Mathematics · Livro 2 · Grades 10–12

Matemática do ensino médio

Matemática do ensino médio · Grades 10–12

20Sequências

Uma sequência é uma lista de números reais indexada pelos naturais. As sequências modelam evoluções discretas — populações contadas ano a ano, saldos de uma conta bancária, aproximações sucessivas de um número — e seus limites são o primeiro encontro sério com o infinito. Este capítulo monta o vocabulário, o princípio da indução e os teoremas fundamentais de convergência.

20.1 Raciocínio por indução

Teorema 20.1 (Princípio da indução)

Seja P(n)P(n) uma afirmação que depende de um inteiro nn, e seja n0Nn_0 \in \N. Se

  1. (caso base) P(n0)P(n_0) é verdadeira e
  2. (passo indutivo) para todo nn0n \geq n_0, P(n)P(n) implica P(n+1)P(n+1),

então P(n)P(n) é verdadeira para todo nn0n \geq n_0.

Demonstração. Suponha, por absurdo, que o conjunto AA dos inteiros nn0n \geq n_0 para os quais P(n)P(n) é falsa seja não vazio. Então AA tem um menor elemento mm.1 Como P(n0)P(n_0) é verdadeira, m>n0m > n_0, logo m1n0m - 1 \geq n_0 e m1Am-1 \notin A, isto é, P(m1)P(m-1) é verdadeira. O passo indutivo aplicado a n=m1n = m-1 mostra então que P(m)P(m) é verdadeira, contradizendo mAm \in A.

Exemplo 20.2

Vamos demonstrar a desigualdade de Bernoulli: para todo real a>0a > 0 e todo nNn \in \N,

(1+a)n1+na.(1+a)^n \geq 1 + na.

Caso base. Para n=0n = 0, os dois lados valem 11. Passo indutivo. Suponha (1+a)n1+na(1+a)^n \geq 1+na para algum nNn \in \N. Como 1+a>01 + a > 0, multiplicar os dois lados por 1+a1+a preserva a desigualdade:

(1+a)n+1(1+na)(1+a)=1+(n+1)a+na21+(n+1)a.(1+a)^{n+1} \geq (1+na)(1+a) = 1 + (n+1)a + na^2 \geq 1 + (n+1)a .

Por indução, a desigualdade vale para todo nNn \in \N.

Método 20.3 (Escrever uma demonstração por indução)

Deixe sempre a afirmação P(n)P(n) explícita antes de começar. Uma demonstração completa tem três partes visíveis: o caso base, o passo indutivo (“suponha P(n)P(n); demonstramos P(n+1)P(n+1)”) e a conclusão invocando o princípio da indução. O erro mais comum é demonstrar o passo indutivo sem nunca usar a hipótese P(n)P(n): se isso acontecer, ou a demonstração está errada, ou a indução não era necessária.

20.2 Vocabulário das sequências

Definição 20.4 (Sequência)

Uma sequência é uma função u ⁣:NRu \colon \N \to \R (ou de {nN:nn0}\{n \in \N : n \geq n_0\} em R\R). A imagem de nn escreve-se unu_n, e a própria sequência, (un)nN(u_n)_{n\in\N} ou simplesmente (un)(u_n).

Uma sequência pode ser definida de forma explícita, por uma fórmula un=f(n)u_n = f(n), ou por recorrência, pelo seu primeiro termo e uma relação un+1=f(un)u_{n+1} = f(u_n).

Definição 20.5 (Monotonicidade)

Uma sequência (un)(u_n) é crescente se un+1unu_{n+1} \geq u_n para todo nn, decrescente se un+1unu_{n+1} \leq u_n para todo nn, e monótona se for crescente ou decrescente. Ela é estritamente crescente (resp. decrescente) quando as desigualdades são estritas.

Método 20.6 (Estudar a monotonicidade de uma sequência)

Três técnicas padrão:

  1. estudar o sinal de un+1unu_{n+1} - u_n;
  2. se todos os termos são positivos, comparar un+1un\dfrac{u_{n+1}}{u_n} com 11;
  3. se un=f(n)u_n = f(n) com ff definida em [0,+)\intco{0}{+\infty}, usar a variação de ff.

Definição 20.7 (Sequência limitada)

Uma sequência (un)(u_n) é limitada superiormente se existe MRM \in \R com unMu_n \leq M para todo nn; limitada inferiormente se existe mRm \in \R com unmu_n \geq m para todo nn; e limitada se as duas coisas valem.

20.2.1 Progressões aritméticas e geométricas

Definição 20.8 (Progressões aritméticas e geométricas)

Uma sequência (un)(u_n) é uma progressão aritmética de razão rr se un+1=un+ru_{n+1} = u_n + r para todo nn, e uma progressão geométrica de razão qq se un+1=qunu_{n+1} = q\,u_n para todo nn.

Proposição 20.9 (Forma explícita e somas)

Seja nNn \in \N.

  1. Se (un)(u_n) é uma progressão aritmética de razão rr, então un=u0+nru_n = u_0 + nr e

    u0+u1++un=(n+1)u0+un2.u_0 + u_1 + \dots + u_n = (n+1)\,\frac{u_0 + u_n}{2}.
  2. Se (un)(u_n) é uma progressão geométrica de razão q1q \neq 1, então un=u0qnu_n = u_0\, q^n e

    u0+u1++un=u01qn+11q.u_0 + u_1 + \dots + u_n = u_0\,\frac{1 - q^{n+1}}{1 - q}.

Demonstração. As formas explícitas seguem de induções imediatas. Para a soma aritmética, escreva S=u0++unS = u_0 + \dots + u_n e some a mesma soma escrita em ordem inversa: cada uma das n+1n+1 somas de coluna vale u0+unu_0 + u_n, logo 2S=(n+1)(u0+un)2S = (n+1)(u_0+u_n). Para a soma geométrica, calcule SqSS - qS: todos os termos se cancelam aos pares, exceto o primeiro e o último, de modo que (1q)S=u0(1qn+1)(1-q)S = u_0(1 - q^{n+1}).

