Physics · Livro 2 · Grades 10–12

Física do ensino médio

Física do ensino médio · Grades 10–12

5Movimento relativo

Um passageiro caminha em direção à frente de um trem de alta velocidade, café na mão, num passo tranquilo. Um observador à beira da via cronometra esse mesmo passageiro a mais de 300km/h300\,\mathrm{km}/\mathrm{h}. As duas medidas estão certas. Nenhuma das duas é “a” velocidade do passageiro, porque tal coisa não existe: o movimento não é uma propriedade de um corpo sozinho, mas de um corpo e do ponto de vista escolhido para descrevê-lo. Este capítulo torna esse ponto de vista preciso — e ensina você a escolher um bom.

5.1 O movimento é relativo

Definição 5.1 (Referencial)

Um referencial é um corpo rígido — o solo, um vagão de trem, a Terra inteira — em relação ao qual as posições são registradas, junto com um relógio para datá-las. Um corpo está em repouso num referencial quando a sua posição nesse referencial não muda com o tempo; caso contrário, ele está em movimento nesse referencial.

Definição 5.2 (Trajetória)

A trajetória de um corpo num dado referencial é a curva formada pelas suas posições sucessivas nesse referencial: uma reta, um círculo, um arco… A trajetória só faz sentido depois que o referencial é nomeado.

Exemplo 5.3 (O caminhante no trem)

Um trem viaja a 300km/h300\,\mathrm{km}/\mathrm{h} em relação ao solo enquanto um passageiro caminha para a frente a 4km/h4\,\mathrm{km}/\mathrm{h} em relação ao trem.

  • No referencial do trem: o passageiro se move a 4km/h4\,\mathrm{km}/\mathrm{h} pelo corredor; as poltronas estão em repouso; as árvores lá fora correm para trás a 300km/h300\,\mathrm{km}/\mathrm{h}.
  • No referencial do solo: as poltronas se movem a 300km/h300\,\mathrm{km}/\mathrm{h}, o passageiro a 304km/h304\,\mathrm{km}/\mathrm{h}, e as árvores estão em repouso.

A mesma cena, dois referenciais, duas descrições inteiramente diferentes — e nenhuma experiência feita dentro do trem consegue declarar uma delas “a verdadeira”.

Proposição 5.4 (Relatividade do movimento)

O estado de repouso ou de movimento de um corpo, a sua trajetória e a sua velocidade dependem todos do referencial escolhido para descrevê-los.

Demonstração. Um exemplo resolve cada afirmação. O passageiro sentado do Exemplo 5.3 está em repouso no referencial do trem e se move a 300km/h300\,\mathrm{km}/\mathrm{h} no referencial do solo (repouso e velocidade dependem do referencial). Quanto à trajetória, observe a válvula da roda de uma bicicleta: um observador que vai na bicicleta a vê descrever um círculo em torno do cubo, enquanto um observador parado na estrada a vê descrever uma sucessão de arcadas (uma curva chamada cicloide) — veja a figura abaixo.

A mesma válvula, dois referenciais: um círculo para o ciclista, uma cicloide — uma sequência de arcadas — para o observador na estrada. A mesma válvula, dois referenciais: um círculo para o ciclista, uma cicloide — uma sequência de arcadas — para o observador na estrada.
A mesma válvula, dois referenciais: um círculo para o ciclista, uma cicloide — uma sequência de arcadas — para o observador na estrada.

Observação 5.5

Repare no que não muda entre as duas imagens: a válvula, a roda, a física. Só a descrição muda. Perguntar “a válvula está mesmo indo em círculo?” é como perguntar se uma montanha está “mesmo” à esquerda: depende de onde você está.

5.2 Velocidade média

Definição 5.6 (Velocidade média)

A velocidade média de um corpo, num dado referencial, é a distância dd que ele percorre nesse referencial dividida pelo tempo de percurso tt:

v=dt.v = \frac{d}{t} .

Com dd em metros e tt em segundos, vv sai em metros por segundo (m/s\mathrm{m}/\mathrm{s}); a vida cotidiana prefere quilômetros por hora (km/h\mathrm{km}/\mathrm{h}).

Método 5.7 (Converter entre m/s e km/h)

Um quilômetro tem 1000m1000\,\mathrm{m} e uma hora tem 3600s3600\,\mathrm{s}, logo 1m/s=3.6km/h1\,\mathrm{m}/\mathrm{s} = 3.6\,\mathrm{km}/\mathrm{h}:

  • de m/s\mathrm{m}/\mathrm{s} para km/h\mathrm{km}/\mathrm{h}: multiplique por 3.63.6;
  • de km/h\mathrm{km}/\mathrm{h} para m/s\mathrm{m}/\mathrm{s}: divida por 3.63.6.

Conferência: o número de km/h\mathrm{km}/\mathrm{h} é sempre o maior dos dois.

Exemplo 5.8 (Algumas velocidades que vale a pena saber)

Uma caminhada rápida: 1.5m/s×3.6=5.4km/h1.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s} \times 3.6 = 5.4\,\mathrm{km}/\mathrm{h}. Um carro na cidade a 54km/h54\,\mathrm{km}/\mathrm{h}: 54/3.6=15m/s54 / 3.6 = 15\,\mathrm{m}/\mathrm{s} — cerca de 15m15\,\mathrm{m} percorridos a cada segundo, coisa que vale lembrar antes de descer da calçada. O som no ar: 340m/s×3.6=1224km/h340\,\mathrm{m}/\mathrm{s} \times 3.6 = 1224\,\mathrm{km}/\mathrm{h}.

