Physics · Livro 2 · Grades 10–12

Física do ensino médio

Física do ensino médio · Grades 10–12

24Cinemática em duas dimensões

Observe um carro fazendo uma rotatória a constantes 30km/h30\,\mathrm{km}/\mathrm{h}: o ponteiro não sai do lugar e, ainda assim, todo passageiro se sente puxado para o lado — o movimento está mudando, e não é a velocidade escalar. Um número por instante já não basta: o movimento no plano precisa de flechas. Este capítulo equipa um ponto móvel com três — posição, velocidade e aceleração — encadeadas pela derivada, e lê famílias inteiras de movimentos na geometria delas.

24.1 O vetor posição

O movimento só existe em relação a um referencial declarado — um corpo rígido mais um relógio (Capítulo 5). A novidade deste ano é a precisão: prenda ao referencial uma origem OO e dois eixos graduados perpendiculares OxOx e OyOy, e registre onde o ponto está a cada instante, como um par de funções.

Definição 24.1 (Vetor posição)

Num referencial equipado com uma origem OO e eixos OxOx e OyOy, o vetor posição de um ponto móvel MM no instante tt é OM(t)\vect{OM}(t), de coordenadas (x(t),y(t))\bigl(x(t),\, y(t)\bigr): duas funções do tempo, uma por eixo. A curva descrita por MM enquanto tt corre é a sua trajetória.

24.2 O vetor velocidade

Definição 24.2 (Vetor velocidade)

Ao longo de um intervalo curto o ponto se desloca de OM(t+Δt)OM(t)\vect{OM}(t+\Delta t) - \vect{OM}(t); divida por Δt\Delta t e faça o intervalo encolher: é a derivada do seu curso de matemática, aplicada a cada coordenada. O vetor velocidade de MM é a derivada do seu vetor posição, v(t)=(x(t),y(t))\vect v(t) = \bigl(x'(t),\, y'(t)\bigr), em m/s\mathrm{m}/\mathrm{s}. A norma dele, v=x2+y2v = \sqrt{x'^2 + y'^2}, é a velocidade escalar — o único número que o velocímetro mostra.

Exemplo 24.3 (Um drone em voo nivelado)

Um drone voa com x(t)=4.0tx(t) = 4.0\,t e y(t)=3.0ty(t) = 3.0\,t (metros, segundos): trajetória sobre a reta y=34xy = \tfrac34 x, velocidade v=(4.0,3.0)\vect v = (4.0, 3.0) em todos os instantes e velocidade escalar 4.02+3.02=5.0m/s\sqrt{4.0^2 + 3.0^2} = 5.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}, constante.

Proposição 24.4 (Tangente à trajetória)

A cada instante, v(t)\vect v(t) é tangente à trajetória na posição atual de MM e aponta no sentido do movimento.

Demonstração. O deslocamento é uma corda da trajetória; à medida que Δt\Delta t encolhe, a direção da corda vira a da tangente.

24.3 O vetor aceleração

Definição 24.5 (Vetor aceleração)

O vetor aceleração de MM é a derivada do seu vetor velocidade, a(t)=(vx(t),vy(t))=(x(t),y(t))\vect a(t) = \bigl(v_x'(t),\, v_y'(t)\bigr) = \bigl(x''(t),\, y''(t)\bigr), em m/s2\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2}: com que rapidez, e em que direção, o vetor velocidade está mudando naquele momento.

Observação 24.6 (Acelerar sem ganhar velocidade)

a0\vect a \neq \vect 0 sempre que o vetor velocidade muda — em comprimento ou em direção: um carro freando acelera (para trás); um carro fazendo curva a velocidade escalar constante acelera (para o lado). É essa a grandeza que as forças controlam (Capítulos 16 e 25).

Método 24.7 (Ler uma cronofotografia)

Uma cronofotografia registra as posições M0,M1,M2,M_0, M_1, M_2, \dots de um ponto móvel em intervalos de tempo iguais Δt\Delta t.

