Mathematics · Livro 2 · Grades 10–12

Matemática do ensino médio

Matemática do ensino médio · Grades 10–12

9Probabilidade e amostragem

A probabilidade atribui números ao acaso. Partindo de experimentos com resultados igualmente prováveis — dados, moedas, cartas —, este capítulo constrói as regras básicas para calcular probabilidades de eventos, apresenta os diagramas de árvore para experimentos em duas etapas e termina com a ligação entre probabilidades e frequências observadas. A teoria continua no Capítulo 18.

9.1 Experimentos aleatórios e eventos

Definição 9.1 (Resultados e eventos)

Um experimento aleatório é um experimento cujo resultado não pode ser previsto (lançar um dado). O conjunto de todos os resultados possíveis é o espaço amostral Ω={ω1,,ωn}\Omega = \{\omega_1, \dots, \omega_n\}; seus elementos são os resultados. Um evento é um conjunto de resultados; um evento ocorre quando o resultado do experimento pertence a ele.

Definição 9.2 (Distribuição de probabilidade)

Atribuir a cada resultado ωi\omega_i um número pi0p_i \geq 0, com p1++pn=1p_1 + \dots + p_n = 1, define uma probabilidade: a probabilidade P(A)\P(A) de um evento AA é a soma dos pip_i dos resultados contidos em AA. Em particular, P(Ω)=1\P(\Omega) = 1 e o evento impossível \varnothing tem probabilidade 00.

Proposição 9.3 (Resultados igualmente prováveis)

Se os nn resultados são igualmente prováveis (cada pi=1np_i = \frac1n), então, para todo evento AA:

P(A)=nuˊmero de resultados em An=casos favoraˊveiscasos possıˊveis.\P(A) = \frac{\text{número de resultados em } A}{n} = \frac{\text{casos favoráveis}}{\text{casos possíveis}} .

Demonstração. AA contém um certo número kk de resultados, cada um de probabilidade 1n\frac1n, logo P(A)=kn\P(A) = \frac kn.

Exemplo 9.4

Lance um dado honesto: Ω={1,2,3,4,5,6}\Omega = \{1, 2, 3, 4, 5, 6\}, cada resultado com probabilidade 16\frac16. O evento AA: “o resultado é par” é A={2,4,6}A = \{2, 4, 6\}, logo P(A)=36=12\P(A) = \frac36 = \frac12. O evento BB: “o resultado é pelo menos 55” é B={5,6}B = \{5, 6\}, logo P(B)=26=13\P(B) = \frac26 = \frac13.

9.2 Combinar eventos

Definição 9.5 (Interseção, união, complementar)

Sejam AA e BB eventos.

  • ABA \cap B (“AA e BB”) ocorre quando os dois ocorrem;
  • ABA \cup B (“AA ou BB”) ocorre quando pelo menos um ocorre;
  • o complementar Aˉ\bar A (“não AA”) ocorre exatamente quando AA não ocorre;
  • AA e BB são incompatíveis quando não podem ocorrer juntos: AB=A \cap B = \varnothing.

Teorema 9.6 (Regras da adição)

Para quaisquer eventos AA e BB:

P(AB)=P(A)+P(B)P(AB),P(Aˉ)=1P(A).\P(A \cup B) = \P(A) + \P(B) - \P(A \cap B), \qquad \P(\bar A) = 1 - \P(A) .

Para eventos incompatíveis, a primeira regra simplifica-se para P(AB)=P(A)+P(B)\P(A \cup B) = \P(A) + \P(B).

Demonstração. Somar P(A)+P(B)\P(A) + \P(B) acrescenta uma vez a probabilidade de cada resultado de ABA \cup B, exceto os de ABA \cap B, que são contados duas vezes — uma em AA e outra em BB. Subtrair P(AB)\P(A \cap B) repara a contagem dupla. Para o complementar: AA e Aˉ\bar A são incompatíveis e AAˉ=ΩA \cup \bar A = \Omega, logo P(A)+P(Aˉ)=P(Ω)=1\P(A) + \P(\bar A) = \P(\Omega) = 1.