Exemplo 5.9 (Uma caminhada com pausa)

Um caminhante percorre 12km12\,\mathrm{km} em 2h2\,\mathrm{h} de marcha, depois descansa por 1h1\,\mathrm{h} e então percorre 6km6\,\mathrm{km} na última 1.5h1.5\,\mathrm{h}. Velocidade média do passeio inteiro:

v=dt=12+62+1+1.5=18km4.5h=4.0km/h.v = \frac{d}{t} = \frac{12 + 6}{2 + 1 + 1.5} = \frac{18\,\mathrm{km}}{4.5\,\mathrm{h}} = 4.0\,\mathrm{km}/\mathrm{h}.

A média conta todo o tempo decorrido, pausas incluídas — e em geral não é a média das velocidades dos trechos separados.

5.3 Escolher um referencial: solo, geocêntrico, heliocêntrico

Como todo referencial é legítimo, escolhemos aquele em que o movimento que nos interessa fica mais simples. Três escolhas cobrem quase toda a física deste livro.

Definição 5.10 (Os três referenciais usuais)

  • O referencial do solo (ou referencial do laboratório) está preso à superfície da Terra, onde a experiência acontece. É o referencial certo para o movimento do dia a dia: objetos em queda, veículos, esportes, bancadas de laboratório.
  • O referencial geocêntrico é centrado na Terra, mas não gira com ela (as suas direções apontam para estrelas distantes). É o referencial certo para a Lua e para os satélites artificiais, que orbitam a Terra como um todo e ignoram a sua rotação diária.
  • O referencial heliocêntrico é centrado no Sol, com as direções novamente fixadas em estrelas distantes. É o referencial certo para os planetas: cada um segue então uma órbita simples, quase circular.
Três referenciais encaixados: o solo gira com a Terra, o referencial geocêntrico acompanha a Terra sem girar, e o referencial heliocêntrico assiste à dança inteira do Sol.
Três referenciais encaixados: o solo gira com a Terra, o referencial geocêntrico acompanha a Terra sem girar, e o referencial heliocêntrico assiste à dança inteira do Sol.

Método 5.11 (Escolher o referencial)

Nomeie os corpos cujo movimento você quer descrever e escolha o referencial em que esse movimento é mais simples:

  1. movimento perto da superfície da Terra, durando minutos — referencial do solo;
  2. órbitas em volta da Terra (Lua, satélites) — referencial geocêntrico;
  3. órbitas em volta do Sol (planetas, cometas) — referencial heliocêntrico.

Enuncie sempre a sua escolha antes de descrever um movimento: uma trajetória ou uma velocidade citada sem o seu referencial não significa nada (Proposição 5.4).

Observação 5.12 (Quem tem razão, Ptolomeu ou Copérnico?)

“O Sol nasce a leste” e “a Terra gira para leste” são a mesma observação relatada em dois referenciais — a primeira no referencial do solo, onde o Sol varre o céu, e a segunda no referencial geocêntrico, onde o observador é levado em volta do eixo da Terra. Durante séculos os próprios referenciais foram o campo de batalha: a descrição de Ptolomeu, centrada na Terra, acompanhava o céu com precisão, mas precisava de voltas sobre voltas para seguir os planetas, enquanto a descrição centrada no Sol, ressuscitada por Copérnico em 1543, fazia de cada planeta um quase-círculo simples e explicava as estranhas voltas para trás de Marte como mero efeito de referencial — a Terra ultrapassando um planeta mais lento. O veredito moderno não é que um referencial seja verdadeiro e o outro falso, mas que eles não são igualmente convenientes; um critério mais profundo para preferir certos referenciais (os inerciais) chega com o princípio da inércia, no Capítulo 6.

5.4 Compor movimentos ao longo de uma reta

O que liga os 4km/h4\,\mathrm{km}/\mathrm{h} do caminhante (referencial do trem) aos 304km/h304\,\mathrm{km}/\mathrm{h} (referencial do solo)? Ao longo de uma única reta, a resposta é uma soma simples.

Proposição 5.13 (Composição de velocidades em uma dimensão)

Suponha que um corpo se mova ao longo de uma reta sobre um suporte móvel (uma esteira, um trem, água corrente), com o próprio suporte deslizando ao longo da mesma reta em relação ao solo. Escolhido um sentido positivo na reta e contadas as velocidades com sinal,

vcorpo/solo  =  vcorpo/suporte  +  vsuporte/solo.v_{\text{corpo/solo}} \;=\; v_{\text{corpo/suporte}} \;+\; v_{\text{suporte/solo}} .

Em palavras: velocidades no mesmo sentido se somam; velocidades em sentidos opostos se subtraem.

Demonstração. Durante um segundo, o suporte leva o corpo vsuporte/solov_{\text{suporte/solo}} metros ao longo da reta, e o corpo avança vcorpo/suportev_{\text{corpo/suporte}} metros ao longo do suporte. Os dois deslocamentos acontecem sobre a mesma reta, de modo que o deslocamento total do corpo em relação ao solo nesse segundo é a soma algébrica deles — que é a sua velocidade em relação ao solo.

