Física do ensino médio · Grades 10–12
24Cinemática em duas dimensões
Observe um carro fazendo uma rotatória a constantes : o ponteiro não sai do lugar e, ainda assim, todo passageiro se sente puxado para o lado — o movimento está mudando, e não é a velocidade escalar. Um número por instante já não basta: o movimento no plano precisa de flechas. Este capítulo equipa um ponto móvel com três — posição, velocidade e aceleração — encadeadas pela derivada, e lê famílias inteiras de movimentos na geometria delas.
24.1 O vetor posição
O movimento só existe em relação a um referencial declarado — um corpo rígido mais um relógio (Capítulo 5). A novidade deste ano é a precisão: prenda ao referencial uma origem e dois eixos graduados perpendiculares e , e registre onde o ponto está a cada instante, como um par de funções.
Definição 24.1 (Vetor posição)
Num referencial equipado com uma origem e eixos e , o vetor posição de um ponto móvel no instante é , de coordenadas : duas funções do tempo, uma por eixo. A curva descrita por enquanto corre é a sua trajetória.
24.2 O vetor velocidade
Definição 24.2 (Vetor velocidade)
Ao longo de um intervalo curto o ponto se desloca de ; divida por e faça o intervalo encolher: é a derivada do seu curso de matemática, aplicada a cada coordenada. O vetor velocidade de é a derivada do seu vetor posição, , em . A norma dele, , é a velocidade escalar — o único número que o velocímetro mostra.
Exemplo 24.3 (Um drone em voo nivelado)
Um drone voa com e (metros, segundos): trajetória sobre a reta , velocidade em todos os instantes e velocidade escalar , constante.
Proposição 24.4 (Tangente à trajetória)
A cada instante, é tangente à trajetória na posição atual de e aponta no sentido do movimento.
Demonstração. O deslocamento é uma corda da trajetória; à medida que encolhe, a direção da corda vira a da tangente. ∎
24.3 O vetor aceleração
Definição 24.5 (Vetor aceleração)
O vetor aceleração de é a derivada do seu vetor velocidade, , em : com que rapidez, e em que direção, o vetor velocidade está mudando naquele momento.
Observação 24.6 (Acelerar sem ganhar velocidade)
sempre que o vetor velocidade muda — em comprimento ou em direção: um carro freando acelera (para trás); um carro fazendo curva a velocidade escalar constante acelera (para o lado). É essa a grandeza que as forças controlam (Capítulos 16 e 25).
Método 24.7 (Ler uma cronofotografia)
Uma cronofotografia registra as posições de um ponto móvel em intervalos de tempo iguais .
- O espaçamento dos pontos revela a velocidade escalar: espaçamentos iguais, velocidade constante; abrindo, acelerando; fechando, freando.
- A velocidade em é a corda simétrica, , desenhada em , tangente ao caminho pontilhado.
- Para a aceleração em : copie e para e desenhe , de ponta a ponta; então .
24.4 Movimentos retilíneos
Ao longo de uma reta basta um eixo: , e , todos números com sinal.
Definição 24.8 (Movimento retilíneo uniforme)
Um movimento é retilíneo uniforme quando é um vetor constante: trajetória reta, velocidade escalar constante, . Então .
Proposição 24.9 (Movimento retilíneo uniformemente acelerado)
Se um ponto se move ao longo de com aceleração constante , partindo em da posição com velocidade , então
Demonstração. é uma primitiva da constante : , e obriga . Por sua vez, é uma primitiva de : , com . ∎
Exemplo 24.10 (Distância de frenagem)
Um carro com velocidade escalar freia com desaceleração constante (aceleração ). Ele para quando , em , tendo percorrido . O quadrado é a manchete da segurança viária: dobrar a velocidade quadruplica a distância de frenagem — com , são a partir de e a partir de .