Dois eventos que se sobrepõem: em (A) + (B), a interseção sombreada A ∩ B é contada duas vezes, o que explica a subtração na regra da adição.
Dois eventos que se sobrepõem: em P(A)+P(B)\P(A) + \P(B), a interseção sombreada ABA \cap B é contada duas vezes, o que explica a subtração na regra da adição.

Exemplo 9.7

Retire uma carta de um baralho comum de 5252 cartas. Sejam AA: “a carta é de copas” (1313 cartas) e BB: “a carta é um rei” (44 cartas). Então ABA \cap B é “o rei de copas” (11 carta), e

P(AB)=1352+452152=1652=413.\P(A \cup B) = \frac{13}{52} + \frac{4}{52} - \frac{1}{52} = \frac{16}{52} = \frac{4}{13}.

A regra do complementar costuma ser o caminho mais rápido: a probabilidade de a carta não ser de copas é 11352=341 - \frac{13}{52} = \frac34.

9.3 Diagramas de árvore

Método 9.8 (Experimentos em duas etapas)

Para um experimento realizado em duas etapas:

  1. desenhe uma árvore: um ramo por resultado possível da primeira etapa e, a partir de cada um deles, um ramo por resultado da segunda etapa, escrevendo a probabilidade em cada ramo (os ramos que saem de um mesmo nó devem somar 11);
  2. a probabilidade de um caminho (uma folha da árvore) é o produto das probabilidades ao longo de seus ramos;
  3. a probabilidade de um evento é a soma das probabilidades dos caminhos que o realizam.

Exemplo 9.9

Uma urna contém 33 bolas vermelhas e 22 bolas azuis. Retire uma bola, devolva-a e retire outra. Cada retirada dá vermelha (V) com probabilidade 35\frac35 e azul (A) com probabilidade 25\frac25.

A árvore de duas retiradas com reposição. As probabilidades dos quatro caminhos somam 1.
A árvore de duas retiradas com reposição. As probabilidades dos quatro caminhos somam 11.

A probabilidade de obter duas bolas da mesma cor é P(VV)+P(AA)=925+425=1325\P(\text{VV}) + \P(\text{AA}) = \frac{9}{25} + \frac{4}{25} = \frac{13}{25}; a probabilidade de pelo menos uma azul é 1P(VV)=1925=16251 - \P(\text{VV}) = 1 - \frac{9}{25} = \frac{16}{25} (regra do complementar).

Observação 9.10

Sem reposição, as probabilidades da segunda retirada dependem da primeira: com a urna acima, depois de sair uma bola vermelha restam apenas 22 vermelhas e 22 azuis, de modo que o segundo ramo carrega 24\frac24 e 24\frac24. O método da árvore funciona sem alteração; apenas mudam os números nos ramos do segundo nível.

9.4 Frequências e amostragem

Quando um experimento aleatório é repetido muitas vezes, a frequência observada de um evento se aproxima da sua probabilidade — é por isso que a probabilidade serve para descrever o mundo real.

Definição 9.11 (Amostra)

Uma amostra de tamanho nn é o resultado de repetir o mesmo experimento nn vezes de forma independente. A frequência observada de um evento na amostra é o número de ocorrências dividido por nn.

Exemplo 9.12

Uma moeda honesta dá cara com probabilidade 0.50.5. Lançá-la 100100 vezes raramente dá exatamente 5050 caras: as amostras flutuam. Séries típicas de 100100 lançamentos dão frequências como 0.460.46, 0.530.53, 0.490.49 — próximas de 0.50.5, mas não iguais. Amostras maiores flutuam menos: com 1000010\,000 lançamentos, as frequências observadas costumam ficar a menos de cerca de 0.010.01 de 0.50.5.