Exemplo 5.14 (A esteira rolante)

Uma esteira de aeroporto rola a 1.0m/s1.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}. Um viajante caminha sobre ela a 1.5m/s1.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s} em relação à esteira, no sentido do movimento: velocidade em relação ao solo 1.5+1.0=2.5m/s1.5 + 1.0 = 2.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s}. Caminhando na contramão no mesmo passo: 1.51.0=0.5m/s1.5 - 1.0 = 0.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s}, ainda avançando (devagar) contra a esteira. Parado sobre a esteira: 1.0m/s1.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s} em relação ao solo, 0m/s0\,\mathrm{m}/\mathrm{s} em relação à esteira — em repouso e em movimento ao mesmo tempo, em dois referenciais diferentes.

Composição unidimensional: as flechas estão desenhadas em escala, e a flecha do referencial do solo é a soma das outras duas.
Composição unidimensional: as flechas estão desenhadas em escala, e a flecha do referencial do solo é a soma das outras duas.

Observação 5.15 (Duas direções ao mesmo tempo)

Quando os dois movimentos não estão sobre a mesma reta — um barco apontando direto para a outra margem enquanto a correnteza o empurra rio abaixo —, cada movimento segue o seu curso de modo independente, e as velocidades se compõem como flechas colocadas ponta com cauda, exatamente como os vetores do volume de matemática. O barco ainda alcança a margem oposta no tempo fixado apenas pela sua velocidade de travessia, mas atraca rio abaixo do ponto para onde apontava, e a sua trajetória no referencial do solo é uma reta inclinada. O tratamento vetorial completo vem num capítulo posterior; aqui apenas lemos a figura.

Um barco apontando direto para a outra margem: no referencial da água ele vai reto para o outro lado; no referencial do solo ele segue a reta tracejada inclinada, derivando rio abaixo enquanto atravessa.
Um barco apontando direto para a outra margem: no referencial da água ele vai reto para o outro lado; no referencial do solo ele segue a reta tracejada inclinada, derivando rio abaixo enquanto atravessa.

5.5 Exercícios

Exercício 5.1

Um passageiro dorme num trem que viaja a 100km/h100\,\mathrm{km}/\mathrm{h}. Diga se o passageiro está em repouso ou em movimento, e com que velocidade, em relação a: o vagão; o solo; uma árvore à beira da via; um trem que vem em sentido contrário a 100km/h100\,\mathrm{km}/\mathrm{h}. Depois descreva o movimento da árvore no referencial do trem do passageiro.

Solução

Solução de Exercício 5.1.

Em relação ao vagão: em repouso. Em relação ao solo e à árvore: em movimento a 100km/h100\,\mathrm{km}/\mathrm{h}. Em relação ao trem que vem em sentido contrário: velocidades em sentidos opostos se somam, 100+100=200km/h100 + 100 = 200\,\mathrm{km}/\mathrm{h}. No referencial do trem do passageiro, a árvore se move para trás a 100km/h100\,\mathrm{km}/\mathrm{h} ao longo de uma reta.

Exercício 5.2

Converta: 72km/h72\,\mathrm{km}/\mathrm{h} e 108km/h108\,\mathrm{km}/\mathrm{h} para m/s\mathrm{m}/\mathrm{s}; 25m/s25\,\mathrm{m}/\mathrm{s} e 340m/s340\,\mathrm{m}/\mathrm{s} para km/h\mathrm{km}/\mathrm{h}. Confira cada resposta com a regra do Método 5.7.

Solução

Solução de Exercício 5.2.

72/3.6=20m/s72 / 3.6 = 20\,\mathrm{m}/\mathrm{s}; 108/3.6=30m/s108 / 3.6 = 30\,\mathrm{m}/\mathrm{s}; 25×3.6=90km/h25 \times 3.6 = 90\,\mathrm{km}/\mathrm{h}; 340×3.6=1224km/h340 \times 3.6 = 1224\,\mathrm{km}/\mathrm{h}. Em cada par o valor em km/h\mathrm{km}/\mathrm{h} é o maior, como a regra de conferência exige.

Exercício 5.3

Um ciclista percorre 36km36\,\mathrm{km} em 1h1\,\mathrm{h} 30min30\,\mathrm{min}; um velocista percorre 100m100\,\mathrm{m} em 10.0s10.0\,\mathrm{s}. Calcule as duas velocidades médias em m/s\mathrm{m}/\mathrm{s} e em km/h\mathrm{km}/\mathrm{h}. Quem é mais rápido, e a resposta surpreende você?

Solução

Solução de Exercício 5.3.

Ciclista: v=36km1.5h=24km/h=24/3.66.7m/sv = \frac{36\,\mathrm{km}}{1.5\,\mathrm{h}} = 24\,\mathrm{km}/\mathrm{h} = 24/3.6 \approx 6.7\,\mathrm{m}/\mathrm{s}. Velocista: v=100m10.0s=10.0m/s=36km/hv = \frac{100\,\mathrm{m}}{10.0\,\mathrm{s}} = 10.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s} = 36\,\mathrm{km}/\mathrm{h}. O velocista é uma vez e meia mais rápido — mas só por dez segundos, enquanto o ciclista mantém o ritmo por uma hora e meia. Velocidades médias só se comparam com justiça em durações comparáveis.

Exercício 5.4

Uma esteira rolante anda a 0.9m/s0.9\,\mathrm{m}/\mathrm{s}. Um viajante caminha a 1.4m/s1.4\,\mathrm{m}/\mathrm{s} em relação à esteira. Dê a velocidade do viajante em relação ao solo quando ele caminha no sentido da esteira, contra ela, e quando fica parado sobre ela.

Solução

Solução de Exercício 5.4.