24.5 Movimento circular uniforme e a base de Frenet
Definição 24.11 (Movimento circular uniforme)
Um movimento é circular uniforme quando a trajetória é um círculo de raio e a velocidade escalar é constante. O período é a duração de uma volta, e a frequência (em ) é o número de voltas por segundo: .
Velocidade escalar constante — e, no entanto, a velocidade gira: existe uma aceleração. Para que lado, e de que tamanho?
Teorema 24.12 (Aceleração centrípeta)
Num movimento circular uniforme de raio e velocidade escalar , a aceleração — chamada de centrípeta — aponta do ponto móvel para o centro do círculo, com norma constante
Demonstração. Centre os eixos no centro do círculo e ponha , de modo que o arco subentende o ângulo : a posição é , . Derivando, , de norma constante ; derivando outra vez, : oposto ao vetor posição — em direção ao centro — e de norma . ∎
Definição 24.13 (Base de Frenet)
A base de Frenet na posição atual de um ponto sobre um caminho curvo é o par de vetores unitários perpendiculares : tangente, no sentido do movimento; normal, apontando para o centro do círculo de raio que melhor se ajusta à curva ali.
Proposição 24.14 (Aceleração na base de Frenet)
Ao longo de qualquer caminho plano de raio local , percorrido com velocidade escalar ,
a aceleração tangencial muda a velocidade escalar; a aceleração normal gira a velocidade.
Demonstração. Admitido neste nível. ∎
Observação 24.15 (Onde mora a demonstração)
Demonstramos os extremos: puro numa reta (Proposição 24.9) e puro num círculo (Teorema 24.12); a decomposição geral é deduzida no volume do primeiro ano de graduação.
Exemplo 24.16 (Frear entrando na curva)
Um carro entra numa curva de raio a enquanto freia a : , , de modo que , apontando para trás e para dentro da curva. Os pneus precisam fornecer as duas coisas ao mesmo tempo — e é por isso que os pilotos de corrida freiam antes da curva.
24.6 Exercícios
Exercício 24.1 ★
Para e (metros, segundos), dê , a velocidade escalar, a trajetória e a classe do movimento.
Solução
Solução de Exercício 24.1.
, constante; velocidade escalar . Trajetória: a reta . Vetor velocidade constante: movimento retilíneo uniforme.
Exercício 24.2 ★
Numa cronofotografia feita a cada , os pontos estão sobre uma reta, igualmente espaçados de . Identifique o movimento e calcule a velocidade escalar. O que espaçamentos que se abrem indicariam?
Solução
Solução de Exercício 24.2.
Reta, com espaçamentos iguais: retilíneo uniforme; . Espaçamentos que se abrem significariam velocidade escalar crescente.
Exercício 24.3 ★
Para ao longo de (metros, segundos), obtenha e , nomeie a classe do movimento e calcule a velocidade escalar em .
Solução
Solução de Exercício 24.3.
, : aceleração constante, movimento retilíneo uniformemente acelerado. .
Exercício 24.4 ★
Um cavalinho de carrossel percorre um círculo de raio , uma volta a cada : calcule a frequência, a velocidade escalar e a aceleração (norma e direção).
Solução
Solução de Exercício 24.4.
; ; , apontando para o eixo do carrossel.
Exercício 24.5 ★
Um gráfico de sobe em linha reta de em até em . Leia a aceleração e depois a distância percorrida (área sob o gráfico).
Solução
Solução de Exercício 24.5.
Inclinação: . Área (trapézio): .
Exercício 24.6 ★★
Um trem de alta velocidade faz uma curva de raio a . Calcule e compare-a com ; por que as linhas de alta velocidade precisam evitar curvas fechadas, mesmo perfeitamente inclinadas?
Solução
Solução de Exercício 24.6.
: . Como , um alto exige um enorme para manter aceitável a aceleração lateral (e a força sobre a via e sobre os passageiros) — a inclinação da via muda quem a fornece, e não o tamanho dela.
Exercício 24.7 ★★
Um carrinho num trilho reto tem (metros, segundos). Encontre e , o instante e a posição da inversão de sentido, e descreva o movimento antes e depois.
