Um vetor codifica um deslocamento: uma direção com um sentido e um comprimento, independentemente do ponto de partida. Os vetores dão demonstrações limpas de fatos geométricos e, uma vez que as coordenadas entram em cena, reduzem-nos a pequenos cálculos. Serão uma ferramenta central no Capítulo 7 e, mais tarde, para o produto escalar no Capítulo 16.
6.1 Translações e vetores
Definição 6.1(Vetor)
Dados dois pontos A e B, o vetorAB representa o deslocamento de A até B: ele tem uma direção com sentido (a direção da reta (AB), junto com o modo de percorrê-la, de A rumo a B) e um comprimento (a distância AB, também escrita AB). Dois vetores são iguais quando codificam o mesmo deslocamento: AB=CD significa que aplicar os dois deslocamentos a um ponto qualquer dá o mesmo resultado.
Proposição 6.2(Vetores iguais e paralelogramos)
AB=CD exatamente quando ABDC (nesta ordem!) é um paralelogramo, possivelmente achatado — ou, o que é equivalente, quando [AD] e [BC] têm o mesmo ponto médio.
Demonstração.Admitido neste nível.∎
Vetores iguais AB=CD: mesma direção, mesmo sentido, mesmo comprimento. O quadrilátero ABDC é um paralelogramo.
Notação 6.3
Um vetor costuma ser designado por uma única letra, u ou v, quando as extremidades não importam. O vetor nulo0=AA é o deslocamento que não move nada. O oposto de AB é BA: mesmo comprimento, sentido contrário. Escrevemos BA=−AB.
6.2 Somar vetores
Definição 6.4(Soma de dois vetores)
A somau+v é o deslocamento obtido efetuando u e em seguida v.
Teorema 6.5(Relação de Chasles)
Para quaisquer três pontos A, B, C:
AB+BC=AC.
Demonstração. Ir de A a B e depois de B a C é um deslocamento que leva A até C: é o deslocamento codificado por AC. ∎
Observação 6.6(Regra do paralelogramo)
Para somar dois vetores traçados a partir do mesmo ponto, AB+AC, complete o paralelogramo ABDC: a soma é a diagonal AD. De fato, AC=BD, logo AB+AC=AB+BD=AD pela relação de Chasles.
Duas visões da soma: ponta com origem (relação de Chasles, à esquerda) e a regra do paralelogramo (à direita).
Exemplo 6.7(Simplificar com Chasles)
Simplifique MN+NP+PQ: encadear os deslocamentos dá MQ. Simplifique AB−AC: reescreva a diferença como soma com o vetor oposto,
AB−AC=AB+CA=CA+AB=CB.
6.3 Multiplicar um vetor por um número
Definição 6.8(Múltiplo escalar)
Seja u um vetor não nulo e k um número real. O vetorku tem a mesma direção de u, comprimento ∣k∣×∥u∥ e aponta no mesmo sentido de u se k>0, no sentido contrário se k<0. Para k=0, 0u=0.
Definição 6.9(Colinearidade)
Dois vetoresu e v são colineares quando têm a mesma direção, isto é, quando v=ku para algum real k (ou quando um deles é 0).
Observação 6.10
A colinearidade é a linguagem vetorial do paralelismo e do alinhamento:
as retas (AB) e (CD) são paralelas exatamente quando AB e CD são colineares;
os pontos A, B, C são colineares exatamente quando AB e AC o são.
Demonstração. 1–3 reenunciam, coordenada a coordenada, o que os deslocamentos fazem: por exemplo, efetuar u e depois v move um ponto horizontalmente de a e depois de c, portanto de a+c ao todo. O item 4 é a fórmula da distância do Teorema 5.4 aplicada a um segmento que representa u. ∎
Demonstração. Se v=ku, então c=ka e d=kb, logo ad−bc=a(kb)−b(ka)=0. O mesmo vale se u=kv ou se um dos vetores é nulo.
Reciprocamente, suponha ad−bc=0 com u=0, digamos a=0 (o caso b=0 é análogo). Ponha k=ac; então c=ka, e ad=bc=b(ka) dá, após dividir por a=0, d=kb. Logo v=ku. ∎
Exemplo 6.14
Os vetoresu(3,−2) e v(−6,4) são colineares? Calcule ad−bc=3×4−(−2)×(−6)=12−12=0: sim, e de fato v=−2u. Já para u(3,−2) e w(1,5): 3×5−(−2)×1=17=0: não são colineares.
