Física do ensino médio · Grades 10–12
18Energia mecânica e sua conservação
Uma montanha-russa não tem motor depois da primeira subida: cada looping, cada disparo de velocidade dali em diante é gasto da conta aberta na subida. Este capítulo transforma essa contabilidade em dois números — energia cinética e energia potencial — e numa regra: enquanto só o peso realizar trabalho, a soma dos dois não muda. O atrito é a taxa; vamos aprender a lê-la nos livros.
18.1 Energia cinética
Definição 18.1 (Energia cinética)
Um corpo de massa () que se move com velocidade () carrega a energia cinética
Conferência de unidades: — joules, como toda energia (Capítulo 9).
Exemplo 18.2 (Ordens de grandeza)
- um pedestre, a : ;
- um carro, a : ;
- um trem de alta velocidade, , a : ;
- uma bala de fuzil, a : .
Sete ordens de grandeza separam o passeio do trem. E cresce com o quadrado da velocidade: a o carro carrega vezes a energia que tem a — quatro vezes o que os freios dele precisam remover.
18.2 O teorema da energia cinética
Teorema 18.3 (Teorema da energia cinética)
Para um corpo de massa que se move em linha reta de até , a variação da energia cinética é igual ao trabalho total (Capítulo 17) recebido:
com a soma percorrendo todas as forças que agem sobre o corpo. Ele se estende a movimentos ao longo de qualquer caminho, o que também admitimos aqui.
Demonstração. Admitido neste nível. ∎
Exemplo 18.4 (Queda livre, conferida quadro a quadro)
Uma bola de é solta e filmada; os quadros dão:
| () | 0.10 | 0.20 | 0.30 | 0.40 |
| altura de queda () | 0.049 | 0.196 | 0.441 | 0.785 |
| velocidade () | 0.98 | 1.96 | 2.94 | 3.92 |
| () | 0.096 | 0.384 | 0.864 | 1.54 |
| () | 0.096 | 0.385 | 0.865 | 1.54 |
Partindo de , em cada quadro coincide com o trabalho do peso: , ou seja, — o teorema, verificado com a precisão das leituras.
Observação 18.5 (Onde mora a demonstração)
O enunciado geral — válido ao longo de qualquer caminho, e não só de uma reta — decorre da segunda lei de Newton e de um pouco de cálculo, ambos mais adiante neste livro (Capítulos 25 e 29); até lá, a conferência da queda livre é a nossa garantia, e admitimos a versão para caminhos curvos e a usamos à vontade.
18.3 Energia potencial gravitacional
Definição 18.6 (Energia potencial gravitacional)
Um corpo de massa à altitude , medida para cima a partir de um nível de referência escolhido onde , armazena a energia potencial gravitacional
Observação 18.7 (Só as diferenças importam)
Ir de até muda em : o oposto do trabalho do peso (Capítulo 17). O nível de referência é uma escolha livre — o piso, o nível do mar, o tampo da mesa — e desloca em toda parte por uma constante que some de toda diferença. Coloque-o onde os números ficarem mais simples, e não o mude no meio do problema.
Exemplo 18.8 (Um livro numa prateleira)
Um livro de está acima do piso, que por sua vez está acima da rua. Referência no piso: ; na rua: . Cair até o piso libera nas duas contas.
18.4 Energia mecânica e sua conservação
Definição 18.9 (Energia mecânica)
A energia mecânica de um corpo é
Teorema 18.10 (Conservação da energia mecânica)
Se a única força que realiza trabalho sobre um corpo é o seu peso (sem atrito; as outras forças, como a reação de um trilho sem atrito, perpendiculares ao movimento), se conserva: para quaisquer dois pontos e do movimento,
Demonstração. Pelo teorema da energia cinética, : o que ganha, perde. ∎
Exemplo 18.11 (Toboágua)
Uma criança parte do repouso no alto de um toboágua sem atrito, de altura . Referência embaixo: , logo () — seja qual for a massa e seja qual for o formato do escorregador: reto, curvo ou em espiral, só o desnível entra.
Exemplo 18.12 (Pêndulo)
A massa de um pêndulo é puxada de lado até subir acima do seu ponto mais baixo e depois é solta. Nos extremos ; no fundo, todo o é cinético, ; e do outro lado a massa sobe de volta a exatamente .
Exemplo 18.13 (Velocidade de aterrissagem num salto de esqui)
Um saltador de esqui deixa a rampa a e aterrissa abaixo. Desprezando a resistência do ar, — sem precisar conhecer a trajetória do voo.
18.5 Dissipação pelo atrito
Definição 18.14 (Dissipação)
Diz-se que a energia que sai da conta mecânica é dissipada: ela reaparece como energia térmica nas superfícies que se esfregam e no ar. A energia total se conserva (Capítulo 9); só a energia mecânica é que não.
Proposição 18.15 (O déficit mede o atrito)
Se uma força de atrito também realiza trabalho ao longo do movimento,
a perda de energia mecânica é igual ao trabalho do atrito.