Solução
Solução de Exercício 24.7.
; , constante. Inversão em : , em . Antes: para a frente, freando; depois: para trás, ganhando velocidade — uniformemente acelerado o tempo todo.
Exercício 24.8 ★★
Uma cronofotografia ao longo de uma reta, a cada , dá , , , e . Estime a velocidade nos três pontos interiores (Método 24.7) e depois a aceleração; conclua.
Solução
Solução de Exercício 24.8.
; ; . A velocidade ganha a cada : , constante — retilíneo uniformemente acelerado.
Exercício 24.9 ★★
A Lua orbita a Terra num quase-círculo de raio em . Calcule a velocidade escalar e a aceleração centrípeta dela; compare a segunda com , sabendo que a Lua está a cerca de raios terrestres (Capítulo 4).
Solução
Solução de Exercício 24.9.
: ; . Razão: — a gravidade, diluída pelo inverso do quadrado da distância (Capítulo 4), explica exatamente a curva da Lua.
Exercício 24.10 ★★
O tambor de uma máquina de lavar, de raio , gira a rotações por minuto. Calcule , , a velocidade escalar na borda e a aceleração na borda em múltiplos de . Por que a roupa fica grudada enquanto a água sai?
Solução
Solução de Exercício 24.10.
, ; ; . A parede do tambor fornece o da roupa; pelos furos nada empurra a água para dentro, e por isso ela sai pela tangente.
Exercício 24.11 ★★
Um carro a freia com constante: calcule o tempo de parada e a distância de frenagem, e esboce .
Solução
Solução de Exercício 24.11.
: ; . Gráfico: um segmento de reta descendo de até em .
Exercício 24.12 ★★★
Para e : calcule ; verifique que a velocidade escalar é a constante e que ; calcule , mostre que ele vale e recupere .
Solução
Solução de Exercício 24.12.
, de norma constante ; o produto escalar dele com se anula, de modo que ele é perpendicular ao raio e, portanto, tangente. Derivando de novo, : em direção a , de norma .
Exercício 24.13 ★★★
Uma motocicleta entra numa curva de raio a , freando a . Calcule , , a norma de e o ângulo dele com a direção do movimento. Os pneus aderem até no total: o piloto está dentro do limite?
Solução
Solução de Exercício 24.13.
(para trás), ; ; ângulo com a direção do movimento: (ou seja, a partir de exatamente para trás). : dentro da aderência, com pouca folga.
Exercício 24.14 ★★★
Um metrô acelera do repouso a até , segue em velocidade de cruzeiro por e depois freia a até parar. Calcule a duração e o comprimento de cada fase, a distância total e a velocidade média. Esboce e confira a distância como uma área.
Solução
Solução de Exercício 24.14.
Arrancada: , . Cruzeiro: , . Frenagem: , . Total: em ; média (). O é um trapézio cuja área, , confere com o total.
Exercício 24.15 ★★★
Um satélite geoestacionário gira num raio de a partir do centro da Terra, com período . Calcule a velocidade escalar e a aceleração centrípeta dele. O que a fornece, e por que o satélite fica pairando sobre um ponto fixo do equador (Capítulo 27)?
Solução
Solução de Exercício 24.15.
; . Quem a fornece é a gravidade da Terra àquela distância; o período é igual ao período de rotação da Terra, de modo que satélite e solo giram juntos e ele fica pairando sobre um ponto do equador (Capítulo 27).
24.7 Problema: o laudo do acidente
Problema 24.1
Problema de fim de semana — o laudo do acidente: um vídeo de câmera de bordo lido quadro a quadro, uma lei de frenagem reconstruída a partir das marcas de derrapagem, uma rotatória que testemunha sobre a aderência e um veredito em quilômetros por hora
Um carro atinge uma van que saiu de uma rua transversal; ninguém se machuca, mas as seguradoras discordam. O perito tem imagens de uma câmera aérea (um quadro a cada ), marcas de derrapagem medidas e a câmera de bordo do carro. O limite de velocidade é .