Observação 9.13 (Intervalo de flutuação)

Uma regra prática útil, justificada no Capítulo 19: para uma amostra de tamanho nn de um evento de probabilidade pp (com nn razoavelmente grande), a frequência observada fica no intervalo

[p1n,p+1n]\intcc{p - \frac{1}{\sqrt n}}{\,p + \frac{1}{\sqrt n}}

em cerca de 95%95\% das amostras. Se uma frequência observada cair bem fora desse intervalo, desconfie do valor de pp: esse é o ponto de partida dos testes estatísticos.

Exemplo 9.14

Uma fábrica afirma que apenas 10%10\% de suas peças são defeituosas (p=0.1p = 0.1). Em uma amostra de n=400n = 400 peças, 6464 são defeituosas: frequência observada 64400=0.16\frac{64}{400} = 0.16. O intervalo de flutuação é [0.1120,0.1+120]=[0.05,0.15]\intcc{0.1 - \frac{1}{20}}{0.1 + \frac{1}{20}} = \intcc{0.05}{0.15}, e 0.160.16 cai fora dele: a amostra lança séria dúvida sobre a afirmação.

9.5 Exercícios

Exercício 9.1

Um dado honesto é lançado. Calcule a probabilidade de cada evento: “obter um 66”; “obter um número ímpar”; “obter no máximo 44”; “obter um 77”.

Solução

Solução de Exercício 9.1.

Cada um dos 66 resultados tem probabilidade 16\frac16. “Obter um 66”: 16\frac16. “Número ímpar” ={1,3,5}= \{1, 3, 5\}: 36=12\frac36 = \frac12. “No máximo 44={1,2,3,4}= \{1,2,3,4\}: 46=23\frac46 = \frac23. “Obter um 77”: evento impossível, probabilidade 00.

Exercício 9.2

Um saco contém 55 bolinhas verdes, 33 amarelas e 22 pretas; retira-se uma bolinha ao acaso. Calcule a probabilidade de ela ser verde; de não ser preta; de ser verde ou amarela.

Solução

Solução de Exercício 9.2.

1010 bolinhas igualmente prováveis. P(verde)=510=12\P(\text{verde}) = \frac{5}{10} = \frac12. P(na˜o preta)=1210=810=45\P(\text{não preta}) = 1 - \frac{2}{10} = \frac{8}{10} = \frac45. Verde e amarela são incompatíveis: P(verde ou amarela)=510+310=810=45\P(\text{verde ou amarela}) = \frac{5}{10} + \frac{3}{10} = \frac{8}{10} = \frac45.

Exercício 9.3

Em uma turma de 3030 alunos, 1818 estudam espanhol, 1010 estudam alemão e 44 estudam os dois. Escolhe-se um aluno ao acaso. Usando a regra da adição, calcule a probabilidade de esse aluno estudar pelo menos uma das duas línguas e depois a probabilidade de não estudar nenhuma.

Solução

Solução de Exercício 9.3.

Sejam SS: “estuda espanhol” e GG: “estuda alemão”. Então P(S)=1830\P(S) = \frac{18}{30}, P(G)=1030\P(G) = \frac{10}{30}, P(SG)=430\P(S \cap G) = \frac{4}{30}. Regra da adição:

P(SG)=1830+1030430=2430=45.\P(S \cup G) = \frac{18}{30} + \frac{10}{30} - \frac{4}{30} = \frac{24}{30} = \frac45 .

Complementar: P(nenhuma)=145=15\P(\text{nenhuma}) = 1 - \frac45 = \frac15.

Exercício 9.4

Uma moeda honesta é lançada duas vezes. Desenhe a árvore do experimento e calcule a probabilidade de obter duas caras; exatamente uma cara; pelo menos uma cara.

Solução

Solução de Exercício 9.4.