Mesmo sentido: 1.4+0.9=2.3m/s1.4 + 0.9 = 2.3\,\mathrm{m}/\mathrm{s}. Contra a esteira: 1.40.9=0.5m/s1.4 - 0.9 = 0.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s}. Parado sobre a esteira: os 0.9m/s0.9\,\mathrm{m}/\mathrm{s} da própria esteira.

Exercício 5.5

Para cada movimento, escolha o referencial mais conveniente entre solo, geocêntrico e heliocêntrico, e justifique em uma frase: uma caneta solta dentro de um trem em movimento (bônus: há um referencial ainda melhor disponível); a órbita da Estação Espacial Internacional; um ano marciano; uma corrida de 100m100\,\mathrm{m}.

Solução

Solução de Exercício 5.5.

Caneta solta: o referencial do solo funciona, mas o referencial do trem é ainda melhor — nele a caneta simplesmente cai na vertical. Estação espacial: referencial geocêntrico (ela orbita a Terra como um todo, ignorando a rotação). Ano marciano: referencial heliocêntrico (Marte descreve um quase-círculo em volta do Sol). Corrida: referencial do solo (largada, chegada e cronômetro estão todos fixos ao solo).

Exercício 5.6 ★★

Um trem anda a 108km/h108\,\mathrm{km}/\mathrm{h}. Um passageiro caminha para a frente a 1.5m/s1.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s} em relação ao trem.

  1. Converta a velocidade do trem para m/s\mathrm{m}/\mathrm{s} e dê então a velocidade do passageiro em relação ao solo, caminhando para a frente e para trás.
  2. O vagão tem 60m60\,\mathrm{m} de comprimento. Quanto tempo dura a caminhada até a frente, e que distância o passageiro percorre em relação ao solo durante ela?
Solução

Solução de Exercício 5.6.

1. 108/3.6=30m/s108/3.6 = 30\,\mathrm{m}/\mathrm{s}. Para a frente: 30+1.5=31.5m/s30 + 1.5 = 31.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s}; para trás: 301.5=28.5m/s30 - 1.5 = 28.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s}.

2. Em relação ao trem, o passageiro percorre 60m60\,\mathrm{m} a 1.5m/s1.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s}: t=60/1.5=40st = 60/1.5 = 40\,\mathrm{s}. Em relação ao solo, ele percorre 31.5×40=1260m31.5 \times 40 = 1260\,\mathrm{m} — os 1200m1200\,\mathrm{m} transportados pelo trem mais os 60m60\,\mathrm{m} caminhados, como a regra de composição prevê.

Exercício 5.7 ★★

A velocidade de um barco em água parada é 5.0m/s5.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}; um rio corre a 2.0m/s2.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}. O barco percorre 420m420\,\mathrm{m} rio abaixo, dá meia-volta e retorna.

  1. Calcule a velocidade do barco em relação à margem em cada trecho e a duração de cada trecho.
  2. Calcule a velocidade média da ida e volta. Por que ela é menor do que 5.0m/s5.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}, se a correnteza ajuda num trecho exatamente tanto quanto atrapalha no outro?
Solução

Solução de Exercício 5.7.

1. Rio abaixo: 5.0+2.0=7.0m/s5.0 + 2.0 = 7.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}, logo t1=420/7.0=60st_1 = 420/7.0 = 60\,\mathrm{s}. Rio acima: 5.02.0=3.0m/s5.0 - 2.0 = 3.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}, logo t2=420/3.0=140st_2 = 420/3.0 = 140\,\mathrm{s}.

2. Velocidade média: v=84060+140=840200=4.2m/s<5.0m/sv = \frac{840}{60 + 140} = \frac{840}{200} = 4.2\,\mathrm{m}/\mathrm{s} < 5.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}. A ajuda e o estorvo da correnteza são iguais em velocidade, mas não em tempo: o barco passa 140s140\,\mathrm{s} sendo freado e apenas 60s60\,\mathrm{s} sendo ajudado, de modo que o trecho lento domina a média.

Exercício 5.8 ★★

Dois trens se cruzam em vias paralelas: o trem A (180m180\,\mathrm{m} de comprimento) a 25m/s25\,\mathrm{m}/\mathrm{s} e o trem B (90m90\,\mathrm{m}) a 20m/s20\,\mathrm{m}/\mathrm{s}.

  1. Eles viajam em sentidos opostos. Qual é a velocidade de B no referencial de A, e quanto dura o cruzamento completo (do encontro das frentes à separação das caudas)?
  2. As mesmas perguntas se eles viajarem no mesmo sentido.
Solução

Solução de Exercício 5.8.

1. Sentidos opostos: no referencial de A, B se aproxima a 25+20=45m/s25 + 20 = 45\,\mathrm{m}/\mathrm{s}. O cruzamento se completa quando B tiver deslizado pelo comprimento combinado 180+90=270m180 + 90 = 270\,\mathrm{m}: t=270/45=6.0st = 270/45 = 6.0\,\mathrm{s}.

2. Mesmo sentido: velocidade relativa 2520=5.0m/s25 - 20 = 5.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}, e t=270/5.0=54st = 270/5.0 = 54\,\mathrm{s} — nove vezes mais, e é por isso que ultrapassar um caminhão parece não acabar nunca.

Exercício 5.9 ★★

Uma bicicleta rola por uma estrada reta. Descreva a trajetória da válvula do pneu: no referencial do ciclista; no referencial do solo; e no referencial da própria válvula. Descreva também a trajetória do cubo da roda no referencial do solo. Sem contas — nomeie cada curva.

Solução

Solução de Exercício 5.9.

