Gire o botão pesado de um rádio de sótão e as estações desfilam diante do ponteiro: uma voz, violinos, chiado, outra voz. Atrás do painel não há motor nem computador — uma bobina, um capacitor cujas placas intercaladas o botão gira e um pedaço de fio de antena. Este capítulo liga os dois tanques de energia do capítulo anterior (Capítulo 30) frente a frente e encontra o pêndulo mais rápido já construído: carga indo e vindo, até milhões de vezes por segundo, num compasso que o botão escolhe.
31.1 Um pêndulo elétrico: o circuito LC
Carregue um capacitorC à tensão U0 — as placas dele guardam então ±Q0 com Q0=CU0 — e, em t=0, chaveie-o sobre uma bobinaidealL, de resistência nula. Nenhuma fonte em lugar algum da malha: o que quer que aconteça em seguida, o circuito faz sozinho.
O circuito LC: um capacitor carregado a Q0, uma chave, uma bobina ideal. Fechar K deixa a carga escorrer pela bobina — e a bobina, que detesta mudança, não a deixa parar.
Proposição 31.1(A equação do LC)
Na malha LC ideal a carga q(t) da placa de cima obedece a
Demonstração. Verifique por substituição. Derivando, i=dq/dt=−T02πQ0sin(2πt/T0) — o i(t) enunciado — e de novo dt2d2q=−(T02π)2q, que é igual a −q/(LC) exatamente quando (2π/T0)2=1/(LC), ou seja, T0=2πLC. E q(0)=Q0, i(0)=0. Que nenhuma outra função se ajusta à equação e à partida fica admitido, exatamente como no caso da mola (Observação 28.9). ∎
Definição 31.3(Período e frequência próprios)
O período próprio de um circuito LC é T0=2πLC; a frequência própria dele é
f0=T01=2πLC1.
Conferência dimensional: 1H=1Vs/A e 1F=1C/V, de modo que LC carrega s×C/A=s2 — LC é um tempo, como tem de ser.
Exemplo 31.4(Primeiros números)
L=10mH com C=1.0µF: LC=1.0×10−4s, logo T0=0.63ms e f0≈1.6kHz — um tom audível. L=1.0mH com C=100pF: T0=2.0µs, f0≈0.50MHz — uma radiofrequência. Só o produtoLC fixa o compasso.
Observação 31.5(Um quarto de período fora de compasso)
A corrente está um quarto de período defasada em relação à carga: i=0 quando q=±Q0 (placas cheias, escoamento se invertendo) e i=±I0 quando q=0 (placas vazias, escoamento a todo vapor) — exatamente o pêndulo, imóvel nos extremos e mais rápido embaixo.
Carga e corrente do circuito LC livre: a corrente é máxima toda vez que a carga cruza o zero, um quarto de período fora de compasso.
31.2 A valsa das energias
Proposição 31.6(Conservação da energia armazenada)
é constante: inteiramente no capacitor quando q=±Q0, inteiramente na bobina quando i=±I0.
Demonstração. Derive: dtdE=Cqdtdq+Lidtdi=i(Cq+Ldt2d2q)=0 pela Proposição 31.1. O valor dela se lê em t=0 (tudo no capacitor) e de novo no instante em que tudo é corrente, q=0 — de onde 21LI02=Q02/2C, recuperando I0=Q0/LC só com energia. ∎
Um período da valsa: a energia vai e volta das placas para a bobina duas vezes por período, com a soma cravada em Q02/2C — a mesmíssima figura do oscilador massa–mola, com outros rótulos.
Exemplo 31.7(A valsa, medida)
C=1.0µF carregado a U0=10V, chaveado sobre L=10mH: energiaE=21CU02=5.0×10−5J, períodoT0=0.63ms e uma corrente de pico I0=U0C/L=0.10A atingida um quarto de período (0.16ms) depois que a chave fecha.
31.3 Circuitos reais: oscilações amortecidas
Toda bobina real é enrolada com fio resistivo: a malha honesta é um circuito RLC série, e a resistência taxa a valsa.
Definição 31.8(Regimes pseudoperiódico e aperiódico)
pseudoperiódico (R pequeno): o circuito ainda oscila dentro de um envelope que encolhe, com um tempo de repetição — o pseudoperíodo — próximo de T0=2πLC quando o amortecimento é fraco;
aperiódico (R grande): a carga volta rastejando a zero sem nunca passar do ponto — oscilação nenhuma.
Os dois destinos de um circuito RLC real: oscilações que morrem dentro de um envelope exponencial (tracejado), ou um rastejo até zero sem oscilação alguma. Com amortecimento fraco, o pseudoperíodo continua ≈T0.
