Biologia do ensino fundamental · Grades 1–9
39Como as plantas se espalham
Um corte novo de estrada é aberto na máquina em março: terra crua, nua, sem um pontinho verde. Volte em setembro e ele está todo costurado de plantinhas — papoulas, dentes-de-leão, brotos de salgueiro, capins. Ninguém plantou nada. E mesmo assim as plantas, que não conseguem dar um único passo, colonizaram o terreno nu em poucos meses. Este capítulo é sobre o departamento de viagens delas.
39.1 As plantas viajam como sementes e esporos
Proposição 39.1 (Plantas paradas, começos que viajam)
Uma planta adulta fica presa no lugar a vida inteira (Definição 3.1) — então a espécie se espalha mandando os começos dela: sementes e frutos (Capítulo 31), esporos (Definição 24.1) ou estolhos e outros avanços vegetativos (Definição 24.5). Ocupar terreno novo desse jeito se chama colonização.
Demonstração. Admitido neste nível. ∎
Definição 39.2 (Dispersão)
A dispersão é o transporte de sementes, frutos ou esporos para longe da planta-mãe. Os transportadores são poucos e antigos: o vento, os animais, a água — e alguns frutos que arremessam as próprias sementes.
Exemplo 39.3 (Por que sair de casa?)
Uma semente que cai no pé da planta-mãe germina na sombra da mãe, entre as raízes da mãe — disputando justamente a luz e a água da Proposição 22.3 com uma rival cem vezes maior que ela. A dispersão é a fuga dessa disputa perdida: a distância é o primeiro presente que uma planta dá aos filhos dela.
39.2 Os transportadores e os frutos feitos para eles
Proposição 39.4 (Construídos para combinar com o transportador)
Os formatos dos frutos e das sementes combinam com os transportadores deles — é o encaixe da Definição 28.1, aplicado à bagagem:
- vento: paraquedas (as sementes emplumadas do dente-de-leão), asas (as sâmaras do bordo e do freixo, que descem girando de lado) ou esporos finos como poeira que simplesmente flutuam (os milhões da samambaia);
- animais, por fora: carrapichos — bardana, amor-de-hortelão — cujos ganchos agarram pelo e meia e pegam carona até alguém tirá-los;
- animais, por dentro: frutos doces e carnudos — cerejas, amoras, frutos da roseira — comidos inteiros; as sementes de casca dura passam ilesas e são depositadas em outro lugar, com adubo junto (a resposta do Exercício 16.10, completada);
- água: frutos que boiam — as jangadinhas do amieiro, a casca oceânica do coco;
- arremesso próprio: vagens que secam, ficam tensas e estalam — o tojo e as violetas atiram sementes a metros da planta-mãe.
Demonstração. Admitido neste nível. ∎
Exemplo 39.5 (Lendo a beira da estrada)
O corte de estrada de setembro, decifrado: dentes-de-leão e salgueiros — sementes emplumadas, trazidas pelo vento; papoulas — as sementinhas delas já estavam na terra revolvida, esperando como só sementes sabem esperar (Exercício 9.9); plantinhas de amoreira silvestre debaixo dos mourões da cerca — depositadas por aves pousadas, com adubo incluso; bardana à beira do caminho — trazida grudada num cachorro. A rota de chegada de cada colonizador está escrita no equipamento dele.
Método 39.6 (Descobrir o transportador pelo fruto)
Diante de um fruto ou de uma semente:
- procure equipamento de voo — plumas, asas, finura de poeira: o vento;
- procure ganchos: pelo de animal, por fora;
- carnudo, colorido, doce? intestino de animal, por dentro — confira se as sementes têm casca dura;
- boia, e fica perto da água? a água;
- uma vagem seca, torcida, com mola? arremesso próprio;
- teste o seu veredito: deixe cair, ponha para boiar, encoste numa manga de lã.
39.3 Colonizar sem sementes
Exemplo 39.7 (O avanço rasteiro)
Ao lado das chegadas pelo ar, alguns colonizadores andam com os próprios pés vegetativos (Capítulo 24): a grama-seda avança debaixo da terra com caules rastejantes, metro a metro; as amoreiras silvestres se arqueiam e criam raiz onde as pontas encostam; os estolhos do morangueiro saltitam pelo terreno aberto. Devagar, de curto alcance — e impossíveis de parar num quintal abandonado, como sabe qualquer pessoa que cuide de horta.
Observação 39.8 (Colonização em duas velocidades)
Os dois sistemas dividem o trabalho. As sementes e os esporos são o serviço de longo alcance — pousos raros e de sorte lá longe, o dente-de-leão atravessando a cidade. O avanço vegetativo é o serviço de curto alcance — ocupação densa e garantida do terreno vizinho. A moita de amoreira silvestre que se espalha a partir da cerca viva usa os dois ao mesmo tempo: caules arqueados para o metro, sementes carregadas por aves para o quilômetro.
39.4 Exercícios
Exercício 39.1 ★
O que é colonização? O que é dispersão, e quais são os principais transportadores?
Exercício 39.2 ★
Por que uma semente se dá melhor germinando longe da planta-mãe?
