um quadro de variação, marcando os extremos; deduza o número de soluções de f(x)=kf(x) = k usando o teorema da bijeção (Teorema 21.15).

22.3 Convexidade

Definição 22.11 (Função convexa)

Uma função ff definida em um intervalo II é convexa em II se toda corda do seu gráfico fica acima do gráfico: para todos a,bIa, b \in I e t[0,1]t \in \intcc{0}{1},

f((1t)a+tb)(1t)f(a)+tf(b).f\bigl((1-t)a + t b\bigr) \leq (1-t) f(a) + t f(b).

Ela é côncava se vale a desigualdade contrária (f-f convexa).

Uma função convexa: toda corda (vermelha) fica acima do gráfico, e o gráfico fica acima de cada uma de suas tangentes (laranja). O segmento tracejado mostra a diferença entre f ((1-t)a+tb ) e (1-t)f(a)+tf(b).
Uma função convexa: toda corda (vermelha) fica acima do gráfico, e o gráfico fica acima de cada uma de suas tangentes (laranja). O segmento tracejado mostra a diferença entre f((1t)a+tb)f\bigl((1-t)a+tb\bigr) e (1t)f(a)+tf(b)(1-t)f(a)+tf(b).

Teorema 22.12 (Convexidade e derivadas)

Seja ff derivável em um intervalo II. São equivalentes:

  1. ff é convexa em II;
  2. ff' é crescente em II;
  3. o gráfico de ff fica acima de cada uma de suas tangentes.

Se ff é duas vezes derivável, isso também equivale a f0f'' \geq 0 em II.

Demonstração de (2) \Rightarrow (3). Fixe aIa \in I e ponha g(x)=f(x)f(a)f(a)(xa)g(x) = f(x) - f(a) - f'(a)(x-a), a diferença entre a curva e a tangente em aa. Então gg é derivável e g(x)=f(x)f(a)g'(x) = f'(x) - f'(a). Se ff' é crescente, g0g' \leq 0 em I(,a]I \cap \intoc{-\infty}{a} e g0g' \geq 0 em I[a,+)I \cap \intco{a}{+\infty}: gg decresce antes de aa e cresce depois, de modo que gg atinge seu mínimo g(a)=0g(a) = 0, logo g0g \geq 0. As demais implicações são admitidas neste nível; a equivalência com f0f'' \geq 0 segue do Teorema 22.7 aplicado a ff'.

Definição 22.13 (Ponto de inflexão)

Um ponto em que a curva de ff atravessa a sua tangente é um ponto de inflexão. Para ff duas vezes derivável, os pontos de inflexão são os pontos em que ff'' muda de sinal.

Exemplo 22.14

f(x)=x3f(x) = x^3 tem f(x)=6xf''(x) = 6x: ff é côncava em (,0]\intoc{-\infty}{0}, convexa em [0,+)\intco{0}{+\infty}, com ponto de inflexão na origem, onde a curva atravessa sua tangente (o eixo xx).

O ponto de inflexão de x x3 na origem: a curva atravessa sua tangente (laranja), côncava à esquerda e convexa à direita.
O ponto de inflexão de xx3x \mapsto x^3 na origem: a curva atravessa sua tangente (laranja), côncava à esquerda e convexa à direita.

Exemplo 22.15 (Desigualdades de convexidade)

A exponencial é convexa em R\R (sua segunda derivada é ela mesma, positiva). Sua tangente em 00 é y=1+xy = 1 + x, de modo que

ex1+xpara todo xR.\eu^x \geq 1 + x \quad \text{para todo } x \in \R .

Essas desigualdades da reta tangente são um produto padrão da convexidade.

Método 22.16 (Usar a convexidade)

22.4 Exercícios

Exercício 22.1

Derive as funções seguintes em seus domínios:

f(x)=x35x+2,g(x)=xx2+1,h(x)=(2x+1)5,k(x)=x2+1.f(x) = x^3 - 5x + 2, \quad g(x) = \frac{x}{x^2+1}, \quad h(x) = (2x+1)^5, \quad k(x) = \sqrt{x^2 + 1}.
Solução

Solução de Exercício 22.1.

f(x)=3x25f'(x) = 3x^2 - 5.