20.3 Limite de uma sequência

Definição 20.10 (Sequência convergente)

Uma sequência (un)(u_n) converge para o número real \ell se todo intervalo aberto que contém \ell contém todos os termos unu_n a partir de um certo índice. Escrevemos então limn+un=\lim\limits_{n\to+\infty} u_n = \ell.

Equivalentemente: para todo ε>0\varepsilon > 0, existe NNN \in \N tal que, para todo nNn \geq N, unε\abs{u_n - \ell} \leq \varepsilon.

Convergência de u_n = 2 + (-1)n/n para = 2: dado > 0, todos os termos a partir do índice N ficam na faixa [ - , + ].
Convergência de un=2+(1)nnu_n = 2 + \frac{(-1)^n}{n} para =2\ell = 2: dado ε>0\varepsilon > 0, todos os termos a partir do índice NN ficam na faixa [ε,+ε]\intcc{\ell-\varepsilon}{\ell+\varepsilon}.

Definição 20.11 (Divergência para o infinito)

A sequência (un)(u_n) tende a ++\infty se, para todo ARA \in \R, existe NNN \in \N tal que unAu_n \geq A para todo nNn \geq N. Escrevemos limn+un=+\lim\limits_{n\to+\infty} u_n = +\infty; a definição de limun=\lim u_n = -\infty é análoga. Uma sequência que não converge é dita divergente.

Observação 20.12

Uma sequência pode divergir sem tender a ±\pm\infty: a sequência un=(1)nu_n = (-1)^n só assume os valores 11 e 1-1 e não tem limite.

Proposição 20.13 (Unicidade do limite)

Se (un)(u_n) converge, seu limite é único.

Demonstração. Suponha unu_n \to \ell e unu_n \to \ell' com \ell \neq \ell', digamos <\ell < \ell'. Ponha ε=3>0\varepsilon = \frac{\ell' - \ell}{3} > 0. A partir de um certo índice, unε\abs{u_n - \ell} \leq \varepsilon e unε\abs{u_n - \ell'} \leq \varepsilon, logo

un+un2ε=23()<,\ell' - \ell \leq \abs{\ell' - u_n} + \abs{u_n - \ell} \leq 2\varepsilon = \tfrac{2}{3}(\ell' - \ell) < \ell' - \ell,

uma contradição.

Proposição 20.14 (Operações com limites)

Sejam (un)(u_n) e (vn)(v_n) sequências de limites \ell e \ell' (finitos ou infinitos). Então, sempre que o lado direito não for uma forma indeterminada,

lim(un+vn)=+,lim(unvn)=,limunvn=.\lim (u_n + v_n) = \ell + \ell', \qquad \lim (u_n v_n) = \ell\,\ell', \qquad \lim \frac{u_n}{v_n} = \frac{\ell}{\ell'}.

As formas indeterminadas são (+)+()(+\infty) + (-\infty), 0×0 \times \infty, \frac{\infty}{\infty} e 00\frac{0}{0}.

Demonstração. Demonstramos a regra da soma para limites finitos; os demais casos são análogos e ficam como exercício. Seja ε>0\varepsilon > 0. Existem N1,N2N_1, N_2 tais que unε/2\abs{u_n - \ell} \leq \varepsilon/2 para nN1n \geq N_1 e vnε/2\abs{v_n - \ell'} \leq \varepsilon/2 para nN2n \geq N_2. Para nmax(N1,N2)n \geq \max(N_1, N_2), a desigualdade triangular dá

(un+vn)(+)un+vnε.\abs{(u_n + v_n) - (\ell + \ell')} \leq \abs{u_n - \ell} + \abs{v_n - \ell'} \leq \varepsilon. \qedhere

Método 20.15 (Levantar uma forma indeterminada)

Diante de uma forma indeterminada, coloque o termo dominante em evidência. Por exemplo,

n2n=n2(11n)n++,2n2+1n2n=2+1/n211/nn+2.n^2 - n = n^2\left(1 - \tfrac{1}{n}\right) \xrightarrow[n\to+\infty]{} +\infty, \qquad \frac{2n^2+1}{n^2 - n} = \frac{2 + 1/n^2}{1 - 1/n} \xrightarrow[n\to+\infty]{} 2 .

20.4 Teoremas de convergência

Teorema 20.16 (Teoremas de comparação e do confronto)

Sejam (un)(u_n), (vn)(v_n), (wn)(w_n) sequências.

  1. Se unvnu_n \leq v_n a partir de certo índice e un+u_n \to +\infty, então vn+v_n \to +\infty.
  2. (Teorema do confronto) Se unvnwnu_n \leq v_n \leq w_n a partir de certo índice e (un)(u_n) e (wn)(w_n) convergem ambas para o mesmo limite \ell, então (vn)(v_n) converge para \ell.

Demonstração. 1. Seja ARA \in \R. Como un+u_n \to +\infty, existe NN com unAu_n \geq A para nNn \geq N; aumentando NN se preciso, vnunAv_n \geq u_n \geq A para nNn \geq N.

2. Seja ε>0\varepsilon > 0. A partir de um certo índice valem εun\ell - \varepsilon \leq u_n e wn+εw_n \leq \ell + \varepsilon, logo εunvnwn+ε\ell - \varepsilon \leq u_n \leq v_n \leq w_n \leq \ell + \varepsilon, isto é, vnε\abs{v_n - \ell} \leq \varepsilon.

Exemplo 20.17

Para todo n1n \geq 1, 1n(1)nn1n-\frac{1}{n} \leq \frac{(-1)^n}{n} \leq \frac{1}{n}, e as duas cotas tendem a 00; logo (1)nn0\frac{(-1)^n}{n} \to 0.

Teorema 20.18 (Teorema da convergência monótona)

Uma sequência crescente e limitada superiormente converge. Uma sequência decrescente e limitada inferiormente converge. Uma sequência crescente que não é limitada superiormente tende a ++\infty.

Demonstração parcial. Demonstramos a terceira afirmação. Seja (un)(u_n) crescente e não limitada superiormente, e seja ARA \in \R. Como AA não é cota superior, existe NN com uNAu_N \geq A; pela monotonicidade, unuNAu_n \geq u_N \geq A para todo nNn \geq N. Logo un+u_n \to +\infty.

