Physics · Livro 1 · Grades 1–9

Física do ensino fundamental

Física do ensino fundamental · Grades 1–9

67A corrente alternada

Todo circuito que você já montou funcionava com pilha: corrente marchando firme do ++ para o -, obediente como o ponteiro de um relógio. Mas as tomadas das suas paredes entregam algo mais selvagem — uma corrente que inverte o sentido cem vezes por segundo, com a tensão dela oscilando sem parar entre mais e menos. Conheça a corrente alternada: a forma em que praticamente toda a eletricidade do mundo nasce, é transportada e é entregue.

67.1 Dois tipos de corrente

Definição 67.1 (Corrente contínua e corrente alternada)

Uma corrente contínua (CC) circula sempre no mesmo sentido, impelida por uma tensão constante — o presente da pilha, constante até a reserva se esgotar. Uma corrente alternada (CA) inverte o sentido periodicamente, impelida por uma tensão que oscila suavemente do positivo ao negativo e de volta, sem parar — o regime da tomada, e o do alternador (o próximo capítulo conta de quem).

Duas tensões contra o tempo: a linha plana e fiel da pilha — e a oscilação sem fim da tomada entre mais e menos, vinte milissegundos por ciclo completo.
Duas tensões contra o tempo: a linha plana e fiel da pilha — e a oscilação sem fim da tomada entre mais e menos, vinte milissegundos por ciclo completo.

Definição 67.2 (Período e frequência)

O período TT de uma tensão alternada é a duração de um ciclo completo — uma oscilação inteira para cima, para baixo e de volta, em segundos. A frequência ff dela é o número de ciclos por segundo, em hertz — a unidade do som, servindo de novo — e as duas são o inverso uma da outra:

f=1T,T=1f.f = \frac{1}{T}, \qquad T = \frac{1}{f}.

Proposição 67.3 (Os dados vitais da rede elétrica)

Na maior parte do mundo a rede alterna a f=50Hzf = 50\,\mathrm{Hz} — cinquenta ciclos completos por segundo, um período de T=1/50=0.02sT = 1/50 = 0.02\,\mathrm{s}: vinte milissegundos por oscilação (algumas regiões funcionam a sessenta). A corrente no fio do seu abajur de leitura inverte o sentido cem vezes por segundo — duas vezes por ciclo — e nunca marchou uma única vez firme de um terminal para o outro.

Exemplo 67.4 (Aritmética da frequência)

O par de inversos calcula nos dois sentidos. Um gerador ciclando a 60Hz60\,\mathrm{Hz}: T=1/600.017sT = 1/60 \approx 0.017\,\mathrm{s} — dezessete milissegundos. Um osciloscópio mostra um ciclo durando 0.04s0.04\,\mathrm{s}: f=1/0.04=25Hzf = 1/0.04 = 25\,\mathrm{Hz}. Um dínamo de bicicleta em pedalada lenta faz 10Hz10\,\mathrm{Hz}: período de um décimo de segundo — e a lâmpada dele pisca visivelmente, dez pulsos por segundo, até a velocidade alisar os pulsos além do que o olho nota.

67.2 Ler a oscilação

Método 67.5 (Ler um traço de osciloscópio)

O osciloscópio — ou qualquer aplicativo analisador — desenha a tensão contra o tempo numa tela quadriculada; quanto vale cada quadradinho em volts e em milissegundos é fixado por dois botões. Para colher um traço:

  1. conte os quadradinhos de um ciclo completo e multiplique pelo tempo por quadradinho: isso é TT; então f=1/Tf = 1/T;
  2. conte os quadradinhos da linha do meio até uma crista e multiplique pelos volts por quadradinho: é a tensão de pico UmaxU_{\text{max}};
  3. confira a forma: a rede e os alternadores desenham a onda suave e infinitamente repetida da figura — a senoide, o nome que a matemática dá à oscilação perfeita.

Proposição 67.6 (Tensão eficaz)

Qual é “a” tensão de uma oscilação que visita todos os valores de +Umax+U_{\text{max}} a Umax-U_{\text{max}} cem vezes por segundo? O único número honesto é a tensão eficaz UU: a tensão contínua constante que aqueceria um resistor igualmente bem. Para a senoide ela fica bem abaixo da crista — UmaxU_{\text{max}} é cerca de 1.41.4 vezes UU — e é ela que todo voltímetro de CA é construído para ler. Os famosos “230V230\,\mathrm{V}” da tomada são o valor eficaz; as cristas de fato chegam a uns 325V325\,\mathrm{V}, cinquenta vezes por segundo, para cada lado.

