Aperte o disparador de uma câmera até a metade: um zunido fino sobe por dois segundos, uma luz fica verde — e só então o flash dispara, despejando em um milissegundo o que levou dois segundos juntando. Este capítulo apresenta os dois componentes que dão aos circuitos uma memória e um relógio — o capacitor e a bobina — e as primeiras equações diferenciais da física, conferíveis com as derivadas deste ano.
30.1 O capacitor
Definição 30.1(Capacitor e capacitância)
Um capacitor é um par de placas metálicas frente a frente, separadas por um isolante fino. Ligadas a uma fonte, as placas recebem cargas opostas +q e −q — um campo elétrico preenche o vão (Capítulo 14) — e a tensão u entre as placas é proporcional à carga armazenada:
q=Cu.
A constante C é a capacitância, medida em farads (F): 1F=1C/V.
Exemplo 30.2(Ordens de grandeza)
Um farad é enorme — um coulomb estacionado por volt. Os cerâmicos dos circuitos de rádio: de pF a nF; os eletrolíticos das fontes de alimentação e dos flashes: de µF a mF; os supercapacitores: milhares de farads.
Proposição 30.3(Corrente que entra num capacitor)
A corrente que chega à placa de um capacitor é a taxa com que a carga dele cresce:
i=dtdq=Cdtdu,
com as minúsculas marcando as grandezas que variam no tempo (U e I permanecem constantes, Capítulo 12).
Demonstração. Corrente é carga entregue por segundo (Definição 12.1): num intervalo que encolhe, i é a derivada de q; e q=Cu com C constante dá Cdu/dt. ∎
Observação 30.4(Duas consequências)
Se u é constante, i=0: um capacitor carregado não deixa passar corrente contínua. E u nunca pode dar um salto — um degrau exigiria corrente infinita: a tensão do capacitor é a memória do circuito.
O circuito RC de carga: fechar K deixa a fonte empurrar carga através de R até as placas de C.
Teorema 30.5(Lei de carga do circuito RC)
Depois que a chave fecha, a tensão do capacitor obedece à equação abaixo e, a partir de u(0)=0, decorre dela:
RCdtdu+u=E,u(t)=E(1−e−t/τ),τ=RC.
Demonstração. As tensões ao longo da malha se somam (Proposição 12.4): E=uR+u=Ri+u a cada instante; substitua i=Cdu/dt (Proposição 30.3). Agora verifique a candidata: du/dt=(E/τ)e−t/τ, logo RC(E/RC)e−t/τ+E(1−e−t/τ)=E, verdadeiro para todo t; e u(0)=E(1−1)=0. Que nenhuma outra curva se ajusta à equação e à partida é demonstrado no curso de matemática deste ano, sobre equações diferenciais. ∎
Definição 30.6(Constante de tempo)
A constante de tempo de um circuito RC é τ=RC. Unidades: Ω×F=(V/A)(C/V)=C/A=s — o compasso próprio do circuito.
Método 30.7(Ler τ na curva)
Três leituras equivalentes, direto de um gráfico:
tangente na origem:u′(0)=E/τ, de modo que a tangente inicial alcança a assíntota em t=τ;
63%:u(τ)=E(1−e−1)≈0.63E;
95%:u(3τ)≈0.95E — carregado, para fins práticos (5τ: 99%).
Proposição 30.8(Descarga)
Um capacitor carregado a U0 e fechado sobre um resistor R sozinho obedece a RCdu/dt+u=0 e segue
u(t)=U0e−t/τ,τ=RC
— restam 37% em τ e 5% em 3τ.
Demonstração. A mesma lei das malhas, sem fonte; e de novo a substituição: RC(−U0/τ)e−t/τ+U0e−t/τ=0, com u(0)=U0. ∎
Carga (azul, de u=0 rumo a E) e descarga (vermelho, a partir de U0=E). As duas tangentes iniciais encontram a assíntota delas em t=τ; 63% feito em τ, 95% em 3τ.
Exemplo 30.9(Os números de um flash)
Um flash fotográfico carrega C=800µF através de R=1.0kΩ: τ=103×8.0×10−4=0.80s, de modo que a luz de “pronto” — ligada para acender a 95% — espera 3τ≈2.4s: o zunido da espera. Disparado através dos meros 0.50Ω do tubo de flash, o mesmocapacitor se esvazia com τ′=0.40ms: duas mil vezes mais rápido para sair do que para entrar.
30.3 A bobina: indutância e o circuito RL
Definição 30.10(Indutor e indutância)
Um indutor é uma bobina de fio: a corrente dele enfia nas próprias espiras um campo magnético (Capítulo 15); sempre que esse campomuda, aparece uma tensão nos terminais da bobina:
u=Ldtdi.