  1. O espaçamento dos pontos revela a velocidade escalar: espaçamentos iguais, velocidade constante; abrindo, acelerando; fechando, freando.
  2. A velocidade em MiM_i é a corda simétrica, viMi1Mi+1/(2Δt)\vect v_i \approx \vect{M_{i-1}M_{i+1}}/(2\,\Delta t), desenhada em MiM_i, tangente ao caminho pontilhado.
  3. Para a aceleração em MiM_i: copie vi1\vect v_{i-1} e vi+1\vect v_{i+1} para MiM_i e desenhe Δv=vi+1vi1\Delta\vect v = \vect v_{i+1} - \vect v_{i-1}, de ponta a ponta; então aiΔv/(2Δt)\vect a_i \approx \Delta\vect v/(2\,\Delta t).
Cronofotografia de uma bola arremessada: v_2 e v_4, construídos a partir das cordas, são copiados para M_3; a diferença deles, v, entrega a — vertical, para baixo.
Cronofotografia de uma bola arremessada: v2\vect v_2 e v4\vect v_4, construídos a partir das cordas, são copiados para M3M_3; a diferença deles, Δv\Delta\vect v, entrega a\vect a — vertical, para baixo.

24.4 Movimentos retilíneos

Ao longo de uma reta basta um eixo: x(t)x(t), v(t)=x(t)v(t) = x'(t) e a(t)=v(t)a(t) = v'(t), todos números com sinal.

Definição 24.8 (Movimento retilíneo uniforme)

Um movimento é retilíneo uniforme quando v\vect v é um vetor constante: trajetória reta, velocidade escalar constante, a=0\vect a = \vect 0. Então x(t)=vt+x0x(t) = v\,t + x_0.

Proposição 24.9 (Movimento retilíneo uniformemente acelerado)

Se um ponto se move ao longo de OxOx com aceleração constante aa, partindo em t=0t = 0 da posição x0x_0 com velocidade v0v_0, então

v(t)=at+v0,x(t)=12at2+v0t+x0.v(t) = a\,t + v_0, \qquad x(t) = \tfrac12\,a\,t^2 + v_0\,t + x_0 .

Demonstração. vv é uma primitiva da constante aa: v(t)=at+Cv(t) = a t + C, e t=0t = 0 obriga C=v0C = v_0. Por sua vez, xx é uma primitiva de at+v0a t + v_0: x(t)=12at2+v0t+Cx(t) = \tfrac12 a t^2 + v_0 t + C', com C=x0C' = x_0.

Movimento uniformemente acelerado (a = 2.0\, m/ s2, v_0 = 1.0\, m/ s, x_0 = 0): cada gráfico é a derivada do de cima — uma parábola, a inclinação dela e a inclinação da inclinação.
Movimento uniformemente acelerado (a=2.0m/s2a = 2.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2}, v0=1.0m/sv_0 = 1.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}, x0=0x_0 = 0): cada gráfico é a derivada do de cima — uma parábola, a inclinação dela e a inclinação da inclinação.

Exemplo 24.10 (Distância de frenagem)

Um carro com velocidade escalar v0v_0 freia com desaceleração constante aa (aceleração a-a). Ele para quando v(t)=at+v0=0v(t) = -a t + v_0 = 0, em ts=v0/at_s = v_0/a, tendo percorrido d=12ats2+v0ts=v02/(2a)d = -\tfrac12 a t_s^2 + v_0 t_s = v_0^2/(2a). O quadrado é a manchete da segurança viária: dobrar a velocidade quadruplica a distância de frenagem — com a=6.0m/s2a = 6.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2}, são 16m16\,\mathrm{m} a partir de 50km/h50\,\mathrm{km}/\mathrm{h} e 64m64\,\mathrm{m} a partir de 100km/h100\,\mathrm{km}/\mathrm{h}.

24.5 Movimento circular uniforme e a base de Frenet

Definição 24.11 (Movimento circular uniforme)

Um movimento é circular uniforme quando a trajetória é um círculo de raio RR e a velocidade escalar vv é constante. O período TT é a duração de uma volta, e a frequência f=1/Tf = 1/T (em Hz\mathrm{Hz}) é o número de voltas por segundo: v=2πR/T=2πRfv = 2\pi R/T = 2\pi R f.

Velocidade escalar constante — e, no entanto, a velocidade gira: existe uma aceleração. Para que lado, e de que tamanho?

Teorema 24.12 (Aceleração centrípeta)

Num movimento circular uniforme de raio RR e velocidade escalar vv, a aceleração — chamada de centrípeta — aponta do ponto móvel para o centro do círculo, com norma constante

a=v2R.a = \frac{v^2}{R}.