Exercício 39.3 ★
Diga o transportador de cada um: a pluma do dente-de-leão, o carrapicho de bardana, a cereja, a sâmara do bordo, o coco.
Exercício 39.4 ★
Como as sementes de uma amora comida por uma ave sobrevivem à viagem, e com o que elas chegam?
Exercício 39.5 ★
Que serviço de viagem o tojo e as violetas usam? Descreva o mecanismo.
Solução
Solução de Exercício 39.5.
Arremesso próprio: as vagens delas secam, ficam tensas como molas e estalam, atirando as sementes a metros da planta-mãe.
Exercício 39.6 ★
Diga dois colonizadores vegetativos e como cada um avança.
Exercício 39.7 ★★
Decifre o corte de estrada: para o dente-de-leão, a papoula, a amoreira silvestre e a bardana, dê a rota de chegada que o capítulo nomeia.
Solução
Solução de Exercício 39.7.
Dente-de-leão: trazido pelo vento com as plumas dele. Papoula: as sementes dela já estavam na terra, acordadas quando o solo foi revolvido. Amoreira silvestre: depositada por aves pousadas, com as sementes dentro das fezes. Bardana: trazida presa por ganchos ao pelo de um cachorro.
Exercício 39.8 ★★
Rode o Método 39.6 em: (a) uma semente emplumada de cardo; (b) um fruto de roseira; (c) uma bolinha de amor-de-hortelão que gruda no seu casaco.
Exercício 39.9 ★★
Explique a ideia das “duas velocidades” da Observação 39.8 com a moita de amoreira silvestre: que sistema faz o metro e qual faz o quilômetro?
Exercício 39.10 ★★
A samambaia colonizou a margem úmida e sombreada do corte novo, mas não a margem seca e ensolarada. Combine a Proposição 24.3 e a Proposição 37.6 para montar a explicação.
Solução
Solução de Exercício 39.10.
Os esporos chegam às duas margens — eles flutuam por toda parte — mas a reprodução de uma planta de esporo precisa de umidade, então só as condições da margem sombreada aceitam a chegada. A dispersão entrega; as condições decidem quem pode ficar: os moradores combinam com as condições, por mais que cheguem outros.
Exercício 39.11 ★★
Uma ilha nova emerge nua do mar, a quilômetros da costa. Que serviços de dispersão conseguem chegar até ela? Preveja o equipamento das primeiras plantas colonizadoras dela.
Solução
Solução de Exercício 39.11.
Só os serviços de longo alcance: o vento (sementes emplumadas e finas como poeira, esporos), a água do mar (frutos que boiam, como o coco) e as aves (sementes de frutos carnudos carregadas no intestino). Preveja equipamento emplumado, fino como poeira, flutuante ou levado dentro de frutos entre os pioneiros — nada de sementes pesadas e sem transportador.
Exercício 39.12 ★★★
Construir polpa doce é caro para uma planta. Usando o Exemplo 39.3 e o serviço por dentro dos animais, explique o que a cerejeira compra com todo aquele açúcar — e por que as cascas duras das sementes são a outra metade da compra.
Solução
Solução de Exercício 39.12.
O açúcar compra transporte: uma ave paga em polpa carrega as sementes para longe da sombra da mãe e as deposita com adubo — a distância, o primeiro presente. As cascas duras são a outra metade porque o transportador é um tubo digestivo: o pagamento precisa ser digerível e os passageiros não podem ser. A doçura recruta o transportador; as cascas sobrevivem a ele.
39.5 Problema: O campo abandonado
Problema 39.1
Problema de fim de semana — dez anos de colonização, observados de um portão
Uma lavoura arada é abandonada no outono. Um naturalista fotografa essa lavoura do portão todo mês de junho durante dez anos e mantém anotações.
Parte I — O primeiro ano.
- Junho do primeiro ano: a terra nua está salpicada de papoulas, dentes-de-leão e cardos. Para cada um, diga a origem e a rota prováveis — as papoulas vindas da própria terra, os outros pelo ar. Que equipamento tornou possíveis as chegadas pelo ar?
- Nenhuma amoreira silvestre aparece no meio do campo no primeiro ano, mas três plantinhas estão de pé debaixo dos mourões velhos da cerca. Explique o padrão com o serviço por dentro dos animais — por que exatamente debaixo dos mourões?
- O naturalista não encontra samambaia nenhuma, embora um bosque cheio delas fique do lado de onde vem o vento. Os esporos das samambaias com certeza chegaram (o Exemplo 24.2 conta os milhões deles). Que condição do campo aberto, segundo a Proposição 24.3, recusou esses esporos?
- A grama-seda invade só a partir da borda do campo, um metro ou dois por ano. Que sistema de colonização é esse, e por que ele não pode aparecer no meio do campo como os dentes-de-leão apareceram?
Parte II — Os anos seguintes.
- No terceiro ano, capins e ervas altas fecharam o terreno nu, e as papoulas sumiram da vegetação em pé. Onde estão as papoulas agora, e em que forma? (Lembre o corte de estrada e a Proposição 38.6.)
