Biology · Livro 1 · Grades 1–9

Biologia do ensino fundamental

Biologia do ensino fundamental · Grades 1–9

37Explorar o nosso ambiente

Atravesse o pátio da escola ao meio-dia de julho e a face ensolarada do muro estará quente debaixo da sua mão, o ar acima do asfalto vai tremer, e a única coisa verde à vista será um matinho numa rachadura. Passe para trás do muro sombreado: ar fresco, terra úmida, musgo, tatuzinhos debaixo de uma pedra. Dois mundos, a três metros de distância. Este ano começa explorando ambientes do jeito que os cientistas fazem — medindo esses ambientes e perguntando por que cada ser vivo mora exatamente onde mora.

37.1 Do que um ambiente é feito

Definição 37.1 (Os componentes de um ambiente)

Um ambiente — um pátio, um bosque, a margem de uma lagoa — contém três tipos de componentes:

  1. os seres vivos: os animais, as plantas, os cogumelos e a vida microscópica presentes;
  2. a matéria mineral, que nunca esteve viva: rocha, pedra, a parte mineral do solo, a água, o ar;
  3. os vestígios e restos de seres vivos: folhas secas, madeira caída, fezes, penas, conchas — a caixa do “já foi vivo” da Definição 1.5, agora um kit de pistas para quem explora.

Exemplo 37.2 (Inventário atrás do muro sombreado)

Dez minutos de inventário no canto fresco: seres vivos — musgo, samambaias, tatuzinhos, um caracol, uma centopeia, hera; mineral — a pedra do muro, terra úmida, uma poça; vestígios — folhas secas, uma concha de caracol, fezes de ave na cumeeira. Três listas, e o canto está descrito como o sítio de um cientista.

O canto fresco, no meio do inventário: musgo, samambaias, um caracol na pedra — e, debaixo da laje levantada, o micro-hábitat dos tatuzinhos (recoloque a laje).
O canto fresco, no meio do inventário: musgo, samambaias, um caracol na pedra — e, debaixo da laje levantada, o micro-hábitat dos tatuzinhos (recoloque a laje).

Observação 37.3 (Os vestígios contam como dados)

Quase todos os animais se escondem ou fogem, então quem explora muitas vezes lê vestígios no lugar deles: uma avelã roída dá o nome do rato-do-mato, uma teia dá o nome da aranha dona dela, pegadas na lama dão o nome da garça. Um inventário que só lista o que ficou parado o bastante para ser visto perde metade dos moradores.

37.2 Medir as condições

Definição 37.4 (Condições ambientais)

As condições de um ambiente são as características físicas mensuráveis dele:

  • a temperatura, medida com um termômetro, em graus Celsius;
  • a umidade — o quanto o ar ou o solo estão úmidos;
  • a luz — do sol pleno à sombra profunda.

As condições mudam de ponto para ponto — muitas vezes de forma brusca em poucos metros — e ao longo do dia e do ano.

Exemplo 37.5 (O pátio, medido)

O levantamento do meio-dia de julho, com instrumentos: pé do muro ensolarado — 38C38{}^{\circ}\mathrm{C}, seco, sol pleno; canto sombreado — 22C22{}^{\circ}\mathrm{C}, terra úmida, sombra profunda. Três metros de distância, dezesseis graus de diferença. Os dois mundos do parágrafo de abertura agora são duas linhas de uma tabela — e isso é um avanço, porque tabelas podem ser comparadas.

Proposição 37.6 (As condições decidem os moradores)

Os seres vivos de um ponto combinam com as condições dele: cada espécie prospera só dentro da faixa própria de temperatura, umidade e luz. O musgo e os tatuzinhos precisam de umidade (o revestimento do tatuzinho, ao contrário do de um inseto, deixa a água escapar — ele resseca fatalmente numa hora de sol); o matinho da rachadura aguenta a seca e o brilho forte. Onde as condições diferem, os moradores diferem — a regra por trás de todo hábitat do Capítulo 11.

Demonstração. Admitido neste nível.

Exemplo 37.7 (O escolhedor de tatuzinhos)

A experiência clássica: uma caixa fechada, metade forrada com papel úmido e metade com papel seco, e uma dúzia de tatuzinhos soltos ao longo do meio. Em poucos minutos, quase todos estão do lado úmido. Repita com uma metade sombreada contra uma metade iluminada: eles se juntam na sombra. Ninguém os conduz — cada animal, andando e virando, acaba onde o corpo dele fica confortável. O mapa dos tatuzinhos é um mapa da umidade.