Exemplo 67.7 (Que aparelhos se importam)

O efeito térmico funciona bem dos dois jeitos — um filamento ou a resistência de uma chaleira esquenta independentemente do sentido da marcha, e é por isso que as lâmpadas e os aquecedores bebem CA sem reclamar. Mas a eletrônica — celulares, notebooks, tudo o que tem chip — precisa de CC constante: os carregadores em bloco e as fontes escondidas deles convertem a oscilação da tomada numa constância de pilha (sinta o calor do bloco: a conversão paga o imposto dela). E o mundo das pilhas também não consegue se carregar com uma oscilação: carregar é química ao contrário, e a química exige um sentido consistente.

Observação 67.8 (Por que o mundo escolheu a oscilação)

Se as pilhas são tão agradavelmente constantes, por que a civilização foi ligada em CA? Dois motivos, os dois esperando dois capítulos adiante: a corrente alternada é o que as máquinas girantes naturalmente fazem — e, de modo decisivo, só a CA alimenta o transformador, a humilde caixa zumbidora que deixa a eletricidade atravessar um país com uma tensão colossal e entrar na sua casa com uma tensão mansa. A rede é alternada porque a viagem exige isso; os dois próximos capítulos seguem a corrente da bobina girante até a parede da cozinha.

Observação 67.9 (A oscilação e o corpo)

A velha aritmética da segurança ganha um detalhe sombrio: as cinquenta oscilações por segundo da rede ficam perto do ritmo que mais facilmente perturba o compasso elétrico do próprio coração — os choques alternados são, ampère por ampère, mais perigosos que os constantes. Toda regra da infância continua valendo, dobrada: os 230V230\,\mathrm{V} eficazes da tomada — 325V325\,\mathrm{V} na crista — não são meramente uma pilha maior. São um animal diferente e menos tolerante.

67.3 Exercícios

Exercício 67.1

Distinga a CC da CA em uma frase para cada, com a fonte doméstica de cada uma.

Solução

Solução de Exercício 67.1.

A CC circula sempre num sentido sob uma tensão constante — o regime da pilha. A CA inverte periodicamente sob uma tensão que oscila — o regime da tomada.

Exercício 67.2

Defina período e frequência e escreva a relação de inverso entre eles. Calcule TT para 50Hz50\,\mathrm{Hz} e ff para T=0.01sT = 0.01\,\mathrm{s}.

Solução

Solução de Exercício 67.2.

TT: a duração de um ciclo completo; ff: os ciclos por segundo; f=1/Tf = 1/T e T=1/fT = 1/f. Para 50Hz50\,\mathrm{Hz}: T=0.02sT = 0.02\,\mathrm{s}. Para T=0.01sT = 0.01\,\mathrm{s}: f=100Hzf = 100\,\mathrm{Hz}.

Exercício 67.3

Quantas vezes por segundo a corrente da rede inverte o sentido a 50Hz50\,\mathrm{Hz}? (Cuidado: inversões por ciclo.)

Solução

Solução de Exercício 67.3.

Cem vezes: duas inversões em cada um dos cinquenta ciclos.

Exercício 67.4

Um osciloscópio mostra um ciclo ocupando 44 quadradinhos a 5ms5\,\mathrm{ms} por quadradinho. Ache TT e ff.

Solução

Solução de Exercício 67.4.

T=4×5=20ms=0.02sT = 4 \times 5 = 20\,\mathrm{ms} = 0.02\,\mathrm{s}; f=1/0.02=50Hzf = 1/0.02 = 50\,\mathrm{Hz}.

Exercício 67.5

A tomada diz 230V230\,\mathrm{V}; a crista chega a 325V325\,\mathrm{V}. Diga o nome dos dois valores e o significado do menor.

Solução

Solução de Exercício 67.5.

230V230\,\mathrm{V} é a tensão eficaz — o valor contínuo constante que aqueceria igualmente bem, e o que os voltímetros de CA leem; 325V325\,\mathrm{V} é o pico, a crista que a oscilação de fato toca, para cada lado, cinquenta vezes por segundo.

Exercício 67.6

Por que as chaleiras aceitam CA com alegria enquanto os carregadores de celular precisam convertê-la? Um efeito, uma química.

Solução

Solução de Exercício 67.6.

O aquecimento não liga a mínima para o sentido — a resistência esquenta em qualquer marcha, e por isso as chaleiras bebem a oscilação diretamente. Carregar é química ao contrário, e a química exige um sentido consistente: o bloco converte a oscilação em constância primeiro.

Exercício 67.7

Esboce (ou descreva) os dois traços: uma bateria de 9V9\,\mathrm{V} e uma tensão alternada de período 20ms20\,\mathrm{ms} e pico 9V9\,\mathrm{V}. Que único traço desenhado pelo instrumento os distingue num relance?

Solução

Solução de Exercício 67.7.