A árvore tem quatro caminhos CaCa, CaCo, CoCa, CoCo, cada um de probabilidade 12×12=14\frac12 \times \frac12 = \frac14. Duas caras: 14\frac14. Exatamente uma cara (CaCo ou CoCa): 24=12\frac24 = \frac12. Pelo menos uma cara: 1P(CoCo)=114=341 - \P(\text{CoCo}) = 1 - \frac14 = \frac34.

Exercício 9.5 ★★

Uma urna contém 44 bolas vermelhas e 66 brancas. Duas bolas são retiradas uma após a outra, sem reposição. Desenhe a árvore com as probabilidades corretas no segundo nível e calcule a probabilidade de retirar duas bolas vermelhas e a de retirar duas bolas de cores diferentes.

Solução

Solução de Exercício 9.5.

Primeira retirada: vermelha com probabilidade 410\frac{4}{10}, branca 610\frac{6}{10}. Segunda retirada sem reposição: depois de uma vermelha restam 33 vermelhas e 66 brancas entre 99; depois de uma branca, 44 vermelhas e 55 brancas entre 99.

Duas vermelhas: 410×39=1290=215\frac{4}{10} \times \frac39 = \frac{12}{90} = \frac{2}{15}.

Cores diferentes: caminhos VB e BV:

410×69+610×49=2490+2490=4890=815.\frac{4}{10} \times \frac69 + \frac{6}{10} \times \frac49 = \frac{24}{90} + \frac{24}{90} = \frac{48}{90} = \frac{8}{15}.

Exercício 9.6 ★★

Dois dados honestos são lançados e sua soma é registrada.

  1. Explique por que o espaço amostral pode ser tomado como os 3636 pares igualmente prováveis (1,1),(1,2),,(6,6)(1,1), (1,2), \dots, (6,6).
  2. Calcule a probabilidade de a soma ser 77; de ser 1212; de ser no máximo 44.
  3. Qual soma é a mais provável?
Solução

Solução de Exercício 9.6.

1. Cada dado mostra cada face, de forma independente, com probabilidade 16\frac16, de modo que os 3636 pares ordenados são igualmente prováveis; a soma fica determinada pelo par.

2. Soma 77: os pares (1,6),(2,5),(3,4),(4,3),(5,2),(6,1)(1,6), (2,5), (3,4), (4,3), (5,2), (6,1), logo P=636=16\P = \frac{6}{36} = \frac16. Soma 1212: só (6,6)(6,6), P=136\P = \frac{1}{36}. Soma no máximo 44: pares que somam 22, 33 ou 44: (1,1)(1,1); (1,2),(2,1)(1,2), (2,1); (1,3),(2,2),(3,1)(1,3), (2,2), (3,1) — seis pares, logo P=636=16\P = \frac{6}{36} = \frac16.

3. O número de pares que produzem cada soma cresce de 11 (soma 22) até 66 (soma 77) e depois decresce: a soma mais provável é 77.

Exercício 9.7 ★★

Uma questão de múltipla escolha oferece 44 respostas, uma correta. Um aluno responde a 22 questões independentes desse tipo completamente ao acaso. Calcule a probabilidade de acertar as duas, de acertar exatamente uma e de não acertar nenhuma. Verifique que as três probabilidades somam 11.

Solução

Solução de Exercício 9.7.

Cada questão é acertada com probabilidade 14\frac14, de forma independente. Árvore de dois níveis:

As duas certas: 14×14=116\frac14 \times \frac14 = \frac{1}{16}.

Exatamente uma certa: caminhos certa–errada e errada–certa: 14×34+34×14=616=38\frac14 \times \frac34 + \frac34 \times \frac14 = \frac{6}{16} = \frac38.

Nenhuma certa: 34×34=916\frac34 \times \frac34 = \frac{9}{16}.

Verificação: 116+616+916=1\frac{1}{16} + \frac{6}{16} + \frac{9}{16} = 1.