A constante L é a indutância, medida em henries (H): 1H=1Vs/A.
Demonstração.Admitido neste nível.∎
Observação 30.11(A bobina resiste à mudança)
Por que uma corrente que varia gera uma tensão — a indução — é deduzido nos volumes universitários; aqui tomamos a lei e o caráter dela: a bobinase opõe às mudanças da corrente dela. Gêmeos espelhados: o u de um capacitor não pode saltar, o i de uma bobina não pode saltar.
O circuito RL: depois que K fecha, a bobina deixa a corrente subir apenas no compasso próprio dela, τ=L/R.
Proposição 30.12(Subida da corrente num circuito RL)
Fechar a chave sobre uma fonte E, um resistor R e uma bobinaL em série dá E=Ri+Ldi/dt, ou seja,
Demonstração. De novo a lei das malhas; e é a mesma equação do Teorema 30.5 com u→i, E→E/R e RC→L/R — a mesma substituição verifica a solução, e toda leitura do Método 30.7 se transfere. ∎
Exemplo 30.13(Um eletroímã acorda)
A bobina de um relé, L=0.30H e R=6.0Ω, numa fonte de 12V: corrente final E/R=2.0A, no compasso τ=0.30/6.0=50ms — desperto em 3τ≈0.15s.
Observação 30.14(A faísca na abertura)
Abra uma chave sobre uma bobina energizada e i precisa despencar a zero numa fração de milissegundo: di/dt fica enorme e u=Ldi/dt alcança centenas ou milhares de volts — uma faísca salta o contato. A bobina de ignição de um carro faz isso de propósito, milhares de vezes por minuto.
30.4 Energia armazenada
Proposição 30.15(Energia num capacitor, energia numa bobina)
Um capacitorC carregado à tensão u e uma bobinaL percorrida por uma corrente i armazenam
EC=21Cu2=2Cq2,EL=21Li2.
Demonstração. Pousar uma pequena carga dq em placas já à tensão u custa udq (Definição 12.3); empilhando os custos, o total é a área sob a reta u=q/C — o triângulo abaixo — logo EC=21qu=21Cu2. O mesmo triângulo para a bobina (elevar i de di custa Lidi) dá EL=21Li2. ∎
Cada fatia dq custa udq; a carga inteira custa a área do triângulo, EC=21q0u0 — os primeiros coulombs embarcam com tensão baixa.
Exemplo 30.16(Ordens de grandeza de energia)
O capacitor de flash do Exemplo 30.9: 21×8.0×10−4×3002=36J. Um supercapacitor de 3000F a 2.7V: 1.1×104J — o equivalente a uma pilha AA. Uma bobina de 10mH a 10A: 0.50J. Menos do que as pilhas guardam — mas liberável em um milissegundo.
Observação 30.17(Para que servem os dois marcadores de tempo)
Entrar devagar e sair depressa é o que move o flash da câmera e o desfibrilador. O atrasoτ=RC toca os circuitos temporizadores: limpadores de para-brisa intermitentes, balizas piscantes, luzes de escada. Um capacitor em paralelo com uma fonte filtra a tensão (u não pode saltar); uma bobina em série filtra a corrente (i não pode saltar). E bobina mais capacitor juntos fazem um oscilador (Capítulo 31).
30.5 Exercícios
Exercício 30.1★
Um capacitor de 470µF é carregado a 12V: que carga ele guarda? Que tensão poria 2.0mC em 100µF?
Solução
Solução de Exercício 30.1.
q=Cu=4.7×10−4×12≈5.6mC; u=q/C=2.0×10−3/10−4=20V.
Exercício 30.2★
Distribua 47pF, 2200µF e 10F entre um filtro de fonte de alimentação, um sintonizador de rádio e um supercapacitor; calcule a energia do último a 2.7V.
Solução
Solução de Exercício 30.2.
47pF: sintonizador de rádio; 2200µF: filtro de fonte; 10F: supercapacitor. E=21×10×2.72≈36J.
Exercício 30.3★
A tensão num capacitor de 220µF sobe de modo uniforme de 0 a 5.0V em 10ms: que corrente entra? E que corrente circula depois que a tensão para de variar, e por quê?
Solução
Solução de Exercício 30.3.
i=CΔu/Δt=2.2×10−4×5.0/0.010=0.11A. Depois i=Cdu/dt=0: um capacitor carregado é um circuito aberto — nada de corrente contínua.
Exercício 30.4★
Calcule τ para R=10kΩ e C=100µF, e depois para L=0.10H e R=50Ω. Confira, unidade por unidade, que as duas combinações dão segundos.