A bateria: uma linha plana em 9V9\,\mathrm{V}. A fonte alternada: uma onda suave oscilando entre +9+9 e 9V-9\,\mathrm{V}, um ciclo a cada 20ms20\,\mathrm{ms}. O teste do relance: plana contra ondulada.

Exercício 67.8

Dê os dois motivos pelos quais a civilização se ligou em CA, como o capítulo antecipou.

Solução

Solução de Exercício 67.8.

As máquinas girantes fazem CA naturalmente; e só a CA alimenta o transformador, sem o qual a eletricidade não conseguiria atravessar o país com tensão alta e entrar nas casas com uma tensão mansa.

Exercício 67.9 ★★

Um dínamo lento de bicicleta acende a lâmpada dele com uma piscada visível; pedalar mais forte estabiliza o brilho. Explique os dois regimes com a frequência — e estime a frequência abaixo da qual a piscada incomoda, sabendo que o cinema engana o olho com cerca de 2424 imagens por segundo.

Solução

Solução de Exercício 67.9.

Na pedalada lenta, os poucos ciclos por segundo do dínamo fazem a lâmpada pulsar visivelmente — cada crista um lampejo, cada zero uma queda; pedalar mais rápido multiplica os pulsos até o olho fundi-los. As 2424 imagens do cinema fixam a taxa aproximada de fusão do olho: abaixo de uns 25Hz25\,\mathrm{Hz} de pulsos de luz a piscada incomoda; acima disso, o brilho é lido como constante.

Exercício 67.10 ★★

Um voltímetro de CA atravessado numa tomada lê 230V230\,\mathrm{V}. Um osciloscópio (teórico) destemido atravessado na mesma tomada mostra cristas de que valor — e quantas cristas por segundo, contando os dois sinais?

Solução

Solução de Exercício 67.10.

Cristas de cerca de 325V325\,\mathrm{V} — e cem delas por segundo, cinquenta positivas e cinquenta negativas.

Exercício 67.11 ★★

A rede de uma região funciona a 60Hz60\,\mathrm{Hz} com 120V120\,\mathrm{V} eficazes. Calcule o período e a tensão de pico aproximada dela — e diga quais dos seus aparelhos de viagem reclamariam (consulte o Exemplo 67.7; os carregadores modernos trazem as letras miúdas nas etiquetas deles).

Solução

Solução de Exercício 67.11.

T=1/600.017sT = 1/60 \approx 0.017\,\mathrm{s}; pico 120×1.4170V\approx 120 \times 1.4 \approx 170\,\mathrm{V}. Aquecedores e lâmpadas se adaptam com indiferença; os carregadores modernos trazem “100–240 V, 50/60 Hz” nas etiquetas deles e convertem sem problema — os reclamantes são os aparelhos antigos de tensão única e qualquer relógio motorizado que conte os ciclos da rede: ele adiantaria com sessenta.

Exercício 67.12 ★★★

Filmagens antigas de telas e de lâmpadas fluorescentes às vezes mostram barras escuras rolando — os quadros da câmera apanhando o brilho da lâmpada no meio da oscilação. Uma lâmpada de rede a 50Hz50\,\mathrm{Hz} brilha mais a cada crista de qualquer sinal: quantos pulsos de brilho por segundo? Uma câmera a 2525 quadros por segundo amostra essa pulsação: raciocine por que o batimento entre os dois ritmos pinta barras que se movem devagar, e por que filmar numa região de 60Hz60\,\mathrm{Hz} muda o padrão.

Solução

Solução de Exercício 67.12.

Brilhar mais nas duas cristas dá 2×50=1002 \times 50 = 100 pulsos por segundo. Uma câmera de 2525 quadros amostra a cada 0.04s0.04\,\mathrm{s} — quatro pulsos por quadro, mas não alinhados de modo idêntico em todo ponto da exposição que rola: o pequeno descompasso entre o ritmo da câmera e o da lâmpada pinta faixas que rastejam pelos quadros sucessivos — um batimento entre dois relógios. A 60Hz60\,\mathrm{Hz} (120120 pulsos), o descompasso contra os 2525 quadros muda, e as barras mudam de largura e de velocidade — o padrão entrega a rede local.

67.4 Problema: A bancada do osciloscópio

Problema 67.1

Problema de fim de semana — noite de qualificação na bancada do osciloscópio; quatro fontes misteriosas, uma tela; o livro-caixa do técnico

Quatro fontes sem etiqueta precisam ser identificadas pelos traços delas. Os botões do osciloscópio: 5ms5\,\mathrm{ms} por quadradinho horizontal, 2V2\,\mathrm{V} por quadradinho vertical (exceto onde indicado). O livro-caixa fica com você.

Parte I — Os quatro traços.