As duas afirmações de convergência apoiam-se na propriedade do supremo de R\R; elas são admitidas neste nível (e demonstradas no primeiro ano de graduação).

Observação 20.19

O teorema garante a existência do limite, mas não fornece seu valor. Uma sequência crescente e limitada superiormente por MM converge para algum M\ell \leq M, não necessariamente para MM.

Teorema 20.20 (Limite de progressões geométricas)

Seja qRq \in \R.

  1. Se q>1q > 1, então qn+q^n \to +\infty.
  2. Se q=1q = 1, então qn1q^n \to 1.
  3. Se q<1\abs{q} < 1, então qn0q^n \to 0.
  4. Se q1q \leq -1, então (qn)(q^n) diverge e não tem limite.

Demonstração. 1. Escreva q=1+aq = 1 + a com a>0a > 0. A desigualdade de Bernoulli (Exemplo 20.2) dá qn1+na+q^n \geq 1 + na \to +\infty, e concluímos por comparação (Teorema 20.16).

2. Imediato.

3. Se q=0q = 0 a afirmação é clara. Caso contrário, q<1\abs{q} < 11/q>11/\abs{q} > 1, logo (1/q)n+(1/\abs{q})^n \to +\infty pelo item 1, portanto qn0\abs{q}^n \to 0, e qnqnqn-\abs{q}^n \leq q^n \leq \abs{q}^n permite concluir pelo teorema do confronto.

4. Para q1q \leq -1, (q2n)(q^{2n}) assume valores 1\geq 1, enquanto (q2n+1)(q^{2n+1}) assume valores 1\leq -1: nenhum limite único pode atrair as duas subsequências.

Os três comportamentos de (qn): divergência para +∈fty quando q > 1 (vermelho), convergência para 0 quando q < 1 (azul) e oscilação amortecida — ainda convergência para 0 — quando -1 < q < 0 (laranja).
Os três comportamentos de (qn)(q^n): divergência para ++\infty quando q>1q > 1 (vermelho), convergência para 00 quando q<1\abs q < 1 (azul) e oscilação amortecida — ainda convergência para 00 — quando 1<q<0-1 < q < 0 (laranja).

Método 20.21 (Sequências recorrentes un+1=f(un)u_{n+1} = f(u_n))

Para estudar uma sequência definida por un+1=f(un)u_{n+1} = f(u_n):

  1. demonstre por indução que (un)(u_n) permanece em um intervalo II no qual ff se comporta bem (e, muitas vezes, que (un)(u_n) é monótona);
  2. deduza a convergência do teorema da convergência monótona;
  3. passe ao limite na relação un+1=f(un)u_{n+1} = f(u_n): se ff é contínua e unIu_n \to \ell \in I, então \ell satisfaz f()=f(\ell) = \ell (veja o Capítulo 21); resolva essa equação e escolha a raiz certa.
Construção em escada para u_n+1 = √u_n + 2, u_0 = 0 (): cada passo vertical lê f(u_n) na curva e cada passo horizontal o traz de volta pela reta y = x. A sequência sobe até o ponto fixo = 2, onde a curva encontra a reta.
Construção em escada para un+1=un+2u_{n+1} = \sqrt{u_n + 2}, u0=0u_0 = 0 (Exercício 20.6): cada passo vertical lê f(un)f(u_n) na curva e cada passo horizontal o traz de volta pela reta y=xy = x. A sequência sobe até o ponto fixo =2\ell = 2, onde a curva encontra a reta.

Exemplo 20.22

Sejam u0=2u_0 = 2 e un+1=12(un+2un)u_{n+1} = \frac{1}{2}\left(u_n + \frac{2}{u_n}\right). Verifica-se por indução que un2u_n \geq \sqrt{2} para todo nn (a desigualdade 12(x+2/x)2\frac{1}{2}(x + 2/x) \geq \sqrt{2} para x>0x>0 equivale a (x2)20(x - \sqrt2)^2 \geq 0) e, em seguida, que (un)(u_n) é decrescente, pois

un+1un=2un22un0.u_{n+1}-u_n=\frac{2-u_n^2}{2u_n}\leq 0 .

Decrescente e limitada inferiormente, (un)(u_n) converge para algum 2\ell \geq \sqrt{2}, que deve satisfazer =12(+2/)\ell = \frac{1}{2}(\ell + 2/\ell), isto é, 2=2\ell^2 = 2. Logo un2u_n \to \sqrt{2}. Esse é o algoritmo de Heron, já usado pelos babilônios; sua convergência é extremamente rápida (u3u_3 já dá 2\sqrt 2 com oito casas decimais corretas).

20.5 Exercícios

Exercício 20.1

Demonstre por indução que, para todo nNn \in \N,

12+22++n2=n(n+1)(2n+1)6.1^2 + 2^2 + \dots + n^2 = \frac{n(n+1)(2n+1)}{6}.
Solução

Solução de Exercício 20.1.

Seja P(n)P(n) a afirmação k=1nk2=n(n+1)(2n+1)6\sum_{k=1}^{n} k^2 = \frac{n(n+1)(2n+1)}{6}. Caso base: para n=0n = 0 os dois lados valem 00 (soma vazia). Passo indutivo: suponha P(n)P(n). Então

k=1n+1k2=n(n+1)(2n+1)6+(n+1)2=(n+1)(n(2n+1)+6(n+1))6=(n+1)(2n2+7n+6)6.\sum_{k=1}^{n+1} k^2 = \frac{n(n+1)(2n+1)}{6} + (n+1)^2 = \frac{(n+1)\bigl(n(2n+1) + 6(n+1)\bigr)}{6} = \frac{(n+1)(2n^2 + 7n + 6)}{6}.

Como 2n2+7n+6=(n+2)(2n+3)2n^2 + 7n + 6 = (n+2)(2n+3), isso é (n+1)(n+2)(2(n+1)+1)6\frac{(n+1)(n+2)(2(n+1)+1)}{6}, que é P(n+1)P(n+1). Por indução, P(n)P(n) vale para todo nn.