Exercício 9.8 ★★

Um político afirma ter 50%50\% de aprovação. Em uma pesquisa com n=900n = 900 eleitores escolhidos ao acaso, 396396 aprovam.

  1. Calcule a frequência observada e o intervalo de flutuação em torno de p=0.5p = 0.5 para n=900n = 900.
  2. A pesquisa lança dúvida sobre a afirmação?
Solução

Solução de Exercício 9.8.

1. Frequência observada: 396900=0.44\frac{396}{900} = 0.44. Com n=900n = 900: 1900=1300.033\frac{1}{\sqrt{900}} = \frac{1}{30} \approx 0.033, de modo que o intervalo de flutuação é cerca de [0.467,0.533]\intcc{0.467}{0.533}.

2. O valor observado 0.440.44 está fora do intervalo: amostras de 900900 eleitores tiradas de uma população com 50%50\% de aprovação raramente se afastam tanto. A pesquisa lança séria dúvida sobre os 50%50\% alegados.

Exercício 9.9 ★★★

Um jogo custa 22 para ser jogado: você lança um dado honesto e ganha 66 se sair 66, 33 se sair 55, e nada nos demais casos.

  1. Calcule a probabilidade de cada quantia ganha (66, 33, 00).
  2. Em 600600 partidas, quantos resultados de cada tipo você espera? Calcule o ganho e a perda totais esperados: vale a pena jogar?
Solução

Solução de Exercício 9.9.

1. P(ganhar 6)=16\P(\text{ganhar } 6) = \frac16 (sair um 66), P(ganhar 3)=16\P(\text{ganhar } 3) = \frac16 (sair um 55), P(ganhar 0)=46=23\P(\text{ganhar } 0) = \frac46 = \frac23.

2. Em 600600 partidas, esperam-se cerca de 100100 seis, 100100 cinco e 400400 outros resultados. Ganhos: cerca de 100×6+100×3=900100 \times 6 + 100 \times 3 = 900. Custo: 600×2=1200600 \times 2 = 1200. Resultado líquido esperado: 9001200=300900 - 1200 = -300, isto é, uma perda média de cerca de 0.50.5 por partida — não vale a pena jogar.

9.6 Problema: As três portas que enganaram mil matemáticos

Problema 9.1

Problema de fim de semana — o paradoxo de Monty Hall e seus primos: como a informação muda a probabilidade e como as amostras separam afirmações de ilusões

Em 1990, a colunista Marilyn vos Savant publicou um enigma sobre um apresentador de programa de auditório, três portas, um carro e dois bodes — e o respondeu corretamente. Dez mil leitores, entre eles centenas de doutores em matemática, escreveram para insistir que ela estava errada. Este problema arma você com árvores (Método 9.8), complementares e as regras da adição (Teorema 9.6), permite que você mesmo encerre a discussão e termina com a ferramenta que arbitra na prática toda disputa desse tipo: a amostra que flutua.

Parte I — As regras, aquecidas.

  1. Uma carta de um baralho comum de 5252 cartas: calcule P(rei ou copas)P(\text{rei ou copas}) com a regra da adição — e diga por que 452+1352\frac{4}{52} + \frac{13}{52} sozinho está errado.
  2. Três lançamentos de uma moeda honesta: calcule P(pelo menos uma cara)P(\text{pelo menos uma cara}) pelo complementar.
  3. Um saco tem 33 bolinhas vermelhas e 22 azuis; duas são retiradas sem reposição. Com uma árvore, calcule P(duas vermelhas)P(\text{duas vermelhas}) e P(uma de cada cor)P(\text{uma de cada cor}).
  4. Complete a distribuição da questão 3 com P(duas azuis)P(\text{duas azuis}) e verifique que as três probabilidades somam 11.
  5. Alguém informa, para dois eventos incompatíveis, P(A)=0.6P(A) = 0.6 e P(B)=0.5P(B) = 0.5. Condene-o com uma linha de aritmética.