Demonstração. Centre os eixos no centro do círculo e ponha ω=v/R\omega = v/R, de modo que o arco vtv t subentende o ângulo ωt\omega t: a posição é x(t)=Rcos(ωt)x(t) = R\cos(\omega t), y(t)=Rsin(ωt)y(t) = R\sin(\omega t). Derivando, v=(Rωsin(ωt),Rωcos(ωt))\vect v = (-R\omega\sin(\omega t),\, R\omega\cos(\omega t)), de norma constante Rω=vR\omega = v; derivando outra vez, a=ω2OM\vect a = -\omega^2\,\vect{OM}: oposto ao vetor posição — em direção ao centro — e de norma ω2R=v2/R\omega^2 R = v^2/R.

Movimento circular uniforme: v tangente e de comprimento fixo; a apontado para o centro e de comprimento fixo v2/R — girando a velocidade para sempre, sem nunca esticá-la.
Movimento circular uniforme: v\vect v tangente e de comprimento fixo; a\vect a apontado para o centro e de comprimento fixo v2/Rv^2/R — girando a velocidade para sempre, sem nunca esticá-la.

Definição 24.13 (Base de Frenet)

A base de Frenet na posição atual de um ponto sobre um caminho curvo é o par de vetores unitários perpendiculares (ut,un)(\vect{u_t}, \vect{u_n}): ut\vect{u_t} tangente, no sentido do movimento; un\vect{u_n} normal, apontando para o centro do círculo de raio RR que melhor se ajusta à curva ali.

Proposição 24.14 (Aceleração na base de Frenet)

Ao longo de qualquer caminho plano de raio local RR, percorrido com velocidade escalar v(t)v(t),

a=atut+anun,at= ⁣dv ⁣dt,an=v2R:\vect a = a_t\,\vect{u_t} + a_n\,\vect{u_n}, \qquad a_t = \frac{\dd v}{\dd t}, \qquad a_n = \frac{v^2}{R}:

a aceleração tangencial ata_t muda a velocidade escalar; a aceleração normal ana_n gira a velocidade.

Demonstração. Admitido neste nível.

Observação 24.15 (Onde mora a demonstração)

Demonstramos os extremos: ata_t puro numa reta (Proposição 24.9) e ana_n puro num círculo (Teorema 24.12); a decomposição geral é deduzida no volume do primeiro ano de graduação.

Exemplo 24.16 (Frear entrando na curva)

Um carro entra numa curva de raio R=50mR = 50\,\mathrm{m} a v=15m/sv = 15\,\mathrm{m}/\mathrm{s} enquanto freia a  ⁣dv/ ⁣dt=3.0m/s2\dd v/\dd t = -3.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2}: at=3.0m/s2a_t = -3.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2}, an=152/50=4.5m/s2a_n = 15^2/50 = 4.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2}, de modo que a=3.02+4.525.4m/s2a = \sqrt{3.0^2 + 4.5^2} \approx 5.4\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2}, apontando para trás e para dentro da curva. Os pneus precisam fornecer as duas coisas ao mesmo tempo — e é por isso que os pilotos de corrida freiam antes da curva.

24.6 Exercícios

Exercício 24.1

Para x(t)=3.0tx(t) = 3.0\,t e y(t)=4.0ty(t) = 4.0\,t (metros, segundos), dê v\vect v, a velocidade escalar, a trajetória e a classe do movimento.

Solução

Solução de Exercício 24.1.

v=(3.0,4.0)\vect v = (3.0, 4.0), constante; velocidade escalar 3.02+4.02=5.0m/s\sqrt{3.0^2 + 4.0^2} = 5.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}. Trajetória: a reta y=43xy = \tfrac43 x. Vetor velocidade constante: movimento retilíneo uniforme.

Exercício 24.2

Numa cronofotografia feita a cada 0.10s0.10\,\mathrm{s}, os pontos estão sobre uma reta, igualmente espaçados de 0.35m0.35\,\mathrm{m}. Identifique o movimento e calcule a velocidade escalar. O que espaçamentos que se abrem indicariam?

Solução

Solução de Exercício 24.2.