  1. Fonte A: uma linha plana, 2.252.25 quadradinhos acima do meio. Identifique o tipo e a tensão dela — e a provável identidade doméstica dela.
  2. Fonte B: uma onda suave, um ciclo a cada 44 quadradinhos, cristas de 33 quadradinhos de altura. Tipo, período, frequência, tensão de pico?
  3. Fonte C: uma linha plana abaixo do meio por 2.252.25 quadradinhos. O que é isso, e que errinho explica o fenômeno?
  4. Fonte D: uma onda suave, um ciclo a cada 22 quadradinhos, cristas de 1.51.5 quadradinho. Estatísticas completas — e por que a lâmpada de D piscaria menos que a de B se cada uma alimentasse uma.

Parte II — As perguntas do técnico.

  1. Um voltímetro de CA atravessado na fonte B lê cerca de 4.2V4.2\,\mathrm{V}, embora as cristas dela batam em 6V6\,\mathrm{V}. Concilie os dois números.
  2. Qual das quatro fontes poderia carregar um celular diretamente, e o que precisa ficar entre as outras e a bateria dele?
  3. A placa de advertência da bancada: “A CA morde pior, volt por volt.” Reformule o motivo.
  4. Um aprendiz pergunta por que o osciloscópio desenha a onda de B tão suavemente arredondada em vez de em ziguezague. Diga o nome da forma e a origem dela (que tipo de máquina, no próximo capítulo, a desenha naturalmente?).

Parte III — O traço da própria rede. Um demonstrador com isolamento seguro mostra a rede, a 100V100\,\mathrm{V} e 5ms5\,\mathrm{ms} por quadradinho.

  1. Preveja o traço: quadradinhos por ciclo e altura das cristas em quadradinhos.
  2. A partir do traço, recupere ff e a tensão eficaz — e confira as duas contra a famosa etiqueta da tomada.
  3. O demonstrador é trocado por um banco de baterias de igual potência térmica eficaz. Descreva o traço novo em uma linha.
  4. Encerre o livro-caixa com o resumo de três linhas do técnico: o que a linha plana quer dizer, o que a onda quer dizer e qual número único permite comparar as duas com justiça.
Solução

Solução de Problema 67.1.

1. CC em 2.25×2=4.5V2.25 \times 2 = 4.5\,\mathrm{V}: a bateria chata de bolso. 2. CA; T=20msT = 20\,\mathrm{ms}, f=50Hzf = 50\,\mathrm{Hz}; pico 3×2=6V3 \times 2 = 6\,\mathrm{V}. 3. CC de 4.5V4.5\,\mathrm{V} ligada ao contrário — as pontas trocadas: inofensivo num osciloscópio, instrutivo no livro-caixa. 4. CA; T=10msT = 10\,\mathrm{ms}, f=100Hzf = 100\,\mathrm{Hz}; pico 3V3\,\mathrm{V}. Os pulsos dobrados de cem por segundo dela ficam além da taxa de fusão do olho com mais folga do que a piscada de cinquenta ciclos de B. 5. O voltímetro informa o valor eficaz — o equivalente contínuo para o aquecimento —, que, para uma senoide, fica em torno do pico dividido por 1.41.4: 6÷1.44.3V6 \div 1.4 \approx 4.3\,\mathrm{V}. Os dois números descrevem uma oscilação só. 6. Só a fonte A (ligada no sentido certo — e a C depois de plugada de novo). As fontes de CA precisam de um conversor — o bloco retificador do carregador — entre elas e qualquer bateria. 7. As cinquenta oscilações por segundo da rede ficam perto do próprio ritmo elétrico do coração e podem perturbá-lo: ampère por ampère, a oscilação ameaça mais do que a marcha constante. 8. A senoide — a oscilação perfeita, desenhada naturalmente por uma bobina girando com velocidade constante num campo magnético: o alternador do próximo capítulo. 9. Um ciclo a cada 44 quadradinhos (20ms20\,\mathrm{ms}); cristas de 325÷100=3.25325 \div 100 = 3.25 quadradinhos acima e abaixo. 10. f=1/0.02=50Hzf = 1/0.02 = 50\,\mathrm{Hz}; eficaz 325÷1.4230V\approx 325 \div 1.4 \approx 230\,\mathrm{V} — a etiqueta, recuperada da tela. 11. Uma linha plana em 230V230\,\mathrm{V} — a constância de igual potência térmica. 12. Por exemplo: “Uma linha plana é a constância de uma pilha — um sentido, um valor. Uma onda é a oscilação da rede — sentido e valor em ciclo incessante. E a taxa de câmbio justa entre as duas é a tensão eficaz: calor igual, valor igual.”

Termos definidos neste capítulo

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