Demonstração. O teorema da energia cinética passa a dizer ; passe para o outro lado. O atrito se opõe ao movimento, de modo que o trabalho dele é negativo. ∎
Exemplo 18.16 (Auditoria do trenó)
Uma criança com o trenó () parte do repouso, desce ao longo de de neve e chega a , em vez dos sem atrito. Referência embaixo: . Logo, ao longo de : uma força de atrito média e de calor nos patins e na neve.
Método 18.17 (Contabilidade de energia)
- Escolha um nível de referência e mantenha-o; nomeie (dados) e (pergunta).
- Escreva em e em .
- Sem atrito: ; resolva — tipicamente .
- Com atrito: ( = comprimento do caminho); resolva para a incógnita.
- Confira: as barras de e se empilham até , que fica constante a não ser que haja atrito.
18.6 Exercícios
Exercício 18.1 ★
Calcule a energia cinética (a) de uma motoneta com condutor, a ; (b) de um carro de a . (c) Por que fator muda quando a velocidade dobra? E quando triplica?
Solução
Solução de Exercício 18.1.
(a) : . (b) : . (c) ; — o quadrado.
Exercício 18.2 ★
Um alpinista de ganha de altitude. Calcule o ganho de energia potencial. Ele depende do nível de referência? E da rota?
Solução
Solução de Exercício 18.2.
. Não: a referência desloca os dois valores igualmente. Não: só a diferença de altura entra.
Exercício 18.3 ★
Um vaso de flores cai de uma sacada. Desprezando a resistência do ar, encontre a velocidade de chegada ao chão em e em . Para onde foi a massa?
Solução
Solução de Exercício 18.3.
. Em a massa se cancela.
Exercício 18.4 ★
Um carro de freia de até parar em . Use o teorema da energia cinética para achar o trabalho dos freios e depois a força média de frenagem.
Solução
Solução de Exercício 18.4.
; .
Exercício 18.5 ★
A massa de um pêndulo é solta acima do seu ponto mais baixo. Encontre a velocidade dela no fundo e a altura alcançada do outro lado.
Solução
Solução de Exercício 18.5.
; ela sobe de volta a (conservação).
Exercício 18.6 ★★
Usando o Exemplo 18.2: por que fator a energia cinética do trem supera a da bala? A que altura a própria dele levantaria o trem ()?
Solução
Solução de Exercício 18.6.
: cerca de seiscentas mil balas. — a própria velocidade dele levantaria o trem metros.
Exercício 18.7 ★★
Dois escorregadores sem atrito descem da mesma plataforma de , um reto e íngreme, outro longo e sinuoso. Compare as velocidades de chegada (calcule-as) e os tempos de chegada (sem contas).
Solução
Solução de Exercício 18.7.
Mesma velocidade (só o desnível entra). O escorregador íngreme vence no tempo: ele atinge alta velocidade mais cedo e o caminho dele é mais curto.
Exercício 18.8 ★★
Uma bola é lançada verticalmente para cima a . Encontre a altura máxima alcançada e depois a velocidade a — na subida e na descida.
Solução
Solução de Exercício 18.8.
. A : — a mesma nos dois sentidos: depende da altura, não do sentido do percurso.
Exercício 18.9 ★★
Um saltador de esqui deixa a rampa a e aterrissa abaixo. Preveja a velocidade de aterrissagem sem resistência do ar; o valor real é maior ou menor, e por quê?
Solução
Solução de Exercício 18.9.
. Menor na realidade: a resistência do ar dissipa parte de .
Exercício 18.10 ★★
Um trenó de parte do repouso, desce ao longo de de encosta e chega a . Encontre a energia mecânica perdida e depois a força média de atrito. Para onde foi a energia?
Solução
Solução de Exercício 18.10.
; . Virou calor, nos patins e na neve.
Exercício 18.11 ★★
O pino de Galileu: um pêndulo solto acima do seu ponto mais baixo encontra um pino que bloqueia a metade superior do fio na vertical. Encontre a velocidade no fundo e a subida além do pino; o que o pino muda e o que não muda?
Solução
Solução de Exercício 18.11.
; ela sobe de novo a . O pino muda o caminho (um círculo mais fechado), não a energia: alturas e velocidades ficam intocadas.
Exercício 18.12 ★★★
Um skatista entra num half-pipe a partir de ; cada travessia (de um lado ao outro) dissipa da energia mecânica. Encontre a velocidade no fundo da primeira descida e, em seguida — calculando as alturas sucessivas de subida —, a primeira travessia que termina abaixo de .
Solução
Solução de Exercício 18.12.
. As alturas de subida escalam com , logo ficam a cada travessia: , , , , , , , , — a primeira abaixo de é a a travessia.