Reta, com espaçamentos iguais: retilíneo uniforme; v=0.35/0.10=3.5m/sv = 0.35/0.10 = 3.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s}. Espaçamentos que se abrem significariam velocidade escalar crescente.

Exercício 24.3

Para x(t)=2.0t2x(t) = 2.0\,t^2 ao longo de OxOx (metros, segundos), obtenha v(t)v(t) e a(t)a(t), nomeie a classe do movimento e calcule a velocidade escalar em t=3.0st = 3.0\,\mathrm{s}.

Solução

Solução de Exercício 24.3.

v(t)=4.0tv(t) = 4.0\,t, a=4.0m/s2a = 4.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2}: aceleração constante, movimento retilíneo uniformemente acelerado. v(3.0)=12m/sv(3.0) = 12\,\mathrm{m}/\mathrm{s}.

Exercício 24.4

Um cavalinho de carrossel percorre um círculo de raio 4.5m4.5\,\mathrm{m}, uma volta a cada 8.0s8.0\,\mathrm{s}: calcule a frequência, a velocidade escalar e a aceleração (norma e direção).

Solução

Solução de Exercício 24.4.

f=1/8.0=0.125Hzf = 1/8.0 = 0.125\,\mathrm{Hz}; v=2π×4.5/8.03.5m/sv = 2\pi \times 4.5/8.0 \approx 3.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s}; a=v2/R=3.532/4.52.8m/s2a = v^2/R = 3.53^2/4.5 \approx 2.8\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2}, apontando para o eixo do carrossel.

Exercício 24.5

Um gráfico de v(t)v(t) sobe em linha reta de 2.0m/s2.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s} em t=0t = 0 até 10.0m/s10.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s} em t=4.0st = 4.0\,\mathrm{s}. Leia a aceleração e depois a distância percorrida (área sob o gráfico).

Solução

Solução de Exercício 24.5.

Inclinação: a=(10.02.0)/4.0=2.0m/s2a = (10.0 - 2.0)/4.0 = 2.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2}. Área (trapézio): d=12(2.0+10.0)×4.0=24md = \tfrac12 (2.0 + 10.0) \times 4.0 = 24\,\mathrm{m}.

Exercício 24.6 ★★

Um trem de alta velocidade faz uma curva de raio 6.0km6.0\,\mathrm{km} a 320km/h320\,\mathrm{km}/\mathrm{h}. Calcule ana_n e compare-a com gg; por que as linhas de alta velocidade precisam evitar curvas fechadas, mesmo perfeitamente inclinadas?

Solução

Solução de Exercício 24.6.

v=88.9m/sv = 88.9\,\mathrm{m}/\mathrm{s}: an=88.92/60001.3m/s20.13ga_n = 88.9^2/6000 \approx 1.3\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2} \approx 0.13\,g. Como an=v2/Ra_n = v^2/R, um vv alto exige um RR enorme para manter aceitável a aceleração lateral (e a força sobre a via e sobre os passageiros) — a inclinação da via muda quem a fornece, e não o tamanho dela.

Exercício 24.7 ★★

Um carrinho num trilho reto tem x(t)=1.2t2+8.0t+3.0x(t) = -1.2\,t^2 + 8.0\,t + 3.0 (metros, segundos). Encontre v(t)v(t) e aa, o instante e a posição da inversão de sentido, e descreva o movimento antes e depois.

Solução

Solução de Exercício 24.7.

v(t)=2.4t+8.0v(t) = -2.4\,t + 8.0; a=2.4m/s2a = -2.4\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2}, constante. Inversão em v=0v = 0: t=8.0/2.43.3st = 8.0/2.4 \approx 3.3\,\mathrm{s}, em x16.3mx \approx 16.3\,\mathrm{m}. Antes: para a frente, freando; depois: para trás, ganhando velocidade — uniformemente acelerado o tempo todo.

Exercício 24.8 ★★

Uma cronofotografia ao longo de uma reta, a cada Δt=0.20s\Delta t = 0.20\,\mathrm{s}, dá x=0x = 0, 0.100.10, 0.280.28, 0.540.54 e 0.88m0.88\,\mathrm{m}. Estime a velocidade nos três pontos interiores (Método 24.7) e depois a aceleração; conclua.