Um capacitor carrega rumo a 6.0V e passa por 3.8V em t=2.0s. Leia a constante de tempo; quando a carga está 95% concluída?
Solução
Solução de Exercício 30.5.
3.8/6.0=0.63, logo τ=2.0s; 95% em 3τ=6.0s.
Exercício 30.6★★
Um circuito RC: E=9.0V, R=4.7kΩ, C=220µF. Calcule τ, u(τ), u(3τ) e a corrente no instante em que a chave fecha.
Solução
Solução de Exercício 30.6.
τ=4700×2.2×10−4≈1.0s; u(τ)=0.63×9.0=5.7V; u(3τ)=0.95×9.0=8.6V; I0=E/R=9.0/4700≈1.9mA (capacitor vazio: todo o E fica sobre R).
Exercício 30.7★★
Verifique por substituição que u(t)=E(1−e−t/RC) satisfaz RCdu/dt+u=E; o que o valor dela em t=0 e o limite para t grande codificam fisicamente?
Solução
Solução de Exercício 30.7.
du/dt=(E/RC)e−t/RC, logo RCdu/dt+u=Ee−t/RC+E(1−e−t/RC)=E. u(0)=0: o capacitor parte vazio; u→E: totalmente carregado, a corrente parou.
Exercício 30.8★★
Um capacitor de 100µF carregado a 12V se descarrega através de 47kΩ: calcule τ, u(τ) e o tempo para u cair abaixo de 0.60V.
Solução
Solução de Exercício 30.8.
τ=4.7×104×10−4=4.7s; u(τ)=12e−1≈4.4V; 0.60V são 5%, atingidos em 3τ≈14s.
Exercício 30.9★★
A corrente numa bobina de 0.50H sobe de modo uniforme de 0 a 2.0A em 40ms: que tensão aparece nos terminais dela? Com u=Ldi/dt, por que abrir uma chave sobre uma bobina dá faísca, e fechá-la não?
Solução
Solução de Exercício 30.9.
u=LΔi/Δt=0.50×2.0/0.040=25V. Ao fechar, i sobe no compasso próprio do circuito, com di/dt modesto; ao abrir, i é forçada a zero quase instantaneamente, di/dt fica enorme e u alcança valores de faísca.
Exercício 30.10★★
O relé do Exemplo 30.13: verifique por substituição que i(t)=(E/R)(1−e−Rt/L) satisfaz Ldi/dt+Ri=E e depois calcule i(τ) e i(3τ).
Solução
Solução de Exercício 30.10.
di/dt=(E/L)e−Rt/L, logo Ldi/dt+Ri=Ee−Rt/L+E(1−e−Rt/L)=E. i(τ)=0.63×2.0=1.3A; i(3τ)=0.95×2.0=1.9A.
Exercício 30.11★★
Mostre que u′(0)=E/τ e deduza que a tangente na origem encontra a assíntota em t=τ. Numa curva registrada que dá τ=0.50s, com R=2.0kΩ: encontre C.
Solução
Solução de Exercício 30.11.
u′(t)=(E/τ)e−t/τ, logo u′(0)=E/τ: a tangente u=(E/τ)t alcança E em t=τ. C=τ/R=0.50/2000=250µF.
Exercício 30.12★★★
Ordene pela energia armazenada, calculando cada uma: um supercapacitor de 3000F a 2.7V; um capacitor de flash, 800µF a 300V; uma bobina de 10mH a 10A; uma pilha AA (E≈1.3×104J). O que os três primeiros oferecem que a pilha não consegue?
Solução
Solução de Exercício 30.12.
Supercapacitor: 21×3000×2.72≈1.1×104J; flash: 21×8.0×10−4×3002=36J; bobina: 21×0.010×102=0.50J. Pilha (1.3×104J) > supercapacitor ≫ flash ≫bobina — mas os três conseguem despejar a energia deles em milissegundos: potência, e não energia.
Exercício 30.13★★★
Um temporizador de escada mantém a luz acesa enquanto u<0.63E no capacitor que carrega, apagando em t=τ. Projete a luz para durar 5.0s usando C=100µF: qual é o R? Para um limiar de 0.50E, mostre que o atraso é τln2 e calcule-o.
Solução
Solução de Exercício 30.13.
τ=5.0s, logo R=τ/C=5.0/10−4=50kΩ. 1−e−t/τ=0.50 dá e−t/τ=0.50, ou seja, t=τln2≈0.69τ=3.5s.
Exercício 30.14★★★
Um capacitor de 2200µF filtra uma fonte: entre duas recargas, ele sozinho alimenta uma carga que puxa 0.50A por 10ms. A partir de i=Cdu/dt, calcule a queda de tensão e depois a capacitância que a mantém abaixo de 0.50V.