Referencial do ciclista: um círculo (o círculo do aro, centrado no cubo). Referencial do solo: uma cicloide — uma sequência de arcadas, uma por volta da roda. Referencial da própria válvula: a válvula está em repouso, um único ponto. O cubo no referencial do solo: uma reta horizontal à altura de um raio de roda.

Exercício 5.10 ★★

O equador da Terra tem cerca de 40000km40\,000\,\mathrm{km}, e a Terra dá uma volta em 24h24\,\mathrm{h}.

  1. Calcule a velocidade de um ponto do equador no referencial geocêntrico, em km/h\mathrm{km}/\mathrm{h} e em m/s\mathrm{m}/\mathrm{s}.
  2. Explique em uma frase cada: por que não sentimos essa velocidade e por que “o Sol nasce” e “a Terra gira” relatam a mesma observação.
Solução

Solução de Exercício 5.10.

1. v=40000km24h1.7×103km/h=1667/3.6463m/sv = \frac{40\,000\,\mathrm{km}}{24\,\mathrm{h}} \approx 1.7 \times 10^{3}\,\mathrm{km}/\mathrm{h} = 1667/3.6 \approx 463\,\mathrm{m}/\mathrm{s} — mais rápido do que o som.

2. Não a sentimos porque tudo à nossa volta — solo, ar, edifícios — compartilha exatamente o mesmo movimento, de modo que nada se move em relação a nós (e o princípio da inércia, Capítulo 6, explicará por que um movimento uniforme compartilhado é indetectável por dentro). “O Sol nasce” é o relato no referencial do solo e “a Terra gira” é o relato no referencial geocêntrico de uma única e mesma observação.

Exercício 5.11 ★★

Parado numa escada rolante em movimento, o percurso de subida leva 60s60\,\mathrm{s}. Subir a mesma escada desligada leva 90s90\,\mathrm{s}. Quanto tempo leva subir a escada em movimento caminhando? (Trabalhe com as velocidades, não com os tempos.)

Solução

Solução de Exercício 5.11.

Seja LL o comprimento da escada. Velocidade da escada: L/60L/60; velocidade de caminhada: L/90L/90. Caminhando na escada em movimento, as velocidades se somam:

v=L60+L90=L(3+2180)=L36,v = \frac{L}{60} + \frac{L}{90} = L\left(\frac{3 + 2}{180}\right) = \frac{L}{36},

de modo que a subida leva 36s36\,\mathrm{s}. (Não é a média de 6060 e 9090: as velocidades se somam, os tempos não.)

Exercício 5.12 ★★★

Um motorista percorre a mesma distância duas vezes: na ida a 60km/h60\,\mathrm{km}/\mathrm{h}, na volta a 90km/h90\,\mathrm{km}/\mathrm{h}.

  1. Mostre que a velocidade média da ida e volta é 72km/h72\,\mathrm{km}/\mathrm{h} — e não 75km/h75\,\mathrm{km}/\mathrm{h}.
  2. Explique onde a resposta ingênua erra e diga qual trecho domina a média.
Solução

Solução de Exercício 5.12.

1. Para uma distância dd em cada sentido: t=d60+d90=d3+2180=d36t = \frac{d}{60} + \frac{d}{90} = d\,\frac{3 + 2}{180} = \frac{d}{36}, logo v=2dd/36=72km/hv = \frac{2d}{d/36} = 72\,\mathrm{km}/\mathrm{h}.

2. O ingênuo 7575 tira a média das duas velocidades como se o motorista tivesse passado tempos iguais em cada uma; na verdade as distâncias é que são iguais, de modo que o trecho mais lento dura mais (d60>d90\frac{d}{60} > \frac{d}{90}) e puxa a média para perto de 60km/h60\,\mathrm{km}/\mathrm{h}. A velocidade média é a distância total dividida pelo tempo total — e nada mais.

Exercício 5.13 ★★★

Dois ciclistas partem a 35km35\,\mathrm{km} um do outro e pedalam um em direção ao outro, um a 15km/h15\,\mathrm{km}/\mathrm{h} e o outro a 20km/h20\,\mathrm{km}/\mathrm{h}.

  1. Descreva o movimento do segundo ciclista no referencial do primeiro e deduza quando eles se encontram.
  2. Que distância cada um pedalou no encontro?
  3. Se, em vez disso, eles pedalarem no mesmo sentido (o mais rápido atrás), quanto tempo dura a perseguição?
Solução

Solução de Exercício 5.13.

1. No referencial do primeiro ciclista, o segundo se aproxima em linha reta a 15+20=35km/h15 + 20 = 35\,\mathrm{km}/\mathrm{h}, a partir de 35km35\,\mathrm{km} de distância: eles se encontram depois de exatamente 1.0h1.0\,\mathrm{h}.

2. O primeiro pedalou 15×1=15km15 \times 1 = 15\,\mathrm{km} e o segundo, 20×1=20km20 \times 1 = 20\,\mathrm{km} — ao todo 35km35\,\mathrm{km}, como tinha de ser.

3. Mesmo sentido: velocidade de aproximação 2015=5km/h20 - 15 = 5\,\mathrm{km}/\mathrm{h}, logo a perseguição dura 35/5=7h35/5 = 7\,\mathrm{h}.

Exercício 5.14 ★★★

Um nadador atravessa um rio de 60m60\,\mathrm{m} de largura, apontando direto para a outra margem a 1.2m/s1.2\,\mathrm{m}/\mathrm{s} em relação à água; a correnteza corre a 0.9m/s0.9\,\mathrm{m}/\mathrm{s}.