Exercício 20.2

Estude a monotonicidade das sequências definidas, para n1n \geq 1, por

an=n+1n,bn=2nn,cn=n210n.a_n = \frac{n+1}{n}, \qquad b_n = \frac{2^n}{n}, \qquad c_n = n^2 - 10n .
Solução

Solução de Exercício 20.2.

an+1an=n+2n+1n+1n=n(n+2)(n+1)2n(n+1)=1n(n+1)<0a_{n+1} - a_n = \frac{n+2}{n+1} - \frac{n+1}{n} = \frac{n(n+2) - (n+1)^2}{n(n+1)} = \frac{-1}{n(n+1)} < 0: (an)(a_n) é estritamente decrescente.

(bn)(b_n) tem termos positivos e bn+1bn=2n+1n+1n2n=2nn+11    2nn+1    n1\frac{b_{n+1}}{b_n} = \frac{2^{n+1}}{n+1}\cdot\frac{n}{2^n} = \frac{2n}{n+1} \geq 1 \iff 2n \geq n+1 \iff n \geq 1: (bn)(b_n) é crescente (estritamente para n2n \geq 2).

cn+1cn=(n+1)210(n+1)n2+10n=2n9c_{n+1} - c_n = (n+1)^2 - 10(n+1) - n^2 + 10n = 2n - 9, negativo para n4n \leq 4 e positivo para n5n \geq 5: (cn)(c_n) decresce até c5=25c_5 = -25, seu mínimo, e depois cresce. Não é monótona.

Exercício 20.3

Calcule os limites das sequências de termos gerais

un=3n2n+12n2+5,vn=n+1n,wn=2n3n3n+1.u_n = \frac{3n^2 - n + 1}{2n^2 + 5}, \qquad v_n = \sqrt{n+1} - \sqrt{n}, \qquad w_n = \frac{2^n - 3^n}{3^n + 1}.
Solução

Solução de Exercício 20.3.

Coloque os termos dominantes em evidência:

un=n2(31/n+1/n2)n2(2+5/n2)n+32.u_n = \frac{n^2(3 - 1/n + 1/n^2)}{n^2(2 + 5/n^2)} \xrightarrow[n\to+\infty]{} \frac{3}{2}.

Multiplique pelo conjugado:

vn=(n+1)nn+1+n=1n+1+nn+0.v_n = \frac{(n+1) - n}{\sqrt{n+1} + \sqrt{n}} = \frac{1}{\sqrt{n+1}+\sqrt{n}} \xrightarrow[n\to+\infty]{} 0.

Divida numerador e denominador por 3n3^n:

wn=(2/3)n11+(1/3)nn+011+0=1,w_n = \frac{(2/3)^n - 1}{1 + (1/3)^n} \xrightarrow[n\to+\infty]{} \frac{0-1}{1+0} = -1,

usando limqn=0\lim q^n = 0 para q<1\abs{q} < 1.

Exercício 20.4

Seja (un)(u_n) a progressão aritmética com u0=5u_0 = 5 e razão r=3r = 3, e (vn)(v_n) a progressão geométrica com v0=8v_0 = 8 e razão q=12q = \frac{1}{2}. Calcule unu_n, vnv_n, k=0nuk\sum_{k=0}^{n} u_k e k=0nvk\sum_{k=0}^{n} v_k, e os limites das quatro expressões quando n+n \to +\infty.

Solução

Solução de Exercício 20.4.

un=5+3n+u_n = 5 + 3n \to +\infty e vn=8(1/2)n=23n0v_n = 8 \cdot (1/2)^n = 2^{3-n} \to 0. As somas são

k=0nuk=(n+1)5+(5+3n)2=(n+1)(10+3n)2n++,\sum_{k=0}^{n} u_k = (n+1)\,\frac{5 + (5+3n)}{2} = \frac{(n+1)(10+3n)}{2} \xrightarrow[n\to+\infty]{} +\infty,
k=0nvk=81(1/2)n+111/2=16(1(12)n+1)n+16.\sum_{k=0}^{n} v_k = 8\,\frac{1 - (1/2)^{n+1}}{1 - 1/2} = 16\left(1 - \left(\tfrac{1}{2}\right)^{n+1}\right) \xrightarrow[n\to+\infty]{} 16 .

Exercício 20.5 ★★

Usando o teorema do confronto, calcule

limn+n+cosnn+1elimn+n!nn,\lim_{n\to+\infty} \frac{n + \cos n}{n + 1} \qquad\text{e}\qquad \lim_{n\to+\infty} \frac{n!}{n^n},

em que n!=1×2××nn! = 1 \times 2 \times \dots \times n. Para o segundo limite, limite n!nn\frac{n!}{n^n} por um termo de uma progressão geométrica.

Solução

Solução de Exercício 20.5.

Como 1cosn1-1 \leq \cos n \leq 1,

n1n+1n+cosnn+11,\frac{n-1}{n+1} \leq \frac{n + \cos n}{n+1} \leq 1,

e n1n+11\frac{n-1}{n+1} \to 1, de modo que o limite é 11 pelo teorema do confronto.

Para o segundo limite, escreva

0n!nn=1n2nnn1n,0 \leq \frac{n!}{n^n} = \frac{1}{n}\cdot\frac{2}{n}\cdots\frac{n}{n} \leq \frac{1}{n},

porque todo fator kn\frac{k}{n} com 2kn2 \leq k \leq n é no máximo 11. Como 1n0\frac1n \to 0, o teorema do confronto dá n!nn0\frac{n!}{n^n} \to 0. (A cota geométrica sugerida também funciona: cada fator com kn/2k \leq n/2 é no máximo 12\frac12, o que dá a cota mais forte (1/2)n/2(1/2)^{\floor{n/2}}.)

Exercício 20.6 ★★

Sejam u0=0u_0 = 0 e un+1=un+2u_{n+1} = \sqrt{u_n + 2} para todo nNn \in \N.

  1. Demonstre por indução que 0un20 \leq u_n \leq 2 para todo nn.
  2. Mostre que (un)(u_n) é crescente.
  3. Deduza que (un)(u_n) converge e determine seu limite.
Solução

Solução de Exercício 20.6.