Regra do quociente: g(x)=(x2+1)x2x(x2+1)2=1x2(x2+1)2g'(x) = \dfrac{(x^2+1) - x\cdot 2x}{(x^2+1)^2} = \dfrac{1 - x^2}{(x^2+1)^2}.

Regra da cadeia com u=2x+1u = 2x+1: h(x)=52(2x+1)4=10(2x+1)4h'(x) = 5 \cdot 2 \cdot (2x+1)^4 = 10(2x+1)^4.

Regra da cadeia com u=x2+1u = x^2 + 1: k(x)=2x2x2+1=xx2+1k'(x) = \dfrac{2x}{2\sqrt{x^2+1}} = \dfrac{x}{\sqrt{x^2+1}}.

Exercício 22.2

Dê a equação da tangente à curva de f(x)=x23x+1f(x) = x^2 - 3x + 1 no ponto de abscissa a=2a = 2 e determine a posição da curva em relação a essa tangente.

Solução

Solução de Exercício 22.2.

f(x)=2x3f'(x) = 2x - 3, logo f(2)=1f(2) = -1 e f(2)=1f'(2) = 1: a tangente é y=1+(x2)=x3y = -1 + (x - 2) = x - 3. A diferença é

f(x)(x3)=x24x+4=(x2)20,f(x) - (x - 3) = x^2 - 4x + 4 = (x-2)^2 \geq 0 ,

de modo que a curva fica acima da tangente em toda parte, tocando-a apenas em x=2x = 2 (como se esperava: ff é convexa).

Exercício 22.3

Usando a definição de derivada, calcule

limx0(1+x)1001xelimh04+h2h.\lim_{x \to 0} \frac{(1+x)^{100} - 1}{x} \qquad\text{e}\qquad \lim_{h \to 0} \frac{\sqrt{4+h} - 2}{h}.
Solução

Solução de Exercício 22.3.

Os dois são quocientes de diferenças. Com f(x)=(1+x)100f(x) = (1+x)^{100} em 00: f(x)=100(1+x)99f'(x) = 100(1+x)^{99}, de modo que o limite é f(0)=100f'(0) = 100. Com g(x)=xg(x) = \sqrt{x} em 44: g(x)=12xg'(x) = \frac{1}{2\sqrt{x}}, de modo que o limite é g(4)=14g'(4) = \frac14.

Exercício 22.4 ★★

Estude a função f(x)=x2+3x1f(x) = \dfrac{x^2 + 3}{x - 1} em seu domínio: limites, derivada, quadro de variação, extremos locais.

Solução

Solução de Exercício 22.4.

Domínio R{1}\R \setminus \{1\}. Limites: em ±\pm\infty, f(x)x±f(x) \sim x \to \pm\infty; em 1±1^\pm, o numerador 4>0\to 4 > 0 e o denominador 0±\to 0^\pm, de modo que f±f \to \pm\infty; a reta x=1x = 1 é assíntota vertical.

f(x)=2x(x1)(x2+3)(x1)2=x22x3(x1)2=(x3)(x+1)(x1)2.f'(x) = \frac{2x(x-1) - (x^2+3)}{(x-1)^2} = \frac{x^2 - 2x - 3}{(x-1)^2} = \frac{(x-3)(x+1)}{(x-1)^2}.

Logo f>0f' > 0 em (,1)\intoo{-\infty}{-1} e (3,+)\intoo{3}{+\infty}, e f<0f' < 0 em (1,1)\intoo{-1}{1} e (1,3)\intoo{1}{3}. A função cresce até um máximo local f(1)=2f(-1) = -2, decresce até -\infty, salta para ++\infty depois da assíntota, decresce até um mínimo local f(3)=6f(3) = 6 e depois cresce.