Parte II — As três portas. O jogo: um carro se esconde atrás de uma de três portas, e há bodes atrás das outras duas. Você escolhe uma porta (digamos, a porta 1). O apresentador — que sabe onde está o carro — abre uma das outras duas portas, revelando sempre um bode, e lhe oferece a chance de trocar para a porta fechada restante.

  1. Antes de calcular qualquer coisa: trocar ajuda, atrapalha ou é indiferente? Anote sua resposta intuitiva — com honestidade.
  2. Agora a árvore, por casos segundo a verdadeira posição do carro (cada um com 13\frac13): se o carro está atrás da sua porta, trocar faz perder; se está atrás de qualquer das outras duas, o que o apresentador é obrigado a fazer, e o que trocar ganha então? Calcule P(ganhar trocando)P(\text{ganhar trocando}).
  3. A versão de uma linha: trocar ganha exatamente quando a sua primeira escolha estava errada. Conclua de novo.
  4. Agora a variante crucial — “Monty distraído”: o apresentador não sabe onde está o carro, abre uma das outras portas ao acaso e, por sorte, revela um bode. Liste os seis cenários igualmente prováveis (posição do carro ×\times porta aberta), descarte aqueles em que o carro é revelado e calcule a probabilidade de trocar ganhar entre os cenários sobreviventes. O que mudou, e por que o conhecimento do apresentador importa?
  5. A bomba de intuição: cem portas, você escolhe uma, e o apresentador que sabe abre 9898 portas com bodes. Trocar? Com que probabilidade de ganhar?
  6. Você enfrenta um cético que, como os mil autores das cartas, insiste em “50–50”. Descreva uma simulação com cartas (três cartas, muitas rodadas, um amigo como apresentador) e diga que proporção de vitórias ao trocar você espera após 300300 rodadas — com o intervalo de flutuação do capítulo como margem.

Parte III — Primos do paradoxo.

  1. Uma família tem dois filhos; você fica sabendo que pelo menos um é menino. Liste as configurações igualmente prováveis de dois filhos compatíveis com essa informação e calcule P(dois meninos)P(\text{dois meninos}).
  2. Mesma família, mas a informação agora é: o filho mais velho é menino. Recalcule. Por que as duas respostas diferem, e o que elas têm em comum com os dois Montys?
  3. Três moedas honestas: calcule P(as treˆs iguais)P(\text{as três iguais}). O matemático d’Alembert argumentou em 1754 por outra resposta: “ou são todas iguais, ou não são — um caso em dois”. Nomeie o erro exato, com a Proposição 9.3 em mãos.
  4. Um jogo custa 22 euros: lance um dado, ganhe 66 euros com um seis, 33 euros com um cinco, e nada nos demais casos (Exercício 9.9). Em 600600 partidas, que ganho médio por partida a contagem prevê? Uma seguradora pratica a mesma matemática: uma chance anual de 1%1\,\% de um sinistro de 1000010\,000 euros — qual é o prêmio justo e por que o prêmio real o supera?

Parte IV — As amostras como árbitros.

  1. Uma moeda é lançada 100100 vezes. Usando o intervalo de flutuação p±1np \pm \frac{1}{\sqrt n}, decida qual destes resultados deve levantar suspeitas: 5555 caras; 7070 caras.
  2. Uma pesquisa com 10001\,000 eleitores dá 52%52\,\% a um candidato. Calcule o intervalo de flutuação em torno de 50%50\,\% e diga se a pesquisa prova que o candidato está à frente.
  3. Uma fábrica afirma ter 4%4\,\% de peças defeituosas. Uma amostra de 400400 mostra 2828 defeituosas (7%7\,\%); uma amostra posterior de 25002\,500 mostra 175175 (7%7\,\% de novo). Teste a afirmação contra cada amostra. Por que os veredictos diferem?
  4. Duas fontes de erro assombram toda pesquisa: o viés de amostragem (o problema de fim de semana sobre como os dados mentem, no volume do ensino fundamental) e a flutuação de amostragem (este capítulo). Qual delas encolhe quando nn cresce e qual sobrevive a qualquer tamanho de amostra? Uma frase para cada.
  5. Final — a lista de verificação do probabilista, uma linha por item: resultados igualmente prováveis antes de contar (questão 15); árvores e complementares para vários passos e para os “pelo menos” (questões 2–3); a informação muda as probabilidades, e o modo como foi obtida importa (questões 7–14); as amostras flutuam cerca de 1n\frac{1}{\sqrt n}, e a simulação arbitra (questões 11, 16–18).
Solução