Solução

Solução de Exercício 24.8.

v1=0.28/0.40=0.70m/sv_1 = 0.28/0.40 = 0.70\,\mathrm{m}/\mathrm{s}; v2=(0.540.10)/0.40=1.10m/sv_2 = (0.54 - 0.10)/0.40 = 1.10\,\mathrm{m}/\mathrm{s}; v3=(0.880.28)/0.40=1.50m/sv_3 = (0.88 - 0.28)/0.40 = 1.50\,\mathrm{m}/\mathrm{s}. A velocidade ganha 0.40m/s0.40\,\mathrm{m}/\mathrm{s} a cada 0.20s0.20\,\mathrm{s}: a=2.0m/s2a = 2.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2}, constante — retilíneo uniformemente acelerado.

Exercício 24.9 ★★

A Lua orbita a Terra num quase-círculo de raio 3.84×108m3.84 \times 10^{8}\,\mathrm{m} em 27.3d27.3\,\mathrm{d}. Calcule a velocidade escalar e a aceleração centrípeta dela; compare a segunda com gg, sabendo que a Lua está a cerca de 6060 raios terrestres (Capítulo 4).

Solução

Solução de Exercício 24.9.

T=2.36×106sT = 2.36 \times 10^{6}\,\mathrm{s}: v=2π×3.84×108/2.36×1061.0×103m/sv = 2\pi \times 3.84 \times 10^{8}/2.36 \times 10^{6} \approx 1.0 \times 10^{3}\,\mathrm{m}/\mathrm{s}; an=v2/R2.7×103m/s2a_n = v^2/R \approx 2.7 \times 10^{-3}\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2}. Razão: g/an3600=602g/a_n \approx 3600 = 60^2 — a gravidade, diluída pelo inverso do quadrado da distância (Capítulo 4), explica exatamente a curva da Lua.

Exercício 24.10 ★★

O tambor de uma máquina de lavar, de raio 25cm25\,\mathrm{cm}, gira a 12001200 rotações por minuto. Calcule ff, TT, a velocidade escalar na borda e a aceleração na borda em múltiplos de gg. Por que a roupa fica grudada enquanto a água sai?

Solução

Solução de Exercício 24.10.

f=1200/60=20Hzf = 1200/60 = 20\,\mathrm{Hz}, T=0.050sT = 0.050\,\mathrm{s}; v=2πRf=2π×0.25×2031m/sv = 2\pi R f = 2\pi \times 0.25 \times 20 \approx 31\,\mathrm{m}/\mathrm{s}; an=v2/R3.9×103m/s2400ga_n = v^2/R \approx 3.9 \times 10^{3}\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2} \approx 400\,g. A parede do tambor fornece o ana_n da roupa; pelos furos nada empurra a água para dentro, e por isso ela sai pela tangente.

Exercício 24.11 ★★

Um carro a 90km/h90\,\mathrm{km}/\mathrm{h} freia com a=7.5m/s2a = 7.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2} constante: calcule o tempo de parada e a distância de frenagem, e esboce v(t)v(t).

Solução

Solução de Exercício 24.11.

v0=25m/sv_0 = 25\,\mathrm{m}/\mathrm{s}: ts=25/7.53.3st_s = 25/7.5 \approx 3.3\,\mathrm{s}; d=v02/(2a)=625/1542md = v_0^2/(2a) = 625/15 \approx 42\,\mathrm{m}. Gráfico: um segmento de reta descendo de 25m/s25\,\mathrm{m}/\mathrm{s} até 00 em tst_s.

Exercício 24.12 ★★★

Para x(t)=Rcos(ωt)x(t) = R\cos(\omega t) e y(t)=Rsin(ωt)y(t) = R\sin(\omega t): calcule v\vect v; verifique que a velocidade escalar é a constante RωR\omega e que vOM\vect v \perp \vect{OM}; calcule a\vect a, mostre que ele vale ω2OM-\omega^2\,\vect{OM} e recupere a=v2/Ra = v^2/R.

Solução

Solução de Exercício 24.12.

v=(Rωsinωt,Rωcosωt)\vect v = (-R\omega\sin\omega t,\, R\omega\cos\omega t), de norma constante RωR\omega; o produto escalar dele com OM\vect{OM} se anula, de modo que ele é perpendicular ao raio e, portanto, tangente. Derivando de novo, a=ω2OM\vect a = -\omega^2\vect{OM}: em direção a OO, de norma ω2R=(v/R)2R=v2/R\omega^2 R = (v/R)^2 R = v^2/R.