Método 6.15(Colinearidade de pontos e paralelismo)
Para provar que três pontos A, B, C são colineares:
Sejam A(0,2), B(4,0), C(6,3). Encontre as coordenadas do ponto D tal que ABCD seja um paralelogramo, isto é, tal que AB=DC.
Solução
Solução de Exercício 6.5.
AB(4,−2) e DC(6−xD,3−yD). A condição AB=DC dá 6−xD=4 e 3−yD=−2, logo D(2,5).
Exercício 6.6★★
Sejam A(−2,1), B(1,3), C(4,−1).
Calcule as coordenadas do ponto M tal que AM=AB+AC.
Que quadrilátero é ABMC? Justifique.
Solução
Solução de Exercício 6.6.
1.AB(3,2) e AC(6,−2), logo AB+AC=(9,0) e M=(−2+9,1+0)=(7,1).
2. Pela regra do paralelogramo, AM=AB+AC significa que ABMC é um paralelogramo (M é o quarto vértice, oposto a A). Dá para conferir: AB(3,2) e CM(7−4,1−(−1))=(3,2) são iguais.
Exercício 6.7★★
Sejam A(1,−1), B(4,1), C(10,5). Os pontos A, B, C são colineares? Mesma pergunta para A(0,3), B(2,2), C(8,−1).
Solução
Solução de Exercício 6.7.
Primeira terna: AB(3,2), AC(9,6); 3×6−2×9=0: colineares (AC=3AB).
Segunda terna: AB(2,−1), AC(8,−4); 2×(−4)−(−1)×8=−8+8=0: também colineares (AC=4AB).
Exercício 6.8★★
Sejam A(1,2), B(5,4), C(6,1), D(2,−1). Mostre que (AB) e (CD) são paralelas e, em seguida, que ABCD é um paralelogramo. Qual das duas verificações implica a outra?
Solução
Solução de Exercício 6.8.
AB(4,2) e DC(6−2,1−(−1))=(4,2): os dois vetores são iguais, logo ABCD é um paralelogramo e, em particular, (AB)∥(CD). A propriedade do paralelogramo é a mais forte: ela implica o paralelismo (colinearidade dos vetores), e não o contrário.
Exercício 6.9★★
Seja ABC um triângulo e seja I o ponto definido por AI=32AB. Com A(0,0), B(6,3), C(2,5) (para que as contas fiquem simples):
seja J tal que CJ=32CB; calcule as coordenadas de J;
mostre que (IJ) é paralela a (AC).
Solução
Solução de Exercício 6.9.
1.AB(6,3), logo AI=32AB=(4,2) e I(4,2).
2.CB(6−2,3−5)=(4,−2), logo CJ=32CB=(38,−34) e J(2+38,5−34)=(314,311).
3.IJ(314−4,311−2)=(32,35) e AC(2,5). Critério de colinearidade:
32×5−35×2=310−310=0:
os vetores são colineares, logo (IJ) é paralela a (AC). (Tanto I quanto J ficam a um terço do caminho a partir do lado rumo a B: o pequeno triângulo IBJ é uma redução de ABC.)
Exercício 6.10★★★
Seja ABCD um quadrilátero qualquer e sejam I, J, K, L os pontos médios de [AB], [BC], [CD], [DA]. Usando coordenadasA(xA,yA) etc., mostre que IJ=LK e conclua que os pontos médios dos lados de qualquer quadrilátero formam um paralelogramo.
e o mesmo cálculo vale para as segundas coordenadas. Portanto IJ=LK (ambos iguais a 21AC), e IJKL é um paralelogramo, qualquer que seja o aspecto do quadrilátero ABCD.
6.6 Problema: A álgebra das setas
Problema 6.1
Problema de fim de semana — ginástica de Chasles, o baricentro redemonstrado em duas linhas e forças em equilíbrio: para que servem realmente os vetores
O ano 8 provou que as medianas de um triângulo se encontram a dois terços do seu comprimento — com um engenhoso paralelogramo escondido dentro do triângulo (o problema de fim de semana sobre o baricentro, no volume do ensino fundamental). Os vetores redemonstram isso em duas linhas e ainda dão a concorrência de brinde. É para isso que serve essa nova álgebra: teoremas viram contas com setas. Este problema treina a conta (Chasles acima de tudo), entrega a demonstração de duas linhas, estende Varignon (Exercício 6.10) e termina onde os vetores nasceram: nas forças e nas velocidades.