1. u0=0[0,2]u_0 = 0 \in \intcc{0}{2}. Se 0un20 \leq u_n \leq 2, então 2un+242 \leq u_n + 2 \leq 4, logo 2un+12\sqrt{2} \leq u_{n+1} \leq 2; em particular, 0un+120 \leq u_{n+1} \leq 2. Por indução, a propriedade vale para todo nn.

2. un+1un=un+2unu_{n+1} - u_n = \sqrt{u_n + 2} - u_n. Para x[0,2]x \in \intcc{0}{2}, x+2x    x+2x2    (2x)(x+1)0\sqrt{x+2} \geq x \iff x + 2 \geq x^2 \iff (2-x)(x+1) \geq 0, o que é verdadeiro. Logo (un)(u_n) é crescente.

3. Crescente e limitada superiormente por 22, (un)(u_n) converge para algum [0,2]\ell \in \intcc{0}{2}. Passando ao limite em un+1=un+2u_{n+1} = \sqrt{u_n + 2} (a aplicação xx+2x \mapsto \sqrt{x+2} é contínua), vem =+2\ell = \sqrt{\ell + 2}, logo 22=0\ell^2 - \ell - 2 = 0, isto é, {1,2}\ell \in \{-1, 2\}. Como 0\ell \geq 0, limun=2\lim u_n = 2.

Exercício 20.7 ★★

Um paciente toma uma dose de 11 unidade de um medicamento toda manhã. A cada período de 24 horas, o organismo elimina 40%40\% do medicamento presente. Seja unu_n a quantidade de medicamento no organismo logo após a dose do dia nn, de modo que u0=1u_0 = 1.

  1. Justifique que un+1=0.6un+1u_{n+1} = 0.6\,u_n + 1.
  2. Seja vn=un2.5v_n = u_n - 2.5. Mostre que (vn)(v_n) é uma progressão geométrica e deduza uma fórmula explícita para unu_n.
  3. Determine a quantidade de medicamento no organismo a longo prazo.
Solução

Solução de Exercício 20.7.

1. Entre duas doses, 40%40\% do medicamento é eliminado, de modo que a quantidade unu_n vira 0.6un0.6\,u_n; a dose seguinte acrescenta 11 unidade: un+1=0.6un+1u_{n+1} = 0.6\,u_n + 1.

2. vn+1=un+12.5=0.6un+12.5=0.6(un2.5)=0.6vnv_{n+1} = u_{n+1} - 2.5 = 0.6\,u_n + 1 - 2.5 = 0.6(u_n - 2.5) = 0.6\,v_n: (vn)(v_n) é uma progressão geométrica de razão 0.60.6 e primeiro termo v0=12.5=1.5v_0 = 1 - 2.5 = -1.5. Logo vn=1.5×0.6nv_n = -1.5 \times 0.6^n e

un=2.51.5×0.6n.u_n = 2.5 - 1.5 \times 0.6^n .

3. Como 0.6n00.6^n \to 0, un2.5u_n \to 2.5: a quantidade de medicamento se estabiliza em 2.52.5 unidades.

Exercício 20.8 ★★

Seja (un)(u_n) definida por u0=3u_0 = 3 e un+1=4un1un+2u_{n+1} = \frac{4u_n - 1}{u_n + 2}.

  1. Mostre por indução que un>1u_n > 1 para todo nNn \in \N.
  2. Mostre que vn=1un1v_n = \dfrac{1}{u_n - 1} define uma progressão aritmética.
  3. Deduza fórmulas explícitas para vnv_n e unu_n, e o limite de (un)(u_n).
Solução

Solução de Exercício 20.8.

1. u0=3>1u_0 = 3 > 1. Se un>1u_n > 1, então un+2>0u_n + 2 > 0 e

un+11=4un1un2un+2=3(un1)un+2>0.u_{n+1} - 1 = \frac{4u_n - 1 - u_n - 2}{u_n + 2} = \frac{3(u_n - 1)}{u_n + 2} > 0 .

Por indução, un>1u_n > 1 para todo nn (e, em particular, un+20u_n + 2 \neq 0, de modo que a sequência está bem definida).

2. Usando a identidade acima,

vn+1=1un+11=un+23(un1)=(un1)+33(un1)=13+vn.v_{n+1} = \frac{1}{u_{n+1} - 1} = \frac{u_n + 2}{3(u_n - 1)} = \frac{(u_n - 1) + 3}{3(u_n - 1)} = \frac{1}{3} + v_n .

Logo (vn)(v_n) é uma progressão aritmética de razão 13\frac13 com v0=1u01=12v_0 = \frac{1}{u_0 - 1} = \frac12.

3. vn=12+n3v_n = \frac12 + \frac{n}{3}, portanto un=1+1vn=1+63+2nu_n = 1 + \frac{1}{v_n} = 1 + \frac{6}{3 + 2n}. Como vn+v_n \to +\infty, un1u_n \to 1.

Exercício 20.9 ★★★

Para n1n \geq 1, seja Hn=1+12+13++1nH_n = 1 + \frac{1}{2} + \frac{1}{3} + \dots + \frac{1}{n}.

  1. Mostre que, para todo n1n \geq 1, H2nHn12H_{2n} - H_n \geq \frac{1}{2}.
  2. Deduza que H2k1+k2H_{2^k} \geq 1 + \frac{k}{2} para todo kNk \in \N e conclua que Hn+H_n \to +\infty.
Solução

Solução de Exercício 20.9.

1. H2nHn=k=n+12n1kH_{2n} - H_n = \sum_{k=n+1}^{2n} \frac{1}{k} é uma soma de nn termos, cada um pelo menos 12n\frac{1}{2n}; logo H2nHnn12n=12H_{2n} - H_n \geq n \cdot \frac{1}{2n} = \frac12.

2. Por indução em kk: H20=H1=11H_{2^0} = H_1 = 1 \geq 1. Se H2k1+k2H_{2^k} \geq 1 + \frac{k}{2}, então, aplicando o item 1 com n=2kn = 2^k,

H2k+1H2k+121+k+12.H_{2^{k+1}} \geq H_{2^k} + \frac12 \geq 1 + \frac{k+1}{2}.