Exercício 24.13 ★★★

Uma motocicleta entra numa curva de raio 80m80\,\mathrm{m} a 20m/s20\,\mathrm{m}/\mathrm{s}, freando a 2.5m/s22.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2}. Calcule ata_t, ana_n, a norma de a\vect a e o ângulo dele com a direção do movimento. Os pneus aderem até 7.0m/s27.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2} no total: o piloto está dentro do limite?

Solução

Solução de Exercício 24.13.

at=2.5m/s2a_t = 2.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2} (para trás), an=202/80=5.0m/s2a_n = 20^2/80 = 5.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2}; a=2.52+5.025.6m/s2a = \sqrt{2.5^2 + 5.0^2} \approx 5.6\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2}; ângulo com a direção do movimento: θ=180arctan(5.0/2.5)117\theta = 180^\circ - \arctan(5.0/2.5) \approx 117^\circ (ou seja, 6363^\circ a partir de exatamente para trás). 5.6<7.05.6 < 7.0: dentro da aderência, com pouca folga.

Exercício 24.14 ★★★

Um metrô acelera do repouso a 1.2m/s21.2\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2} até 20m/s20\,\mathrm{m}/\mathrm{s}, segue em velocidade de cruzeiro por 40s40\,\mathrm{s} e depois freia a 1.5m/s21.5\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2} até parar. Calcule a duração e o comprimento de cada fase, a distância total e a velocidade média. Esboce v(t)v(t) e confira a distância como uma área.

Solução

Solução de Exercício 24.14.

Arrancada: t1=20/1.217st_1 = 20/1.2 \approx 17\,\mathrm{s}, d1=202/(2×1.2)167md_1 = 20^2/(2 \times 1.2) \approx 167\,\mathrm{m}. Cruzeiro: 40s40\,\mathrm{s}, 800m800\,\mathrm{m}. Frenagem: t3=20/1.513st_3 = 20/1.5 \approx 13\,\mathrm{s}, d3=400/3.0133md_3 = 400/3.0 \approx 133\,\mathrm{m}. Total: 1.1×103m1.1 \times 10^{3}\,\mathrm{m} em 70s70\,\mathrm{s}; média 1100/7016m/s1100/70 \approx 16\,\mathrm{m}/\mathrm{s} (57km/h57\,\mathrm{km}/\mathrm{h}). O v(t)v(t) é um trapézio cuja área, 12(70+40)×20=1100m\tfrac12(70 + 40) \times 20 = 1100\,\mathrm{m}, confere com o total.

Exercício 24.15 ★★★

Um satélite geoestacionário gira num raio de 4.22×107m4.22 \times 10^{7}\,\mathrm{m} a partir do centro da Terra, com período 86164s86\,164\,\mathrm{s}. Calcule a velocidade escalar e a aceleração centrípeta dele. O que a fornece, e por que o satélite fica pairando sobre um ponto fixo do equador (Capítulo 27)?

Solução

Solução de Exercício 24.15.

v=2π×4.22×107/861643.1×103m/sv = 2\pi \times 4.22 \times 10^{7}/86\,164 \approx 3.1 \times 10^{3}\,\mathrm{m}/\mathrm{s}; an=v2/R0.22m/s2a_n = v^2/R \approx 0.22\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2}. Quem a fornece é a gravidade da Terra àquela distância; o período é igual ao período de rotação da Terra, de modo que satélite e solo giram juntos e ele fica pairando sobre um ponto do equador (Capítulo 27).

24.7 Problema: o laudo do acidente

Problema 24.1

Problema de fim de semana — o laudo do acidente: um vídeo de câmera de bordo lido quadro a quadro, uma lei de frenagem reconstruída a partir das marcas de derrapagem, uma rotatória que testemunha sobre a aderência e um veredito em quilômetros por hora

Um carro atinge uma van que saiu de uma rua transversal; ninguém se machuca, mas as seguradoras discordam. O perito tem imagens de uma câmera aérea (um quadro a cada 0.50s0.50\,\mathrm{s}), marcas de derrapagem medidas e a câmera de bordo do carro. O limite de velocidade é 50km/h50\,\mathrm{km}/\mathrm{h}.