Exercício 22.5 ★★

Uma caixa sem tampa é feita a partir de uma folha quadrada de papelão de lado 3030\,cm, recortando-se quadrados iguais de lado xx nos cantos e dobrando as laterais. Determine o xx que maximiza o volume da caixa.

Solução

Solução de Exercício 22.5.

Para x(0,15)x \in \intoo{0}{15}, a caixa tem base quadrada de lado 302x30 - 2x e altura xx, de modo que

V(x)=x(302x)2.V(x) = x(30 - 2x)^2 .

V(x)=(302x)2+x2(302x)(2)=(302x)(302x4x)=(302x)(306x)V'(x) = (30-2x)^2 + x \cdot 2(30-2x)(-2) = (30-2x)(30 - 2x - 4x) = (30-2x)(30-6x). Em (0,15)\intoo{0}{15}, 302x>030 - 2x > 0, de modo que VV' tem o sinal de 306x30 - 6x: positiva antes de x=5x = 5 e negativa depois. O volume é máximo para x=5x = 5 cm, dando V(5)=5×202=2000 cm3V(5) = 5 \times 20^2 = 2000\ \text{cm}^3.

Exercício 22.6 ★★

Seja f(x)=x44x3+10f(x) = x^4 - 4x^3 + 10.

  1. Calcule ff'' e determine os intervalos de convexidade e os pontos de inflexão de ff.
  2. Mostre que a tangente no ponto de inflexão de abscissa 22 atravessa a curva ali.
Solução

Solução de Exercício 22.6.

1. f(x)=4x312x2f'(x) = 4x^3 - 12x^2 e f(x)=12x224x=12x(x2)f''(x) = 12x^2 - 24x = 12x(x-2). Assim, f>0f'' > 0 em (,0)\intoo{-\infty}{0} e em (2,+)\intoo{2}{+\infty} (convexa), e f<0f'' < 0 em (0,2)\intoo{0}{2} (côncava). ff'' muda de sinal em 00 e em 22: os dois são pontos de inflexão.

2. Em a=2a = 2: f(2)=1632+10=6f(2) = 16 - 32 + 10 = -6, f(2)=3248=16f'(2) = 32 - 48 = -16, tangente y=616(x2)=16x+26y = -6 - 16(x-2) = -16x + 26. A diferença é

g(x)=f(x)+16x26=x44x3+16x16.g(x) = f(x) + 16x - 26 = x^4 - 4x^3 + 16x - 16 .

Como g(2)=g(2)=g(2)=0g(2) = g'(2) = g''(2) = 0, (x2)3(x-2)^3 divide gg; a divisão dá g(x)=(x2)3(x+2)g(x) = (x-2)^3(x+2). Perto de x=2x = 2, x+2>0x + 2 > 0, de modo que gg tem o sinal de (x2)3(x-2)^3: negativo antes de 22 e positivo depois. A curva atravessa a tangente: 22 é de fato um ponto de inflexão.

Exercício 22.7 ★★

Usando uma desigualdade da reta tangente, mostre que, para todo x>0x > 0,

xx+12,\sqrt{x} \leq \frac{x + 1}{2},

e identifique quando vale a igualdade. (Sugestão: a raiz quadrada é côncava.)

Solução

Solução de Exercício 22.7.

A função f(x)=xf(x) = \sqrt{x} satisfaz f(x)=14x3/2<0f''(x) = -\frac{1}{4}x^{-3/2} < 0 em (0,+)\intoo{0}{+\infty}: ela é côncava, de modo que seu gráfico fica abaixo de cada tangente. A tangente em a=1a = 1 é

y=f(1)+f(1)(x1)=1+12(x1)=x+12,y = f(1) + f'(1)(x - 1) = 1 + \tfrac12 (x-1) = \frac{x+1}{2},

donde xx+12\sqrt{x} \leq \frac{x+1}{2} para todo x>0x > 0. A igualdade significa que a curva toca a tangente, o que só acontece no ponto de tangência x=1x = 1. (Equivalentemente: (x1)20\left(\sqrt x - 1\right)^2 \geq 0.)