  1. Explique por que o tempo de travessia é fixado apenas pela velocidade de travessia do nadador e calcule-o.
  2. A que distância rio abaixo o nadador chega à outra margem?
  3. Usando um triângulo retângulo, encontre a velocidade do nadador no referencial do solo e o comprimento do caminho efetivamente nadado em relação ao solo.
Solução

Solução de Exercício 5.14.

1. A correnteza empurra o nadador ao longo do rio, não através dele: os dois movimentos se compõem de modo independente, e o avanço em direção à outra margem se faz a 1.2m/s1.2\,\mathrm{m}/\mathrm{s} qualquer que seja a deriva. Tempo de travessia: t=60/1.2=50st = 60/1.2 = 50\,\mathrm{s}.

2. Deriva: 0.9×50=45m0.9 \times 50 = 45\,\mathrm{m} rio abaixo.

3. A velocidade no referencial do solo é a hipotenusa de um triângulo retângulo de catetos 1.21.2 e 0.90.9: v=1.22+0.92=2.25=1.5m/sv = \sqrt{1.2^2 + 0.9^2} = \sqrt{2.25} = 1.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s} (um triângulo 334455 multiplicado por 0.30.3). Comprimento do caminho: 1.5×50=75m1.5 \times 50 = 75\,\mathrm{m} — ou diretamente 602+452=75m\sqrt{60^2 + 45^2} = 75\,\mathrm{m}.

Exercício 5.15 ★★★

A Terra orbita o Sol num quase-círculo de raio 1.50×1011m1.50 \times 10^{11}\,\mathrm{m}, em um ano (3.16×1073.16 \times 10^{7} segundos).

  1. Calcule a velocidade da Terra no referencial heliocêntrico, em km/s\mathrm{km}/\mathrm{s}.
  2. Compare-a com a velocidade de rotação do equador encontrada no Exercício 5.10.
  3. Vista da Terra, Marte às vezes parece parar e derivar para trás entre as estrelas por algumas semanas. Explique em duas frases, com o vocabulário deste capítulo, por que o referencial heliocêntrico dissolve o mistério.
Solução

Solução de Exercício 5.15.

1. v=2π×1.50×10113.16×107=9.42×10113.16×1072.98×104m/s30km/sv = \frac{2\pi \times 1.50 \times 10^{11}}{3.16 \times 10^{7}} = \frac{9.42 \times 10^{11}}{3.16 \times 10^{7}} \approx 2.98 \times 10^{4}\,\mathrm{m}/\mathrm{s} \approx 30\,\mathrm{km}/\mathrm{s}.

2. 30/0.466530 / 0.46 \approx 65: a Terra nos leva em volta do Sol cerca de sessenta e cinco vezes mais depressa do que nos gira em torno do seu eixo.

3. No referencial geocêntrico, o caminho aparente de Marte combina o movimento orbital dele com o da Terra e, quando a Terra, mais rápida, ultrapassa Marte, a combinação corre para trás por algumas semanas. No referencial heliocêntrico os dois planetas simplesmente circulam o Sol em ritmos regulares — a “volta para trás” não é um movimento de Marte, mas um artefato do referencial.

5.6 Problema: a esteira, o rio e o satélite

Problema 5.1

Problema de fim de semana — a esteira rolante, o rio e o satélite: quem se move, em relação a quê, e o relatório final de velocidade do viajante de poltrona

Um aeroporto, uma travessia de balsa e um ponto brilhante deslizando pelo céu do anoitecer: três cenas do dia a dia, uma pergunta feita três vezes — quem se move, em relação a quê? Cada parte escolhe o seu referencial, calcula e observa a resposta mudar com o ponto de vista; o final soma o quanto você está se movendo agora mesmo, sentado perfeitamente imóvel.

Parte I — A corrida da esteira. Uma esteira de aeroporto tem 90m90\,\mathrm{m} de comprimento e anda a 1.0m/s1.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}. Um viajante caminha a 1.5m/s1.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s} (em relação ao que estiver sob os seus pés).

  1. Quanto tempo a esteira leva para carregar de uma ponta à outra um viajante parado?
  2. Quanto tempo o viajante leva caminhando sobre a esteira em movimento, no sentido dela?
  3. Quanto tempo caminhando ao lado da esteira, no piso fixo?
  4. Um brincalhão caminha na contramão sobre a esteira, a 1.5m/s1.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s} em relação a ela. Velocidade em relação ao solo e tempo para ir da ponta oposta de volta à entrada?
  5. Uma criança corre na contramão a exatamente 1.0m/s1.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s} em relação à esteira. Descreva o movimento da criança no referencial do solo e diga que aparelho de academia isso reinventa.
  6. Resuma as questões 1–5 numa tabela de duas colunas: a velocidade de cada um no referencial da esteira e no referencial do solo. Que coluna as pernas dos viajantes sentem?

Parte II — O rio. Uma balsa atravessa um rio de 120m120\,\mathrm{m} de largura. A sua velocidade em relação à água é 2.0m/s2.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}; a correnteza corre a 1.5m/s1.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s}. O piloto começa apontando direto para a margem oposta.