Exercício 18.13 ★★★
Do alto de um penhasco de , uma pedra é lançada a — para cima, na horizontal ou em qualquer ângulo. Mostre que a velocidade de chegada ao solo é a mesma em todos os casos e calcule-a. O que depende do ângulo?
Solução
Solução de Exercício 18.13.
A mesma inicial seja qual for o ângulo, de modo que a velocidade no solo vale . O ângulo fixa a direção da velocidade de chegada, o tempo de voo e o alcance — e não a velocidade de chegada.
Exercício 18.14 ★★★
Um esquiador de descida de parte do repouso e desce de desnível ao longo de uma pista de , contra uma força de atrito constante de . Encontre a velocidade de chegada e a fração de dissipada.
Exercício 18.15 ★★★
Uma usina reversível eleva de água ( por ) por . Calcule a energia armazenada em joules e em ; turbinada de volta com de rendimento (Capítulo 9), quantas casas que consomem por dia ela alimenta durante um dia?
Solução
Solução de Exercício 18.15.
: . Recuperada: — cerca de casas por um dia.
18.7 Problema: projetar o looping
Problema 18.1
Problema de fim de semana — uma auditoria energética de uma montanha-russa: a altura de lançamento que um looping impõe, as velocidades que ela promete, o atrito confessado por dois sensores e os freios que fecham a conta — o passeio inteiro pendurado num único número
Um trem de massa é solto do repouso de um morro de lançamento de altura e desliza, sem motor, por um looping circular vertical de raio cujo topo fica à altura . A análise do movimento circular (no ano que vem) fornece o único dado que tomamos emprestado: no topo do looping, o trem só pressiona o trilho se . As Partes I e II ignoram o atrito.
Parte I — O morro que o looping impõe.
- Calcule a velocidade mínima segura no topo do looping.
- Com o solo como nível de referência, calcule a energia mecânica do trem no topo do looping com essa velocidade mínima.
- Deduza e mostre que — sem massa e sem .
- A equipe adota : calcule a velocidade real no topo do looping e a razão .
- Para onde foi o ? Por que o projeto serve igualmente a trens lotados e vazios?
Parte II — O que a altura promete ().
- Qual é a velocidade no fundo do looping (), em e em ?
- Qual é a velocidade na lateral do looping ()?
- Calcule e no lançamento, no fundo, na lateral e no topo do looping; confira que cada par soma .
- Uma lombada de vem depois do looping: qual é a velocidade no alto dela?
- Dê a fórmula geral de ; onde o passeio é mais rápido e onde é mais lento?
Parte III — A auditoria do atrito. Dois sensores à mesma altura , separados por de trilho, leem e depois .
- Calcule a variação de energia mecânica entre os sensores. O que torna esperta a escolha de colocá-los na mesma altura?
- Deduza o trabalho do atrito e a força média de atrito.
- Para onde foi a energia que falta? Nomeie a forma e os lugares.
- Que fração da do trem se perde a cada ? Por que o puro seria inseguro no mundo real, cheio de atrito?
- Cerca de de trilho separam o lançamento do topo do looping: estime ali; a margem da questão 4 ainda salva o looping?
Parte IV — Fechar a conta. O último sensor, na entrada do trecho horizontal reto de frenagem (), lê .
- Calcule a energia cinética do trem ali.
- Os freios precisam pará-lo em : calcule a força de frenagem (constante) necessária.
- Conferência de conforto: calcule a desaceleração ; compare com .
- Quanta energia o atrito do trilho dissipou no passeio inteiro? Verifique que atrito freios , joule a joule.
- Desfecho, em uma frase: que único número fixou a segurança do looping, todas as velocidades, a conta do atrito e a força dos freios — e qual foi o preço de ignorar o atrito?
Solução
Solução de Problema 18.1.
1. .
2. .
3. dá ; algebricamente, .
4. ; — o dobro do mínimo.
5. Toda energia é proporcional a , de modo que se cancela: mesmas velocidades e mesma segurança, com o trem cheio ou vazio.
6. .
7. .
8. . : lançamento ; fundo ; lateral ; topo — cada par soma .
9. .
10. : mais rápido no ponto mais baixo do trilho e mais lento no topo do looping.
11. Mesma altura, logo e : a escolha da posição torna o déficit puramente cinético, lido em dois velocímetros.
12. ; .
13. Energia térmica, nas rodas, nos trilhos e no ar.
14. no primeiro sensor: ; perda a cada . Com , o topo do looping é alcançado exatamente com ; qualquer perda o joga abaixo da velocidade de segurança.
15. Perdendo a cada , cerca de de () se foram: , ainda acima dos necessários — seguro, com apenas de folga. A margem não era luxo.
16. .
17. .
18. : firme, mas confortável.
19. Atrito do trilho: . Auditoria: — cada joule prestado em contas.
20. A altura de lançamento fixou a segurança do looping, todas as velocidades , a conta do atrito e a força dos freios; o preço de ignorar o atrito é a margem — os de morro que o mundo real, cheio de atrito, consome sem alarde.