Exercício 22.8 ★★★

Seja ff convexa e derivável em R\R, e suponha que ff' se anule em algum ponto aa. Mostre que f(a)f(a) é o mínimo global de ff em R\R.

Solução

Solução de Exercício 22.8.

Pelo Teorema 22.12, o gráfico de uma função convexa e derivável fica acima de cada uma de suas tangentes. A tangente em aa é horizontal (f(a)=0f'(a) = 0), de equação y=f(a)y = f(a). Logo f(x)f(a)f(x) \geq f(a) para todo xRx \in \R: f(a)f(a) é o mínimo global.

Exercício 22.9 ★★★

Mostre que, entre todos os retângulos de perímetro fixo pp, o quadrado tem a maior área. Mostre em seguida que, entre todos os retângulos de área fixa AA, o quadrado tem o menor perímetro, e explique como as duas afirmações se relacionam.

Solução

Solução de Exercício 22.9.

Perímetro fixo. Um retângulo de lados xx e p2x\frac{p}{2} - x (0<x<p20 < x < \frac p2) tem área S(x)=x(p2x)S(x) = x\left(\frac p2 - x\right). Então S(x)=p22xS'(x) = \frac p2 - 2x anula-se em x=p4x = \frac p4, sendo positiva antes e negativa depois: o máximo está em x=p4x = \frac{p}{4}, onde os dois lados valem p4\frac p4 — um quadrado.

Área fixa. Lados xx e Ax\frac Ax dão perímetro P(x)=2(x+Ax)P(x) = 2\left(x + \frac Ax\right), com P(x)=2(1Ax2)P'(x) = 2\left(1 - \frac{A}{x^2}\right), negativa para x<Ax < \sqrt A e positiva depois: mínimo em x=Ax = \sqrt{A}, de novo um quadrado.

Relação. As duas afirmações são duais. Suponha que um retângulo não quadrado minimizasse o perímetro com área fixa AA; o quadrado de mesmo perímetro teria área >A> A pela primeira afirmação, e reduzi-lo por homotetia até a área AA diminuiria estritamente seu perímetro — contradizendo a minimalidade. Cada afirmação, portanto, implica a outra.

22.5 Problema: O cálculo do salva-vidas

Problema 22.1

Problema de fim de semana — o caminho de resgate mais rápido obedece à lei de Snell da luz, a convexidade certifica todo ótimo, e a lata de refrigerante ideal é exatamente tão alta quanto larga

Uma salva-vidas avista um banhista em apuros — na diagonal ao longo da praia, dentro d’água. Correr é mais rápido que nadar: a linha reta não é o caminho mais rápido. O trajeto que minimiza o tempo se dobra na beira d’água, e sua lei de refração é precisamente a lei pela qual a luz se refrata ao entrar na água: a natureza também deriva. Este problema treina a regra da cadeia (Teorema 22.5), executa o resgate, colhe as desigualdades da convexidade (Teorema 22.12) e projeta uma lata.

Parte I — Fluência com a regra da cadeia.

  1. Derive: (3x2+1)5\left(3x^2 + 1\right)^5; x2+9\sqrt{x^2 + 9}; 1x2+1\dfrac{1}{x^2 + 1}.
  2. Dê a tangente a y=x2+9y = \sqrt{x^2 + 9} em x=4x = 4.
  3. Monte o quadro de variação de f(x)=xx2+1f(x) = \dfrac{x}{x^2 + 1} em R\R (extremos incluídos).
  4. Para g(x)=x33x2+4g(x) = x^3 - 3x^2 + 4: quadro de variação e quadro de convexidade (gg''), com o ponto de inflexão (Definição 22.13).
  5. Calcule a tangente a gg em seu ponto de inflexão e mostre que g(x)(tangente)=(x1)3g(x) - (\text{tangente}) = (x - 1)^3: o que a mudança de sinal diz sobre o modo como a tangente encontra a curva em uma inflexão?