  1. Quanto tempo dura a travessia?
  2. A que distância rio abaixo a balsa atraca?
  3. Usando um triângulo retângulo, calcule a velocidade da balsa no referencial do solo e o comprimento da sua trajetória no referencial do solo. (Aparece um trio de números familiar.)
  4. Descreva a trajetória da balsa no referencial da água e no referencial do solo. O que há de igual entre elas e o que muda?
  5. Um nadador cuja velocidade em relação à água é 1.0m/s1.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s} parte da mesma margem, apontando direto para o outro lado como a balsa. Quanto tempo dura a travessia e a que distância rio abaixo ele chega? Calcule a velocidade do nadador no referencial do solo (triângulo retângulo de novo). Por que o nadador, mais lento, deriva mais do que a balsa?
  6. Um tronco passa flutuando pela balsa. Dê a velocidade dele no referencial do solo e no referencial da água. Em que referencial o tronco “está se movendo”? Comente.

Parte III — A passagem do satélite. Ao anoitecer, a Estação Espacial Internacional cruza o céu em poucos minutos. Ela orbita a uma altitude de 400km400\,\mathrm{km}; o raio da Terra é 6.37×106m6.37 \times 10^{6}\,\mathrm{m}, e uma órbita leva 5.56×103s5.56 \times 10^{3}\,\mathrm{s} (cerca de 93min93\,\mathrm{min}).

  1. Em que referencial usual o movimento da estação é mais simples? Calcule a sua velocidade nesse referencial, em km/s\mathrm{km}/\mathrm{s}.
  2. Explique em duas frases por que o referencial do solo descreve a estação de modo desajeitado — o que acontece com o seu rastro sobre o solo de uma órbita para a seguinte?
  3. Compare a velocidade orbital da estação com a velocidade de rotação do equador (0.46km/s\approx 0.46\,\mathrm{km}/\mathrm{s}): por que fator a estação é mais rápida?
  4. Um satélite geoestacionário orbita a um raio de 4.22×107m4.22 \times 10^{7}\,\mathrm{m} em exatamente um dia (8.64×104s8.64 \times 10^{4}\,\mathrm{s}). Calcule a sua velocidade no referencial geocêntrico e descreva depois o seu movimento no referencial do solo. Concilie as duas respostas em uma frase.
  5. No referencial geocêntrico, a Lua descreve um quase-círculo em volta da Terra em cerca de 2727 dias. Esboce em palavras a sua trajetória no referencial heliocêntrico ao longo de alguns meses.

Parte IV — Quem se move?

  1. “O Sol nasce a leste.” “A Terra gira para leste.” Diga o referencial em que cada frase descreve a observação e explique por que nenhuma está errada.
  2. Num parágrafo sóbrio: o que o referencial de Ptolomeu fazia bem, o que o referencial de Copérnico simplificou (mencione as voltas para trás de Marte) e por que o veredito moderno é sobre conveniência e não sobre um referencial ser verdadeiro.
  3. O relatório de velocidade do viajante de poltrona. Você está sentado imóvel numa poltrona perto do equador. Dê a sua velocidade no referencial do solo, no referencial geocêntrico (0.46km/s\approx 0.46\,\mathrm{km}/\mathrm{s}) e no referencial heliocêntrico (30km/s\approx 30\,\mathrm{km}/\mathrm{s}). Calcule então a distância que você percorre no referencial heliocêntrico durante um filme de 90min90\,\mathrm{min} e conclua o problema com a moral do capítulo em uma frase.
Solução

Solução de Problema 5.1.

1. t=90/1.0=90st = 90/1.0 = 90\,\mathrm{s}.

2. Velocidade em relação ao solo 1.5+1.0=2.5m/s1.5 + 1.0 = 2.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s}: t=90/2.5=36st = 90/2.5 = 36\,\mathrm{s}.

3. t=90/1.5=60st = 90/1.5 = 60\,\mathrm{s}.

4. 1.51.0=0.5m/s1.5 - 1.0 = 0.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s} em relação ao solo, contra o sentido da esteira: t=90/0.5=180st = 90/0.5 = 180\,\mathrm{s} — três minutos inteiros de caminhada acelerada.

5. Velocidade em relação ao solo 1.01.0=0m/s1.0 - 1.0 = 0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}: a criança corre com afinco e não sai do lugar, em repouso no referencial do solo enquanto dispara no referencial da esteira. Isso é uma esteira ergométrica.

6. Referencial da esteira / referencial do solo: viajante parado 00 / 1.0m/s1.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}; caminhante a favor da esteira 1.51.5 / 2.5m/s2.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s}; caminhante no piso 0.50.5 (o piso desliza para trás no referencial da esteira) / 1.5m/s1.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s}; brincalhão 1.51.5 / 0.5m/s0.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s}; criança 1.01.0 / 0m/s0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}. As pernas de cada um sentem a coluna do referencial daquilo que está sob os seus pés — a coluna da esteira para quem anda sobre ela, a do solo para quem anda no piso: o esforço é a velocidade de caminhada em relação ao que está por baixo.

7. O avanço através do rio se faz a 2.0m/s2.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s} faça a correnteza o que fizer: t=120/2.0=60st = 120/2.0 = 60\,\mathrm{s}.

8. Deriva: 1.5×60=90m1.5 \times 60 = 90\,\mathrm{m} rio abaixo.

9. Velocidade em relação ao solo: hipotenusa de um triângulo retângulo de catetos 2.02.0 e 1.51.5: v=2.02+1.52=6.25=2.5m/sv = \sqrt{2.0^2 + 1.5^2} = \sqrt{6.25} = 2.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s}. Comprimento da trajetória: 2.5×60=150m2.5 \times 60 = 150\,\mathrm{m} — o trio 334455 de novo, ampliado para 9090120120150150.