Solução de Problema 9.1.

1. P(rei ou copas)=452+1352152=1652=413P(\text{rei ou copas}) = \frac{4}{52} + \frac{13}{52} - \frac{1}{52} = \frac{16}{52} = \frac{4}{13}: o rei de copas está nos dois eventos e não pode ser contado duas vezes — daí a subtração (Teorema 9.6).

2. P(nenhuma cara)=(12)3=18P(\text{nenhuma cara}) = \left(\frac12\right)^3 = \frac18, logo P(pelo menos uma)=78P(\text{pelo menos uma}) = \frac78.

3. P(VV)=35×24=310P(\text{VV}) = \frac35 \times \frac24 = \frac{3}{10}; P(uma de cada)=35×24+25×34=620+620=35P(\text{uma de cada}) = \frac35 \times \frac24 + \frac25 \times \frac34 = \frac{6}{20} + \frac{6}{20} = \frac35.

4. P(AA)=25×14=110P(\text{AA}) = \frac25 \times \frac14 = \frac1{10}; e 310+610+110=1\frac{3}{10} + \frac{6}{10} + \frac{1}{10} = 1: as folhas da árvore sempre somam 11.

5. Eventos incompatíveis obedecem a P(AB)=P(A)+P(B)=1.1>1P(A \cup B) = P(A) + P(B) = 1.1 > 1: impossível — alguma probabilidade foi inventada.

6. (A maioria das pessoas, inclusive os mil autores das cartas, responde “tanto faz, 50–50”. Guarde sua resposta para a questão 8.)

7. Carro atrás da porta 1 (probabilidade 13\frac13): o apresentador abre qualquer uma das portas com bode; trocar abandona o carro: perde. Carro atrás da porta 2 (13\frac13): o apresentador tem de abrir a porta 3; trocar cai na porta 2: ganha. Carro atrás da porta 3: simétrico: ganha. Total: P(trocar ganha)=13+13=23P(\text{trocar ganha}) = \frac13 + \frac13 = \frac23.

8. Sua primeira escolha está errada com probabilidade 23\frac23 — e é precisamente aí que a revelação forçada do apresentador deixa o carro atrás da porta restante: trocar converte todo erro inicial em vitória. 23\frac23, seja lá o que tenha dito a intuição.

9. Seis cenários igualmente prováveis: carro atrás de 11, 22 ou 33, apresentador abre a porta 22 ou a 33 (nunca a sua). A revelação mostra o carro em dois deles (carro em 2/abre 2 e carro em 3/abre 3): descartados. Entre os quatro sobreviventes — carro em 1/abre 2, carro em 1/abre 3, carro em 2/abre 3, carro em 3/abre 2 — trocar ganha nos dois últimos: 24=12\frac24 = \frac12. Com um apresentador ignorante, 50–50 está correto: o paradoxo mora inteiramente no conhecimento do apresentador, que filtra os cenários de modo desigual.

10. Sua escolha guarda o carro com probabilidade 1100\frac{1}{100}; as 9898 revelações do apresentador que sabe canalizam os 99100\frac{99}{100} restantes para a única porta fechada. Troque e ganhe 9999 vezes em 100100.