Observação 31.9(Manter as oscilações)
Para manter a amplitude viva, injete no circuito exatamente a energia que a resistência queima, uma vez por ciclo e em compasso com o balanço: um amplificador faz pela malha RLC o que o empurrão do escapamento faz pelo pêndulo (Capítulo 28). Todo relógio de quartzo e todo transmissor de rádio é um oscilador mantido desse tipo, rodando na frequência própriaf0 dele.
31.4 O gêmeo mecânico
Proposição 31.10(O dicionário elétrico–mecânico)
A equação do LC é a equação massa–mola (Proposição 28.8) palavra por palavra:
Mesma equação, mesmas soluções: todo resultado sobre um dos osciladores se traduz na hora para a outra língua.
Demonstração. Compare a Proposição 31.1 com md2x/dt2=−kx: substituir q→x, L→m e 1/C→k transforma uma na outra, e LC→m/k transforma 2πLC em 2πm/k. ∎
Exemplo 31.11(Sintonizar um rádio)
A antena joga um sussurro de todas as estações dentro de uma malha LC, mas só a que transmite perto de f0 empurra em compasso e vai crescendo — ressonância (Definição 28.13). O botão gira as placas de um capacitor variável: mudar C desloca f0=1/(2πLC), e o ponteiro entrega ao fone uma estação de cada vez. Do lado da transmissão, um oscilador mantido (Observação 31.9) fixa a frequência de transmissão; num relógio, um cristal de quartzo — um gêmeo mecânico de rigidez de tirar o fôlego — faz o mesmo papel.
31.5 Exercícios
Exercício 31.1★
Calcule T0 e f0 para (a) L=10mH, C=1.0µF; (b) L=1.0mH, C=100pF. Por que fator diferem as frequências?
Usando 1H=1Vs/A e 1F=1C/V, mostre, unidade por unidade, que LC é um tempo. Por que o 2π não muda nada?
Solução
Solução de Exercício 31.2.
LC: (Vs/A)(C/V)=s×C/A=s×s=s2, de modo que LC está em segundos. 2π é um número puro — não tem dimensão para mudar.
Exercício 31.3★
Um capacitor de 470nF é carregado a 6.0V. Calcule Q0 e a energia armazenada; descreva, sem calcular, o que acontece quando ele é chaveado sobre uma bobina ideal.
Solução
Solução de Exercício 31.3.
Q0=CU0=2.8µC; E=21CU02=21×4.7×10−7×36≈8.5µJ. A carga oscila em f0=1/(2πLC), com a corrente um quarto de período defasada, a energia indo e vindo entre as placas e a bobina, e o total constante.
Exercício 31.4★
Um circuito LC segue q(t)=2.0cos(2πt/T0) em microcoulombs, com T0=4.0ms. Leia Q0; calcule f0, q(T0/2), i(0) e a corrente de pico I0=2πQ0/T0.
Solução
Solução de Exercício 31.4.
Q0=2.0µC; f0=1/T0=250Hz; q(T0/2)=−2.0µC; i(0)=0 (o cosseno tem tangente horizontal em t=0); I0=2π×2.0×10−6/4.0×10−3≈3.1mA.
Exercício 31.5★
Em que instantes do ciclo a energia está inteiramente no capacitor? E inteiramente na bobina? Qual é a contrapartida mecânica de cada momento para um pêndulo?
Solução
Solução de Exercício 31.5.
Tudo no capacitor quando q=±Q0 e i=0 (t=0, T0/2, T0, …): os extremos do pêndulo. Tudo na bobina quando q=0 e i=±I0 (t=T0/4, 3T0/4, …): o ponto mais baixo e mais rápido do pêndulo.
Exercício 31.6★★
Verifique por substituição que q(t)=Q0cos(2πt/T0) satisfaz Ld2q/dt2+q/C=0 exatamente quando T0=2πLC.
Solução
Solução de Exercício 31.6.
d2q/dt2=−(2π/T0)2Q0cos(2πt/T0)=−(2π/T0)2q, logo Ld2q/dt2+q/C=q[1/C−L(2π/T0)2]=0 para todo t exatamente quando (2π/T0)2=1/(LC), ou seja, T0=2πLC.
Exercício 31.7★★
Uma estação de ondas longas transmite a 198kHz. Com C=220pF, que indutância sintoniza nela?
Solução
Solução de Exercício 31.7.
L=4π2f02C1=39.5×(1.98×105)2×2.2×10−101≈2.9mH.