Parte II — O resgate. Beira d’água ao longo do eixo xx; a salva-vidas está na areia, em A(0,30)A(0, 30), e o banhista espera em B(40,20)B(40, -20) (em metros). Ela corre a 55 m/s na areia, nada a 22 m/s e entra na água em um ponto (x,0)(x, 0) à sua escolha.

  1. Modelagem: exprima o tempo total de resgate T(x)T(x) e diga por que só x[0,40]x \in \intcc{0}{40} merece consideração.
  2. Derive TT (a regra da cadeia em ação — duas vezes).
  3. Seja θ1\theta_1 o ângulo do trecho de corrida com a perpendicular à beira d’água, e θ2\theta_2 o do trecho de natação. Mostre que sinθ1=xx2+900\sin\theta_1 = \frac{x}{\sqrt{x^2 + 900}} e que a condição T(x)=0T'(x) = 0 se lê

    sinθ15=sinθ22\frac{\sin\theta_1}{5} = \frac{\sin\theta_2}{2}

    — a lei de Snell, com as duas velocidades no lugar das velocidades da luz no ar e na água.

  4. O segmento reto [AB][AB] cruza a beira d’água em x=24x = 24. Calcule T(24)T(24), T(40)T(40) (correr pela praia e depois nadar em linha reta) e T(0)T(0): a reta geométrica é a mais rápida? Alguma das estratégias extremas é?
  5. Localize o ponto ótimo de entrada por dicotomia em TT' (ele é 33.7\approx 33.7 m): dê xx^* com precisão de metros e o tempo recorde T(x)T(x^*) com precisão de décimos de segundo. Quanto a curvatura ótima economiza em relação à linha reta?
  6. Por que o ponto crítico é um mínimo global? (Cada parcela de TT é convexa — admita que uma soma de funções convexas é convexa — e aplique o Exercício 22.8.)
  7. O princípio de Fermat afirma que a luz percorre sempre o caminho de menor tempo. Deduza por que um raio de luz se dobra exatamente na superfície ao entrar na água (onde a luz é mais lenta) e nomeie a observação cotidiana que isso explica sobre um lápis dentro de um copo com água.

Parte III — A colheita da convexidade.

  1. Mostre que xx2x \mapsto x^2 é convexa e demonstre duas vezes a desigualdade do ponto médio (a+b2)2a2+b22\left(\frac{a + b}{2}\right)^2 \leq \frac{a^2 + b^2}{2}: uma vez pela convexidade, outra expandindo (ab)20(a - b)^2 \geq 0.
  2. Deduza que a média quadrática a2+b22\sqrt{\frac{a^2 + b^2}{2}} domina a média aritmética e monte a cadeia completa da série — harmônica \leq geométrica \leq aritmética \leq quadrática —, verificando as quatro em a=2a = 2, b=8b = 8.
  3. Tangente por baixo da curva: x1xx \mapsto \frac1x é convexa em (0,+)\intoo{0}{+\infty}; escreva sua tangente em 11 e deduza a desigualdade 1x2x\frac1x \geq 2 - x para todo x>0x > 0. Onde ela é igualdade?
  4. Inflexão em campo: durante uma epidemia, o número acumulado de casos segue uma curva em S. O que acontece no seu ponto de inflexão, e por que essa data é a que os epidemiologistas aguardam? Relacione com o sinal da segunda derivada de cada lado.

Parte IV — A lata ideal. Uma lata cilíndrica deve conter V=330V = 330 cm3^3 com o mínimo de metal: superfície S=2πr2+2πrhS = 2\pi r^2 + 2\pi r h, com a restrição πr2h=V\pi r^2 h = V.