Método 37.8 (Levantar um sítio)

Para levantar um sítio pequeno como quem faz ciência de campo:

  1. escolha e marque uma área pequena — um metro quadrado bem vasculhado conta mais do que um hectare olhado de relance;
  2. meça as condições: temperatura, umidade, luz — mesmos instrumentos, mesmo jeito, em cada sítio (a regra de justiça do Método 22.1);
  3. faça o inventário dos três tipos de componentes — seres vivos, matéria mineral, vestígios — vasculhando direito: debaixo das pedras (recolocando as pedras: Método 13.6), nas frestas, embaixo das folhas;
  4. registre tudo ali mesmo — listas, esboços, contagens; a memória não é um instrumento de registro;
  5. compare os sítios: emparelhe cada diferença de moradores com uma diferença de condições.

Observação 37.9 (Por que os registros ganham das lembranças)

De volta a lugar coberto, dois levantadores que confiaram na memória vão discutir se os caracóis eram três ou cinco. O caderno resolve a questão — ou admite com honestidade que os caracóis não foram contados. Os registros escritos, feitos no sítio, são o que transforma um passeio em dados; todas as ciências deste livro funcionam com eles.

37.3 Um ambiente, muitos micromundos

Definição 37.10 (Micro-hábitat)

Dentro de um ambiente, cada pontinho com condições próprias e moradores próprios — a parte de baixo de uma pedra, uma rachadura no muro, o pé sombreado da cerca viva — é um micro-hábitat. Os andares da floresta da Observação 11.3 eram micro-hábitats; o metro quadrado de quem levanta um sítio em geral tem vários.

Exemplo 37.11 (A pedra, por cima e por baixo)

Uma pedra no canto fresco: em cima, líquen e uma mosca tomando sol — iluminado, seco, quente. Embaixo, tatuzinhos, uma centopeia, raízes claras — escuro, úmido, fresco. Dois micro-hábitats completos separados por cinco centímetros de rocha, cada um habitado exatamente pelos seres vivos cujas faixas combinam com as condições dele.

37.4 Exercícios

Exercício 37.1

Diga os três tipos de componentes de um ambiente, com dois exemplos de cada um tirados do inventário do canto sombreado.

Solução

Solução de Exercício 37.1.

Seres vivos (musgo, tatuzinhos); matéria mineral (a pedra do muro, a poça); vestígios e restos de seres vivos (folhas secas, a concha de caracol).

Exercício 37.2

Que condições quem faz ciência de campo mede num sítio, e com o quê (onde um instrumento foi citado)?

Solução

Solução de Exercício 37.2.

Temperatura, com um termômetro (em graus Celsius); umidade do ar e do solo; luz, do sol pleno à sombra profunda.

Exercício 37.3

Separe nos três tipos de componentes: uma samambaia, uma concha de caracol, uma poça, fezes de ave, uma centopeia, a pedra do muro.

Solução

Solução de Exercício 37.3.

Vivos: a samambaia, a centopeia. Mineral: a poça, a pedra do muro. Vestígios: a concha de caracol, as fezes de ave.

Exercício 37.4

A partir do Exemplo 37.5: quais são as diferenças de temperatura e de luz entre os dois pontos? Que moradores combinam com cada um?

Solução

Solução de Exercício 37.4.

Dezesseis graus (38C38{}^{\circ}\mathrm{C} contra 22C22{}^{\circ}\mathrm{C}) e sol pleno contra sombra profunda (seco contra úmido, também). O matinho da seca e do brilho forte combina com o pé do muro ensolarado; musgo, samambaias e tatuzinhos combinam com o canto fresco e úmido.

Exercício 37.5

Por que o tatuzinho morre numa hora de sol, e o que isso explica sobre onde os tatuzinhos são encontrados?

Solução

Solução de Exercício 37.5.

O revestimento dele deixa a água escapar, então, no sol seco, o corpo dele perde a água depressa demais e isso é fatal. É por isso que os tatuzinhos são encontrados em micro-hábitats úmidos e escuros — debaixo de pedras, debaixo de madeira caída.

Exercício 37.6

Diga três vestígios e o animal que cada um deles nomeia, como na Observação 37.3.

Solução

Solução de Exercício 37.6.

Por exemplo: uma avelã roída — o rato-do-mato; uma teia — a aranha dela; pegadas na lama — a garça (fezes, penas e conchas servem do mesmo jeito).

Exercício 37.7 ★★

Descreva a experiência do escolhedor de tatuzinhos: montagem, resultado e o que ela mostra — sem ninguém conduzir os animais.

Solução

Solução de Exercício 37.7.