Exercício 31.8★★
C=1.0µF carregado a 10V se descarrega em L=10mH. Calcule a energia armazenada, a corrente de pico (pela conservação da energia) e o instante em que ela é atingida pela primeira vez.
Solução
Solução de Exercício 31.8.
E=21CU02=5.0×10−5J; 21LI02=E dá I0=2E/L=1.0×10−2=0.10A, atingida pela primeira vez em T0/4=41×0.63ms≈0.16ms.
Exercício 31.9★★
Explique por que EC e EL oscilam na frequência2f0, e não f0. Mostre que em t=T0/8 (partindo de q=Q0) a energia está dividida exatamente ao meio.
Solução
Solução de Exercício 31.9.
EC∝cos2(2πt/T0), e cos2 se repete a cada meia volta: dois enchimentos do capacitor por período, e portanto 2f0. Em t=T0/8 a fase é π/4: cos2(π/4)=21, logo EC=EL=E/2.
Exercício 31.10★★
Num oscilograma de um circuito RLC fracamente amortecido, máximos sucessivos marcam 4.0V e depois 3.0V. Supondo que a razão permaneça constante, preveja o sexto máximo depois do de 4.0V. Que fração da energia sobrevive a cada pseudoperíodo? E o que se pode dizer do pseudoperíodo em si?
T0=2π0.50×2.0×10−5=2π×3.16×10−3≈20ms. Pelo dicionário: k=m/(LC)=0.50/1.0×10−5=5.0×104N/m; conferindo, 2πm/k=2π1.0×10−5 — os mesmos 20ms.
Exercício 31.12★★★
Um sintonizador usa L=0.20mH e um capacitor variável que varre de 50 to 500pF. Calcule as duas frequências extremas. Mostre que f0∝1/C, de modo que dez vezes em C dá apenas 10≈3.2 em frequência.
Solução
Solução de Exercício 31.12.
C=500pF: f0=1/(2π1.0×10−13)≈0.50MHz; C=50pF: f0≈1.6MHz. Com L fixo, f0=(2πL)−1C−1/2∝1/C: dez vezes em C, apenas 10≈3.2 em f0 — como se encontrou.
Exercício 31.13★★★
Uma bobina real faz o circuito perder 5.0% da energia dele a cada pseudoperíodo. Depois de quantos períodos a energia caiu à metade? Qual é a amplitude então, como fração da inicial? A f0=1.0MHz, quanto tempo é isso em microssegundos?
Solução
Solução de Exercício 31.13.
0.95n=21: n=ln2/∣ln0.95∣≈13.5, ou seja, uns 14períodos. A amplitude é proporcional a E: cai para 1/2≈0.71 da inicial. A 1.0MHz, T0=1.0µs: cerca de 14µs.
Exercício 31.14★★★
O oscilador de um relógio armazena E=1.0×10−9J e perde 2.0% disso por ciclo, a f0=32768Hz. Que potência média o circuito de manutenção precisa fornecer? Por que o empurrão tem de chegar em compasso com a oscilação?
Solução
Solução de Exercício 31.14.
Perda por ciclo 0.020×1.0×10−9J=2.0×10−11J, a 32768 ciclos por segundo: P=32768×2.0×10−11≈6.6×10−7W — menos de um microwatt, anos com uma pilha-botão. Em compasso porque só um empurrão na fase certa acrescentaenergia (ressonância); fora de compasso, ele frearia o balanço.
Exercício 31.15★★★
Depois de cada borda de um sinal quadrado, a fiação de um experimentador “repica” a 25MHz; a indutância parasita é de cerca de 1.0µH. Estime a capacitância parasita responsável. Para que regime um pequeno resistor em série deveria empurrar o circuito, e por que isso cura o repique?
Solução
Solução de Exercício 31.15.
C=4π2f02L1=39.5×(2.5×107)2×1.0×10−61≈41pF. O resistor deve empurrar a malha para o regime aperiódico: a carga então se acomoda sem passar do ponto — sem oscilação, sem repique.
31.6 Problema: montar um rádio de galena
Problema 31.1
Problema de fim de semana — montar um rádio de galena: uma bobina, um capacitor variável, um diodo e um fone — sem pilha, sem amplificador, e o jornal da noite chega com a energia da própria onda
Um kit do sótão dos avós: uma bobinaL=0.20mH enrolada num tubo de papelão, um capacitor variável cujas placas giram de 20pF a 480pF, um diodo de cristal, um fone de ouvido e 20m de fio de antena. As estações a pegar transmitem entre 530kHz e 1700kHz.
Parte I — A malha de sintonia.
O capacitor, carregado, é deixado descarregar na bobina: escreva a lei das malhas e transforme-a na equação diferencial de q(t).