A sequência (Hn)(H_n) é crescente (cada passo soma 1n+1>0\frac{1}{n+1} > 0) e a subsequência H2kH_{2^k} é ilimitada, de modo que (Hn)(H_n) não é limitada superiormente. Crescente e ilimitada, ela tende a ++\infty (Teorema 20.18).

Exercício 20.10 ★★★

(Sequências adjacentes.) Duas sequências (an)(a_n) e (bn)(b_n) são adjacentes se (an)(a_n) é crescente, (bn)(b_n) é decrescente e bnan0b_n - a_n \to 0.

  1. Mostre que, para todo nn, anbna_n \leq b_n. (Sugestão: estude a monotonicidade de (bnan)(b_n - a_n).)
  2. Mostre que sequências adjacentes convergem ambas para o mesmo limite.
  3. Aplicação: mostre que as sequências an=k=0n1k!a_n = \sum_{k=0}^{n} \frac{1}{k!} e bn=an+1nn!b_n = a_n + \frac{1}{n \cdot n!} (n1n \geq 1) são adjacentes. (Seu limite comum é o número e\eu, estudado no Capítulo 23.)
Solução

Solução de Exercício 20.10.

1. A sequência dn=bnand_n = b_n - a_n satisfaz dn+1dn=(bn+1bn)(an+1an)0d_{n+1} - d_n = (b_{n+1} - b_n) - (a_{n+1} - a_n) \leq 0, de modo que (dn)(d_n) é decrescente; como dn0d_n \to 0, obtemos dn0d_n \geq 0 para todo nn (uma sequência decrescente com um termo negativo permaneceria abaixo dele para sempre, impedindo o limite 00). Logo anbna_n \leq b_n.

2. De anbnb0a_n \leq b_n \leq b_0, a sequência crescente (an)(a_n) é limitada superiormente e, portanto, converge para algum \ell. Do mesmo modo, (bn)(b_n), decrescente e limitada inferiormente por a0a_0, converge para algum \ell'. Então =lim(bnan)=0\ell' - \ell = \lim (b_n - a_n) = 0, logo =\ell = \ell'.

3. (an)(a_n) é (estritamente) crescente, pois an+1an=1(n+1)!>0a_{n+1} - a_n = \frac{1}{(n+1)!} > 0. Para (bn)(b_n),

bn+1bn=1(n+1)!+1(n+1)(n+1)!1nn!=n(n+1)+n(n+1)2n(n+1)(n+1)!=1n(n+1)(n+1)!<0,b_{n+1} - b_n = \frac{1}{(n+1)!} + \frac{1}{(n+1)(n+1)!} - \frac{1}{n\,n!} = \frac{n(n+1) + n - (n+1)^2}{n(n+1)(n+1)!} = \frac{-1}{n(n+1)(n+1)!} < 0 ,

de modo que (bn)(b_n) é decrescente. Por fim, bnan=1nn!0b_n - a_n = \frac{1}{n\,n!} \to 0. As duas sequências são adjacentes e, portanto, convergem para um limite comum.

20.6 Problema: A sequência de Heron, enfim julgada

Problema 20.1

Problema de fim de semana — a indução certifica, a convergência monótona sentencia, e a receita de dois mil anos para 2\sqrt2 finalmente ganha sua demonstração (com a maravilhosa média de Gauss de sobremesa)

Três vezes esta série encontrou a receita de Heron — tire a média entre o palpite e 2/palpite2/\text{palpite} — e três vezes só pôde observar que a receita funciona. Este capítulo enfim possui os instrumentos do julgamento: a indução (Teorema 20.1), o teorema da convergência monótona (Teorema 20.18) e os limites de recorrências. O veredicto, e a velocidade certificada, ocupam o coração deste problema; em volta dele, as armadilhas clássicas da indução, a divergência mais lenta da matemática e a convergência mais rápida que Gauss encontrou.

Parte I — Aquecimentos de indução.

  1. Demonstre por indução: 1+3+5++(2n1)=n21 + 3 + 5 + \dots + (2n - 1) = n^2 (a escada dos números ímpares, desenhada no volume do ensino fundamental, agora certificada).
  2. Demonstre por indução que 2n>n2^n > n para todo nNn \in \N.
  3. Demonstre a desigualdade de Bernoulli por indução: para x0x \geq 0 e nNn \in \N, (1+x)n1+nx(1 + x)^n \geq 1 + nx.
  4. A armadilha clássica: “todas as bolinhas de gude têm a mesma cor — verdade para uma bolinha; e, se quaisquer nn bolinhas são sempre monocromáticas, então entre n+1n + 1 bolinhas as nn primeiras partilham uma cor, as nn últimas partilham uma cor, logo todas as n+1n + 1 partilham”. Toda criança sabe que a conclusão é absurda: encontre o passo exato em que a indução quebra.
  5. Demonstre por indução que 4n14^n - 1 é divisível por 33 para todo nNn \in \N.

Parte II — O julgamento de Heron. Sejam x0=2x_0 = 2 e xn+1=12(xn+2xn)x_{n+1} = \dfrac12\left(x_n + \dfrac{2}{x_n}\right).

  1. Calcule x1x_1, x2x_2, x3x_3 como frações exatas (velhos conhecidos).
  2. Demonstre a identidade-chave

    xn+122=(xn222xn) ⁣20,x_{n+1}^2 - 2 = \left(\frac{x_n^2 - 2}{2x_n}\right)^{\!2} \geq 0,

    e deduza por indução que xn>0x_n > 0 e xn2>2x_n^2 > 2 para todo nn.

  3. Mostre que (xn)(x_n) é estritamente decrescente (calcule xn+1xnx_{n+1} - x_n e use a questão 7).
  4. Invoque o teorema da convergência monótona: por que (xn)(x_n) converge para algum limite L1L \geq 1?
  5. Identifique o limite: passe a recorrência ao limite (Proposição 20.14) e conclua que L=2L = \sqrt2. Enuncie o veredicto histórico: depois de dois mil anos de serviço fiel, está demonstrado que a receita de Heron converge.
  6. A velocidade certificada: com en=xn2e_n = x_n - \sqrt2, demonstre que

    en+1=en22xn,e_{n+1} = \frac{e_n^2}{2 x_n} ,

    e deduza en+1en222e_{n+1} \leq \frac{e_n^2}{2\sqrt2}: o erro é elevado ao quadrado a cada passo — a duplicação de dígitos observada desde o volume do ensino fundamental, agora um teorema.