- A partir do quarto ano, arcos de amoreira silvestre e pequenos espinheiros salpicam o campo, mais densos perto das cercas vivas e ao longo da linha da cerca. Diga os dois serviços que puseram essas plantas ali e a prova disso no padrão.
- No oitavo ano, mudas de salgueiro e de bétula estão mais altas que as amoreiras — as duas árvores com sementes minúsculas, emplumadas ou leves como poeira. Por que os carvalhos e os castanheiros, de sementes pesadas, ainda estão quase ausentes, e que transportador animal acaba plantando até esses?
- As fotografias mostram o elenco do campo mudando ano a ano, embora nenhum jardineiro tenha encostado nele. Enuncie a regra que comanda isso: o que a vegetação de cada ano muda nas próprias condições do campo — a luz ao nível do chão acima de tudo — e a quem essa mudança favorece em seguida?
Parte III — A lição geral.
- Ponha os colonizadores em ordem de chegada: as sementes que esperavam na terra, os que vêm com o vento, os arbustos trazidos por animais, as árvores de sementes pesadas. Emparelhe cada onda com o serviço de dispersão que definiu o tempo dela.
- As rachaduras do calçamento de uma praça brotam o mesmo elenco do primeiro ano — papoulas, dentes-de-leão — mas nunca chegam aos arbustos do quarto ano. Dê dois motivos pelos quais a sucessão empaca ali.
- O naturalista afirma: “deixado em paz, este campo vai virar mata”. Defenda a afirmação com a tendência dos dez anos — e diga a exceção do campo ceifado da Proposição 35.1, que prova que “deixado em paz” é a expressão decisiva.
- Resuma o problema inteiro em duas frases, usando as palavras dispersão, condições e colonização.
Solução
Solução de Problema 39.1.
1. Papoulas: acordadas de sementes que já estavam na terra arada — o estoque de espera da anual. Dentes-de-leão e cardos: trazidos pelo vento, pelas sementes emplumadas deles.
2. As aves que comem amoras em outro lugar pousam nos mourões da cerca e depositam as sementes embaixo deles, com adubo incluso — então as plantinhas mapeiam os poleiros, e não o vento.
3. A secura: um campo aberto e ensolarado não oferece nada da umidade de que as fases delicadas nascidas do esporo precisam. A chegada aconteceu; o estabelecimento é que foi recusado.
4. Avanço vegetativo — caules rastejantes debaixo da terra. Ele só se move do terreno para o terreno vizinho, a partir de plantas já estabelecidas, então precisa entrar pela borda; ele não tem fase aérea nenhuma para pousar no meio.
5. Na terra, como sementes: as anuais derrotadas na disputa da vegetação em pé continuam presentes como banco de sementes, esperando o próximo terreno nu.
6. O serviço por dentro dos animais (frutos comidos, sementes depositadas dos poleiros — mais densas ao longo da linha da cerca e das cercas vivas) e, para o espinheiro igualmente, o mesmo transportador ave; o padrão em forma de poleiro é a prova.
7. As bolotas de carvalho e as castanhas são pesadas e, sem ajuda, ficam sem transportador — elas caem no pé da planta-mãe. O transportador delas é o gaio (e o esquilo): ao enterrar bolotas como reserva de inverno e esquecer algumas, eles plantam carvalhos longe da árvore-mãe.
8. A vegetação de cada ano dá sombra ao chão embaixo dela, esfriando e escurecendo a superfície: o próprio sucesso dos pioneiros amantes do sol elimina as condições deles, e as condições mudadas favorecem em seguida quem aguenta a sombra — os colonizadores mudam o sítio, e o sítio mudado escolhe colonizadores novos.
9. Onda 1, as sementes que esperavam na terra (instantânea — elas já estavam ali). Onda 2, os que vêm com o vento (semanas: o ar entrega o tempo todo). Onda 3, os arbustos trazidos por animais (anos: poleiro a poleiro). Onda 4, as árvores de sementes pesadas (por último: elas esperam os esquecimentos enterrados dos gaios e dos esquilos).
10. As rachaduras não oferecem espaço: as raízes de um arbusto precisam de um volume de solo que uma junta de calçamento não tem; e as ondas mais tardias da sucessão precisam dos transportadores e das condições delas — as fezes das aves pousadas quase sempre erram as rachaduras, e a junta seca e torrada recusa o que chega. Os que vêm com o vento no primeiro ano são o único serviço que o sítio consegue aceitar.
11. A tendência vai de terra nua a ervas, arbustos e árvores pioneiras — cada onda mais alta e mais sombreadora: prolongada, ela termina em mata, como os salgueiros e as bétulas já mostram. A exceção: um campo ceifado ou pastado, em que a mão humana elimina a onda dos arbustos todo ano — prova de que só deixado em paz o campo caminha até virar floresta.
12. Por exemplo: “A dispersão entregou colonizadores ao campo nu — vindos da terra, do vento e das aves — e, em cada etapa, as condições do campo decidiram que chegadas podiam ficar. Assim a colonização aconteceu em ondas, cada onda mudando as condições e escolhendo a seguinte.”