10. Referencial da água: uma reta de 120m120\,\mathrm{m}, perpendicular às margens. Referencial do solo: também uma reta, mas inclinada e com 150m150\,\mathrm{m}. Mesma forma (reta), direção e comprimento diferentes: a trajetória pertence ao referencial, e não à balsa.

11. O avanço através do rio se faz a 1.0m/s1.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}, logo t=120/1.0=120st = 120/1.0 = 120\,\mathrm{s}. Deriva: 1.5×120=180m1.5 \times 120 = 180\,\mathrm{m} — o dobro dos 90m90\,\mathrm{m} da balsa. Velocidade em relação ao solo: hipotenusa de catetos 1.01.0 e 1.51.5: v=1.02+1.52=3.251.8m/sv = \sqrt{1.0^2 + 1.5^2} = \sqrt{3.25} \approx 1.8\,\mathrm{m}/\mathrm{s}. O nadador, mais lento, demora o dobro para atravessar, de modo que a mesma correnteza tem o dobro de tempo para levá-lo rio abaixo.

12. Referencial do solo: o tronco deriva com os 1.5m/s1.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s} da correnteza. Referencial da água: ele está em repouso, boiando com a água à sua volta. Se o tronco “se move” não tem resposta independente de referencial — e é esse o ponto do capítulo inteiro.

13. O referencial geocêntrico. Raio da órbita r=6.37×106+4.0×105=6.77×106mr = 6.37 \times 10^{6} + 4.0 \times 10^{5} = 6.77 \times 10^{6}\,\mathrm{m}, logo

v=2πrT=2π×6.77×1065.56×1037.65×103m/s7.7km/s.v = \frac{2\pi r}{T} = \frac{2\pi \times 6.77 \times 10^{6}}{5.56 \times 10^{3}} \approx 7.65 \times 10^{3}\,\mathrm{m}/\mathrm{s} \approx 7.7\,\mathrm{km}/\mathrm{s}.

14. Enquanto a estação completa uma órbita, a Terra gira por baixo dela cerca de 2323^\circ, de modo que o rastro sobre o solo se desloca para oeste a cada passagem. No referencial do solo o caminho da estação é uma curva ondulada complicada que nunca se repete exatamente; no referencial geocêntrico é um único quase-círculo fixo.

15. 7.65/0.46177.65 / 0.46 \approx 17: a estação supera o equador em rotação em cerca de dezessete vezes, e é por isso que ela cruza o céu inteiro em minutos.

16. v=2π×4.22×1078.64×1043.07×103m/s3.1km/sv = \frac{2\pi \times 4.22 \times 10^{7}}{8.64 \times 10^{4}} \approx 3.07 \times 10^{3}\,\mathrm{m}/\mathrm{s} \approx 3.1\,\mathrm{km}/\mathrm{s} no referencial geocêntrico. No referencial do solo ele está em repouso, pairando sobre um ponto fixo do equador — ele dá a volta no eixo da Terra exatamente no mesmo tempo que o próprio solo, de modo que os dois movimentos se cancelam no referencial do solo. Em repouso e a 3.1km/s3.1\,\mathrm{km}/\mathrm{s}: as duas coisas verdadeiras, uma por referencial.

17. No referencial heliocêntrico a Lua percorre essencialmente a órbita da Terra — um enorme quase-círculo em volta do Sol — sobreposta a uma oscilação suave de ciclo de 27d27\,\mathrm{d}. A influência do Sol domina de modo tão forte que o caminho se curva sempre em direção ao Sol; ele nunca dá voltas para trás.

18. “O Sol nasce” é o relato no referencial do solo, onde o observador está em repouso e o Sol varre o céu. “A Terra gira” é o relato no referencial geocêntrico, onde a direção do Sol é fixa e o observador é levado para leste em volta do eixo. As duas descrevem a mesma observação; cada uma está correta no seu referencial, e a Proposição 5.4 diz que nenhuma observação do movimento sozinha pode arbitrar.

19. O referencial de Ptolomeu, centrado na Terra, casava naturalmente com o movimento diário do céu e previa as posições planetárias de forma utilizável, mas só ao preço de voltas sobre voltas (epiciclos) para reproduzir as andanças de cada planeta. O referencial de Copérnico, centrado no Sol, fez de cada planeta um quase-círculo regular e transformou as voltas para trás de Marte num efeito de referencial — a Terra ultrapassando um corredor mais lento pela raia de dentro. O veredito moderno não é que o Sol “realmente” fique parado (ele também se move, em volta do centro da galáxia), mas que referenciais são ferramentas: o heliocêntrico torna o movimento planetário incomparavelmente mais simples, e é para a simplicidade, não para a verdade, que serve um referencial.

20. Referencial do solo: 0km/s0\,\mathrm{km}/\mathrm{s} — em repouso na poltrona. Referencial geocêntrico: cerca de 0.46km/s0.46\,\mathrm{km}/\mathrm{s}, levado em volta do eixo da Terra. Referencial heliocêntrico: cerca de 30km/s30\,\mathrm{km}/\mathrm{s}, levado em volta do Sol. Durante um filme de 90min90\,\mathrm{min}: d=3.0×104×54001.6×108m=160000kmd = 3.0 \times 10^{4} \times 5400 \approx 1.6 \times 10^{8}\,\mathrm{m} = 160\,000\,\mathrm{km} — quase metade do caminho até a Lua sem sair da poltrona. Moral: o movimento não é uma propriedade de um corpo, mas de um corpo e de um referencial; escolha o referencial que torna a história simples e diga sempre qual foi.