Parte I — Ginástica de Chasles.
Simplifique usando a relação de Chasles (Teorema 6.5): AB+BC+CD; MA−MB; AB+CD+BC+DA.
O truque da origem: mostre que, para qualquer ponto O, AB=OB−OA.
Demonstre as duas caracterizações do ponto médioI de [AB]:
IA+IB=0eOI=21(OA+OB)para todo O.
Usando AB=DC, reencontre o quarto vértice D do paralelogramo ABCD com A(−1,2), B(3,4), C(6,0) — e compare com a resposta obtida pelo truque do ponto médio no Problema 5.1.
Somar um vetor fixo u a todo ponto do plano realiza que transformação — aquela descoberta com dois espelhos no problema de fim de semana sobre os dois espelhos e com duas meias voltas no problema de fim de semana sobre meias voltas, ambos do volume do ensino fundamental? Calcule a imagem de (1,2) por u=(3,−1).
Parte II — O baricentro, terceira demonstração. Defina o ponto G de um triângulo ABC pela elegante condição
GA+GB+GC=0.
Usando o truque da origem, mostre que essa condição determina G de modo único: OG=31(OA+OB+OC) para todo O — de modo que as coordenadas de G são as médias das dos vértices (o problema de fim de semana sobre o baricentro, no volume do ensino fundamental, viu isso numericamente).
Demonstre que AG=31(AB+AC) e, escrevendo K para o ponto médio de [BC], que AK=21(AB+AC). Conclua: AG=32AK — o teorema dos dois terços, redemonstrado.
Por que as medianas que partem de B e de C passam pelo mesmoG sem nenhum cálculo adicional? Compare as três demonstrações disponíveis desse teorema — o paralelogramo escondido do ano 8, as coordenadas e os vetores — em uma frase cada.
Verificação numérica: A(1,1), B(5,2), C(3,6). Calcule G, depois K, e verifique AG=32AK com o critério de colinearidade (Teorema 6.13).
A física lê G como o ponto de equilíbrio de três massas iguais nos vértices. Dobre a massa em A (massas 2,1,1): o ponto de equilíbrio passa a ser OG′=42OA+OB+OC. Calcule G′ para o triângulo da questão 9 e compare sua posição com a de G.
Parte III — A colinearidade em ação.
u(3,−2) e v(−6,4) são colineares? E w(2,5), z(4,9)? Decida com o critério do determinante.
Para além de Varignon (Exercício 6.10): em qualquer quadrilátero ABCD, as bimedianas unem os pontos médios de lados opostos ([IK] e [JL]). Usando vetores posição (OI=21(OA+OB) etc.), mostre que as duas bimedianas têm o mesmo ponto médio, de vetor posição 41(OA+OB+OC+OD): o baricentro do quadrilátero.
Tales em uma linha: M e N são os pontos definidos por AM=31AB e AN=31AC. Calcule MN em função de BC e conclua o paralelismo e a razão.
Generalize a questão 14 para uma razão k qualquer e diga em uma frase como o cálculo vetorial absorve de uma só vez o teorema da base média e o de Tales.
Parte IV — Forças e velocidades.
Um barco é empurrado por uma correnteza de 3 km/h para leste enquanto rema a 4 km/h para o norte. Dê o vetor velocidade resultante, seu módulo e descreva a rota efetiva. (Aparece um trio muito antigo.)
Três forças agem sobre um anel: u(2,1), v(−3,2), w(1,−3). Calcule a resultante. O que o anel faz? E por que a soma das setas ao longo de um polígono fechado é sempre 0 (Chasles)?
Duas forças u(4,−1) e v(−1,3) agem sobre um gancho. Que terceira força mantém o gancho em equilíbrio?
Um nadador atravessa um rio apontando perpendicularmente à margem a 2 m/s; a correnteza corre a 1.5 m/s. Dê a velocidade resultante e seu módulo. O rio tem 50 m de largura: quanto tempo dura a travessia e a que distância rio abaixo o nadador chega?