Parte I — Ler o filme. Os quadros anteriores a qualquer reação dão, ao longo da estrada reta:

tt (s\mathrm{s})0.000.501.001.502.00
xx (m\mathrm{m})0.09.018.027.036.0
  1. Por que o laudo precisa nomear primeiro um referencial e eixos? Quais são usados aqui?
  2. Calcule a velocidade média em cada um dos quatro intervalos.
  3. Que classe de movimento é essa? Justifique pela tabela.
  4. Dê a velocidade v0v_0 do carro em m/s\mathrm{m}/\mathrm{s} e em km/h\mathrm{km}/\mathrm{h}.
  5. Qual é a aceleração ao longo desses dois segundos?

Parte II — As marcas de derrapagem. Testes de pneus nesse asfalto seco dão uma desaceleração de frenagem constante a=6.0m/s2a = 6.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2}; as marcas de derrapagem têm db=27md_b = 27\,\mathrm{m} de comprimento. Tome t=0t = 0 e x=0x = 0 no início da frenagem, com velocidade desconhecida vBv_B.

  1. Por primitivas, escreva v(t)v(t) e x(t)x(t) durante a frenagem.
  2. Exprima o tempo de parada tst_s; mostre que db=vB2/(2a)d_b = v_B^2/(2a).
  3. Deduza vBv_B a partir das marcas de derrapagem. É coerente com a Parte I?
  4. O tempo de reação é 1.0s1.0\,\mathrm{s}: calcule a distância de reação e a distância total de parada.
  5. Explique, a partir da questão 7, por que dobrar a velocidade quadruplica a distância de frenagem; calcule dbd_b a exatamente 50km/h50\,\mathrm{km}/\mathrm{h}.

Parte III — A rotatória testemunha. Um pouco antes, a câmera de bordo mostra o carro percorrendo uma faixa de rotatória de raio R=12.5mR = 12.5\,\mathrm{m} com velocidade escalar constante, um quarto de volta em 2.5s2.5\,\mathrm{s}. A pista consegue fornecer no máximo an=μga_n = \mu g, com μ=0.70\mu = 0.70.

  1. A velocidade escalar ali é constante — e a velocidade? O carro está acelerando? Explique.
  2. Calcule a velocidade escalar do carro na rotatória.
  3. Calcule a aceleração centrípeta dele (norma e direção).
  4. Calcule a velocidade máxima sem derrapagem. O carro estava dentro dela?
  5. Dê o período e a frequência de uma volta completa nessa velocidade.

Parte IV — O veredito. A van apareceu D=41mD = 41\,\mathrm{m} à frente do carro no instante em que o motorista começou a reagir.

  1. De quanto, em km/h\mathrm{km}/\mathrm{h} e em porcentagem, a velocidade antes da frenagem excedeu o limite?
  2. Calcule a velocidade do carro no impacto.
  3. Refaça a conta de parada a exatamente 50km/h50\,\mathrm{km}/\mathrm{h} (mesma reação, mesma frenagem): o carro para, e com que margem?
  4. Dê a fórmula geral da distância de parada d(v)d(v); por que a velocidade entra duas vezes — uma linearmente e outra ao quadrado?
  5. O veredito, em uma frase com os números: a que velocidade o motorista estava, e o acidente teria acontecido no limite?
Solução

Solução de Problema 24.1.

1. O movimento é relativo (Capítulo 5): toda posição e toda velocidade precisam nomear o seu referencial. Aqui: o referencial do solo (a estrada), com xx ao longo da estrada a partir da posição do primeiro quadro.

2. Em cada intervalo: 9.0/0.50=18.0m/s9.0/0.50 = 18.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s} — quatro valores iguais.

3. Estrada reta, deslocamentos iguais em tempos iguais: movimento retilíneo uniforme.

4. v0=18.0m/s=64.8km/hv_0 = 18.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s} = 64.8\,\mathrm{km}/\mathrm{h}.

5. a=0\vect a = \vect 0.

6. v(t)=at+vBv(t) = -a\,t + v_B; x(t)=12at2+vBtx(t) = -\tfrac12 a t^2 + v_B\,t.