Solução
Solução de Exercício 30.14.
Δu=iΔt/C=0.50×0.010/2.2×10−3≈2.3V. É preciso C≥iΔt/Δu=5.0×10−3/0.50=10mF.
Exercício 30.15★★★
Uma bobina de ignição, L=0.80H, conduz 2.0A quando o platinado a corta em cerca de 1.0ms. Estime a tensão na bobina durante o corte e a energia da faísca; por que uma interrupção lenta não dá faísca alguma?
Solução
Solução de Exercício 30.15.
u≈LΔi/Δt=0.80×2.0/10−3=1.6kV; EL=21×0.80×2.02=1.6J. Cortando devagar, di/dt fica pequeno e u não passa de alguns volts: faísca nenhuma.
30.6 Problema: o flash da câmera
Problema 30.1
Problema de fim de semana — o flash da câmera: dois segundos de zunido, um milissegundo de glória e o primo de parede que faz corações voltarem a bater — uma só exponencial governa todos eles
Uma unidade de flash compacta armazena energia num capacitorC=800µF, carregado através de R=1.0kΩ a partir de um conversor modelado como fonte ideal E=300V; a luz de “pronto” acende a 95% da tensão final. Disparado, o capacitor enxerga apenas o tubo de flash, Rf=0.50Ω. Dados: uma pilha AA entrega 1.5V e 2.4Ah; e=1.60×10−19C.
Depois de quanto tempo a luz de pronto fica verde, e em que tensão? Reconheça o zunido de dois segundos.
Calcule a corrente inicial de carga; por que ela então morre?
Parte III — O milissegundo de glória.
Escreva a lei de descarga u(t) através do tubo e calcule a nova constante de tempoτ′.
Calcule a corrente de pico no tubo.
Calcule a potência de pico; compare-a com uma chaleira elétrica de 2.2kW.
Tomando o flash como terminado em 3τ′, dê a duração e a potência média dele.
Forme a razão entre o tempo de carga e o tempo de flash: mesmo capacitor, mesma carga — o que mudou, e o que isso faz de um capacitor: um tanque de energia ou uma alavanca de potência?
Parte IV — O primo na parede. Um desfibrilador precisa entregar EC=200J a U0=1500V; o tórax e as pás apresentam cerca de 50Ω.
Calcule a constante de tempo e a duração do choque (3τ); compare com o flash.
Calcule a corrente de pico e a potência de pico no paciente.
O circuito de recarga precisa deixar o aparelho pronto (95%) em 6.0s: encontre a resistência de carga necessária e a corrente inicial de carga — os números que uma projetista encomendaria.
Solução
Solução de Problema 30.1.
1.q=CU0=8.0×10−4×300=0.24C.
2.N=0.24/1.60×10−19=1.5×1018.
3.EC=21×8.0×10−4×3002=36J.
4.1.3×104/36≈360 vezes.
5. A pilha armazena bastante mas entrega devagar; o capacitor transforma uma energia modesta em potência enorme.
6.E=Ri+u com i=Cdu/dt: RCdu/dt+u=E.
7.du/dt=(E/RC)e−t/RC: Ee−t/RC+E(1−e−t/RC)=E para todo t, e u(0)=0.
8.τ=RC=103×8.0×10−4=0.80s.
9. Em 3τ=2.4s, u=0.95×300=285V — o zunido de dois segundos.
10.I0=E/R=0.30A; conforme u sobe, o que resta (E−u) sobre R encolhe, de modo que i=(E−u)/R morre.
11.u(t)=U0e−t/τ′ com τ′=RfC=0.50×8.0×10−4=0.40ms.
12.I0=U0/Rf=300/0.50=600A.
13.P0=U0I0=300×600=180kW — cerca de 80 chaleiras de uma vez.
14. Duração 3τ′=1.2ms; potência média ≈36/1.2×10−3=30kW.
15.2.4/1.2×10−3=2000. Só a resistência mudou (1.0kΩ na entrada, 0.50Ω na saída): uma alavanca de potência.
16.C=2EC/U02=400/15002≈1.8×10−4F=180µF.
17.q=CU0=1.78×10−4×1500≈0.27C.
18.τ=50×1.78×10−4≈8.9ms, duração 3τ≈27ms — umas vinte vezes o flash.
19.I0=1500/50=30A; P0=1500×30=45kW.
20.3τc=6.0s dá τc=2.0s, logo Rc=τc/C=2.0/1.78×10−4≈11kΩ e I0=1500/1.12×104≈0.13A — pronto em seis segundos, com um décimo de ampère.