Final: um objeto, três trajes — seta de deslocamento, par de coordenadas, força ou velocidade. Liste os três teoremas clássicos que este problema redemonstrou com álgebra vetorial e nomeie a única grandeza geométrica que os vetores deste capítulo ainda não conseguem medir — a ferramenta que resolve isso chega com o produto escalar, no ano 11.
Solução
Solução de Problema 6.1.
1.AB+BC+CD=AD; MA−MB=MA+BM=BA; AB+BC+CD+DA=AA=0 (reordenando a terceira soma).
2.OB−OA=AO+OB=AB por Chasles.
3.I é o ponto médio de [AB] exatamente quando IA=−IB, isto é, IA+IB=0. Então, para todo O: 0=IO+OA+IO+OB, logo 2OI=OA+OB — e reciprocamente.
4.AB=(4,2), e D satisfaz DC=AB: D=C−(4,2)=(2,−2) — o mesmo D do Problema 5.1, uma linha mais rápido.
5. A translação de vetoru — exatamente a transformação produzida por dois espelhos paralelos ou por duas meias voltas. Imagem de (1,2): (4,1).
6. Desdobrando cada GX como GO+OX: 3GO+OA+OB+OC=0, logo OG=31(OA+OB+OC): existe um e um só ponto assim, cujas coordenadas são as médias das dos três vértices.
7.AB+AC=(AG+GB)+(AG+GC)=2AG+(GB+GC)=2AG−GA=3AG, donde AG=31(AB+AC). A fórmula do ponto médio (questão 3, vista de A) dá AK=21(AB+AC). Comparando: AG=32AK — G está sobre a mediana [AK], a dois terços do caminho a partir de A.
8. A condição que define G trata A, B, C de modo idêntico, de modo que o mesmo cálculo feito a partir de B ou de C coloca o mesmoG a dois terços dessas medianas: a concorrência sai de graça. A demonstração pelo paralelogramo era engenhosa, mas feita sob medida; as coordenadas calculam, mas obscurecem; os vetores tornam a simetria visível e a demonstração cabe em duas linhas.
9.G(31+5+3,31+2+6)=(3,3); K(4,4); AG=(2,2) e AK=(3,3): determinante 2×3−2×3=0, colineares, e de fato AG=32AK.
10.G′(42+5+3,42+2+6)=(2.5,2.5): puxado de G(3,3) na direção do vértice de massa dobrada A(1,1), como convém a um ponto de equilíbrio.
13.OI=21(OA+OB) e OK=21(OC+OD), de modo que o ponto médio de [IK] tem vetor posição 21(OI+OK)=41(OA+OB+OC+OD) — e a conta para [JL] dá exatamente o mesmo vetor. As duas bimedianas (e, por Varignon, as diagonais do paralelogramo IJKL) partilham esse centro: o baricentro do quadrilátero.
14.MN=AN−AM=31AC−31AB=31BC: logo (MN)∥(BC) e MN=31BC.
15. Com AM=kAB e AN=kAC: MN=kBC — uma única linha que contém o teorema da base média (k=21) e o de Tales (qualquer k): a razão atravessa a subtração intacta.
16. Resultante (3,4), módulo 9+16=5 km/h: o barco anda de fato para nordeste, puxando para o norte, ao longo da hipotenusa do triângulo 3–4–5.
17.u+v+w=(0,0): o anel fica parado — equilíbrio. Ao longo de um polígono fechado A1A2…AnA1, Chasles telescopa a soma até A1A1=0: dar a volta traz você de volta.
18.w=−(u+v)=−(3,2)=(−3,−2).
19. Resultante (1.5,2), módulo 2.25+4=2.5 m/s. Travessia: 50 m a 2 m/s na direção da outra margem: 25 s; deriva: 1.5×25=37.5 m rio abaixo.
20. Redemonstrados neste fim de semana: o teorema dos dois terços do baricentro (questão 7), o centro das bimedianas e de Varignon (questão 13) e Tales com a base média (questões 14–15). O que as setas ainda não conseguem fazer: medir ângulos (e, com eles, comprimentos em direções arbitrárias) — o produto escalar do ano 11 é exatamente o instrumento que falta.