Uma caixa fechada, metade com papel úmido e metade com papel seco, tatuzinhos soltos na linha do meio; minutos depois quase todos estão do lado úmido (e o mesmo vale para sombra contra luz). Isso mostra que cada animal se instala onde as condições combinam com o corpo dele — o mapa do grupo se desenha sozinho, sem ninguém conduzir.

Exercício 37.8 ★★

Por que as condições precisam ser medidas do mesmo jeito em cada sítio? De que método anterior esta é a versão de campo?

Solução

Solução de Exercício 37.8.

Porque só medidas feitas do mesmo jeito podem ser comparadas: uma diferença precisa vir dos sítios, e não da medição. É a versão de campo do teste justo — uma coisa varia (o sítio) e todo o resto é mantido igual.

Exercício 37.9 ★★

Dê os dois micro-hábitats da pedra do Exemplo 37.11, com as condições deles e um morador de cada.

Solução

Solução de Exercício 37.9.

Topo da pedra: iluminado, seco, quente — líquen (com a mosca tomando sol como visitante). Parte de baixo da pedra: escura, úmida, fresca — tatuzinhos (ou a centopeia). A cinco centímetros de distância, dois conjuntos combinados de moradores.

Exercício 37.10 ★★

Um levantamento registra “uns bichos, estava meio quente”. Reescreva as instruções de quem levantou usando o Método 37.8 — o que deveria ter sido feito em cada passo?

Solução

Solução de Exercício 37.10.

Passo 1: marcar um metro quadrado definido. Passo 2: medir — a leitura do termômetro anotada, a umidade do solo sentida e anotada, a classe de luz anotada. Passo 3: vasculhar direito, com as pedras levantadas e recolocadas, listando os três tipos de componentes. Passo 4: registrar ali mesmo — contagens, e não “uns”. Passo 5: com um sítio só, nenhuma comparação era sequer possível; levantar um segundo sítio do mesmo jeito.

Exercício 37.11 ★★

A hera sobe pelo muro sombreado, mas não pelo ensolarado. Proponha uma explicação no formato da Proposição 37.6 e uma observação ou medida que testaria essa explicação.

Solução

Solução de Exercício 37.11.

Explicação: a hera prospera na faixa de condições do muro sombreado (sombra, umidade) e não na do muro ensolarado (brilho forte, seca). Teste: medir o pé dos dois muros — temperatura, umidade, luz — e conferir com as preferências conhecidas da hera; ou procurar hera em outros muros e registrar que orientação esses muros têm em comum.

Exercício 37.12 ★★★

Na caixa dos tatuzinhos, um aluno faz uma objeção: “talvez eles tenham só se juntado perto da parede, e por acaso o lado úmido tivesse mais parede”. Planeje uma versão melhorada da experiência que responda à objeção. (Pense em teste justo.)

Solução

Solução de Exercício 37.12.

Elimine a diferença de parede: faça a escolha numa caixa redonda (parede igual em toda parte), com as metades úmida e seca trocadas entre uma rodada e outra — úmida a leste na rodada 1, úmida a oeste na rodada 2. Se os tatuzinhos seguirem a umidade para onde quer que ela seja posta, as paredes estão descartadas; entre as rodadas só a condição testada mudou, e todo o resto foi mantido igual.

37.5 Problema: As duas valas

Problema 37.1

Problema de fim de semana — o clube de naturalistas levanta duas valas de beira de estrada e encontra dois mundos diferentes

O clube de naturalistas levanta duas valas ao longo da mesma estradinha, a 5050 metros uma da outra. A vala N corre pelo lado sombreado de uma cerca viva alta; a vala S fica no aberto, exposta ao sol o dia inteiro. O clube trabalha conforme as regras: mesmos instrumentos, mesmo metro quadrado por sítio, mesmo tempo de busca.

Parte I — As medidas.

  1. Os termômetros marcam 19C19{}^{\circ}\mathrm{C} na vala N e 31C31{}^{\circ}\mathrm{C} na vala S na mesma hora. Que característica dos sítios explica melhor essa diferença?
  2. A terra da vala N gruda nos dedos; a da vala S se esfarela em pó. Traduza as duas observações para o vocabulário da Definição 37.4.
  3. O clube mede ao meio-dia. Dê um motivo pelo qual a comparação seria menos justa se a vala N fosse medida ao meio-dia e a vala S às 18 horas.
  4. Por que o clube usa a mesma moldura de um metro quadrado e o mesmo tempo de busca nos dois sítios?

Parte II — Os inventários.