  1. Exprima S(r)=2πr2+2VrS(r) = 2\pi r^2 + \dfrac{2V}{r}, derive e calcule o raio e a altura ótimos para V=330V = 330 (com precisão de milímetros).
  2. Demonstre a elegante lei geral: no ótimo, h=2rh = 2r — a lata ideal é exatamente tão alta quanto larga.
  3. Verifique que S(r)>0S''(r) > 0 e conclua (de novo pelo Exercício 22.8) que o ótimo é global. As latas de refrigerante reais são visivelmente mais altas que largas: aponte uma razão não matemática.
  4. Final — a linha de montagem da otimização: modelar, perguntar à derivada, resolver os pontos críticos, certificar com convexidade ou com um quadro, interpretar. Percorra a lista para a salva-vidas, para a lata e para a viga mais forte do ano 11 (Problema 12.1) — e diga o que o princípio de Fermat afirma sobre quem mais percorre essa mesma linha de montagem.
Solução

Solução de Problema 22.1.

1. 30x(3x2+1)430x\left(3x^2 + 1\right)^4; xx2+9\dfrac{x}{\sqrt{x^2 + 9}}; 2x(x2+1)2-\dfrac{2x}{\left(x^2 + 1\right)^2}.

2. y(4)=5y(4) = 5, coeficiente angular 45\frac45: tangente y=5+45(x4)y = 5 + \frac45(x - 4), isto é, y=45x+95y = \frac45 x + \frac95.

3. f(x)=(x2+1)x2x(x2+1)2=1x2(x2+1)2f'(x) = \frac{(x^2 + 1) - x \cdot 2x}{(x^2+1)^2} = \frac{1 - x^2}{(x^2 + 1)^2}: negativa, positiva, negativa ao atravessar 1-1 e 11: mínimo f(1)=12f(-1) = -\frac12, máximo f(1)=12f(1) = \frac12, com assíntota horizontal 00 dos dois lados.

4. g(x)=3x26x=3x(x2)g'(x) = 3x^2 - 6x = 3x(x - 2): crescente, decrescente, crescente ao atravessar 00 e 22; máximo local g(0)=4g(0) = 4, mínimo local g(2)=0g(2) = 0. g(x)=6x6g''(x) = 6x - 6: côncava antes de 11 e convexa depois: inflexão em (1,2)(1, 2).

5. Tangente em 11: coeficiente angular g(1)=3g'(1) = -3: y=23(x1)=3x+5y = 2 - 3(x - 1) = -3x + 5. Diferença: x33x2+4(3x+5)=x33x2+3x1=(x1)3x^3 - 3x^2 + 4 - (-3x + 5) = x^3 - 3x^2 + 3x - 1 = (x - 1)^3, que muda de sinal em 11: a tangente atravessa a curva — o comportamento característico de um ponto de inflexão, em que a curva troca de lado.

6. T(x)=x2+9005+(40x)2+4002T(x) = \dfrac{\sqrt{x^2 + 900}}{5} + \dfrac{\sqrt{(40 - x)^2 + 400}}{2}. Entrar antes de 00 ou depois de 4040 alonga os dois trechos: não faz sentido.

7. T(x)=x5x2+90040x2(40x)2+400T'(x) = \dfrac{x}{5\sqrt{x^2 + 900}} - \dfrac{40 - x}{2\sqrt{(40 - x)^2 + 400}}.

8. No triângulo da corrida, o lado ao longo da praia mede xx e a hipotenusa x2+900\sqrt{x^2 + 900}: o seno do ângulo com a perpendicular é exatamente o quociente deles (cateto oposto sobre hipotenusa); do mesmo modo, sinθ2=40x(40x)2+400\sin\theta_2 = \frac{40 - x}{\sqrt{(40-x)^2 + 400}}. Então T(x)=0T'(x) = 0 lê-se sinθ15=sinθ22\frac{\sin\theta_1}{5} = \frac{\sin\theta_2}{2} — a lei de Snell com velocidades 55 e 22.

9. T(24)20.5T(24) \approx 20.5 s; T(40)=10+10=20T(40) = 10 + 10 = 20 s; T(0)=6+2000/228.4T(0) = 6 + \sqrt{2000}/2 \approx 28.4 s. A linha reta perde até para “correr o caminho todo e depois nadar em linha reta” — e as duas perdem para o trajeto refratado.