Verifique por substituição que q(t)=Q0cos(2πt/T0) a resolve, desde que T0=2πLC.
Confira por análise dimensional que LC é um tempo.
Botão ajustado em C=330pF: calcule T0 e f0. A malha está sintonizada dentro da faixa?
Encontre a capacitância que sintoniza exatamente 1.00MHz.
Calcule as duas frequências que o capacitor de 20 to 480pF do kit de fato alcança. Ele cobre a faixa inteira?
Mostre que f0∝1/C com L fixo; por que fator C precisa mudar para dobrar f0?
As placas se abrem linearmente, de modo que C cai de forma uniforme conforme o botão gira. Explique por que as estações então se amontoam numa das pontas do dial — e em qual delas.
Parte III — Energia e amortecimento. Sintonizada em 1.00MHz (C=127pF), a antena carrega por um instante o capacitor a U0=20mV.
Quanto tempo é isso em microssegundos? Por que esse “repique” sozinho não consegue tocar o jornal da noite?
Explique por que a onda que chega mantém a malha balançando apenas quando ela está sintonizada naquela estação — e o que mantém a oscilação no transmissor (Observação 31.9).
Parte IV — O gêmeo mecânico.
Usando o dicionário (Proposição 31.10) com um carrinho de massa m=0.20kg, calcule a constante elásticak da mola que corresponde ao circuito sintonizado.
Uma mola dura de carro tem k≈5×104N/m. Comente: um sistema massa–mola de bancada consegue oscilar em megahertz?
Fique, em vez disso, com um k=100N/m razoável: que massa oscila a 1.00MHz?
Que objeto real é um oscilador mecânico assim, leve como pluma e ultrarrígido, e onde você o encontrou antes, este ano (Capítulo 28)?
Ficha técnica, em uma frase: a faixa que o seu rádio varre, a capacitância que pega 1.00MHz, quanto dura um repique solitário e o que toca o jornal assim mesmo.
Solução
Solução de Problema 31.1.
1. Lei das malhas: uL+uC=0, com uC=q/C, uL=Ldi/dt e i=dq/dt: Ld2q/dt2+q/C=0.
2.d2q/dt2=−(2π/T0)2q, de modo que a equação fica q[1/C−L(2π/T0)2]=0, verdadeira para todo t exatamente quando T0=2πLC.
3.LC: (Vs/A)(C/V)=s×C/A=s2 — LC é um tempo.
4.LC=6.6×10−14s2: T0=2π×2.57×10−7≈1.6µs, f0≈620kHz — dentro de 530 to 1700kHz.
5.C=4π2f02L1=39.5×1.0×1012×2.0×10−41≈127pF.
6. A mesma fórmula a 530kHz: C≈451pF.
7. A 1700kHz: C≈44pF.
8.C=480pF: f0≈514kHz; C=20pF: f0≈2.5MHz — a faixa inteira, com margem nas duas pontas.
9.f0=(2πL)−1C−1/2∝1/C; dobrar f0 exige dividir C por 4.
10. Como f0∝1/C, passos iguais de C movem f0 devagar com C grande e depressa com C pequeno: um dado espaçamento entre estações exige então pouco giro do botão — elas se amontoam na ponta de frequência alta (e C baixo).
14. A 1.00MHz, T0=1.0µs: o repique cai à metade em cerca de 17µs. Um repique solitário morre em microssegundos; a música exige a malha alimentada continuamente.
15. A onda empurra milhões de vezes por segundo; só quando a frequência dela coincide com f0 é que os empurrões chegam em compasso e constroem o balanço — ressonância; as estações fora de sintonia empurram tanto contra quanto a favor. No transmissor, um amplificador devolve a energiadissipada a cada ciclo: um oscilador mantido.
17. Cerca de 108 vezes a mola do carro: nenhum sistema massa–mola de bancada chega a megahertz — as rigidezes e as massas do dia a dia são desesperadamente lentas.
18.m=(2πf0)2k=(6.28×106)2100≈2.5×10−12kg — alguns nanogramas, um cisco de poeira.
19. Um cristal de quartzo: uma lâmina leve como pluma e ultrarrígida, cantando na frequência própria dela — o marcador de tempo encontrado antes, neste ano.
20. Com L=0.20mH e 20 to 480pF a malha varre cerca de 0.51 to 2.5MHz, cobrindo a faixa; C≈127pF pega 1.00MHz; deixado sozinho, o repique cai à metade em ≈17µs, mas a própria onda da estação, ressoando em compasso, realimenta a malha — o jornal toca com a energia da própria onda.