7. v(ts)=0v(t_s) = 0ts=vB/at_s = v_B/a; então db=12a(vB/a)2+vB2/a=vB2/(2a)d_b = -\tfrac12 a (v_B/a)^2 + v_B^2/a = v_B^2/(2a).

8. vB=2adb=2×6.0×27=324=18.0m/sv_B = \sqrt{2 a d_b} = \sqrt{2 \times 6.0 \times 27} = \sqrt{324} = 18.0\,\mathrm{m}/\mathrm{s} — exatamente a velocidade filmada: o motorista não reduziu antes de frear.

9. Reação: 18.0×1.0=18m18.0 \times 1.0 = 18\,\mathrm{m}; total 18+27=45m18 + 27 = 45\,\mathrm{m}.

10. db=vB2/(2a)vB2d_b = v_B^2/(2a) \propto v_B^2: dobrar vBv_B multiplica dbd_b por 44. A 50km/h50\,\mathrm{km}/\mathrm{h} (13.9m/s13.9\,\mathrm{m}/\mathrm{s}): db=13.92/12.016md_b = 13.9^2/12.0 \approx 16\,\mathrm{m}.

11. A velocidade escalar é constante, mas a direção da velocidade gira: v\vect v não é constante, de modo que o carro está acelerando.

12. Quarto de volta: 2πR/4=19.6m2\pi R/4 = 19.6\,\mathrm{m}; v=19.6/2.57.9m/sv = 19.6/2.5 \approx 7.9\,\mathrm{m}/\mathrm{s} (28km/h28\,\mathrm{km}/\mathrm{h}).

13. an=7.852/12.54.9m/s2a_n = 7.85^2/12.5 \approx 4.9\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2}, em direção ao centro da rotatória.

14. amax=μg=0.70×9.816.9m/s2a_{\max} = \mu g = 0.70 \times 9.81 \approx 6.9\,\mathrm{m}/\mathrm{s}^{2}; vmax=μgR=6.87×12.59.3m/sv_{\max} = \sqrt{\mu g R} = \sqrt{6.87 \times 12.5} \approx 9.3\,\mathrm{m}/\mathrm{s} (33km/h33\,\mathrm{km}/\mathrm{h}). 7.9<9.37.9 < 9.3: dentro da aderência — coerente com a faixa limpa, sem derrapagem.

15. T=2πR/v=78.5/7.8510.0s;f=0.10HzT = 2\pi R/v = 78.5/7.85 \approx 10.0\,\mathrm{s}; f = 0.10\,\mathrm{Hz}.

16. 64.85015km/h64.8 - 50 \approx 15\,\mathrm{km}/\mathrm{h} acima — cerca de 30%30\% acima do limite.

17. A frenagem age ao longo de 4118=23m41 - 18 = 23\,\mathrm{m}: v2=vB22ad=3242×6.0×23=48v^2 = v_B^2 - 2ad = 324 - 2 \times 6.0 \times 23 = 48, logo v6.9m/s25km/hv \approx 6.9\,\mathrm{m}/\mathrm{s} \approx 25\,\mathrm{km}/\mathrm{h} no impacto.

18. A 13.9m/s13.9\,\mathrm{m}/\mathrm{s}: 13.9×1.0+13.92/12.0=13.9+16.1=30.0m<41m13.9 \times 1.0 + 13.9^2/12.0 = 13.9 + 16.1 = 30.0\,\mathrm{m} < 41\,\mathrm{m} — o carro para 11m11\,\mathrm{m} antes da van.

19. d(v)=vtr+v2/(2a)d(v) = v\,t_r + v^2/(2a): uma vez linearmente (a reação cobre vtrv t_r antes de os freios agirem) e outra ao quadrado (a parcela cinética v2/(2a)v^2/(2a)) — e é por isso que excessos moderados custam de modo desproporcional.

20. A câmera de bordo e as marcas de derrapagem concordam: 65km/h65\,\mathrm{km}/\mathrm{h} numa zona de 50km/h50\,\mathrm{km}/\mathrm{h}; no limite legal o carro teria parado 11m11\,\mathrm{m} antes da van — o acidente são os 15km/h15\,\mathrm{km}/\mathrm{h} a mais.