10. A dicotomia em TT' (negativa em 2424, positiva em 4040) converge para x34x^* \approx 34 m, com T(x)19.5T(x^*) \approx 19.5 s: cerca de um segundo mais rápido que a linha reta — a diferença entre um resgate e uma tragédia.

11. O tempo de cada trecho é função convexa de xx (um ramo de trinoˆmio\sqrt{\text{trinômio}}), de modo que TT é convexa, e um ponto crítico de uma função convexa e derivável é seu mínimo global (Exercício 22.8): xx^* não é apenas estacionário, é imbatível.

12. A luz é mais lenta na água; pelo princípio de Fermat, o caminho ar-água mais rápido se dobra na superfície exatamente segundo a lei de Snell — assim, os raios de um lápis submerso chegam ao olho dobrados e o cérebro, que extrapola em linha reta, vê o lápis quebrado na linha d’água.

13. (x2)=2>0(x^2)'' = 2 > 0: convexa. Convexidade no ponto médio: f(a+b2)f(a)+f(b)2f\left(\frac{a+b}{2}\right) \leq \frac{f(a) + f(b)}{2}, que é a afirmação. Na mão: a2+b22(a+b2)2=(ab)240\frac{a^2 + b^2}{2} - \left(\frac{a+b}{2}\right)^2 = \frac{(a - b)^2}{4} \geq 0.

14. Extraindo raízes quadradas (função crescente) na questão 13: a+b2a2+b22\frac{a + b}{2} \leq \sqrt{\frac{a^2 + b^2}{2}}. Cadeia completa em 2,82, 8: harmônica 21610=3.2\frac{2 \cdot 16}{10} = 3.2; geométrica 16=4\sqrt{16} = 4; aritmética 55; quadrática 345.83\sqrt{34} \approx 5.83: cada média se curva diante da seguinte.

15. Tangente a 1x\frac1x em 11: valor 11, coeficiente angular 1-1: y=2xy = 2 - x. Curvas convexas ficam acima de suas tangentes (Teorema 22.12): 1x2x\frac1x \geq 2 - x para todo x>0x > 0, com igualdade exatamente no ponto de contato x=1x = 1.

16. Na inflexão, o número diário de casos (a derivada) atinge o pico: o crescimento deixa de acelerar e começa a desacelerar — o primeiro sinal matemático de que a onda está virando, muito antes de os próprios números caírem. Antes dela, f>0f'' > 0 (cada dia pior que o anterior); depois dela, f<0f'' < 0 (ainda crescendo, mas mais devagar).

17. S(r)=4πr2Vr2=0S'(r) = 4\pi r - \frac{2V}{r^2} = 0r3=V2π=3302πr^3 = \frac{V}{2\pi} = \frac{330}{2\pi}: r3.74r \approx 3.74 cm, e h=330πr27.49h = \frac{330}{\pi r^2} \approx 7.49 cm.

18. h=Vπr2=2πr3πr2=2rh = \frac{V}{\pi r^2} = \frac{2\pi r^3}{\pi r^2} = 2r no ótimo: a altura é igual ao diâmetro, qualquer que seja o volume.

19. S(r)=4π+4Vr3>0S''(r) = 4\pi + \frac{4V}{r^3} > 0: convexa, de modo que o raio crítico é o mínimo global. As latas reais são mais altas para a pegada, o empilhamento, a presença na prateleira e o metal mais grosso do topo e do fundo — a otimização sempre minimiza exatamente o que se escreveu, e não o que se quis dizer.

20. Salva-vidas: modelar T(x)T(x), derivar, Snell, convexidade, um segundo economizado. Lata: modelar S(r)S(r), derivar, h=2rh = 2r, convexidade, metal economizado. Viga (Problema 12.1): modelar S(w)S(w), derivar, d=w2d = w\sqrt2, quadro, rigidez conquistada. E, pelo princípio de Fermat, a própria luz percorre essa linha de montagem em cada superfície que encontra — a natureza foi a primeira otimizadora.