  7. Confirme numericamente: calcule e0,e1,e2,e3e_0, e_1, e_2, e_3 (a partir da questão 6) e verifique que cada en+1en2\frac{e_{n+1}}{e_n^2} está próximo de 12xn\frac{1}{2x_n}.

Parte III — A divergência mais lenta.

  1. O Exercício 20.9 demonstrou H2k1+k2H_{2^k} \geq 1 + \frac k2 para as somas harmônicas. Quantos termos garantem Hn>10H_n > 10? (Uma potência de dois resolve; espante-se com o tamanho dela.)
  2. Em contraste, as somas geométricas 1+12+14++12n=212n1 + \frac12 + \frac14 + \dots + \frac{1}{2^n} = 2 - \frac{1}{2^n} convergem para 22 (Teorema 20.20): a intuição da barra de chocolate do volume do ensino fundamental, enfim como afirmação sobre limites. Escreva a demonstração de duas linhas.
  3. Entre as duas: mostre que as somas Sn=1+14+19++1n2S_n = 1 + \frac{1}{4} + \frac{1}{9} + \dots + \frac{1}{n^2} convergem, limitando 1k21k(k1)=1k11k\frac{1}{k^2} \leq \frac{1}{k(k-1)} = \frac{1}{k-1} - \frac{1}{k} (para k2k \geq 2), telescopando e aplicando a convergência monótona. (O limite, π26\frac{\pi^2}{6}, é um dos milagres de Euler, demonstrado nos volumes de graduação.)
  4. Enuncie em duas frases a moral das questões 13–15: o que “os termos tendem a 00” decide sobre a convergência das somas — e o que não decide?

Parte IV — A média aritmético-geométrica de Gauss. Sejam a0=1a_0 = 1, b0=2b_0 = 2 e

an+1=anbn,bn+1=an+bn2.a_{n+1} = \sqrt{a_n b_n}, \qquad b_{n+1} = \frac{a_n + b_n}{2} .
  1. Calcule a1,b1,a2,b2a_1, b_1, a_2, b_2 (cinco casas decimais). O que você observa quanto à velocidade?
  2. Mostre que anbna_n \leq b_n para todo nn (a desigualdade entre as médias aritmética e geométrica, encontrada ao longo de toda esta série), que (an)(a_n) cresce e que (bn)(b_n) decresce.
  3. Mostre que bn+1an+1bnan2b_{n+1} - a_{n+1} \leq \frac{b_n - a_n}{2} (fatore bn+1an+1=(bnan)22b_{n+1} - a_{n+1} = \frac{(\sqrt{b_n} - \sqrt{a_n})^2}{2} e compare) e conclua, com o Exercício 20.10, que as duas sequências são adjacentes: elas partilham um limite comum M(1,2)M(1, 2), a média aritmético-geométrica.
  4. Calcule M(1,2)M(1, 2) com seis casas decimais (de quantas iterações você precisou?). Em 30 de maio de 1799, Gauss calculou M(1,2)M(1, \sqrt2) com onze casas decimais, reconheceu πM(1,2)\frac{\pi}{M(1,\sqrt2)} como uma integral conhecida e escreveu que se abrira um “novo campo da análise” — e de fato se abrira: as integrais elípticas, contadas nos volumes de graduação. Encerre com as velocidades de convergência observadas neste problema, da mais lenta à mais rápida.
Solução

Solução de Problema 20.1.

1. Verdadeiro para n=1n = 1 (1=121 = 1^2). Se 1+3++(2n1)=n21 + 3 + \dots + (2n - 1) = n^2, então, somando o ímpar seguinte: n2+(2n+1)=(n+1)2n^2 + (2n + 1) = (n + 1)^2: hereditariedade. Por indução, vale para todo n1n \geq 1.

2. 20=1>02^0 = 1 > 0. Se 2n>n2^n > n, então 2n+1=22n>2nn+12^{n+1} = 2 \cdot 2^n > 2n \geq n + 1 para n1n \geq 1 (e n=0n = 0 se verifica diretamente): hereditariedade, pronto.

3. n=0n = 0: 111 \geq 1. Se (1+x)n1+nx(1 + x)^n \geq 1 + nx, multiplique por 1+x1>01 + x \geq 1 > 0: (1+x)n+1(1+nx)(1+x)=1+(n+1)x+nx21+(n+1)x(1 + x)^{n+1} \geq (1 + nx)(1 + x) = 1 + (n + 1)x + nx^2 \geq 1 + (n + 1)x.

4. O passo de n=1n = 1 para n=2n = 2: entre duas bolinhas, “as nn primeiras” e “as nn últimas” são duas bolinhas isoladas e disjuntas — nenhuma bolinha comum faz a ponte entre os dois grupos, de modo que nada obriga as cores a coincidirem. O argumento de hereditariedade exige em silêncio que os dois grupos se sobreponham, o que só é verdade a partir de n2n \geq 2; com o caso base n=1n = 1, a corrente nunca começa.

5. 401=0=3×04^0 - 1 = 0 = 3 \times 0. Se 4n1=3k4^n - 1 = 3k, então 4n+11=4(4n1)+3=3(4k+1)4^{n+1} - 1 = 4(4^n - 1) + 3 = 3(4k + 1): hereditariedade.

6. x1=32x_1 = \frac32, x2=1712x_2 = \frac{17}{12}, x3=577408x_3 = \frac{577}{408}.