  1. A lista da vala N: musgo, samambaias, tatuzinhos, caracóis, um sapo. A lista da vala S: capins secos, um matagal grande de folhas enceradas, formigas, um lagarto tomando sol, gafanhotos. Separe os membros de cada lista nos três tipos de componentes — e repare no que falta nas listas (confira a Definição 37.1).
  2. Para cada um dos tatuzinhos, do sapo e do lagarto, diga as condições de qual vala combinam com as necessidades dele, e por quê (use a Proposição 37.6 e o que você sabe de cada animal).
  3. Na vala S o clube encontra uma concha de caracol, mas nenhum caracol, e pergunta se há caracóis morando ali. Que duas possibilidades honestas um vestígio assim deixa em aberto?
  4. Debaixo de uma pedra chata na vala N: oito tatuzinhos, uma centopeia, raízes brancas. Diga as condições desse micro-hábitat e enuncie a regra que pôs aqueles moradores ali.

Parte III — A explicação.

  1. Emparelhe cada diferença de moradores com uma diferença de condições: complete “a N tem musgo e sapos porque …; a S tem lagartos e matagais de folhas enceradas porque …”.
  2. A cerca viva está marcada para ser arrancada. Preveja as condições da vala N dois verões depois — e os moradores dela, usando o emparelhamento da questão 9.
  3. Um membro propõe conferir a previsão direito: levantar as duas valas de novo depois que a cerca viva sumir. Por que os mesmos sítios, instrumentos e estação do ano precisam ser usados para o novo levantamento valer?
  4. O relatório do clube termina assim: “os moradores mapeiam as condições”. Explique a frase com o escolhedor de tatuzinhos (Exemplo 37.7) e diga por que não é preciso conduzir ninguém para um mapa desses se desenhar sozinho.
Solução

Solução de Problema 37.1.

1. A cerca viva alta: ela dá sombra à vala N (e a abriga), enquanto a vala S fica virada para o sol o dia inteiro.

2. Temperatura: 19C19{}^{\circ}\mathrm{C} contra 31C31{}^{\circ}\mathrm{C}. Umidade: a terra da vala N está úmida (gruda), a da vala S está seca (vira pó). A luz completa o trio: sombra contra sol pleno.

3. As condições mudam ao longo do dia: às 18 horas qualquer sítio está mais fresco e com menos luz, então a diferença medida misturaria sítio com hora. A mesma hora mantém a comparação justa.

4. Para que o esforço de busca seja igual: mais área ou mais tempo num dos sítios encontraria mais moradores ali — um teste injusto de qual das valas é mais rica.

5. As duas listas nomeiam só seres vivos. Faltam: os componentes minerais (solo, pedras, água) e os vestígios — que um inventário direito também precisa registrar.

6. Tatuzinhos: vala N — eles precisam de umidade e sombra, senão ressecam. O sapo: vala N — pele úmida, precisando de abrigo úmido. O lagarto: vala S — ele esquenta o corpo no sol e caça onde pode se aquecer.

7. Ou existem caracóis morando ali escondidos (talvez ativos só nas horas úmidas da noite), ou a concha é um resto vindo de outro lugar ou de outra estação — um vestígio prova presença em algum momento, e não moradia agora.

8. Escuro, úmido, fresco. A regra da Proposição 37.6: cada ponto é habitado pelas espécies cujas faixas combinam com as condições dele.

9. A N tem musgo e sapos porque a sombra a mantém fresca e úmida, coisa que o corpo deles exige; a S tem lagartos e matagais de folhas enceradas porque o sol pleno a deixa quente e seca, o que serve a um caçador que toma sol e a uma planta à prova de seca.

10. Sem a cerca viva, a vala N recebe sol pleno: mais quente, mais seca — condições caminhando para as da vala S de hoje. Espere que os amantes da umidade (musgo, samambaias, tatuzinhos, o sapo) diminuam e que os amantes do sol (capins secos, gafanhotos e talvez o lagarto) se mudem para lá.

11. Porque o novo levantamento precisa diferir do primeiro em uma coisa só — a ausência da cerca viva. Sítios, instrumentos ou estação novos acrescentariam diferenças próprias, e a mudança já não poderia ser atribuída à cerca viva: é a regra do teste justo na escala de uma paisagem.

12. Cada tatuzinho anda e vira até o corpo dele ficar confortável, então o grupo acaba reunido onde está a umidade — as posições dos animais registram as condições, com a mesma segurança que as leituras de um termômetro. Ninguém os conduz; o conforto de cada indivíduo é que desenha o mapa, e é justamente por isso que os moradores podem ser lidos como medidas.

Termos definidos neste capítulo

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