11. Três cartas (um ás e dois curingas), um amigo que espia e sempre descarta um curinga dentre as duas que você não escolheu; jogue 300300 rodadas trocando sempre e registre as vitórias. Frequência esperada 230.667\frac23 \approx 0.667, com flutuação ±13000.058\pm\frac{1}{\sqrt{300}} \approx 0.058: espere entre cerca de 61%61\,\% e 72%72\,\% de vitórias ao trocar — muito longe de qualquer “50–50”.

12. Configurações igualmente prováveis (mais velho–mais novo): MM, MF, FM, FF, escrevendo M para menino e F para menina. “Pelo menos um menino” mantém MM, MF, FM: P(MM)=13P(\text{MM}) = \frac13.

13. “O mais velho é menino” mantém MM, MF: P(MM)=12P(\text{MM}) = \frac12. Informações diferentes filtram conjuntos diferentes de cenários — exatamente como fizeram os dois Montys: o que você aprende importa, e como você aprendeu importa igualmente.

14. Todas iguais: CaCaCa e CoCoCo: 28=14\frac28 = \frac14. O erro de d’Alembert: seus dois “casos” não são igualmente prováveis — “nem todas iguais” agrupa seis dos oito resultados. A Proposição 9.3 só conta sobre resultados igualmente prováveis.

15. Ganho médio por partida: 6×16+3×16=1.506 \times \frac16 + 3 \times \frac16 = 1.50 euros, contra uma aposta de 22 euros: uma perda média de 0.500.50 por partida, cerca de 300300 euros em 600600 partidas. O prêmio justo iguala o pagamento médio: 1%×10000=1001\,\% \times 10\,000 = 100 euros; os prêmios reais acrescentam custos e uma margem de segurança — a seguradora precisa sobreviver aos anos ruins, não apenas aos anos médios.

16. Intervalo: 0.5±1100=[0.4,0.6]0.5 \pm \frac{1}{\sqrt{100}} = \intcc{0.4}{0.6}. 5555 caras (0.550.55): dentro, nada de notável. 7070 caras (0.700.70): bem fora — desconfie da moeda.

17. 110000.032\frac{1}{\sqrt{1000}} \approx 0.032: um candidato realmente em 50%50\,\% apareceria tipicamente em [0.468,0.532]\intcc{0.468}{0.532} — e 0.520.52 fica confortavelmente dentro. A pesquisa sugere uma vantagem, mas nada prova: a margem a engole.

18. Primeira amostra: intervalo 0.04±120=[0,0.09]0.04 \pm \frac{1}{20} = \intcc{0}{0.09}; o valor observado 0.070.07 está dentro: nenhum veredicto. Segunda: 0.04±150=[0.02,0.06]0.04 \pm \frac{1}{50} = \intcc{0.02}{0.06}; o valor observado 0.070.07 cai fora: a afirmação passa a ser seriamente duvidosa. Mesma frequência, instrumento mais fino: a precisão cresce como n\sqrt n.

19. A flutuação encolhe como 1n\frac{1}{\sqrt n}: quadruplique a amostra e reduza o ruído à metade. O viés — perguntar à multidão errada — sobrevive a qualquer nn: dois milhões de cédulas mal escolhidas continuaram erradas (o problema de fim de semana sobre como os dados mentem, no volume do ensino fundamental).

20. (i) Verifique se os resultados são igualmente prováveis antes de contar — d’Alembert esqueceu. (ii) As árvores multiplicam ao longo dos ramos; os “pelo menos um” rendem-se ao complementar. (iii) A informação filtra cenários, e a origem dela muda o filtro — Monty que sabe contra Monty distraído, o mais velho menino contra algum menino. (iv) As frequências se aproximam das probabilidades à velocidade 1n\frac{1}{\sqrt n}, de modo que uma simulação paciente encerra qualquer discussão — inclusive uma com dez mil autores de cartas indignados.