7. xn+122=(xn2+2)28xn24xn2=(xn22)24xn2x_{n+1}^2 - 2 = \frac{(x_n^2 + 2)^2 - 8x_n^2} {4x_n^2} = \frac{(x_n^2 - 2)^2}{4 x_n^2}: um quadrado dividido por um positivo, logo 0\geq 0, e >0> 0 sempre que xn22x_n^2 \neq 2. Indução: x0=2>0x_0 = 2 > 0 com x02=4>2x_0^2 = 4 > 2; se xn>0x_n > 0 e xn2>2x_n^2 > 2, então xn+1x_{n+1} (uma média de positivos) é positivo e xn+122>0x_{n+1}^2 - 2 > 0.

8. xn+1xn=2xn22xn<0x_{n+1} - x_n = \frac{2 - x_n^2}{2x_n} < 0 pela questão 7: estritamente decrescente.

9. Decrescente e limitada inferiormente (por 11, já que xn2>2>1x_n^2 > 2 > 1 e xn>0x_n > 0): pelo teorema da convergência monótona, (xn)(x_n) converge para algum L1L \geq 1.

10. Os limites respeitam a álgebra: de xn+1=12(xn+2xn)x_{n+1} = \frac12\left(x_n + \frac{2}{x_n}\right) e xnL1>0x_n \to L \geq 1 > 0 vem L=12(L+2L)L = \frac12\left(L + \frac2L\right), logo L2=2L^2 = 2 e, sendo LL positivo, L=2L = \sqrt2. Veredicto: convergência demonstrada, limite identificado — Heron absolvido com honras.

11. xn+12=xn222xn+22xn=(xn2)22xnx_{n+1} - \sqrt2 = \frac{x_n^2 - 2\sqrt2\,x_n + 2}{2x_n} = \frac{(x_n - \sqrt2)^2}{2x_n}: exatamente en+1=en22xne_{n+1} = \frac{e_n^2}{2x_n}, e xn>2x_n > \sqrt2en+1en222e_{n+1} \leq \frac{e_n^2}{2\sqrt2}. Erro elevado ao quadrado: cada passo dobra o número de casas decimais corretas, como se observava desde o ano 9.

12. e00.5858e_0 \approx 0.5858, e10.0858e_1 \approx 0.0858, e20.00245e_2 \approx 0.00245, e32.1×106e_3 \approx 2.1 \times 10^{-6}. Razões: e1e020.25=12x0\frac{e_1}{e_0^2} \approx 0.25 = \frac{1}{2x_0}; e2e120.333=12x1\frac{e_2}{e_1^2} \approx 0.333 = \frac{1}{2x_1}; e3e220.35312x2\frac{e_3}{e_2^2} \approx 0.353 \approx \frac{1}{2x_2}: o teorema em ação.

13. H2181+9=10H_{2^{18}} \geq 1 + 9 = 10: cerca de 260000260\,000 termos (218=2621442^{18} = 262\,144) apenas para passar de 1010 — divergência a passo de tartaruga (e Hn>100H_n > 100 exigiria mais termos do que átomos em qualquer biblioteca).

14. Sn=212nS_n = 2 - \frac{1}{2^n} (soma geométrica), e 12n0\frac{1}{2^n} \to 0 (Teorema 20.20), logo Sn2S_n \to 2: a barra de chocolate mordida sem fim tende ao inteiro sem nunca alcançá-lo — agora na linguagem oficial dos limites.

15. Para k2k \geq 2: 1k21k(k1)=1k11k\frac{1}{k^2} \leq \frac{1}{k(k-1)} = \frac{1}{k-1} - \frac1k, de modo que Sn1+(11n)<2S_n \leq 1 + \left(1 - \frac1n\right) < 2: crescente e limitada superiormente, logo convergente (convergência monótona). Euler mais tarde nomeou o limite: π26\frac{\pi^2}{6}.

16. Os termos tenderem a 00 é necessário para que as somas se acomodem, mas não decide nada: os termos harmônicos 1n0\frac1n \to 0 e, ainda assim, as somas explodem; os termos 1n20\frac{1}{n^2} \to 0 e as somas convergem. A questão toda é o quão depressa os termos morrem — a teoria das séries, construída nos volumes de graduação.

17. a1=21.41421a_1 = \sqrt2 \approx 1.41421, b1=1.5b_1 = 1.5; a21.45648a_2 \approx 1.45648, b21.45711b_2 \approx 1.45711: duas iterações já concordam em três casas decimais — velocidade impressionante.

18. bn+1an+1=an+bn2anbn=(bnan)220b_{n+1} - a_{n+1} = \frac{a_n + b_n}{2} - \sqrt{a_n b_n} = \frac{(\sqrt{b_n} - \sqrt{a_n})^2}{2} \geq 0: as médias mantêm a ordem. (an)(a_n) cresce: an+1=anbnanan=ana_{n+1} = \sqrt{a_n b_n} \geq \sqrt{a_n \cdot a_n} = a_n; e (bn)(b_n) decresce de modo simétrico.

19. bn+1an+1bnan=(bnan)22(bnan)(bn+an)=bnan2(bn+an)12\frac{b_{n+1} - a_{n+1}}{b_n - a_n} = \frac{(\sqrt{b_n} - \sqrt{a_n})^2} {2(\sqrt{b_n} - \sqrt{a_n})(\sqrt{b_n} + \sqrt{a_n})} = \frac{\sqrt{b_n} - \sqrt{a_n}}{2(\sqrt{b_n} + \sqrt{a_n})} \leq \frac12: a diferença pelo menos se reduz à metade, logo bnan0b_n - a_n \to 0; com a questão 18, as sequências são adjacentes e partilham um limite M(1,2)M(1, 2).

20. A terceira iteração dá a3b31.456791a_3 \approx b_3 \approx 1.456791: M(1,2)1.456791M(1, 2) \approx 1.456791 em três voltas de manivela (a diferença praticamente se eleva ao quadrado, como em Heron). Ranking de velocidade das sequências deste problema, da mais lenta à mais rápida: as somas harmônicas (divergência glacial), as somas geométricas (erro reduzido à metade a cada passo), Heron e a média aritmético-geométrica (erro elevado ao quadrado a cada passo) — e foi a velocidade sobrenatural dessa média que disse a Gauss que ele havia encontrado um novo veio da análise.

  1. Todo subconjunto não vazio de N\N tem um menor elemento; essa propriedade de N\N é tomada como axioma.