Parte I — Ler o filme. Os quadros anteriores a qualquer reação dão, ao longo da estrada reta:
| () | 0.00 | 0.50 | 1.00 | 1.50 | 2.00 |
| () | 0.0 | 9.0 | 18.0 | 27.0 | 36.0 |
- Por que o laudo precisa nomear primeiro um referencial e eixos? Quais são usados aqui?
- Calcule a velocidade média em cada um dos quatro intervalos.
- Que classe de movimento é essa? Justifique pela tabela.
- Dê a velocidade do carro em e em .
- Qual é a aceleração ao longo desses dois segundos?
Parte II — As marcas de derrapagem. Testes de pneus nesse asfalto seco dão uma desaceleração de frenagem constante ; as marcas de derrapagem têm de comprimento. Tome e no início da frenagem, com velocidade desconhecida .
- Por primitivas, escreva e durante a frenagem.
- Exprima o tempo de parada ; mostre que .
- Deduza a partir das marcas de derrapagem. É coerente com a Parte I?
- O tempo de reação é : calcule a distância de reação e a distância total de parada.
- Explique, a partir da questão 7, por que dobrar a velocidade quadruplica a distância de frenagem; calcule a exatamente .
Parte III — A rotatória testemunha. Um pouco antes, a câmera de bordo mostra o carro percorrendo uma faixa de rotatória de raio com velocidade escalar constante, um quarto de volta em . A pista consegue fornecer no máximo , com .
- A velocidade escalar ali é constante — e a velocidade? O carro está acelerando? Explique.
- Calcule a velocidade escalar do carro na rotatória.
- Calcule a aceleração centrípeta dele (norma e direção).
- Calcule a velocidade máxima sem derrapagem. O carro estava dentro dela?
- Dê o período e a frequência de uma volta completa nessa velocidade.
Parte IV — O veredito. A van apareceu à frente do carro no instante em que o motorista começou a reagir.
- De quanto, em e em porcentagem, a velocidade antes da frenagem excedeu o limite?
- Calcule a velocidade do carro no impacto.
- Refaça a conta de parada a exatamente (mesma reação, mesma frenagem): o carro para, e com que margem?
- Dê a fórmula geral da distância de parada ; por que a velocidade entra duas vezes — uma linearmente e outra ao quadrado?
- O veredito, em uma frase com os números: a que velocidade o motorista estava, e o acidente teria acontecido no limite?
Solução
Solução de Problema 24.1.
1. O movimento é relativo (Capítulo 5): toda posição e toda velocidade precisam nomear o seu referencial. Aqui: o referencial do solo (a estrada), com ao longo da estrada a partir da posição do primeiro quadro.
2. Em cada intervalo: — quatro valores iguais.
3. Estrada reta, deslocamentos iguais em tempos iguais: movimento retilíneo uniforme.
4. .
5. .
6. ; .
7. dá ; então .
8. — exatamente a velocidade filmada: o motorista não reduziu antes de frear.
9. Reação: ; total .
10. : dobrar multiplica por . A (): .
11. A velocidade escalar é constante, mas a direção da velocidade gira: não é constante, de modo que o carro está acelerando.
12. Quarto de volta: ; ().
13. , em direção ao centro da rotatória.
14. ; (). : dentro da aderência — coerente com a faixa limpa, sem derrapagem.
15. .
16. acima — cerca de acima do limite.
17. A frenagem age ao longo de : , logo no impacto.
18. A : — o carro para antes da van.
19. : uma vez linearmente (a reação cobre antes de os freios agirem) e outra ao quadrado (a parcela cinética ) — e é por isso que excessos moderados custam de modo desproporcional.
20. A câmera de bordo e as marcas de derrapagem concordam: numa zona de ; no limite legal o carro teria parado antes da van — o acidente são os a mais.